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A noite dos mortos meio-vivos e outras coisas espantosas

A Morte (com maiúscula, atenção) é inesgotável fonte de inspiração literária, principalmente nestes dias de Outubro a Novembro, levando mesmo à questão se ainda há algo a respeito que não tenha sido dito algures por este mundo, nesta ou numa outra era.

—Escuta-me, amigo meu, o sonho que vi esta noite; (…) havia ali alguém de face tenebrosa, (…) as suas mãos eram patas de leão, suas unhas garras de águia, agarrando-me pelas pontas dos cabelos me violentava, eu tentava golpeá-lo, mas ele revolvia-se como quem salta à corda, logo me golpeando e atirando-me ao chão (…). “—Salva-me, amigo meu!”—gritei. Mas tu não me salvavas, tinhas tanto medo que nem te movias para me ajudar, tu (…). (1)

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O tom ou o desenvolvimento que se dá à estória é que faz a diferença, havendo até a possibilidade de surpreender pela conclusão. É realmente difícil mas, por isso mesmo, merece ser tentado pelo escrevinhador.

Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda (…). E na noite havia os que deixavam um rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados como um som de viola que se parte. (…) Muitos arrastavam caudas enormes pela lama, despedaçavam-nas de encontro às esquinas, e alguns procuravam deitá-las fora para não mais pensarem num passado tenebroso.

—O homem material —pensava o Palhaço— não existe. A vida é uma convenção. (…) (2)

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A indigência audiovisual ou literária produzida massivamente em redor da categoria do “Terror”  não esconde o potencial humano, existencial e, por isso mesmo, ‘eterno’, de um tema tão complexo: nas primeiras décadas do sec.XIX, escritores alemães, norte-americanos ou ingleses dedicaram-se com êxito a recuperar temas tradicionais a respeito da Morte, do Mal e do Outro.

O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. (3)

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Deram assim início a um género que tem como antepassado directo os contos populares, os quais reflectem, por sua vez, o folclore, as crenças e as práticas milenares da vida quotidiana, mesmo—ou principalmente— quando esta é interrompida (cíclica ou inesperadamente) por algo de extraordinário.

Do fundo da cova triste/Ouvi uma voz sair:/”Vive, vive, cavaleiro,/Vive tu que eu já morri:/Os olhos com que te olhava/De terra já os cobri./Boca com que te beijava/Já não tem sabor em si,/Os cabelos que entrançavas/Jaz caído a par de mim,/Dos braços que te abraçavam/As canas vê-las aqui!”(4)

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Na próxima reencarnação podes vir a ser uma espécie em perigo. Ajuda-nos a salvar o grou siberiano

As personagens podem ser gente banal em circunstâncias invulgares, seres fantásticos em ambientes familiares (ao leitor e/ou às outras personagens), uma combinação disto e daquilo. Porque —ainda será necessário lembrar?— vale tudo e nada é garantido.

O apóstolo Santo André andava invejoso do apóstolo Santiago porque lhe levava toda a paróquia.

—A Compostela chegam peregrinos de todas as partes do mundo (…) e, ao mesmo tempo, a Teixido não vêm nem de Ferrol ou de Viveiro ou de Ortigueira, que estão ali ao lado, isso não é justo porque eu também sou apóstolo, tão apóstolo como os outros.

Nosso Senhor Jesus Cristo, que vinha pelo mesmo caminho, lhe disse,

—Tens toda a razão do mundo, André, isto tem de se resolver, vou dispor que de ora em diante ninguém possa entrar no céu sem ter passado por Teixido.

—Muito obrigado. (5)

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Como qualquer leitor dedicado já experimentou, o maior terror sofrido não é o expresso pelas imagens gráficas de sangue, nem pelas descrições da mais lancinante dor, e ainda menos pelo detalhe de monstruosidades. Na escrita (e no cinema parece-me igual), o subentendido, o aludido (mas não explicitado), podem mais sobre o leitor.

“Não gosto do aspecto disso”, disse a sua governanta, “Tem um aspecto feioso.”

“A mim, dificilmente lhe vejo alguma forma.”

“Não gosto das coisas que crescem assim.”, disse a sua governanta.(…) “Parece uma aranha nojenta morta.” (6)

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Esta relação vai-me matar

No fundo, a mesma eficácia da escrita erótica frente ao grafismo meramente pornográfico. Não é um método fácil. Corre o risco, até, de não captar a atenção do leitor preguiçoso. E por uma razão simples: por estar dependente da sua imaginação,sensibilidade, sentido de humor e inteligência.

O livro estava aberto mais ou menos a meio e havia um parágrafo de tal forma sublinhado a negro pela pena trémula do possuidor que Mr.Merritt não conteve a curiosidade. Da natureza dessas poucas linhas sublinhadas e da força com que o tinham sido, nada saberia dizer, mas tudo isso lhe causou a pior impressão. (7)

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Mas essa é a maldição da Arte. Sem um leitor (espectador, ouvinte, ou lá o que for) interessado, perde-se o potencial do texto. Fazer o quê?

O final da história só pode ser narrado por metáforas já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Caberia talvez dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panónia. (…) para a insondável divindade, ele e João Panónia (o ortodoxo e o herege, o aborrecedor e o aborrecido, o acusador e a vítima) formavam uma só pessoa. (8)

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“É diferente essa sua burkha…” “Aãã…não,sou apicultora!”

Melhor dizendo: escrever como? Esse é mais um dos mistérios da criação literária, o maior terror do desgraçado escrevinhador, o suspense em que todo o leitor fica até à leitura do texto… não estão mesmo à espera que o revele, pois não?

Quero que a leitura deste livro vos deixe a impressão de terdes atravessado um pesadelo voluptuoso. (9)

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(1) in Poema de Gilgamesh (tábua VII coluna IV),trad.Frederico Lara Peinado, ed.Tecnos

(2) in A Morte do Palhaço de Raúl Brandão, ed.Verbo

(3) in Histórias de Mistério e Imaginação ‘O gato preto’ de Edgar Allan Poe, trad.Tomé Santos Júnior, ed.Verbo

(4) in Romanceiro ‘Bernal-Francês’ compilação de Almeida Garrett, ed.Circulo dos Leitores

(5) in Mazurca para dos muertos de Camilo José Cela, ed.Seix Barral

(6) in Contos Fantásticos ‘A Orquídia Estranha’ de H.G.Wells, ed.Collins

(7) in O caso de Charles Dexter Ward de H.P. Lovecraft, trad.Manuel João Gomes ed.Dom Quixote

(8) in O Aleph ‘Os Teólogos’ de Jorge Luis Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(9) in Livro do Desassossego de Bernardo Soares, ed.Assírio & Alvim

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Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

Modos de dar início à narrativa

O ‘princípio’ da narrativa não obriga, cronologicamente falando, a começar pelo início dos acontecimentos.

O escrevinhador pode aproveitar para apresentar o narrador da estória: alguém que vai rememorar os acontecimentos, e que, no princípio, preparará o ‘ambiente’, excitando a curiosidade do ouvinte e do leitor em conhecer os detalhes de algo que o narrador deixa suspenso.

Aqueles foram meus dias. (…) O senhor vá lá, verá. Os lugares sempre estão aí em si, para confirmar. (1)

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Pode dispensar o narrador e começar pelo fim, como acontece a propósito de alguém de quem nunca viremos a saber o nome, mas a quem acompanharemos da infância até à morte.

À volta da sepultura no cemitério desleixado, estavam alguns dos seus antigos colegas de Nova York, que recordavam a sua energia e originalidade (…) (2)

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Ou pode ser pelo meio, por um dos muitos acidentes de percurso da estória, também como modo de excitar a curiosidade do leitor, e começar pelo início cronológico algumas linhas mais à frente.

Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota (…). (3)

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Pode, até, misturar nas mesmas linhas acontecimentos passados com intervalos de anos, numa narrativa que parece não ‘arrancar’, aparentemente circular, fluindo ao ritmo da memória.

Raimundo, o dos Casandulfes, pensa que Fabián Minguela passeia pela vida os nove sinais do filho-da-puta.

E quais são?

Tem paciência, lá os saberás pouco a pouco. (4)

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Lea Goldman ‘the story teller’

 

(1) in Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; ed. Nova Fronteira

(2) in Everyman, de Philip Roth; ed. Vintage Books

(3) in Cien años de soledad, de Gabriel Garcia Marquez; ed.Espasa Calpe

(4) in Mazurca para dos muertos, de Camilo José Cela; ed.Seix Barral

Engenharia literária

Seja uma obra em verso, seja em prosa, o escrevinhador pode dividi-la em secções para benefício da clareza, da unidade/diversidade interna, da dinâmica da leitura, por qualquer outra razão que entenda válida. Bem entendido, pode não fazer nada disso.

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A divisão por capítulos, livros, partes, reforça a intenção que engloba o todo, eventualmente o propósito, o tema, o estilo e/ou o enredo, estruturando-os de modo a obter um efeito.

Ou, para respeitar o óbvio conforme Aristóteles: ‘ O todo é o que tem principio, meio e fim. Um início é aquilo que não é necessariamente depois de outra coisa e tem naturalmente algo a seguir; um fim é aquilo que é naturalmente depois de alguma coisa, como consequência necessária ou habitual, e sem mais nada a seguir; e o meio é aquilo que está naturalmente a seguir a qualquer coisa e tem também outra a seguir.’ (in Arte Poética)

"Mas não nos tinha ensinado de que o todo é maior do que a soma das partes?"

“Mas não nos tinha ensinado de que ‘o todo é maior do que a soma das partes’?”

Tendo isto em mente, o escrevinhador tanto pode começar a meio da estória, como pelo próprio fim: em Todo-o-mundo, Philip Roth apresenta-nos uma narrativa biográfica que começa pelo funeral da principal personagem e termina com ela a morrer.

Entre outros méritos, a meu ver, está o trabalho do escrevinhador ao regular a tensão ao longo do texto: aqui mais tenso, ali menos, muito mais lá para a frente, muito menos a seguir, e assim por diante. Sobre a ‘tensão’ já me expliquei aqui.

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Conforme o leitor habitual deste blog já terá reparado, para cada regra existem exemplos que revelam a arbitrariedade das regras: vale tudo.

A ausência das divisões, a dinâmica aparentemente circular da narrativa que parece não evoluir , assim abafando a tensão, também funcionam muito bem: Mazurca para dois mortos, de  Camilo José Cela, é um expoente dessa técnica. Porém, exige maior disponibilidade do leitor…

 

Elogio à prolixidade

Há quem escreva com tanta atenção ao detalhe que perde o fio da narrativa, secundarizando-a; talvez porque o instante seja decisivo, talvez porque o enredo tenha mais a ver com o sentimento, a emoção, a percepção, do que com a ilusão do tempo progredindo de acontecimento para acontecimento.

Ao Pepe lhe agrada muito dizer frases lapidárias nos momentos de mau humor. Depois vai-se distraindo pouco a pouco e acaba por esquecer tudo.

Duas crianças de quatro ou cinco anos jogam aborrecidamente, sem nenhum entusiasmo, aos comboios entre as mesas. (…)

Pepe observa-os e diz-lhes: —Ainda ides cair…

Pepe fala o castelhano, ainda que leve já quase meio século em Castela, traduzindo directamente do galego. (1)

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Também há quem desenvolva tantos relatos paralelos ao enredo que o submerge; talvez por força do efeito caleidoscópico das diversas dimensões de uma vida, de uma sociedade, de um tempo, recusando comprimi-las, ou anulá-las, numa perspectiva reducionista.

Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado. Viste que eu pedi (capítulo CX) a um professor de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Matacavalos. Em si, a matéria é chocha, e não vale a pena de um capítulo, quanto mais dois; mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, senão agradáveis. Expliquemos o explicado. (2)

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Quem, ainda, utilize muitos e variadíssimos vocábulos (insólitos até) com suas derivações e efeitos bombásticos, em longas e coloridas formulações frásicas a ponto dos aspectos formais da escrita ganharem preponderância sobre os conteúdos; talvez por assim exprimir as características da oralidade, ou para caracterizar cada personagem nas suas relações e desenvolvimentos.

Com o vezo e a experiência e porque ladrãozinho de agulheta sobe sempre a barjuleta, o João Bispo deitou o pé mais longe. A vizinhança começou a queixar-se de sumiços sobre sumiços, ovos que desapareciam do ninho ainda a pita poedeira a repenicar, queijos frescos da francela e até broa dos açafates. Foi cão, foi gato, foi doninha, e o João Bispo com o odre à ufa. (3)

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-Dêem as boas vindas ao Bert Phelps. Ele será o responsável pela segurança de toda a divisão de produtos de capoeira.

E tudo isso pode resultar bem, pois o propósito literário tanto pode ser o de contar mais uma estória, como o de contar de certa maneira.

Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionadas, o que se pretende é tão-só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios de vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria. (4)

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O fluxo do texto ininterrupto, encadeando personagens, acontecimentos, reflexões, ambientes, torna-se hipnótico, sedutor, e tanto mais sensual  quando bem escrito e levando o leitor a saborear a sonoridade das frases, a experimentar o dobrar da língua ao enrolar a sílaba.

E dissessem o que bem lhes aprouvesse, ele era que não ia se incomodar, como não se incomodou com o olhar de Lindaura de Jacinto, quando entrou na quitanda do marido dela e pediu uma botija—uma botija, não, um botijão— de cachaça, suor de alambique mesmo, coisa de fazer o bafo do bebedor pegar fogo na hora de acender o charuto, coisa de macho mesmo. (5)

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Repetindo a conclusão do post anterior, apesar de me referir a coisa completamente diversa, não é à toa que se associam as noções de conciso, insípido (pobre), desapaixonado: as palavras não são gratuitas, nem a escrita é um mero registo.

(1) in La Colmena de Camilo José Cela

(2) in Dom Casmurro de Machado de Assis ed.Europa-América

(3) in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro ed.Bertrand

(4) in O Evangelho segundo Jesus Cristo de José Saramago ed.Caminho

(5) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro ed.Dom Quixote

Música e polifonia na construção do texto

Mazurca para dois mortos, de Camilo José Cela, assenta sobre um texto “oral” dum narrador obscuro, “perdido” entre vozes que vêm a propósito de algo que o narrador acaba de dizer. (ver nota 1)

As “vozes” acrescentam peças ao mosaico (ou ao tema musical, provavelmente) que o leitor terá de montar para concluir o livro. Deste modo, o leitor demorará algum tempo a perceber se há enredo, e havendo, qual seja.

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A forte componente poética do texto associa-se à verbalização incontinente de tantas vozes distintas, todas marcadas fortemente pela língua galaico-portuguesa e pelo imaginário rural do noroeste peninsular, carregando consigo pequenos episódios da vida de pessoas que se vão revelando por fragmentos de suas vidas.

Num registo (aparentemente) circular, formam um texto da maior beleza e harmonia, riquíssimo, fiel ao registo histórico duma época, e simultaneamente intemporal. (ver nota 2)

Por tudo isto, o livro exige do leitor a entrega e a participação na composição, como se fosse mais um dos dançarinos desta mazurca. N’ O Malhadinhas, o narrador desenvolve uma história linear, ainda que volta-e-meia pontuada por reflexões ou à partes; no Grande Sertão: Veredas, o narrador anda perdido nas suas reflexões e memórias, mas o enredo progride até à inevitável conclusão.

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Na Mazurca para dois mortos, o processo é menos evidente dada a polifonia das vozes que se “intrometem” no discurso do narrador, o qual, além de discreto também é vago, dando a ilusão de acumular repetições, quando, na verdade, acrescenta mais um ponto ao conto. (ver nota 3)

Porém, o enredo torna-se claro, dando sentido ao título e a conclusão (previsível a partir de certo ponto) é completada por um “anexo” totalmente alheio aos recursos estilísticos do resto do livro. Anexo, aliás, que é um texto com a  rigorosa formatação técnica do seu género, e por isso surpreende.

Deste modo aparentemente simples e desordenado,  uma estrutura complexa e de grande risco para o autor se vai revelando e permite aceder ao mais íntimo das memórias do narrador, trazendo à vida as pessoas “daquele tempo”, abrindo-se-nos as portas para um mundo que também é o da Língua Portuguesa e o do Norte de Portugal. E inúmeros temas se abrem à curiosidade do leitor, outros tantos caminhos para novas leituras. 

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A materialidade da língua oral

Há autores que escrevem fazendo um uso torrencial da linguagem oral marcada por regionalismos (Malhadinhas de Aquilino Ribeiro), por regionalismos e/ou pelo modo peculiar de raciocinar do personagem-narrador (Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa), por tudo isso e ainda pelo modo (aparentemente) circular, como desenvolve o enredo tipo roda dum moinho que gira, gira (Mazurca para dois mortos de Camilo José Cela).

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O impacto para o leitor desprevenido pode ser negativo, tendo de se esforçar por entender a linguagem e, nos dois últimos exemplos, para perceber o enredo que “nunca mais começa” (não é verdade, mas simplifiquemos). Se desistir ao começo, não espanta. Mas quem prossegue eleva-se a um nível superior de sensibilidade e de entendimento.

Qualquer um dos autores é digno dum Nobel da Literatura (C.J.Cela foi o único dos três a ganhar, os outros nasceram muito cedo…). E estes três títulos são do melhor que fizeram, na minha opinião. Perfeitamente estruturada a narrativa, ela não é acessível sem que o leitor se deixe afundar no caudal da língua, fortemente oral e tantas vezes de difícil entendimento.