O (des)equilíbrio entre a palavra e a ideia

by escrever como?

O uso da palavra como matéria-prima essencial do texto nunca deveria ser menosprezado, mesmo pelo escrevinhador sem pretensões literárias. Esse menosprezo apenas revelará suas próprias limitações. O que não é o mesmo que dizer que o fetichismo da palavra seja garantia de qualidade.

“Ler bem” é ajustar a proximidade da presença sentida num texto a todos os níveis do encontro: espiritual, intelectual, fonético e até “carnal” (o texto actua sobre o nervo e sobre o músculo, como a música). (1)

“Permission to write a poem, sir?”

“Permissão para escrever um poema, capitão?

Recorrer a palavras ‘caras’ (difíceis, raras, em desuso) pode ser um bom artifício, como uma excelente proposta de reflexão e ponto de partida para um algures narrativo ou ensaístico. Mas todo o cuidado é pouco para evitar o pedantismo ou as dificuldades de comunicação para além do razoável.

Mas devo reconhecer que foi precisamente o desencontro, a ambiguidade, esta melancolia face ao efémero e ao precário, a origem da literatura na minha vida. (2)

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Na poesia a palavra tem um peso diferente daquele que pode adquirir num texto em prosa, apesar das distinções entre uma e outra estarem esbatidas nos últimos 150 anos: o texto poético valoriza (ou tende a valorizar) a materialidade da palavra pela sonoridade no texto, criando efeitos tanto maiores quando lidos ou expressos em voz alta. Igualmente, o texto duma peça de teatro procura retirar efeito dessa materialidade.

Juan: Devias estar em casa. / Yerma: Entretive-me. / Juan: Não compreendo em que te tenhas entretido. / Yerma: Ouvia cantar os pássaros. / Juan: Está bem. Assim darás com que falar às pessoas. / Yerma: Juan, que pensas? / Juan: Não o digo por ti, digo pelas pessoas. / Yerma: Punhalada que lhes dêem às pessoas! / Juan: Não amaldiçoes. Fica feio numa mulher. / Yerma: Oxalá fosse eu uma mulher. (3)

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Num caso ou no outro, pode consegui-lo com efeitos mais estéticos (digamos assim, para facilitar) do que dramáticos. Pode fazê-lo melhor ou pior, e certamente não agradará a todos (o que, em si, não só não deve constituir um problema, como é uma fatalidade). A vacuidade das ideias, a indolência do enredo, a banalidade do texto, os efeitos espampanantes e ocos, são perigos frequentes nestes mares da polémica em que tanta escrita naufraga sem deixar glória, nem saudade.

(…) sempre defendi a importância do desejo e da paixão. Não por serem um ideal em si, mas porque formam o elemento dinâmico da vida. (4)

'If God tells you what to say in your sermon, why do you make so many corrections?'

‘Se Deus diz-te o que vais dizer no sermão, porque fazes tantas correções?’

A saturação de ideias também pode  prejudicar, ainda que de modo diferente, o delicado equilíbrio entre forma e conteúdo: por um lado, os propósitos da escrita revelam uma urgência desmesurada; por outro, traem a insegurança do escrevinhador enquanto tal.

Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus/ Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne/ E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito! (5)

QUE QUER DIZER com os meu trabalho estar errado

QUE QUÉ DIZER com o meu trabalho estar errado?!? Copiei TUDO directo da Internet!!

Mas que não se diga que o desafio não possa ser enfrentado com êxito: em toda a história da literatura universal abundam exemplos de textos densos e fascinantes.

Por outro lado, considero que ele a contou e a disse com todas as circunstâncias ditas, e que não pôde fabricar em tão breve espaço tão grande máquina de disparates; e se esta aventura parece mentira, não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la por falsa ou verdadeira, a escrevo. Tu, leitor, por seres prudente, julga o que te parecer, que não devo nem posso mais (…). (6)

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“Estou a escrever o meu obituário, mas com uma surpresa: engano a morte no último minuto”

Todavia, o escrevinhador não tem que balançar entre a formulação de ideias e a manipulação da palavra. Expressar-se através da palavra é o que o distingue do escultor ou do músico, e por mais emocional ou inconsciente que sejam as urgências dessa expressividade, sugerem ideias …mesmo que involuntárias.

Na tua voz as palavras são nocturnas (7)

Ilustración de Fernando Vicente1

Ilustración de Fernando Vicente

Ou não fosse por isso que tanto escrevinhador se descobre a si mesmo através da escrita e, por isso, ainda que sem leitores, prossegue escrevendo para o baú.

Se do futuro alguém quer se defender/ Esse sou eu!/ Ninguém mo disputa./ No mercado dos versos, meus amigos/ Sou daqueles que não ficam por vender (8)

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(1) in Paixão Intacta de George Steiner, trad.Margarida Periquito e Victor Antunes ed.Relógio d’Água

(2) in Resistir de Ernesto Sabato trad.Carlos Aboim de Brito, ed.Dom Quixote

(3) in Yerma de Federico García Lorca, ed.Catedra

(4) in O Optimismo de Francesco Alberoni, trad.Cristina Rodriguez e Álvaro Guerra ed.Bertrand

(5) in ‘Saudação a Walt Whitman’ Poesia de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(6) in El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(7) in ‘Partida’ Dia do Mar de Sophia, Obra Poética ed.Caminho

(8) Ibn Ar-Ruh in O meu coração é arábe-a poesia luso-árabe colectânea organizada e traduzida por Adalberto Alves, ed. Assírio&Alvim

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