Escrever para teatro

by escrever como?

E sobre teatro, têm-me perguntado algumas vezes, não há nada a dizer? Haver há, nem que seja para reconhecer dificuldades e limitações.

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Noutros tempos, não assim tão distantes  há milhões de anos, ali por 1900*, qualquer escrevinhador com pretensões fazia a sua peça de teatro para acrescentar mais um género à sua lista de obras publicadas ou por publicar.

Gradualmente, o cinema foi ocupando a maioria das salas de teatro e os actores migraram para a grande tela ou para o pequeno ecrã. Deste modo, a veia dramática dos escrevinhadores passou a dedicar-se à construção de scripts, roteiros, argumentos ou guiões para filmes e séries.

O teatro oferece-nos do que há de melhor na Literatura, mas existe uma grande diferença entre ler  e ver uma peça de teatro. Do mesmo modo, escrever uma peça de teatro não é uma experiência comparável à da escrita dos textos de prosa e de poesia, tal como aqui venho tratando.14205219

Professor: E contudo é muito simples: para a palavra Itália, em francês temos a palavra França que é a tradução exacta. Minha pátria é a França. E França em oriental: Oriente! Minha pátria é o Oriente. E Oriente em português: Portugal! A expressão oriental: a minha pátria é o Oriente traduz-se deste modo em português: a minha pátria é Portugal! E deste modo…

Aluna: Está bem! Está bem! Estou mal…

Professor: Dos dentes! Dentes! Dentes!…Eu vou lhos arrancar, eu! Ainda um outro exemplo. A palavra capital, a capital tem, segundo a língua que falamos, um sentido diferente. (in La leçon de Eugène Ionesco, ed.Gallimard)

Escrever para teatro pressupõe que o texto destina-se, prioritariamente, a ser ouvido. Todos os efeitos literários, neste caso, devem privilegiar o entendimento e o fascínio dum ‘espectador’. Nesse aspecto, as semelhanças com a poesia são grandes.

E, tal como a poesia, o texto dramático é interpretado por alguém que o dirá a alta voz. O texto pode até ter uma estrutura poética (com rimas e métricas).

Mas, na minha opinião, as semelhanças terminam aqui.

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desenho de Pawel Kuczynski

O teatro tem enredo, personagens, intriga, intensidade variável, toda a panóplia de efeitos que uma estória em forma de romance pode ter. Mas não existe o narrador impessoal, nem há tempo para desenvolver contextos detalhados, pois a peça tem uma duração temporal real a que se deve subordinar, e que é a convencionada para o tempo do espectáculo.

Além disso, mesmo que surja a personagem ‘narrador’, até esta se exprime em diálogo (para com o público, por exemplo) ou na clássica forma do coro grego, e, em qualquer dos casos, dando uma urgência (ou imediatismo) ao que é narrado, pois destina-se a dar lugar à acção que se desenrolará imediatamente a seguir ou a imprimir dramatismo ao que acaba de acontecer.

Coro: Há coisas prodigiosas, mas nenhuma como o homem!(…) Se respeita os usos e costumes locais e a justiça confirmados por divinos juramentos, consegue chegar ao cimo da cidadania; mas o que, ousadamente se deleita no erro, perde os direitos de cidadania;(…). (in Antígona de Sófocles, trad.António M.Couto Viana, ed.Verbo)

Ora, escrever para ser encenado, representado e declamado em palco (isto é, ao vivo), por actores e perante um público espectador, é algo que nós, a esmagadora maioria dos escrevinhadores deveríamos reflectir muito humildemente antes de nos propormos a fazê-lo.

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Hamlet(dirigindo-se aos comediantes): Peço-te que digas esta fala como te ensinei, com desembaraço e naturalidade, porque se a declamas empoladamente, (…), mais valia dar os meus versos ao pregoeiro para que os gritasse. (…) Conjuga acção com a palavra e a palavra com a acção (…). E não deixes os que desempenham os papéis de bobos dizerem senão o que lhes foi indicado, porque alguns deles começam a dar gargalhadas para fazerem rir uns quantos espectadores imbecis, precisamente na altura em que qualquer coisa importante na peça exige atenção. (in Hamlet cena II do Terceiro Acto de William Shakespeare trad.Ricardo Alberty ed.Verbo)

1. Mil macacos em mil máquinas de escrever... 2.poderão escrever 'Hamlet'. 3.Mil gatos em mil máquinas de escrever... 4.irão dizer-te para escreveres o teu maldito 'Hamlet'.

1. Mil macacos em mil máquinas de escrever…
2.poderão escrever ‘Hamlet’.
3.Mil gatos em mil máquinas de escrever…
4.irão dizer-te para escreveres o teu maldito ‘Hamlet’.

A arte dramática não se confunde com a literatura, e não poucas vezes tenho visto peças que são um verdadeiro fiasco por terem ‘literatura’ a mais e serem maçudas, muito, muito chatas. Inversamente, já vi uma peça baseada na Divina Comédia de Dante, em italiano (de que pouco ou nada pude entender), e fiquei fascinado.

Aborde o enredo logo no começo, /Até que vá morigerando o passo;/ Mas não permita nunca o desenlace/ Antes que chegue a derradeira cena;/ Porque em sabendo o vulgo como acaba,/ Vira-se para a porta e volta as costas/ Ao que esperou três horas, cara a cara,/ Porque já sabe no que a coisa pára./(…)/

(…) tenho escritas,/Com uma que acabei esta semana,/Quatrocentas e oitenta e três comédias/(…)/Porém, sustento o que escrevi, e sei/Que se fossem melhores doutra maneira/Não teriam o agrado que tiveram,/Que às vezes o que ao justo vira o rosto/Pela mesma razão deleita o gosto.

(in Arte Nova de Fazer Comédias Neste Tempo de Lope de Vega trad.A.Lopes Ribeiro, ed.Verbo)

"Que tal um pouco de música para adiantar o enredo?

“Que tal um pouco de música para adiantar o enredo?

Ou seja, em teatro o texto pode fazer a diferença, mas há muito mais para lá dele. Daí não ser minha pretensão dar dicas sobre algo que me escapa quase completamente.

*in Waiting for Godot de Samuel Beckett

 

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