Sobre o exercício do pulso e outros requesitos

by escrever como?

Se já escrever bem, literariamente falando, é ofício exigente, mais complicado fica se o escrevinhador não for um bom leitor.

A aprendizagem do ofício começa pelos livros a ler, de preferência cedo na vida. Graças à leitura, o escrevinhador poderá se tornar um razoável crítico da própria produção escrita, para além de toda a inspiração e confrontação que as obras alheias proporcionam.

"Estou experimentando uma nova técnica de ensino este semestre. Estou a usar livros."

“Estou experimentando uma nova técnica de ensino este semestre. Estou a usar livros!”

A mente crítica, de que falava alguns posts mais atrás, não se resume aos escritos, os próprios e os alheios, mas ao mundo que o escrevinhador vive, observa, relata. Também não se trata de emitir juízos, tomar partido, defender causas ou apontar o dedo ao que esteja mal, embora também  possa ser.

Com mais ou menos ingenuidade, o escrevinhador torna-se mais interessante quando desenvolve perspectivas, assumidas ou não, e fá-lo de modo a proporcionar a quem lê algum tipo de comparação, análise, empatia.

Moça com livro, pintura de Almeida Júnior, século XIX

Moça com livro, pintura de Almeida Júnior, século XIX

Para isso, o olhar do escrevinhador, ingénuo ou não, tem de ser perspicaz, qualidade que permite extrair algo mais do que aparentemente está ali. Talvez o consiga fazer quando o texto autoriza mais do que uma leitura ou quando o leitor, ao reler, pode retirar novos significados, novas relações.

Sentido crítico e perspicácia existem entre analfabetos, assim como existe muito ‘letrado’ a quem faltam ambas. O escrevinhador pode ser beneficiado, como prejudicado, pelo meio em que foi criado, daí a leitura actuar como uma libertação às condicionantes culturais e, geralmente, ameaçar a ordem estabelecida que não queira ser posta em causa.

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Mas para ter o ‘pulso exercitado’, ao escrevinhador não surgem alternativas a redigir uma e outra vez os textos, procurando melhorar a formulação, ajustar a ideia à letra, a gramática à sonoridade, o vocabulário à personagem, ao leitor e ao propósito, a sintaxe ao ritmo e ao enredo.

Nada do que atrás é dito sai naturalmente, excepto quando já há muitas leituras feitas e bastantes textos escritos—lidos e escritos com mente crítica, através dum olhar perspicaz. Este é o exercício do pulso de que falava.

E chega? Não, não chega. Além de tudo isto, e conforme neste e noutros posts insisto, o escrevinhador ainda tem de arranjar tempo para viver uma vida e seduzir a bela musa.

The M's at Ems

 

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