A trilha e o horizonte

by escrever como?

O enredo é um plano que o escrevinhador giza e depois irá desenvolver; é um mapa para orientação do escrevinhador, obrigando-o a rever se está no caminho certo ou se anda às voltas e precisa de perceber o que se passa; é uma estrutura à qual a narrativa adere e graças à qual torna-se articulada nas suas distintas partes, ganhando autonomia do próprio escrevinhador.

Pedi ao escrivão para chamar pelo meu irmão João, que, surpreendentemente (porque nunca havia tido irmãos), veio e me fez saber, pela benigna voz do médium, que não devia me preocupar com ele pois estava com Deus e que sempre rezava por mim. Tranquilizado com esta notícia, desinteressei-me pela sessão (…). (1)

6a00d8341bfb1653ef01a3fce56342970b-550wi

Você é um cidadão normal ou é dos que pensam?

Não é definitivo nunca: a morte da personagem X na conclusão da narrativa pode, afinal, ser mesmo evitada  ou deixada no limbo da ambiguidade…e porquê? Será que o escrevinhador se condoeu da pobrezinha? Ou descobriu-lhe um potencial até então desconhecido? Como todos os planos, o enredo sempre pode ser alterado e o leitor nunca o suspeitará, não pelo livro que tem entre mãos.

E-SE-JESUS-FOSSE-CRUCIFICADO-HOJE

Na realidade, o escrevinhador vê no enredo um horizonte para o qual caminha, mas sente-se livre de se desviar ou de seguir mais além ainda. Como mapa, é igual a todos os mapas: quando o escrevinhador pisa o terreno, penando pelo esforço ou entusiasmado com o que o enredo não revelara, tanto pode ser picado pelo bicho venenoso que extingue a inspiração, como ser beijado pela musa uma e outra vez.

Como aconteceu com todos os meus romances anteriores, de cada vez que pego neste, tenho de voltar à primeira linha, releio e emendo, emendo e releio, com uma exigência intratável que se modera na continuação. (2)

-Algém que eu julgava perdido nas minhas recordações veio me dizer que estava no mau caminho...

-…Alguém que eu julgava perdido nas minhas recordações veio me dizer que estava no mau caminho…   -Ah…ao menos esse alguém te entendeu bem…

Assim, torna-se também uma estrutura adaptável, modulada, e necessariamente frágil. Pode acontecer que o enredo, desde o início, aponte para um determinado fim (embora o leitor não o tenha de saber) e o próprio escrevinhador entenda que alterá-lo desvirtua o sentido da obra: é o que o Coro das antigas tragédias insiste em no-lo recordar. Mas a liberdade criativa permite-o, a estrutura é que deverá sofrer alterações e o resultado já não será o mesmo.

Não gosto do que acabo de escrever—mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E eu respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.(3)

Se o escrevinhador respeitar o enredo, provavelmente será assaltado por muitas dúvidas…mas esse é um bom sinal. É a prova de que as estórias no interior do enredo, assim como as personagens, têm autonomia própria e impõe sua lógica, sua dinâmica.

14120252

Resta saber se o escrevinhador tem pulso para lidar com essas estórias e personagens, sem se perder na complexa trama do enredo.

Esta história que me propus escrever é ainda mais difícil do que eu pensava.(…) A arte de escrever histórias está no saber tirar das pequenas coisas, que se apanham na vida, todo o resto; mas acabada a página retorna-se à vida e apercebemo-nos de que o que sabíamos era o mesmo que nada. (4)

scribe cartoon

(1) in La Tia Julia y el Escribidor, de Mario Vargas Llosa, ed. Seix Barral

(2) in Cadernos de Lanzarote, de José Saramago, ed.Caminho

(3) in Água Viva de Clarice Lispector, ed.Nova Fronteira

(4) in O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino, trad.Fernanda Ribeiro, ed.Teorema

Anúncios