Escrever baba e ranho

by escrever como?

Escrevinhar expondo sentimentos e emoções —pessoalmente prefiro dizer ‘estados de espírito’— é arriscado e já o disse por aqui. Mas não quero com isso dizer que seja de evitar, antes entenda-se como um aviso e um desafio.

E os sinos dobram a defuntos,/ Dlim! dlão! dlim! dlom!/ E os sinos dobram, todos juntos,/ Dlom! dlim! dlim! dlom! (1)

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Há poemas e novelas com tanta dor e tristeza que fazem escorrer lágrimas por mais que se torça o livro… e o efeito redunda no oposto do pretendido: o escrevinhador é motivo de chacota, tudo o que rodeia a sua escrita (personagens ou atribulações) provoca a gargalhada.

Mas vocês juraram agora fabricar a saudade artificialmente, sem os ingredientes necessários: sem o rei absoluto e o pai tirano, sem o convento e sem o gato. É impossível, meus santinhos, é absurdo. (…) É pena, é, mas que querem vocês que eu lhes faça? (2)

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Porém, grande literatura se escreve a propósito dos temas mais dolorosos e tristes imagináveis. Lendo alguma dela, talvez dê para entender o que a distingue do ‘choradinho’ de tantos escritos, uns famosos e a esmagadora maioria nem por isso. Sem esquecer que existe público para ambos.

—Senhora, o rei aqui me enviou para que encomendeis a vossa alma àquele que a criou, que a vossa hora é chegada, e não a posso alargar eu.

—Amigo,-disse a rainha- a minha morte vos perdoou eu; se o rei meu senhor o manda, faça-se como ordenou (…).

Suas lágrimas e gemidos ao maceiro enterneceu, com voz fraca tremendo, isto dizendo começou:

—(…) Hoje cumpro dezassete anos, para os dezoito vou. O rei não me conheceu, com as virgens me vou. Castela, diz o que te fiz? Não te atraiçoei, as coroas que me deste, de sangue e suspiros são, mas outra terei no céu, será de mais valor.

E ditas estas palavras, o maceiro a feriu, os miolos da sua cabeça, pela sala os espalhou. (3)

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-Padre, pequei.  -Sim…sim, já tinha percebido isso…

Da tristeza à felicidade, a praga do texto lamechas (na poesia, então…!) sempre esteve presente e não mostra sinais de melhoria para futuro. Mas daí também nunca veio grande mal ao mundo.

No dia seguinte àquele em que me conheceu foi levar-me a casa uma poesia que me é dedicada e em que me aconselha a que siga a escola do Sentimento, ou antes a que escreva apenas o que sinto. A poesia tem um certo perfume oriental. Diz ele que a mandará para o ‘Diário Popular’. Verás… (4)

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Alcool: só bebo para tornar-TE mais interessante!

No extremo oposto do espectro está o humor com toda a sua panóplia de recursos, marcando o tom e a perspectiva do texto. Há escrevinhadores que tomam de emprestado o estilo dum grande satírico de outros tempos e escrevem sobre assuntos contemporâneos com frescura e bom efeito: isso observa-se com frequência em crónicas semanais de jornais e revistas.

O português, regra geral, não acha graça nenhuma à graça propriamente dita. Ri-se, sobretudo da desgraça. Enfim— como a palavra indica— do que não tem graça absolutamente nenhuma. (…) ” É prá desgraça!” é uma expressão que faz rir os mais trombudos (…). (5)

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Tanto o sucesso como o falhanço do escrevinhador em obter o efeito risível pretendido podem ser motivo para intermináveis polémicas, algumas mortalmente violentas. No pior dos casos, o tédio absoluto e o silêncio eterno em seu redor.

QUINTA-FEIRA à tarde, pouco mais de três horas, vi uma cousa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve-me a impertinência; os gostos não são iguais. (6)

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angústia da influência (ver aqui) não deve inibir o impulso da escrita, antes pode levá-la a ultrapassar suas limitações e exercitar a própria voz. Claro que, para isso, há que sofrer a angústia (ter consciência de ser fiel depositário duma tradição) e tentar ir além das influências. Creio que essa é a fronteira entre o estereotipo e a influência propriamente dita.

Chegar atrasado, em termos culturais, jamais é aceitável para um grande escritor, embora Borges fizesse carreira explorando sua secundaridade. O atraso não me parece de modo algum uma condição histórica, mas uma condição que pertence à situação cultural como tal. (7)

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Ora, na expressão das emoções a criatividade é, provavelmente, uma impossibilidade. E, no entanto, vale tudo e nada é garantido.

Eu só queria ter o tempo e o sossego suficientes/ Para não pensar em cousa nenhuma,/ Para nem me sentir viver,/ Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido. (8)

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(1) ‘Os Sinos’ in  de António Nobre, ed.A bela e o monstro

(2) ‘Polémica sobre o Saudosismo texto 3’ de António Sérgio in A Águia selecção de textos de Marieta Dá Mesquita, ed. alfa

(3) ‘Morte da rainha Branca’ in El Romancero viejo, edição de Mercedez Díaz Roig, ed.Cátedra

(4) ‘carta a Silva Pinto’ in Obra Completa de Cesário Verde, org.Joel Serrão, ed.Livros do horizonte

(5) ‘Graça’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed. assírio&alvim

(6) in A Semana de Machado de Assis, Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro

(7) in ‘A Angústia da Contaminação’ prefácio à 2ª edição da A Angústia da Influência de Harold Bloom, trad. Marcos Santarrita, ed.Imago

(8) in Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro, ed. assírio&alvim

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