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Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

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Abertura e fluidez

Seja como forem a abertura, as primeiras páginas, o início do livro, o escrevinhador deve dar especial atenção à fluidez das ideias e das frases.

A proposta, de Judith Leyster (1631)

A proposta, de Judith Leyster (1631)

Com ‘fluidez’ pretendo dizer que a leitura se faça sem especial esforço, que o prazer de ler seja imediato, que o enredo e/ou o estilo da escrita cativem de algum modo.

Em tempos que já lá vão, era algo frequente começar por descrições detalhadas de ambientes e personagens, descrevendo verdadeiros quadros num apelo à composição visual. Porém, o risco de ser chato é enorme, como se pode verificar na maioria destes casos.

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Numa evolução que suponho devedora dos scripts para cinema, o mesmo detalhe descritivo se aplicou em ritmo dinâmico de acontecimentos mais ou menos interessantes ou intrigantes. Provavelmente, diminuiu-se o risco do tédio, mas este pode ter sido substituído pelo ‘arranque’ estereotipado que se vai repetindo em livros e autores diferentes.

Sem pretensão de ter receitas, abominando visceralmente as prédicas e sabendo que em literatura tudo vale (e nada é garantido), direi que o condimento mais discreto é o que faz a diferença: a qualidade literária da escrita.

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‘Estou escrevendo um livro…já terminei a numeração das páginas’.

Quando esta existe, o livro pode prometer falar sobre alhos e o escrevinhador estender-se longamente sobre bugalhos, que a coisa até pode ser que resulte bem. Mas lá está! os riscos estão sempre presentes.

Se há muito de intuitivo na escrita, não deixa de ser fundamental a revisão crítica da parte do próprio escrevinhador: o apuro da sintaxe ou a riqueza do vocabulário condicionam a expressão das ideias e da sensibilidade, alteram a relação de forças entre ambas, podem se tornar a assinatura do escrevinhador.

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AULAS DE ESCRITA                                                                                             Professora: ‘Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta. ‘

 

 

O escrevinhador à caça do leitor

Tem todo o sentido a preocupação do escrevinhador ‘agarrar’ o leitor nas primeiras linhas ou primeiras páginas.

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Pode ser uma arte, pode ser uma técnica, ou ambas. Para quem lê, não é indiferente concluir que todo um aparato técnico-literário foi montado para o frustrar no fim da leitura (pior ainda se for antes…). Ou numa segunda leitura, que é a prova de fogo de qualquer texto.

Ou, em alternativa, se foi ‘caçado’ pelas artes da inteligência, sedução e elegância  e é com emoção que termina a segunda leitura (e seguintes). Para então concluir que só um leitor com aquelas qualidades pode ser assim cativo pelo texto. Escrevinhadores que reforçam a auto-estima dos leitores são, geralmente, recompensados por uma justa fama (isso do proveito já é toda uma outra estória…).

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A estória pode arrancar em velocidade, trazendo situações, factos e personagens rapidamente para o desenvolvimento da intriga. Deste modo, o leitor desenvolve um interesse imediato pelas consequências do que se está a passar/a ler.

Ou ganhar velocidade pouco-a-pouco, depois da apresentação do contexto em que se irá desenvolver o enredo.

Também pode manter o mesmo ritmo, do início ao fim, como que hipnotizando o leitor numa certa toada. Esta é, das três, a estratégia mais arriscada, mais difícil e, eventualmente, mais sedutora. Suponho que exige um excepcional domínio da linguagem, da construção da frase, do tempo. Associo-a à música, talvez por ter mais facilmente características poéticas. O risco está em se perder nesse prazer estético e descurar a missão prioritária da narrativa: contar uma estória.

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FINALMENTE, A VERDADEIRA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:
Que se lixe isto, vamos pescar!

Modos de dar início à narrativa

O ‘princípio’ da narrativa não obriga, cronologicamente falando, a começar pelo início dos acontecimentos.

O escrevinhador pode aproveitar para apresentar o narrador da estória: alguém que vai rememorar os acontecimentos, e que, no princípio, preparará o ‘ambiente’, excitando a curiosidade do ouvinte e do leitor em conhecer os detalhes de algo que o narrador deixa suspenso.

Aqueles foram meus dias. (…) O senhor vá lá, verá. Os lugares sempre estão aí em si, para confirmar. (1)

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Pode dispensar o narrador e começar pelo fim, como acontece a propósito de alguém de quem nunca viremos a saber o nome, mas a quem acompanharemos da infância até à morte.

À volta da sepultura no cemitério desleixado, estavam alguns dos seus antigos colegas de Nova York, que recordavam a sua energia e originalidade (…) (2)

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desenho de Pawel Kuczynski

Ou pode ser pelo meio, por um dos muitos acidentes de percurso da estória, também como modo de excitar a curiosidade do leitor, e começar pelo início cronológico algumas linhas mais à frente.

Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota (…). (3)

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Pode, até, misturar nas mesmas linhas acontecimentos passados com intervalos de anos, numa narrativa que parece não ‘arrancar’, aparentemente circular, fluindo ao ritmo da memória.

Raimundo, o dos Casandulfes, pensa que Fabián Minguela passeia pela vida os nove sinais do filho-da-puta.

E quais são?

Tem paciência, lá os saberás pouco a pouco. (4)

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Lea Goldman ‘the story teller’

 

(1) in Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; ed. Nova Fronteira

(2) in Everyman, de Philip Roth; ed. Vintage Books

(3) in Cien años de soledad, de Gabriel Garcia Marquez; ed.Espasa Calpe

(4) in Mazurca para dos muertos, de Camilo José Cela; ed.Seix Barral

Endurance e fitness para o exercício literário

O escrevinhador deve ter o enredo à frente dos olhos quando sarrabisca ou digita obra de maior fôlego. O conto ou o poema tem outras exigências, mas o romance, ou novela, é como uma maratona: mesmo conhecendo o percurso, há que dosear o esforço com inteligência e preparar-se para surpresas.

‘O author trabalha desde antes de hontem no encadeamento lógico e ideologico dos dezesete tomos de reconstrucção, e já tem promptos dez volumes para a publicidade.’

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O enredo estruturado numa só folha de papel, capítulo a capítulo, ou por partes, não é um esquema rígido, mas mantém o rumo e assinala desvios.

Só de olhar para o esquema, o escrevinhador antecipa opções imprevistas duma personagem, a necessidade de surgir ‘alguém’ ou ‘algo’ para que se dê certo impulso (ou se dê certa volta) ao ritmo, ao rumo, à retórica.

‘Os capítulos inclusos n’este volume são preludios, uma symphonia offenbachiana, a gaita e o berimbau, da abertura de uma grande charivari de trompões fortes bramindo pelas suas guelas concavas, metálicas.’

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Relativamente a esta última, o escrevinhador pode sentir-se confuso a seu próprio respeito: umas vezes só lhe saem diálogos, outras vezes longas narrativas, vezes em que os textos são curtos, incisivos, outros nem disfarçam o prazer de divagar…

Que isso não seja motivo de preocupação: posteriormente fará opções, ajustes, correções.

Mas é necessario a quem reedifica a sociedade saber primeiro se ella quer ser desabada a pontapés de estylo para depois ser reedificada com adjectivos pomposos e adverbios rutilantes.’

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AVISO: A vida não é justa

Importante é perceber se o desenvolvimento do enredo progride, se o que ‘está para a frente’ é uma força centrípeta ou se é miragem. Durante a semana que vem tentarei explicar-me melhor a este respeito.

‘É o que se faz nas folhas preliminares d’esta obra violenta, de combate, destinada a entrar pelos corações dentro e a sahir pelas merciarias fora.’

 

nota: todas as citações em itálico foram retiradas da ‘Advertência’ de Camilo Castelo Branco, na 1ª edição de Eusébio Macário (1879), ed.Livraria Chardron.

As temíveis primeiras linhas

Quando o escrevinhador sente que é chegada a hora de colocar um ‘fim’ ao texto pode ser que tenha melhores soluções para o início, a abertura, as primeiras linhas.

E porquê nesta altura? Talvez por estar aliviado do peso, da tensão, do ímpeto, com que desenvolvia o tema até lhe dar uma conclusão. Por isso, está em condições de aperfeiçoar as frases, as ideias, a ordem dos acontecimentos.

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Ora, título e abertura são dois aspectos essenciais para que o leitor seja ‘agarrado’.

Não se trata de ‘marketing’ (que aqui neste blog muito se respeita e aprecia), nem de concessões fáceis a supostos gostos dominantes. As soluções variam e a única regra que proponho é a de não defraudar as legítimas expectativas do leitor.

Mesmo tendo esta regra muitas excepções (não menos legítimas quanto as referidas expectativas) ou sejam outras tantas as maneiras de trocar as voltas ao leitor sem o defraudar, em qualquer dos casos o factor surpresa, a evidência que o leitor passa sem notar (por precipitação ou preconceito), o enquadramento posterior que altera todo o entendimento inicial, são possibilidades a explorar pelo escrevinhador.

Portanto, trata-se de uma espécie de jogo entre quem escreve (que sabe o que quer e qual o remate final do escrito) e o leitor que entra em jogo só com os dados que o escrevinhador lhe dá.

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A narrativa ou poema não têm sequer de extrair o sentido a partir do tema, mas na forma como lidam com ele. Aparentemente, trata-se do domínio formal. Isso porque distinguimos, muitas vezes, entre forma e conteúdo, dicotomia que nem é pacífica, nem, muito menos, obrigatória, no âmbito literário: a escrita é forma e conteúdo, evidentemente.

Vejam-se, por exemplo, a forma encantatória do conto infantil (era uma vez…), o exórdio inspirador do poema homérico (fala-me, ò Deusa ou canta-me, Musa…), a fórmula dos evangelhos iniciarem um novo episódio da vida de Cristo (naquele tempo…): são aberturas formais perfeitamente conhecidas, criadas a pensar na recitação para um público ou ouvinte, e que têm como conteúdo uma estória mil vezes recitada ou um género claramente identificado.

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Com a popularidade da escrita e a ‘invenção’ do autor, a originalidade passa a exigir uma abertura menos óbvia e estereotipada. O enredo procura surpreender, inclusive na        (a)moralidade final, na ausência duma ‘mensagem’, na distância pretendida para com eventuais modelos e fontes de inspiração.

Como, pelo contrário, podem ser —abertura, enredo, conclusão, personagens— absolutamente ‘normais’, sem ‘efeitos especiais’, e surpreender pela linguagem, pelo estilo das frases, etc.

Vale tudo, não é mesmo? Excepto escrever livros aborrecidos.

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Começar de novo

O escrevinhador pode iniciar sua estória de modo lógico e sequencial ‘Era uma vez,…’ colocando tijolo a tijolo os alicerces do precário edifício que tem em mente. Sem preocupações de maior, excepto a de alinhar os acontecimentos, apresentar as personagens relevantes e outras, deixar fluir a escrita, tentar a bela musa.

clicar na imagem para ampliar

Ao fim dum tempo, mais ou menos longo, ao reescrevinhar pela enésima vez, o escrevinhador começará a brincar.

Umas vezes surpreendendo: “Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.” (primeiras linhas de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez)

Outras vezes trocando as voltas ao bom senso do leitor: “Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas , que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável.” (primeiras linhas de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, ed. Publicações Dom Quixote)

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Aí, certamente, o escrevinhador já sentirá o pulso firme do escritor segurando o fio de prumo do enredo.

Críticas, critérios e cretinos

O problema da crítica começa logo no sentido atribuído a “crítica”. No uso corrente, a crítica é sempre negativa, depreciativa, destrutiva, senão mesmo ofensiva; porém, a raiz etimológica da palavra e o seu uso erudito (na filosofia, na ciência, nas artes) tem um sentido instrumental, mais do que valorativo: trata-se duma apreciação, duma avaliação, dum julgamento.

Uma crítica positiva que valorize um poema ou um livro, p.ex., está tão obrigada a justificar sua apreciação, seu juízo, quanto uma crítica negativa. Aliás, a crítica nem tem de se posicionar como positiva/negativa. Sua função vai muito além do “balanço geral”, e é especialmente útil para o debate e progresso do conhecimento, como para o exercício do gosto e da criatividade.

-Gostas de poesia americana? -Naah, muitos verbos. -Canadiana? -Demasiado uso da voz passiva. -E que tal a polaca? -Demasiadas consoantes. -Escocesa? -Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

-Gostas de poesia americana?
-Naah, muitos verbos.
-Canadiana?
-Demasiado uso da voz passiva.
-E que tal a polaca?
-Demasiadas consoantes.
-Escocesa?
-Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

Vista assim, rareiam espaços e oportunidades para o exercício da crítica. E não admira: nada mais difícil do que assumir um critério, justificando razões, aceitando críticas à crítica e rebatendo-as de modo coerente e fundamentado, ou evoluir na própria argumentação a ponto de, inclusivamente, admitir erros ou reformular radicalmente o juízo inicial. Na verdade, a crítica é um diálogo e uma construção em progresso permanente.

As caricaturas de crítica que vulgarmente se ouvem e se lêem não passam de manifestações de gosto ou de carácter, coisas totalmente alheias à crítica como aqui se entende.

Quando o Leitor deste blog se queixar da falta de hábitos de leitura, do pouco interesse pelos livros e/ou boa literatura (e quem diz literatura, diz de qualquer arte), pense nisto: sem críticos, não há apreciadores.

E a crítica pode ser cruel, fria e desapiedada? Não, cruel nunca: a crueldade é uma patologia mental, e a crítica é uma actividade racional saudável e estimulante à convivência, mesmo quando não seja simpática aos nossos ouvidos. Porque o seu propósito não é reconfortar o ego dos autores, nem divertir leitores, mas obrigá-los a confrontar-se com suas próprias limitações. E seguirem todos mais além do horizonte da crítica.

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POESIA! ou: quanto vale a tua vida?
-Pá, os teus poemas mudaram a minha vida!
-Oh, obrigado! Queres comprar o livro? São 10 euros.
-Oh, umm…não obrigado.
-…
(tal como me foi contado por john t. unger)

a viagem como metáfora

Não surpreende, assim, que viajar se torne sinónimo de “transformação”, metáfora da “iniciação” aos antigos saberes ocultos (ou perdidos).

Ou seja um modo de narrar o amadurecimento, a abertura ao mundo (na sua pluralidade, nas suas diferenças). E, também, uma mudança arriscada, indesejada, que traz perigo e ameaça a integridade, física e psicológica, do viajante.

Também  há os relatos de viagens estereotipados, seja na versão lúdica das férias na praia, seja na literatura dos mistérios de antanho em versão new age: a mistura do disparate, do preconceito cultural, do kitsch, da ignorância boçal, das pretensões eruditas, etc, etc.

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