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Escrever como quem fala

Há quem domine incipientemente a comunicação escrita e escreva como fala, assim como há quem a domine e construa diálogos como se fossem lidos: em ambos os casos o resultado será desastroso… salvo se for genial!

—Que me diz, abade? Lá que ela vinha a casar sabia eu, porque o Aguiar me disse que o irmão lhe dava um grande dote, quarenta contos. Casava com quem quisesse.

—Pois casou com o José Macário, casaram ontem, ali em Santo Ildefonso, às seis horas da manhã e partiram no vapor esta manhã para Lisboa, os canalhões.

Viegas gargalhava, e dizia: Oh! que pulhas! que pulhas! que pandilhas! que malandros!

—Deixe-me contar-lhe, Viegas: ouça que isto tem graça… Dê cá o lume —e acendia o cigarro, impando as bochechas com muito fumo, (…). (1)

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HOMEM: Não consigo pensar em nada de interessante para dizer. Sou tão aborrecido! Ela deve detestar-me. MULHER: Um homem que dá atenção ao que digo! Acho que me estou a apaixonar!

 

A escrita está sujeita a uma codificação que a oralidade finta alegremente, pelo que se esta for colorida de erros e desacertos pode ser cómica, castiça, eficaz e certeira.

Ora, ora —falou.— O cem anos é meu, quem vai morrer é eu, quer dizer que só quem pode achar a graça é eu, que eu é que sei, ninguém mais aqui sabe. (…). Depois que eu morrer, tem que chorar um pouco, o certo é esse, porém eu posso rir. (2)

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A conversação está exposta a erros gramaticais mais ou menos evidentes, a redundâncias e omissões, a desvios temáticos abruptos, a ‘diálogos de surdos’ e milhentas outras deficiências que são —não tão paradoxalmente assim— os cimentos da comunicação humana.

O agente: Que frases obscenas?

A lamentosa treme a cabecinha, tem buço na venta e olhinhos recatados. Palavrões, diz em voz sumida.

O agente: Tais como?

Curta para aqui, curta para ali, responde a galinheira ainda em mais sumido.

E o agente: Curta? Diga puta, senhora. Os autos querem-se precisos. (3)

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O mito da Torre de Babel acentua o lado caótico da comunicação entre falantes que utilizam línguas tão distintas entre si que não se conseguem fazer entender, mas dentro de cada universo linguístico existem enormes variações ao nível da linguagem, do conhecimento dos vocábulos, dos múltiplos sentidos das mesmas palavras ou expressões , das referências partilhadas. Isto é da maior importância quando os diálogos escritos se situam numa época, numa área geográfica, entre personagens, perfeitamente definidas.

—São as piores, ti Rita. Tola não foi ela… (…)

—Aquilo fazia-se esquerda à espera de pássaro graúdo. (4)

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Desfrute deste cartoon culturalmente, etnicamente, religiosamente e politicamente correcto de modo responsável. Obrigado

 

Daí o escrevinhador dever ter isto em mente quando constrói textos de expressão oral, sejam monólogos ou diálogos. Não o fazendo, o texto pode resultar insuportavelmente artificial, desligado de toda a experiência de conversação.

—E não é de boa maneira de um homem saudar outro —perguntei eu— dizer-lhe que Deus o guarde?  

—Tem muito cuidado com a língua! —respondeu ele.— Aos homens da classe baixa diz-se isso; mas aos de mais alto nível, como eu, não se pode saudar de outra forma senão com um “Beijo as mãos de vossa mercê”, ou, pelo menos, “Senhor, beijo-vos as mãos”, se quem me falar for delicado. (5)

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Mas que não ocorra ao escrevinhador transcrever a oralidade num registo escrito com a fidelidade dum estenógrafo: a criação literária é mais do que a arte de um papagaio alfabetizado.

Rita canta sua canção de oferta, que é o seu canto de trabalho:

“Que fazes aí, menina?/ Eu faço tudo, senhor…”

Era uma rua longa, comprida de não acabar. (6)

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(1) in José Macário de Camilo Castelo Branco, ed. Lello & Irmão

(2) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro, ed. Dom Quixote

(3) in Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires, ed.Público

(4) in Gaibéus de Alves Redol ed. fac-simile A Bela e o Monstro

(5) in Lazarilho de Tormes Anónimo, trad. Ricardo Alberty, ed.Verbo

(6) in São Jorge dos Ilhéus de Jorge Amado, ed.Europa-América

 

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Fazer-se entender ou impressionar?

Que o escrevinhador pressuponha o seu leitor é uma atitude perfeitamente louvável, pois a escrita é um modo de comunicar, além de eventuais motivações terapêuticas, necessidades catárticas ou simples vontade de contar coisas.

Ponho estes seis versos na minha garrafa atirada ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia quase deserta/ e um menino a encontre e destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (1)

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Precisamente, a conciliação entre o que se pretende dizer,e o que é dito e entendido—de facto— é o problema crucial da comunicação em geral.

Para conheceres as melhores mentiras (…)/ de um homem/ terás que te sentar longamente ao pé dele./ Ninguém mente aos gritos, de longe. (2)

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Literariamente, as possibilidades permitidas pela forma (como se diz) desloca esta perspectiva para o efeito estético (a impressão que não a compreensão, digamos assim). Por vezes, o escrevinhador sacrifica deliberadamente o sentido para atingir um efeito, noutras é o contrário, e há toda uma gama infindável de tentativas para conseguir o equilíbrio possível.

Agora começa o Manifesto:/ Arre!/ Arre!/ Oiçam bem:/ ARRRRRE! (3) 

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Talvez não haja modo mais difícil de obter esse compromisso entre conteúdo e forma do que na fórmula humorística: desde a subtil (imperceptível, dirão uns) ironia ao portentoso (obsceno, dirão muitos) sarcasmo, o entendimento do leitor peca geralmente pela incapacidade oftalmológica para distinguir toda uma gama de tonalidades ou pela acuidade visual para só ver aquilo que o incomoda. Todavia, quantos escrevinhadores não caem na vulgaridade gratuita (porque sem sentido, nem elegância)?

Teu avô, santanário venerando/ Soube mais orações que mil beatas,/ Com reza impertinente os Céus zangando; / Teu pai foi um trovão de pataratas;/ Teu tio, o bacharel, morreu, falando;/ Tu falando, Riseu, não morres, matas. (4)

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Que critério pode ter o escrevinhador para contentar a todos, ou seja, para não ser vulgar e conseguir se fazer entender, obtendo o efeito pretendido? Se procurar nas estrelas, talvez venha a encontrar uma regra de ouro. Entretanto, o recurso a uma mediana inteligência nos conteúdos escritos e a um estilo que o satisfaça (mais do que satisfazer terceiros), é um modo de começar a praticar por conta e risco.

Cavossonante escudo nosso/ palavra: panaceia/ ornado de consolos e compensas/ enquanto a seta-fado/ nos envenena ambos tendões/ rachados. (5)

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COISAS A EVITAR DIZER: b. a um homem-bomba -Então, tá tudo a bombar?

Na composição das personagens, por exemplo, o escrevinhador pode começar por evitar uma identificação demasiado evidente com aquelas que lhe são simpáticas e a estigmatização das que lhe são odiosas. Na poesia, poderá explorar outras vozes, outras sensibilidades e entendimento.

O que é o vento sem sombra, senão um nada/ a si mesmo abraçado/ (…) / Mas é verdade que o vento me desfez a casa/ como o sopro do lobo (6)

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O que há de bom na literatura é a liberdade do escrevinhador experimentar sem fazer mal a ninguém, nem ao mundo. O que não o isenta de sofrer consequências, as quais podem ser fatais…

Tentei falar/ Talvez, ignoro a língua./ Todas as frases trocadas./ A resposta: apedrejado. (7)

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(1) ‘Botella al mar’ de Mario Benedetti

(2) in Uma viagem à Índia CantoVI, de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(3) ’21’ in Poesia, de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(4) ‘A um falador insofrível’ de Manuel Maria Barbosa du Bocage

(5) ‘Cavossonante escudo nosso’ de Mário Faustino

(6) ‘Qué es el viento sin sombra’ de Leopoldo María Panero

(7) ‘Sassate’ de Giorgio Caproni

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

Escrever como terapia…???

Consultado como uma espécie de autoridade xamânica a propósito das virtudes terapêuticas da escrita —além de ser, também, auscultado regularmente sobre quais leituras recomendaria com objectivos terapêuticos e cívicos, morais(!), etc e tal—, constato como a internet, por mais que se avise (e surgem avisos a todo o tempo!), é o lugar ideal para se ter encontros perigosos. Escudado numa espécie de anonimato, o autor deste blogue não merece dos seus leitores mais do que a leitura e apreciação crítica assente nos conteúdos práticos aqui tratados, e tudo o mais resulta duma projecção ou ilusão do leitor que anda à procura de algo. Algo que, garantidamente, aqui não há.

Escrevendo listas como terapia

“Coisas que me aborrecem.”  Escrevendo listas como terapia

Claro que ler e escrever, como qualquer actividade humana socialmente aceite, têm uma componente terapêutica. E como não haveriam de ter?! Porém, a perspectiva que aqui se procura desenvolver é predominantemente literária. O que, para quem esteja menos familiarizado com o conceito, pode parecer algo de muito válido e construtivo. E é. Assim como todo o seu contrário.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre!

Basta considerar a quantidade de livros colocados no Index e outras listas censórias, destruídos em praça pública juntamente com os seus autores e leitores, ou nas vidas miseráveis, alcoólatras, suicidas, de tanto escrevinhador, para perceber que a escrita como terapia não é um conceito evidente.

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Na verdade, em tempos que já lá vão, quando a Literatura era genuinamente apreciada, temida ou vilipendiada, o exercício da escrita (e o da leitura) estava desaconselhado para as classes menos favorecidas,  visto como nada adequado à condição feminina e, em geral, as leis e os costumes condicionavam fortemente os temas e as formas.

'Niña leyendo' (1850) de Franz Eybl.

Provavelmente, a partir do momento em que se tornou mercadoria, a escrita, enquanto livro, ganhou em popularidade com a consequente desvalorização, servindo de veículo para qualquer necessidade de comunicação mais ou menos propagandista ou, meramente, para satisfação lúdica ligeira. Da literatura, quantas vezes, fica-se pela pretensão.

-Os livros de História trazem muitos contos.

-Lê livros de História, trazem muitos contos.

Daí à confusão entre o potencial terapêutico da escrita (Freud recomendava anotar os sonhos) e a criação literária vai um passo, correndo-se o tremendo risco de cair na banalidade das expressões emocionais e sentimentais. E o escrevinhador sente-se aliviado? É possível, pois terá exorcizado seus fantasmas e demónios.

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Porém, ao longo dos tópicos desenvolvidos neste blogue há mais de 2 anos, tem-se privilegiado uma perspectiva distinta, eventualmente oposta: a de que a escrita, como forma de expressão literária, resulta melhor se feita com paixão, em desequilíbrio, procurando seduzir a bela Musa e atrair o leitor para o labirinto peculiar do escrevinhador. Para quem tenha alguma bagagem literária, pode já prever os abismos e monstros que se ocultam nos labirintos…

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Para conseguir tudo isto há que cultivar o salutar grãozinho de loucura. Ora, não poucos venderam a alma ao tabaco, ao álcool ou à cocaína para atingirem estes objectivos. E destes, alguns conseguiram-no, mesmo assim.

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Neste blogue entende-se que ler muito e bem, viver a vida plenamente e criar rotinas, alternando-as com rupturas, além de estar aberto para o mundo (e para o que aí se passa), é todo um processo de motivação que, em caso de não resultar em qualquer obra-prima, tem, pelo menos, a vantagem de fazer do escrevinhador ‘falhado’ melhor pessoa e pessoa mais interessante.

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A ser terapia, a escrita será assim pretexto para se viver uma vida estimulante. Mas nada está garantido, e nem é esse o objectivo da criação literária. Ou, já agora, deste blogue.

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Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

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O uso da palavra

Para o escrevinhador, a importância da palavra deve ser bem medida, e não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo de troca. É verdade que a palavra tem a história da sua formação e genealogia, assim como a do seu uso e evolução no tempo e no espaço, que é aquilo que, à falta de melhor, chamo de valor intrínseco. Mas o escrevinhador não tem de ser erudito, nem tem de supor a erudição dos leitores. O que tem, creio eu, é de conhecer o valor dado aqui e agora à palavra e que é o que chamo o seu valor de troca.

(…) a troca, por sua vez, cria valor. E isso de duas maneiras. Primeiramente torna úteis coisas que sem ela seriam de utilidade fraca ou talvez nula: que pode valer um diamante para os homens que têm fome ou necessidade de se vestir? Basta, porém, que exista no mundo uma mulher a quem se deseja agradar e um comércio suscetível de trazê-la às suas mãos, para que a pedra  se torne “riqueza indireta para seu proprietário que dela não precisa (…) daí a importância do luxo, daí o fato de haver diferença do ponto de vista das riquezas, entre necessidade, comodidade e prazer. Por outro lado, a troca faz nascer um novo tipo de valor, que é “apreciativo”: organiza entre as utilidades uma relação recíproca, que duplica a relação com a simples necessidade. (1)

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Este valor de troca é o dado no momento. Recordo, quando tinha cinco, seis anos, meu Avô ralhar-me por chamar ‘chato’ a alguém ou alguma coisa, o que me deixou bastante perplexo porque sua filha, minha Mãe, não só tolerava o uso desta palavra como a usava sem reservas. Muito mais tarde, nos primeiros anos da adolescência, percebi que as razões da aversão do meu Avô—inequivocamente na base do sentido depreciativo dado à palavra—já não eram percebidas quando usadas entre pessoas das gerações seguintes. Ou, se eram, só mesmo por adolescentes, ainda fascinados com a polissemia e subentendidos que as palavras banais podem ter. Na verdade, todos sabemos que um chato incomoda, mas dificilmente encontramos alguém que nos irrite tanto que dê coceira.

O ‘diz-me com quem andas que eu te direi quem és’ não quer dizer nada. Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas. (2)

-OH NÃO... ELES NÃO...

-Oh não… Eles não…

O ‘sentido comum’ dado aqui e agora é aquele que, com quase toda a probabilidade, o leitor dará à palavra. Não levar isso em linha de conta gera problemas de comunicação, prejudicando a leitura e provocando críticas como a de texto confuso, difícil ou pedante. Ou tudo isso à vez. O que não impede que o escrevinhador possa explorar o tal valor intrínseco (bem pelo contrário, como adiante tentarei explicar), não por pretensões eruditas (pelo menos, no caso da escrita poética ou de ficção), mas por outras: a de levar a interpretação do texto para diferentes níveis de entendimento, seja pela polissemia, seja pela ambiguidade, ou, até mesmo, pela sonoridade. Importante é que seja disso ciente, para não falhar o efeito pretendido.

(…) o romance popular não inventa situações narrativas originais, mas combina um reportório de situações ‘tópicas’ conhecidas, amadas pelo próprio público (…).  (…) a catarse, por razões comerciais, deve ser optimista. (3)

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O uso de ‘palavras caras’ tanto pode servir para mascarar o vazio do discurso (senão mesmo a sua falsidade), como ser sintoma da dificuldade do escrevinhador em lidar com o tema. A comunicação na era de massificação, em que o número de receptores (leitores, ouvintes, espectadores) contam-se pelos milhões (e muitos milhões), tem demonstrado como o uso deliberado da linguagem ‘técnica’, ‘erudita’, ou outras variantes de um jargão acessível a ‘especialistas’, pode iludir e manipular, assim como o seu uso irreflectido ou mal calculado pode se virar contra o comunicador.

Uma descrição que parece neutra mostra o que tem de tendencioso quando se lhe pode opor uma descrição diferente (…). (4)

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-O que é mais obsceno: a violência ou os mamilos?
‘LIBERDADE PARA OS MAMILOS’ (desenho de María Acha-Kutsher)

Na vida académica e na área das ciências tem havido alguma literatura dedicada a desmontar discursos, expondo a sua vacuidade por detrás de formulações verdadeiramente incompreensíveis. Que não são outra coisa senão variantes do famoso conto do ‘rei vai nu’.

O fazedor de dinheiro não é a personalidade mais palatável, mas é muito preferível ao pretenso intelectual. (5)

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“Sim, o planeta foi destruído. Mas durante um maravilhoso período de tempo criamos uma quantidade de valor para os accionistas.”

Daí que, numa época em que ‘o livro’ se está tornando um objecto incómodo, em que a comunicação escrita sofre amputações e próteses aberrantes, em que o próprio discurso oral é ameaçado pela vacuidade dos formatos convencionados para debate e exposição de ideias, seja importante que o escrevinhador consiga fascinar o leitor ajudando-o a descobrir o valor intrínseco da palavra. Na verdade, ao fazê-lo, limita-se a prolongar uma longa tradição anterior à própria escrita, mas fá-lo num tempo em que essa tradição está ameaçada pela própria parafernália técnica que era suposto contribuir para uma dinâmica cultural incomparavelmente mais rica do que a de todas as épocas anteriores.

A habilidade do artista em sair da frente do choque violento da nova tecnologia de qualquer época e evitar tamanha violência com absoluta consciência, vem de há muito tempo. (6)

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Para os não-Iniciados, a palavra escrita ou oral pode ter um valor misterioso pelo grafismo e sonoridade, dando realce à simbologia ou à magia. Mas para os Iniciados como nós, meros leitores e escrevinhadores, sabemos bem como esse valor é uma moeda sujeita a flutuações e o mistério reside, exclusivamente, nos favores da bela Musa. Nesse aspecto, creio que nada de significativo tem mudado nos últimos quatro mil anos.

(…) sob a sua forma mais alta, a invenção literária ensina-nos a enriquecer, a complexificar, de um ponto de vista heurístico, os confins da habitação comum que não nos damos ao trabalho de reconhecer. Abre janelas através das quais nos convida a ver um terreno novo, novas fontes de luz. Narra histórias através das quais ouvimos a voz da nossa identidade privada e comum. (7)

Ilustração de Fernando Vicente

Ilustração de Fernando Vicente

Há palavras que caíram em completo desuso, tal como o discurso que as suporta, e há outras que evoluíram, alterando significados conforme a geografia e a comunidade de falantes. A usura do Tempo e as transações culturais têm esse efeito natural e inevitável. A diferença da época actual em relação às anteriores (há 40 como há 400 anos), é que o processo tem sido muitíssimo mais rápido, associado à fragmentação da comunidade de falantes no interior das próprias gerações e no mesmo espaço social. Isto tudo, e muito mais (que não cabe a este humilde escrevinhador desenvolver aqui), dificulta obviamente a comunicação, mais ainda se for comunicação escrita com pretensões literárias.

A intensidade da agitação em torno da ortografia é apenas um índice da novidade que representava a palavra impressa, e dos seus efeitos centralizantes quanto à conformidade. (…) É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada (…) a diferença entre a ordem oral e a visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correcto. (8)

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

Por isso, insisto: é importante o escrevinhador preocupar-se em ‘chegar’ a todos esses potenciais leitores desconhecidos de modo a fazer-se entender e, principalmente, a seduzi-los com palavras (e, neste ponto do post, o leitor já poderá perceber que ‘palavra’, aqui, também se entende por ‘tecido de palavras’ ou ‘texto’), levando-os a procurar mais além da superfície, imediatez, uso comum… para lá do valor de troca, portanto. E quando o leitor começa a saber distinguir as pérolas da simples fancaria, é porque já reconhece o valor intrínseco das coisas. Como as palavras.

As palavras com que tens convivido/ durante tanto tempo, continuam/ servindo-te para algo? Poderás valer-te delas/ quando os antídotos/ contra a tua própria decepção/ já se esgotaram? (9)

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(1)in As Palavras e as Coisas de Michel Foucault, trad.Salma T.Muchail ed.Martins Fontes

(2) in Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr de Millôr Fernandes, ed.Nórdica

(3) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed. Tascabili Bompiani

(4) in O Império Retórico de Chaïm Perelman, trad.Fernando Trindade e Rui A.Grácio, ed.ASA

(5) in Closing of the American Mind de Allan Bloom, ed. Simon and Schuster Paperbacks

(6) in Understanding Media de Marshall McLuhan, ed.A Mentor Book

(7) in Gramáticas da Criação de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(8) in A Galáxia de Gutemberg de Marshall McLuhan, trad.Leónidas G.Carvalho e Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional

(9) in Bordes del Silencio La noche no tiene paredes de J.M. Caballero Bonald, Obras Completas ed.Austral

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

Aventuras da vida real:profissões que ninguém

Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

O Tempo e o Modo*

O leitor pode saltitar alegremente de livro em livro com a despreocupação das borboletas…? Talvez não: Sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema (José Pacheco Pereira, em artigo no jornal Público em 15-11-2014).

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Imagine-se, então, o escrevinhador ansioso por criar (ou alimentar) uma comunidade de leitores das suas obras: se eu pudesse escrever tudo…, mas não pode, claro. A boa notícia é que tem interesse e assunto a que se dedicar.

Se mantiver a preocupação em motivar leitores, potenciais leitores, e atrair ‘públicos’ diversificados, possivelmente colocar-se-à na sua cabecinha pensadora uma dúvida: devo situar o enredo na época actual, ou numa época futura ou passada?

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É uma preocupação legítima, visto o sucesso literário, cinematográfico ou televisivo, de narrativas ajustadas a épocas bem definidas. De modo não menos evidente, e qualquer que seja a opção, decorrem implicações formais, lógicas, factuais ou outras. Assim como os inerentes riscos. Sobre isso falarei mais detalhadamente num futuro post.

Outra dúvida que lhe poderá ocorrer, ao escrevinhador ansioso em agradar, é o do nível de linguagem a usar para fazer-se entender pela tal comunidade de leitores, virtual, existente ou a expandir. Bem vistas as coisas, essa deveria ser uma preocupação geral, já que o hermetismo em literatura é, propriamente, um género dirigido para aficionados e afins. Coisa que também deixarei para futuro post.

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Ambas as dúvidas assentam num denominador comum: o escrevinhador. Escreva sobre o que escrever, o modo como o faz é mais importante do que o tema e os conteúdos. Prioridade aos aspectos formais, então? De modo algum, isso seria negar o beijo à bela musa e trancar a louca da casa no sótão (ou na cave).

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Se, na literatura, vale tudo (e, na minha opinião, sim! vale mesmo tudo), é precisamente pelo grãozinho de loucura que desarruma ideias feitas e pela paixão que desperta artes de sedução. Sobre isso, creio já ter-me explicado em posts passados.

* título duma bem conhecida revista ‘de pensamento e acção’ dos anos 60 do século passado, em Portugal, e que exprimia em editorial o desejo de ‘tentar formular algumas perguntas e experimentar algumas respostas, que polarizassem a ansiedade geral que paira sobre o tempo comum.’

Escrever para crianças (dois pontos ou três…):

Será preciso lembrar que ‘crianças’ é uma generalização inútil (em literatura, pelo menos), e que escrever para leitores de 8-10 anos não é o mesmo que escrever para analfabetos de 3-5 anos?

A linguagem utilizada, naturalmente, deve ter em conta as limitações impostas pela idade, tal como certos efeitos estilísticos podem atrapalhar, por não serem entendidos.

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Mas a grande diferença, à partida, está em que a escrita para ser lida em voz alta deve valorizar as características da oralidade e, não menos importante, construir um texto que facilite a rememoração. Isso pode ser conseguido utilizando fórmulas assumidamente estereotipadas, como sejam poemas com rima e métrica, personagens tipificadas, frases feitas.

Neste caso, o escrevinhador pressupõe que o leitor irá dramatizar a leitura para uma audiência de (pelo menos) um ouvinte a várias dezenas (ou mais), a quem tem de prender a atenção e facilitar o entendimento desde as primeiras linhas até ao fim. E, assim sendo, o texto deve ter as necessárias indicações para quem ‘conta’ poder recorrer à panóplia de recursos que tenha (tons de voz, expressões de rosto, gestos e movimentos, gestão do silêncio, noção do ritmo, e outros).

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Deste modo, os recursos estilísticos podem ser usados com maior liberdade, pois há a mediação de um adulto que os reconhece, podendo ‘exprimi-los’ de forma não-textual, eventualmente sem recurso à própria oralidade: ironias e hipérboles que, lidas por crianças mais velhas são ainda entendidas literalmente (ou de modo algum entendidas), e que, através desta mediação, podem ser entendidas como tais, graças ao recurso a caretas, gestos desmesurados,vozes em falsete. Por exemplo.

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Para crianças com capacidade de leitura, a ausência de um narrador em carne e osso será a situação mais frequente, o que deverá levar o escrevinhador a ter maior cuidado com a ambiguidade na construção do texto e do enredo. O que não quer dizer que a exclua, antes pelo contrário.

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Obviamente, antes de escrever, o escrevinhador poderá aprofundar algumas noções de psicologia infantil, de pedagogia e coisas assim. Mas, importante mesmo, é manter o contacto com a criança que foi e com crianças, em geral.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

É provável que, desse modo, reveja certas ideias feitas sobre o entendimento, a inocência, os interesses, as dificuldades e problemas, assim como os sonhos e anseios, de uma idade que lhe está, a cada dia, mais distante.

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Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

Ainda (e sempre) a sedução…

O grande desafio que a escrita coloca à expressão das emoções é o da combinação dos limites da linguagem (facial, gestual, oral) com os limites (ainda mais apertados) da Língua, para depois serem ainda mais limitados pela própria escrita. (ler mais neste outro post)

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Nada que o comum dos mortais, desde pequenino, não tenha experimentado à sua própria custa e que se resume numa frase igualmente comum: ‘não sei como dizer isto, mas…’.

Pergunto-me se o músico ou o pintor sofrerão de idêntico problema: a paleta de cores ou as pautas também pecam por defeito na altura de exprimir emoções?

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Curiosamente, a dança (em sentido geral) não me parece sofrer qualquer limitação e ser o veículo por excelência da expressão das emoções.

E o teatro, claro, pela sua capacidade de integrar todas as outras artes.

Mas a escrita? A escrita impõe os limites acima referidos e só pelo engenho poético consegue iludi-los, que não é o mesmo que superá-los. (a este respeito, ler mais aqui)

Dito isto, é com facilidade que a emoção (ou o sentimento) tanto pode sofrer graves amputações na expressão literária, como, pelo contrário, abafá-la. (ler este post, para melhor entender)

A Ameaça, de René Margritte

A Ameaça, de René Margritte

Daí não ser por piada que insisto tanto na sedução da bela Musa: dela vem a inspiração, do escrevinhador sai a emoção-sentimento, e entre ambos resulta a composição.

 

Sobre o escrevinhador negligente

Se listar quais são, na minha opinião (que se baseia na estreita faixa da realidade que conheço), os defeitos mais comuns do comum dos escrevinhadores, surge um retrato que não me parece muito diferente do de outras épocas.

No topo dessa lista coloco a negligência: fico sempre abismado pelo descaramento como alguém se atreve a escrever (para ser lido e publicado) sem se preparar minimamente.

(…) Se há um plano/Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…)/Não tenciono escrever outro poema/Tenciono só dizer que me aborreço/(…)/Todo o conteúdo de mim é porco/E de uma chatíssima miséria/(…)/Para que escrevo? É uma pura perda. (1)

A preparação pode ter fases distintas, sendo a primeira a bagagem para esta aventura, ou seja, leituras variadas, de qualidade (tanto o texto, como a leitura).

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A seguir, talvez fosse de privilegiar a combinação da atenção com a reflexão: se o escrevinhador estiver ‘ligado’ a uma qualquer (ou mais do que uma) dimensão do real, e sobre isso desenvolver algum tipo de reflexão, naturalmente irá construir uma perspectiva sobre essa mesma realidade.

Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!/A chegada pela manhã a cais ou gares/Cheios de um silêncio repousado e claro!/Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega…/E o som especial que o correr das horas tem nas viagens… (2)

Depois, o exercício metódico da escrita irá apurando algo das fases anteriores, permitindo ao escrevinhador explorar, perceber os seus próprios limites e horizontes, corrigir trajectórias e cumprir metas.

O que resulta daqui é um dos milagres da actividade dos escrevinhadores: a de escreverem bem sobre temáticas interessantes, sem terem que ter qualquer experiência pessoal ou formação específica (para usar a terminologia horrorosa corrente).

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No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores/Mas no meu verso, por mais que o ice, há só ritmos e ideias,/Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,/Não há a realidade da pedra mais nula da rua,

Provavelmente, haverá sempre excepções ‘à regra’ que possam contradizer o que acabei de expor, mas creio que o comum dos mortais terá melhor qualidade de vida—vida de escrevinhador, claro!—se respeitar, de algum modo, esta preparação: ler (bem e variado), observar (com perspicácia, sensibilidade, intuição…), conhecer (reflexão, meditação, transe ou outros estados alterados da mente, ou simplesmente racionalizar), comunicar (escrevendo, mas não só).

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Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma/Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias./A minha época é o carimbo que levam todas as facturas,/E sinto que todas as cartas de todos os escritórios/Deviam ser endereçadas a mim. (4)

Posso não me ter feito entender ao usar, mais acima, a expressão ‘abismado pelo descaramento’: não pretendo ser pedante, polícia dos costumes ou coisa parecida, mas tenho lido ‘coisas’ (algumas publicadas) que revelam uma preparação diametralmente oposta àquela que sugiro, no todo ou em parte.

O resultado poético, narrativo, até mesmo documental ou técnico (estou a pensar em teses de mestrado e estudos sobre qualquer coisa, sim), reforça esta convicção.

E eu era parte de toda a gente que partia,/A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava/Da janela afastando-se de comboio…/(…)/E o comboio avança—eu fico… (5)

Deprime-me, confesso, que esta negligência surja  tanto entre pessoas com vinte, trinta anos, como com cinquenta ou mais anos, com cursos superiores ou exercendo profissões onde a escrita (e a leitura) não são ‘competências’ irrelevantes. Frequentemente, até dá para perceber que a ideia era boa, mas irremediavelmente comprometida por deficiências corrigíveis. E não negligenciáveis, também.

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E as suas consequências, não coisas contadas em livros,/Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,/E o sol também real sobre a terra também real/Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo! (6)

(1) in Carnaval, de Álvaro de Campos; todas as citações são deste autor retiradas da ‘Poesia de Álvaro de Campos‘, colecção dirigida pelo grande Vasco Graça Moura, ed. Planeta DeAgostini

(2) in poema 15

(3) in Saudação a Walt Whitman

(4) in Ode Marítima

(5) in poema 37

(6) in Ode Marcial

 

 

Escrever como terapia

O sentido dado aqui a ‘terapia’ é muito amplo, e desde há muito que as artes em geral são entendidas, também, como um modo do sofredor (de amores, de melancolia, de obsessões, de desgostos, de doenças físicas ou mentais…) recuperar a saúde até um certo ponto. Ou, de algum modo, a comprazer-se com a dor.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

A escrita literária, principalmente, gerou muitas e boas obras graças a este processo. Mas é incomensurável o número das que são simplesmente insuportáveis.

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O problema não está na necessidade do escrevinhador em ‘trabalhar’ suas emoções e sentimentos, ordenando ideias, exprimindo sensações. Provavelmente, tudo isto é a matéria-prima e o combustível do processo artístico.

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O problema está, creio eu, em deixar o processo ser dominado por essas mesmas emoções, sentimentos, ideias e sensações: o escrevinhador como que se isenta de quaisquer faculdades críticas e estéticas.

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Se se pode escrever bem sem essas faculdades, só o vejo possível para quem tem interiorizado com elevada técnica e apuro o exercício da escrita.

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De outro modo, acontece o previsto: a produção de textos sem valor literário, ainda que ricos em material para análise psicanalítica…e, na esmagadora maioria das vezes, nem isso, vista a sua banalidade confrangedora.

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Conforme já por aqui tenho dito, não se está a pôr em causa a importância da espontaneidade, das emoções-sentimentos-etc-e-tal, e de tudo o mais que exprima o mundo interior de cada qual. Mas a relativizá-los enquanto material para uma escrita com pretensões literárias, a ser partilhada com leitores desconhecidos.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se são importantes, para não dizer fundamentais, numa primeira fase do processo da escrita, têm de ser avaliados rigorosamente numa fase posterior a que chamei ‘pós-produção’ literária.

QUESTIONÁRIO POPULAR! Há mais alguma coisa na vida? SIM/NÃO -Raios.Eu devia saber esta...

QUESTIONÁRIO POPULAR!
Há mais alguma coisa na vida?
SIM/NÃO
-Raios.Eu devia saber esta…

 

* retirado de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro (apresentação crítica, fixação do texto, notas e linhas de leitura de Teresa Amado) Colecção Textos Literários—Editorial Comunicação 1984

 

 

 

 

Escrever como quem corre

Ao narrar acontecimentos ficcionais, o escrevinhador goza de todas as liberdades, inclusive a de violar a Lógica.

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A HEROÍNA QUE-NÃO-É-ÓRFàDO LIVRO DE CRIANÇAS.                                                                                                 Mago:’Sally tem de se juntar à nossa aventura. Só ela pode derrotar a rainha-bruxa de Mordax.                                                                                                                   Mãe de Sally:’Não antes dela comer os brócolos.’

O trabalho literário não está isento de juízos de valor, e apesar de não ter qualquer sentido a expressão gostos não se discutem, que é popular e aceite acriticamente, ninguém vai ao ponto de afirmar que livros não se discutem…bem, à excepção dos livros sagrados, claro.

Ora, o ‘pecado’ de alguns livros é o de criar expectativas (intriga, tensão), despachando-as rapidamente e de modo insatisfatório, penalizando os méritos que a obra eventualmente tenha. A pressa com que o escrevinhador resolve enigmas, dilemas, ambiguidades, e outras ‘zonas obscuras’ do enredo, pode lhe ser fatal.

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Há alguns anos saiu um livro com sucesso comercial e de autor bem conhecido, tendo como enredo a elucidação de um enigma histórico. Li com muito interesse, já que me pareceu uma boa resenha das diferentes teorias para resolver o tal enigma, todas com seus defensores eruditos e documentados.

Mas a intriga que liga o protagonista principal a essa investigação, a caracterização deste, as restantes personagens, a qualidade da escrita, são banais. E a parte que me interessou foi quase sempre despachada por diálogos extensos, didácticos, entre o investigador e especialistas. Ou seja, um tema interessante tratado de modo estereotipado, ‘fácil’.

Contudo, as expectativas que tinha foram satisfeitas, que eram a de perceber os ‘contornos’ do tal enigma, mas confesso que o destino das personagens e o desfecho da intriga não me empolgaram em nenhum momento.

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Publicações Livros Irrelevantes                                                 “Os teus livros vendem-se muito bem nas farmácias…logo a seguir aos comprimidos para dormir.”

Pior será quando o escrevinhador carece do apoio editorial para corrigir as falhas mais evidentes do enredo e do seu desenvolvimento, carecendo ainda de tempo, de resistência e de perspectiva crítica. Uma boa ideia, desenvolvida satisfatoriamente, pode ser comprometida por finais abruptos, às vezes sem sequer ‘despachar’ todas as pendências alimentadas ao longo da estória.

Se o escrevinhador opta pelo estereótipo porque entende que se enquadra numa boa estratégia de comunicação, como no tal livro que li, a coisa até funciona muito bem. Talvez deixe de funcionar ao longo dos anos, ao deixar de beneficiar da tal estratégia de comunicação (que envolve técnicas extra-literárias, essencialmente), e passe à categoria dos monos.

Mas se o escrevinhador não cumpre os ‘mínimos’, ou seja, se deixa o leitor suspenso no vazio, sem pistas, nem respostas ou mistérios profundos, arrisca-se a estragar um enredo promissor sem ter qualquer benefício.

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‘Olha, lamentamos muito. Se soubéssemos que ias te tornar numa escritora, seriamos melhores pais!’ cartaz: Encontro com o autor de ‘A minha vida miserável’

‘Para quê tanta pressa em dar por concluído um livro?’, perguntará legitimamente o leitor frustrado.

A resposta é, geralmente, muito simples: fadiga. O escrevinhador propôs-se correr a maratona e saiu da prova antes da meta.

 

Montagem, harmonia, linha de fuga…

Para ilustrar técnicas, processos estilísticos e outros aspectos da criação literária, é mais fácil recorrer a conceitos de outras formas de expressão artística, como o cinema, a música e a pintura.

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Também, cada vez menos partilharmos o mesmo cânone literário, e pormo-nos a par não se faz em meia-dúzia de dias; assim,como ‘trabalho de casa’ costumo sugerir o visionamento de filmes para comparar o tratamento dado ao mesmo argumento por realizadores diferentes .

Quando digo ‘argumento’ tanto me refiro às diferentes versões cinematográficas do mesmo livro (‘Romeu e Julieta’ de Shakespeare, p.ex.), da mesma estória (a vida de Cristo, p.ex.) ou do mesmo tema (a fuga da prisão, o adultério, a vida de bairro).

Um dos aspectos mais fascinantes e úteis na técnica narrativa, comum à literatura e ao cinema, é a montagem, aquele trabalho pós-gravação das cenas, onde se dá ordem e coerência a centenas de horas de filme, cortando o que não interessa, colando captações distintas da mesma cena, dando sequência duma cena para a outra, com efeitos estilísticos paralelos ao da narrativa escrita.

Sobre cinema e literatura ainda me atrevo a dar palpites e comentários, mas de música devia estar calado e ser absolutamente omisso.

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Combinação entre uma técnica de Banda Desenhada (os ‘balões’) e o Cinema (fotograma retirado do Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica) resultando num  ‘cartoon’ satírico com o característico ‘punch-line’.

 

Porém, como toda a gente aprecio música, sei como a banda sonora de um filme pode ter um efeito sinestético poderoso e  sinto a sonoridade do texto, experimento uma harmonia musical no enredo, por vezes escrevo com um ritmo que é o de ‘qualquer-coisa-musical’ que faz a diferença de outros escritos, ou secções do mesmo livro.

Por absoluta ignorância, sou incapaz de desenvolver teoricamente o paralelismo entre a música e a escrita literária, e temo sempre o meu entusiasmo a este respeito, principalmente quando vou buscar termos técnicos da música para ilustrar algum tópico. Mas fica a dica para o efeito sensorial, estético, que é comum a muitos escrevinhadores, sendo fonte de inspiração para todos eles.

Moisés faz o balanço... -Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia...mas nunca tive um êxito musical.

Moisés faz o balanço…
-Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia…mas nunca tive um êxito musical.

Do mesmo modo, a pintura e a fotografia são igualmente estimulantes, igualmente simbióticas para com a literatura, e frequentemente sugiro que se  ‘olhe’ um poema, um livro, como quem ‘lê’ certos quadros, certas fotos. A perspectiva, a linha-de-fuga, por exemplo, é uma noção particularmente útil.

E aqui tenho de acrescentar a Oitava Arte, a Banda Desenhada, que sintetiza exemplarmente o Cinema, a Pintura, a Literatura, além de desenvolver a sua abordagem estética específica.

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Da dança gostaria de dizer alguma coisa, até porque sou particularmente sensível à parte física da palavra, da ideia, do enredo, coisa que ‘entendo’ muito bem quando assisto a danças de salão ou de ballet contemporâneo. Mas aí falha-me o próprio vocabulário, desgraçadamente.

Em todos os casos, esta contaminação das artes, do mais básico ao mais elaborado dos raciocínios e das teorias, da simples fruição ao exercício apurado, do apreciador ocasional ao diletante, ajudam o escrevinhador a compreender as relações entre a parte e o todo na fase da pós-produção literária, distinguindo o sentimentalismo da paixão, a emoção da criação, assim como a desenvolver sentido crítico.

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Cultivando sempre o grãozinho de loucura, a relação com a bela Musa, obviamente.

 

 

 

Reconstruir os alicerces do texto

Para iniciar a revisão crítica do texto, depois de concluída a fase criativa, é fundamental que o escrevinhador se distancie emocionalmente do processo.

O ideal será passar alguns dias sem lidar com ‘aquele’ texto, já que, ao retomá-lo, irá estar muito mais atento ou sensível aos erros, incongruências, deselegâncias, banalidades e muitos outros defeitos.

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O problema varia consoante o escrevinhador, o momento ou a obra, mas tem sempre a ver com o natural envolvimento emocional focado na intensidade do enredo (ou do processo criativo), insensibilizando a atenção para detalhes técnicos. Às vezes, essa emoção sobrevaloriza aspectos secundários, dando-lhes espaço e destaque injustificado.

Por isso, num momento posterior em que o vinculo emocional é menos forte, graças ao distanciamento criado pela quebra da rotina, pela atenção dada a outros projectos ou aspectos da vida pessoal, o escrevinhador pode proceder à revisão crítica com acuidade.

Ao nível mais básico, possivelmente encontrará erros ortográficos e gramaticais: prejudicam a comunicação com o leitor, podem ser mais ou menos vergonhosos, mais ou  menos comprometedores no que toca ao estilo, à beleza, à fluidez do texto.

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Erros frequentes em escrevinhadores de todos os tipos de formação, actividade profissional e etc e tal (podem até ser ilustríssimos desconhecidos que escrevem em blogs que dão dicas sobre escrita!), devido à tal intensidade emocional em que formulações mentais e formas de oralidade se ‘atropelam’ no texto, onde as regras de comunicação são outras.

Certamente, a fragilidade duma aprendizagem formal da Língua, a falta de hábitos de leitura activa (distinta da passiva porque não se esgota na ‘mensagem’) e de escrita, contribuem muito para esta categoria de erros.

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Para além dos chamados ‘erros de palmatória’ (não faço a menor ideia qual seja a origem desta expressão…), existem outros não menos importantes, por vezes bem escondidos em longas frases confusas. Dos mais arreliantes são aquelas situações em que o leitor fica na dúvida qual seja o sujeito de determinada frase, criando ambiguidades tanto maiores quando, em qualquer das hipóteses, a frase tem sentido.

A terapêutica duma escrita de frases sucintas, logicamente encadeadas, pode ser bom remédio para a maioria das situações, obrigando o escrevinhador a desenvolver o alerta interno sempre que é tentado a esticar, esticar, colocando virgulas a eito como em certas estradas colocam placas de transito nos últimos metros antes do cruzamento.

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Porém, este remédio não é tão eficaz  para o caso da poesia, onde os artifícios estilísticos são muito mais ricos e variados, o que é sinónimo de terreno traiçoeiro e movediço.

 

 

 

Elogio à prolixidade

Há quem escreva com tanta atenção ao detalhe que perde o fio da narrativa, secundarizando-a; talvez porque o instante seja decisivo, talvez porque o enredo tenha mais a ver com o sentimento, a emoção, a percepção, do que com a ilusão do tempo progredindo de acontecimento para acontecimento.

Ao Pepe lhe agrada muito dizer frases lapidárias nos momentos de mau humor. Depois vai-se distraindo pouco a pouco e acaba por esquecer tudo.

Duas crianças de quatro ou cinco anos jogam aborrecidamente, sem nenhum entusiasmo, aos comboios entre as mesas. (…)

Pepe observa-os e diz-lhes: —Ainda ides cair…

Pepe fala o castelhano, ainda que leve já quase meio século em Castela, traduzindo directamente do galego. (1)

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Também há quem desenvolva tantos relatos paralelos ao enredo que o submerge; talvez por força do efeito caleidoscópico das diversas dimensões de uma vida, de uma sociedade, de um tempo, recusando comprimi-las, ou anulá-las, numa perspectiva reducionista.

Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado. Viste que eu pedi (capítulo CX) a um professor de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Matacavalos. Em si, a matéria é chocha, e não vale a pena de um capítulo, quanto mais dois; mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, senão agradáveis. Expliquemos o explicado. (2)

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Quem, ainda, utilize muitos e variadíssimos vocábulos (insólitos até) com suas derivações e efeitos bombásticos, em longas e coloridas formulações frásicas a ponto dos aspectos formais da escrita ganharem preponderância sobre os conteúdos; talvez por assim exprimir as características da oralidade, ou para caracterizar cada personagem nas suas relações e desenvolvimentos.

Com o vezo e a experiência e porque ladrãozinho de agulheta sobe sempre a barjuleta, o João Bispo deitou o pé mais longe. A vizinhança começou a queixar-se de sumiços sobre sumiços, ovos que desapareciam do ninho ainda a pita poedeira a repenicar, queijos frescos da francela e até broa dos açafates. Foi cão, foi gato, foi doninha, e o João Bispo com o odre à ufa. (3)

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-Dêem as boas vindas ao Bert Phelps. Ele será o responsável pela segurança de toda a divisão de produtos de capoeira.

E tudo isso pode resultar bem, pois o propósito literário tanto pode ser o de contar mais uma estória, como o de contar de certa maneira.

Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionadas, o que se pretende é tão-só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios de vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria. (4)

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O fluxo do texto ininterrupto, encadeando personagens, acontecimentos, reflexões, ambientes, torna-se hipnótico, sedutor, e tanto mais sensual  quando bem escrito e levando o leitor a saborear a sonoridade das frases, a experimentar o dobrar da língua ao enrolar a sílaba.

E dissessem o que bem lhes aprouvesse, ele era que não ia se incomodar, como não se incomodou com o olhar de Lindaura de Jacinto, quando entrou na quitanda do marido dela e pediu uma botija—uma botija, não, um botijão— de cachaça, suor de alambique mesmo, coisa de fazer o bafo do bebedor pegar fogo na hora de acender o charuto, coisa de macho mesmo. (5)

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Repetindo a conclusão do post anterior, apesar de me referir a coisa completamente diversa, não é à toa que se associam as noções de conciso, insípido (pobre), desapaixonado: as palavras não são gratuitas, nem a escrita é um mero registo.

(1) in La Colmena de Camilo José Cela

(2) in Dom Casmurro de Machado de Assis ed.Europa-América

(3) in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro ed.Bertrand

(4) in O Evangelho segundo Jesus Cristo de José Saramago ed.Caminho

(5) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro ed.Dom Quixote

Questões de gosto e de modas

Se não tem compromissos editoriais, nem público-leitor a quem justificar fidelidades, por que há-de o escrevinhador se preocupar com o ‘sucesso’? Por que há-de angustiar-se com a ‘formatação’ daquilo que está escrevendo neste momento? 

Sou um autor de 'edições de autor' que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Sou um autor de ‘edições de autor’ que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Também aqui não existem respostas simples.

O ‘sucesso’ é uma aspiração legítima, um critério de valor, e a ‘formatação’ será o modo como os escritos estão estruturados num todo coerente e atraente do ponto de vista do leitor. 

O escrevinhador procura ‘a’ fórmula que resulte, aquela que vai de encontro às expectativas do leitor. Portanto, há que estar atento às tendências, aos gostos dominantes, ao que está na moda.

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Assumindo que os leitores valorizam menos o estilo e mais os conteúdos, por exemplo. Também se pode supor que o interesse pela estória será sempre maior quando o ritmo for rápido, as surpresas variadas e o desfecho imprevisto.

E, para facilitar a leitura e a compreensão ao leitor, evitam-se complicações estilísticas, caracterizações ambíguas, dilemas sem resposta evidente, referências extra-textuais, coisas assim que desafiam o entendimento e podem enfastiar o infeliz, levando-o a pousar o livro de forma definitiva e sem apelo.

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Os riscos duma tal abordagem são evidentes: se o enredo não estiver à altura das expectativas e/ou o ritmo ficar aquém da intensidade para ‘agarrar’ o leitor, o vazio literário torna-se óbvio.

Além disso, há sempre o risco de errar na premissa da fórmula: a de que o escrevinhador conhece os gostos, as tendências dominantes.

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Se fosse muito, mas muito crítico, diria que essas coisas a que chamam ‘tendências’, ‘gostos’ ou ‘moda’ são construções elaboradas, produzidas para servirem de orientação aos consumidores (e não é que o disse?!)

Talvez fosse melhor, por tudo isto,  que o escrevinhador novato nestas andanças não condicionasse a criatividade aos modelos estereotipados daquilo que possa julgar ser ‘o’ público-alvo. 

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O escrevinhador no seu labirinto

Perante a dispersão das atenções do potencial público-leitor e a concorrência avassaladora de outras formas de entretenimento, é natural que o escrevinhador se sinta perante o dilema de explorar processos narrativos que sigam o gosto dominante, daí tentando criar o ‘seu’ público; ou esquecer tudo isso e escrever para o leitor ideal, o qual é, na verdade, um reflexo de si mesmo.

Problema de Marketing

São dúvidas legítimas e sem resposta definitiva, pois encontram-se exemplos de sucesso editorial em ambos sentidos. A meu ver, trata-se mais de um sucesso do trabalho da editora do que do escrevinhador, sem desprestígio para nenhuma das partes, nem dos leitores. Por isso, neste blog não há dicas para se escrever assim ou assado, mas simplesmente sugere-se, neste capítulo, que o escrevinhador tenha em consideração se realiza de modo satisfatório os seus propósitos, ao assumir uma ou outra destas vias. E só.

"Espero que vocêstodos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo."

‘Espero que vocês todos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo.’

Grande sucesso editorial tiveram autores como Alexandre Dumas, Júlio Verne ou Emílio Salgari, sendo ainda nomes familiares para muita gente com mais de quarenta anos, e alguns dos seus livros ou heróis ainda são populares entre gerações mais novas graças às adaptações para televisão e cinema. Os três tiveram uma produção tão prolífica que seria impossível esperar o mesmo nível de qualidade no conjunto da sua obra. E, do ponto de vista da crítica, são autores de muito menor valia literária do que o seu sucesso.

"Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui."

“Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui.”

Porém, tendo sido casos de influência duradoura, muito além do seu desaparecimento físico, marcando os gostos e a imaginação popular de várias gerações, tornaram-se modelos da escrita de estórias de aventuras, amor e intriga política, fortemente dependentes do contexto histórico, científico e/ou geográfico da narrativa e que constitui sua ‘imagem de marca’.

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Que esta reflexão ‘não se limite a ser um exercício de nostalgia mas ocasião para iniciar um discurso crítico. Sem que isto, obviamente, seja turvado por preconceitos irónicos ou moralistas demasiado imediatos, capazes de inquinar aquilo de que muitas destas páginas sabem dar: a alegria da narrativa por si mesma.‘ (in Il Superuomo di Massa-retorica e ideologia nel romanzo popolare de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani)

"Li-os a todos."

“Li-os a todos.”

Ao escrevinhador do sec.XXI dificilmente lhe surgirá o desafio do folhetim nos jornais ou algo parecido, mas permanece o da escrita que prenda a atenção do leitor,dando satisfação ao autor. E se houver ainda um editor contente, tanto melhor para todos.

Todavia, não deixe o escrevinhador de ter presente que o universo literário é muito mais vasto do que tudo isto.

 

Liberdades narrativas

Há quem antipatize com a liberdade como alguns escrevinhadores interpelam os leitores ao longo duma narrativa, socorrendo-se de um narrador opinativo e supostamente engraçado. Não tenho nada contra: são tudo técnicas ou estilos que podem funcionar melhor ou pior. O risco está sempre presente e não se pode agradar a todos.

in "Mistérios de Fafe -um romance social" de Camilo Castelo Branco ed.1881 ed.Viuva Campos Junior

in “Mistérios de Fafe -um romance social” de Camilo Castelo Branco 1881 ed.Viuva Campos Junior

Pode ser que esse narrador se torne ele mesmo mais uma personagem (melhor dizendo, uma ‘metapersonagem’, pois as reflexões e à-partes, nesse caso, são um metatexto) e suas intervenções dirigidas explicitamente ao leitor (que acaba por se tornar, também, um involuntário protagonista) são importantes ao nível do contexto e do sentido. Mas não vale a pena perder tempo com teorias críticas e afins, pelo menos antes da obra feita.

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camilo castelo branco por fernando campos

No meu tempo amava-se muito. É por essa quadra de flores que a minha imaginação se esvoaça como a abelha à volta das corolas de um ramal de rosas.

Sou do período dos aéreos perfumes; este agora é o dos sons metálicos. As almas então eram leves, voláteis, e vestiam-se com os raios prateados da Lua; hoje, ouço dizer que os corações estão pesados e retraídos dentro dos seus espinhos de ambição, cobertos de pomos de ouro como os ouriços-cacheiros no estrado das macieiras.

Minhas senhoras, as vossas Excelências não imaginam como as suas mães foram amadas! Nós éramos românticos. Não tínhamos mais dinheiro que estes bancos rotos de hoje em dia; mas tínhamos papéis que valiam mais que os deles: eram sonetos.

(in A Viúva do Enforcado de Camilo Castelo Branco)

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caricatura de camilo por sara peixoto

Frequentemente, nas ‘novelas’ camilianas, o narrador é alguém (talvez o próprio Camilo) que conheceu algumas das personagens ou leu documentação escrita pelo punho de algumas delas, o que lhe ‘dá’ credibilidade ao relatar extraordinários acontecimentos. Esse narrador não pretende ser omnisciente, mas tem opinião formada sobre muitos assuntos. E, frequentemente, é sarcástico, irónico, filosófico ou acusador. De qualquer dos modos, o efeito polémico, associado ao sensacionalismo dos temas e enredos, ficava garantido.

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(…) transcorridos dois anos, em um livro impresso por 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba.

(in A Morgada de Romariz de Camilo Castelo Branco)

Deste modo, os leitores fiéis também têm o grato prazer de lerem na companhia do autor, sempre ansiosos por mais um parênteses, uma divagação, um comentário,  que os fará rir. E pensar.

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in “A Sereia” de Camilo Castelo Branco

A famosa torre de marfim do escrevinhador

Já aqui tenho referido que o pecado capital do escrevinhador é o de ser ‘chato’. Como todas as categorizações, é discutível.

À primeira vista nem parece difícil obter consenso quanto à ideia de que um livro ‘chato’ é um mau livro, mas o que é chato para uns, pode ser sublime para outros. E começam aqui as dificuldades, sendo a  dificuldade seguinte aquela impressão de que o escrevinhador que escreve livros chatos não tem noção disso.

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Também não é das menores das dificuldades a existência de leitores chatos, tanto pela incapacidade para atingir sentidos implícitos, como para descodificar ironias, por exemplo.Ou pela total falta de resistência física e mental para prosseguir a leitura de um livro de algumas centenas de páginas.

LIVRARIA "Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor"

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“Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor”

E em todos os casos, em vez de se acusar a si mesmo, aponta o dedo ao escrevinhador e/ou ao livro.

Sobre essa espantosa criatura que é o leitor, Saramago se questionava ‘Quem lê poesia, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se? Quando o leitor assoma à entrada do poema, é para conhecê-lo, ou para reconhecer-se nele?’*

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Ora, esta é uma das tradicionais áreas de actuação de um bom trabalho editorial, uma espécie de mediação entre os recursos do escrevinhador e o potencial do leitor.

Porém, numa época em que a auto-edição e a edição por encomenda estão generalizadas (o que, por si, não é nenhum defeito), esta mediação desaparece. Entre muitos outros problemas, reforça o isolamento do escrevinhador na sua torre de marfim.

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* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago (em autocitação de artigo publicado no jornal Letras & Letras) ed.Caminho

O escrevinhador e o Tempo

Há quem escreva com a noção de já ter vivido ‘o seu’ tempo, não sendo ‘seu’ o tempo contemporâneo. Supõem, por isso, que o que escrevem destina-se à sua faixa etária e a gente ainda mais velha: os mais novos não se interessam, nem o escrevinhador percebe o que lhes interessa.

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 Ou vivem o drama duma ausência existencial.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?… Aqui, tudo já foi… Em sombra estilizada, A cor morreu — e até o ar é uma ruína… Vem de Outro tempo a luz que me ilumina 

[in Epigrafe de Mário Sá Carneiro]
Lista Telefónica -Sinto-me inútil.

Lista Telefónica
-Sinto-me inútil.

O curioso neste ponto de vista é a negação, implícita, da própria Literatura, essa forma de arte em palavras que pretende agir sobre o leitor (ou ouvinte).

Tristes mãos longas e lindas/ Que eram feitas pra se dar…

Ninguém mas quis apertar…/ Tristes mãos longas e lindas… 

E tenho pêna de mim, /Pobre menino ideal… 

Que me faltou afinal? /Um elo? Um rastro?… Ai de mim!… 

[in Dispersão de Mário de Sá-Carneiro]

Os temas, como o talento, podem envelhecer, cair em desuso, desaparecer, nada de mais natural…mas como pode o escrevinhador sentir-se com autoridade suficiente para decretar a morte eminente de um tema (ou do próprio talento), após a morte dele (escrevinhador) e dos seus (poucos) leitores?

-Para de ser tão negativo. -Um verdadeiro optimista teria dito "Sê positivo".

-Para de ser tão negativo.
-Um verdadeiro optimista teria dito “Sê positivo”.

Anúncios destes podem resultar em boas ficções literárias, dramatizando o necessário para alimentar a tensão que uma perda definitiva sempre desperta. Até podem resultar como estratégia de marketing.

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-Queres parecer muito esperto, Corto Maltese. É esse o teu defeito…mas sei uma coisa a teu respeito: no fundo és honesto e é isso que me convém.
-As mulheres deveriam ter sido a minha ruína já há muito tempo.

Ora, ao escrevinhador resignado a escrever para ‘os do seu tempo’ falta, quase sempre, fôlego literário. Se algo definha não é a literatura, nem o tema, mas a escrita dos textos (dele, escrevinhador), e esse definhamento é o problema número um de toda a Criação (com maiúscula e porque sim): a falta de inspiração.

Eu próprio me traguei na profundura, Me sequei todo, endureci de tédio.
[in Além-Tédio de Mário Sá Carneiro]

 

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O resto são tretas. Mas é com tretas (e letras) que se responde a tão singela questão: escrever como?

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Mário Sá Carneiro, desenho de Almada Negreiros

Um pouco mais de sol – e fôra brasa, Um pouco mais de azul – e fôra além. Para atingir, faltou-me um golpe de aza… Se ao menos eu permanecesse àquem…

[in Quási de Mário Sá-Carneiro]

Transbordando de amor

O Natal (um dos três temas fortes de Dezembro) é época em que os ‘bons sentimentos’ são extensíveis a toda a gente, de modo indiscriminado e despudorado.

No registo literário, a efusão de afectos para com o mundo exprime-se, na maioria das vezes, através de poemas e, menos frequentemente, por contos. Aparentemente, obras de maior fôlego devem sufocar o próprio escrevinhador, pois só tenho ideia de encontrá-las nas secções de ‘auto-ajuda’ ou ‘espiritualidades’ das melhores livrarias, secções que pertencem a um outro domínio que não o estritamente literário.

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Desde (quase) sempre existe literatura que aborda o tema do ‘amor’ visto sob as mais variadas perspectivas, mas aquela que trago aqui é relativamente recente: a expressão dum amor incondicional, impessoal (porque dirigido a todos e a tudo),que pode facilmente centrar-se no próprio escrevinhador e nas suas dores, anseios e desejo dum mundo melhor, através duma linguagem poética que abusa da adjectivação, das descrições e enumerações (‘listas de mercearia’, digo eu). Além dos chamados lugares-comuns, que são a forma mais banal de estereótipo e de valor literário nulo quando usados sem outro critério do que o do seu valor expressivo.

"T-Tempo para chorar

“T-Tempo para chorar…tempo para dizer adeus…tempo para…amar…m-morrer…!”

Com o acesso de um número maior de pessoas à categoria de ‘escrevinhadores’, graças ao ensino das letras e à redução dos custos de publicação, muitos fenómenos surgiram e este é um deles. No sec.XIX surgem como precursores na poesia, nas cartas (sim, já foram um género muito apreciado), em discursos (porque houve um tempo em que se imprimiam e distribuíam discursos de todo o tipo) e em outros géneros de pendor muito diverso que se limitavam a canalizar o ‘acrisolado’ amor a temas mais terra-a-terra como a ‘pátria’, ‘a nossa terra’ (neste caso, a ‘terrinha que nos viu nascer’), a ‘história’ (da pátria ou da terrinha) e outros tópicos em voga que inflamavam facilmente auditórios e leitores de jornais.

"Empatia? Sim, percebo como pode ser útil."

“Empatia? Sim, percebo como isso possa vir a ser útil.”

Daí a figura do poeta local, do escritor da terra, aqueles que ‘imortalizavam’ a pequena cidade, cantavam os rios e as fontes, descreviam com rica adjectivação as qualidades das gentes e a excelência dos produtos da região. Os conterrâneos agradecidos, emigrantes ou residentes, mesmo que analfabetos, sabiam alguns versos ou descrições sugestivas e o nome de quem os escreveu. Algum dia, mais tarde, uma praça, uma estátua, uma rotunda, seria dedicada à egrégia figura.

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“-Eu adoro a sua poesia!”

A acrescentar a tudo isso, temos o fenómeno muito mais recente do amor sem objecto, nem limites, decorrente da anonimidade urbana e da proliferação de escrevinhadores com obra publicada. É assim como a necessidade de gritar alto, da janela da casa, toda a indignação contra o que está mal e com total simpatia pelo que é o Bom, o Justo e essas coisas aparentemente indiscutíveis.

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.'

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.’

Ora, devo reconhecer que ambos os fenómenos não são coisa que coloquem em perigo a ordem pública, mas geralmente têm uma função mais catártica do que literária, e é aí que me volto a repetir: cuidado com o excesso das emoções na construção dos textos.

"Liberdade é

“Liberdade é mais uma palavra para fazeres o que te mandam…”                                                 Fascistas dão em péssimos cantores populares.

Mesmo privilegiando os sentimentos, l’amour fou ou se transborde de amor sobre seus semelhantes, a natureza ou alguma das infinitas categorias do divino, o uso das imagens, o rigor na construção das frases, o domínio da composição geral são ainda mais importantes precisamente pela necessidade de equilibrar a emoção com algum sentido estético. Não se trata de menosprezar a inspiração, o impulso criativo, o tema ou o propósito, mas de garantir o compromisso necessário entre o que se pretende escrever e o modo como se escreve.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

O Fim do Tempo

Último mês do calendario, final do ano, Dezembro suscita reflexões, alegorias e narrativas sobre temas densos como a finitude, a velhice e a morte (e eu já aligeiro o assunto evitando maiúsculas).

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FIM
“Ele era um grande escritor”.

São temas recorrentes suscitados pelas longas, geladas noites, pelos dias curtos e cinzentos, pelas festividades que apelam aos laços familiares e recordam aqueles que ‘o tempo levou’. Como no famoso conto A Christmas Carol de Charles Dickens, a época é propícia a balanços existênciais e ao correspondente saldar de contas (enquanto é tempo…).

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Aí coloca-se o escrevinhador num terreno traiçoeiro: o de lidar temas que mexem com memórias antigas e questionam sua identidade. Frequentemente, ele tropeça e estatela-se numa escrita lamecha, confusa, confessional.

Lamecha porque escorrem lágrimas e ecoam suspiros a cada evocação dum ente querido da infância ou dos momentos irrepetíveis; confuso porque são as emoções que dominam a composição, prejudicando forma e conteúdo; confessional porque reduz-se ao desabafo. 

a Arte da Conversação lição 7: se em algum momento ao longo da conversação pensares: ‘-Estarei a falar demasiado sobre mim?’ então a resposta é ‘SIM’.

Os temas podem ser expressos de modo azedo, melancólico, desesperado, saudosista, amargo, pessimista, e são numerosos os exemplos de grandes textos literários assim escritos. A questão não é essa.

Como em tudo o mais (nisto da escrita, claro está), o escrevinhador deve ter a preocupação de comunicar, desenvolvendo os temas de modo a envolver o leitor. E é aqui que volto a lembrar o discurso de Cecília Meireles citado num post anterior: ‘A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta (…) aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer.’

Dito isto, desista o escrevinhador de procurar álibis para cometer o mais hediondo dos crimes literários: matar o leitor de tédio, por desleixo da capacidade autocrítica.

"A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo."

“A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo.”

Ou dele se poderá dizer o que alguém disse do Dantas: O Dantas é a meta da decadência mental!/E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!/E ainda há quem lhe estenda a mão!/E quem lhe lave a roupa!/E quem tenha dó do Dantas!/E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero! (in Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros)

Ajustar a ideia, o sentimento e a gramática numa linha escrita

Escrever não é como falar, já aqui abordamos o tema. Muito menos é como pensar ou sentir. Mas está numa região de fronteira entre a expressão oral e a reflexão/emoção, tendo estabelecido seu domínio próprio, suas tradições e protocolos.

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“Então em Inglês uma dupla negação está mal, mas em matemática é positivo?”

Ao contrário da fala, que pode ser severa e imediatamente restringida na sua expressão, a escrita cresce sem contraditório, nem coacção, pelo menos duma forma directa e imediata. Essa vantagem de construir um texto livremente deve ser apreciada devidamente pelo escrevinhador, pois é uma força e, simultaneamente, sua maior fraqueza.

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A ausência do contraditório empobrece o sentido auto-crítico, fundamental para o aperfeiçoamento e a evolução da escrita. Fechado num casulo, quando muito exposto aos comentários condescendentes ou meramente depreciativos, o escrevinhador terá maior dificuldade para, por exemplo, corrigir falhas, acertar o estilo, desenvolver outros sentidos. Também já aqui falamos disso.

Ao contrário da reflexão/emoção, que podem ocorrer de modo auto-evidente, tanto numa medida equilibrada, como desmesurada, a escrita precisa de ajustar o equilíbrio entre a expressão formal e os conteúdos, sob pena de não estabelecer comunicação ou, mais frequentemente, de ficar muito aquém dos propósitos do autor.

A ausência do equilíbrio arrisca-se, por exemplo, a desenvolver um modo pedante e/ou confuso de exposição das ideias, temas e enredos, ou a ser lamuriento, saudosista, adocicado.

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Não perceber a diferença entre ‘ter’ uma ideia (ou sentimento) e exprimi-la, confundir a expressão oral com a escrita, evitar a exposição à crítica: eis alguns problemas sérios que o escrevinhador deve ter em conta quando analisa o seu próprio texto.

A escrita tanto serve para anunciar uma guerra santa, como para declarar amor eterno. Em ambos os casos, tanto pode exprimir um inesgotável amor por algo ou por tudo, assim como o seu contrário.

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E deste modo, o autor, como o texto, correm o risco de morrer de ridículo. Nem que seja uma morte póstuma…

A ter em conta, quando escrever…

"Queridos Mãe e Pai. Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade de me tornar uma escritora."

“Queridos Mãe e Pai: Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade que tivesse de me tornar uma escritora.”

Três tópicos para abordar a escrita de não-ficção: explicar, temperar e vaguear. Juntos ou em separado:

– a pessoa que se propõe escrever tem algo para dizer a propósito de alguma coisa, então convém que se explique ao que vai, como vai, porque vai, e outras minudências que podem incluir ainda o “porquê” ele, autor, a escrever sobre tal ou tais coisas;

– o modo como lida com o tema e outros temas que traga a propósito, o tom e o ritmo como aborda temas e como os relaciona, passando duns para outros, até à (in)conclusão final;

– a objectividade no tratamento dos temas, avançando para uma conclusão anunciada desde o início ou que o enredo vai construindo. Em qualquer dos casos acumulando factos, desenvolvendo raciocínios, citando testemunhos, estudos;

– ou a descarada subjectividade de quem fala seriamente em alhos, jamais esquecendo a importância dos bugalhos, estabelecendo afinidades, antagonismos, relacionamentos, cumplicidades, que tanto podem estar subjacentes à realidade de uns e de outros, como podem depender (quase) exclusivamente da sensibilidade de quem escreve.

Conta a experiência de vida do autor? Como não poderia contar? Para o melhor, ou para o pior, a experiência de vida de cada autor está presente de modo indelével. Até para aqueles autores moralistas, celibatários e castos, que escrevem longamente sobre as virtudes (e os perigos, claro) do amor conjugal, da vida sexual a dois, da educação da prole e outros temas assim.

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E conta, claro, a inevitável cultura, seja académica, seja bibliográfica, seja pelo convívio com outras criaturas da mesma espécie, humana ou outra. Dito de outra maneira: é preciso aprender, é preciso ler, é preciso debater. Sem dúvida, viver plenamente a vida ajuda muito. Mas isso leva a outras discussões, a começar logo pela própria pertinência e sentido desse “viver plenamente”.

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Não se trata aqui de apresentar receitas, sempre insisto em lembrar, mas de sugerir que a escrita goza duma extraordinária liberdade formal, se bem que não isente o seu autor das consequências.

Não importando agora falar das leis contra a difamação ou para proteção da moral e dos bons costumes, nada, nem ninguém, livra o autor da asneira sem o rigoroso trabalho de investigação a desenvolver pelo próprio, temperado pelo exercício saudável e profilático da autocrítica. E, mesmo assim…

Escrever como quem explica

O que torna algumas obras de não-ficção memoráveis e exemplares no seu género, não tem de ser o conhecimento especializado, mesmo quando escrito por um académico da área.

Pode ser, por exemplo, a capacidade de comunicar assuntos de imensa complexidade ou erudição de modo acessível ao grande público, sem faltar ao rigor da informação e dos dados.

Clima urso: E que tal te parece? comentário: Ele ainda não notou nada.

Clima
urso: E que tal te parece?
comentário: Ele ainda não deu conta do que se passa.

Para ilustrar com um exemplo, cito o livro Mais rápido que a luz de João Magueijo (ed.Gradiva), doutorado em Física Teórica: “A cosmologia foi durante muito tempo um assunto religioso. É espantoso que se tenha tornado um ramo da física. Que razões temos para esperar que um sistema tão complexo como o universo possa ser tratado cientificamente? A resposta irá talvez surpreendê-lo: pelo menos no que diz respeito às forças que o governam, o universo não é assim tão complexo. (…) É mais difícil descrever a dinâmica de uma ponte suspensa do que a do universo.

João Magueijo expõe problemáticas vagamente familiares ao leitor com alguma formação em ficção científica (“a matéria diz ao espaço a forma que há-de ter, o espaço diz à matéria como se há-de mover“), e põe-no a par das ideias aceites desde Einstein, das investigações e das especulações (na qual inclui a sua teoria sobre a velocidade da luz variável [a velocidade, não a luz]).

homem: É um mamute. legenda: microscópio primitivo.

homem: É um mamute.
legenda: Microscópio primitivo

A abertura do livro, por si, já é um polémico e excelente “insight” para o restrito universo da investigação científica e do mundo académico. Para ainda concluir, no final do livro: “No universo ninguém se diverte mais do que nós”.

“Nós”, os cientistas, bem entendido.

Regressando mais uma vez à primeira das Grandes Questões Existenciais…

Existem inúmeros exemplos de obras escritas por “não-especialistas” que tiveram (têm) merecido reconhecimento. E, mais uma vez, insisto: só o escrutínio crítico permite perceber se a obra tem qualidade. Esse escrutínio exige a apreciação, entre outros, de especialistas na área que o autor se propôs escrever.

Apesar de não me ter transmitido qualquer intenção de escrever sobre fósseis de dinossauros, um senhor que conheci há poucas semanas, da Lourinhã, falou-me com entusiasmo da colecção dos fósseis que recolhia quando trabalhava no seu campo agrícola.

Também me falou do espanto duma “doutora da Câmara” que lhe terá dito que ele acumulava mais exemplares num dia do que ela (e a sua equipa) durante um ano. Ainda que ele percebesse haver ali uma velada crítica, creio que nem compreendeu a ironia da “doutora”, nem as razões metodológicas que a obrigavam a ser tão menos produtiva. Por isso temo pelo dia em que este “paleontólogo” se entusiasme em escrever sobre os seus achados…

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

…E daí ao sentimento de injustiça de que “ninguém” se dê ao trabalho de falar, bem ou mal, do livro, vai um passo.

Mas com a quantidade de livros e textos publicados sobre qualquer assunto, como pode o desconhecido não-especialista atrair a atenção dos críticos e dos especialistas? Pois, não precisamos de recorrer a teorias de conspiração para responder: é mera questão retórica.

Por isso, percebo que quem escreva tenha muitas vezes o escrúpulo de se justificar quando não detém um título académico ou profissional. Se até António Aleixo justificou suas Quadras:

Peço às altas competências/Perdão, porque mal sei ler,/Para aquelas deficiências/Que os meus versos possam ter./(…)/Eu não tenho vistas largas,/Nem grande sabedoria,/Mas dão-me as horas amargas/Lições de filosofia. “

Nos acanhados mundos académicos e literários, o intruso fica exposto ao enxovalho ou ao desprezo militante. Que podem, ou não, ser merecidos.

Mas essa é a ecologia típica da selva editorial, e nem me vou estender aqui a falar da situação diametralmente inversa: a do sucesso da mediocridade e da incompetência graças à boa “crítica” dos media, à “boa” imagem mediática do autor e aos bons amigos que dão um “empurrãozinho” na promoção estratégica do autor/livro.

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Memorialismo, monografia, ensaio, estudo, enfim…

Acredito que não há “uma” maneira de se começar (já agora, de continuar e concluir) seja o que for. Inclusive, dos meus incipientes anos de estudo de matemática, recordo haver mais do que um modo de desenvolver determinado cálculo, mas é o mais elegante e simples que leva vantagem, quanto mais não seja pela “facilidade” do entendimento.

Há quem apresente o plano geral do livro, outros apresentam as conclusões e depois desenvolvem todo o processo para aí chegar.

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Mas porque não começar dum modo imprevisto pelo leitor que julgue conhecer o tema? Porque não começar com uma estória, banal ou insólita, que resulte numa introdução ao problema?

Quem tem um estatuto académico/profissional a defender pode se subordinar a certas regras de exigência formal, metodológica e/ou científicas. Ou manda as regras às malvas e “desce” ao nível do grande público, assumindo-se como um divulgador e, eventualmente, um provocador. Os riscos são conhecidos, a solidez dos conhecimentos e a qualidade da obra é que variam muito.

Já o erudito amador, noutros tempos um pároco de aldeia apaixonado pelos achados arqueológicos e documentos históricos da remota região onde exercia, dispensa essa preocupação. Sem perder noção dos limites do autodidatismo, nem negligenciar consulta da bibliografia especializada, e outras cautelas que evitam erros e omissões demasiado evidentes para um público interessado e bem formado. E recomendo o mais estrito cepticismo a tudo o que se leia na net.

Calvin: "Fico a pensar porque foi o Homem posto no mundo. Qual é o objectivo? Porque estamos aqui?" Hobbes: "Para serem comida de tigre."

Calvin: “Fico a pensar porque foi o Homem posto no mundo. Qual é o objectivo? Porque estamos aqui?”
Hobbes: “Para serem comida de tigre.”

Frequentemente, o autor nem é, nem pretende ser, um erudito. É, simplesmente, alguém que quer recordar outros tempos, outros hábitos e gente que já morreu. Tempos, hábitos e gente que ele viveu, conheceu e com quem conviveu. Ou de que ouviu falar da boca de seus pais e parentes mais velhos.

Se outro valor não tiver, o registo das memórias (mesmo que inexactas, contraditórias, falsas até) por parte de quem teve alguma relação com o tema é matéria e documento para estudos que venham a surgir depois.

Daiquiri

Daí que a apreciação crítica que se faça nunca deva ser no sentido de abafar o impulso de escrever. Porém, sem nunca deixar de lhe apontar os limites, as incorrecções e as distorções que este tipo de literatura fatalmente incorre.

Críticas, critérios e cretinos

O problema da crítica começa logo no sentido atribuído a “crítica”. No uso corrente, a crítica é sempre negativa, depreciativa, destrutiva, senão mesmo ofensiva; porém, a raiz etimológica da palavra e o seu uso erudito (na filosofia, na ciência, nas artes) tem um sentido instrumental, mais do que valorativo: trata-se duma apreciação, duma avaliação, dum julgamento.

Uma crítica positiva que valorize um poema ou um livro, p.ex., está tão obrigada a justificar sua apreciação, seu juízo, quanto uma crítica negativa. Aliás, a crítica nem tem de se posicionar como positiva/negativa. Sua função vai muito além do “balanço geral”, e é especialmente útil para o debate e progresso do conhecimento, como para o exercício do gosto e da criatividade.

-Gostas de poesia americana? -Naah, muitos verbos. -Canadiana? -Demasiado uso da voz passiva. -E que tal a polaca? -Demasiadas consoantes. -Escocesa? -Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

-Gostas de poesia americana?
-Naah, muitos verbos.
-Canadiana?
-Demasiado uso da voz passiva.
-E que tal a polaca?
-Demasiadas consoantes.
-Escocesa?
-Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

Vista assim, rareiam espaços e oportunidades para o exercício da crítica. E não admira: nada mais difícil do que assumir um critério, justificando razões, aceitando críticas à crítica e rebatendo-as de modo coerente e fundamentado, ou evoluir na própria argumentação a ponto de, inclusivamente, admitir erros ou reformular radicalmente o juízo inicial. Na verdade, a crítica é um diálogo e uma construção em progresso permanente.

As caricaturas de crítica que vulgarmente se ouvem e se lêem não passam de manifestações de gosto ou de carácter, coisas totalmente alheias à crítica como aqui se entende.

Quando o Leitor deste blog se queixar da falta de hábitos de leitura, do pouco interesse pelos livros e/ou boa literatura (e quem diz literatura, diz de qualquer arte), pense nisto: sem críticos, não há apreciadores.

E a crítica pode ser cruel, fria e desapiedada? Não, cruel nunca: a crueldade é uma patologia mental, e a crítica é uma actividade racional saudável e estimulante à convivência, mesmo quando não seja simpática aos nossos ouvidos. Porque o seu propósito não é reconfortar o ego dos autores, nem divertir leitores, mas obrigá-los a confrontar-se com suas próprias limitações. E seguirem todos mais além do horizonte da crítica.

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POESIA! ou: quanto vale a tua vida?
-Pá, os teus poemas mudaram a minha vida!
-Oh, obrigado! Queres comprar o livro? São 10 euros.
-Oh, umm…não obrigado.
-…
(tal como me foi contado por john t. unger)

Marketing e Literatura

O desespero de quem escreve e quer editar (e se consegue a almejada edição, logo a quer promover e vender rapidamente), leva a questionar quais os “segredos”, as técnicas”, para atingir esses objectivos. Tudo desejos legítimos e naturais para os quais não há que ter vergonha ou sentir culpa.

Será o título? Um título apelativo, mobilizador, que fica no ouvido?

Ou é mesmo o tema? Vampiros contra lobisomens ainda está na moda?

Talvez o famoso arranque logo na primeira página que agarra a atenção do leitor distraído ou aborrecido.

É a capa quem atrai o leitor num primeiro tempo, dirão os perspicazes.

Depois, as redes sociais farão o milagre. Diz-se. Melhor mesmo só aparecendo na TV.

Tudo questões pertinentes para o editor, sem dúvida. Mas sem sentido quando o livro ainda está por escrever.

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Reconheço o valor de qualquer uma das questões anteriores, todas têm relevância para a promoção e o impacto da obra perante um público que desconhece o autor. Daí a importância estratégica duma editora competente, daí os conflitos entre a editora e o autor sobre estes e outros aspectos do livro a publicar. Daí a falta que faz a figura do “agente literário” no nosso pequeno mundo da Língua Portuguesa.

Mas este blog limita-se à área da criação, cultiva o culto da inspiração, ou seja, o da relação erótica e fiel com a bela Musa. E fá-lo por defeito. “Defeito”, sim, no sentido de imperfeição (não como anglicismo importado pela prática de “correr” programas informáticos e quejandos). A escrita é uma pulsão, uma “necessidade interior”. É possível que seja, até, uma patologia benigna. Acima de tudo, e desejavelmente, deve ser uma paixão.

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Conseguir equilibrar os excessos dessa paixão com o rigor da gramática, estruturando um texto legível e interessante, parece-me uma tarefa suficientemente complexa e absorvente. E, por defeito e limitação assumidas, apetece-me dizer como Guerra Junqueiro dizia de cada livro que concluía, que  era como deixar um filho na “roda”: a partir daí deixava-se de preocupar com o que viesse a acontecer-lhe.

A “roda” de que falava era uma placa giratória, na parede de certos conventos, onde quem passasse na rua podia deixar os recém-nascidos ao cuidado das freiras. Exagero dele, certamente.

Small is beautiful

Escrever poemas curtos levanta outro tipo de dificuldades, principalmente se o autor se impõe uma métrica rigorosa (tipo haiku) ou outras regras.

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-Penso que o teu poema não presta.
-É precisamente o que o poema pretende que tu penses.

O principal, numa economia de frases e palavras, é a transmissão duma ideia, dum sentir, duma imagem. Isso exige uma depuração rigorosa, uma noção de ritmo, a musicalidade inerente à forma, tudo tanto mais difícil quanto menor for o número de versos e sua métrica. Além de que, no caso dos poemas curtos, o sentido raramente ser evidente. (ver nota 1)

O que fascina nestas “construções” diminutas é a sua leveza associada ao impacto profundo daquilo que transmite, por vezes indefinível, outras vezes perturbante. O trabalho é comparável, imagino eu, ao do lapidar duma pedra preciosa.

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E, por vezes, transmitem tranquilidade, como se as palavras fossem o rumor do vento no bosque. Ou da noite a entrar pela janela. (ver nota 2)

Poesia oral e/ou escrita?

Originalmente, os poemas eram o modo “literário” por excelência em culturas analfabetas, daí a procura dum padrão, dum método: métricas e rimas, fórmulas repetitivas, imagens e outras referências que fossem partilhadas pela maioria, tudo o que ajudasse a memória do declamador/poeta e facilitasse o entendimento dos ouvintes.

_Vocês, poetas, pensam que são...tão...tão...incrivelmente... -...articulados?

_Vocês poetas pensam que são…tão…tão…incrivelmente…
-…articulados?

Com a escrita, simultaneamente se cristalizaram técnicas e libertou-se a criatividade individual. Mas isso demorou séculos e sofre recuos sempre que os hábitos de leitura se perdem. A feliz união da poesia com a música tem ajudado à divulgação de poemas e autores de todas as épocas, ultrapassando os anacronismos típicos e dificuldades de vocabulário.

Muitas vezes, poemas de grande beleza são de impacto duvidoso quando ditos a alta voz para um público, talvez porque não são concebidos originalmente para esse efeito, que tem suas exigências de dicção e forma.

E depois há o sentido, ou múltiplos sentidos, do poema: tanto maior será a compreensão de quem ouve quando suas expectativas não são confrontadas com dissonâncias e subtis ironias.

Mas deverá o autor esforçar-se por corresponder a essas expectativas? Épater le bourgeois (Chocar o burguês) já era a ambição de poetas franceses como Baudelaire (a frase creio que é dele mesmo) e não era isso o que o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, também pretendia? (ver nota)

Ou como diz outro poeta: o mar subiu ao degrau das manhãs idosas/inundou o corpo quebrado pela serena desilusão/assim me habituei a morrer sem ti/com uma esferográfica cravada no coração. (in Mais Nada se Move em Cima do Papel de Al Berto)

Ainda há quem consiga ler um livro genial?

As dificuldades da leitura do Grande Sertão: Veredas são o paradoxo da própria expressão artística: a originalidade da escrita “exige” entrega do leitor, sua dedicação (tempo e qualidade de leitura), para se “deixar levar” na corrente do discurso do narrador e do seu peculiar modo de se exprimir.

Hagar

(clicar encima para ampliar)

Em forma de monólogo (como n’ O Malhadinhas), o personagem central da história conta a sua vida, dirigindo-se a alguém a quem chama “doutor”, de outra condição social e estranho ao mundo do Sertão, muitos anos depois dos acontecimentos narrados.

Mas a narrativa de Riobaldo não é linear, frequentemente interrompida por reflexões a que se sucedem relatos episódicos da vida. O recurso dos neologismos, das onomatopeias, de palavras do português antigo, do imaginário sertanejo (fortemente devedor do imaginário europeu medieval), de frases construídas ao arrepio da boa lógica ou gramática, ultrapassam os limites da expressividade a que qualquer linguagem restringe as emoções, permitindo assim ao leitor penetrar no sentido profundo da narração.

Um dos aspectos mais interessantes do Grande Sertão: Veredas está, precisamente, em ser uma obra a todos os títulos original, tributária duma longa tradição literária, a começar pelos romances medievais, reflectindo a origem e a evolução da Língua Portuguesa no modo como constrói frases e vocábulos.

A história vai ganhando ritmo, desenvolvendo um eixo (a vida de jagunço e, desta, a vingança contra o inimigo Hermógenes) onde giram, com igual significado para o narrador e para a narração, temas recorrentes que atormentam Riobaldo: o amor por Otacília (que virá a ser sua mulher), o amor secreto por Diadorim (seu amigo cangaceiro), o Demo (que teima em  se convencer que não existe) e o pacto que celebraram ambos (mas que não sabe ao certo se aconteceu) em determinado lugar (que veio a saber depois que não existe).

Acima de tudo, porque tudo o mais ganha novo sentido com a revelação, o segredo imenso que Diadorim trazia consigo e que Riobaldo só vem a descobrir tarde de mais. Aqui, a narrativa assume uma dimensão trágica, ainda para mais associada ao tema faustiano da venda da alma ao Diabo.

Sua originalidade assenta, entre outros aspectos, no modo aparentemente caótico da narrativa (o narrador facilmente perde o fio à meada e frequentemente se afunda nas suas angústias) associado à peculiar linguagem e expressividade do narrador (poética, ritmada, hesitante, pontuada de interrogações), onde nem o próprio, por vezes, tem a certeza de dizer a verdade do que viu.

Infelizmente, toda esta riqueza torna a leitura problemática, de difícil acesso ao leitor, principalmente quando não está habituado a ter de “lidar” com estruturas fora do comum e ter de ser ele próprio a retirar o sentido duma frase que, à letra, nada ou pouco diz. Ou a ter de completar entreditos, perceber alusões.

Bem diversa da narrativa literária onde a ausência da ambiguidade, o contraste marcado (entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, etc), a utilização do vocabulário corrente, uma construção com principio, meio e fim, personagens tipificados desde o início, a opção por um tema que, por mais exótico que seja aparentemente, se reduz às mesmas problemáticas do dia-a-dia do leitor, tornam a leitura fácil e a “mensagem” compreensível.

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Propósito

Mas terá todo o livro de ter um propósito? E que se entende como tal?

Na verdade, podem ser vários os propósitos de um livro: dar corpo a uma ideia, satisfazendo o autor e dando-lhe algum proveito, se possível, porque indo ao encontro dos futuros leitores com algo que cative suas atenções e desperte interesse.

Pode haver outros propósitos: desafiar o leitor e obrigá-lo a sair do conforto das ideias adquiridas, dos esquemas habituais, tentando surpreendê-lo; promover um qualquer ideário, uma agenda, e ganhar a adesão dos leitores; auto-promoção pela originalidade (mais ou menos bizarra), pela provocação, pelo escândalo, pelo conformismo militante.

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Que “gosto” tem?

O “gosto” é a própria manifestação individual da sensibilidade e bom senso (título dum livro muito popular noutros tempos), está em estreita relação com a educação familiar e o meio cultural envolvente (seja pelo seguidismo acrítico, seja pela rejeição neurótica, seja de qualquer outro modo), pode se tornar um manifesto, uma moda, uma tirania.

Tanto pode ser reivindicação de liberdade ou sujeição à maioria, como imposição dum princípio geral.

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A (i)materialidade da escrita

Descendo ao nível que me proponho falar da escrita, citei a frase “ler é fundamental”.

Nem ler, nem escrever, são actos naturais e espontâneos como a linguagem: exigem, tal como ela, aprendizagem. Mas, ao contrário dela, não são necessários para a sociedade humana prosperar.

Através da linguagem, o humano passa do reino da natureza para o cultural; da linguagem à escrita-leitura, a palavra ganha materialidade, permanecendo mesmo depois de todas as vozes se calarem. Daí o medo gerado no início duma era em que a palavra se torna, cada vez mais, uma realidade virtual, desaparecendo com a falta de energia duma bateria ou da ligação à internet.

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Ler é fundamental

A paixão que falo também pode ser tão serena como um koan, alimentando-se dum grãozinho de loucura que desequilibra toda a expectativa, sem trair o propósito do autor.

Por ela, podem se passar anos a trabalhar o texto, polindo da frase a adjectivação e aguçando-a com verbos intransitivos.

Sim, apesar de haver inúmeros exemplos de poetas e narradores analfabetos, para escrever faz diferença conhecer a língua escrita, uma outra forma de dizer que “ler é fundamental”.

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Alquimia e Apocalipse

Muito raramente, mas sem excepção de assunto, encontro um desses livros, dum desses autores, que me ajuda a passar para lá do espelho e dizer: “Ah! Afinal, isto tem interesse!” Qual o segredo? Que alquimia contém aquela prosa para transformar o assunto mais árido num oásis…mais: num verdadeiro apocalipse?

Paixão. E nem se trata de paixão desenfreada, louca, palpitante. Mas do domínio do assunto associado à capacidade de o comunicar de forma inteligente e prática. Que, no fundo, é a arte de viver os detalhes sem perder o conjunto (ou vice-versa). E transmitir a vertente pessoal. Na verdade, há pessoas que têm o dom de revelar o divino, oculto nos 75 artigos dum regulamento camarário ou no modo como se monta um aparelhómetro movido a electricidade. Chamo a isso “paixão” e não conheço epifania maior.

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A Autoridade do Autor

A “originalidade” pode ser entendida como a própria naturalidade do autor, sua perspectiva, sensibilidade, experiência de vida, percursos, aprendizagem, etc e tal, a modo das famosas “competências” dum certo discurso pedagógico. O que não é garantia de nada de bom, e até chega a ser praga.

Mas se for genuína, vinda dum impulso de comunicação temperado por algum critério estético, mesmo que pouco elaborado, a coisa pode funcionar. Leia o resto deste artigo »