Escrever como terapia…???

by escrever como?

Consultado como uma espécie de autoridade xamânica a propósito das virtudes terapêuticas da escrita —além de ser, também, auscultado regularmente sobre quais leituras recomendaria com objectivos terapêuticos e cívicos, morais(!), etc e tal—, constato como a internet, por mais que se avise (e surgem avisos a todo o tempo!), é o lugar ideal para se ter encontros perigosos. Escudado numa espécie de anonimato, o autor deste blogue não merece dos seus leitores mais do que a leitura e apreciação crítica assente nos conteúdos práticos aqui tratados, e tudo o mais resulta duma projecção ou ilusão do leitor que anda à procura de algo. Algo que, garantidamente, aqui não há.

Escrevendo listas como terapia

“Coisas que me aborrecem.”  Escrevendo listas como terapia

Claro que ler e escrever, como qualquer actividade humana socialmente aceite, têm uma componente terapêutica. E como não haveriam de ter?! Porém, a perspectiva que aqui se procura desenvolver é predominantemente literária. O que, para quem esteja menos familiarizado com o conceito, pode parecer algo de muito válido e construtivo. E é. Assim como todo o seu contrário.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre!

Basta considerar a quantidade de livros colocados no Index e outras listas censórias, destruídos em praça pública juntamente com os seus autores e leitores, ou nas vidas miseráveis, alcoólatras, suicidas, de tanto escrevinhador, para perceber que a escrita como terapia não é um conceito evidente.

IDÍGORAS Y PACHI

Na verdade, em tempos que já lá vão, quando a Literatura era genuinamente apreciada, temida ou vilipendiada, o exercício da escrita (e o da leitura) estava desaconselhado para as classes menos favorecidas,  visto como nada adequado à condição feminina e, em geral, as leis e os costumes condicionavam fortemente os temas e as formas.

'Niña leyendo' (1850) de Franz Eybl.

Provavelmente, a partir do momento em que se tornou mercadoria, a escrita, enquanto livro, ganhou em popularidade com a consequente desvalorização, servindo de veículo para qualquer necessidade de comunicação mais ou menos propagandista ou, meramente, para satisfação lúdica ligeira. Da literatura, quantas vezes, fica-se pela pretensão.

-Os livros de História trazem muitos contos.

-Lê livros de História, trazem muitos contos.

Daí à confusão entre o potencial terapêutico da escrita (Freud recomendava anotar os sonhos) e a criação literária vai um passo, correndo-se o tremendo risco de cair na banalidade das expressões emocionais e sentimentais. E o escrevinhador sente-se aliviado? É possível, pois terá exorcizado seus fantasmas e demónios.

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Porém, ao longo dos tópicos desenvolvidos neste blogue há mais de 2 anos, tem-se privilegiado uma perspectiva distinta, eventualmente oposta: a de que a escrita, como forma de expressão literária, resulta melhor se feita com paixão, em desequilíbrio, procurando seduzir a bela Musa e atrair o leitor para o labirinto peculiar do escrevinhador. Para quem tenha alguma bagagem literária, pode já prever os abismos e monstros que se ocultam nos labirintos…

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Para conseguir tudo isto há que cultivar o salutar grãozinho de loucura. Ora, não poucos venderam a alma ao tabaco, ao álcool ou à cocaína para atingirem estes objectivos. E destes, alguns conseguiram-no, mesmo assim.

Fernando pessoa em flagrante delitro

Neste blogue entende-se que ler muito e bem, viver a vida plenamente e criar rotinas, alternando-as com rupturas, além de estar aberto para o mundo (e para o que aí se passa), é todo um processo de motivação que, em caso de não resultar em qualquer obra-prima, tem, pelo menos, a vantagem de fazer do escrevinhador ‘falhado’ melhor pessoa e pessoa mais interessante.

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A ser terapia, a escrita será assim pretexto para se viver uma vida estimulante. Mas nada está garantido, e nem é esse o objectivo da criação literária. Ou, já agora, deste blogue.

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