Escrevendo a custo

by escrever como?

Perguntam-me se, no último post, propunha ao escrevinhador reescrever o livro logo a seguir a tê-lo concluído.

Creio que essa é a ‘mensagem’ ao longo de todo este blog, a de que não há limites à revisão, correcção, alteração, recriação. Ou, a haver, só termina depois de editado o livro (e mesmo assim!)

"Aonde vais buscar inspiração?"

“Aonde vais buscar a inspiração?”

As razões parecem-me evidentes, de qualquer forma estão apresentadas em diversos posts ao longo do blog.

(…) Penetra surdamente no reino das palavras./Lá estão os poemas que esperam ser escritos./Estão paralisados, mas não há desespero,/há calma e frescura na superfície intacta./Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário/Convive com teus poemas antes de escrevê-los./Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam./Espera que cada um se realize e consuma/com seu poder de palavra/e seu poder de silêncio. (…) (1)

Mas não entendo que o processo tenha que se dar ‘logo a seguir a tê-lo concluído’: tanto pode ser durante, como depois, e, sendo depois, até pode haver vantagem que haja algum tempo de intervalo (mas também sobre isso já foi aqui falado).

An illustration of a laptop up against a weighty book

Porém, se volto a este assunto é por saber que há uma resistência por parte de muito escrevinhador em repisar os seus escritos, para além da inevitável revisão dos erros, gralhas e gramática defeituosa.

(…) Vida toda linguagem,/há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome/aqui, ali, assegurando a perfeição/eterna do período, talvez verso/talvez interjectivo, verso, verso. (…) Vida toda linguagem,/vida sempre perfeita,/imperfeitos sòmente os vocábulos mortos (…) (2)

Essa resistência é humanamente compreensível, mas desastrosa. E tanto será maior quanto a motivação para a escrita depender menos do prazer e mais de uma necessidade qualquer.

E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão; e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício. (…) Mas não deixa a paixão de ser a força e o exercício o seu sentido. (3)

O ideal, se calhar, é a combinação entre o prazer de escrever (seduzir a bela musa) e a necessidade de exteriorizar certas neuras ou fantasias (a louca da casa).

 (…), de certa idade em diante, quando já o meu fel ia corroer os livros que andava publicando, nasceu esse meu famigerado diário. Sobre ele extravasou o meu fel: o meu ódio, o meu desgosto, o meu desespero. (…) 

“Mas por que publicá-lo”(me dirás tu)”se já cumprira a sua verdadeira função, sendo o escape secreto das tuas raivas?” Ai, amigo! como haver vingança onde não conheça o culpado o mal que o fere? e onde não reconheça a mão, não veja a face do vingador?

(…) O temor de ofender, surpreender, escandalizar, irritar, que tanto, nos meus outros livros, me constrangia, aqui desaparecera por completo. (…) E o resultado foi que nunca, literàriamente, me realizei como nesse livro…” (4)

A necessidade está muito presente na esmagadora maioria dos casos, o mesmo não acontece com o prazer de escrever, que resulta para muitos num exercício penoso. E por aqui já se percebe a resistência em retomar o processo, depois de o ter concluído.

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(1) in Procura da Poesia, de Carlos Drummond de Andrade, retirado da Antologia da Poesia Brasileira ed.Verbo

(2) in Vida toda linguagem de Mário Faustino, retirado da Antologia da Poesia Brasileira ed.Verbo

(3) in  Novas Cartas Portuguesas (Primeira Carta I) de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, ed.Moraes

(4) in Os Paradoxos do Bem retirado da antologia O Vestido Cor de Fogo e outras histórias, de José Régio ed.Verbo

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