A força centrípeta da narrativa

by escrever como?

Já por aqui tem sido dito (e exemplificado): o enredo pode ser linear ou muito pelo contrário.

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A sequência linear é a mais vulgar, a lógica e natural. Em si, nada tem de banal, de estereotipado, de previsível. Também nada tem de óbvio ou de necessário. Assim como não é intuitiva, directa, nem isenta de artificialismo.

Porém, é a sequência linear aquela que começa e acaba seguindo a seta do Tempo, respeitando a ordem dos acontecimentos e progredindo de acordo com a queda das folhas do calendário. Como a vida de todos nós, certo?

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Certo, mas nada de menos verdadeiro: o tempo dos acontecimentos nem sempre coincide com o da memória. E ambos divergem, frequentemente, com o dos afectos. E quando a escrita reacende paixões violentas, remexe nos traumas obscuros, ou destapa recalcamentos, o escrevinhador é tentado a romper com as convenções e a lógica da sequência linear.

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O enredo pode começar pelo fim (ou pelo meio), desenvolvendo só o suficiente para ‘agarrar’ o leitor e deixá-lo suspenso nas causas, nos motivos, nos intervenientes.

De modo geral, rapidamente o escrevinhador recua no tempo e segue a sequência linear dos acontecimentos até chegar ao momento da abertura. Que pode justificar nova leitura, à luz dos ‘factos’ agora conhecidos, como pode ser ultrapassada e desenvolvida, revelando-se um ‘falso’ final, tal como já fora uma ‘falsa’ partida.

-E de todo o sonho és a única coisa que me resta.

-…E de todo o sonho és a única coisa concreta que me resta.

Obviamente, o escrevinhador quer intrigar o leitor, fazê-lo precipitar-se em conclusões que, posteriormente, irá descartar.

O efeito é centrípeto: os factos e as personagens que rodam ao longo do enredo convergem para um ponto distante (no fim do livro) e o ritmo da narrativa poderá reforçar a vertigem dessa atracção compulsiva, como muito leitor sabe à custa de noites em que o tempo reservado ao sono é sacrificado para satisfazer a ânsia de saber mais.

magritte-the subjugated reader

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Quando o escrevinhador consegue perturbar os hábitos do leitor, causar-lhe olheiras e fadiga matinal, a aposta está ganha.

 

 

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