O diálogo com o Público

by escrever como?

Antes da escrita, a obra literária era cantada, recitada ou dramatizada perante um público. A escrita alargou esse público, não ameaçando as formas orais da divulgação literária, que ganharam em alcance e em variedade graças à tecnologia audiovisual.

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O escrevinhador, contudo, sente a pressão dessa ‘concorrência’: apesar da frase feita ‘o livro é melhor do que o filme’, o filme tem mais hipóteses de se tornar um blockbuster do que o livro um best-seller. Será só pelo filme tomar 2 a 3 horas do tempo do espectador, enquanto o tempo da leitura é longo e incerto?

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Enquanto produto industrial e mercadoria, o livro também tem beneficiado do desenvolvimento tecnológico, mesmo — principalmente, segundo muitos— no seu formato electrónico: mais barato, mais acessível, mais global, mais interactivo.

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Com uma população incomparavelmente mais alfabetizada do que em qualquer época anterior, o escrevinhador deveria felicitar-se pela sorte de ter nascido nesta época. Porém, olhando para as estantes da secção de livros dos hipermercados ou quiosques, o escrevinhador poderá desconfiar legitimamente se será assim.

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Para ganhar visibilidade e vendas, o escrevinhador entusiasma-se com os receituários que ensinam os 10 passos para se tornar um autor de sucesso (de vendas, bem entendido). E daí a frequentar as redes sociais, a procurar pretextos para falar da obra, a ‘enriquecê-la’ com conteúdos multimédia. Nada que não se fizesse (com muito menos recursos, é verdade) no tempo em que as précieuses cultivavam círculos literários nos seus salões.

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Nessa época distante também se verificou o aumento de publicações e, obviamente, de leitores. Do mesmo modo, provocou uma ‘invasão de imbecis‘*. Que alguns destes ganhem fama, tenham sucesso e enriqueçam com as inanidades que publicam, é verdadeiramente cómico e é um fenómeno antigo. Que sejam esses a ter mais obra publicada e público mais garantido, em vez daqueles que escrevem obras interessantes, sempre foi o lamento dos pobres génios não reconhecidos.

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Fazer o quê?— pergunta o infeliz génio. Deste blogue, nada preocupado com questões de sucesso, ouvirá em resposta um eco na forma interrogativa: escrever como?

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Escrever tendo em vista um leitor, um público, tentando de algum modo agradar-lhe, não tem nada de mal, caro escrevinhador. Principalmente se tem algo pessoal que o motive a escrever. E se, ao escrever, tem preocupações formais, estéticas ou outra coisa qualquer que vai mais além do desabafo, do vómito, do alívio das tensões.

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Dá que pensar quando lemos sobre um escritor que sofreu dúvidas dilacerantes sobre o valor das suas obras (mais tarde reconhecidas como obras-primas), tendo até o escrúpulo de as destruir, enquanto assistimos ao espectáculo de tanto escrevinhador satisfeito com a sua produção medíocre e ansioso por divulgá-la sem pejo, nem remorso.

 1ºpasso: SÊ ADORÁVEL

CARTAZ- 14h00-15h00 Marketing On-line: como conquistar a internet
Quadro- 1ºpasso: SÊ ADORÁVEL

A pensar noutras coisas, uma categoria de pessimistas entretinha-se a formular máximas como sic transit gloria mundi, enquanto outra categoria de pessimistas recomendava carpe diem, quam minimum credula postero, que é um modo de dizer aproveita enquanto podes.

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Como o autor deste blogue não é pessimista (nem latinista, com muita pena), limita-se a recomendar: enche a barriga, vive alegre dia e noite, faz festa cada dia, dança e canta dia e noite, que tuas roupas sejam imaculadas, lava-te a cabeça, banha-te, atende ao menino que te toma a mão, deleita a tua mulher, abraçada a ti**, que é algo que já foi escrito uns milhares de anos antes de qualquer das máximas latinas citadas.

Pintura de Reza Abbasi

Com um grãozinho de loucura e os favores da bela Musa, o resto virá por si. E se não, o escrevinhador (que não chegará a sê-lo, afinal), vive uma vida. E isso pode ser motivo para que se torne fonte de inspiração para qualquer candidato a escrevinhador de talento.

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* Umberto Eco, numa recente entrevista a propósito do mau jornalismo e do acesso mediático a todo o opinador desqualificado

** in Poema de Gilgamesh , tradução para o castelhano por Federico Lara Peinado, Editorial Tecnos

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