O temor da possessão

by escrever como?

O tópico deste post tem aplicação prática para qualquer género de escrita, já que incide sobre a reprodução fiel do ponto de vista alheio, principalmente quando diametralmente (senão visceralmente) oposto ao do escrevinhador.

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aqui referi um exercício que praticava com minha filha, quando tinha ela cinco, seis anos, para a ajudar a memorizar e recitar alguma cantilena ou poema como trabalho a apresentar na escola: uma vez interpretava-o conforme lhe parecia correcto, depois como se estivesse muito, mas muito feliz, a seguir como se tivesse muito, mas muito triste, e ainda a seguir como se tivesse muito, mas muito, zangada. Em alguma coisa melhorava a sua tarefa e interpretação.

Na narrativa de ficção, uma das dificuldades maiores está em criar personagens verosímeis e distintas umas das outras. Muito frequentemente, o escrevinhador tenta levar o leitor a desenvolver um sentimento ‘primário’ em relação às personagens, o que as empobrece e arrisca-se a torná-las desinteressantes, contaminando o enredo que até pode ser estimulante.

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Num trabalho mais ‘sério’, referindo-se a pessoas, factos, formas de pensar ou de crer, o escrevinhador corre o risco de tomar partido, de revelar preconceito, de escamotear factos, de distorcer pensamentos.

A menos que tenha mesmo a intenção de manipular a informação, o escrevinhador deve ter cautelas contra suas próprias limitações. Como diria Charles Scott, antigo editor do jornal ‘Manchester Guardian’ (‘The Guardian’ hoje em dia): os comentários são livres, mas os factos são sagrados; é bom ser sincero, mas ser justo é melhor. Os manuais de jornalismo estão cheios de ensinamentos neste capítulo.

"Por vezes, demasiado duma coisa boa pode tornar-se numa coisa má."

“Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode tornar-se numa coisa má.”

Obviamente, numa obra de ficção pode-se fazer passar o pirata sanguinário por um rebelde com causa e com boa moral, o herói da terra por um covarde ou traidor que as circunstâncias ou as intrigas conseguiram enganar toda a gente (quase) todo o tempo, e assim por diante.

Mas respeitar a ‘verdade’ da personagem sem distorcê-la, sem amesquinhá-la, sem ser complacente, nem juiz ou cúmplice, é algo totalmente diferente. Sobre isto também já foi aqui desenvolvido.

Se o escrevinhador aceita o desafio, tem mesmo de ‘incorporar-se’ na personagem, raciocinar como ela, exprimir suas ideias e ao seu modo. Evitando a caricatura, o traço grosso, enfim, não tem por que temer ser confundido com as personagens das suas ficções.

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Sendo odiosa, nem por isso a personagem tem de ser um ‘monstro’, nem tem de ser desumanizada. Aliás, nada é mais perturbante do que a revelação do ser humano por ‘detrás’ da criatura aberrante.

É o contexto do enredo que permite ao escrevinhador jogar com todas estas variações, reforçando a complexidade da realidade, desmistificando-a e obrigando o leitor a, também ele, ‘incorporar-se’ na personagem sem temor de ficar ‘possuído’.

Temor muito comum em todas as categorias de censores, que por isso mesmo exorcizam as passagens ambíguas, senão livros inteiros, para maior tranquilidade social e facilidade cognitiva para distinguir o bem do mal.

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ilustração de Paula Rego para As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi ed.Cavalo de Ferro

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