meditação sobre a criação e o desalento

by escrever como?

Um dos temas mais interessantes nas artes é o da influência (não confundir com plágio), e já me têm pedido para falar sobre isso. Porém, são temas que escapam aos estreitos limites deste blog sobre criação literária no sentido mais imediato.

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Alguma coisa já disse a esse respeito para ilustrar a ‘falta de originalidade’ dos grandes autores que retomam velhos temas brilhantemente desenvolvidos em épocas ou lugares diferentes. Mas a influência acontece do modo mais imprevisto: uma rápida leitura on-line num jornal, num blog ou no facebook, podem provocar uma reacção em cadeia.

Daí que, quando me falam em dificuldades para encontrar, estruturar ou desenvolver um tema que dê origem a qualquer coisa de vagamente literário, só posso recomendar obsessivamente que ler é fundamental. Com a vantagem acessória da leitura poder ser enriquecida pela própria experiência de vida, pela observação atenta ou sensível, pela personalidade singular de cada um. E nem fica especialmente dispendioso.

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O que faz a diferença é o modo como o escrevinhador aborda aquilo que leu, viveu, observou (ouviu) ou sentiu, e não tanto a experiência em si. E é esse modo (que pode variar de escrevinhador para escrevinhador, como Caeiro, Campos, Reis, Soares e Pessoa tão bem exprimiram) que torna a coisa literária fascinante.

E também algo árdua e cruel, como qualquer um de nós pode avaliar numa rápida consulta da literatura de hipermercado ou assistindo a penosas tertúlias de leitura de poesia.

Não se trata só do estilo, algo que com o tempo e a produção escrita pode evoluir, amadurecer e cristalizar. Fundamenta-se nas tais leituras, vidas, observações e sentimentos (ou sensações) do escrevinhador, mas vai para lá disso tudo e pode resultar, se não em algo distinto, pelo menos num cocktail original e sugestivo.

Nas primeiras décadas do sec.XXI, a facilidade para publicar imediatamente é inversamente proporcional à capacidade de atingir um público interessante, dada a pulverização dos canais de comunicação. Por isso muitos desanimam em prosseguir. Alguns tentam escrevinhar do modo que julgam ser mais atraente para determinado público, variando entre o piadético e o sarcástico, passando pelo piegas e pelo popularucho.

1. Graças aos avanços das tecnologias de comunicação... 2.Podemos estar em qualquer lugar da Terra... 3.E continuar a ouvir conversas imbecis.

1. Graças aos avanços das tecnologias de comunicação…
2. podemos estar em qualquer lugar da Terra…
3. e continuar a ouvir conversas imbecis.

Ciente da infinidade de escrevinhadores do passado, hoje célebres mas completamente ignorados em vida, que posso dizer a esse respeito? Que há uma infinidade maior de escrevinhadores do passado, célebres em vida e hoje completamente ignorados? Que a escrita deva ser uma paixão, um prazer, que se justifica por isso mesmo? Que o desanimo ou o facilitismo podem ser sinais vitais do suposto escrevinhador para se dedicar a assuntos mais criativos e reconhecidos socialmente, como a contabilidade ou a interpretação das leis?

Regressando à questão da influência e da criatividade, vem-me à memória algo que Herberto Hélder escreveu a propósito de traduzir poemas duma língua que desconhece, com a vantagem de, ao fazê-lo, não só escreve um poema em português, como escreve um poema que é seu!

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