Fazer-se entender ou impressionar?

by escrever como?

Que o escrevinhador pressuponha o seu leitor é uma atitude perfeitamente louvável, pois a escrita é um modo de comunicar, além de eventuais motivações terapêuticas, necessidades catárticas ou simples vontade de contar coisas.

Ponho estes seis versos na minha garrafa atirada ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia quase deserta/ e um menino a encontre e destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (1)

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Precisamente, a conciliação entre o que se pretende dizer,e o que é dito e entendido—de facto— é o problema crucial da comunicação em geral.

Para conheceres as melhores mentiras (…)/ de um homem/ terás que te sentar longamente ao pé dele./ Ninguém mente aos gritos, de longe. (2)

LENDO-MAIS-DE-UM-LIVRO

Literariamente, as possibilidades permitidas pela forma (como se diz) desloca esta perspectiva para o efeito estético (a impressão que não a compreensão, digamos assim). Por vezes, o escrevinhador sacrifica deliberadamente o sentido para atingir um efeito, noutras é o contrário, e há toda uma gama infindável de tentativas para conseguir o equilíbrio possível.

Agora começa o Manifesto:/ Arre!/ Arre!/ Oiçam bem:/ ARRRRRE! (3) 

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Talvez não haja modo mais difícil de obter esse compromisso entre conteúdo e forma do que na fórmula humorística: desde a subtil (imperceptível, dirão uns) ironia ao portentoso (obsceno, dirão muitos) sarcasmo, o entendimento do leitor peca geralmente pela incapacidade oftalmológica para distinguir toda uma gama de tonalidades ou pela acuidade visual para só ver aquilo que o incomoda. Todavia, quantos escrevinhadores não caem na vulgaridade gratuita (porque sem sentido, nem elegância)?

Teu avô, santanário venerando/ Soube mais orações que mil beatas,/ Com reza impertinente os Céus zangando; / Teu pai foi um trovão de pataratas;/ Teu tio, o bacharel, morreu, falando;/ Tu falando, Riseu, não morres, matas. (4)

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Que critério pode ter o escrevinhador para contentar a todos, ou seja, para não ser vulgar e conseguir se fazer entender, obtendo o efeito pretendido? Se procurar nas estrelas, talvez venha a encontrar uma regra de ouro. Entretanto, o recurso a uma mediana inteligência nos conteúdos escritos e a um estilo que o satisfaça (mais do que satisfazer terceiros), é um modo de começar a praticar por conta e risco.

Cavossonante escudo nosso/ palavra: panaceia/ ornado de consolos e compensas/ enquanto a seta-fado/ nos envenena ambos tendões/ rachados. (5)

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COISAS A EVITAR DIZER: b. a um homem-bomba -Então, tá tudo a bombar?

Na composição das personagens, por exemplo, o escrevinhador pode começar por evitar uma identificação demasiado evidente com aquelas que lhe são simpáticas e a estigmatização das que lhe são odiosas. Na poesia, poderá explorar outras vozes, outras sensibilidades e entendimento.

O que é o vento sem sombra, senão um nada/ a si mesmo abraçado/ (…) / Mas é verdade que o vento me desfez a casa/ como o sopro do lobo (6)

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O que há de bom na literatura é a liberdade do escrevinhador experimentar sem fazer mal a ninguém, nem ao mundo. O que não o isenta de sofrer consequências, as quais podem ser fatais…

Tentei falar/ Talvez, ignoro a língua./ Todas as frases trocadas./ A resposta: apedrejado. (7)

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(1) ‘Botella al mar’ de Mario Benedetti

(2) in Uma viagem à Índia CantoVI, de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(3) ’21’ in Poesia, de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(4) ‘A um falador insofrível’ de Manuel Maria Barbosa du Bocage

(5) ‘Cavossonante escudo nosso’ de Mário Faustino

(6) ‘Qué es el viento sin sombra’ de Leopoldo María Panero

(7) ‘Sassate’ de Giorgio Caproni

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