Escrever como quem fala

by escrever como?

Há quem domine incipientemente a comunicação escrita e escreva como fala, assim como há quem a domine e construa diálogos como se fossem lidos: em ambos os casos o resultado será desastroso… salvo se for genial!

—Que me diz, abade? Lá que ela vinha a casar sabia eu, porque o Aguiar me disse que o irmão lhe dava um grande dote, quarenta contos. Casava com quem quisesse.

—Pois casou com o José Macário, casaram ontem, ali em Santo Ildefonso, às seis horas da manhã e partiram no vapor esta manhã para Lisboa, os canalhões.

Viegas gargalhava, e dizia: Oh! que pulhas! que pulhas! que pandilhas! que malandros!

—Deixe-me contar-lhe, Viegas: ouça que isto tem graça… Dê cá o lume —e acendia o cigarro, impando as bochechas com muito fumo, (…). (1)

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HOMEM: Não consigo pensar em nada de interessante para dizer. Sou tão aborrecido! Ela deve detestar-me. MULHER: Um homem que dá atenção ao que digo! Acho que me estou a apaixonar!

 

A escrita está sujeita a uma codificação que a oralidade finta alegremente, pelo que se esta for colorida de erros e desacertos pode ser cómica, castiça, eficaz e certeira.

Ora, ora —falou.— O cem anos é meu, quem vai morrer é eu, quer dizer que só quem pode achar a graça é eu, que eu é que sei, ninguém mais aqui sabe. (…). Depois que eu morrer, tem que chorar um pouco, o certo é esse, porém eu posso rir. (2)

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A conversação está exposta a erros gramaticais mais ou menos evidentes, a redundâncias e omissões, a desvios temáticos abruptos, a ‘diálogos de surdos’ e milhentas outras deficiências que são —não tão paradoxalmente assim— os cimentos da comunicação humana.

O agente: Que frases obscenas?

A lamentosa treme a cabecinha, tem buço na venta e olhinhos recatados. Palavrões, diz em voz sumida.

O agente: Tais como?

Curta para aqui, curta para ali, responde a galinheira ainda em mais sumido.

E o agente: Curta? Diga puta, senhora. Os autos querem-se precisos. (3)

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O mito da Torre de Babel acentua o lado caótico da comunicação entre falantes que utilizam línguas tão distintas entre si que não se conseguem fazer entender, mas dentro de cada universo linguístico existem enormes variações ao nível da linguagem, do conhecimento dos vocábulos, dos múltiplos sentidos das mesmas palavras ou expressões , das referências partilhadas. Isto é da maior importância quando os diálogos escritos se situam numa época, numa área geográfica, entre personagens, perfeitamente definidas.

—São as piores, ti Rita. Tola não foi ela… (…)

—Aquilo fazia-se esquerda à espera de pássaro graúdo. (4)

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Desfrute deste cartoon culturalmente, etnicamente, religiosamente e politicamente correcto de modo responsável. Obrigado

 

Daí o escrevinhador dever ter isto em mente quando constrói textos de expressão oral, sejam monólogos ou diálogos. Não o fazendo, o texto pode resultar insuportavelmente artificial, desligado de toda a experiência de conversação.

—E não é de boa maneira de um homem saudar outro —perguntei eu— dizer-lhe que Deus o guarde?  

—Tem muito cuidado com a língua! —respondeu ele.— Aos homens da classe baixa diz-se isso; mas aos de mais alto nível, como eu, não se pode saudar de outra forma senão com um “Beijo as mãos de vossa mercê”, ou, pelo menos, “Senhor, beijo-vos as mãos”, se quem me falar for delicado. (5)

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Mas que não ocorra ao escrevinhador transcrever a oralidade num registo escrito com a fidelidade dum estenógrafo: a criação literária é mais do que a arte de um papagaio alfabetizado.

Rita canta sua canção de oferta, que é o seu canto de trabalho:

“Que fazes aí, menina?/ Eu faço tudo, senhor…”

Era uma rua longa, comprida de não acabar. (6)

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(1) in José Macário de Camilo Castelo Branco, ed. Lello & Irmão

(2) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro, ed. Dom Quixote

(3) in Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires, ed.Público

(4) in Gaibéus de Alves Redol ed. fac-simile A Bela e o Monstro

(5) in Lazarilho de Tormes Anónimo, trad. Ricardo Alberty, ed.Verbo

(6) in São Jorge dos Ilhéus de Jorge Amado, ed.Europa-América

 

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