Final feliz…ou nem por isso

by escrever como?

Não é raro ouvir algum escrevinhador declarar  que não constrói enredos, nem precisa: a narrativa começa e progride ao ritmo da inspiração, tendo muitas vezes como exclusiva preocupação nunca perder a capacidade de ‘agarrar’ o leitor.

Nada disso invalida o que foi dito nos posts anteriores sobre a importância do enredo. Além do mais, um dos maiores problemas da construção de qualquer narrativa, da simples anedota ao maior épico, é o final frouxo (na anedota, a ausência do punch-line, do final hilariante).

Ludmilla fecha o livro, apaga o candeeiro do seu lado, abandona a cabeça na almofada e diz:—Apaga também a luz. Não estás farto de ler?

E tu:—É só mais um instante. Estou mesmo a acabar Se numa noite de Inverno um Viajante  de Italo Calvino. (1)

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Nada de mais desconsolador, todavia muito comum: uma estória bem esgalhada, redunda num final completamente ineficaz. Porque acontece isso quando é tão evidente?

Já anteriormente o disse: Uma boa ideia, desenvolvida satisfatoriamente, pode ser comprometida por finais abruptos, às vezes sem sequer ‘despachar’ todas as pendências alimentadas ao longo da estória. (aqui)

Com o mesmo resultado, o final tanto pode ser extenso e chato, como simplesmente confuso, desastrado, inverosímil (à luz da própria lógica interna da narrativa).

Ou simplesmente banal ( e viveram felizes para sempre…).

Ora, o que a construção esquemática do enredo permite, em qualquer fase da construção literária da narrativa, é colocar a sua dinâmica em perspectiva…e em perspectiva do quê? Obviamente, do seu final. Mesmo que seja um final aberto, inconclusivo ou ambíguo.

E fá-lo como? Simplesmente por estar ali definido o ‘momento do fecho’, espaço e tempo em que o escrevinhador terá de dar um propósito a tudo o que atrás fora dito.

E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me…A terra lhes seja leve! Vamos à ‘História dos Subúrbios’. [‘História dos Subúrbios’ é o título do livro que a personagem-narrador-autor ia escrever mas adiou para escrever o actual livro primeiro, conforme ele próprio indica no início] (2)

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Belmiro Barbosa de Almeida-‘namoro do guarda’

Não se trata duma ‘mensagem’ (também pode ser), nem duma intenção oculta finalmente revelada (o que também pode ser), ou de um passe mágico que baralha tudo e muda todo o sentido anterior da estória, dando um tapa na cabeça do leitor (ou um murro no estômago…)(mas também pode ser isso, claro).

O propósito, aqui, significa dizer ‘eis ao que chegamos!’ e isso, de algum modo, estando à altura das expectativas criadas ao longo da leitura.

Deambulei à sua volta [das sepulturas], sob aquele céu benigno; observei as mariposas bordejando entre a urze e as campainhas; fiquei atento ao vento suave roçando pelas ervas; e pensei como poderia alguém imaginar sonos inquietos para os dormentes naquela terra tranquila. (3)

Éxtasis de la beata Ludovica Albertoni (entre 1671-1674)

Éxtasis de la beata Ludovica Albertoni (1671-1674) de Bernini 

Pode ser uma expectativa gorada, mas legitimamente gorada: o leitor alimenta suas fantasias e interpreta os factos e personagens narrados como pode, o escrevinhador tem toda a liberdade de o enredar numa teia complexa e dar um final impossível de prever, mas perfeitamente dentro da ‘lógica’ do enredo.

E pode o escrevinhador fazer tudo isto sem ter o enredo esquematizado na cabeça (ou nas estrelas)? Claro que pode, mas assim também fica mais fácil alguma coisa (ou muitas coisas) ficar pelo caminho…

(…) e que todo o escrito neles [os pergaminhos] era irrepetível desde sempre e para sempre porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra. (4)

Bran Ruz de auclair/deschamps

Bran Ruz de auclair/deschamps

 

nota: todas as citações são as últimas linhas dos respectivos livros

(1) in E se numa noite de Inverno um viajante, de Italo Calvino, ed.Público trad.José Colaço Barreiros

(2) in Dom Casmurro, de Machado Assis, ed.Europa-América

(3) in Wuthering Heights, de Emily Brontë, ed.Penguin Books

(4) in Cien Años de Soledad, de Gabriel García Marquez, ed.Espasa Calpe

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