Escrito e falado

by escrever como?

Sem cuidar as características da oralidade, os diálogos resultam pouco convincentes, por mais brilhantes que sejam as ideias.

KUBLAI:—Talvez este nosso diálogo esteja a desenrolar-se entre dois vagabundos alcunhados de Kublai Kan e Marco Polo, que estejam a vasculhar num depósito de lixo, (…) e que bêbedos (…) vejam à sua volta resplandecer todos os tesouros do Oriente.

POLO:—Talvez do mundo só tenha restado um terreno vazio e coberto de imundícies, e o jardim suspenso do palácio do Grão Kan. São as nossas pálpebras que os separam, mas não se sabe qual está dentro e qual está fora. (1)

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Afeiçoando o ouvido à conversa alheia nos espaços públicos, o escrevinhador captará formas coloquiais próprias duma região, de um grupo social, duma época, muitas vezes expressando reflexões e observações de modo redundante ou ilógico.

—Os homens bons (…) [s]ão como os camelos, que nunca têm sede.

—Que queres dizer com isso?

—Nada. Os camelos nem em sonhos querem dizer nada. (…)

—Porque falas neles, então?

—Sou um nómada, por isso os camelos significam bastante para mim.

—Maluco!—disse Hipólita. Era o tipo de diálogo que travavam regularmente mãe e filho. (2)

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Se conhecer minimamente o tipo de pessoa, poderá apreciar o modo como manipula a conversa num ou noutro sentido, muitas vezes apropriando-se desta e convertendo o diálogo num monólogo ou num enigma.

—Não ouviu nada esta noite?

—Não, não ouvi.

—Nem eu. Tenho o sono pesado…

—Mas o que foi?

—O João ouviu… E parece que o seu Guerreiro também, porque o Alexandrino, ao sair, viu luz no quarto dele.

—Mas ouviu o quê? Diga depressa! (3)

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Por vezes, a riqueza do vocabulário dos intervenientes é muito pobre e a densidade das suas ideias bidimensional, efeito que por vezes tem um efeito cómico extraordinário.

O pai lia o jornal (…). O telefone tocou tirrim-tirrim. A mocinha, filha dele, dezoito, vinte, vinte e dois anos, sei lá, veio lá de dentro, atendeu. “Alô. (…) Mauro!!! Puxa, onde é que você andou? Há quanto tempo! (…) Diz! Não!?! É mesmo? Que maravilha! Meus parabéns!!! Homem ou mulher? Ah! Que bom!… Vem logo. Não vou sair não”. Desligou o telefone. O pai perguntou: “Mauro teve um filho?” A mocinha respondeu: “Não. Casou.” MORAL: Já não se entendem os diálogos como antigamente. (4)

PROBLEMAS-DO-ARTURZINHO

Existem livros que exploram estas variantes com sucesso muito desigual, e os casos menos conseguidos (na minha opinião) não pecam tanto pela incapacidade de retratarem diálogos estereotipados e convincentes,  mas pela própria narrativa flutuar numa indigência em tudo idêntica ao estereótipo retratado.

“Senhor Joseíño, queria dizer-lhe uma coisa!” “Diz lá!” “Senhor Joseiño, quero que saiba que sou muito feliz consigo. Senhor Joseíño quero que saiba que sou muito mais feliz consigo do que com Manolo, porque ele apenas pensava nele, e a mim deixava-me muitas vezes com o rebuçado na boca, mas no senhor vê-se logo que sabe o que está a fazer, vê-se que sabe esperar quando é preciso, um pai não o faria melhor pela sua filha. (…) E vou dizer-lhe outra coisa: o senhor não é tão feio como se pensa.” Passou por cima do meu corpo e saltou da cama. (5)

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Inversamente, diálogos bem escritos não são sinónimo de verosimilhança: umas vezes por pouco deverem à oralidade, outras por não se adequarem ao momento, às personagens, ao próprio tema, resultando num pastelão cheio de informação onde o escrevinhador despacha o enredo de forma expedita, poupando-se trabalho mas castigando o leitor.

—Ah, pois, já entendo!—disse com sarcasmo.

—Não creio que entenda, é uma história longa para contar. Mas temo que não lhe interesse.

—Não preciso que ma conte, conheço essa história, sei-la toda…! Eu li as cartas!

As cartas? que cartas?, mas era melhor calar e deixá-la seguir. (6)

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A utilização dos diálogos é uma estratégia como tantas outras, podendo desenvolver a acção, definir a personagem, tratar o tema de modo distinto. Saber construí-los com algumas falhas gramaticais, imprecisões, efeitos não-retóricos e outras ‘deficiências’ típicas da oralidade, tornam-nos mais interessantes. Ou assim se pretende, pelo menos…

Será que é hoje que me caso, bom santinho?

Té digo toda a verdade:

Casá non casa hoje tu,

Porém, com boa vontade,

Hoje arguém te come o… Piu-piu-piu, espia o passarinho pra distrair a idéia! (7)

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(1) in As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, ed.teorema trad.José Colaço Barreiros

(2) in Os Meninos de Ouro de Agustina Bessa-Luís, ed.Planeta DeAgostini

(3) in A Selva de Ferreira de Castro, ed.Guimarães e C.ª

(4) in Novas fábulas fabulosas de Millôr Fernandes, ed.nórdica

(5) in A Saga/Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester, ed. Dom Quixote trad.Cristina Reodriguez e Artur Guerra

(6) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed. Planeta DeAgostini

(7) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro, ed.Dom Quixote

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