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A noite dos mortos meio-vivos e outras coisas espantosas

A Morte (com maiúscula, atenção) é inesgotável fonte de inspiração literária, principalmente nestes dias de Outubro a Novembro, levando mesmo à questão se ainda há algo a respeito que não tenha sido dito algures por este mundo, nesta ou numa outra era.

—Escuta-me, amigo meu, o sonho que vi esta noite; (…) havia ali alguém de face tenebrosa, (…) as suas mãos eram patas de leão, suas unhas garras de águia, agarrando-me pelas pontas dos cabelos me violentava, eu tentava golpeá-lo, mas ele revolvia-se como quem salta à corda, logo me golpeando e atirando-me ao chão (…). “—Salva-me, amigo meu!”—gritei. Mas tu não me salvavas, tinhas tanto medo que nem te movias para me ajudar, tu (…). (1)

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O tom ou o desenvolvimento que se dá à estória é que faz a diferença, havendo até a possibilidade de surpreender pela conclusão. É realmente difícil mas, por isso mesmo, merece ser tentado pelo escrevinhador.

Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda (…). E na noite havia os que deixavam um rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados como um som de viola que se parte. (…) Muitos arrastavam caudas enormes pela lama, despedaçavam-nas de encontro às esquinas, e alguns procuravam deitá-las fora para não mais pensarem num passado tenebroso.

—O homem material —pensava o Palhaço— não existe. A vida é uma convenção. (…) (2)

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A indigência audiovisual ou literária produzida massivamente em redor da categoria do “Terror”  não esconde o potencial humano, existencial e, por isso mesmo, ‘eterno’, de um tema tão complexo: nas primeiras décadas do sec.XIX, escritores alemães, norte-americanos ou ingleses dedicaram-se com êxito a recuperar temas tradicionais a respeito da Morte, do Mal e do Outro.

O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. (3)

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Deram assim início a um género que tem como antepassado directo os contos populares, os quais reflectem, por sua vez, o folclore, as crenças e as práticas milenares da vida quotidiana, mesmo—ou principalmente— quando esta é interrompida (cíclica ou inesperadamente) por algo de extraordinário.

Do fundo da cova triste/Ouvi uma voz sair:/”Vive, vive, cavaleiro,/Vive tu que eu já morri:/Os olhos com que te olhava/De terra já os cobri./Boca com que te beijava/Já não tem sabor em si,/Os cabelos que entrançavas/Jaz caído a par de mim,/Dos braços que te abraçavam/As canas vê-las aqui!”(4)

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Na próxima reencarnação podes vir a ser uma espécie em perigo. Ajuda-nos a salvar o grou siberiano

As personagens podem ser gente banal em circunstâncias invulgares, seres fantásticos em ambientes familiares (ao leitor e/ou às outras personagens), uma combinação disto e daquilo. Porque —ainda será necessário lembrar?— vale tudo e nada é garantido.

O apóstolo Santo André andava invejoso do apóstolo Santiago porque lhe levava toda a paróquia.

—A Compostela chegam peregrinos de todas as partes do mundo (…) e, ao mesmo tempo, a Teixido não vêm nem de Ferrol ou de Viveiro ou de Ortigueira, que estão ali ao lado, isso não é justo porque eu também sou apóstolo, tão apóstolo como os outros.

Nosso Senhor Jesus Cristo, que vinha pelo mesmo caminho, lhe disse,

—Tens toda a razão do mundo, André, isto tem de se resolver, vou dispor que de ora em diante ninguém possa entrar no céu sem ter passado por Teixido.

—Muito obrigado. (5)

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Como qualquer leitor dedicado já experimentou, o maior terror sofrido não é o expresso pelas imagens gráficas de sangue, nem pelas descrições da mais lancinante dor, e ainda menos pelo detalhe de monstruosidades. Na escrita (e no cinema parece-me igual), o subentendido, o aludido (mas não explicitado), podem mais sobre o leitor.

“Não gosto do aspecto disso”, disse a sua governanta, “Tem um aspecto feioso.”

“A mim, dificilmente lhe vejo alguma forma.”

“Não gosto das coisas que crescem assim.”, disse a sua governanta.(…) “Parece uma aranha nojenta morta.” (6)

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Esta relação vai-me matar

No fundo, a mesma eficácia da escrita erótica frente ao grafismo meramente pornográfico. Não é um método fácil. Corre o risco, até, de não captar a atenção do leitor preguiçoso. E por uma razão simples: por estar dependente da sua imaginação,sensibilidade, sentido de humor e inteligência.

O livro estava aberto mais ou menos a meio e havia um parágrafo de tal forma sublinhado a negro pela pena trémula do possuidor que Mr.Merritt não conteve a curiosidade. Da natureza dessas poucas linhas sublinhadas e da força com que o tinham sido, nada saberia dizer, mas tudo isso lhe causou a pior impressão. (7)

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Mas essa é a maldição da Arte. Sem um leitor (espectador, ouvinte, ou lá o que for) interessado, perde-se o potencial do texto. Fazer o quê?

O final da história só pode ser narrado por metáforas já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Caberia talvez dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panónia. (…) para a insondável divindade, ele e João Panónia (o ortodoxo e o herege, o aborrecedor e o aborrecido, o acusador e a vítima) formavam uma só pessoa. (8)

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“É diferente essa sua burkha…” “Aãã…não,sou apicultora!”

Melhor dizendo: escrever como? Esse é mais um dos mistérios da criação literária, o maior terror do desgraçado escrevinhador, o suspense em que todo o leitor fica até à leitura do texto… não estão mesmo à espera que o revele, pois não?

Quero que a leitura deste livro vos deixe a impressão de terdes atravessado um pesadelo voluptuoso. (9)

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(1) in Poema de Gilgamesh (tábua VII coluna IV),trad.Frederico Lara Peinado, ed.Tecnos

(2) in A Morte do Palhaço de Raúl Brandão, ed.Verbo

(3) in Histórias de Mistério e Imaginação ‘O gato preto’ de Edgar Allan Poe, trad.Tomé Santos Júnior, ed.Verbo

(4) in Romanceiro ‘Bernal-Francês’ compilação de Almeida Garrett, ed.Circulo dos Leitores

(5) in Mazurca para dos muertos de Camilo José Cela, ed.Seix Barral

(6) in Contos Fantásticos ‘A Orquídia Estranha’ de H.G.Wells, ed.Collins

(7) in O caso de Charles Dexter Ward de H.P. Lovecraft, trad.Manuel João Gomes ed.Dom Quixote

(8) in O Aleph ‘Os Teólogos’ de Jorge Luis Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(9) in Livro do Desassossego de Bernardo Soares, ed.Assírio & Alvim

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Escrever como quem fala

Há quem domine incipientemente a comunicação escrita e escreva como fala, assim como há quem a domine e construa diálogos como se fossem lidos: em ambos os casos o resultado será desastroso… salvo se for genial!

—Que me diz, abade? Lá que ela vinha a casar sabia eu, porque o Aguiar me disse que o irmão lhe dava um grande dote, quarenta contos. Casava com quem quisesse.

—Pois casou com o José Macário, casaram ontem, ali em Santo Ildefonso, às seis horas da manhã e partiram no vapor esta manhã para Lisboa, os canalhões.

Viegas gargalhava, e dizia: Oh! que pulhas! que pulhas! que pandilhas! que malandros!

—Deixe-me contar-lhe, Viegas: ouça que isto tem graça… Dê cá o lume —e acendia o cigarro, impando as bochechas com muito fumo, (…). (1)

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HOMEM: Não consigo pensar em nada de interessante para dizer. Sou tão aborrecido! Ela deve detestar-me. MULHER: Um homem que dá atenção ao que digo! Acho que me estou a apaixonar!

 

A escrita está sujeita a uma codificação que a oralidade finta alegremente, pelo que se esta for colorida de erros e desacertos pode ser cómica, castiça, eficaz e certeira.

Ora, ora —falou.— O cem anos é meu, quem vai morrer é eu, quer dizer que só quem pode achar a graça é eu, que eu é que sei, ninguém mais aqui sabe. (…). Depois que eu morrer, tem que chorar um pouco, o certo é esse, porém eu posso rir. (2)

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A conversação está exposta a erros gramaticais mais ou menos evidentes, a redundâncias e omissões, a desvios temáticos abruptos, a ‘diálogos de surdos’ e milhentas outras deficiências que são —não tão paradoxalmente assim— os cimentos da comunicação humana.

O agente: Que frases obscenas?

A lamentosa treme a cabecinha, tem buço na venta e olhinhos recatados. Palavrões, diz em voz sumida.

O agente: Tais como?

Curta para aqui, curta para ali, responde a galinheira ainda em mais sumido.

E o agente: Curta? Diga puta, senhora. Os autos querem-se precisos. (3)

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O mito da Torre de Babel acentua o lado caótico da comunicação entre falantes que utilizam línguas tão distintas entre si que não se conseguem fazer entender, mas dentro de cada universo linguístico existem enormes variações ao nível da linguagem, do conhecimento dos vocábulos, dos múltiplos sentidos das mesmas palavras ou expressões , das referências partilhadas. Isto é da maior importância quando os diálogos escritos se situam numa época, numa área geográfica, entre personagens, perfeitamente definidas.

—São as piores, ti Rita. Tola não foi ela… (…)

—Aquilo fazia-se esquerda à espera de pássaro graúdo. (4)

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Desfrute deste cartoon culturalmente, etnicamente, religiosamente e politicamente correcto de modo responsável. Obrigado

 

Daí o escrevinhador dever ter isto em mente quando constrói textos de expressão oral, sejam monólogos ou diálogos. Não o fazendo, o texto pode resultar insuportavelmente artificial, desligado de toda a experiência de conversação.

—E não é de boa maneira de um homem saudar outro —perguntei eu— dizer-lhe que Deus o guarde?  

—Tem muito cuidado com a língua! —respondeu ele.— Aos homens da classe baixa diz-se isso; mas aos de mais alto nível, como eu, não se pode saudar de outra forma senão com um “Beijo as mãos de vossa mercê”, ou, pelo menos, “Senhor, beijo-vos as mãos”, se quem me falar for delicado. (5)

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Mas que não ocorra ao escrevinhador transcrever a oralidade num registo escrito com a fidelidade dum estenógrafo: a criação literária é mais do que a arte de um papagaio alfabetizado.

Rita canta sua canção de oferta, que é o seu canto de trabalho:

“Que fazes aí, menina?/ Eu faço tudo, senhor…”

Era uma rua longa, comprida de não acabar. (6)

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(1) in José Macário de Camilo Castelo Branco, ed. Lello & Irmão

(2) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro, ed. Dom Quixote

(3) in Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires, ed.Público

(4) in Gaibéus de Alves Redol ed. fac-simile A Bela e o Monstro

(5) in Lazarilho de Tormes Anónimo, trad. Ricardo Alberty, ed.Verbo

(6) in São Jorge dos Ilhéus de Jorge Amado, ed.Europa-América

 

A palavra, o texto e a escrita

Não tenho como evitá-lo, logo insisto: ler é fundamental.

(…) publicavam-se inúmeros romances de conversa de anatomia social, cavavam-se galerias sob a arte de bem redigir, para apresentar a plebe com seus calões e os seus vícios de linguagem. (…), fazia-se um autor dum pequeno aventureiro que começava a despertar para as experiências (…). (1)

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Quando o bom leitor (e já adiantei o que entendo por isto aqui e ali, com as devidas ressalvas) se torna escrevinhador, os resultados podem ser catastróficos. Mas mais facilmente acontece o mesmo ao mau leitor ou não-leitor, como se pode rapidamente confirmar nos escaparates das livrarias das grandes superfícies ou dos postos de correios.

O nosso primeiro movimento, para ajuizar do valor de um livro, ou de um homem, ou de uma música, é perguntar-nos: “Sabe caminhar? Melhor ainda: sabe dançar?” (2)

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Só posso crer num deus que saiba dançar!

As vantagens da boa leitura para a escrita podiam limitar-se à percepção do valor daquilo que é escrito pelo próprio e já bastava. Felizmente, há mais do que isso.

—Ora pois, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter?

—Não consentiremos de maneira nenhuma.

—Logo, deveremos começar por vigiar os autores de fábulas, e seleccionar as que forem boas, e proscrever as más. (3)

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Porém, a sensibilidade ao valor da palavra e à sua tecelagem, seja em forma oral, seja por escrito, é algo que não se limita à leitura e exige, até, bom ouvido e alguma reacção epidérmica. Ou seja, tem qualquer coisa de musical e a poesia é a sua formulação mais óbvia, tradicional. Independentemente do que é dito, o modo como é dito é o que nos interessa aqui. Formalismo? Sim, claro e, todavia, não. Rotundamente não.

Depois fiz muitas cantigas, de dança e de rua/ para judias e mouras e para namoradeiras,/ para tocar em instrumentos melodias conhecidas:/ o cantar que não sabes, escuta-o às cantadeiras./ Cantares fiz alguns, daqueles que dizem os cegos/ e para estudantes que andam nas noitadas, (…) (4)

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A construção do texto não é arbitrária, como dolorosamente constatei nos compêndios de gramática dos meus anos de escola, e é por demais evidente quando se lê coisas escritas por escrevinhadores que pecam por não ler e, pior ainda, por não ter ouvido. Pois muito analfabeto foi responsável pela elaboração de textos literários excepcionais, principalmente em sociedades onde a produção escrita era inexistente ou quase.

“A tinta de escrever é um líquido com que a gente suja os dedos quando vai fazer a lição. (…) e uma coisa que eu não sei é como um vidrinho de tinta tão pequeno pode ter tanto erro de Português.” (5)

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Quando se passa da oralidade à escrita, tudo é evidente: os erros tornam-se flagrantes, a dissonância indisfarçável.

O nosso professor de francês nasceu no Minho e, até em francês, trocava os vvvvvvv por bbbbbbb. (6)

'I can't read this, you must write more clearly.' - 'If I did that, you'd see all my spelling mistakes.'

‘Não consigo ler isto, tem de escrever de modo mais claro.’ – ‘Se o fizesse, ia notar todos os meus erros de ortografia!’

Daí que a escrita exija tempo e prática regular, não dispensando a leitura dos textos bons (principalmente) e de todos os outros (para perceber as diferenças). Com o tempo, o escrevinhador (-leitor) percebe intuitivamente que existem vários modos de dizer te amo ou que a adjectivação pode ser como a cor de certas gravatas amarelas. A prática, essa, poderá levá-lo a aprender com os erros e a resistir à tentação de ir ao encontro do que julga ser o gosto dominante, sem cair no facilitismo da ‘originalidade’.

Amor, Amor, um hábito talhei para mim/ do vosso pano, vestindo-me o espírito;/ no vestir, muito largo o senti,/ e bastante apertado, quando sobre mim se ajustou. (7)

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Com a idade e a experiência do mundo, o escrevinhador talvez venha a decifrar o esfíngico enigma: vale tudo e nada é garantido. Literariamente falando, é claro.

Deixa dizer-te os lindos versos raros/ Que foram feitos para te endoidecer! (8)

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(1) in A Muralha de Agustina Bessa Luís, ed.Guimarães Editores

(2) in A Gaia Ciência §366 de Frederico Nietzsche, trad.Alfredo Margarido ed.Guimarães & Cª

(3) in A República de Platão, trad.Mª Helena da Rocha Pereira ed.Fundação Calouste Gulbenkian

(4) in Libro de Buen Amor do Arcipreste de Hita, org.José Luis Girón Alconchel, ed.Castalia

(5) in Conpozissõis Infãtis de Millôr Fernandes, ed.nordica

(6) in Calçada do Sol de José Gomes Ferreira, ed.Moraes

(7) ‘LXXVII’ in Poesies de Ausiàs March, ed.Barcino

(8) ‘Os versos que te fiz’ in O Livro de Soror Saudade-Poesia Completa de Florbela Espanca, ed.Bertrand

Vale a pena escrever?

RESPOSTA: se alguém me puser esta pergunta, minha resposta automática é NÃO, não vale a pena.

Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!/ Se isto não é, porque é que é?/ Se isto não pode ser, então porque pôde ser? (1)

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Esta é a resposta preconceituosa de quem entende que a urgência da escrita se impõe ao escrevinhador, que depois defrontará a terrível, incontornável questão: o que escrevi tem algum valor?—uma questão totalmente diferente, portanto.

Sonho que sou a Poetisa eleita,/ Aquela que diz tudo e tudo sabe,/Que tem a inspiração pura e perfeita,/ Que reúne num verso a imensidade! (2)

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Preconceito que radica, também, na crença de que a dita urgência é um dano colateral à exposição precoce à audição de contos e leituras, às leituras de livros de texto e banda desenhada, ao visionamento de filmes.

O que me dá prazer não é o vinho, não!/ Nem a música, nem o canto./Apenas os livros são o meu encanto/ E a pena: A espada que tenho sempre à mão. (3)

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-A TV está cada vez melhor. -É, acho que é um perda de tempo muito mais produtiva.

Essa exposição (que não tem de ser, na verdade, precoce) não é condição suficiente para responder afirmativamente à segunda questão: a do valor do que se escreveu. Outras formas de expressão podem surgir em alternativa e com outra qualidade; no mínimo, resulta no desenvolvimento duma percepção mais subtil, na sensibilidade à ironia, num grau de exigência maior, coisas assim que fazem de alguém uma pessoa mais interessante.

Eu não soube onde entrara,/ mas, quando ali me vi,/ sem saber onde estava,/ grandes coisas entendi;/ não direi o que senti,/ pois me fiquei sem saber,/ toda a ciência transcendendo. (4)

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Na realidade, porém, existe uma crescente número de pessoas sem qualquer relação afectiva com a leitura e, inclusive, com um domínio deficiente da escrita, determinadas em produzir textos, seja por razões estéticas, sentimentais ou profissionais

(…) o número de homens ignorantes e corajosos/ será maior ou menor que o número de homens corajosos e cultos? // (…) Se o assunto fosse assim tão simples…/ Mas não. (5)

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Como dizer-lhes que não vale a pena serem persistentes e produtivas nessa determinação? Na verdade, nem se colocam a questão de escrever (ou não), mas antes a de escrever como?

Tu que sabes em que recantos das terras invejosas/ O Deus ciumento esconde as pedras preciosas,/ Ó Satã, tem piedade da minha grande miséria! (6)

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Preconceito de lado, a tarefa é ingente mas factível; tudo depende do escrevinhador e do modo como se move no seu labirinto. Mesmo o mais aborrecido dos manuais pode estar organizado com um mínimo de lógica e ter sido escrito numa linguagem clara, duas características que são grandes qualidades e verdadeiros ‘facilitadores’ (palavra horrível muito em uso nas primeiras décadas do sec.XXI) para quem tenha de lidar com assuntos chaaaatos.

A bela e pura palavra Poesia/ Tanto pelos caminhos se arrastou/ Que alta noite a encontrei perdida/ Num bordel onde um morto a assassinou. (7)

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Contudo, ambas qualidades exigem um razoável domínio da matéria a tratar e da sua expressão escrita, qualidades que andam muitas vezes desirmanadas.

(…) E com um mimo que só sabe ter uma ama/ Cobre-me bem, “durma, não cisme”, dá-me um beijo,/ E sai. Finge que sai, ela cuida que eu não vejo,/ Mas fica à porta, à escuta, a ouvir-me falar só,/ E não se vai deitar…/ Onde há, assim, uma Avó? (8)

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Talvez por isso, surgem escritos num tom autobiográfico, meio confessional, meio exploratório, onde se cruzam dados objectivos (estatísticas, história, ciências) com a profunda subjectividade do olhar do escrevinhador, podendo até desenvolver narrativas ficcionadas.

Todo lo que he vivido, todo/ lo que he salvado vigilantemente/ del feroz exterminio de los dias,/ todo cuanto yo fui, hoy os lo ofrezco,/ ojos que seguiréis el rastro de estas letras, /(…) (9)

'When I was young I wanted to be a poet, but we couldn't afford a typewriter.'

‘Quando era novo queria ser poeta, mas não tinhamos dinheiro para comprar uma máquina de escrever!’

À extraordinária liberdade deste processo—ao nível dos factos, das personagens e do enredo— alia-se o tratamento mais ou menos rigoroso de assuntos concretos, reais, observáveis. Combinação que pode resultar numa abordagem refrescante, inspiradora, bem-humorada, poética… ou tudo isso em simultâneo.

Poeta, não, camarada,/ eu sou também cauteleiro;/ ser poeta não dá nada/ vender jogo dá dinheiro (10)

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Para quem não confia na bagagem literária dos seus anos de formação (infância, adolescência), explorar a sensibilidade e o olhar crítico com que a vida o enriqueceu torna-se um valor imenso em qualquer proposta artística. Aproveitando as experiências de vida e as histórias familiares, a escrita pode vencer os escolhos normais da criação literária e compensar certas deficiências com a inspiração genuína, uma perspectiva original, uma tonalidade distinta.

Imaginária menina/ entra em roda imaginária:/—Roseira que dás espinho,/ que dás espinho e dás flor:/ roseira de meu caminho/ dá ciranda aonde eu fôr.//  (…) que se houve espinho houve rosa. (11)

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Pintura de Luz Morais

As boas regras gramaticais e o exercício duma escrita literária acabarão por se incorporar com o tempo, muita prática e aprendizagem. E com uma ajudinha preciosa que pode chegar de modo abrupto e, até, ofensivo. Mas quem disse que escrever vale a pena?

Las cú. Lavitebá, Foscan moldé ca./ Divilanvoris cermalagos cía./ Ar conta latilosde balatía/ ormela banorcali tonzosteca. (12)

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“Concordo consigo: você tem dinamismo, ambição e autoconfiança, mas aquilo que procuramos é a competência.”

(1) ‘A Partida’ in Poesias de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(2) ‘Vaidade’ in Livro de Mágoas de Florbela Espanca, ed.Bertrand

(3) de Al-Kutayyr in O meu coração é árabe, colectânea e tradução de poesia luso-árabe de Adalberto Alves, ed.assírio&alvim

(4) ‘Coplas del mismo hechas sobre un éxtasis de alta contemplación’ in Poesias Completas de San Juan de la Cruz, ed.Planeta DeAgostini

(5)  ‘Canto IV’ in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(6) ‘Les Litanies de Satan’ in Les Fleurs du Mal de Charles Beaudelaire, ed.Gallimard

(7) ‘A Bela e Pura’ in Mar Novo de Sophia de Mello Breyner Andresen, ed.Caminho (Obra Poética vol.I)

(8) ‘Males de Anto’ in  de António Nobre, ed.A Bela e o Monstro lda

(9) ‘Todo lo que he vivido’ in Las Adivinaziones de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral (Somos el tiempo que nos queda obra poética completa 1952-2009)

(10) ‘Ocasionais’ in Este livro que vos deixo… de António Aleixo, ed.Vitalino Martins Aleixo

(11) ‘Rosa da Roda’ in Rapsódica de Stella Leonardos, ed.Orfeu

(12) ‘las cu la vi te ba fos can mol de ca’ in A Saga/Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester, ed. Dom Quixote

Fazer-se entender ou impressionar?

Que o escrevinhador pressuponha o seu leitor é uma atitude perfeitamente louvável, pois a escrita é um modo de comunicar, além de eventuais motivações terapêuticas, necessidades catárticas ou simples vontade de contar coisas.

Ponho estes seis versos na minha garrafa atirada ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia quase deserta/ e um menino a encontre e destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (1)

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Precisamente, a conciliação entre o que se pretende dizer,e o que é dito e entendido—de facto— é o problema crucial da comunicação em geral.

Para conheceres as melhores mentiras (…)/ de um homem/ terás que te sentar longamente ao pé dele./ Ninguém mente aos gritos, de longe. (2)

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Literariamente, as possibilidades permitidas pela forma (como se diz) desloca esta perspectiva para o efeito estético (a impressão que não a compreensão, digamos assim). Por vezes, o escrevinhador sacrifica deliberadamente o sentido para atingir um efeito, noutras é o contrário, e há toda uma gama infindável de tentativas para conseguir o equilíbrio possível.

Agora começa o Manifesto:/ Arre!/ Arre!/ Oiçam bem:/ ARRRRRE! (3) 

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Talvez não haja modo mais difícil de obter esse compromisso entre conteúdo e forma do que na fórmula humorística: desde a subtil (imperceptível, dirão uns) ironia ao portentoso (obsceno, dirão muitos) sarcasmo, o entendimento do leitor peca geralmente pela incapacidade oftalmológica para distinguir toda uma gama de tonalidades ou pela acuidade visual para só ver aquilo que o incomoda. Todavia, quantos escrevinhadores não caem na vulgaridade gratuita (porque sem sentido, nem elegância)?

Teu avô, santanário venerando/ Soube mais orações que mil beatas,/ Com reza impertinente os Céus zangando; / Teu pai foi um trovão de pataratas;/ Teu tio, o bacharel, morreu, falando;/ Tu falando, Riseu, não morres, matas. (4)

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Que critério pode ter o escrevinhador para contentar a todos, ou seja, para não ser vulgar e conseguir se fazer entender, obtendo o efeito pretendido? Se procurar nas estrelas, talvez venha a encontrar uma regra de ouro. Entretanto, o recurso a uma mediana inteligência nos conteúdos escritos e a um estilo que o satisfaça (mais do que satisfazer terceiros), é um modo de começar a praticar por conta e risco.

Cavossonante escudo nosso/ palavra: panaceia/ ornado de consolos e compensas/ enquanto a seta-fado/ nos envenena ambos tendões/ rachados. (5)

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COISAS A EVITAR DIZER: b. a um homem-bomba -Então, tá tudo a bombar?

Na composição das personagens, por exemplo, o escrevinhador pode começar por evitar uma identificação demasiado evidente com aquelas que lhe são simpáticas e a estigmatização das que lhe são odiosas. Na poesia, poderá explorar outras vozes, outras sensibilidades e entendimento.

O que é o vento sem sombra, senão um nada/ a si mesmo abraçado/ (…) / Mas é verdade que o vento me desfez a casa/ como o sopro do lobo (6)

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O que há de bom na literatura é a liberdade do escrevinhador experimentar sem fazer mal a ninguém, nem ao mundo. O que não o isenta de sofrer consequências, as quais podem ser fatais…

Tentei falar/ Talvez, ignoro a língua./ Todas as frases trocadas./ A resposta: apedrejado. (7)

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(1) ‘Botella al mar’ de Mario Benedetti

(2) in Uma viagem à Índia CantoVI, de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(3) ’21’ in Poesia, de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(4) ‘A um falador insofrível’ de Manuel Maria Barbosa du Bocage

(5) ‘Cavossonante escudo nosso’ de Mário Faustino

(6) ‘Qué es el viento sin sombra’ de Leopoldo María Panero

(7) ‘Sassate’ de Giorgio Caproni

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

O bigode da Gioconda

Escrevinhadores excessivamente escrupulosos evitam certas leituras, certos autores, por temor de duvidarem eles mesmos da originalidade dos próprios escritos. Assim, sentem-se de consciência tranquila se surgirem coincidências no enredo, nas personagens, em alguns detalhes da narrativa.

Tenho ao alcance da mão as definições de Elliot, de Arnold e de Sainte-Beuve,  razoáveis e luminosas sem dúvida, e seria me grato estar de acordo com estes ilustres autores, mas não os consultarei. Cumpri setenta e tal anos; na minha idade, as coincidências e as novidades importam menos do que aquilo que se tem por verdadeiro. Limitar-me-ei, pois, a declarar o que sobre este assunto pensei. (1)

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Mesmo na literatura sagrada das mais diferentes religiões existem coincidências, que tanto se devem aos abismos do inconsciente humano quanto ao contrabando de mitos e crenças. Como há-de escapar às influências o simples escrevinhador, se até escribas inspirados pela voz de um anjo-mensageiro ou por um deus omnisciente repetem velhos estereótipos da criação, ascensão e queda da Humanidade?

Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas algo há na sua imagem que concorda com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em distintas latitudes e idades. (2)

'Ark, Noah - not arc!'

‘Arca, Noé – não um arco!’

Percebo que se evitem certas leituras em dado momento da escrita duma obra, mas duvido da sua eficácia e receio muito pelo que isso implique. Nos últimos vá lá 2500 anos, e de forma cada vez mais avassaladora, é impossível fugir à ‘influência’ —dos temas e outros aspectos da narrativa—  dada a fina malha cultural que entretece o imaginário, a mundividência, nossa memória colectiva.

Suspeito que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve tratar de ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas palavras são sinónimas), não de suas opiniões, que são o mais superficial que há nele. (3)

'It was a last-minute change, but a good one.'

Foi uma mudança de último minuto, mas uma boa mudança. Título do livro: ‘Guerra e Paz e Repolho’

O livro e o ensino, por razões evidentes, expuseram a população mais letrada a uma intensa contaminação de ideias, estórias e fórmulas literárias, mas o imaginário e a mundividência já são bebidos com o leite materno, embalados até adormecer no peito duma qualquer vizinha solícita, escutados com avidez à lareira junto dos mais velhos e assimilados no dia-a-dia entre conhecidos e desconhecidos… ou assim era dantes.

Hoje, a força conjugada dos mass media e da net tornam a influência omnipresente e opressiva, sem disso se ter consciência, e, por isso, sem desenvolver critérios entre o que é ‘original’ e o mero plágio ou estereótipo preguiçoso.

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável (…). (4)

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por aqui falei como uma obra anterior ao sec.V a.C., escrita por um cego grego —que, eventualmente, nem terá existido― pôde influenciar um poeta, guerreiro e zarolho português quinhentista, e um caixeiro-viajante cultural irlandês, que sofria de glaucoma, do sec.XX, os quais, por sua vez, inspiraram, já no sec.XXI, um académico nascido em Angola e que, por alguma razão, usa óculos.

Ou de como, no espaço de duas dezenas de anos, 3 nomes cimeiros da literatura de 3 países diferentes, escrevem sobre o mau comportamento de senhoras muito bem casadas (morrendo todas no final do livro, sujeitas aos comentários depreciativos da parte de outras personagens).

Plágio, em qualquer dos casos, nem pensar. Um insigne académico escreveu sobre a ‘angústia da influência’, e até intitulou o livro, coincidentemente ou não, A angústia da influência.

Como entendemos uma angústia? Sendo angustiados nós mesmos. Todo leitor profundo é um Perguntador Idiota. Pergunta: “Quem escreveu meu poema?” Dai a insistência de Emerson: “Em toda a obra de génio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados — voltam-nos com uma certa majestade alienada.” (…) A crítica é a arte de conhecer os caminhos ocultos que vão de um poema a outro. (5)

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-Não faço plágio… mas gosto do modo como este tipo expressou os meus pensamentos na secção de opinião.

Sem qualquer angústia, o já conhecido escritor argentino Pablo Katchadjian, em 2009, resolveu fazer aquilo a que chamou de ‘experimento literário’: ‘engordou’ (sic) o famoso conto —O Aleph― do ainda mais famoso escritor argentino Jorge Luís Borges, adicionando-lhe mais 5600 palavras às 4000 originais, dando-lhe o sugestivo nome de O Aleph Engordado. A ‘experiência’ parece que foi bem recebida nos meios literários argentinos, a avaliar pelo que pude ler em artigo publicado no El País por Carlos Cué.

Porém, representando os interesses (ou direitos de autor) da viúva de Borges, o advogado Fernando Soto exprimiu uma perspectiva notável: ‘Isto não é um experimento, afecta directamente o direito moral da obra, que foi alterada dolosamente. Queremos que reconheça que é uma ofensa à obra de Borges. É como se alguém pintasse bigodes na Gioconda.’*

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Vai daí, o autor do O Aleph Engordado é levado a tribunal e condenado (apelou, entretanto). Em sua defesa, alega que é ‘óbvio que não se pretende esconder um plágio de forma dolosa, que para isso se pensou a lei. O livro intitula-se El Aleph engordado e no final há uma explicação do trabalho que havia feito. Borges não é um monumento, é um escritor. A história da literatura é uma constante revisão e reflexão sobre a tradição. Borges defendia o plágio e sustentava que toda a literatura está construída uma sobre a outra, é absurdo este processo, é uma novela delirante.’ *

E sustenta que não tocou no original, só acrescentou.

Este factótum, em vez de limitar-se à tarefa específica, delapidou um tempo precioso lendo as sete lucubrações de Vilaseco. Chegou a descobrir que, salvo os títulos, eram exactamente a mesma. Nem uma virgula, nem um ponto e virgula, nem uma só palavra diferente! A descoberta, fruto gratuito do acaso, carece seguramente de importância para uma séria valoração da versátil obra vilasequista e se o mencionamos à última da hora é a título de simples curiosidade. (6)

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Ora, eu que não li o ‘engordado’, não vou discutir os méritos da obra. Provavelmente, se Katchadjian não tivesse incluído O Aleph original, a decisão jurídica teria lhe sido favorável.

(…) começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é uma linguagem de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca? (7)

Mas não me interessam as questões jurídicas, agora. O que acho relevante é a ‘tese’ do dr. Fernando Soto, sobre direitos morais das obras, sobre alterações dolosas, sobre ofensas à obra de alguém, sobre bigodes e giocondas. E a ideia de Katchadjian em ‘engordar’ obras alheias.

Gracias (…) pelo facto do poema ser inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e não chegará jamais ao último verso/ e varia segundo os homens (8)

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Sobre o primeiro, assusta-me a argumentação tão propícia ao fanatismo religioso, nacionalista, ideológico, quando se apropria do património cultural (e literário) e passa a assumir o direito de avaliar e condenar qualquer referência, glosa ou sátira. Daí a queimar livros, esfaquear ou balear escrevinhadores e editores, fazer explodir livrarias, não vai um passo assim tão largo, pelo que tenho visto nos dias da minha vida. Mais corriqueiramente, surgem a censura, a autocensura, a apreensão dos livros, as multas e penas de prisão.

Sobre o segundo, saúdo esta tendência saudavelmente infectante, contagiosa, da obra literária (na verdade, da obra de arte em geral), que nos faz redescobrir textos mais antigos e abrir horizontes insuspeitados por detrás daqueles que já conhecíamos.

Schopenhauer, Quincey, Stevenson, Mauthner, Shaw, Chesterton, Léon Bloy, formam o censo heterogéneo dos autores que releio continuamente. Na fantasia cristológica intitulada ‘Três versões de Judas’, creio pressentir a remota influência do último. (9)

Mas o mais saboroso é a ironia extraordinária deste pleito jurídico ter como referência a obra de Borges. O mesmo Borges que, cotejando um fragmento do texto original do Quixote de Cervantes com o texto exactamente igual do Quixote de Menard, fictício autor do sec.XX, descobre-lhe as diferenças nas ideias e nos estilos.

O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico (Mais ambíguo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.) (10)

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* do artigo publicado a 28/06/15 no El País por Carlos Cué

(1) de ‘Sobre los Clásicos’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(2) do ‘Prologo’ in El Libro de los Seres Imaginarios de Jorge Luis Borges (com a colaboração de Margarita Guerreiro) ed.Bruguera Alfaguara

(3) do ‘Prologo’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(4) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(5) in A Angústia da Influencia de Harold Bloom trad.Marcos Santarrita, Imago Ed.

(6) de ‘Ese Polifacético: Vilaseco’ in Cuentos de H.Bustos Domecq de Jorge Luis Borges ed.Seix Barral

(7) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(8) d’ ‘Outro Poema de los Dones’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(9) do ‘Prólogo’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

(10) de ‘Pierre Menard, autor do Quixote’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

O diálogo com o Público

Antes da escrita, a obra literária era cantada, recitada ou dramatizada perante um público. A escrita alargou esse público, não ameaçando as formas orais da divulgação literária, que ganharam em alcance e em variedade graças à tecnologia audiovisual.

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O escrevinhador, contudo, sente a pressão dessa ‘concorrência’: apesar da frase feita ‘o livro é melhor do que o filme’, o filme tem mais hipóteses de se tornar um blockbuster do que o livro um best-seller. Será só pelo filme tomar 2 a 3 horas do tempo do espectador, enquanto o tempo da leitura é longo e incerto?

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Enquanto produto industrial e mercadoria, o livro também tem beneficiado do desenvolvimento tecnológico, mesmo — principalmente, segundo muitos— no seu formato electrónico: mais barato, mais acessível, mais global, mais interactivo.

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Com uma população incomparavelmente mais alfabetizada do que em qualquer época anterior, o escrevinhador deveria felicitar-se pela sorte de ter nascido nesta época. Porém, olhando para as estantes da secção de livros dos hipermercados ou quiosques, o escrevinhador poderá desconfiar legitimamente se será assim.

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Para ganhar visibilidade e vendas, o escrevinhador entusiasma-se com os receituários que ensinam os 10 passos para se tornar um autor de sucesso (de vendas, bem entendido). E daí a frequentar as redes sociais, a procurar pretextos para falar da obra, a ‘enriquecê-la’ com conteúdos multimédia. Nada que não se fizesse (com muito menos recursos, é verdade) no tempo em que as précieuses cultivavam círculos literários nos seus salões.

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Nessa época distante também se verificou o aumento de publicações e, obviamente, de leitores. Do mesmo modo, provocou uma ‘invasão de imbecis‘*. Que alguns destes ganhem fama, tenham sucesso e enriqueçam com as inanidades que publicam, é verdadeiramente cómico e é um fenómeno antigo. Que sejam esses a ter mais obra publicada e público mais garantido, em vez daqueles que escrevem obras interessantes, sempre foi o lamento dos pobres génios não reconhecidos.

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Fazer o quê?— pergunta o infeliz génio. Deste blogue, nada preocupado com questões de sucesso, ouvirá em resposta um eco na forma interrogativa: escrever como?

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Escrever tendo em vista um leitor, um público, tentando de algum modo agradar-lhe, não tem nada de mal, caro escrevinhador. Principalmente se tem algo pessoal que o motive a escrever. E se, ao escrever, tem preocupações formais, estéticas ou outra coisa qualquer que vai mais além do desabafo, do vómito, do alívio das tensões.

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Dá que pensar quando lemos sobre um escritor que sofreu dúvidas dilacerantes sobre o valor das suas obras (mais tarde reconhecidas como obras-primas), tendo até o escrúpulo de as destruir, enquanto assistimos ao espectáculo de tanto escrevinhador satisfeito com a sua produção medíocre e ansioso por divulgá-la sem pejo, nem remorso.

 1ºpasso: SÊ ADORÁVEL

CARTAZ- 14h00-15h00 Marketing On-line: como conquistar a internet
Quadro- 1ºpasso: SÊ ADORÁVEL

A pensar noutras coisas, uma categoria de pessimistas entretinha-se a formular máximas como sic transit gloria mundi, enquanto outra categoria de pessimistas recomendava carpe diem, quam minimum credula postero, que é um modo de dizer aproveita enquanto podes.

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Como o autor deste blogue não é pessimista (nem latinista, com muita pena), limita-se a recomendar: enche a barriga, vive alegre dia e noite, faz festa cada dia, dança e canta dia e noite, que tuas roupas sejam imaculadas, lava-te a cabeça, banha-te, atende ao menino que te toma a mão, deleita a tua mulher, abraçada a ti**, que é algo que já foi escrito uns milhares de anos antes de qualquer das máximas latinas citadas.

Pintura de Reza Abbasi

Com um grãozinho de loucura e os favores da bela Musa, o resto virá por si. E se não, o escrevinhador (que não chegará a sê-lo, afinal), vive uma vida. E isso pode ser motivo para que se torne fonte de inspiração para qualquer candidato a escrevinhador de talento.

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* Umberto Eco, numa recente entrevista a propósito do mau jornalismo e do acesso mediático a todo o opinador desqualificado

** in Poema de Gilgamesh , tradução para o castelhano por Federico Lara Peinado, Editorial Tecnos

Escrever como não tendo um propósito

A narrativa não tem de estar sujeita a um enredo povoado de personagens ou carregado de situações, seguindo um ritmo rápido ou surpreendente (pelo menos, no sentido de surpreender pelo dramatismo).

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram*

«Jeu d’enfants #1», 2010, dessin de Jérôme Zonder

«Jeu d’enfants #1», 2010, desenho de Jérôme Zonder

O olhar de quem narra pode deambular pelo mundo que nos descreve, detendo-se em detalhes como são as cores ou os rostos, espantando-se com o movimento alucinado de um insecto em voo ou de uma vida, meditando sobre o café da manhã de todos os dias (em frente ao jornal ou a uma janela virada à rua), exprimindo ideias e impressões do narrador e daqueles que narra.

O moço atava os embrulhos de todos os dias no frio crepuscular do escritório vasto. “Que grande trovão”, disse para ninguém, com um tom alto de “bons dias”

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‘Antes de se auto-diagnosticar com depressão ou baixa auto-estima, certifique-se se, na realidade, não está rodeado de imbecis.’

Como todas as opções, esta corre o risco de desagradar e, pior que tudo, ser mesmo muito chata. Se for bem sucedida, torna-se um desafio ao leitor e pode ser extremamente gratificante.

O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo—tudo isso se tornou parte da minha vida

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Que tem ela de original, estimulante ou outro qualquer atributo positivo? De original, bem entendido, não tem nada. Mas coloca um parênteses no modo habitual de contar uma estória, eventualmente fazendo estória da ausência de um enredo (o qual deveria progredir página após página até o leitor afirmar com segurança que ‘este é um livro sobre…’).

Querer ir morrer a Pequim e não poder é das coisas que pesam sobre mim como a ideia dum cataclismo vindouro

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Sob a aparência da banalidade quotidiana e sem rumo definido, na realidade o enredo constrói-se sobre uma série de instantâneos que sugerem uma deriva, um mosaico ou puzzle, intrigando o leitor pela sua assumida negligência ou falta de propósito. Se o leitor tiver já alguma experiência, provavelmente percebe que é a ele mesmo que compete montar ‘as peças’ para que o mecanismo do enredo se revele e, como todo o mecanismo, revele o seu propósito.

Sinto já com a banalidade do conhecimento. Isto agora não é já a Realidade: é simplesmente a Vida

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-Olha,Emma, os nossos telefones estão a enviar textos um para o outro. Estou convencido que planeiam a nossa morte…

Porém, este processo narrativo exige algumas ‘competências’ para resultar satisfatoriamente. Destacaria o nível de qualidade da escrita (e não me refiro só ao vocabulário mínimo e correcção gramatical para se escrever um texto literário), imprescindível para prender a atenção do leitor, principalmente ao início, quando ‘não se passa nada’ e ele ainda não percebe aonde se veio meter. Sendo a escrita suficientemente elegante, convém que não seja fútil e, pelo contrário, revele inteligência e sensibilidade, duas qualidades que dão sentido ao narrado e poderão fazer o leitor ganhar o dia… melhor ainda: a perder a noite!

Contemplei-a do fundo do abismo, anónimo e desperto. Ela tinha tons verdes de azul preto e era lustrosa de um nojo que não era feio

desenho de ENRIQUE FLORES

desenho de ENRIQUE FLORES

Claro que estas ‘competências’ são as mesmas que recomendo para a elaboração de qualquer texto, literário ou não, mas aqui tornam-se mais importantes pois actuam sem rede, ou seja, sem um enredo que compense carências ou descuidos perfeitamente evitáveis. A inteligência e sensibilidade, neste caso, têm de suprir a ausência de tensão do enredo, provocando pelo humor, inquietando pelo ritmo, intrigando pela diferença.

Não costumo estar nas ruas àquela hora e por isso estava numa cidade diferente

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O resultado pode ser um texto inclassificável, uma estória talvez sem nexo, um estranho objecto literário. Daí o risco, daí as dificuldades.

Eram seis horas. Fechava-se o escritório. O patrão Vasques disse, do guarda-vento entreaberto, “Podem sair”, e disse-o como uma bênção comercial. Levantei-me logo, fechei o livro e guardei-o

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imagem de Chema Madoz

*Esta e todas as citações em itálico são retiradas do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, ed.Assírio e Alvim

Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

FERNANDO VICENTE

cartoon de Fernando Vicente

O uso da palavra

Para o escrevinhador, a importância da palavra deve ser bem medida, e não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo de troca. É verdade que a palavra tem a história da sua formação e genealogia, assim como a do seu uso e evolução no tempo e no espaço, que é aquilo que, à falta de melhor, chamo de valor intrínseco. Mas o escrevinhador não tem de ser erudito, nem tem de supor a erudição dos leitores. O que tem, creio eu, é de conhecer o valor dado aqui e agora à palavra e que é o que chamo o seu valor de troca.

(…) a troca, por sua vez, cria valor. E isso de duas maneiras. Primeiramente torna úteis coisas que sem ela seriam de utilidade fraca ou talvez nula: que pode valer um diamante para os homens que têm fome ou necessidade de se vestir? Basta, porém, que exista no mundo uma mulher a quem se deseja agradar e um comércio suscetível de trazê-la às suas mãos, para que a pedra  se torne “riqueza indireta para seu proprietário que dela não precisa (…) daí a importância do luxo, daí o fato de haver diferença do ponto de vista das riquezas, entre necessidade, comodidade e prazer. Por outro lado, a troca faz nascer um novo tipo de valor, que é “apreciativo”: organiza entre as utilidades uma relação recíproca, que duplica a relação com a simples necessidade. (1)

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Este valor de troca é o dado no momento. Recordo, quando tinha cinco, seis anos, meu Avô ralhar-me por chamar ‘chato’ a alguém ou alguma coisa, o que me deixou bastante perplexo porque sua filha, minha Mãe, não só tolerava o uso desta palavra como a usava sem reservas. Muito mais tarde, nos primeiros anos da adolescência, percebi que as razões da aversão do meu Avô—inequivocamente na base do sentido depreciativo dado à palavra—já não eram percebidas quando usadas entre pessoas das gerações seguintes. Ou, se eram, só mesmo por adolescentes, ainda fascinados com a polissemia e subentendidos que as palavras banais podem ter. Na verdade, todos sabemos que um chato incomoda, mas dificilmente encontramos alguém que nos irrite tanto que dê coceira.

O ‘diz-me com quem andas que eu te direi quem és’ não quer dizer nada. Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas. (2)

-OH NÃO... ELES NÃO...

-Oh não… Eles não…

O ‘sentido comum’ dado aqui e agora é aquele que, com quase toda a probabilidade, o leitor dará à palavra. Não levar isso em linha de conta gera problemas de comunicação, prejudicando a leitura e provocando críticas como a de texto confuso, difícil ou pedante. Ou tudo isso à vez. O que não impede que o escrevinhador possa explorar o tal valor intrínseco (bem pelo contrário, como adiante tentarei explicar), não por pretensões eruditas (pelo menos, no caso da escrita poética ou de ficção), mas por outras: a de levar a interpretação do texto para diferentes níveis de entendimento, seja pela polissemia, seja pela ambiguidade, ou, até mesmo, pela sonoridade. Importante é que seja disso ciente, para não falhar o efeito pretendido.

(…) o romance popular não inventa situações narrativas originais, mas combina um reportório de situações ‘tópicas’ conhecidas, amadas pelo próprio público (…).  (…) a catarse, por razões comerciais, deve ser optimista. (3)

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O uso de ‘palavras caras’ tanto pode servir para mascarar o vazio do discurso (senão mesmo a sua falsidade), como ser sintoma da dificuldade do escrevinhador em lidar com o tema. A comunicação na era de massificação, em que o número de receptores (leitores, ouvintes, espectadores) contam-se pelos milhões (e muitos milhões), tem demonstrado como o uso deliberado da linguagem ‘técnica’, ‘erudita’, ou outras variantes de um jargão acessível a ‘especialistas’, pode iludir e manipular, assim como o seu uso irreflectido ou mal calculado pode se virar contra o comunicador.

Uma descrição que parece neutra mostra o que tem de tendencioso quando se lhe pode opor uma descrição diferente (…). (4)

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-O que é mais obsceno: a violência ou os mamilos?
‘LIBERDADE PARA OS MAMILOS’ (desenho de María Acha-Kutsher)

Na vida académica e na área das ciências tem havido alguma literatura dedicada a desmontar discursos, expondo a sua vacuidade por detrás de formulações verdadeiramente incompreensíveis. Que não são outra coisa senão variantes do famoso conto do ‘rei vai nu’.

O fazedor de dinheiro não é a personalidade mais palatável, mas é muito preferível ao pretenso intelectual. (5)

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“Sim, o planeta foi destruído. Mas durante um maravilhoso período de tempo criamos uma quantidade de valor para os accionistas.”

Daí que, numa época em que ‘o livro’ se está tornando um objecto incómodo, em que a comunicação escrita sofre amputações e próteses aberrantes, em que o próprio discurso oral é ameaçado pela vacuidade dos formatos convencionados para debate e exposição de ideias, seja importante que o escrevinhador consiga fascinar o leitor ajudando-o a descobrir o valor intrínseco da palavra. Na verdade, ao fazê-lo, limita-se a prolongar uma longa tradição anterior à própria escrita, mas fá-lo num tempo em que essa tradição está ameaçada pela própria parafernália técnica que era suposto contribuir para uma dinâmica cultural incomparavelmente mais rica do que a de todas as épocas anteriores.

A habilidade do artista em sair da frente do choque violento da nova tecnologia de qualquer época e evitar tamanha violência com absoluta consciência, vem de há muito tempo. (6)

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Para os não-Iniciados, a palavra escrita ou oral pode ter um valor misterioso pelo grafismo e sonoridade, dando realce à simbologia ou à magia. Mas para os Iniciados como nós, meros leitores e escrevinhadores, sabemos bem como esse valor é uma moeda sujeita a flutuações e o mistério reside, exclusivamente, nos favores da bela Musa. Nesse aspecto, creio que nada de significativo tem mudado nos últimos quatro mil anos.

(…) sob a sua forma mais alta, a invenção literária ensina-nos a enriquecer, a complexificar, de um ponto de vista heurístico, os confins da habitação comum que não nos damos ao trabalho de reconhecer. Abre janelas através das quais nos convida a ver um terreno novo, novas fontes de luz. Narra histórias através das quais ouvimos a voz da nossa identidade privada e comum. (7)

Ilustração de Fernando Vicente

Ilustração de Fernando Vicente

Há palavras que caíram em completo desuso, tal como o discurso que as suporta, e há outras que evoluíram, alterando significados conforme a geografia e a comunidade de falantes. A usura do Tempo e as transações culturais têm esse efeito natural e inevitável. A diferença da época actual em relação às anteriores (há 40 como há 400 anos), é que o processo tem sido muitíssimo mais rápido, associado à fragmentação da comunidade de falantes no interior das próprias gerações e no mesmo espaço social. Isto tudo, e muito mais (que não cabe a este humilde escrevinhador desenvolver aqui), dificulta obviamente a comunicação, mais ainda se for comunicação escrita com pretensões literárias.

A intensidade da agitação em torno da ortografia é apenas um índice da novidade que representava a palavra impressa, e dos seus efeitos centralizantes quanto à conformidade. (…) É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada (…) a diferença entre a ordem oral e a visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correcto. (8)

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

Por isso, insisto: é importante o escrevinhador preocupar-se em ‘chegar’ a todos esses potenciais leitores desconhecidos de modo a fazer-se entender e, principalmente, a seduzi-los com palavras (e, neste ponto do post, o leitor já poderá perceber que ‘palavra’, aqui, também se entende por ‘tecido de palavras’ ou ‘texto’), levando-os a procurar mais além da superfície, imediatez, uso comum… para lá do valor de troca, portanto. E quando o leitor começa a saber distinguir as pérolas da simples fancaria, é porque já reconhece o valor intrínseco das coisas. Como as palavras.

As palavras com que tens convivido/ durante tanto tempo, continuam/ servindo-te para algo? Poderás valer-te delas/ quando os antídotos/ contra a tua própria decepção/ já se esgotaram? (9)

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(1)in As Palavras e as Coisas de Michel Foucault, trad.Salma T.Muchail ed.Martins Fontes

(2) in Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr de Millôr Fernandes, ed.Nórdica

(3) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed. Tascabili Bompiani

(4) in O Império Retórico de Chaïm Perelman, trad.Fernando Trindade e Rui A.Grácio, ed.ASA

(5) in Closing of the American Mind de Allan Bloom, ed. Simon and Schuster Paperbacks

(6) in Understanding Media de Marshall McLuhan, ed.A Mentor Book

(7) in Gramáticas da Criação de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(8) in A Galáxia de Gutemberg de Marshall McLuhan, trad.Leónidas G.Carvalho e Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional

(9) in Bordes del Silencio La noche no tiene paredes de J.M. Caballero Bonald, Obras Completas ed.Austral

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

O Tempo e o Modo*

O leitor pode saltitar alegremente de livro em livro com a despreocupação das borboletas…? Talvez não: Sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema (José Pacheco Pereira, em artigo no jornal Público em 15-11-2014).

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Imagine-se, então, o escrevinhador ansioso por criar (ou alimentar) uma comunidade de leitores das suas obras: se eu pudesse escrever tudo…, mas não pode, claro. A boa notícia é que tem interesse e assunto a que se dedicar.

Se mantiver a preocupação em motivar leitores, potenciais leitores, e atrair ‘públicos’ diversificados, possivelmente colocar-se-à na sua cabecinha pensadora uma dúvida: devo situar o enredo na época actual, ou numa época futura ou passada?

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É uma preocupação legítima, visto o sucesso literário, cinematográfico ou televisivo, de narrativas ajustadas a épocas bem definidas. De modo não menos evidente, e qualquer que seja a opção, decorrem implicações formais, lógicas, factuais ou outras. Assim como os inerentes riscos. Sobre isso falarei mais detalhadamente num futuro post.

Outra dúvida que lhe poderá ocorrer, ao escrevinhador ansioso em agradar, é o do nível de linguagem a usar para fazer-se entender pela tal comunidade de leitores, virtual, existente ou a expandir. Bem vistas as coisas, essa deveria ser uma preocupação geral, já que o hermetismo em literatura é, propriamente, um género dirigido para aficionados e afins. Coisa que também deixarei para futuro post.

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Ambas as dúvidas assentam num denominador comum: o escrevinhador. Escreva sobre o que escrever, o modo como o faz é mais importante do que o tema e os conteúdos. Prioridade aos aspectos formais, então? De modo algum, isso seria negar o beijo à bela musa e trancar a louca da casa no sótão (ou na cave).

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Se, na literatura, vale tudo (e, na minha opinião, sim! vale mesmo tudo), é precisamente pelo grãozinho de loucura que desarruma ideias feitas e pela paixão que desperta artes de sedução. Sobre isso, creio já ter-me explicado em posts passados.

* título duma bem conhecida revista ‘de pensamento e acção’ dos anos 60 do século passado, em Portugal, e que exprimia em editorial o desejo de ‘tentar formular algumas perguntas e experimentar algumas respostas, que polarizassem a ansiedade geral que paira sobre o tempo comum.’

Questões de nível

A escrita, tal como a fala, está sujeita a códigos ‘de etiqueta’ que não se confundem com as regras da Gramática ou com normas ortográficas. Quem escreve pode nem estar consciente de seguir um qualquer código, limitando-se a fazer como sabe e sempre fez.

Se pedir, peço cantando,/ sou mais atendido assim;/ porque, se pedir chorando,/ ninguém tem pena de mim (in Este livro que vos deixo de António Aleixo ed.Vitalino Martins Aleixo)

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Nos finais do século passado ainda se publicavam um preciosos livrinhos que forneciam modelos para correspondência comercial, explicando em que circunstâncias se usava certa adjectivação (prezado, caro, excelentíssimo e aí por diante) ou se terminava oferecendo abraços ou atenções (com um abraço, atenciosamente). A correspondência amorosa também mereceu destaque nesse género de publicações, e não era menos rigorosa na utilização de fórmulas e do vocabulário.

Tão pouco te pergunto / meu amor:/ Como responde o corpo/ ao vazio dos lábios? (‘Pergunta’ in Só de Amor de Maria Teresa Horta, ed.Dom Quixote)

Textos com pretensões eruditas podem ser mais facilmente desacreditados se não respeitarem o rigor dos conceitos por de trás das palavras ou a articulação lógica entre diferentes afirmações e parágrafos, assim como um certo comedimento na expressão das emoções, o que não implica excluir frases poéticas ou efeitos cómicos.

O voo dos gansos bravos por cima da minha cabeça diz-nos que o protão perdura por muito tempo, mas não indefinidamente! (in Aves, maravilhosas aves de Hubert Reeves, trad.Francisco Agarez ed.Gradiva)

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Assim sendo, como se pode escrever um texto com aspirações literárias sem se prestar a necessária atenção para os níveis de linguagem? A questão torna-se especialmente pertinente quando o texto aborda a vida quotidiana, as pessoas nos seus diferentes estatutos sociais e contextos, mais ainda se o contexto histórico, geográfico ou outros são, de algum modo, familiares.

O capitão deu ordem de fogo. Arcádio apenas teve tempo de encher o peito e levantar a cabeça, sem compreender de donde fluía o líquido ardente que lhe queimava os músculos.

—Cabrões!—gritou—Viva o partido liberal!

(in Cien años de soledad de Gabriel Garcia Marquez, ed. Austral)

Mas as dificuldades para o escrevinhador serão maiores se não tem o pulso treinado para acompanhar o ritmo e o colorido dos estados emocionais, e não tem o ouvido apurado para as vozes da rua, dos convívios informais, dos encontros profissionais, das relações amorosas. Até mesmo nos insultos, certos escrevinhadores estão tão pouco à vontade que o resultado soa cómico, senão esquisito.

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe., e não apareceu nem respondeu—que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido.Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. (in Grande Sertão:Veredas de João Guimarães Rosa,ed. Nova Fronteira)

'Au!Au!Au!Au!Au!Au!...Au!...Au!... Raios...Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando'

‘Au!Au!Au!Au!Au!Au!…Au!…Au!… Raios…Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando’

Sempre foi o recurso clássico do mau escrevinhador defender-se deste problema recorrendo a uma linguagem ‘difícil’, mais rara do que erudita. Ou a formulações pomposas — ‘gongóricas’ diriam noutros tempos. Ou então, inversamente, cair na linguagem ordinária, calão mesmo, mais à semelhança do que ouve em certos reality shows do que na vida real. Em qualquer dos casos, o vulgar estereótipo.

Pilha aqui, pilha ali, vozeia autores,
Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e vários;
Propõe sistemas, tira corolários,
E usurpa o tom d’enfáticos doutores:

Ciência de livreiros e impressores
Tem da vasta memória nos armários;(…)

(‘Soneto ao Leitão’ de M.M. Barbosa du Bocage)

Não é este, de modo algum, um problema menor quando comparado à construção do enredo, à composição das personagens ou aos ritmos da narrativa. Há escrevinhadores que dão tanta relevância à linguagem empregue, que tudo o mais fica ofuscado numa primeira leitura, e digo isso num sentido elogioso, pensando nos exemplos já aqui abordados a respeito da oralidade do texto.

Sempre o mesmo afã de anotar coisas que parecem urgentes, sempre escrevinhando palavras soltas em papéis soltos, em cadernos, e afinal para quê, se quando vejo a minha letra escrita, as coisas a que se refere o texto se convertem em borboletas secas que antes voavam ao sol. (in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed. Planeta DeAgostini)

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O melhor enredo, ou a personagem mais fascinante, podem ser assassinados — pior ainda: cobertos de ridículo— se houver inadequação entre quem fala ou narra e o modo como fala ou narra. Polémicas literárias famosas sempre estalaram violentamente a este respeito, e não é para menos, já que este é um dos pilares da construção literária. Infelizmente, a maioria dos problemas de inadequação na construção do texto literário têm mais a ver com a falta de preparação do escrevinhador do que por questões de gosto.

O homem célebre é um homem que fez uma porção de coisas pra gente estudar na escola. Eu acho que se não existisse homem célebre nunca havia necessidade de ir na escola, porque nunca tinham inventado nada nem coisa nenhuma. (…) Os homens célebres ficam célebres por uma porção de coisas mas eu acho que a mais importante é a memória, pois todas as estátuas que eu conheço são dedicadas à memória deles. (in Conpozissõis Imfãtis de Millôr Fernandes, ed.Nórdica)

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Mais uma vez, o problema é agravado pela falta de boas e variadas leituras, e parte da solução está aqui. Treinar o ouvido é mais fácil, já que, quando confrontado com exemplos de inadequação, o escrevinhador reconhece facilmente a falha e consegue, quase de imediato, reformular e melhorar o texto. Mas o que dá mais trabalho e leva tempo é exercitar o pulso, pois aí reside aquilo que é específico do fenómeno artístico: a possessão.

(…) Às vezes sou algum/ desses esquivos personagens/ que repentinamente me suplantam,/ e às vezes somente sou/ como que um antecessor do que nunca serei/ ou talvez esse inconstante buscador de respostas/ que acaba sempre defraudado/ pela futilidade das suas pesquisas. / No entanto, minha história pessoal/ pouco tem que ver com essa história:/ Também eu sou aquele que nunca escreve nada/ se não é em legítima defesa. (‘Biobliografia’ de J. Caballero Bonald in Diário de Argónida  Somos el tiempo que nos queda-Obra Poética Completa ed.Austral)

Ou o beijo da bela Musa…

Qué fas ti mentras, meu bem?/ Dime dónde estás,en dónde,/ que te aspero e nunca chegas,/ que te chamo e non respondes./ Morreches, meu queridiño? O mar sin fondo tragóute?  (‘Cando a luniña aparece’ in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, ed.Cátedra)

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

O escrevinhador à toa

O ‘chato’ como categoria estética é, no mínimo, tão complexa quanto polémica como o é a categoria do ‘belo’, e não menos condicionada por factores sociais ou pela passagem do Tempo.

-Bem, chega de falar de mim

-Bem, chega de falar de MIM! Vamos escolher o jantar?                                                                                          ‘A BANALIDADE DO MAL’

Pessoalmente, uso e abuso dela por entendê-la pertinente e por corresponder a algo de que todos temos percepção. Porém, faço-o com consciência de ser uma expressão sem rigor, subjectiva, variável.

Por isso se diz que a tarefa do escrevinhador é solitária, pois como há-de ele se guiar durante o processo de criação? Mesmo tendo leitores habituais, corre-se sempre riscos inovando ou se repetindo.

-Obrigado a todos pelo bolo e por me forçarem a confrontar com a minha mortalidade.

-Obrigado a todos pelo bolo e por me forçarem a confrontar com a minha mortalidade.

Mas o mesmo livro pode surpreender, quando relido anos depois: o leitor não fica livre de ser o ‘chato’, quando revela sua inaptidão para entrar no jogo das ironias ou para interpretar sentidos menos óbvios, por exemplo; ou quando se deixa levar por fenómenos de moda, lendo sem critério e adoptando critérios estereotipados.

Aqui, o papel do editor/agente poderá ser de grande valia para o escrevinhador, assim como o do crítico para o leitor. Porém, no mundo da Língua Portuguesa, onde existem esses editores/agentes e esses críticos?

Assim, o escrevinhador vagueia sem estrelas a guiá-lo, muitas vezes jogando textos nas páginas das redes sociais ou declamando versos em tertúlias. Sempre na esperança de ser reconhecido e valorizado, talvez demasiado crente naquilo que não é mais do que a boa vontade de estranhos e amigos. Ora, o que geralmente acontece é que nem é lido, nem apreciado, muito menos criticado. Sem polémicas, não há consciência clara do processo criativo. Sem leitores exigentes, não há estímulo para o aperfeiçoamento.

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Muito pior ainda se, inseguro de si mesmo, o escrevinhador evita reflectir sobre o que faz e como o faz.

Sem se questionar: escrever… como?

 

 

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

A escrita chata

Pode parecer um grande enigma, mas há escrevinhadores chatos (ou maníacos) que são pessoas muito interessantes na aparência, e há pessoas muito chatas (ou maníacas) que são escrevinhadores muito interessantes.

E se a tua vida for chata em todos os universos paralelos?

E se a tua vida for chata em todos os universos paralelos?

Creio que a explicação não é muito difícil.

No primeiro caso, a escrita não surge do impulso apaixonado de quem tem algo a contar/exprimir, mas parte de um processo em que a literatura é simples instrumento.

"E todos vivemos lucrativamente para sempre."

“E todos vivemos lucrativamente para sempre.”

Já no segundo, a literatura pode ser a via do auto-conhecimento, da exploração do mundo, da criação.

-Que é que te faz pensar que achamos a tua estória sobre gatos chata?

“Que é que te faz pensar que achamos a tua estória sobre gatos chata?”

Pior, mesmo, são as pessoas realmente chatas que escrevem coisas muito chatas. E não se enxergam. No universo fechado dos amigos e das tertúlias de poesia, fica difícil que recebam outra coisa senão os elogios postiços e as palmas de circunstância.

Se publicarem, poderão ainda ser abençoados com uma crítica; se não…donde chegarão críticas válidas e construtivas (e desapiedadas)?

O que torna a escrita chata?! Já tenho dito alguma coisa do que penso sobre isto e, correndo o risco de me repetir, tentarei num próximo post elaborar algo mais.

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Uma recomendação de um velho que já viu muito…

Não se pode falar dos escrevinhadores como sendo todos madeira do mesmo lenho, mas com isto não pretendo dizer o óbvio (que há os bons, os assim-assim e todos nós que sobramos), nem o evidente (que uns tendem para umas coisas e outros para outras, como são os prosadores e os poetas).

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Na realidade, e sem que isso pretenda ser juízo de valor, o que entendo é que há os que escrevinham por prazer, outros por paixão, uns por tédio e alguns por obsessão, talvez ainda por algum tipo de vaidade ou de dor, e assim por diante. Provavelmente, até haverá os que escrevinham por todas estas razões.

Na história da literatura de todos os países com tradição literária hão-de sobrar exemplos disto tudo. Mas o que me interessa sublinhar é que distintas motivações resultam, naturalmente, em diferentes processos de criação.

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Pessoalmente, gosto da atitude daqueles escrevinhadores já com nome feito e obra reputada que insistem em colocar o prazer de contar estórias (ou criar enredos) e a paixão pela escrita como arte de composição no topo das suas motivações.

O que não quer dizer que não haja tanto neurasténico, rancoroso ou morcão (como se diz na minha terra) na história universal da literatura a escrevinhar obras geniais.

Porém, o desejo do aperfeiçoamento, a vontade de experimentar algo diferente, creio que nasce dos que têm prazer e paixão. E nota-se, senão na qualidade dos escritos, no modo como exploram leituras e compõem suas coisas.

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Neste Verão (ou Inverno, se estiver abaixo do equador), em que o humilde escriba deste ainda mais humilde blog passará a ter uma quebra de produtividade semanal, fica esta recomendação: leiam bem, escrevam como podem e, acima de tudo, vivam uma vida!

Um curto parênteses para repetir o de sempre

Para aqueles que pedem dicas para a promoção dos livros editados, relembro que não é essa a vocação deste humilde blog. O seu propósito é reflectir sobre a criação literária numa perspectiva algo teórica, algo prática.

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Numa época em que a auto-edição (ou edição de autor) é cada vez mais acessível, o escrevinhador tem total liberdade criativa, correndo o risco de não ser lido e que é o risco de todos os tempos, no passado, no presente e no futuro.

É por isso que entendo vivermos numa época de ouro da escrita (tudo se pode publicar) e o seu contrário (raro é o livro publicado que se aproveita).

Quando digo ‘raro’, não pretendo dizer que hoje se escreve pior do que antes, mas que o aumento maciço de edições desequilibra a proporção entre os livros interessantes e os outros.

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Assim, mais do que se preocupar com a promoção, creio que o escrevinhador deve ser autêntico e interessante…qualidades que, de modo algum, se confundem.

Pode ser interessante sem ser autêntico?

Evidentemente que sim, mas acaba sempre por se notar algo de postiço e/ou vazio na escrita.

Dr.

‘Dr.Peter-psiquiatra’  PACIENTE:”Ninguém presta atenção ao que eu digo. Sou tão chato, as pessoas desinteressam-se” PSIQUIATRA: “Desculpe, estava a dizer alguma coisa?”

Autêntico sem ser interessante é o mais comum, pois se a qualidade de alguém ser o que é já se torna muito duvidosa na vida em geral, não há nenhuma razão para que a escrita seja excepção.

Daí regressar incessantemente à interrogação escrever como?

"Oh, sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se eu trabalhasse desse modo acabava despedido."

“Oh, eu sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se trabalhasse desse modo acabava despedido.”

 

 

Algumas considerações intempestivas (e sempre oportunas)

O escrevinhador sofre, frequentemente, a solidão do criador. Por vezes interroga-se se vale a pena.

"Não, 5ªfeira não pode ser. Que tal nunca...nunca está bem para si?"

“Não, 5ªfeira não pode ser. Que tal nunca…nunca está bem para si?”

 

A ‘pena’ é o duro ofício que ele próprio elegeu. Compreendo a frustração, mais ainda se não tem obra publicada, nem leitores (ou, pelo menos, leitores que manifestem opinião).

Como és, Leitora? (…) és arrumada ou desarrumada? (…) És depressiva ou eufórica? És mesmo hospitaleira ou o deixar entrar em casa os conhecidos é sinal de indiferença?(…) Que mais? (…) A leitura é solidão. *

Sobre isso não tenho nada a dizer, muito menos a varinha de condão para resolver essa queixa recorrente do escrevinhador de todos os tempos, à excepção de alguns felizardos (mesmos esses sujeitos a um reconhecimento muito tardio, intermitente ou precocemente interrompido).

Que importa o nome do autor na capa?Viajemos com o pensamento até daqui a três mil anos. Sabe-se lá que livros da nossa época se terão salvado e de que autores se recordará ainda o nome.

Apetece-me, quando os ouço, lembrar-lhes o quase anonimato por que passaram escrevinhadores com a grandeza de Pessoa, e que depois de mortos se tornam figuras cimeiras da Literatura Mundial.

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E, para prémio de consolação, citar dois ou três nomes absolutamente desconhecidos, que já foram famosos, best sellers, premiados pela crítica e pelo público, mas que nem são dignos, hoje em dia, de dar nome a uma obscura rua da cidade onde nasceram.

Nem fada-madrinha, nem muro das lamentações, este blog lida com a escrita como fonte de prazer e de amadurecimento pessoal, com pretensões literárias, recreativas, didácticas. Se esse prazer ajudar a pagar as contas lá em casa, tanto melhor.

Os teus olhos tombam no principio do livro—mas não é o livro que eu estava a ler…Título igual, capa igual, tudo igual…Mas é outro livro! Um dos dois é falso.

Até porque, cada vez mais, torna-se acessível a publicação em papel (pagando-a, claro) ou em formato e-book (rigorosamente gratuita). Também poderia dar uma mão cheia de exemplos de grandes livros que foram publicados pela primeira vez em edição de Autor.

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O que faz falta, a meu ver, é uma rede de críticos, leitores, editores, agentes literários, publicações, livrarias, feiras literárias, com capacidade para ‘processar’ e consumir tantos autores e obras, principalmente no universo da Língua Portuguesa. Mas isso são largos contos.

Um momento, olha para o número da página. Que maçada! Da página 32 voltaste à página 17! O que julgaste ser um rebuscamento estilístico do autor não é mais que um erro de tipografia: repetiram duas vezes as mesmas páginas.

Por isso, e já o disse algures noutro post, ao escrevinhador só deve interessar o lado criativo da escrita, o trabalho meticuloso para ajustar a ideia à forma, o sentido crítico para o aperfeiçoar ou, inclusive, refazê-lo, desistir dele. Ou seja: dedique-se a activar as áreas cerebrais correspondentes ao prazer, ao sentido estético, ao juízo. Ah, viver uma vida também!

Há quantos anos não consigo entregar-me a um livro escrito por outros, sem nenhuma relação com as coisas que devo escrever eu?

E a preocupação de escrever como quem vai ser lido por milhões de pessoas anónimas, muito comuns mesmo, mas excepcionalmente bafejadas pelo Destino para poderem ter o discutível privilégio de conhecer sua obra.

Illustration by Jean Jullien

* Esta e todas as outras citações em itálico são retiradas do livro E Se Numa Noite de Inverno Um Viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed. Colecção Mil Folhas-Público

 

Para lá dos ‘estados de espírito’

Muitas vezes, o trabalho poético do escrevinhador  assenta na crença de que a verdade dos estados de espírito será suficiente para garantir ‘a alma’ do poema, enquanto que a aplicação duma qualquer métrica e sistemas de rimas bastará para a estrutura…e depois há um vocábulo, uma imagem, um efeito que podem ser acrescentados em revisões seguintes. Poderá também dispensar métrica e rima, sempre confiante na inspiração que o domina.

Se a emoção dominar a composição, reforça o risco do excesso, tanto na linguagem, como nas ideias, sem com isso dizer que se torna profundo ou complexo. Os sintomas mais evidentes são a perda de musicalidade, ritmo, clareza, empastelando frases longas (e a divisão da frase nos diferentes versos não a encurta, evidentemente).

-Tudo bem,David.

-Oh,David. Toda a gente sabe que és estúpido. Não precisas de tentar ganhar o campeonato mundial.

Ou seja, há mais preocupação em dizer do que em compor. Mas não será um risco aceitável, o de versejar livremente ao sabor da emoção e do sentimento? Aliás, não será até a característica principal da poesia? A de ser espontânea e vinda do fundo do Ser (ou ‘ do ser’, conforme os gostos)?

Pois, pois…não houvesse tanta negligência por parte dos escrevinhadores-poetas, compondo sem critério, nem auto-crítica.

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Sendo possível o compromisso entre estrutura, emoção (ou sentimento) e critérios (sejam lá quais), o escrevinhador estará a aperfeiçoar a técnica dos futuros poemas. Assim, mais facilmente captará os momentos de inspiração num texto que seja, por sua vez, inspirador.

Passei a vida a amar e a esquecer…/Um sol a apagar-se e outro a acender/nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo/É igual a outro amor que vai surgindo,/Que há de partir também…nem eu sei quando… (1)

Pode ser que algumas obras-primas da poesia tenham sido escritas logo à primeira redacção, sem mais do que um ou outro acerto posterior. É possível e é de génio (mas dá muito trabalho). A acontecer, deve ser raro.

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A inspiração, emoção, sentimento, a louca da casa, são fundamentais, mas não dispensam o pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica. Quando combinados, a vida banal do escrevinhador ganha dimensão universal e a poesia, bem…a poesia torna-se força da natureza.

Eventualmente paso días enteros sangrando/(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra/exagerado e implacable como una mujer enamorada./(…)/

No alimentaré a nadie con mi cuerpo/para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo./

Por eso sangro y tengo cólicos/y me aprieto este vientre vacío/y trago pastillas hasta dormirme y olvidar/que me desangro en mi negación  (2)

Madonna (1895), de Edvar Munch

Madonna (1895), de Edvar Munch

 

(1) in Inconstância, do  Livro de Sóror Saudade de Florbela Espanca

(2) in Eventualmente paso días enteros sangrando, do livro Espejo negro de Miriam Reyes, DVD ediciones

Escrever como terapia

O sentido dado aqui a ‘terapia’ é muito amplo, e desde há muito que as artes em geral são entendidas, também, como um modo do sofredor (de amores, de melancolia, de obsessões, de desgostos, de doenças físicas ou mentais…) recuperar a saúde até um certo ponto. Ou, de algum modo, a comprazer-se com a dor.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

A escrita literária, principalmente, gerou muitas e boas obras graças a este processo. Mas é incomensurável o número das que são simplesmente insuportáveis.

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O problema não está na necessidade do escrevinhador em ‘trabalhar’ suas emoções e sentimentos, ordenando ideias, exprimindo sensações. Provavelmente, tudo isto é a matéria-prima e o combustível do processo artístico.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

O problema está, creio eu, em deixar o processo ser dominado por essas mesmas emoções, sentimentos, ideias e sensações: o escrevinhador como que se isenta de quaisquer faculdades críticas e estéticas.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se se pode escrever bem sem essas faculdades, só o vejo possível para quem tem interiorizado com elevada técnica e apuro o exercício da escrita.

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De outro modo, acontece o previsto: a produção de textos sem valor literário, ainda que ricos em material para análise psicanalítica…e, na esmagadora maioria das vezes, nem isso, vista a sua banalidade confrangedora.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Conforme já por aqui tenho dito, não se está a pôr em causa a importância da espontaneidade, das emoções-sentimentos-etc-e-tal, e de tudo o mais que exprima o mundo interior de cada qual. Mas a relativizá-los enquanto material para uma escrita com pretensões literárias, a ser partilhada com leitores desconhecidos.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se são importantes, para não dizer fundamentais, numa primeira fase do processo da escrita, têm de ser avaliados rigorosamente numa fase posterior a que chamei ‘pós-produção’ literária.

QUESTIONÁRIO POPULAR! Há mais alguma coisa na vida? SIM/NÃO -Raios.Eu devia saber esta...

QUESTIONÁRIO POPULAR!
Há mais alguma coisa na vida?
SIM/NÃO
-Raios.Eu devia saber esta…

 

* retirado de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro (apresentação crítica, fixação do texto, notas e linhas de leitura de Teresa Amado) Colecção Textos Literários—Editorial Comunicação 1984

 

 

 

 

Escrever para chegar ao fim

Uma coisa boa a respeito da ‘falta de fôlego’ do escrevinhador, tema do post anterior: resulta, na esmagadora maioria dos casos, duma consciência auto-crítica sobre o valor do texto.

Depois de doze minutos/Do seu drama  O Marinheiro/Em que os mais ágeis e astutos/Se sentem com sono e brutos,/E de sentido nem cheiro,/Diz uma das veladoras/Com langorosa magia:/ 

De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos falando ainda?

/Ora isso mesmo é que eu ia/ Perguntar a essas senhoras…(1)1982260_797510686944822_1081620113_nO escrevinhador percebe que esgotou a capacidade de inovar, acrescentar, renovar, limitando-se a produzir texto a metro, e mesmo assim com muito custo. Obviamente, o resultado não o pode satisfazer.

Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu./Senti de mais para poder continuar a sentir/ Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. (2)

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-Primeiro tens de gostar de ti mesmo. -De mim?!…Eu mereço melhor!

Se parar, guardando o texto numa gaveta e aproveitando para arejar as ideias, talvez seja beneficiado por uma lufada de inspiração mais tarde. Ou abandone o projecto.

Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir…/É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…Prá frente! (3)

Infelizmente, muitos assumem o ‘dever’ de lhe dar um fim, arrumando de vez com aquela tarefa penosa. Percebo que o façam por obrigação contratual, mas isso só beneficiará a lista dos monos, caso venham a publicar.

(…) Se há um plano/ Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…) (4)

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Contudo, a imensa maioria não está sujeita a prazos, muito menos a contratos. Sem gosto, nem proveito, porque insistem?

Vou atirar uma bomba ao destino. (5)

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Sem entrar nas águas turvas da criação artística, creio que a resposta está no nível emocional do exercício da escrita literária: a generalidade dos escrevinhadores escreve por necessidade interior, como se o acto ajudasse a por em ordem as ideias, os sentimentos, a vida. Que não é uma terapia cem por cento eficaz demonstra-o a legião de suicidas, alcoólatras,  e doidos que brilharam (e brilham) no universo literário.

Mas escrever como terapia também não é garantia de que o escrevinhador se torne melhor pessoa, e muito menos de que os seus escritos se elevem da mediocridade.

Hup lá, hup lá, hup-lá-hô, hup-lá!/Hé-lá! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!/Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! (6)

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(1) in A Fernando Pessoa depois de ler o seu drama estático “O Marinheiro” em “Orpheu I” ; esta e as citações seguintes são da autoria de Álvaro de Campos  Poesia vol.I ed.Planeta DeAgostini

(2) in Ode Marítima

(3) in Carnaval

(4) in Saudação a Walt Whitman 

(5) Poema nº 42 (sem título)

(6) in Ode Triunfal

Escrever como quem martela ferro frio…

São variados os obstáculos que se põe no caminho do escrevinhador  (bloqueio, inconsistência, desinspiração, etc, etc), faltando-lhe fôlego para animar a obra e dar-lhe ritmo, velocidade, tensão ou qualquer outro ingrediente que provoque a reacção química necessária para que o processo desencadeie.

Claro, tudo isto se pode simular. E simula-se. Com algum trabalho. Mas simula-se. Porque no fundo inspiração talvez não seja mais do que a construção, mais ou menos rápida, de um sistema ou de uma armadilha de palavras que nos prende e nos liberta.(1)

A eterna luta

A eterna luta: levando material daqui para ali.

Na prosa, como na poesia, existe maneira de ultrapassar o problema em termos meramente produtivos: martelando. Que é, no fundo, uma discutível virtude da persistência, da ambição, da vontade, ou o que quer que seja que move o escrevinhador (e que não é, obviamente, a bela Musa).

Você disse que o poeta é um fingidor. Eu o confesso, são adivinhações que nos saem pela boca sem que saibamos que caminhos andámos para lá chegar, o pior é que morri antes de ter percebido se é o poeta que se finge de homem ou o homem que se finge de poeta. Fingir e fingir-se não é o mesmo, Isso é uma afirmação, ou uma pergunta, É uma pergunta, Claro que não é o mesmo, eu apenas fingi, você finge-se, se quiser ver as diferenças, leia-me e volte a ler-se. (2)

"McWit, a tua licença poética expirou

“McWit, a tua licença poética expirou há anos.”

Graças à aplicação correcta das regras gramaticais, do uso de estruturas métricas e/ou de variações estilísticas em moda, copiando a formatação de modelos bem sucedidos, o resultado até pode ser satisfatório, demonstrando conhecimento, trabalho, critério.

Que este método também não é fácil, demonstra-o a legião de ‘marteladores’ justamente ignorados.

Lá de dentro, do fundo da livraria, (…) despegou-se abruptamente esta voz de fúria aflautada:

—É uma besta! Uma grandessíssima besta! Uma besta quadrada!

Bem. Aposto tudo (…) em como estão a falar de um mestre crítico qualquer. (3)

...o Fim

-…o Fim. Bem, hora de dormir. O que estás a escrever?                                 -Uma recensão negativa do livro!

Porém, quando reforçado com recursos não-literários pode obter reconhecimento e sucesso, até um público.

(…) o seu livro não é cano de escorrências muito nauseabundas, nem é canal de notícias úteis, tirante a dos hotéis infamados de percevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo porque custa sete tostões e —vá de calão—como troça e bexiga, é caro. (4)

-És tão ilógica. Nunca conseguiu ganhar uma discussão contra ti! -

-És tão ilógica. Nunca consigo ganhar uma discussão contra ti!
-Não experimentes, nem me confundas com factos.

Invariavelmente, o seu destino é o de se tornar um ‘mono’. Mas, até lá, sempre vai rendendo alguma coisa. De qualquer modo e maneira, já dizia o moralista: sic transit gloria mundi…

Ia (…) tão contente do seu destino de enfeitar selectas, que me apeteceu gritar-lhe, cá de longe, do fundo da inveja irónica do sono escondido:

—Mais depressa, pá! Avia-te! Corre! Enfia pelo futuro adentro! Pois não vês que estão lá todos à tua espera para te dividirem em orações?

Mas contive-me. (Se for como tu e como os teus versos, há-de ser fresco, o futuro!)  (5)

"

“Vamos acrescentar mais umas banalidades. Este é um discurso reconfortante e as frases feitas são um alimento de conforto verbal.”

 

 

(1)in Duas respostas a um inquérito de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(2) diálogo entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, já falecido, in O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago ed.Caminho

(3)in Grupos, grupinhos e grupelhos de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(4)recensão do livro Portugal à Vol d’Oiseau daPrincesa Ratazzi in A Senhora Ratazzi de Camilo Castelo Branco, incluído na Boémia do Espírito ed.Lello e Irmão

(5)in Meditações sobre a estratégia da glória de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes.

 

O abismo sem fundo da criatividade

Escrever sem preocupações de agradar, procurando explorar um universo pessoal de referências, sentidos, preocupações e desejos, é um objectivo comum a muito escrevinhador.

-Está bem,filho, vai lá baixo.

-Está bem,filho, acho que é tempo para ires lá baixo. Mas faças o que fizeres, não os deixes começar uma nova religião.É a última coisa que precisam!

Pessoalmente, sou avesso a declarações de principio pois o que li ao longo da vida leva-me à conclusão de que vale tudo, mas nada é garantido. Ou seja, sou alérgico a ‘manifestos’ e gosto de me centrar na matéria-prima literária: texto, ideia, desenvolvimento, sensibilidade, estética.

Autobiografia de celebridade corrigida

Autobiografia de celebridade corrigida: título do livro grande”Tudo o que eu quero dizer sobre MIM” (antes) – título do livro pequeno”Tudo o que você quer saber sobre MIM” (depois)

Por isso,tanto me dá que o escrevinhador declare perseguir a fama, o sucesso e a simpatia dos leitores, como abjure qualquer cedência às modas.

Na verdade, a grande maioria nem pensa no assunto a menos que lho perguntem.

Uau! Tive cá um sonho esta noite! -Sim? Sobre o quê? -Não faço ideia. -Tens mesmo jeito para contar uma estória.

-Uau! Tive cá um sonho esta noite!
-Sim? Sobre o quê?
-Não faço ideia.
-Tens mesmo jeito para contar uma estória.

E, inevitavelmente, o material escrito produzido irá sempre, sempre, exprimir de algum modo (e não preciso de recordar Freud) o tal universo que cada um traz consigo, mais os seus demónios interiores e fantasmas exteriores.

Ou seja, este é um tópico pouco relevante.

Ou talvez não. Depende.

"

“Toda a vida ele tem estado convencido de ser um exemplo a ser seguido em alguma coisa…só não consegue imaginar em quê, exactamente.”

Tentando explicar melhor, direi que muitos escrevinhadores parecem estar mergulhados num profundo estado de ingenuidade, à semelhança dos autores daquelas redacções escolares da minha infância, fosse sobre a Primavera, fosse sobre ‘A minha Mãe’.

Há, também, os que exploram suas facetas existenciais, maníacas ou não, e os que procuram apelar para a emoção do leitor, de forma mais ou menos elaborada.

Vale tudo, certo, mas valerá mais se o material escrito for revisto e corrigido pelo escrevinhador num segundo, terceiro tempo, algo mais distanciado do tempo criativo, e centrado na tal matéria-prima.

Assim não

-Assim não, James! Como meu aluno precisas de me fazer co-autor e citar pelo menos dois artigos meus em cada uma das tuas publicações!

Ou talvez não. Depende?! Mas depende de quê?

O escrevinhador no seu labirinto

Perante a dispersão das atenções do potencial público-leitor e a concorrência avassaladora de outras formas de entretenimento, é natural que o escrevinhador se sinta perante o dilema de explorar processos narrativos que sigam o gosto dominante, daí tentando criar o ‘seu’ público; ou esquecer tudo isso e escrever para o leitor ideal, o qual é, na verdade, um reflexo de si mesmo.

Problema de Marketing

São dúvidas legítimas e sem resposta definitiva, pois encontram-se exemplos de sucesso editorial em ambos sentidos. A meu ver, trata-se mais de um sucesso do trabalho da editora do que do escrevinhador, sem desprestígio para nenhuma das partes, nem dos leitores. Por isso, neste blog não há dicas para se escrever assim ou assado, mas simplesmente sugere-se, neste capítulo, que o escrevinhador tenha em consideração se realiza de modo satisfatório os seus propósitos, ao assumir uma ou outra destas vias. E só.

"Espero que vocêstodos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo."

‘Espero que vocês todos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo.’

Grande sucesso editorial tiveram autores como Alexandre Dumas, Júlio Verne ou Emílio Salgari, sendo ainda nomes familiares para muita gente com mais de quarenta anos, e alguns dos seus livros ou heróis ainda são populares entre gerações mais novas graças às adaptações para televisão e cinema. Os três tiveram uma produção tão prolífica que seria impossível esperar o mesmo nível de qualidade no conjunto da sua obra. E, do ponto de vista da crítica, são autores de muito menor valia literária do que o seu sucesso.

"Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui."

“Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui.”

Porém, tendo sido casos de influência duradoura, muito além do seu desaparecimento físico, marcando os gostos e a imaginação popular de várias gerações, tornaram-se modelos da escrita de estórias de aventuras, amor e intriga política, fortemente dependentes do contexto histórico, científico e/ou geográfico da narrativa e que constitui sua ‘imagem de marca’.

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Que esta reflexão ‘não se limite a ser um exercício de nostalgia mas ocasião para iniciar um discurso crítico. Sem que isto, obviamente, seja turvado por preconceitos irónicos ou moralistas demasiado imediatos, capazes de inquinar aquilo de que muitas destas páginas sabem dar: a alegria da narrativa por si mesma.‘ (in Il Superuomo di Massa-retorica e ideologia nel romanzo popolare de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani)

"Li-os a todos."

“Li-os a todos.”

Ao escrevinhador do sec.XXI dificilmente lhe surgirá o desafio do folhetim nos jornais ou algo parecido, mas permanece o da escrita que prenda a atenção do leitor,dando satisfação ao autor. E se houver ainda um editor contente, tanto melhor para todos.

Todavia, não deixe o escrevinhador de ter presente que o universo literário é muito mais vasto do que tudo isto.

 

Provocar a inspiração

A propósito dos temporais em terra e no mar, neste momento muito mediáticos e actuais, pedem-me orientação para uma qualquer obra a ser escrita.

Quando dediquei a Dezembro uma série de posts, destaquei três temas recorrentes: o Tempo, o Natal, o Inverno. Conforme expliquei na altura, e corrigi a seguir, o mês de Dezembro será o mais sugestivo dos meses. 

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Podia fazer o mesmo mês a mês ou, em alternativa, isolar um tema (‘o temporal’) e explorar as suas linhas de força. É um modo ‘criativo’, como outro qualquer, de sondar temas que o escrevinhador pressente que tenham potencial para a sua escrita. Mas se já está impressionado com os relatos do (mau) tempo que faz por aí, então deve aprofundar a razão dessa ‘impressão’.

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Pode ser o fascínio pela força da natureza em fúria. Pode ser o relembrar de outro temporal, outras catástrofes, de que, eventualmente, tenha sido testemunha ou de que ouviu contar por quem tenha assistido e/ou sofrido as consequências. 

Assim como podem ser associações, geralmente inconscientes, e que são o combustível para alimentar toda uma narrativa. Ou várias. Nesse caso, o temporal de chuva, vento e frio é pretexto para outras tormentas, mais íntimas, pessoais e menos óbvias.

Golconde de René Magritte

Como acontece, exemplarmente, em Wuthering Heights (traduzido tanto por O Morro dos Ventos Uivantes como O Monte dos Vendavais)  de Emily Brontë:

Wuthering Heights é o nome da residência do sr.Heathcliff. ‘Wuthering’ é um adjectivo com significado local, descritivo da perturbação atmosférica a que a sua situação é exposta em dias de tempestade.“*

De facto, o narrador e personagem do livro, o sr.Lockwood, irá constatar à chegada ao Monte dos Vendavais que o nome tem essa justificação, mas o título do livro alude muito mais à tempestade dos afectos e das vidas das pessoas que viveram naquela casa. Como o próprio leitor será levado a concluir.

“Meu amor por Linton é como a folhagem no bosque: o tempo há-de mudá-lo, sei bem, tal como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas por baixo: uma fonte de escasso prazer visível, mas necessário. Nelly, eu sou Heathcliff!”*

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A escolha do adjectivo ‘wuthering’, que associa o vento e o ruído do soprar do vento, sai reforçado na cena fantasmagórica que uma noite de temporal suscita, perturbando o sono do narrador:

(…) os meus dedos apertaram dedos duma pequena mão gelada! O horror intenso de um pesadelo apoderou-se de mim: tentei retirar o braço, mas a mão agarrava-o, e a voz mais melancólica gemeu, ‘Deixa-me entrar, deixa-me entrar!’ ‘Quem és tu?’, perguntei, esforçando-me, entretanto, por me libertar. ‘Catherine Linton,’ respondeu (…) ‘Voltei para casa: andei perdida no pântano!’  Enquanto falava, pude ver vagamente, um rosto de criança através da janela. O terror fez-me ser cruel; e, percebendo que era inútil tentar sacudir a criatura, puxei o seu punho para o vidro partido, e esfreguei-o para trás e para a frente até o sangue correr (…) mas continuava a gritar, ‘Deixa-me entrar!’ e persistia com o pulso fechado e tenaz, enlouquecendo-me de medo.“*

O escrevinhador faz bem em estar atento a todos os estímulos à sua veia criativa, explorando sentidos e desenvolvendo relações, tomando notas, deixando sua fantasia correr livremente. O resto virá depois, se tiver de vir.

* in The Wuthering Heights de Emily Brontë

Liberdades narrativas

Há quem antipatize com a liberdade como alguns escrevinhadores interpelam os leitores ao longo duma narrativa, socorrendo-se de um narrador opinativo e supostamente engraçado. Não tenho nada contra: são tudo técnicas ou estilos que podem funcionar melhor ou pior. O risco está sempre presente e não se pode agradar a todos.

in "Mistérios de Fafe -um romance social" de Camilo Castelo Branco ed.1881 ed.Viuva Campos Junior

in “Mistérios de Fafe -um romance social” de Camilo Castelo Branco 1881 ed.Viuva Campos Junior

Pode ser que esse narrador se torne ele mesmo mais uma personagem (melhor dizendo, uma ‘metapersonagem’, pois as reflexões e à-partes, nesse caso, são um metatexto) e suas intervenções dirigidas explicitamente ao leitor (que acaba por se tornar, também, um involuntário protagonista) são importantes ao nível do contexto e do sentido. Mas não vale a pena perder tempo com teorias críticas e afins, pelo menos antes da obra feita.

camilo_castelo_branco por fernando campos

camilo castelo branco por fernando campos

No meu tempo amava-se muito. É por essa quadra de flores que a minha imaginação se esvoaça como a abelha à volta das corolas de um ramal de rosas.

Sou do período dos aéreos perfumes; este agora é o dos sons metálicos. As almas então eram leves, voláteis, e vestiam-se com os raios prateados da Lua; hoje, ouço dizer que os corações estão pesados e retraídos dentro dos seus espinhos de ambição, cobertos de pomos de ouro como os ouriços-cacheiros no estrado das macieiras.

Minhas senhoras, as vossas Excelências não imaginam como as suas mães foram amadas! Nós éramos românticos. Não tínhamos mais dinheiro que estes bancos rotos de hoje em dia; mas tínhamos papéis que valiam mais que os deles: eram sonetos.

(in A Viúva do Enforcado de Camilo Castelo Branco)

caricatura de camilo por sara peixoto

caricatura de camilo por sara peixoto

Frequentemente, nas ‘novelas’ camilianas, o narrador é alguém (talvez o próprio Camilo) que conheceu algumas das personagens ou leu documentação escrita pelo punho de algumas delas, o que lhe ‘dá’ credibilidade ao relatar extraordinários acontecimentos. Esse narrador não pretende ser omnisciente, mas tem opinião formada sobre muitos assuntos. E, frequentemente, é sarcástico, irónico, filosófico ou acusador. De qualquer dos modos, o efeito polémico, associado ao sensacionalismo dos temas e enredos, ficava garantido.

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(…) transcorridos dois anos, em um livro impresso por 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba.

(in A Morgada de Romariz de Camilo Castelo Branco)

Deste modo, os leitores fiéis também têm o grato prazer de lerem na companhia do autor, sempre ansiosos por mais um parênteses, uma divagação, um comentário,  que os fará rir. E pensar.

in "A Sereia" de Camilo Castelo Branco

in “A Sereia” de Camilo Castelo Branco

O ritmo dos acontecimentos

O enredo pode exigir que os acontecimentos se sucedam com rapidez, numa sequência não-necessariamente-linear, empolgando o leitor a virar página atrás de página. Ou que assim seja em certos momentos. Tudo em prol do desenvolvimento duma estória rica em surpresas e mudanças.

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“20 de Abril: Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira (…) como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? (…) Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo “clássico” do “conto filosófico”, inserindo nele (…) personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada.” *

Ou, pelo contrário, o enredo segue um ritmo certinho como um relógio. E porquê? Talvez porque o tempo da narrativa seja circular, talvez porque os acontecimentos evoluam lentamente, talvez porque as personagens valorizem menos a acção, privilegiando as relações entre si.

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“21 de Junho: Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após a outra, até substituírem, por completo: as que têm visão podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.” *

Possivelmente, o escrevinhador é condicionado pela interacção das personagens e pelo horizonte da narrativa, ele próprio sendo surpreendido por decisões que lhe escapam, impostas pela lógica implacável do enredo, pelo temperamento de uma ou de várias personagens. Quando assim é, escrever torna-se uma aventura, uma descoberta, uma possessão demoníaca…enfim, uma paixão.

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“15 de Agosto: Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio (…). Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, (…) enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.” *

* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago, ed.Caminho

A famosa torre de marfim do escrevinhador

Já aqui tenho referido que o pecado capital do escrevinhador é o de ser ‘chato’. Como todas as categorizações, é discutível.

À primeira vista nem parece difícil obter consenso quanto à ideia de que um livro ‘chato’ é um mau livro, mas o que é chato para uns, pode ser sublime para outros. E começam aqui as dificuldades, sendo a  dificuldade seguinte aquela impressão de que o escrevinhador que escreve livros chatos não tem noção disso.

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Também não é das menores das dificuldades a existência de leitores chatos, tanto pela incapacidade para atingir sentidos implícitos, como para descodificar ironias, por exemplo.Ou pela total falta de resistência física e mental para prosseguir a leitura de um livro de algumas centenas de páginas.

LIVRARIA "Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor"

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“Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor”

E em todos os casos, em vez de se acusar a si mesmo, aponta o dedo ao escrevinhador e/ou ao livro.

Sobre essa espantosa criatura que é o leitor, Saramago se questionava ‘Quem lê poesia, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se? Quando o leitor assoma à entrada do poema, é para conhecê-lo, ou para reconhecer-se nele?’*

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Ora, esta é uma das tradicionais áreas de actuação de um bom trabalho editorial, uma espécie de mediação entre os recursos do escrevinhador e o potencial do leitor.

Porém, numa época em que a auto-edição e a edição por encomenda estão generalizadas (o que, por si, não é nenhum defeito), esta mediação desaparece. Entre muitos outros problemas, reforça o isolamento do escrevinhador na sua torre de marfim.

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* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago (em autocitação de artigo publicado no jornal Letras & Letras) ed.Caminho

Oferta dum fim-de-semana de sonho

Sugestão para um fim-de-semana de chuva, vento e frio: o escrevinhador reunir seus textos, mesmo os mais díspares ou fragmentários, e perceber se formam uma unidade, algum tipo de conjunto ou de conjuntos.

"A nossa investigação mostra como a hereditariedade e o ambiente são igualmente significativas, mas nenhuma é mais importante do que a regulamentação legal."
“A nossa investigação prova como a hereditariedade e o ambiente são ambos significativos, mas nenhum é mais importante do que a regulamentação legal.”

Dito de outra maneira: guardar uma certa distância em relação ao que escreveu, olhar os textos numa qualquer perspectiva, estabelecer relações, descobrir rupturas.

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Sim, é um modo de auto-avaliação. Uma abordagem crítica. Tanto mais útil se o material reunido tem anos, ou é algo extenso: tempo e trabalho, portanto. Produtividade, criatividade, vocação, chamem-lhe o que quiserem.

Fundamental mesmo é perceber a intenção original e o resultado, entender a adequação entre os recursos (vocabulário, processos estilísticos), o contexto (propósito, tema) e a execução (abordagem, ordenação, desenvolvimento, conclusão).

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Sem cair na tentação de jogar com tudo ao fogo aceso na lareira (tecla ‘Delete’).

O autor à procura da sua vocação

A imensa proliferação de escrevinhadores (com ou sem obra publicada) é um fenómeno social recente favorecido pelas tecnologias que permitem a auto-edição ou a edição incomparavelmente mais barata do que em qualquer outra época, e que tem como responsáveis directos a educação generalizada da sociedade através do modelo do ensino obrigatório e o acesso ao ensino superior por um número crescente de pessoas em diferentes fases da vida. Provavelmente, muitos escrevinhadores são tentados a iniciar um projecto porque estão na reforma, têm tempo, têm motivação.

O teu país precisa de TI

O teu país precisa de TI

E todos, claro está, são incitados por esse aguilhão que é impreciso, vago, variável, e que pode ser chamado de ‘criatividade’ para efeitos comerciais, estéticos ou de mera bengala para facilitar a comunicação. Porém, na categoria dos escrevinhadores principiantes é notória uma clivagem etária bastante acentuada: aqueles que tentam publicar ainda antes dos trinta, trinta e cinco anos, e os outros já depois dos sessenta, sessenta e cinco anos.

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Os mais novos podem ser encarados como todos os jovens escrevinhadores o foram nos últimos, vá, duzentos anos: irreverentes para com a ‘tradição’ e os ‘mestres’, desesperados pela originalidade, procurando os temas, o tom e o estilo para agradar rápida e lucrativamente.

'This is the shortest autobiography I've ever read!'

Esta é a autobiografia mais curta que li!

Ou seja, explorando os limites, fazendo pela vida, conformando-se com o que lhes parece mais fácil ou mais garantido. A diferença, para com os seus antecessores destes duzentos anos de literatura popular? Imensas diferenças: todas aquelas que identificamos com o estilhaçar da informação/formação/debate em milhentos canais de comunicação, a mercantilização global da cultura, os hábitos variáveis de consumo, essas coisas todas que tendemos a associar a modas e tendências. Que, noutro ritmo, com outro impacto, de algum modo sempre estiveram presentes nas atribulações culturais.

"Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

“Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

Mas o mais velhos? Esses sim, são a ‘novidade’ do século se atendermos à quantidade e variedade. O que escrevem? Para quem escrevem? Porque escrevem?

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“A minha professora diz que as meninas podem crescer e ser o que quiserem! Porque escolheste ser uma velhinha?”

Não o fazem pelo dinheiro, nem pela fama, e são alvo de mercado preferencial de toda uma ‘indústria’ de cursos faça-você-mesmo, de formação aprenda-num-instante, de tertúlias venha-conviver-em-poesia, de edições pague-já-que-nossa-editora-publica-amanhã e tantas coisas mais.

"Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada," murmurou Felix

“Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada?” murmurou Felix. “Era somente a minha primeira tentativa. Tenho ainda mais oito para escrever!”

Tudo isto é cultura, antropologicamente falando. Mas daí a resultar em boa literatura…

Questões de estilo

Uma das marcas típicas do tempo que passa é o modo como o escrevinhador se exprime. Chamemos ‘estilo’ então, para simplificar.

Por exemplo: estilo (ou falta dele) no uso da linguagem.

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Textos que reflectem um universo de referências literárias anacrónicas, como se as leituras tivessem parado a partir duma certa idade e deixassem de evoluir, sem se enriquecerem com outras referências. Pedantes ou simplórios utilizando um fraseado de cartão, palavras em desuso e esdrúxulas, numa teia de ideias feitas.

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Ou textos que desesperam por ser ‘actuais’, pretendendo usar fórmulas igualmente estereotipadas do que se julga ser a linguagem comum, do dia-a-dia, de certos meios, de alguma gente, de toda a gente. Tipificando em excesso, negando à personagem autonomia.

E a necessidade comum em moralizar, apontar o dedo, dando por adquiridos valores, dicotomias, verdades. Mesmo que seja num registo em negativo, invertendo as regras, supostamente escandaloso.

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Em qualquer dos casos o escrevinhador precisa urgentemente de escancarar a janela e descobrir horizontes, abrir a porta e correr mundo, descobrir leituras de outras latitudes, viver um outro tempo, experimentar outras dimensões. Ah, sim!…a metáfora da viagem.

-Não sei

-Não sei, Gary…eles não são digitais. Parece que estamos numa região do mundo por revelar.

Mas o problema, a meu ver, está em se aperceber desse estado incipiente, imaturo…onde o espelho para reflectir a imagem crítica? Onde o crítico para oferecer uma avaliação discutível? Onde o impulso criador para não se conformar?

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-De acordo com os resultados do teste não tem nenhuma desordem de personalidade anti-social. O que revelou é que você é somente um parvalhão.

‘Ano novo, vida nova’

O título deste post é o característico estereótipo, daí manter as distância graças ao uso das aspas. Começar de novo, fazer tábua rasa do passado: outras expressões estereotipadas e populares que podem não ser de grande valia, excepto como manifestação de um desejo, dum sentimento inconformista (mesmo que inconsequente), da insatisfação perante a vida, etc. Não são de grande valia?! Isso já depende…

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A vantagem do escrevinhador é que tudo isto é matéria-prima para ‘qualquer coisa’, e relembro estas linhas:

Há alguns anos, não interessa quando, achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. (…) principalmente quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua, percebo então que chegou a altura de voltar para o mar (…)’

(in Moby Dick de Herman Melville, ed.Relógio d'Água, trad.Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves)
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Bons tempos em que o mundo era grande e os mapas tinham enormes extensões brancas por assinalar. Porém, ao escrevinhador do ano de 2014 não faltarão recursos para ‘voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas‘, seja na versão radical de sair pelo mundo fora (que pode ser o trivial mundo para lá da porta de casa), seja pelos espaços infinitos da sua biblioteca, da memória e da imaginação (ok, e da internet também!).

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Pessoalmente, o tema das viagens é do mais apelativo que conheço, e por aqui e por ali já falei alguma coisa disso. Aproveitando o tema de Dezembro associado à ‘renovação’, em que se costuma fazer a lista das x coisas a realizar no próximo ano, que posso sugerir a um escrevinhador à procura dum tema, duma inspiração, duma mudança (no estilo, no tema)?

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante -Hum. -Hum. Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante
-Hum.
-Hum.
Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

Já dizia o sábio que ‘nada há de novo debaixo do Sol‘*, o que pode ser profundo e merecer reflexão, mas logo a seguir acrescenta que ‘mais amargo do que a morte é encontrar uma mulher que é uma armadilha cujo coração é uma rede, e cujas mãos são cadeias‘*. Ora, o que me apetece dizer ao velho sábio e aos escrevinhadores em geral, é aquilo que disse um outro sábio: ‘Eu sou uma coisa e os meus escritos outra‘**.

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“É isso, Kenji.Tudo acontece por uma razão, mas ninguém tem a menor ideia qual seja!”

O que, traduzido ao meu modo, dá nisto: ‘Vivam uma vida e escrevam como se tivessem vivido mil e uma vidas‘.

*in Eclesiastes

** in Ecce Homo de Friedrich Niesztche

Limites do estereótipo, ilimitados horizontes da literatura

Como bem repararam leitores deste blog, provavelmente vivendo noutras latitudes que não a minha, o mês de Dezembro pode significar mais calor, mais horas de luz solar, sendo fim-de-ano e época de Natal na mesma. O que ilustra na perfeição como somos condicionados pelo nosso pequeno mundo e pelos estereótipos dominantes.

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Pergunto, então, como é que a literatura tem lidado com a quadra nessas latitudes mais baixas? Quase arrisco dizer que não é tópico muito relevante, mas confesso minha ignorância.

Certamente, a tradição do presépio e das estórias associadas estão vivas e presentes em contos, poemas, mas…qual será a tendência nestes últimos, vá lá, 50 anos*? O imaginário comercial do Papai Noel, do pinheiro enfeitado e da neve artificial não me parecem suficientes para inspirar a criação literária, mas podem ter o efeito de esterilizar a tradição.

-Quem és tu e porque haveriamos de querer uma foto dele contigo?

-Quem és tu e porque haveríamos de querer uma foto dele contigo?

Mesmo assim, continuo a ter uma perspectiva naturalmente etnocêntrica, pois nada digo daquelas regiões onde boa parte da população, senão mesmo a grande maioria, não partilha o imaginário cristão, nem o calendário gregoriano. Será que suas literaturas orais e escritas estão completamente alheias aos temas de Dezembro?

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Volto a repetir a minha absoluta ignorância sobre tudo isso, mas adivinho aqui excelentes temas para um escrevinhador aprofundar e desenvolver.

* Ou década de 60 do sec.XX, em que a Televisão iniciou a conquista de todos os lares (para não dizer de todas as divisões da casa)
 e de todo o espaço público.

O Fim do Tempo

Último mês do calendario, final do ano, Dezembro suscita reflexões, alegorias e narrativas sobre temas densos como a finitude, a velhice e a morte (e eu já aligeiro o assunto evitando maiúsculas).

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FIM
“Ele era um grande escritor”.

São temas recorrentes suscitados pelas longas, geladas noites, pelos dias curtos e cinzentos, pelas festividades que apelam aos laços familiares e recordam aqueles que ‘o tempo levou’. Como no famoso conto A Christmas Carol de Charles Dickens, a época é propícia a balanços existênciais e ao correspondente saldar de contas (enquanto é tempo…).

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Aí coloca-se o escrevinhador num terreno traiçoeiro: o de lidar temas que mexem com memórias antigas e questionam sua identidade. Frequentemente, ele tropeça e estatela-se numa escrita lamecha, confusa, confessional.

Lamecha porque escorrem lágrimas e ecoam suspiros a cada evocação dum ente querido da infância ou dos momentos irrepetíveis; confuso porque são as emoções que dominam a composição, prejudicando forma e conteúdo; confessional porque reduz-se ao desabafo. 

a Arte da Conversação lição 7: se em algum momento ao longo da conversação pensares: ‘-Estarei a falar demasiado sobre mim?’ então a resposta é ‘SIM’.

Os temas podem ser expressos de modo azedo, melancólico, desesperado, saudosista, amargo, pessimista, e são numerosos os exemplos de grandes textos literários assim escritos. A questão não é essa.

Como em tudo o mais (nisto da escrita, claro está), o escrevinhador deve ter a preocupação de comunicar, desenvolvendo os temas de modo a envolver o leitor. E é aqui que volto a lembrar o discurso de Cecília Meireles citado num post anterior: ‘A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta (…) aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer.’

Dito isto, desista o escrevinhador de procurar álibis para cometer o mais hediondo dos crimes literários: matar o leitor de tédio, por desleixo da capacidade autocrítica.

"A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo."

“A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo.”

Ou dele se poderá dizer o que alguém disse do Dantas: O Dantas é a meta da decadência mental!/E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!/E ainda há quem lhe estenda a mão!/E quem lhe lave a roupa!/E quem tenha dó do Dantas!/E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero! (in Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros)

O escritor mediúnico

Estranha condição de médium esta, que Cecília Meireles assume quando diz que ’Tudo me chama: a porta, a escada, os muros,/ as lajes sobre mortos ainda vivos,/ dos seus próprios assuntos inseguros’ *, sentindo-se impelida a dar voz às vozes que reclamam atenção.

Já não são deuses, nem a loucura com que inspiram simples mortais: as vozes chegam de gente real, porém desaparecida.

Pintura de Bernardo Cid

Pintura de Bernardo Cid

Muitas coisas se desprendem e perdem – ou parecem desprendidas e perdidas – ilimitado tempo; mas outras vêm, como heranças intactas, de geração em geração, caminhando conosco, vivas para sempre, vivas e actuantes, e não lhes podemos escapar, e sentimos que não lhes podemos resistir.’**

E à assombração das vozes junta-se o dever de lhes dar forma e fazer-lhes justiça:’(…) porque se impunha, acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, se confessavam, que exigiam quase, o registro da sua história.’**

Pintura de Raul Mendes da Silva

Pintura de Raul Mendes da Silva

Todavia, o registo vai mais além dos autos de julgamento, das inquirições e doutros documentos históricos. Assim, Cecília dá forma literária às vozes, assumindo a condição mediúnica, sim, mas com critério e AUTORidade.

* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

A louca da casa

Variando com as épocas e as culturas, o escrevinhador podia sentir-se possuído, ferido ou recebido um dom de uma qualquer entidade divina, perturbado ou assombrado pelo(s) seu (s) demónio(s), o qual podia ser verde se bebesse absinto, ou visitar uma qualquer Lucy num céu de diamantes. absinthe_drinker Ou idealizar alguém, uma suposta Beatriz, por exemplo, colocando-se ao seu serviço e imortalizando-a em retribuição pela inspiração: ‘E ainda que a sua imagem, que comigo continuadamente estava, encorajasse Amor a assenhorar-se de mim, era todavia  de tão nobre virtude, que nunca deixou que Amor me regesse sem o fiel conselho da razão, naquelas cousas em que tal conselho fosse útil de ouvir. (…) Pensando no que me tinha aparecido, me propus de fazê-lo escutar por muitos que eram famosos trovadores daquele tempo: e como a arte de dizer palavras por rimas fosse cousa que já por mim mesmo tivesse praticado, me propus fazer um soneto’. (in A Vita Nuova de Dante Alighieri, trad.Vasco Graça Moura Bertrand Editora 2001)

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Pode ser esta a maneira mais trivial de exprimir a ‘divina inspiração’ do escrevinhador, aquela que nenhum apaixonado(a) escapou ao alinhar dois pares de versos, pelo menos. Mas também é, certamente, prolífica: Dante relata que, para esconder a identidade da verdadeira dona do seu coração, escrevia poemas a outras ‘belas damas da cidade‘.

-Estás linda hoje, querida. -Eu estou aqui.

-Hoje estás muito linda, querida…
-Eu estou aqui.

O certo é que a laicização das sociedades, o individualismo, a massificação da cultura, reforçaram a componente ‘genial’ do escrevinhador, passando a ser ele próprio o ‘criador’. Motivos de inspiração não lhe faltam: a sociedade em geral, as pessoas em concreto, o seu insondável, imenso, tortuoso ego, o tempo perdido, a espuma dos dias, Godot, o que se quiser.

Mensagem Inspiradora Rejeitada #408 -A vida será melhor quando ganhares a lotaria!

Mensagem Inspiradora Rejeitada #408
-A vida será melhor quando ganhares a lotaria!

Mas permanece sempre um Outro de quem o escrevinhador teme perder o contacto, a inspiração, o beijo inspirador. Depressivo, satírico, bem-humorado, zangado com o mundo, sofrendo todas as dores alheias, rigorosamente concreto e materialista, absolutamente poético ou espiritual, o texto bafejado pela aragem agitada pela ‘louca da casa’ tem vigor para disseminar-se num processo epidémico característico, hajam condições atmosféricas para que saia da gaveta ou do baú.

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Mas que estou para aqui a dizer?! No sec.XXI a auto-edição e a edição de e-books já não permitem alimentar a aura romântica dos livros por publicar. Na verdade, as ‘condições atmosféricas’, a ‘luz do dia’, estafadas figuras de retórica para exprimir a oportunidade de se dar a conhecer literáriamente, têm a ver com a crítica especializada e os espaços de divulgação (virtuais ou não). Mas isso são outros contos…

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Elogio da Loucura

Surpreende-me sempre o poder de sugestão de um texto sobre alguns leitores: depois de publicado o post ‘Com um grãozinho de loucura’, houve quem perguntasse se nos posts seguintes daria dicas para obter a ‘divina inspiração’ e quem protestasse por nada ter dito em termos práticos.

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Este modesto blog de dicas e tópicos sobre a escrita nada tem a dizer, de facto, sobre a louca inspiração que os deuses concedem aos tristes mortais. Nada?! Bem… talvez, duas ou três coisas.

Não cultivo qualquer fascínio pela imagem e culto do artista-louco ou ‘possuído’, embora hajam exemplos extraordinários de grande arte com doses apreciáveis de loucura. Muito menos pelos sucedâneos de excentricidade e palermice, ou pelas experiências psicadélicas, alcoólatras e outras para se aceder ao estado criativo.

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Aliás, nem aprecio sequer a ideia de tudo se sacrificar em prol da arte. A própria Loucura, no famoso discurso sobre si mesma dizia a propósito dos escritores:

“Outra espécie de pessoas mais ou menos da mesma laia é constituída pelos que ambicionam uma fama imortal publicando livros. Todos esses escritores têm parentesco comigo, sobretudo os que só publicam coisas insípidas. Quanto aos autores que só escrevem para poucos, isto é, para pessoas de fino gosto e perspicazes,(…) confesso-vos ingenuamente que merecem mais compaixão do que inveja.

Imersos numa contínua meditação, pensam, tornam a pensar, acrescentam, emendam, cortam, tornam a pôr, burilam, refundem, fazem, riscam, consultam, e, nesse trabalho, levam às vezes nove e dez anos, de acordo com o preceito de Horácio, antes do manuscrito ser impresso.

Oh! como me causam piedade tais escritores! Nunca estando satisfeitos com o seu trabalho, que recompensa podem esperar? Ai de mim! um pouco de incenso, um reduzido número de leitores, um louvor incerto.” (in O Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam)

Ou como dizemos na América: Get a life!

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“Podes ser quem tu quiseres, não há limites.”

Porém, o tal ‘grãozinho de loucura’ é um ingrediente notável (imprescindível, na minha opinião) e faz toda a diferença. Ingrediente que não impede, necessariamente, o regresso pontual a casa ou ao local de trabalho, aos mesquinhos afazeres do dia-a-dia, permitindo ao ‘Criador’ o convívio com gente banal, comum.

Ao longo da História, esse grãozinho foi o suficiente para forçar donas-de-casa, medíocres escriturários, estudantes esfaimados ou bem-nutridos, comerciantes e soldados, a roubarem horas ao descanso (quiçá ao trabalho…), dias e meses ao longo de semanas e anos, para colocarem em letra manuscrita textos de incerta valia. Todos eles vivendo fora de torres-de-marfim, e muito, muito longe, do Olimpo.

-Oh, Alice, tu és quem eu quero para mim. -Mas, Bob, num universo quântico como é possível tem alguma certeza?

-Oh, Alice…tu és quem eu quero para mim.
-Mas, Bob…num universo quântico como é possível ter certezas?

Esse grão foi, e continua a ser, o grão de sal que dá gosto às suas vidas banais, rotineiras, previsíveis. Numa época com tantas oferta e soluções de escapismo, será da maior injustiça confundir este ‘grãozinho de loucura’ como mais uma fórmula de evasão do quotidiano.

Claro, pode haver uma componente de escapismo (geralmente tem), e de terapia (provavelmente, na maioria dos casos)… e daí? Já a Loucura lembrava, no referido auto-elogio, que ‘quanto mais o homem se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incomoda velhice, tão insuportável para si como para os outros‘.

Através da escrita (mas pode-se dizer o mesmo de outras actividades), tanta gente medíocre, insignificante, até aborrecida, deixou páginas maravilhosas sobre o mundo. Mundo que também era o dos seus contemporâneos, e por vezes dum modo que nem estes imaginavam.

Bem...isto arruma com o trabalho de casa!

Bem…isto arruma com o trabalho de casa!

O que revela a presença desse pequenino grão de loucura em alguém pode ser uma ou várias evidências, nem sempre óbvias para os que o rodeiam ou com ele se cruzem diariamente.

Conforme a personalidade, ou aparente falta de personalidade, de cada um, esses sinais variam muito: uma obsessão compulsiva ou um intenso prazer, uma vontade de exteriorização ou um desejo de isolamento, uma aparente auto-confiança absoluta no valor do que faz ou uma absoluta insegurança.

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-O meu namorado? Oh, é um escritor.
-Oh, meu Deus, desculpa ter perguntado!

Nada disto, ou quaisquer outros sinais, são marcadores de qualidade. Mas a persistência e a necessidade em prosseguir revelam uma ‘possessão’, a tal ‘loucura divina’.

E repetindo-me, mais uma vez: para que resulte em ‘obra de arte’, claro está, o escrevinhador precisa ainda dos favores da bela Musa…

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A criatura e o criador

Sendo o texto uma criatura viva, é infiel ao criador ao permitir-se ir muito mais além do que este pretende, traindo intenções obscuras, permitindo derivações imprevistas, surpreendendo-o com uma autonomia desconcertante.

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Também é verdade que o texto definha e sobrevive mal em sequência de um acto criativo falhado, condenado ao ridículo e à obscuridade, senão ao extremo de se abrigar no antro das leituras enfadonhas que o leitor, avisadamente, evita.

Mesmo que tenha passado por uma fase inicial de popularidade e reconhecimento público: o juízo crítico será sempre mais duradouro do que as tabelas dos top, as últimas novidades chegam cada vez em maior número e mais depressa, a indústria cultural faz pela vida e as campanhas de marketing têm orçamentos e prazos de validade.

"Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever? Eu pretendo reescrever a História."

“Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever?- Eu pretendo reescrever a História.”

Escrever como quem quer ir ao encontro dos gostos, das modas, dum obscuro, potencialmente promissor, nicho de mercado? Óptimo, genial, provavelmente ninguém antes pensara nisso.

Escrever como que poupando ao leitor o incómodo de parar para reler e melhor entender? Que solução eficaz, sem complicações, nem ambiguidades!

Escrever como que evitando as referências e dificuldades que, presumivelmente, a maioria dos potenciais leitores manifestamente desconhecem e fogem de enfrentar? Ligeiro e superficial para se usar em qualquer dia do ano, sem dúvida.

LER FAZ VIVER prazer

LER FAZ VIVER
             Prazer15mg Curiosidade8mg Imaginação10mg Revolta12mg Saber9mg  Agentes de sabor:muitos!

Culpa dos leitores…ou da falta deles?! Claro, claramente que sim. E também!

Mas seja qual for o ângulo da acusação, por maior que seja o rosário de culpas ou o banco dos réus, a qualidade do texto não tem de depender senão da relação do escrevinhador com a bela Musa.

Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui’. (in Fedro de Platão, ed. Guimarães e Cª 1981 tradução de Pinharanda Gomes)

Louca inspiração, portanto. Sem álibis.

Ah, se tudo fosse assim tão simples…

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-Amo-te.
-Amo-te muito!
-Olá, bode! Eu amo esta rapariga!

Poderá haver poesia ou prosa com tensão baixa?

Na narrativa, a tensão é a expressão do desequilíbrio que dará dinâmica ao enredo, carácter à personagem, interesse ao tema.

A tensão está na diferença que se desenvolve do ponto de partida até ao ponto de chegada do enredo, as personagens estabelecem relações instáveis entre si ou consigo próprias, o tema pode ser focado de diferentes perspectivas, não necessariamente conflituosas, mas distintas. O leitor é ‘chamado’, assim, a participar nos dilemas, a reflectir sobre as alternativas, a entender os conflitos, provavelmente a expor seus preconceitos e debilidades.

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Uma das formas narrativas mais comuns do desequilíbrio é o ‘suspense’: as consequências poderão ser muito gravosas para esta ou aquela personagem, mas o enredo não dá certezas sobre a evolução ao longo das páginas ainda por ler, tanto sendo possível os desfechos previsíveis como outros, invariavelmente imprevisíveis para o leitor.

Ou o enredo até pode seguir uma pauta conhecida, porém as personagens expõem uma psicologia muito própria e complexa que determinará ou influenciará o desfecho dum modo que, muitas vezes, nem o próprio autor consegue antecipar antes de escrever.

Na poesia, sente-se o desequilíbrio das emoções duma Florbela Espanca perfeitamente enquadradas no rigor formal dos sonetos; ou perceber a tensão oculta na sensibilidade da poesia ‘tranquila’, quase zen, de Caeiro.

No discurso poético, o desequilíbrio pode estar na construção da frase, na expressão dum sentimento, na sugestão duma ideia. E aqui é mais facilmente perceptível a sensação de vertigem, o sopro da loucura, a proximidade do inefável: tudo fórmulas para exprimir o indizível.

'Conservar su independencia', de Gilbert Garcin

Na prosa, torna-se perturbante o desequilíbrio manifesto nessas personagens aparentemente banais, eventualmente medíocres, para todos os efeitos ‘pessoas comuns’, que se expressam no Livro do Desassossego ou n’ O Processo. Desequilíbrio que nada tem de patológico, mas nem por isso é menos inquietante porque questiona a realidade e a passiva resignação.

A ficção é tão real quanto a verdade

A vida do escrevinhador é dura, sem dúvida. E não é justa, a maioria das vezes: pode ter o plano da obra ao pormenor, tempo e condições, força de vontade para dedicar horas, dias e semanas consecutivas e, entretanto, nada do que escreve o satisfaz. Excesso de rigor para consigo mesmo? Pode ser.

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Ou, simplesmente, falta-lhe paixão. O trabalho da escrita é isso mesmo: trabalho, e nota-se quando a aplicação é metódica, mecânica, certinha, limpinha. Ora, a paixão exige desequilíbrios e vertigens. Eventualmente. Porque, na literatura, como na paixão, nada é certo.

Daiquiri

E vale tudo, como no conto de Borges Emma Zunz. A personagem Emma Zunz elabora uma ficção para atingir certos fins na vida real: vingar o pai, apresentando-se como vítima daquele que ela mesma matou. O morto, e verdadeira vítima, ‘era, para todos, um homem sério;(…)Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto que o eximia de agir bem a troco de orações e devoções.’(in O Aleph de Jorge Luis Borges, ed.Estampa 1988, trad.Flávio José Cardoso)

Ora, a ficção que Emma concebeu para matá-lo em legítima defesa ‘era incrível, com efeito, mas impôs-se a todos,pois substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas algumas circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.’

Hostia

Escrever como quem conta um conto e acrescenta um ponto (omitindo dois ou três).

Criatividade e bloqueio

Com mais frequência do que o reconhecido, o escrevinhador que se inicie nos trabalhos de parto ou aquele outro que já tenha colocado no mundo um qualquer livro, vêem-se perante o paradoxo de ter uma ideia clara, estruturada por um plano com início, meio e fim, em que personagens surgem com nome e identidade própria, o desfecho apresenta-se com nitidez e propósito, e…nada! No entanto, a parte criativa funciona.

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A origem da expressão ‘bloqueio do escritor’…

Quem seja chamado a apreciar a ideia, estrutura, etc, até pode concordar que está tudo em boa forma e é promissor; então, o que falta para arrancar o processo?

Seja qual for a resposta, não tem nada a ver com a escrita em si. Apesar de ser uma patologia comum no processo de criação literária.

Então, escrever como?

A arte de dizer algo escrevendo o seu contrário

Tal como Camilo, Eça é um escritor com extenso rol de personagens que lhe servem para retratar a sociedade do seu tempo, colocando em evidência ‘taras’ nacionais como a hipocrisia religiosa, a falta de instrução e de cultura, a ausência de ética dos cargos públicos, o obscurantismo militante de instituições e poderes, etc.

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Ao contrário de Camilo, Eça prefere a ironia refinada para desenvolver o próprio enredo, a ponto de não só não fazer afirmações explícitas de condenação ou reserva relativamente aos actos e pensamentos das personagens, como até os louvar ou justificar, se nos ficarmos por uma leitura estritamente literal.

A ironia é um exercício exigente para o escrevinhador, por implicar domínio dos sentidos e, obviamente, humor. Mas também o é para o leitor, como se pode perceber por muitas reacções no dia-a-dia a este propósito.

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-Está a chegar uma mensagem!
-ZDRZDRPA OOG GREP ZOW PFLARP
-…Chefe,penso que estão a contar anedotas de peidos!
-Finalmente! Uma inteligência que rivaliza com a nossa! 

Por vezes, Eça recorre à narração duma cena banal, em contexto extraordinário para o leitor: o contraste entre os comportamentos e ditos das personagens, eventualmente normais, e o seu estatuto social, profissional ou outro, basta para afirmar (sem o dizer) o propósito da obra (a denúncia de tal ou tal coisa), apelando ao bom senso e humor dos seus leitores.

Outras vezes, desenvolve cenas ou diálogos ridículos e divertidos, pondo uma personagem a dizer ou a fazer coisas, que ela própria desvaloriza ou crítica ao narrar a história.

Em ambas as situações, Eça evita tomar uma posição (ao contrário de Camilo, que reforça o sarcasmo com comentários directos), dando ao leitor a obrigação de ‘descodificar’. As personagens têm liberdade para se exprimir, para se justificar, mas são traídas pelo contexto ou por elas próprias assumirem suas intenções menos dignas.

O que não quer dizer que sejam mais autênticas do que as personagens camilianas. Camilo mais depressa deixa a sua personagem exprimir-se, apesar de, imediatamente depois ou ainda antes de esta falar, já estar a adjectivá-la, a censurá-la, ou a divagar a esse respeito; enquanto Eça cria uma encenação, usa um nível de conversação ou obtém efeitos de linguagem que colocam as personagens atrás duma lente que amplia ou foca de acordo com os propósitos do autor, poupando a este uma intervenção directa e moralizadora.

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Em ambos os casos, são dois expoentes máximos da Literatura, justamente famosos pelas técnicas de narrativa e caracterização.

Camilo dizia a respeito do que escrevia: ‘Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea. Não partimos de uma renovação da Moral; emergimos de um lodaçal de inveterados vícios.’ (in Boémia do Espírito)

Eça, à sua maneira, diz ao que vem criticando a literatura contemporânea:

Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem acção. Júlia pálida, casada com António gordo, atira as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel, António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre este drama de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1851. O autor, ordinariamente, tem o hábito de Sant’Iago. O editor tem a perda. O leitor tem o tédio. – Santa distribuição do trabalho!

De resto, quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da fazenda. (in prólogo d’ As Farpas)

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‘Pode alguém ser quem não é?’*

*título duma canção de Sérgio Godinho

Um dos desafios da ficção literária está em retratar com verosimilhança a tortuosa mente humana.

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Muita obra literária lida com este tema de modo simples (por dicotomias certo-errado, bem-mal), ignorando contexto, história, e toda a gama de cinzentos entre o branco e o preto.

Este é um tópico fascinante para desenvolver ideias sobre a ‘autenticidade’ da personagem: figura idealizada (do angelical ao demoníaco), caricatura, arquétipo, real…o escrevinhador nem sempre tem noção de como condiciona a personagem às ideias preconcebidas. Ideias com que filtra o mundo em que vive e só através delas o ‘trabalha’ na escrita.

Se formos cínicos, e convém sê-lo também, podemos interrogar-nos se pode alguém escrever de outro modo.

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O autor deste blog é suficientemente cínico para isso, mas não é fatalista que chegue para se conformar à ideia de que estamos condenados à obscura caverna de que Platão falava.

Em toda a História da Literatura vemos exemplos notáveis de personagens que rompem com as categorias ‘normais’, ainda que o autor manifestamente tenha um quadro de valores e referências claramente oposto ao que a personagem exprime. O admirável é que o autor o faça permitindo à personagem estabelecer com o leitor um diálogo directo ou ‘tempo de antena’ para se explicar, eventualmente se justificar, sem se condenar.

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E não me refiro a inversões do sentido duma personagem, como a que, no sec.XIX, certos autores românticos desenvolveram e em que a clássica figura do Mal passa a ser apresentada como um libertador, o espírito livre, crítico e solidário para com a espécie humana. Neste caso, e neste tipo de inversões, mantém-se o condicionamento da idealização sobre a personagem.

Então, como pode o escrevinhador ‘ser justo’ para com uma personagem que, ele próprio, vê como sendo abjecta ou, pelo menos, condenável? 

Ai, magoei-me mesmo! Olha, está ficando inchado.

Ai, magoei-me mesmo!
Olha, está ficando inchado.

A verdade relativa

Tal como se pode apreciar alguém pelo modo como trata os outros, inclusive os animais, o modo como o autor lida com as suas personagens diz tudo sobre o respeito que lhes tem e à inteligência do leitor.

Porém, o ponto de vista que proponho aqui não é pacífico: a autonomia da personagem em relação ao seu autor tem consequências e, eventualmente, pode não passar duma ilusão.

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Por outro lado, a qualidade literária duma obra não é, necessariamente, prejudicada ou salva pela autenticidade das suas personagens. Conforme repito ao longo destes posts, quase obsessivamente: vale tudo, em literatura. E nada é certo.

Mas como é estimulante ler e deparar-me com uma personagem familiar, ou seja, cujo estereótipo é bem conhecido e faz parte da minha mundividência, para ser, de seguida, surpreendido pelo modo como o autor lhe dá espaço para se afirmar e diferenciar, ainda que dentro do enquadramento geral do estereótipo.

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A este propósito referi, anteriormente, o tratamento dado na Ilíada aos dois heróis das duas partes em confronto na Guerra de Tróia:

-Aquiles, o arquétipo do Grande Guerreiro, um semi-deus capaz de prodígios em combate, amua e, por isso, deixa de cumprir suas obrigações para com os companheiros de armas, só voltando a assumi-las quando é atingido pessoalmente e é tomado pelo desejo de vingança, desrespeitando depois códigos de honra e de conduta elementares.

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-Heitor, um grande guerreiro que manifesta toda a sua humanidade ao exprimir o imenso amor pela mulher e pelos filhos, ao mesmo tempo que vive a responsabilidade de comandar um exército, de enfrentar o inimigo em campo de batalha e, assim, garantir a defesa da sua cidade.

Se o propósito de Homero é colocar o estereótipo do Grande Guerreiro em questão, levando-nos a reflectir sobre o valor destes dois modelos em confronto, não o faz dizendo explicitamente qual é o seu favorito, nem colocando o odioso encima de Aquiles. Este tem, aliás, oportunidade para se justificar recorrendo à argumentação que qualquer guerreiro da época poderia entender e partilhar.

E quando Aquiles exprime, em lágrimas e com raiva, suas próprias debilidades, torna-se autêntico, humano demasiado humano, sujeito a ser julgado nos seus actos e intenções, mas também a ser entendido e, eventualmente, a ver mitigado o juízo mais severo.

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O autor não se pronuncia, relata os ‘factos’, deixa às personagens a responsabilidade de se afirmar e justificar.

Ao leitor caberá o juízo. Jamais definitivo.