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Sobre o famigerado Acordo Ortográfico

Se a gramática não oferece a flexibilidade que permita que a alterem por decreto, já a ortografia pode sofrer mudanças profundas ao longo dum só século.

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. (1)

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Nas últimas décadas, o escrevinhador de língua portuguesa é confrontado com as regras do ‘novo’ Acordo Ortográfico e pode se questionar (legitimamente, entendo eu de que) se o deve seguir. Provavelmente, ao ser publicada, a sua obra será editada de acordo com o Acordo.

Inverdade é o mesmo que mentira, mas mentira de luva de pelica. Vede bem a diferença. Mentira só, nua e crua, dada na bochecha, dói. Inverdade, embora dita com energia, não obriga a ir aos queixos da pessoa que a profere. (…) Não achei a certidão de batismo da inverdade; pode ser até que nem se batizasse. Não nasceu do povo, isso creio. Entretanto, esta moça, pode ainda casar, conceber e aumentar a família do léxicon. Ouso até afirmar que há nela alguns sinais de pessoa que está de esperanças. E o filho é macho; e há de chamar-se inverdadeiro. Não se achará melhor eufemismo de mentiroso; é ainda mais doce que sua mãe, posto que seja feio de cara; mas quem vê cara, não vê corações. (2)

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Sendo um leigo na matéria, tenho o discernimento suficiente do usuário (palavra feia de cara que faz parte da terminologia dominante) para poder acompanhar o debate entre especialistas e formar a minha opinião.

Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência a vossa!/ Éreis um sopro na aragem…/— sois um homem que se enforca! (3)

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A evolução da ortografia (e da gramática) faz parte da ecologia das línguas, mas a partir de certa altura passou a ser regulada pelos critérios académicos que podem (ou não) ter implicações legais e estabelecer a norma a seguir no ensino e nos textos oficiais. Que esses critérios sejam discutíveis não é para admirar, pois mexem em algo tão sensível ao escrevinhador.

A dois séculos de deseducação ministrada por pseudo-humanistas, que de latim só sabiam o latim (tornando-o assim deveras uma língua morta) seguiu-se um século de deseducação ministrada por um anti-humanismo, que nem português, quanto mais latim, sabiam. (4)

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A deriva duma língua por territórios separados milhares de quilómetros, mesmo que praticada pelo mesmo povo e com a mesma cultura, é simplesmente inevitável. Se a língua for falada e escrita por diferentes povos, diferentes culturas, o processo tende a ser mais rápido. Nada de novo para um usuário duma língua neolatina.

Eu tenho notado nas rodas que hei freqüentado, exceto a do Alcides, uma nefasta influência dos portugueses. Não é o Eça, que inegavelmente quem fala português não o pode ignorar, são figuras subalternas: Fialho e menores.

Ajeita-se o modo de escrever deles, copiam-se-lhes os cacoetes, a estrutura da frase, não há dentre eles um que conscienciosamente procure escrever como o seu meio o pede e o requer, (…). (5)

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Para retardar esse processo, acordos ortográficos entre os países falantes duma língua trazem benefícios evidentes para a comunicação e cultura comuns, assim como para a economia. Isso não impede que cada país desenvolva as suas peculiaridades que podem ser completamente incompreensíveis senão houver explicação/tradução: podem ser regionalismos (no interior do mesmo universo linguístico) como contaminações, heranças, importações de outros universos.

Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. (6)

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Tudo isto é a delícia do viajante apaixonado pelo exotismo das sonoridades, do escrevinhador familiarizado com essas peculiaridades e tentado a explorá-las para melhor caracterização de ambientes e de personagens, do leitor ávido da sedução dos símbolos e dos significantes.

Estilizei, como não, pela necessidade de fugir à melopeia e à pouca extensão do dizer popular: mas o lexicon é o deles; as minhas vozes ouvi-lhas. Sou mais cronista que carpinteiro de romance. (7)

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E quantos escrevinhadores, com maior ou menor sucesso, não se entretêm a recriar ou, mesmo, a criar novas palavras, expressões ou línguas?

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Poema de Augusto de Campos

Quem se dê ao trabalho de acompanhar os posts deste blogue, provavelmente já percebeu que a posição aqui expressa é a da fluidez do sentido e a da plasticidade da palavra, num desafio à inteligência e ao gosto do leitor. Fluidez e plasticidade são tanto mais eficazes e sedutoras quanto o escrevinhador e o seu leitor partilhem referências, ou seja, têm um património linguístico e literário comum.

Deixa que fale dos/ pássaros/ a voarem do meu peito (8)

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Dito de outra forma: a língua tem uma história, segue padrões estabelecidos segundo critérios consagrados, evolui e diverge no tempo e no espaço (mas também nas diferentes comunidades de falantes), outras vezes enriquece-se com vocábulos completamente estranhos. Alguém disse até que é um vírus.

Vida toda linguagem/ feto sugando em língua compassiva/ o sangue que criança espalhará—oh metáfora activa!/ leite jorrado em fonte adolescente,/ sémen de homens maduros, verbo, verbo. (9)

Pela minha parte, sem pretensões elitistas ou preconceitos culturais (quero crer…), entendo que todo este processo é mais rico e produtivo se houver consciência dessa história e desses padrões, mesmo que seja ao nível básico de estranhar uma consoante muda e ter curiosidade em saber a razão da sua persistência: fóssil vivo do latim original ou indicador da acentuação duma vogal? Mesmo sem perceber a dúvida, abre-se ao escrevinhador (e ao leitor) todo um mundo novo.

Ouvi dizer que este homem possui mais línguas mortas que uma salsicharia. Quanto às vivas, já transpôs os penetrais da Europa à cata de alfabetos; e, quando tiver explorado a glótica dos hemisférios ambos, tenciona estudar as elegâncias da língua pátria e mais a retórica do padre Cardoso. (10)

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Porém, entendo o critério contabilístico que passa por cima das dúvidas e recomenda a formatação simples de modo a fazer de nós—falantes, leitores e escrevinhadores— meros usuários e consumidores.

(…) até que o pranto/ De todas as palavras me liberte (11)

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(1) in Água Viva de Clarice Lispector, ed.Rocco

(2) Machado de Assis, artigo publicado n’A Semana em 14 de Março de 1893

(3)  ‘Romance LIII ou das Palavras Aéreas’ in O Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

(4) ‘Poemas’ in Apreciações Literárias-bosquejos e esquemas críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(5) in Diário Íntimo de Lima Barreto

(6) João Guimarães Rosa, entrevista a Arnaldo Saraiva em 1966

(7) ‘Dedicatória a Carlos Malheiro Dias’ in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro, ed.Livraria Bertrand

(8)  ‘Entrançamento’ de Maria Teresa Horta in Só de Amor , ed.Dom Quixote

(9) ‘Vida toda linguagem’ de Mário Faustino in Antologia da Poesia Brasileira, ed.Verbo

(10)  ‘Sebenta, bolas e bulas’ de Camilo Castelo Branco in Boémia do Espírito, ed.Lello & Irmão

(11) ‘Que poema…’ in Coral de Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética vol.I ed.Caminho

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Escrever como quem fala

Há quem domine incipientemente a comunicação escrita e escreva como fala, assim como há quem a domine e construa diálogos como se fossem lidos: em ambos os casos o resultado será desastroso… salvo se for genial!

—Que me diz, abade? Lá que ela vinha a casar sabia eu, porque o Aguiar me disse que o irmão lhe dava um grande dote, quarenta contos. Casava com quem quisesse.

—Pois casou com o José Macário, casaram ontem, ali em Santo Ildefonso, às seis horas da manhã e partiram no vapor esta manhã para Lisboa, os canalhões.

Viegas gargalhava, e dizia: Oh! que pulhas! que pulhas! que pandilhas! que malandros!

—Deixe-me contar-lhe, Viegas: ouça que isto tem graça… Dê cá o lume —e acendia o cigarro, impando as bochechas com muito fumo, (…). (1)

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HOMEM: Não consigo pensar em nada de interessante para dizer. Sou tão aborrecido! Ela deve detestar-me. MULHER: Um homem que dá atenção ao que digo! Acho que me estou a apaixonar!

 

A escrita está sujeita a uma codificação que a oralidade finta alegremente, pelo que se esta for colorida de erros e desacertos pode ser cómica, castiça, eficaz e certeira.

Ora, ora —falou.— O cem anos é meu, quem vai morrer é eu, quer dizer que só quem pode achar a graça é eu, que eu é que sei, ninguém mais aqui sabe. (…). Depois que eu morrer, tem que chorar um pouco, o certo é esse, porém eu posso rir. (2)

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A conversação está exposta a erros gramaticais mais ou menos evidentes, a redundâncias e omissões, a desvios temáticos abruptos, a ‘diálogos de surdos’ e milhentas outras deficiências que são —não tão paradoxalmente assim— os cimentos da comunicação humana.

O agente: Que frases obscenas?

A lamentosa treme a cabecinha, tem buço na venta e olhinhos recatados. Palavrões, diz em voz sumida.

O agente: Tais como?

Curta para aqui, curta para ali, responde a galinheira ainda em mais sumido.

E o agente: Curta? Diga puta, senhora. Os autos querem-se precisos. (3)

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O mito da Torre de Babel acentua o lado caótico da comunicação entre falantes que utilizam línguas tão distintas entre si que não se conseguem fazer entender, mas dentro de cada universo linguístico existem enormes variações ao nível da linguagem, do conhecimento dos vocábulos, dos múltiplos sentidos das mesmas palavras ou expressões , das referências partilhadas. Isto é da maior importância quando os diálogos escritos se situam numa época, numa área geográfica, entre personagens, perfeitamente definidas.

—São as piores, ti Rita. Tola não foi ela… (…)

—Aquilo fazia-se esquerda à espera de pássaro graúdo. (4)

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Desfrute deste cartoon culturalmente, etnicamente, religiosamente e politicamente correcto de modo responsável. Obrigado

 

Daí o escrevinhador dever ter isto em mente quando constrói textos de expressão oral, sejam monólogos ou diálogos. Não o fazendo, o texto pode resultar insuportavelmente artificial, desligado de toda a experiência de conversação.

—E não é de boa maneira de um homem saudar outro —perguntei eu— dizer-lhe que Deus o guarde?  

—Tem muito cuidado com a língua! —respondeu ele.— Aos homens da classe baixa diz-se isso; mas aos de mais alto nível, como eu, não se pode saudar de outra forma senão com um “Beijo as mãos de vossa mercê”, ou, pelo menos, “Senhor, beijo-vos as mãos”, se quem me falar for delicado. (5)

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Mas que não ocorra ao escrevinhador transcrever a oralidade num registo escrito com a fidelidade dum estenógrafo: a criação literária é mais do que a arte de um papagaio alfabetizado.

Rita canta sua canção de oferta, que é o seu canto de trabalho:

“Que fazes aí, menina?/ Eu faço tudo, senhor…”

Era uma rua longa, comprida de não acabar. (6)

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(1) in José Macário de Camilo Castelo Branco, ed. Lello & Irmão

(2) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro, ed. Dom Quixote

(3) in Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires, ed.Público

(4) in Gaibéus de Alves Redol ed. fac-simile A Bela e o Monstro

(5) in Lazarilho de Tormes Anónimo, trad. Ricardo Alberty, ed.Verbo

(6) in São Jorge dos Ilhéus de Jorge Amado, ed.Europa-América

 

Escrever sobre o indizível

Por definição, o indizível é o que não se pode dizer. Se não pode porque não deve ou se não pode porque não pode mesmo, são ‘impossibilidades’ bem diferentes.

Às vezes, as recordações se parecem a alguns objectos, aparentemente inúteis, pelos quais sentimos um confuso apego. Sem saber muito bem porque razão, não nos decidimos a deitá-los fora e acabam amontoando-se no fundo desse gavetão que evitamos abrir, como se ali fossemos encontrar alguma coisa que não se deseja, ou até que se teme vagamente. (1)

Norman Rockwell, Truth About Santa, 1956

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No primeiro caso, pode decorrer da censura moral ou da proibição legal que impedem a expressão de ideias. O que é indizível aqui e agora deixa de o ser noutro lado ou noutro tempo, senão for mesmo agora e aqui de modo mais ou menos anónimo, publicado clandestinamente, ao arrepio das leis e dos costumes. Literariamente falando, não se trata do indizível mas do não-permitido, e a história da literatura é recheada de episódios a este respeito.

(…) Animam-no, como poeta e artista, os heróis e os criminosos, desde que o mesmo sol os doire belos. (2)

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Contudo, ainda neste caso, existem graus de dificuldade: escrever sobre alguém que tem um comportamento condenável a todos os títulos, e fazê-lo de modo a sugerir uma leitura positiva, que cause a involuntária compreensão, senão mesmo a concordância do leitor, é mais simples do que o próprio texto assumir os valores condenados e apresentá-los como válidos, sem a clássica inversão de valores ( o que é bom passa a mau e vice-versa).

(…) É impossível que recebamos dela [Natureza] um sentimento que a ofenda e nesta certeza podemos entregar-nos às nossas paixões, seja de que índole e violência forem (…). (3)

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Do ponto de vista estritamente literário, creio que o que vale é a forma, mais do que os conteúdos, e pode resultar. Aliás, essa é a função profiláctica das leis proibitivas e dos actos de censura prévia: evitar a sedução das leituras perigosas.

Convém mostrar as repulsões do crime lá embaixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem;ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente? (4)

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Já o indizível, propriamente dito, é toda uma outra coisa: a sua expressão por palavras distorce, desvaloriza, falseia, ilude, por maior que seja a boa vontade de quem se exprime em não faltar à verdade (à sua verdade, pelo menos). E isso porquê? Uma imagem vale por mil palavras, a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, e outros ditos tentam responder à diferença entre o impacto não-verbal de certas experiências (vivenciadas ou pensadas) e a expressão delas.

Finalmente, existe outra expressão frequente que é igualmente impenetrável por cérebros não-indígenas. Por exemplo, a frase “Vá lá a gente saber porquê!”. Um estrangeiro interpreta-a como significando “Vamos todos àquele sítio para podermos averiguar as causas do sucedido”, quando, na verdade, significa incompreensivelmente que não vale a pena ir a seja onde for, porque não há maneira de saber seja o que for. Eles lá sabem porquê… (5)

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cartoon de Pawel Kuczynski

A matemática e a música serão melhores veículos para transmissão do indizível do que a linguagem verbal, dizem os entendidos e tendo a concordar (ainda que abissalmente ignorante a respeito das linguagens matemáticas e musicais).

Quando fui a primeira vez à terra natal de Amadeo, dezoito anos depois da sua morte, a luz na paisagem e as cores nas proporções eram as mesmíssimas nos seus quadros de pintura. (…) Toda a sua arte reflecte o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as suas próprias cores, as do seu rincão natal. (6)

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cartoon de El Roto

Mas é difícil lidar com o indizível no dia-a-dia sem cair na tentação de o exprimir, já que de outro modo torna-se uma experiência profundamente pessoal e única, sendo os escrevinhadores seres sociais e comunicadores por natureza, como a generalidade dos mamíferos.

Neste assunto, obscuro em extremo, farei o possível por ser claro. Ignoro se o conseguirei e— sem mais preâmbulos— vou começar. (7)

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Daí haver escrevinhadores de todos os tempos a tentar contornar a impossibilidade e dizerem algo sobre o indizível, seja pela negativa, seja por comparação, seja recorrendo à metonímia: todo um arsenal retórico que permite exprimir o que não se sabe ou o que se julga saber mas não se entende.

Nesse caso, ouve-me em silêncio. Como este recanto parece ter algo de divino, se, no decorrer do meu discurso, me tornar possesso das Ninfas, não estranhes, (…). (…) Pode acontecer que a inspiração divina se esgote, mas isso fica ao arbítrio dos deuses. (8)

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Naturalmente, a poesia sempre teve inclinação para enfrentar o desafio através dos seus recursos extra-verbais (inspiração, paixão, loucura) que lhe permite ter um pé (senão ambos os pés) noutros mundos e a cabeça nas nuvens.

(…) O que aqui/ não está escrito é já a única/ prova de que disponho/ para reconhecer-me, interromper/ meu processo de erosão entre recordações/ urgentes. // Por aquela palavra/ a mais que disse então, trataria/ de dar minha vida agora (9)

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Pessoalmente, destaco toda a literatura que se situa na categoria do ‘absurdo’ (que não é a mesma coisa que a ‘fantasia’, atenção!): através de jogos de palavras, pela criação de palavras próprias, distorcendo regras gramaticais elementares, expandindo ou contraindo de forma absurda (claro está!) maneirismos narrativos ou dialogais, consegue “dizer” mais sobre o indizível do que a milenar literatura séria sobre o Inefável.

O E parecia um pente, o S uma serpente, o O um ovo, o X uma cruz de lado, o H uma escada para anões, (…). Não via diferença entre desenhar e escrever.

(…) Porque as letras e os desenhos eram irmãos de pai e mãe: o pai era o lápis afiado e a mãe a imaginação. (…) Estas palavras que nasciam sem ela mesmo querer, como flores silvestres que não precisam de ser regadas, eram as que mais gostava, as que lhe davam mais alegria, pois só ela as entendia. (…) e as chamava de “farfanías”. Quase sempre a faziam rir. (10)

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Mas a que mais me impressiona é a literatura sobre o Horror (não confundir com zumbis e quejandos), como a dos campos de concentração e de extermínio, a das perseguições e genocídio. Autores que passaram pelo Horror, testemunhas e vítimas ao mesmo tempo, e que conseguem pôr por escrito a experiência vivida, a própria e a de outros, mantendo um pudor e sangue-frio extraordinário na descrição, na valoração, no juízo.

(…) E tinham sido conduzidos para os balneários, onde, disseram-me, também havia tubos e chuveiros: só que, deles, não tinham feito sair água, mas gás. Não soube tudo isto de uma só vez, mas a pouco e pouco (…). Entretanto, ouço, são, até ao fim, muito amáveis para eles, tratam-nos carinhosamente, às crianças é permitido cantar e jogar à bola, e o local onde são gaseados é muito bonito e bem cuidado, (…). (11)

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E nessa contenção mantém-se toda a força, repelente ou atractiva, do indizível.

E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

—”Meu amor!” (12)

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(1) in Paraíso inabitado de Ana Maria Matute, ed.Destino

(2) ‘António Botto e o ideal estético creador’ in Apreciações Literárias—Bosquejos e Esquemas Críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(3) ‘Justificação do Prazer’ in Escritos Filosóficos e Políticos (extraído de Justine ou os infortúnios da Virtude) de Donatien Alphonse F. de Sade, trad.Serafim Ferreira ed.colecção 70

(4) ‘Prefácio’ in O Esqueleto de Camilo Castelo Branco, ed.Livraria de Campos Junior

(5) ‘É-o-que-é’ inA Causa das Coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assírio e Alvim

(6) ‘Amadeo de Souza-Cardoso’ in Obras Completas vol.6 Textos de Intervenção De José Almada Negreiros, ed.Estampa

(7) in Loucura… de Mário de Sá-Carneiro, ed.Rolim

(8) in Fedro de Platão, ed.Guimarães & Cª

(9) in ‘Sobre o impossível ofício de escrever’ in Somos el tiempo que nos queda-Descrédito del Héroe de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral

(10)in Caperucita en Manhattan de Carmen Martín Gaite, ed.Siruela

(11) in Sem Destino de Imre Kertész, trad.Ernesto Rodrigues ed.Presença

(12) in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira

 

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Endurance e fitness para o exercício literário

O escrevinhador deve ter o enredo à frente dos olhos quando sarrabisca ou digita obra de maior fôlego. O conto ou o poema tem outras exigências, mas o romance, ou novela, é como uma maratona: mesmo conhecendo o percurso, há que dosear o esforço com inteligência e preparar-se para surpresas.

‘O author trabalha desde antes de hontem no encadeamento lógico e ideologico dos dezesete tomos de reconstrucção, e já tem promptos dez volumes para a publicidade.’

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O enredo estruturado numa só folha de papel, capítulo a capítulo, ou por partes, não é um esquema rígido, mas mantém o rumo e assinala desvios.

Só de olhar para o esquema, o escrevinhador antecipa opções imprevistas duma personagem, a necessidade de surgir ‘alguém’ ou ‘algo’ para que se dê certo impulso (ou se dê certa volta) ao ritmo, ao rumo, à retórica.

‘Os capítulos inclusos n’este volume são preludios, uma symphonia offenbachiana, a gaita e o berimbau, da abertura de uma grande charivari de trompões fortes bramindo pelas suas guelas concavas, metálicas.’

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Relativamente a esta última, o escrevinhador pode sentir-se confuso a seu próprio respeito: umas vezes só lhe saem diálogos, outras vezes longas narrativas, vezes em que os textos são curtos, incisivos, outros nem disfarçam o prazer de divagar…

Que isso não seja motivo de preocupação: posteriormente fará opções, ajustes, correções.

Mas é necessario a quem reedifica a sociedade saber primeiro se ella quer ser desabada a pontapés de estylo para depois ser reedificada com adjectivos pomposos e adverbios rutilantes.’

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AVISO: A vida não é justa

Importante é perceber se o desenvolvimento do enredo progride, se o que ‘está para a frente’ é uma força centrípeta ou se é miragem. Durante a semana que vem tentarei explicar-me melhor a este respeito.

‘É o que se faz nas folhas preliminares d’esta obra violenta, de combate, destinada a entrar pelos corações dentro e a sahir pelas merciarias fora.’

 

nota: todas as citações em itálico foram retiradas da ‘Advertência’ de Camilo Castelo Branco, na 1ª edição de Eusébio Macário (1879), ed.Livraria Chardron.

Escrever como quem martela ferro frio…

São variados os obstáculos que se põe no caminho do escrevinhador  (bloqueio, inconsistência, desinspiração, etc, etc), faltando-lhe fôlego para animar a obra e dar-lhe ritmo, velocidade, tensão ou qualquer outro ingrediente que provoque a reacção química necessária para que o processo desencadeie.

Claro, tudo isto se pode simular. E simula-se. Com algum trabalho. Mas simula-se. Porque no fundo inspiração talvez não seja mais do que a construção, mais ou menos rápida, de um sistema ou de uma armadilha de palavras que nos prende e nos liberta.(1)

A eterna luta

A eterna luta: levando material daqui para ali.

Na prosa, como na poesia, existe maneira de ultrapassar o problema em termos meramente produtivos: martelando. Que é, no fundo, uma discutível virtude da persistência, da ambição, da vontade, ou o que quer que seja que move o escrevinhador (e que não é, obviamente, a bela Musa).

Você disse que o poeta é um fingidor. Eu o confesso, são adivinhações que nos saem pela boca sem que saibamos que caminhos andámos para lá chegar, o pior é que morri antes de ter percebido se é o poeta que se finge de homem ou o homem que se finge de poeta. Fingir e fingir-se não é o mesmo, Isso é uma afirmação, ou uma pergunta, É uma pergunta, Claro que não é o mesmo, eu apenas fingi, você finge-se, se quiser ver as diferenças, leia-me e volte a ler-se. (2)

"McWit, a tua licença poética expirou

“McWit, a tua licença poética expirou há anos.”

Graças à aplicação correcta das regras gramaticais, do uso de estruturas métricas e/ou de variações estilísticas em moda, copiando a formatação de modelos bem sucedidos, o resultado até pode ser satisfatório, demonstrando conhecimento, trabalho, critério.

Que este método também não é fácil, demonstra-o a legião de ‘marteladores’ justamente ignorados.

Lá de dentro, do fundo da livraria, (…) despegou-se abruptamente esta voz de fúria aflautada:

—É uma besta! Uma grandessíssima besta! Uma besta quadrada!

Bem. Aposto tudo (…) em como estão a falar de um mestre crítico qualquer. (3)

...o Fim

-…o Fim. Bem, hora de dormir. O que estás a escrever?                                 -Uma recensão negativa do livro!

Porém, quando reforçado com recursos não-literários pode obter reconhecimento e sucesso, até um público.

(…) o seu livro não é cano de escorrências muito nauseabundas, nem é canal de notícias úteis, tirante a dos hotéis infamados de percevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo porque custa sete tostões e —vá de calão—como troça e bexiga, é caro. (4)

-És tão ilógica. Nunca conseguiu ganhar uma discussão contra ti! -

-És tão ilógica. Nunca consigo ganhar uma discussão contra ti!
-Não experimentes, nem me confundas com factos.

Invariavelmente, o seu destino é o de se tornar um ‘mono’. Mas, até lá, sempre vai rendendo alguma coisa. De qualquer modo e maneira, já dizia o moralista: sic transit gloria mundi…

Ia (…) tão contente do seu destino de enfeitar selectas, que me apeteceu gritar-lhe, cá de longe, do fundo da inveja irónica do sono escondido:

—Mais depressa, pá! Avia-te! Corre! Enfia pelo futuro adentro! Pois não vês que estão lá todos à tua espera para te dividirem em orações?

Mas contive-me. (Se for como tu e como os teus versos, há-de ser fresco, o futuro!)  (5)

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“Vamos acrescentar mais umas banalidades. Este é um discurso reconfortante e as frases feitas são um alimento de conforto verbal.”

 

 

(1)in Duas respostas a um inquérito de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(2) diálogo entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, já falecido, in O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago ed.Caminho

(3)in Grupos, grupinhos e grupelhos de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(4)recensão do livro Portugal à Vol d’Oiseau daPrincesa Ratazzi in A Senhora Ratazzi de Camilo Castelo Branco, incluído na Boémia do Espírito ed.Lello e Irmão

(5)in Meditações sobre a estratégia da glória de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes.

 

Liberdades narrativas

Há quem antipatize com a liberdade como alguns escrevinhadores interpelam os leitores ao longo duma narrativa, socorrendo-se de um narrador opinativo e supostamente engraçado. Não tenho nada contra: são tudo técnicas ou estilos que podem funcionar melhor ou pior. O risco está sempre presente e não se pode agradar a todos.

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in “Mistérios de Fafe -um romance social” de Camilo Castelo Branco 1881 ed.Viuva Campos Junior

Pode ser que esse narrador se torne ele mesmo mais uma personagem (melhor dizendo, uma ‘metapersonagem’, pois as reflexões e à-partes, nesse caso, são um metatexto) e suas intervenções dirigidas explicitamente ao leitor (que acaba por se tornar, também, um involuntário protagonista) são importantes ao nível do contexto e do sentido. Mas não vale a pena perder tempo com teorias críticas e afins, pelo menos antes da obra feita.

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camilo castelo branco por fernando campos

No meu tempo amava-se muito. É por essa quadra de flores que a minha imaginação se esvoaça como a abelha à volta das corolas de um ramal de rosas.

Sou do período dos aéreos perfumes; este agora é o dos sons metálicos. As almas então eram leves, voláteis, e vestiam-se com os raios prateados da Lua; hoje, ouço dizer que os corações estão pesados e retraídos dentro dos seus espinhos de ambição, cobertos de pomos de ouro como os ouriços-cacheiros no estrado das macieiras.

Minhas senhoras, as vossas Excelências não imaginam como as suas mães foram amadas! Nós éramos românticos. Não tínhamos mais dinheiro que estes bancos rotos de hoje em dia; mas tínhamos papéis que valiam mais que os deles: eram sonetos.

(in A Viúva do Enforcado de Camilo Castelo Branco)

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Frequentemente, nas ‘novelas’ camilianas, o narrador é alguém (talvez o próprio Camilo) que conheceu algumas das personagens ou leu documentação escrita pelo punho de algumas delas, o que lhe ‘dá’ credibilidade ao relatar extraordinários acontecimentos. Esse narrador não pretende ser omnisciente, mas tem opinião formada sobre muitos assuntos. E, frequentemente, é sarcástico, irónico, filosófico ou acusador. De qualquer dos modos, o efeito polémico, associado ao sensacionalismo dos temas e enredos, ficava garantido.

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(…) transcorridos dois anos, em um livro impresso por 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba.

(in A Morgada de Romariz de Camilo Castelo Branco)

Deste modo, os leitores fiéis também têm o grato prazer de lerem na companhia do autor, sempre ansiosos por mais um parênteses, uma divagação, um comentário,  que os fará rir. E pensar.

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in “A Sereia” de Camilo Castelo Branco

A arte de dizer algo escrevendo o seu contrário

Tal como Camilo, Eça é um escritor com extenso rol de personagens que lhe servem para retratar a sociedade do seu tempo, colocando em evidência ‘taras’ nacionais como a hipocrisia religiosa, a falta de instrução e de cultura, a ausência de ética dos cargos públicos, o obscurantismo militante de instituições e poderes, etc.

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Ao contrário de Camilo, Eça prefere a ironia refinada para desenvolver o próprio enredo, a ponto de não só não fazer afirmações explícitas de condenação ou reserva relativamente aos actos e pensamentos das personagens, como até os louvar ou justificar, se nos ficarmos por uma leitura estritamente literal.

A ironia é um exercício exigente para o escrevinhador, por implicar domínio dos sentidos e, obviamente, humor. Mas também o é para o leitor, como se pode perceber por muitas reacções no dia-a-dia a este propósito.

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-Está a chegar uma mensagem!
-ZDRZDRPA OOG GREP ZOW PFLARP
-…Chefe,penso que estão a contar anedotas de peidos!
-Finalmente! Uma inteligência que rivaliza com a nossa! 

Por vezes, Eça recorre à narração duma cena banal, em contexto extraordinário para o leitor: o contraste entre os comportamentos e ditos das personagens, eventualmente normais, e o seu estatuto social, profissional ou outro, basta para afirmar (sem o dizer) o propósito da obra (a denúncia de tal ou tal coisa), apelando ao bom senso e humor dos seus leitores.

Outras vezes, desenvolve cenas ou diálogos ridículos e divertidos, pondo uma personagem a dizer ou a fazer coisas, que ela própria desvaloriza ou crítica ao narrar a história.

Em ambas as situações, Eça evita tomar uma posição (ao contrário de Camilo, que reforça o sarcasmo com comentários directos), dando ao leitor a obrigação de ‘descodificar’. As personagens têm liberdade para se exprimir, para se justificar, mas são traídas pelo contexto ou por elas próprias assumirem suas intenções menos dignas.

O que não quer dizer que sejam mais autênticas do que as personagens camilianas. Camilo mais depressa deixa a sua personagem exprimir-se, apesar de, imediatamente depois ou ainda antes de esta falar, já estar a adjectivá-la, a censurá-la, ou a divagar a esse respeito; enquanto Eça cria uma encenação, usa um nível de conversação ou obtém efeitos de linguagem que colocam as personagens atrás duma lente que amplia ou foca de acordo com os propósitos do autor, poupando a este uma intervenção directa e moralizadora.

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Em ambos os casos, são dois expoentes máximos da Literatura, justamente famosos pelas técnicas de narrativa e caracterização.

Camilo dizia a respeito do que escrevia: ‘Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea. Não partimos de uma renovação da Moral; emergimos de um lodaçal de inveterados vícios.’ (in Boémia do Espírito)

Eça, à sua maneira, diz ao que vem criticando a literatura contemporânea:

Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem acção. Júlia pálida, casada com António gordo, atira as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel, António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre este drama de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1851. O autor, ordinariamente, tem o hábito de Sant’Iago. O editor tem a perda. O leitor tem o tédio. – Santa distribuição do trabalho!

De resto, quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da fazenda. (in prólogo d’ As Farpas)

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A voz sarcástica do narrador

Camilo tem uma extensa galeria de personagens que, ostensivamente, lhe desagradam. Expõe-nos ao seu sarcasmo duro e certeiro, criando uma tipologia de homens e mulheres que se caracterizam pela grosseria e pela soberba, mas bem integrados na sociedade do seu tempo apesar das origens modestas. 

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Colocando-os em confronto com outros tipos, como o fidalgo sem instrução e sem préstimo, o pretensioso com formação académica, o padre sem valores espirituais preocupado em amealhar valores materiais, as famílias ricas que vivem de rendas e nada produzem, Camilo salva-os (e salva-se a ele, enquanto autor) do retrato estereotipado do novo-rico, reconhecendo-lhes carácter, vontade de trabalhar e progredir socialmente, a ambição de ver os filhos melhor preparados, senão pela educação, pelo casamento.

Se lhes denuncia a falta de escrúpulos, a brutalidade no trato com os dependentes e ‘inferiores’, a cobiça e a avareza, Camilo só verdadeiramente os distingue de outros tipos sociais, geralmente mais instruídos e com trato mais polido, pela franqueza rude e pela energia com que se entregam ao trabalho. 

O resultado é ambíguo para o leitor: por um lado, ri-se da caricatura a traço grosso, mas não deixa de reconhecer no retratado um motor de progresso e de democratização social, por muito incipiente que seja sua ideologia política e ciência económica. Sem com isso deixar de lhe observar arcaísmos diversos e variados.

Assim, as personagens camilianas parecem autênticas, verosímeis.

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E, por isso, são fascinantes século e meio depois, além de serem ainda reconhecíveis em muita gente nossa contemporânea.

No caso de Camilo, muitas vezes a narração começa como n’ A Viúva do Enforcado: ‘(…) nós, porém, diremos de um ourives deste século, ali nascido (…)’ e a voz do narrador é indissociável do próprio autor, o qual vai dando a suas achegas e comentários com um ‘a mim parece-me que o escrúpulo é a chave que abre a porta por onde a inocência há-de escapar-se, tarde ou cedo‘ ou ‘não me atrevo a decidir que estes esposos se amassem até ao delírio‘, ou, ainda, provocando o próprio leitor ‘Quem não tiver alma para compreender isto, não leia novelas da natureza destas. Entenda-se com o meu ilustrado amigo o sr.Ferreira Lapa e peça-lhe que lhe prelecione acerca dos melhores adubos, para que o seu engenho se não vá deste mundo sem alguma cultura‘.

Piratas do Tietê

São muitos os riscos para quem pretenda escrever ‘misturando’ ideias pessoais no desenvolvimento da narrativa, mais ainda quando tem como ‘alvo’ personagens-tipo e propósitos de crítica social.

E quando mete o ‘espirito’, para usar a expressão que o próprio Camilo utilizou em Gracejos que matam, onde alerta o leitor para a variedade de humor de ‘um folião que desbragava a pena e desembestava asselvajadamente o insulto‘, o sarcasmo perde qualidade literária e satírica.

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