Algumas considerações intempestivas (e sempre oportunas)

by escrever como?

O escrevinhador sofre, frequentemente, a solidão do criador. Por vezes interroga-se se vale a pena.

"Não, 5ªfeira não pode ser. Que tal nunca...nunca está bem para si?"

“Não, 5ªfeira não pode ser. Que tal nunca…nunca está bem para si?”

 

A ‘pena’ é o duro ofício que ele próprio elegeu. Compreendo a frustração, mais ainda se não tem obra publicada, nem leitores (ou, pelo menos, leitores que manifestem opinião).

Como és, Leitora? (…) és arrumada ou desarrumada? (…) És depressiva ou eufórica? És mesmo hospitaleira ou o deixar entrar em casa os conhecidos é sinal de indiferença?(…) Que mais? (…) A leitura é solidão. *

Sobre isso não tenho nada a dizer, muito menos a varinha de condão para resolver essa queixa recorrente do escrevinhador de todos os tempos, à excepção de alguns felizardos (mesmos esses sujeitos a um reconhecimento muito tardio, intermitente ou precocemente interrompido).

Que importa o nome do autor na capa?Viajemos com o pensamento até daqui a três mil anos. Sabe-se lá que livros da nossa época se terão salvado e de que autores se recordará ainda o nome.

Apetece-me, quando os ouço, lembrar-lhes o quase anonimato por que passaram escrevinhadores com a grandeza de Pessoa, e que depois de mortos se tornam figuras cimeiras da Literatura Mundial.

hugo21112001

 

E, para prémio de consolação, citar dois ou três nomes absolutamente desconhecidos, que já foram famosos, best sellers, premiados pela crítica e pelo público, mas que nem são dignos, hoje em dia, de dar nome a uma obscura rua da cidade onde nasceram.

Nem fada-madrinha, nem muro das lamentações, este blog lida com a escrita como fonte de prazer e de amadurecimento pessoal, com pretensões literárias, recreativas, didácticas. Se esse prazer ajudar a pagar as contas lá em casa, tanto melhor.

Os teus olhos tombam no principio do livro—mas não é o livro que eu estava a ler…Título igual, capa igual, tudo igual…Mas é outro livro! Um dos dois é falso.

Até porque, cada vez mais, torna-se acessível a publicação em papel (pagando-a, claro) ou em formato e-book (rigorosamente gratuita). Também poderia dar uma mão cheia de exemplos de grandes livros que foram publicados pela primeira vez em edição de Autor.

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O que faz falta, a meu ver, é uma rede de críticos, leitores, editores, agentes literários, publicações, livrarias, feiras literárias, com capacidade para ‘processar’ e consumir tantos autores e obras, principalmente no universo da Língua Portuguesa. Mas isso são largos contos.

Um momento, olha para o número da página. Que maçada! Da página 32 voltaste à página 17! O que julgaste ser um rebuscamento estilístico do autor não é mais que um erro de tipografia: repetiram duas vezes as mesmas páginas.

Por isso, e já o disse algures noutro post, ao escrevinhador só deve interessar o lado criativo da escrita, o trabalho meticuloso para ajustar a ideia à forma, o sentido crítico para o aperfeiçoar ou, inclusive, refazê-lo, desistir dele. Ou seja: dedique-se a activar as áreas cerebrais correspondentes ao prazer, ao sentido estético, ao juízo. Ah, viver uma vida também!

Há quantos anos não consigo entregar-me a um livro escrito por outros, sem nenhuma relação com as coisas que devo escrever eu?

E a preocupação de escrever como quem vai ser lido por milhões de pessoas anónimas, muito comuns mesmo, mas excepcionalmente bafejadas pelo Destino para poderem ter o discutível privilégio de conhecer sua obra.

Illustration by Jean Jullien

* Esta e todas as outras citações em itálico são retiradas do livro E Se Numa Noite de Inverno Um Viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed. Colecção Mil Folhas-Público

 

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