escrever para crianças

by escrever como?

Sou de um tempo em que se distinguiam os livros por sexo e por idade dos potenciais leitores: para rapazes ou para raparigas, para crianças ou para jovens, para mulherzinhas, para adultos (ou para mulheres, e, nesse caso, dizia-se ‘literatura feminina’).

Não se tratava somente do incipiente marketing da época, mas da própria mentalidade duma literatura ‘adaptada’ às necessidades afectivas, às exigências culturais e à formação dos leitores.

Quem tiver tempo e curiosidade, pode se entreter a procurar catálogos de colecções de livros dos últimos 200 anos e, provavelmente, descobrirá algo de novo sobre a natureza humana e o modo como se tenta enquadrá-la numa qualquer formatação cultural prêt-a-porter. Nada que não se continue a fazer hoje em dia, ainda que com diferentes categorias e estratégias.

Daquelas categorias antigas, a mais persistente é a dita ‘literatura infantil’. Ainda que a sua definição seja sempre difícil, plena de equívocos e polémicas.

Menina Sentada, pintura de Sarah Afonso

Menina Sentada, pintura de Sarah Afonso

Já aqui referi os ‘contos de fadas’,  esse género literário surgido das brumas da literatura erudita antiga, do caldeirão inesgotável da literatura oral de todos os tempos, e sei lá donde mais, reciclado pelas bonnes femmes de todos os tempos e países.

Qualquer um dos dois livros das aventuras da Alice no País das Maravilhas causa desconforto se lido para um público, infantil ou não, hoje como na época da sua publicação…por serem obscenos, cruentos ou fantasmagóricos como eram os antigos ‘contos de fadas’ antes de depurados (conforme Marina Warner nos recorda)?

(…) pois este Ogre não deixava de ser muito bom marido, ainda que comesse criancinhas. (1)

Não, mas por serem perfeitamente absurdos e exibirem um domínio espectacular da linguagem escrita e oral. Para crianças?! Tanto quanto qualquer sketch dos Monthy Python.

badforyoureyes

Porém, com alusões mais ou menos explícitas ao incesto, à violação ou ao abuso infantil, os ‘contos de fadas’ seduzem o seu público infantil também por isso mesmo (Bruno Bettelheim chama a atenção para isso). Ou  a manipulação dos outros pela linguagem, no caso das aventuras da Alice.

Será pelas mesmas razões que a actual literatura ‘juvenil’ usa as metáforas do vampirismo e dos lobisomens para cativar leitores? Ou zombies? Inequivocamente. São tudo matérias com profundas raízes na cultura e na psique individual.

‘—Estás a ver aquela mulher idosa?Aquilo nunca te acontecerá. Nunca envelhecerás, e nunca irás morrer.

—E isso também significa outra coisa, não é? Nunca me tornarei uma adulta.’ (2)

David Irvine upcycled thrift store paintings

Mas a qualidade dos escritos é outra coisa, como este blog tenta explicar de mais do que uma maneira (por exemplo, aqui e ali). Para entender isso, não há maior desafio do que a literatura para crianças escrita por escrevinhadores adultos. Noutro post tentarei desenvolver melhor esta ideia.

(1) in O Pequeno Polegar, de Charles Perrault.

(2) in Interview with the Vampire, de Anne Rice

to be continued

 

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