Temas duma época: o Verão

by escrever como?

Há uma agitação editorial que se associa ao Verão, ao tempo de férias e de praia, expressa por publicações ‘light’, supostamente divertidas e da autoria de ‘famosos’, pela edição de best-sellers de autores já conhecidos, e coisas assim para ajudar a passar o tempo sem o ocupar: a antítese da paixão de ler, realmente.

Enviar SMS's enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Enviar SMS’s enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Ao Verão associam-se temas como as viagens de lazer e descoberta, os regressos e reencontros que trazem memórias de outros Verões, artes de sedução, episódios festivos. Muito para além do registo lamecha ou do pseudo-transgressor, existem bons exemplos de estórias centradas nos encontros e desencontros da época.

Paralelamente, há escrevinhadores que desenvolvem temas mais introvertidos e controversos: a solidão voluntária ou sofrida, a pausa para reflexão, a fuga à rotina ou a imersão na rotina própria da temporada, o tédio existencial e a miragem duma vida-outra.

'Nighthawks', Edward Hopper

‘Nighthawks’, Edward Hopper

Porém, é bom recordar que o Verão não se resume a um período de lazer. No passado longínquo, como no recente, as guerras europeias têm tendência a começar nesta época: primeira e segunda grande guerra, guerras civis de Espanha e da Jugoslávia, para ficar só pelos sec.XX e XXI. E no tempo em que as actividades rurais ocupavam a maior parte da população, os latifúndios exigiam o trabalho sazonal de migrantes em grande número, sendo o tempo de Verão especialmente penoso, ainda que pudesse ser visto numa tonalidade dourada e nostálgica.

Ou seja, trata-se duma época dotada para a escrita que privilegie a ambiguidade, o contraste entre as expectativas e o vivido, onde as personagens podem ser abordadas numa perspectiva caricata e, simultâneamente, humana como é próprio dum certo tipo de ironia.

-Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.

“Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.”

O que traz, no fundo, uma boa dose de complexidade ao enredo, mesmo que se limite ao registo de uns pouco dias de Verão na vida de alguém.

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