Liberdade criativa e autocensura

by escrever como?

Onde haja censura legal ou de facto, o escrevinhador pode gozar a liberdade (correndo riscos) de escrever o que bem entende, como bem entende, guardando depois na gaveta ou fazendo circular clandestinamente os seus escritos. Muitos escrevinhadores escreveram e publicaram sob regimes de censura, conseguindo iludir os censores de alguma maneira.

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Mas, independentemente da época, do país e das circunstâncias políticas e sociais, o escrevinhador enfrenta a dificuldade imposta pela sua própria incapacidade em lidar com certos conteúdos, formulações, umas vezes evitando-os, outras encobrindo-os até de si próprio.

A nostalgia escorre dos livros/introduz-se debaixo da pele/e esta cidade sem pálpebras/este país que nunca sonha/logo se converte no único sítio/onde o ar é o meu ar/e a culpa a minha culpa. (1)

A autocensura não é, de modo algum, confundível com a autocrítica: a primeira manifesta-se pela compulsão, negação, recalcamento, abstenção, silêncio, enquanto a segunda é, ou deve ser, uma reflexão ponderada e livre sobre o texto escrito.

Poetas a vir! Oradores, cantores, músicos que estão a vir!/Não é o hoje que me justifica nem que responderá para que vim,/Mas vocês, uma nova linhagem, nativa, atlética, continental, tão grande quanto jamais vista,/Venham! pois vocês são quem deve me justificar./Eu por mim mesmo escrevo apenas uma ou duas palavras indicativas para o futuro,/eu avanço um momento apenas na engrenagem e volto rápido pela escuridão./Eu sou um homem que, perambulando por aí sem nunca parar totalmente, lança um olhar sobre vocês e, depois, desvia sua face,/Deixando isto para que o afirmem e definam-no,/Esperando as maiores coisas de vocês! (2)

Por vezes, quando os escrevinhadores exprimem suas dificuldades em rever, reescrever, reflectir criticamente os textos, suspeito que estejam sob a influência de um mecanismo inconsciente de autocensura. Que me parece ter algo a ver com as clássicas descrições dos fenómenos de recalcamento.

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Isso pelo modo como exprimem a resistência em proceder a qualquer tipo de auto-exame: sentem uma grande fadiga mental, desalento, falta de concentração, aversão, em alguns casos mal-estar, enjoo ou náusea, irritação, impulsos destrutivos (rasgar o texto ou apagá-lo), etc.

Dizem-me teus olhos, claros como o cristal:/”Por ti, bizarro amante, qual é então o meu mérito?”/—Sê charmosa e calá-te! Meu coração, a quem tudo irrita,/ Excepto a candura do antigo animal/Não quer mostrar-te o seu segredo infernal/(…)/Odeio a paixão e o espírito me faz mal! (3)

A ser assim, entendo-o pela função que a escrita possa ter para o escrevinhador: é o seu modo ‘terapêutico’ de lidar com assuntos mal resolvidos, emoções profundas e traumas de que talvez tenha, talvez não, consciência.

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Ora, como já aqui tem sido dito (e também ali, além, acolá e ainda aqui), a qualidade literária pode ter  mais a sofrer do que a ganhar quando a escrita, em vez de ser acto de expressão criativa, resulta num mecanismo qualquer de libertação de tensões. Sem com isso negar o seu valor terapêutico, bem entendido.

-Odeio quando me fazes passar por um idiota.

-Odeio quando me fazes passar por um idiota.

E a possibilidade de, apesar disso ou por causa disso mesmo, estar na origem duma obra-prima.

(1) in Noción de Patria, de Mario Benedetti

(2) Poetas a vir  (Poets to Come) de Walt Whitman, tradução de André Boniatti

(3) in Sonnet d’Automne, de Charles Beaudelaire

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