Escrever para crianças (dois pontos ou três…):

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Será preciso lembrar que ‘crianças’ é uma generalização inútil (em literatura, pelo menos), e que escrever para leitores de 8-10 anos não é o mesmo que escrever para analfabetos de 3-5 anos?

A linguagem utilizada, naturalmente, deve ter em conta as limitações impostas pela idade, tal como certos efeitos estilísticos podem atrapalhar, por não serem entendidos.

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Mas a grande diferença, à partida, está em que a escrita para ser lida em voz alta deve valorizar as características da oralidade e, não menos importante, construir um texto que facilite a rememoração. Isso pode ser conseguido utilizando fórmulas assumidamente estereotipadas, como sejam poemas com rima e métrica, personagens tipificadas, frases feitas.

Neste caso, o escrevinhador pressupõe que o leitor irá dramatizar a leitura para uma audiência de (pelo menos) um ouvinte a várias dezenas (ou mais), a quem tem de prender a atenção e facilitar o entendimento desde as primeiras linhas até ao fim. E, assim sendo, o texto deve ter as necessárias indicações para quem ‘conta’ poder recorrer à panóplia de recursos que tenha (tons de voz, expressões de rosto, gestos e movimentos, gestão do silêncio, noção do ritmo, e outros).

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Deste modo, os recursos estilísticos podem ser usados com maior liberdade, pois há a mediação de um adulto que os reconhece, podendo ‘exprimi-los’ de forma não-textual, eventualmente sem recurso à própria oralidade: ironias e hipérboles que, lidas por crianças mais velhas são ainda entendidas literalmente (ou de modo algum entendidas), e que, através desta mediação, podem ser entendidas como tais, graças ao recurso a caretas, gestos desmesurados,vozes em falsete. Por exemplo.

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Para crianças com capacidade de leitura, a ausência de um narrador em carne e osso será a situação mais frequente, o que deverá levar o escrevinhador a ter maior cuidado com a ambiguidade na construção do texto e do enredo. O que não quer dizer que a exclua, antes pelo contrário.

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Obviamente, antes de escrever, o escrevinhador poderá aprofundar algumas noções de psicologia infantil, de pedagogia e coisas assim. Mas, importante mesmo, é manter o contacto com a criança que foi e com crianças, em geral.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

É provável que, desse modo, reveja certas ideias feitas sobre o entendimento, a inocência, os interesses, as dificuldades e problemas, assim como os sonhos e anseios, de uma idade que lhe está, a cada dia, mais distante.

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