A noite dos mortos meio-vivos e outras coisas espantosas

by escrever como?

A Morte (com maiúscula, atenção) é inesgotável fonte de inspiração literária, principalmente nestes dias de Outubro a Novembro, levando mesmo à questão se ainda há algo a respeito que não tenha sido dito algures por este mundo, nesta ou numa outra era.

—Escuta-me, amigo meu, o sonho que vi esta noite; (…) havia ali alguém de face tenebrosa, (…) as suas mãos eram patas de leão, suas unhas garras de águia, agarrando-me pelas pontas dos cabelos me violentava, eu tentava golpeá-lo, mas ele revolvia-se como quem salta à corda, logo me golpeando e atirando-me ao chão (…). “—Salva-me, amigo meu!”—gritei. Mas tu não me salvavas, tinhas tanto medo que nem te movias para me ajudar, tu (…). (1)

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O tom ou o desenvolvimento que se dá à estória é que faz a diferença, havendo até a possibilidade de surpreender pela conclusão. É realmente difícil mas, por isso mesmo, merece ser tentado pelo escrevinhador.

Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda (…). E na noite havia os que deixavam um rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados como um som de viola que se parte. (…) Muitos arrastavam caudas enormes pela lama, despedaçavam-nas de encontro às esquinas, e alguns procuravam deitá-las fora para não mais pensarem num passado tenebroso.

—O homem material —pensava o Palhaço— não existe. A vida é uma convenção. (…) (2)

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A indigência audiovisual ou literária produzida massivamente em redor da categoria do “Terror”  não esconde o potencial humano, existencial e, por isso mesmo, ‘eterno’, de um tema tão complexo: nas primeiras décadas do sec.XIX, escritores alemães, norte-americanos ou ingleses dedicaram-se com êxito a recuperar temas tradicionais a respeito da Morte, do Mal e do Outro.

O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. (3)

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Deram assim início a um género que tem como antepassado directo os contos populares, os quais reflectem, por sua vez, o folclore, as crenças e as práticas milenares da vida quotidiana, mesmo—ou principalmente— quando esta é interrompida (cíclica ou inesperadamente) por algo de extraordinário.

Do fundo da cova triste/Ouvi uma voz sair:/”Vive, vive, cavaleiro,/Vive tu que eu já morri:/Os olhos com que te olhava/De terra já os cobri./Boca com que te beijava/Já não tem sabor em si,/Os cabelos que entrançavas/Jaz caído a par de mim,/Dos braços que te abraçavam/As canas vê-las aqui!”(4)

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Na próxima reencarnação podes vir a ser uma espécie em perigo. Ajuda-nos a salvar o grou siberiano

As personagens podem ser gente banal em circunstâncias invulgares, seres fantásticos em ambientes familiares (ao leitor e/ou às outras personagens), uma combinação disto e daquilo. Porque —ainda será necessário lembrar?— vale tudo e nada é garantido.

O apóstolo Santo André andava invejoso do apóstolo Santiago porque lhe levava toda a paróquia.

—A Compostela chegam peregrinos de todas as partes do mundo (…) e, ao mesmo tempo, a Teixido não vêm nem de Ferrol ou de Viveiro ou de Ortigueira, que estão ali ao lado, isso não é justo porque eu também sou apóstolo, tão apóstolo como os outros.

Nosso Senhor Jesus Cristo, que vinha pelo mesmo caminho, lhe disse,

—Tens toda a razão do mundo, André, isto tem de se resolver, vou dispor que de ora em diante ninguém possa entrar no céu sem ter passado por Teixido.

—Muito obrigado. (5)

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Como qualquer leitor dedicado já experimentou, o maior terror sofrido não é o expresso pelas imagens gráficas de sangue, nem pelas descrições da mais lancinante dor, e ainda menos pelo detalhe de monstruosidades. Na escrita (e no cinema parece-me igual), o subentendido, o aludido (mas não explicitado), podem mais sobre o leitor.

“Não gosto do aspecto disso”, disse a sua governanta, “Tem um aspecto feioso.”

“A mim, dificilmente lhe vejo alguma forma.”

“Não gosto das coisas que crescem assim.”, disse a sua governanta.(…) “Parece uma aranha nojenta morta.” (6)

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Esta relação vai-me matar

No fundo, a mesma eficácia da escrita erótica frente ao grafismo meramente pornográfico. Não é um método fácil. Corre o risco, até, de não captar a atenção do leitor preguiçoso. E por uma razão simples: por estar dependente da sua imaginação,sensibilidade, sentido de humor e inteligência.

O livro estava aberto mais ou menos a meio e havia um parágrafo de tal forma sublinhado a negro pela pena trémula do possuidor que Mr.Merritt não conteve a curiosidade. Da natureza dessas poucas linhas sublinhadas e da força com que o tinham sido, nada saberia dizer, mas tudo isso lhe causou a pior impressão. (7)

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Mas essa é a maldição da Arte. Sem um leitor (espectador, ouvinte, ou lá o que for) interessado, perde-se o potencial do texto. Fazer o quê?

O final da história só pode ser narrado por metáforas já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Caberia talvez dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panónia. (…) para a insondável divindade, ele e João Panónia (o ortodoxo e o herege, o aborrecedor e o aborrecido, o acusador e a vítima) formavam uma só pessoa. (8)

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“É diferente essa sua burkha…” “Aãã…não,sou apicultora!”

Melhor dizendo: escrever como? Esse é mais um dos mistérios da criação literária, o maior terror do desgraçado escrevinhador, o suspense em que todo o leitor fica até à leitura do texto… não estão mesmo à espera que o revele, pois não?

Quero que a leitura deste livro vos deixe a impressão de terdes atravessado um pesadelo voluptuoso. (9)

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(1) in Poema de Gilgamesh (tábua VII coluna IV),trad.Frederico Lara Peinado, ed.Tecnos

(2) in A Morte do Palhaço de Raúl Brandão, ed.Verbo

(3) in Histórias de Mistério e Imaginação ‘O gato preto’ de Edgar Allan Poe, trad.Tomé Santos Júnior, ed.Verbo

(4) in Romanceiro ‘Bernal-Francês’ compilação de Almeida Garrett, ed.Circulo dos Leitores

(5) in Mazurca para dos muertos de Camilo José Cela, ed.Seix Barral

(6) in Contos Fantásticos ‘A Orquídia Estranha’ de H.G.Wells, ed.Collins

(7) in O caso de Charles Dexter Ward de H.P. Lovecraft, trad.Manuel João Gomes ed.Dom Quixote

(8) in O Aleph ‘Os Teólogos’ de Jorge Luis Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(9) in Livro do Desassossego de Bernardo Soares, ed.Assírio & Alvim

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