Escrever para crianças?!…

by escrever como?

Escrever para crianças levanta imediatamente 2 questões ao escrevinhador: para que crianças escreve e que adulto é este que escreve?

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Complicando mais ainda: escrever como para leitores analfabetos? E que criança já foi esse-que-escreve?

Falar em ‘crianças’ é uma simplificação brutal, isso é evidente, e, no entanto, há textos e narrativas que vêm encantando crianças de todas as idades e condições sociais há algumas centenas de anos. Quase com toda a certeza, quem os escreveu ou concebeu não reflectia tanto assim sobre a forma e o conteúdo das estórias, mas estas preocupações ‘editoriais’ não só são pertinentes, como sempre estiveram presentes na publicação desses mesmos textos e narrativas.

Isto ainda é mais importante quando a relevância da leitura perde para uma miríade de distracções concorrentes, mais ‘sugestivas’, menos ‘exigentes’. Fenómeno que não começou com o advento das play-stations, é preciso que se note.

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Chamam-lhe ‘LIVRO’… mas não tenho nem ideia onde se metem as pilhas.

A preocupação em coligir contos tradicionais ou estórias clássicas, adaptando-os para um público infantil, tinha preocupações que ainda nos são comuns: a de tornar as estórias compreensíveis, respeitando objectivos educacionais e moralizantes partilhados pelo comum das famílias, proporcionando também momentos de recreação e devaneio.

Sem querer complicar muito, vale a pena recordar que as próprias noções de ‘infantil’ ou ‘juvenil’ são categorias que foram elaboradas ao longo da Idade Moderna, quando se impôs alguma forma de aprendizagem formal e teórica antes de ingressar no mundo do trabalho.

Obviamente, a actividade editorial sempre foi —sempre é— condicionada pelo adulto prescritor, pelo adulto comprador e pelo adulto progenitor (que pode, ou não, ser o mesmo adulto em momentos diferentes do processo de selecção do livro).

Ora, é aqui que o papel do escrevinhador se distingue da do editor: este privilegiará a estória que lhe parece mais atraente para os adultos, ou seja, a imagem que os adultos fazem duma ‘boa’ estória infantil; mas aquele poderá ter uma ligação mais directa com o público leitor (ou receptor das estórias), o público infantil. O que justifica as questões acima colocadas sobre o adulto que o escrevinhador é, a criança que já foi.

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Por isso destaquei a Alice no País das Maravilhas, no post anterior: publicado em 1865, coloca uma criança no centro de todo o processo narrativo, com densidade psicológica (não obedecendo a qualquer estereótipo) e capacidade para criar situações, despoletar conflitos, reflectir sobre o sucedido e assim por diante, sem cair em lições moralizantes e exemplares: ‘Estás a pensar em qualquer coisa, minha querida, e isso faz-te esquecer a conversa. Não posso já dizer-te qual seja a moral disto, mas hei-de me lembrar daqui a um momento. Tudo tem uma moral, se souberes procurá-la.’ (A Duquesa in Alice no País das Maravilhas)

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Outro exemplo clássico de literatura infantil, As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, publicadas cerca de 10 anos depois de Alice, receberam esta justa crítica na altura: ‘A estória é um estudo maravilhoso da mente de um rapaz, o qual vive num mundo bastante distinto daquele em que está fisicamente presente com os seus parentes, e nisto reside o seu imenso encanto e a sua universalidade, pois a natureza de um rapaz, por muito que a natureza humana varie, é igual em toda a parte.’ (William Dean Howells, in The Atlantic Monthly de Maio de 1876)

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O sucesso que estas obras tiveram e continuam a ter nos nossos dias, nem que seja em versões cinematográficas, revela um ‘truque’ poderoso: o de escrever também para adultos, escrevendo explicitamente para crianças. Ou seja, é possível ter a preocupação de escrever para o público infantil, sem descurar o público adulto.

O que nos coloca outro lote de novas questões: quando se escreve para crianças, devemo-nos pôr ao seu ‘nível’? E, se assim for, como é possível escrever simultaneamente para adultos? Não sendo assim (não nos pomos ao mesmo ‘nível’), como conseguir nos fazer entender pelo leitor infantil?

Se algo tenho a dizer a este respeito, terá de ficar para outro post…

to be continued

 

 

 

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