‘o canto que corta a garganta’

by escrever como?

Assente, desde as origens, na musicalidade (sonoridade, ritmo, pausa…mas que entendo eu de música?!), a poesia evoluiu na procura da palavra a ponto de valorizar o silêncio e a materialidade.

A luz mais que pura/Sobre a terra seca

2 Um homem sobe o monte desenhando/A tarde transparente das aranhas

3 A luz mais que pura/Quebra a sua lança

(Algarve de Sophia)

 

Man of the Sea  de magritte

Man of the Sea de magritte

Em consequência, rompeu com métricas, regras  e rimas. Em versos sentidos.

Inmóvil

abandonado a tu pesadez de hombre inmóvil
me miras con antiquísimos resentimientos.

Óyeme bien
soy inocente de tu pasado
no soy tu puta madre
ni tu enferma madre
ni tu loca madre
aunque sea puta loca.
No merezco recibir agresiones ajenas
retrasadas y caducas.
No proyectes sobre mí los espectros de tu niñez
tengo forma, color y dimensiones propias.

Tampoco vengas a mí
llorando como un niño
cuando no lo eres.
este regazo que te acoge también te desea.

No sobreactúes
a mí también me expulsaron del paraíso
antes de tiempo
y sin notificación previa
¿a quién no?

(…)

(in Espejo Negro de Miriam Reyes)

 

'Portrait of Ms Ruby May, Standing' por Leena McCall

‘Portrait of Ms Ruby May, Standing’ por Leena McCall

Explodiu com o sentido, inclusive.

Qué es la magia, preguntas
en una habitación a oscuras.
Qué es la nada, preguntas,
saliendo de la habitación.
Y qué es un hombre saliendo de la nada
y volviendo solo a la habitación.

(Ars Magna de Leopoldo Maria Panero)

 

leopold-bloom-1983

‘leopold bloom’ de Richard Hamilton

Como resultado, reencontrou a imaterialidade da percepção aliada a um corpo físico, pois a palavra ganhou corpo e autonomia.

 

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo: uma vogal,

uma consoante, quase nada.

Mas faz-me falta. Só eu sei

a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

do frio de janeiro, da estiagem

do verão. Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

(A Sílaba de Eugénio de Andrade)

 

'The Poor Poet' de Carl Spitz

‘The Poor Poet’ de Carl Spitz

Dita ou lida, uma poesia assim torna-se possessão.

 

Acolhei-me se sois também de sonho/que venho de estranheza e sonhos vários/—um mundo cismas encimando os ombros/e sob os pés países insonhados.

 

Que dá ritmo a meu vir, move meus passos/pelas ruas destino vivo-e-morro?/Que me desvive e perde entre fachadas,/casas indiferentes feito rostos

de isentos rasgos e de ausentes almas?/Que me impele, de passo, à casa, à sombra/tão-só afim às outras no ar fechado?

 

Ouço-a (ou me ouço?) respirar. Que há sons/de um coração arquejo e descompasso/transpirando metais, cordas e sopros. 

(Andante de Stella Leonardos)

compartment car de edward hopper

compartment car de edward hopper

 

E permite novas leituras dos velhos textos poéticos.

 

(…) Musa ensina-me o canto

Que me corta a garganta

(in Musa de Sophia)

pintura de Paula Rego

pintura de Paula Rego

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