Nem poesia, nem ficção.

by escrever como?

Escrever como quem dá a conhecer algo ou como quem trata ‘à sua maneira’ algo bem conhecido, sem pretensões literárias, sem ficção, mas também sem pretensões académicas, muito menos científicas, é uma tarefa a que muito escrevinhador se dedica por paixão, sentido de dever ou, simplesmente, para ocupar o tempo e fazer algo útil.

É um domínio que não tem limites, encontrando-se géneros que tanto raiam o delírio, como géneros que detalham técnicas e procedimentos práticos, e uma grande maioria que lida com os mais variados assuntos de modo amador, desajeitado e cheio de boa-vontade.

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Dos que mais aprecio são já de outro tempo, obras magrinhas ou enciclopédicas de padres de aldeia que se dedicavam a fazer o levantamento das curiosidades, costumes, lendas e história da região onde viviam.

Hoje em dia, havendo tantos estudos especializados sobre (quase) tudo, o trabalho do amador tem de ser mais exigente consigo mesmo se quiser evitar o embaraço de ser facilmente desmentido ou sofrer do ridículo puro e simples (isto na presunção do escrito ser cotejado por algum leitor crítico).

Dou um exemplo comum, inofensivo, mas revelador da solidez de certos ‘estudos’: a etimologia do nome duma terra dando como explicação a estória popular em que alguém (muitas vezes um rei), certa vez (muito, muito tempo atrás) e naquele lugar, diz qualquer coisa e do dito (mais ou menos literal) passa a ser conhecida a terra. Trata-se duma curiosidade, duma tradição, mas daí ao escrevinhador assumir que seja ‘a’ origem do nome da terra é duma grande ingenuidade, para não dizer mais.

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Frequentemente, um livro interessante é prejudicado por detalhes pouco relevantes para o assunto, é certo, mas que revelam precipitação, talvez pouca familiaridade com algo que o escrevinhador ‘traz’ para a obra (e mesmo assim traz, desastradamente). Podem ser curtas (des)informações geográficas, históricas, e não me refiro a simples trocas de datas ou nomes.

Fica mais complicado quando o escrevinhador se dedica a um tema sem verdadeiramente o abarcar, exibindo um à vontade constrangedor. Provavelmente, a sua relação com o tema é pessoal, real, afectiva, por isso mesmo fragmentária e parcial. No contexto duma obra de memórias, autobiográfica, será um testemunho válido, mas se tiver um propósito mais amplo, torna-se mistificador.

Se entrarmos na área dos escritos mais políticos, filosóficos, esotéricos, então os riscos aumentam assustadoramente por falta de fontes fidedignas, de bibliografia, de ‘conhecimentos mínimos’, de adequação da escrita para expressar ideias complexas, de simples bom senso e prudência.

"As suas gravações são intrigantes

“As suas gravações são intrigantes, mas ainda não são suficientes para provar que eles existem.”

E para não ser mal-interpretado, saliento que o que está ‘em jogo’ não é o tema, mas a sua formulação, o seu enquadramento e desenvolvimento.

Também se pode acrescentar que é possível, e desejável, que estes escritos tenham um nível de expressão literário. ‘Literatura’ não é só poesia e prosa de ficção, como se pode constatar na obra de Fernão Lopes, António Vieira ou Francisco Manuel Alves (o famoso Abade de Baçal) .

 

 

 

 

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