A propósito de métricas e rimas

by escrever como?

Tempos houve em que a expressão poética era avaliada tecnicamente pelo respeito às formas e convenções da época, do meio, da crítica. Na poesia, como em todas as formas de expressão artística, aliás.

Obviamente, a inovação rompia com as regras e acabava por ‘impor’ as suas, não por decisão superior, mas por mera adesão. Veja-se o ‘caso’do poeta Bonagiunta Orbicciani ao cruzar-se com Dante na passagem deste pelo Purgatório (Canto XXIV): não só o distingue como aquele que ‘soube pôr cá fora as novas rimas’, como reconhece ter o ‘doce estilo novo‘ de Dante se libertado do ‘ que o estilo precedente obrigava.

Não menos óbvio, a dominância de um estilo, a mediocridade da maioria dos seus seguidores, a tendência ao mandarinato de uns tantos deles, tudo contribui para converter a novidade em algum tipo de formalismo a ser ultrapassado, mais tarde, por outro ciclo criador.

“-Rápido: une o sujeito ao predicado.” “-Eu…! ” E como resultado da sintaxe experimental da Susana…

Porém, as convenções não são o problema, mas o seu uso ostensivo e sem graça, sem arte, como se aplicação das duas dúzias de regras seja garantia de qualidade. Toda a História da Literatura está cheia de polémicas a este respeito.

Por vezes, estilos datados são recuperados por poetas que lhes dão novo alento, tanto no conteúdo como na forma. Vejam-se os sonetos.

Mas o que caracteriza as Artes em geral, nos últimos duzentos anos, é a reivindicação da liberdade frente a toda a exigência formal (e temática, já agora).

-Acreditas no amor incondicional? -Depende.

-Acreditas no amor incondicional?
-Depende.

O que, na poesia, pode ser expresso pelos versos sem rima, sem métrica, por exemplo. E são melhores por essa razão? Claro que não, e nem se pode dizer que sejam melhores. A questão não é essa.

Vivemos, ao contrário de outras épocas, um período especialmente rico em ‘experimentalismos’, sem sujeição a convenções que abafem a subjectividade do escrevinhador. O que não quer dizer que seja mais fácil publicar (até é, mas por razões meramente técnicas), nem que se deva dispensar a crítica literária impiedosa (pelo contrário, está a fazer mais falta do que nunca!).

Pessoalmente, não valorizo muito a métrica (por total incapacidade de ser metódico e ordenado, na verdade), nem a rima, apesar de, se quiser perceber a razão pela qual certo poema soa tão bem, muitas vezes confirmo que é (ou também é) pelo uso discreto e eficaz de uma ou da outra.

"A prosa dele é tão musculada"

“A prosa dele é tão musculada.”

Quando o escrevinhador se sente confiante em usar ou dispensar algum tipo de regra, deve fazê-lo ciente de que o faz. E a razão por que o faz. No meu caso, parece-me ser pela sonoridade, ritmo, o que tem a ver com a acentuação (que pode implicar uma métrica) e, eventualmente, com a rima. Mas faço-o ‘de ouvido’, sem preocupações formais de corresponder a um modelo.

"Se não acreditares em ti, quem acreditará?"

“Se não acreditares em ti, quem acreditará?”

A verdade, verdadinha, é que sempre fui um péssimo aluno a matemática e sempre entendi a gramática como a matemática da língua. Como poderia eu dar-me bem com sistemas métricos ou outros? Ou seja, a ser problema é problema meu, daí não servir de exemplo.

 

 

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