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O bigode da Gioconda

Escrevinhadores excessivamente escrupulosos evitam certas leituras, certos autores, por temor de duvidarem eles mesmos da originalidade dos próprios escritos. Assim, sentem-se de consciência tranquila se surgirem coincidências no enredo, nas personagens, em alguns detalhes da narrativa.

Tenho ao alcance da mão as definições de Elliot, de Arnold e de Sainte-Beuve,  razoáveis e luminosas sem dúvida, e seria me grato estar de acordo com estes ilustres autores, mas não os consultarei. Cumpri setenta e tal anos; na minha idade, as coincidências e as novidades importam menos do que aquilo que se tem por verdadeiro. Limitar-me-ei, pois, a declarar o que sobre este assunto pensei. (1)

EDUARDO ESTRADA5

Mesmo na literatura sagrada das mais diferentes religiões existem coincidências, que tanto se devem aos abismos do inconsciente humano quanto ao contrabando de mitos e crenças. Como há-de escapar às influências o simples escrevinhador, se até escribas inspirados pela voz de um anjo-mensageiro ou por um deus omnisciente repetem velhos estereótipos da criação, ascensão e queda da Humanidade?

Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas algo há na sua imagem que concorda com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em distintas latitudes e idades. (2)

'Ark, Noah - not arc!'

‘Arca, Noé – não um arco!’

Percebo que se evitem certas leituras em dado momento da escrita duma obra, mas duvido da sua eficácia e receio muito pelo que isso implique. Nos últimos vá lá 2500 anos, e de forma cada vez mais avassaladora, é impossível fugir à ‘influência’ —dos temas e outros aspectos da narrativa—  dada a fina malha cultural que entretece o imaginário, a mundividência, nossa memória colectiva.

Suspeito que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve tratar de ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas palavras são sinónimas), não de suas opiniões, que são o mais superficial que há nele. (3)

'It was a last-minute change, but a good one.'

Foi uma mudança de último minuto, mas uma boa mudança. Título do livro: ‘Guerra e Paz e Repolho’

O livro e o ensino, por razões evidentes, expuseram a população mais letrada a uma intensa contaminação de ideias, estórias e fórmulas literárias, mas o imaginário e a mundividência já são bebidos com o leite materno, embalados até adormecer no peito duma qualquer vizinha solícita, escutados com avidez à lareira junto dos mais velhos e assimilados no dia-a-dia entre conhecidos e desconhecidos… ou assim era dantes.

Hoje, a força conjugada dos mass media e da net tornam a influência omnipresente e opressiva, sem disso se ter consciência, e, por isso, sem desenvolver critérios entre o que é ‘original’ e o mero plágio ou estereótipo preguiçoso.

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável (…). (4)

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por aqui falei como uma obra anterior ao sec.V a.C., escrita por um cego grego —que, eventualmente, nem terá existido― pôde influenciar um poeta, guerreiro e zarolho português quinhentista, e um caixeiro-viajante cultural irlandês, que sofria de glaucoma, do sec.XX, os quais, por sua vez, inspiraram, já no sec.XXI, um académico nascido em Angola e que, por alguma razão, usa óculos.

Ou de como, no espaço de duas dezenas de anos, 3 nomes cimeiros da literatura de 3 países diferentes, escrevem sobre o mau comportamento de senhoras muito bem casadas (morrendo todas no final do livro, sujeitas aos comentários depreciativos da parte de outras personagens).

Plágio, em qualquer dos casos, nem pensar. Um insigne académico escreveu sobre a ‘angústia da influência’, e até intitulou o livro, coincidentemente ou não, A angústia da influência.

Como entendemos uma angústia? Sendo angustiados nós mesmos. Todo leitor profundo é um Perguntador Idiota. Pergunta: “Quem escreveu meu poema?” Dai a insistência de Emerson: “Em toda a obra de génio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados — voltam-nos com uma certa majestade alienada.” (…) A crítica é a arte de conhecer os caminhos ocultos que vão de um poema a outro. (5)

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-Não faço plágio… mas gosto do modo como este tipo expressou os meus pensamentos na secção de opinião.

Sem qualquer angústia, o já conhecido escritor argentino Pablo Katchadjian, em 2009, resolveu fazer aquilo a que chamou de ‘experimento literário’: ‘engordou’ (sic) o famoso conto —O Aleph― do ainda mais famoso escritor argentino Jorge Luís Borges, adicionando-lhe mais 5600 palavras às 4000 originais, dando-lhe o sugestivo nome de O Aleph Engordado. A ‘experiência’ parece que foi bem recebida nos meios literários argentinos, a avaliar pelo que pude ler em artigo publicado no El País por Carlos Cué.

Porém, representando os interesses (ou direitos de autor) da viúva de Borges, o advogado Fernando Soto exprimiu uma perspectiva notável: ‘Isto não é um experimento, afecta directamente o direito moral da obra, que foi alterada dolosamente. Queremos que reconheça que é uma ofensa à obra de Borges. É como se alguém pintasse bigodes na Gioconda.’*

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Vai daí, o autor do O Aleph Engordado é levado a tribunal e condenado (apelou, entretanto). Em sua defesa, alega que é ‘óbvio que não se pretende esconder um plágio de forma dolosa, que para isso se pensou a lei. O livro intitula-se El Aleph engordado e no final há uma explicação do trabalho que havia feito. Borges não é um monumento, é um escritor. A história da literatura é uma constante revisão e reflexão sobre a tradição. Borges defendia o plágio e sustentava que toda a literatura está construída uma sobre a outra, é absurdo este processo, é uma novela delirante.’ *

E sustenta que não tocou no original, só acrescentou.

Este factótum, em vez de limitar-se à tarefa específica, delapidou um tempo precioso lendo as sete lucubrações de Vilaseco. Chegou a descobrir que, salvo os títulos, eram exactamente a mesma. Nem uma virgula, nem um ponto e virgula, nem uma só palavra diferente! A descoberta, fruto gratuito do acaso, carece seguramente de importância para uma séria valoração da versátil obra vilasequista e se o mencionamos à última da hora é a título de simples curiosidade. (6)

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Ora, eu que não li o ‘engordado’, não vou discutir os méritos da obra. Provavelmente, se Katchadjian não tivesse incluído O Aleph original, a decisão jurídica teria lhe sido favorável.

(…) começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é uma linguagem de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca? (7)

Mas não me interessam as questões jurídicas, agora. O que acho relevante é a ‘tese’ do dr. Fernando Soto, sobre direitos morais das obras, sobre alterações dolosas, sobre ofensas à obra de alguém, sobre bigodes e giocondas. E a ideia de Katchadjian em ‘engordar’ obras alheias.

Gracias (…) pelo facto do poema ser inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e não chegará jamais ao último verso/ e varia segundo os homens (8)

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Sobre o primeiro, assusta-me a argumentação tão propícia ao fanatismo religioso, nacionalista, ideológico, quando se apropria do património cultural (e literário) e passa a assumir o direito de avaliar e condenar qualquer referência, glosa ou sátira. Daí a queimar livros, esfaquear ou balear escrevinhadores e editores, fazer explodir livrarias, não vai um passo assim tão largo, pelo que tenho visto nos dias da minha vida. Mais corriqueiramente, surgem a censura, a autocensura, a apreensão dos livros, as multas e penas de prisão.

Sobre o segundo, saúdo esta tendência saudavelmente infectante, contagiosa, da obra literária (na verdade, da obra de arte em geral), que nos faz redescobrir textos mais antigos e abrir horizontes insuspeitados por detrás daqueles que já conhecíamos.

Schopenhauer, Quincey, Stevenson, Mauthner, Shaw, Chesterton, Léon Bloy, formam o censo heterogéneo dos autores que releio continuamente. Na fantasia cristológica intitulada ‘Três versões de Judas’, creio pressentir a remota influência do último. (9)

Mas o mais saboroso é a ironia extraordinária deste pleito jurídico ter como referência a obra de Borges. O mesmo Borges que, cotejando um fragmento do texto original do Quixote de Cervantes com o texto exactamente igual do Quixote de Menard, fictício autor do sec.XX, descobre-lhe as diferenças nas ideias e nos estilos.

O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico (Mais ambíguo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.) (10)

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* do artigo publicado a 28/06/15 no El País por Carlos Cué

(1) de ‘Sobre los Clásicos’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(2) do ‘Prologo’ in El Libro de los Seres Imaginarios de Jorge Luis Borges (com a colaboração de Margarita Guerreiro) ed.Bruguera Alfaguara

(3) do ‘Prologo’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(4) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(5) in A Angústia da Influencia de Harold Bloom trad.Marcos Santarrita, Imago Ed.

(6) de ‘Ese Polifacético: Vilaseco’ in Cuentos de H.Bustos Domecq de Jorge Luis Borges ed.Seix Barral

(7) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(8) d’ ‘Outro Poema de los Dones’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(9) do ‘Prólogo’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

(10) de ‘Pierre Menard, autor do Quixote’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

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Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

Escrever para crianças (dois pontos ou três…):

Será preciso lembrar que ‘crianças’ é uma generalização inútil (em literatura, pelo menos), e que escrever para leitores de 8-10 anos não é o mesmo que escrever para analfabetos de 3-5 anos?

A linguagem utilizada, naturalmente, deve ter em conta as limitações impostas pela idade, tal como certos efeitos estilísticos podem atrapalhar, por não serem entendidos.

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Mas a grande diferença, à partida, está em que a escrita para ser lida em voz alta deve valorizar as características da oralidade e, não menos importante, construir um texto que facilite a rememoração. Isso pode ser conseguido utilizando fórmulas assumidamente estereotipadas, como sejam poemas com rima e métrica, personagens tipificadas, frases feitas.

Neste caso, o escrevinhador pressupõe que o leitor irá dramatizar a leitura para uma audiência de (pelo menos) um ouvinte a várias dezenas (ou mais), a quem tem de prender a atenção e facilitar o entendimento desde as primeiras linhas até ao fim. E, assim sendo, o texto deve ter as necessárias indicações para quem ‘conta’ poder recorrer à panóplia de recursos que tenha (tons de voz, expressões de rosto, gestos e movimentos, gestão do silêncio, noção do ritmo, e outros).

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Deste modo, os recursos estilísticos podem ser usados com maior liberdade, pois há a mediação de um adulto que os reconhece, podendo ‘exprimi-los’ de forma não-textual, eventualmente sem recurso à própria oralidade: ironias e hipérboles que, lidas por crianças mais velhas são ainda entendidas literalmente (ou de modo algum entendidas), e que, através desta mediação, podem ser entendidas como tais, graças ao recurso a caretas, gestos desmesurados,vozes em falsete. Por exemplo.

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Para crianças com capacidade de leitura, a ausência de um narrador em carne e osso será a situação mais frequente, o que deverá levar o escrevinhador a ter maior cuidado com a ambiguidade na construção do texto e do enredo. O que não quer dizer que a exclua, antes pelo contrário.

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Obviamente, antes de escrever, o escrevinhador poderá aprofundar algumas noções de psicologia infantil, de pedagogia e coisas assim. Mas, importante mesmo, é manter o contacto com a criança que foi e com crianças, em geral.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

É provável que, desse modo, reveja certas ideias feitas sobre o entendimento, a inocência, os interesses, as dificuldades e problemas, assim como os sonhos e anseios, de uma idade que lhe está, a cada dia, mais distante.

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Palavras ambíguas

Por vezes, neste blog que se pretende tranquilo e cordial, surgem mensagens de leitores especialmente sensibilizados pelo uso de certas palavras. No post anterior voltei a falar da ‘escrita que privilegie a ambiguidade’, dando a entender o potencial de complexidade que isso pode trazer para o enredo. Mas sobre a ‘ambiguidade’ já falei mais detalhadamente aqui.

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Há palavras (e ideias por detrás das palavras) que incomodam ou intrigam o leitor. Sua aparição nos textos podem levá-lo a abandonar a leitura ou a afundar-se nela. E o escrevinhador também é surpreendido pela força que essas palavras têm, como se nelas houvesse um poder oculto que o inspira e/ou inspira o leitor.

Palavras mágicas, malditas, sedutoras, tóxicas…

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Na poesia, tanto o escrevinhador como o leitor estão particularmente atentos às diferentes dimensões da palavra, aos múltiplos sentidos e sonoridades, à particular evocação que cada um lhe encontra.

Também por isso, há palavras que parecem gastas, estafadas, ocas, de tanto repetidas. Porém, são os usos, o contexto, que as banalizam e esvaziam, não as palavras em si.

"Quem são estas crianças e porque é que me chamam de 'MÃE'?"

“Quem são estas crianças e porque é que me chamam de ‘MÃE’?”

O potencial da palavra afecta a frase e esta condiciona a expressão da ideia, da sensibilidade e dos afectos, mas esse potencial é variável de palavra para palavra e de pessoa para pessoa, conforme alerta Luísa Dacosta a quem cito a este propósito ali.

Um desafio permanente para a saúde e boa forma da língua (qualquer língua) é o da sua renovação ao reutilizar as palavras de sempre de modo diferente, sem lhes atraiçoar a origem, nem distorcer o sentido: o olhar de quem lê, o ouvido de quem ouve, o palato de quem fala, a mão que a escreve, a pele que se arrepia com o seu impacto, os aromas que o sentido sugere, percebem a novidade…que nem tem de ser, necessariamente, uma absoluta novidade. Talvez uma redescoberta.

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Temas duma época: o Verão

Há uma agitação editorial que se associa ao Verão, ao tempo de férias e de praia, expressa por publicações ‘light’, supostamente divertidas e da autoria de ‘famosos’, pela edição de best-sellers de autores já conhecidos, e coisas assim para ajudar a passar o tempo sem o ocupar: a antítese da paixão de ler, realmente.

Enviar SMS's enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Enviar SMS’s enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Ao Verão associam-se temas como as viagens de lazer e descoberta, os regressos e reencontros que trazem memórias de outros Verões, artes de sedução, episódios festivos. Muito para além do registo lamecha ou do pseudo-transgressor, existem bons exemplos de estórias centradas nos encontros e desencontros da época.

Paralelamente, há escrevinhadores que desenvolvem temas mais introvertidos e controversos: a solidão voluntária ou sofrida, a pausa para reflexão, a fuga à rotina ou a imersão na rotina própria da temporada, o tédio existencial e a miragem duma vida-outra.

'Nighthawks', Edward Hopper

‘Nighthawks’, Edward Hopper

Porém, é bom recordar que o Verão não se resume a um período de lazer. No passado longínquo, como no recente, as guerras europeias têm tendência a começar nesta época: primeira e segunda grande guerra, guerras civis de Espanha e da Jugoslávia, para ficar só pelos sec.XX e XXI. E no tempo em que as actividades rurais ocupavam a maior parte da população, os latifúndios exigiam o trabalho sazonal de migrantes em grande número, sendo o tempo de Verão especialmente penoso, ainda que pudesse ser visto numa tonalidade dourada e nostálgica.

Ou seja, trata-se duma época dotada para a escrita que privilegie a ambiguidade, o contraste entre as expectativas e o vivido, onde as personagens podem ser abordadas numa perspectiva caricata e, simultâneamente, humana como é próprio dum certo tipo de ironia.

-Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.

“Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.”

O que traz, no fundo, uma boa dose de complexidade ao enredo, mesmo que se limite ao registo de uns pouco dias de Verão na vida de alguém.

Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

A trilha e o horizonte

O enredo é um plano que o escrevinhador giza e depois irá desenvolver; é um mapa para orientação do escrevinhador, obrigando-o a rever se está no caminho certo ou se anda às voltas e precisa de perceber o que se passa; é uma estrutura à qual a narrativa adere e graças à qual torna-se articulada nas suas distintas partes, ganhando autonomia do próprio escrevinhador.

Pedi ao escrivão para chamar pelo meu irmão João, que, surpreendentemente (porque nunca havia tido irmãos), veio e me fez saber, pela benigna voz do médium, que não devia me preocupar com ele pois estava com Deus e que sempre rezava por mim. Tranquilizado com esta notícia, desinteressei-me pela sessão (…). (1)

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Você é um cidadão normal ou é dos que pensam?

Não é definitivo nunca: a morte da personagem X na conclusão da narrativa pode, afinal, ser mesmo evitada  ou deixada no limbo da ambiguidade…e porquê? Será que o escrevinhador se condoeu da pobrezinha? Ou descobriu-lhe um potencial até então desconhecido? Como todos os planos, o enredo sempre pode ser alterado e o leitor nunca o suspeitará, não pelo livro que tem entre mãos.

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Na realidade, o escrevinhador vê no enredo um horizonte para o qual caminha, mas sente-se livre de se desviar ou de seguir mais além ainda. Como mapa, é igual a todos os mapas: quando o escrevinhador pisa o terreno, penando pelo esforço ou entusiasmado com o que o enredo não revelara, tanto pode ser picado pelo bicho venenoso que extingue a inspiração, como ser beijado pela musa uma e outra vez.

Como aconteceu com todos os meus romances anteriores, de cada vez que pego neste, tenho de voltar à primeira linha, releio e emendo, emendo e releio, com uma exigência intratável que se modera na continuação. (2)

-Algém que eu julgava perdido nas minhas recordações veio me dizer que estava no mau caminho...

-…Alguém que eu julgava perdido nas minhas recordações veio me dizer que estava no mau caminho…   -Ah…ao menos esse alguém te entendeu bem…

Assim, torna-se também uma estrutura adaptável, modulada, e necessariamente frágil. Pode acontecer que o enredo, desde o início, aponte para um determinado fim (embora o leitor não o tenha de saber) e o próprio escrevinhador entenda que alterá-lo desvirtua o sentido da obra: é o que o Coro das antigas tragédias insiste em no-lo recordar. Mas a liberdade criativa permite-o, a estrutura é que deverá sofrer alterações e o resultado já não será o mesmo.

Não gosto do que acabo de escrever—mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E eu respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.(3)

Se o escrevinhador respeitar o enredo, provavelmente será assaltado por muitas dúvidas…mas esse é um bom sinal. É a prova de que as estórias no interior do enredo, assim como as personagens, têm autonomia própria e impõe sua lógica, sua dinâmica.

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Resta saber se o escrevinhador tem pulso para lidar com essas estórias e personagens, sem se perder na complexa trama do enredo.

Esta história que me propus escrever é ainda mais difícil do que eu pensava.(…) A arte de escrever histórias está no saber tirar das pequenas coisas, que se apanham na vida, todo o resto; mas acabada a página retorna-se à vida e apercebemo-nos de que o que sabíamos era o mesmo que nada. (4)

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(1) in La Tia Julia y el Escribidor, de Mario Vargas Llosa, ed. Seix Barral

(2) in Cadernos de Lanzarote, de José Saramago, ed.Caminho

(3) in Água Viva de Clarice Lispector, ed.Nova Fronteira

(4) in O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino, trad.Fernanda Ribeiro, ed.Teorema

O temor da possessão

O tópico deste post tem aplicação prática para qualquer género de escrita, já que incide sobre a reprodução fiel do ponto de vista alheio, principalmente quando diametralmente (senão visceralmente) oposto ao do escrevinhador.

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aqui referi um exercício que praticava com minha filha, quando tinha ela cinco, seis anos, para a ajudar a memorizar e recitar alguma cantilena ou poema como trabalho a apresentar na escola: uma vez interpretava-o conforme lhe parecia correcto, depois como se estivesse muito, mas muito feliz, a seguir como se tivesse muito, mas muito triste, e ainda a seguir como se tivesse muito, mas muito, zangada. Em alguma coisa melhorava a sua tarefa e interpretação.

Na narrativa de ficção, uma das dificuldades maiores está em criar personagens verosímeis e distintas umas das outras. Muito frequentemente, o escrevinhador tenta levar o leitor a desenvolver um sentimento ‘primário’ em relação às personagens, o que as empobrece e arrisca-se a torná-las desinteressantes, contaminando o enredo que até pode ser estimulante.

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Num trabalho mais ‘sério’, referindo-se a pessoas, factos, formas de pensar ou de crer, o escrevinhador corre o risco de tomar partido, de revelar preconceito, de escamotear factos, de distorcer pensamentos.

A menos que tenha mesmo a intenção de manipular a informação, o escrevinhador deve ter cautelas contra suas próprias limitações. Como diria Charles Scott, antigo editor do jornal ‘Manchester Guardian’ (‘The Guardian’ hoje em dia): os comentários são livres, mas os factos são sagrados; é bom ser sincero, mas ser justo é melhor. Os manuais de jornalismo estão cheios de ensinamentos neste capítulo.

"Por vezes, demasiado duma coisa boa pode tornar-se numa coisa má."

“Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode tornar-se numa coisa má.”

Obviamente, numa obra de ficção pode-se fazer passar o pirata sanguinário por um rebelde com causa e com boa moral, o herói da terra por um covarde ou traidor que as circunstâncias ou as intrigas conseguiram enganar toda a gente (quase) todo o tempo, e assim por diante.

Mas respeitar a ‘verdade’ da personagem sem distorcê-la, sem amesquinhá-la, sem ser complacente, nem juiz ou cúmplice, é algo totalmente diferente. Sobre isto também já foi aqui desenvolvido.

Se o escrevinhador aceita o desafio, tem mesmo de ‘incorporar-se’ na personagem, raciocinar como ela, exprimir suas ideias e ao seu modo. Evitando a caricatura, o traço grosso, enfim, não tem por que temer ser confundido com as personagens das suas ficções.

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Sendo odiosa, nem por isso a personagem tem de ser um ‘monstro’, nem tem de ser desumanizada. Aliás, nada é mais perturbante do que a revelação do ser humano por ‘detrás’ da criatura aberrante.

É o contexto do enredo que permite ao escrevinhador jogar com todas estas variações, reforçando a complexidade da realidade, desmistificando-a e obrigando o leitor a, também ele, ‘incorporar-se’ na personagem sem temor de ficar ‘possuído’.

Temor muito comum em todas as categorias de censores, que por isso mesmo exorcizam as passagens ambíguas, senão livros inteiros, para maior tranquilidade social e facilidade cognitiva para distinguir o bem do mal.

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ilustração de Paula Rego para As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi ed.Cavalo de Ferro

Reconstruir os alicerces do texto

Para iniciar a revisão crítica do texto, depois de concluída a fase criativa, é fundamental que o escrevinhador se distancie emocionalmente do processo.

O ideal será passar alguns dias sem lidar com ‘aquele’ texto, já que, ao retomá-lo, irá estar muito mais atento ou sensível aos erros, incongruências, deselegâncias, banalidades e muitos outros defeitos.

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O problema varia consoante o escrevinhador, o momento ou a obra, mas tem sempre a ver com o natural envolvimento emocional focado na intensidade do enredo (ou do processo criativo), insensibilizando a atenção para detalhes técnicos. Às vezes, essa emoção sobrevaloriza aspectos secundários, dando-lhes espaço e destaque injustificado.

Por isso, num momento posterior em que o vinculo emocional é menos forte, graças ao distanciamento criado pela quebra da rotina, pela atenção dada a outros projectos ou aspectos da vida pessoal, o escrevinhador pode proceder à revisão crítica com acuidade.

Ao nível mais básico, possivelmente encontrará erros ortográficos e gramaticais: prejudicam a comunicação com o leitor, podem ser mais ou menos vergonhosos, mais ou  menos comprometedores no que toca ao estilo, à beleza, à fluidez do texto.

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Erros frequentes em escrevinhadores de todos os tipos de formação, actividade profissional e etc e tal (podem até ser ilustríssimos desconhecidos que escrevem em blogs que dão dicas sobre escrita!), devido à tal intensidade emocional em que formulações mentais e formas de oralidade se ‘atropelam’ no texto, onde as regras de comunicação são outras.

Certamente, a fragilidade duma aprendizagem formal da Língua, a falta de hábitos de leitura activa (distinta da passiva porque não se esgota na ‘mensagem’) e de escrita, contribuem muito para esta categoria de erros.

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Para além dos chamados ‘erros de palmatória’ (não faço a menor ideia qual seja a origem desta expressão…), existem outros não menos importantes, por vezes bem escondidos em longas frases confusas. Dos mais arreliantes são aquelas situações em que o leitor fica na dúvida qual seja o sujeito de determinada frase, criando ambiguidades tanto maiores quando, em qualquer das hipóteses, a frase tem sentido.

A terapêutica duma escrita de frases sucintas, logicamente encadeadas, pode ser bom remédio para a maioria das situações, obrigando o escrevinhador a desenvolver o alerta interno sempre que é tentado a esticar, esticar, colocando virgulas a eito como em certas estradas colocam placas de transito nos últimos metros antes do cruzamento.

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Porém, este remédio não é tão eficaz  para o caso da poesia, onde os artifícios estilísticos são muito mais ricos e variados, o que é sinónimo de terreno traiçoeiro e movediço.

 

 

 

Questões de gosto e de modas

Se não tem compromissos editoriais, nem público-leitor a quem justificar fidelidades, por que há-de o escrevinhador se preocupar com o ‘sucesso’? Por que há-de angustiar-se com a ‘formatação’ daquilo que está escrevendo neste momento? 

Sou um autor de 'edições de autor' que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Sou um autor de ‘edições de autor’ que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Também aqui não existem respostas simples.

O ‘sucesso’ é uma aspiração legítima, um critério de valor, e a ‘formatação’ será o modo como os escritos estão estruturados num todo coerente e atraente do ponto de vista do leitor. 

O escrevinhador procura ‘a’ fórmula que resulte, aquela que vai de encontro às expectativas do leitor. Portanto, há que estar atento às tendências, aos gostos dominantes, ao que está na moda.

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Assumindo que os leitores valorizam menos o estilo e mais os conteúdos, por exemplo. Também se pode supor que o interesse pela estória será sempre maior quando o ritmo for rápido, as surpresas variadas e o desfecho imprevisto.

E, para facilitar a leitura e a compreensão ao leitor, evitam-se complicações estilísticas, caracterizações ambíguas, dilemas sem resposta evidente, referências extra-textuais, coisas assim que desafiam o entendimento e podem enfastiar o infeliz, levando-o a pousar o livro de forma definitiva e sem apelo.

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Os riscos duma tal abordagem são evidentes: se o enredo não estiver à altura das expectativas e/ou o ritmo ficar aquém da intensidade para ‘agarrar’ o leitor, o vazio literário torna-se óbvio.

Além disso, há sempre o risco de errar na premissa da fórmula: a de que o escrevinhador conhece os gostos, as tendências dominantes.

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Se fosse muito, mas muito crítico, diria que essas coisas a que chamam ‘tendências’, ‘gostos’ ou ‘moda’ são construções elaboradas, produzidas para servirem de orientação aos consumidores (e não é que o disse?!)

Talvez fosse melhor, por tudo isto,  que o escrevinhador novato nestas andanças não condicionasse a criatividade aos modelos estereotipados daquilo que possa julgar ser ‘o’ público-alvo. 

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A ambiguidade inequívoca

Habituados os leitores à exaltação da virtude da Verdade e da Certeza na vida social pública e privada, muito mais ainda na esfera política e económica, compreendo que fiquem alguns escrevinhadores perplexos com a insistência com que neste blog se propõe a ‘ambiguidade’ como valor literário e critério de avaliação do texto e do enredo.

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Atribuir às palavras uma correspondência com “as coisas de fora”, vê-las e usá-las como algo que representa a “realidade” do mundo, não é apenas uma ilusão comum. Torna também a linguagem uma mentira. (in Presenças Reais de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed. Presença)

Já noutros posts se falou algo sobre isso, mas creio nunca ser demais caracterizar o ‘literário’ como o exercício da ambiguidade. Não como um ‘vício’ da linguagem (ou de carácter), mas como expressão da polissemia das palavras, dos potenciais sentidos duma frase.

Poema de geometria e de silêncio/Ângulos agudos e lisos/Entre duas linhas vive o branco (‘Poema’ in Coral de Sophia de Mello Breyner, ‘Obra Poética’ ed.Caminho)

Este é um dos ‘segredos’ da poesia: mesmo sob o rigor formal da composição, sua liberdade de interpretação escapa ao próprio escrevinhador a partir do momento em que o leitor a lê.

'I'm a divorce lawyer. That helps a lot because as a sideline, I'm writing love poems.'

‘Sou um advogado especializado em divórcios. Isso ajuda-me muito porque também escrevo poemas de amor.’

A ambiguidade também pode ser vista como técnica de construção das personagens, dando-lhes espaço para afirmar a ‘sua’ verdade sem serem agrilhoadas a uma tipologia que as empurre para o lado dos ‘bons’ ou dos ‘maus’.

Que te disse pois, outrora, Zaratustra? Que os poetas mentem demasiado? E contudo o próprio Zaratustra é poeta. Acreditarás agora que ele tenha , neste ponto, falado verdade? E, se assim é, porque o acreditas? (in Assim falava Zaratustra de Frederico Nietzsche trad.Carlos Grifo Babo ed.Presença)

E, deste modo, estendendo-se a ambiguidade ao próprio enredo.

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A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio: essa é que é a regra do rei! O senhor…Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira)

Todavia, a ambiguidade é a própria medida da capacidade de interpretação do leitor. Como se o acto de criação não terminasse com o fim da escrita.

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O que leva a outro tópico do post anterior: as cidades antigas e as marcas de exploradores ‘num mundo sempre novo por explorar’.

O poder da palavra

Mais do que o comum dos mortais, o escrevinhador deve ter consciência do poder da palavra oral e escrita. Afinal, não é outra a matéria-prima do seu ofício, passatempo ou paixão. Porém, tanto existem os fetichistas da palavra como pululam os seus banalizadores.

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Arte vem do latim ars, artis. É uma raiz na língua latina. É natural que venha também do grego. A etimologia desconhece-lhe a procedência. Temos, pois, que seguir por outros caminhos. Vamos, por exemplo as palavras compostas com a raiz latina Arte. E temos imediatamente artelho, articular, artificial, isto é, palavras que designam não só o movimento como também o próprio fornecimento do movimento.

Além disto, encontramos também a palavra inerte que quer dizer ‘sem movimento’ ou à letra: sem arte. E a seguir aparece-nos o mais extraordinário destes exemplares, a palavra artilharia. […] E neste caso o que significava então artilharia? Exactamente isso: o poder do engenho, a força do artifício.

(in Textos de Intervenção ‘arte e artistas’ (II parte) de José Almada Negreiros ed.Estampa)

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Ora, a palavra nada tem de sagrado ou poderoso em si mesma, tal como qualquer de nós poderá experimentar ao ouvir egípcio antigo. E, contudo, conforme a entoação e a voz, o ouvinte poderá ser enfeitiçado pela sonoridade das palavras desconhecidas. Aqui pode se tratar da magia da música e do cântico, mas o mesmo se pode repetir só de ver textos escritos na forma cuneiforme ou em hieróglifos. Efeitos secundários do desenho, do grafismo, da caligrafia?

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poema gráfico O Organismo de Décio Pignatari

Regressando ao aqui e agora das nossas preocupações triviais: acrescente-se ao que foi dito acima o sentido das palavras, e o que temos?

O feitiço da sonoridade, a magia da música e do cântico, os efeitos secundários do desenho das letras/palavras, e o turbilhão das emoções para que o sentido nos arrasta ao mexer nas memórias íntimas, ao suscitar a polissemia, ao levar-nos para a geografia da ambiguidade.

"Um momento! Ontem tinha dito que X era igual a dois".

“Um momento! Ontem tinha dito que X era igual a dois!”

Nem palavra sagrada (ou hieróglifo), nem palavra gasta: o escrevinhador com pretensões literárias tem aqui um mundo sempre novo por explorar, ainda que descubra, a cada passo, vestígios de antigas cidades e marcas de exploradores que já por aqui passaram. Normal, pois quando se fala da ‘palavra’, é da linguagem que falamos, na verdade. Ou da ‘Língua’. Como ‘Língua Portuguesa’.

Quanto a mim, não sei línguas. Trata-se da minha vantagem. Permite-me verter poesia do Antigo Egipto, desconhecendo o idioma, para o português. Pego no ‘Cântico dos Cânticos’, em inglês ou francês, e, ousando, ouso não só um poema português como também, e sobretudo, um poema meu.

(in Photomaton & Vox de Herberto Helder ed.Assirio & Alvim)

Palavras, chaves e magia

Nunca é demais insistir na importância dos preliminares: o tempo dedicado antes resultará em maior prazer e intensidade durante e depois do acto solitário do escrevinhador. Aumentando, portanto, a possibilidade de satisfação do leitor.

"Se queremos que esta relação funcione temos de começar a comunicar.

“Se queremos que esta relação funcione temos de começar a comunicar. Começo primeiro: tira os pés de cima da mesa.”

Ora, como preliminares já foram aqui referidas alguma técnicas simples: viver uma vida, ler muito e bem, cultivar o grãozinho de loucura, viajar (mesmo sem sair de casa ou limitando-se a ir até ao fundo da rua).

E ter a rotina de tomar notas, recolher fragmentos de ideias e memórias, acumular impressões (tanto as fugazes como as duradouras), registar frases soltas e expressões…enfim, a matéria-prima de tudo o que possa se tornar um texto.

É como um diário abreviado. O importante é escrever qualquer coisa todos os dias.

É como um diário abreviado. O importante, na verdade, é escrever qualquer coisa todos os dias.

Também nisto existe o modo fácil e complicado, assim como o difícil e simples.

O primeiro caracteriza-se por anotar muito, em detalhe, obsessivamente, ou muito, pouco ou quase nada, tanto em detalhe como pela rama, obsessivamente ou nem por isso.

Por este modo o próprio escrevinhador aborrece-se e larga a rotina (ou tentativa de criação duma rotina), embrulha-se nela de modo estéril, afoga-se numa colecção de caderninhos ou ficheiros .doc de que só a muito custo extrai alguma ideia promissora.

Por vezes, acaba por descobrir a sua vocação maníaca e, com algum talento, talvez resulte em mais do que o amontoado de tretas de um observador sem critério.

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O segundo modo caracteriza-se por desenvolver uma percepção (ou várias), capaz de englobar pontos de vista (perspectivas) diferentes, contraditórios, normais ou aberrantes. Numa ideia: pôr-se no lugar do Outro, sendo o ‘outro’ todo o ‘ser’ que não o do próprio escrevinhador.*

Por essa via surgem personagens autónomas e genuínas. Ou enredos complexos, verosímeis ainda que fabulosos. Ou um sopro poético capaz de abalar o leitor.

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Essa percepção, na fase da tomada de notas, como deve ser registada?

Idealmente, por um número muito limitado de palavras: para se manter disponível (ou o escrevinhador passa à redacção de um rascunho ou vive o momento, é ilusório fazer ambas as coisas simultaneamente) e para apurar os sentidos crítico e estético que, mais tarde, serão fundamentais para recuperar a intensidade daquele momento.

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Daí empregar o termo ‘palavras-chave’: aquelas que, no imaginário e sensibilidade do escrevinhador, ajudam-no a reviver o momento original e inspirador. Quais são? Querem uma dica?!

Bem, essa é uma descoberta a fazer por si próprio. É como o outro que dizia que ‘lyrio’ com ‘y’ é que representava a flor.

Quando bem feito, a magia acontece.

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* Dito assim para simplificar, pois há escrevinhadores que exprimem o Outro em si mesmo, escrevinhador, quando não mesmo os Outros (não, não se trata de transtornos de personalidade).

 

A criatura e o criador

Sendo o texto uma criatura viva, é infiel ao criador ao permitir-se ir muito mais além do que este pretende, traindo intenções obscuras, permitindo derivações imprevistas, surpreendendo-o com uma autonomia desconcertante.

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Também é verdade que o texto definha e sobrevive mal em sequência de um acto criativo falhado, condenado ao ridículo e à obscuridade, senão ao extremo de se abrigar no antro das leituras enfadonhas que o leitor, avisadamente, evita.

Mesmo que tenha passado por uma fase inicial de popularidade e reconhecimento público: o juízo crítico será sempre mais duradouro do que as tabelas dos top, as últimas novidades chegam cada vez em maior número e mais depressa, a indústria cultural faz pela vida e as campanhas de marketing têm orçamentos e prazos de validade.

"Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever? Eu pretendo reescrever a História."

“Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever?- Eu pretendo reescrever a História.”

Escrever como quem quer ir ao encontro dos gostos, das modas, dum obscuro, potencialmente promissor, nicho de mercado? Óptimo, genial, provavelmente ninguém antes pensara nisso.

Escrever como que poupando ao leitor o incómodo de parar para reler e melhor entender? Que solução eficaz, sem complicações, nem ambiguidades!

Escrever como que evitando as referências e dificuldades que, presumivelmente, a maioria dos potenciais leitores manifestamente desconhecem e fogem de enfrentar? Ligeiro e superficial para se usar em qualquer dia do ano, sem dúvida.

LER FAZ VIVER prazer

LER FAZ VIVER
             Prazer15mg Curiosidade8mg Imaginação10mg Revolta12mg Saber9mg  Agentes de sabor:muitos!

Culpa dos leitores…ou da falta deles?! Claro, claramente que sim. E também!

Mas seja qual for o ângulo da acusação, por maior que seja o rosário de culpas ou o banco dos réus, a qualidade do texto não tem de depender senão da relação do escrevinhador com a bela Musa.

Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui’. (in Fedro de Platão, ed. Guimarães e Cª 1981 tradução de Pinharanda Gomes)

Louca inspiração, portanto. Sem álibis.

Ah, se tudo fosse assim tão simples…

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-Amo-te.
-Amo-te muito!
-Olá, bode! Eu amo esta rapariga!

A fala de um homem mau

Escrever sobre um período histórico e desenvolver um enredo onde a ficção e a realidade se cruzam, confrontando pessoas concretas com outras imaginadas, factos e episódios reais e incontestáveis enredando-se com outros incertos ou claramente inventados, é sempre um desafio estimulante para o escrevinhador.

Por exemplo, um enredo em que vítimas, opositores e cúmplices têm voz através das personagens que intervêm ao longo da narrativa, exprimindo directamente seu juízo sobre certo ditador, figura histórica e bem documentada.

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Este último facto pode ser útil ao autor, mas obriga-o a um rigoroso exercício de verosimilhança, que não é mais do que uma restrição à liberdade criativa, se é que há pretensão de respeitar a verdade histórica.

Porém, a ‘verdade histórica’ tem sempre áreas de sombra, sequências cronológicas obscuras, testemunhos contraditórios cuja elucidação não é fácil, o que dá origem a narrativas históricas mais ou menos contrastadas e polémicas, ou seja, interstícios de sombra e luz que a ficção pode recriar.

Na Festa do Chibo de Mário Vargas Llosa (ed.Dom Quixote), o autor sonda os meandros da personalidade dum homem a todos os títulos brutal e repugnante, dotado dum poder (quase) absoluto há várias décadas.

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E fá-lo dando-lhe a ele, ao homem brutal e repugnante, voz activa. Não para se condenar e pedir perdão, nem para se defender e apresentar atenuantes. Também não para se justificar e dar uma versão gloriosa dos seus actos.

Muito menos para fazer dele uma marionete de ventríloquo, e assim o autor comprometê-lo de modo ostensivo, de acordo com a personagem odiosa que a história e a memória popular retiveram.

O que Vargas Llosa faz é um artifício literário típico: a personagem pensa ‘em discurso directo’, permitindo-nos acompanhar todo o fio dos seus pensamentos, na verdade, os fios dos pensamentos, que se enovelam ao longo do tempo, num processo que é familiar a qualquer ser pensante e reflexivo. Como o leitor é suposto ser.

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A verdade relativa

Tal como se pode apreciar alguém pelo modo como trata os outros, inclusive os animais, o modo como o autor lida com as suas personagens diz tudo sobre o respeito que lhes tem e à inteligência do leitor.

Porém, o ponto de vista que proponho aqui não é pacífico: a autonomia da personagem em relação ao seu autor tem consequências e, eventualmente, pode não passar duma ilusão.

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Por outro lado, a qualidade literária duma obra não é, necessariamente, prejudicada ou salva pela autenticidade das suas personagens. Conforme repito ao longo destes posts, quase obsessivamente: vale tudo, em literatura. E nada é certo.

Mas como é estimulante ler e deparar-me com uma personagem familiar, ou seja, cujo estereótipo é bem conhecido e faz parte da minha mundividência, para ser, de seguida, surpreendido pelo modo como o autor lhe dá espaço para se afirmar e diferenciar, ainda que dentro do enquadramento geral do estereótipo.

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A este propósito referi, anteriormente, o tratamento dado na Ilíada aos dois heróis das duas partes em confronto na Guerra de Tróia:

-Aquiles, o arquétipo do Grande Guerreiro, um semi-deus capaz de prodígios em combate, amua e, por isso, deixa de cumprir suas obrigações para com os companheiros de armas, só voltando a assumi-las quando é atingido pessoalmente e é tomado pelo desejo de vingança, desrespeitando depois códigos de honra e de conduta elementares.

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-Heitor, um grande guerreiro que manifesta toda a sua humanidade ao exprimir o imenso amor pela mulher e pelos filhos, ao mesmo tempo que vive a responsabilidade de comandar um exército, de enfrentar o inimigo em campo de batalha e, assim, garantir a defesa da sua cidade.

Se o propósito de Homero é colocar o estereótipo do Grande Guerreiro em questão, levando-nos a reflectir sobre o valor destes dois modelos em confronto, não o faz dizendo explicitamente qual é o seu favorito, nem colocando o odioso encima de Aquiles. Este tem, aliás, oportunidade para se justificar recorrendo à argumentação que qualquer guerreiro da época poderia entender e partilhar.

E quando Aquiles exprime, em lágrimas e com raiva, suas próprias debilidades, torna-se autêntico, humano demasiado humano, sujeito a ser julgado nos seus actos e intenções, mas também a ser entendido e, eventualmente, a ver mitigado o juízo mais severo.

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O autor não se pronuncia, relata os ‘factos’, deixa às personagens a responsabilidade de se afirmar e justificar.

Ao leitor caberá o juízo. Jamais definitivo.

A força do estereótipo

No tempo em que minha filha era pequenita, ela tinha de memorizar uns poemas ou cançonetas para recitar na escola diante de toda a turma. Além do nervoso miudinho de se expor ao ridículo, havia a dificuldade de memorizar todo o texto; quando achava que estava minimamente preparada vinha ensaiar para mim e, geralmente, fazia-o numa toada qualquer que a professora dera na apresentação do trabalho.

Esse é um dos vícios mais comuns de escrita, o de reproduzirmos esquemas que são habituais em determinadas situações e enredos. A esse vício chama-se estereótipo, numa alusão explícita à impressão em série da mesma imagem ou texto (também usamos o galicismo cliché com o mesmo sentido).

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Ora, nada é menos estimulante do que ouvirmos a enésima reprodução duma qualquer abordagem narrativa (seja a dum belo pôr-do-sol que traz melancolia e/ou paz ao espírito, seja a da rapariga má que estraga a vida ao casal tão feliz).

A massificação da produção artística, a sua industrialização, não só na literatura, como no cinema e na televisão principalmente, exploraram os estereótipos ad nauseam. As redes sociais na internet tornaram-nos um problema público de higiene mental.

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Porém, a literatura permite uma autonomia e resistência frente a esse condicionamento cultural que leva a colocar um (in)evitável adjetivo logo a seguir a determinados substantivos (tipo a “lua prateada” e o “sol dourado”). E permite-o porque nós, escrevinhadores, somos criaturas que podemos trabalhar por conta própria, na solidão, no anonimato, fazendo deste modo de vida uma paixão pela bela Musa.

À minha filha, após ela ensaiar a recitação ou cançoneta, sugeria-lhe para repetir, mas dessa vez como se estivesse muito, mas muito feliz. E, a seguir, como se estivesse triste, mas mesmo muito triste. E muito zangada, depois.

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No dia seguinte aquilo acabava por lhe sair bem, dentro do modo convencional e politicamente correcto. E nós divertíamo-nos até às lágrimas nos ensaios; ao nosso modo, tentávamos desconstruir modelos consagrados.

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Escrever poemas curtos levanta outro tipo de dificuldades, principalmente se o autor se impõe uma métrica rigorosa (tipo haiku) ou outras regras.

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-Penso que o teu poema não presta.
-É precisamente o que o poema pretende que tu penses.

O principal, numa economia de frases e palavras, é a transmissão duma ideia, dum sentir, duma imagem. Isso exige uma depuração rigorosa, uma noção de ritmo, a musicalidade inerente à forma, tudo tanto mais difícil quanto menor for o número de versos e sua métrica. Além de que, no caso dos poemas curtos, o sentido raramente ser evidente. (ver nota 1)

O que fascina nestas “construções” diminutas é a sua leveza associada ao impacto profundo daquilo que transmite, por vezes indefinível, outras vezes perturbante. O trabalho é comparável, imagino eu, ao do lapidar duma pedra preciosa.

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E, por vezes, transmitem tranquilidade, como se as palavras fossem o rumor do vento no bosque. Ou da noite a entrar pela janela. (ver nota 2)

Mentiras de Um de Abril

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(…)

(Autopsicografia, Fernando Pessoa)

Muitas vezes desvaloriza-se um relato porque é “ficção”. A ficção como sendo inferior à realidade. A realidade entendida como o factual, o verdadeiro. Enquanto a ficção é do domínio da fantasia, da imaginação. Uma mentira, portanto.

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Por vezes, o autor bloqueia quando sente que não tem conhecimento suficiente para abordar certos temas. Ou, pelo contrário, porque tem e porque irá expor o que muitos amigos ou familiares não lhe perdoarão ter exposto. Se pretende escrever um texto com pretensões históricas (como o testemunho de quem viveu e participou nos factos narrados), esses são problemas sérios. Leia o resto deste artigo »

Que “gosto” tem?

O “gosto” é a própria manifestação individual da sensibilidade e bom senso (título dum livro muito popular noutros tempos), está em estreita relação com a educação familiar e o meio cultural envolvente (seja pelo seguidismo acrítico, seja pela rejeição neurótica, seja de qualquer outro modo), pode se tornar um manifesto, uma moda, uma tirania.

Tanto pode ser reivindicação de liberdade ou sujeição à maioria, como imposição dum princípio geral.

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Paixão

Um problema das paixões é serem confundidas pelo próprio com paixonetas, gostos, afectos. E pela necessidade irresistível de falar (neste caso, escrever). O resultado é, quase sempre, medíocre.
A paixão pode levar à loucura, ou certas paixões levarem a marca duma certa loucura, o que noutros tempos chamava-se melancolia (para ambos os sexos), histeria (para o sexo feminino), húbris (para o sexo masculino), ou surgindo na forma duma qualquer monomania, parafilias e vícios obscuros.

Todas elas terão produzido bons textos, efectivamente.

Mas dificilmente o autor cavalga o animal bravio das paixões desmedidas.

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Nomear

Escrever pode levar-nos a nomear coisas e relações entre elas de modo como  ninguém antes tenha feito, se bem que a linguagem não seja uma criação do autor. (ver nota)

As palavras exprimem “coisas”, mas os pensamentos ficam no silêncio, e entre os dois existe um abismo. É esse o desafio que se coloca à voz e à escrita: ligar o pensamento à palavra do modo mais fiel.

E isso não será perigoso? Se pensarmos a importância do “ambíguo” nas relações humanas, na criação cultural, no espaço e discurso político, só podemos recear um pensamento que se exprima de modo unívoco. Não é essa a ambição de todos os que querem fazer a interpretação literal dos textos (sagrados)?

Se bem que não tenha de ser assim: como Emissor posso ambicionar exprimir-me do modo mais fiel ao meu raciocínio, sem com isso exigir ao Receptor que se restrinja a uma leitura possível do sentido das minhas palavras. Até porque Freud já foi suficientemente esclarecedor a esse respeito.

Mas essa é a peste ideológica do pensamento totalitário e que hoje em dia é muito frequente no discurso (e na prática) dos fundamentalismos, e que Orwell bem exprimiu através da noção do Newspeak e do Doublethink em “Mil novecentos e oitenta e quatro“.

N’quel N‡usea