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Escrever sobre o indizível

Por definição, o indizível é o que não se pode dizer. Se não pode porque não deve ou se não pode porque não pode mesmo, são ‘impossibilidades’ bem diferentes.

Às vezes, as recordações se parecem a alguns objectos, aparentemente inúteis, pelos quais sentimos um confuso apego. Sem saber muito bem porque razão, não nos decidimos a deitá-los fora e acabam amontoando-se no fundo desse gavetão que evitamos abrir, como se ali fossemos encontrar alguma coisa que não se deseja, ou até que se teme vagamente. (1)

Norman Rockwell, Truth About Santa, 1956

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No primeiro caso, pode decorrer da censura moral ou da proibição legal que impedem a expressão de ideias. O que é indizível aqui e agora deixa de o ser noutro lado ou noutro tempo, senão for mesmo agora e aqui de modo mais ou menos anónimo, publicado clandestinamente, ao arrepio das leis e dos costumes. Literariamente falando, não se trata do indizível mas do não-permitido, e a história da literatura é recheada de episódios a este respeito.

(…) Animam-no, como poeta e artista, os heróis e os criminosos, desde que o mesmo sol os doire belos. (2)

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Contudo, ainda neste caso, existem graus de dificuldade: escrever sobre alguém que tem um comportamento condenável a todos os títulos, e fazê-lo de modo a sugerir uma leitura positiva, que cause a involuntária compreensão, senão mesmo a concordância do leitor, é mais simples do que o próprio texto assumir os valores condenados e apresentá-los como válidos, sem a clássica inversão de valores ( o que é bom passa a mau e vice-versa).

(…) É impossível que recebamos dela [Natureza] um sentimento que a ofenda e nesta certeza podemos entregar-nos às nossas paixões, seja de que índole e violência forem (…). (3)

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Do ponto de vista estritamente literário, creio que o que vale é a forma, mais do que os conteúdos, e pode resultar. Aliás, essa é a função profiláctica das leis proibitivas e dos actos de censura prévia: evitar a sedução das leituras perigosas.

Convém mostrar as repulsões do crime lá embaixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem;ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente? (4)

JulioRey

Já o indizível, propriamente dito, é toda uma outra coisa: a sua expressão por palavras distorce, desvaloriza, falseia, ilude, por maior que seja a boa vontade de quem se exprime em não faltar à verdade (à sua verdade, pelo menos). E isso porquê? Uma imagem vale por mil palavras, a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, e outros ditos tentam responder à diferença entre o impacto não-verbal de certas experiências (vivenciadas ou pensadas) e a expressão delas.

Finalmente, existe outra expressão frequente que é igualmente impenetrável por cérebros não-indígenas. Por exemplo, a frase “Vá lá a gente saber porquê!”. Um estrangeiro interpreta-a como significando “Vamos todos àquele sítio para podermos averiguar as causas do sucedido”, quando, na verdade, significa incompreensivelmente que não vale a pena ir a seja onde for, porque não há maneira de saber seja o que for. Eles lá sabem porquê… (5)

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cartoon de Pawel Kuczynski

A matemática e a música serão melhores veículos para transmissão do indizível do que a linguagem verbal, dizem os entendidos e tendo a concordar (ainda que abissalmente ignorante a respeito das linguagens matemáticas e musicais).

Quando fui a primeira vez à terra natal de Amadeo, dezoito anos depois da sua morte, a luz na paisagem e as cores nas proporções eram as mesmíssimas nos seus quadros de pintura. (…) Toda a sua arte reflecte o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as suas próprias cores, as do seu rincão natal. (6)

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cartoon de El Roto

Mas é difícil lidar com o indizível no dia-a-dia sem cair na tentação de o exprimir, já que de outro modo torna-se uma experiência profundamente pessoal e única, sendo os escrevinhadores seres sociais e comunicadores por natureza, como a generalidade dos mamíferos.

Neste assunto, obscuro em extremo, farei o possível por ser claro. Ignoro se o conseguirei e— sem mais preâmbulos— vou começar. (7)

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cartoon de alain sieber

Daí haver escrevinhadores de todos os tempos a tentar contornar a impossibilidade e dizerem algo sobre o indizível, seja pela negativa, seja por comparação, seja recorrendo à metonímia: todo um arsenal retórico que permite exprimir o que não se sabe ou o que se julga saber mas não se entende.

Nesse caso, ouve-me em silêncio. Como este recanto parece ter algo de divino, se, no decorrer do meu discurso, me tornar possesso das Ninfas, não estranhes, (…). (…) Pode acontecer que a inspiração divina se esgote, mas isso fica ao arbítrio dos deuses. (8)

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Naturalmente, a poesia sempre teve inclinação para enfrentar o desafio através dos seus recursos extra-verbais (inspiração, paixão, loucura) que lhe permite ter um pé (senão ambos os pés) noutros mundos e a cabeça nas nuvens.

(…) O que aqui/ não está escrito é já a única/ prova de que disponho/ para reconhecer-me, interromper/ meu processo de erosão entre recordações/ urgentes. // Por aquela palavra/ a mais que disse então, trataria/ de dar minha vida agora (9)

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Pessoalmente, destaco toda a literatura que se situa na categoria do ‘absurdo’ (que não é a mesma coisa que a ‘fantasia’, atenção!): através de jogos de palavras, pela criação de palavras próprias, distorcendo regras gramaticais elementares, expandindo ou contraindo de forma absurda (claro está!) maneirismos narrativos ou dialogais, consegue “dizer” mais sobre o indizível do que a milenar literatura séria sobre o Inefável.

O E parecia um pente, o S uma serpente, o O um ovo, o X uma cruz de lado, o H uma escada para anões, (…). Não via diferença entre desenhar e escrever.

(…) Porque as letras e os desenhos eram irmãos de pai e mãe: o pai era o lápis afiado e a mãe a imaginação. (…) Estas palavras que nasciam sem ela mesmo querer, como flores silvestres que não precisam de ser regadas, eram as que mais gostava, as que lhe davam mais alegria, pois só ela as entendia. (…) e as chamava de “farfanías”. Quase sempre a faziam rir. (10)

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Mas a que mais me impressiona é a literatura sobre o Horror (não confundir com zumbis e quejandos), como a dos campos de concentração e de extermínio, a das perseguições e genocídio. Autores que passaram pelo Horror, testemunhas e vítimas ao mesmo tempo, e que conseguem pôr por escrito a experiência vivida, a própria e a de outros, mantendo um pudor e sangue-frio extraordinário na descrição, na valoração, no juízo.

(…) E tinham sido conduzidos para os balneários, onde, disseram-me, também havia tubos e chuveiros: só que, deles, não tinham feito sair água, mas gás. Não soube tudo isto de uma só vez, mas a pouco e pouco (…). Entretanto, ouço, são, até ao fim, muito amáveis para eles, tratam-nos carinhosamente, às crianças é permitido cantar e jogar à bola, e o local onde são gaseados é muito bonito e bem cuidado, (…). (11)

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E nessa contenção mantém-se toda a força, repelente ou atractiva, do indizível.

E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

—”Meu amor!” (12)

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(1) in Paraíso inabitado de Ana Maria Matute, ed.Destino

(2) ‘António Botto e o ideal estético creador’ in Apreciações Literárias—Bosquejos e Esquemas Críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(3) ‘Justificação do Prazer’ in Escritos Filosóficos e Políticos (extraído de Justine ou os infortúnios da Virtude) de Donatien Alphonse F. de Sade, trad.Serafim Ferreira ed.colecção 70

(4) ‘Prefácio’ in O Esqueleto de Camilo Castelo Branco, ed.Livraria de Campos Junior

(5) ‘É-o-que-é’ inA Causa das Coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assírio e Alvim

(6) ‘Amadeo de Souza-Cardoso’ in Obras Completas vol.6 Textos de Intervenção De José Almada Negreiros, ed.Estampa

(7) in Loucura… de Mário de Sá-Carneiro, ed.Rolim

(8) in Fedro de Platão, ed.Guimarães & Cª

(9) in ‘Sobre o impossível ofício de escrever’ in Somos el tiempo que nos queda-Descrédito del Héroe de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral

(10)in Caperucita en Manhattan de Carmen Martín Gaite, ed.Siruela

(11) in Sem Destino de Imre Kertész, trad.Ernesto Rodrigues ed.Presença

(12) in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira

 

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Vale a pena escrever?

RESPOSTA: se alguém me puser esta pergunta, minha resposta automática é NÃO, não vale a pena.

Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!/ Se isto não é, porque é que é?/ Se isto não pode ser, então porque pôde ser? (1)

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Esta é a resposta preconceituosa de quem entende que a urgência da escrita se impõe ao escrevinhador, que depois defrontará a terrível, incontornável questão: o que escrevi tem algum valor?—uma questão totalmente diferente, portanto.

Sonho que sou a Poetisa eleita,/ Aquela que diz tudo e tudo sabe,/Que tem a inspiração pura e perfeita,/ Que reúne num verso a imensidade! (2)

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Preconceito que radica, também, na crença de que a dita urgência é um dano colateral à exposição precoce à audição de contos e leituras, às leituras de livros de texto e banda desenhada, ao visionamento de filmes.

O que me dá prazer não é o vinho, não!/ Nem a música, nem o canto./Apenas os livros são o meu encanto/ E a pena: A espada que tenho sempre à mão. (3)

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-A TV está cada vez melhor. -É, acho que é um perda de tempo muito mais produtiva.

Essa exposição (que não tem de ser, na verdade, precoce) não é condição suficiente para responder afirmativamente à segunda questão: a do valor do que se escreveu. Outras formas de expressão podem surgir em alternativa e com outra qualidade; no mínimo, resulta no desenvolvimento duma percepção mais subtil, na sensibilidade à ironia, num grau de exigência maior, coisas assim que fazem de alguém uma pessoa mais interessante.

Eu não soube onde entrara,/ mas, quando ali me vi,/ sem saber onde estava,/ grandes coisas entendi;/ não direi o que senti,/ pois me fiquei sem saber,/ toda a ciência transcendendo. (4)

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Na realidade, porém, existe uma crescente número de pessoas sem qualquer relação afectiva com a leitura e, inclusive, com um domínio deficiente da escrita, determinadas em produzir textos, seja por razões estéticas, sentimentais ou profissionais

(…) o número de homens ignorantes e corajosos/ será maior ou menor que o número de homens corajosos e cultos? // (…) Se o assunto fosse assim tão simples…/ Mas não. (5)

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Como dizer-lhes que não vale a pena serem persistentes e produtivas nessa determinação? Na verdade, nem se colocam a questão de escrever (ou não), mas antes a de escrever como?

Tu que sabes em que recantos das terras invejosas/ O Deus ciumento esconde as pedras preciosas,/ Ó Satã, tem piedade da minha grande miséria! (6)

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Preconceito de lado, a tarefa é ingente mas factível; tudo depende do escrevinhador e do modo como se move no seu labirinto. Mesmo o mais aborrecido dos manuais pode estar organizado com um mínimo de lógica e ter sido escrito numa linguagem clara, duas características que são grandes qualidades e verdadeiros ‘facilitadores’ (palavra horrível muito em uso nas primeiras décadas do sec.XXI) para quem tenha de lidar com assuntos chaaaatos.

A bela e pura palavra Poesia/ Tanto pelos caminhos se arrastou/ Que alta noite a encontrei perdida/ Num bordel onde um morto a assassinou. (7)

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Contudo, ambas qualidades exigem um razoável domínio da matéria a tratar e da sua expressão escrita, qualidades que andam muitas vezes desirmanadas.

(…) E com um mimo que só sabe ter uma ama/ Cobre-me bem, “durma, não cisme”, dá-me um beijo,/ E sai. Finge que sai, ela cuida que eu não vejo,/ Mas fica à porta, à escuta, a ouvir-me falar só,/ E não se vai deitar…/ Onde há, assim, uma Avó? (8)

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Talvez por isso, surgem escritos num tom autobiográfico, meio confessional, meio exploratório, onde se cruzam dados objectivos (estatísticas, história, ciências) com a profunda subjectividade do olhar do escrevinhador, podendo até desenvolver narrativas ficcionadas.

Todo lo que he vivido, todo/ lo que he salvado vigilantemente/ del feroz exterminio de los dias,/ todo cuanto yo fui, hoy os lo ofrezco,/ ojos que seguiréis el rastro de estas letras, /(…) (9)

'When I was young I wanted to be a poet, but we couldn't afford a typewriter.'

‘Quando era novo queria ser poeta, mas não tinhamos dinheiro para comprar uma máquina de escrever!’

À extraordinária liberdade deste processo—ao nível dos factos, das personagens e do enredo— alia-se o tratamento mais ou menos rigoroso de assuntos concretos, reais, observáveis. Combinação que pode resultar numa abordagem refrescante, inspiradora, bem-humorada, poética… ou tudo isso em simultâneo.

Poeta, não, camarada,/ eu sou também cauteleiro;/ ser poeta não dá nada/ vender jogo dá dinheiro (10)

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Para quem não confia na bagagem literária dos seus anos de formação (infância, adolescência), explorar a sensibilidade e o olhar crítico com que a vida o enriqueceu torna-se um valor imenso em qualquer proposta artística. Aproveitando as experiências de vida e as histórias familiares, a escrita pode vencer os escolhos normais da criação literária e compensar certas deficiências com a inspiração genuína, uma perspectiva original, uma tonalidade distinta.

Imaginária menina/ entra em roda imaginária:/—Roseira que dás espinho,/ que dás espinho e dás flor:/ roseira de meu caminho/ dá ciranda aonde eu fôr.//  (…) que se houve espinho houve rosa. (11)

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Pintura de Luz Morais

As boas regras gramaticais e o exercício duma escrita literária acabarão por se incorporar com o tempo, muita prática e aprendizagem. E com uma ajudinha preciosa que pode chegar de modo abrupto e, até, ofensivo. Mas quem disse que escrever vale a pena?

Las cú. Lavitebá, Foscan moldé ca./ Divilanvoris cermalagos cía./ Ar conta latilosde balatía/ ormela banorcali tonzosteca. (12)

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“Concordo consigo: você tem dinamismo, ambição e autoconfiança, mas aquilo que procuramos é a competência.”

(1) ‘A Partida’ in Poesias de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(2) ‘Vaidade’ in Livro de Mágoas de Florbela Espanca, ed.Bertrand

(3) de Al-Kutayyr in O meu coração é árabe, colectânea e tradução de poesia luso-árabe de Adalberto Alves, ed.assírio&alvim

(4) ‘Coplas del mismo hechas sobre un éxtasis de alta contemplación’ in Poesias Completas de San Juan de la Cruz, ed.Planeta DeAgostini

(5)  ‘Canto IV’ in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(6) ‘Les Litanies de Satan’ in Les Fleurs du Mal de Charles Beaudelaire, ed.Gallimard

(7) ‘A Bela e Pura’ in Mar Novo de Sophia de Mello Breyner Andresen, ed.Caminho (Obra Poética vol.I)

(8) ‘Males de Anto’ in  de António Nobre, ed.A Bela e o Monstro lda

(9) ‘Todo lo que he vivido’ in Las Adivinaziones de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral (Somos el tiempo que nos queda obra poética completa 1952-2009)

(10) ‘Ocasionais’ in Este livro que vos deixo… de António Aleixo, ed.Vitalino Martins Aleixo

(11) ‘Rosa da Roda’ in Rapsódica de Stella Leonardos, ed.Orfeu

(12) ‘las cu la vi te ba fos can mol de ca’ in A Saga/Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester, ed. Dom Quixote

Rir seriamente

Quando Cervantes escreveu a primeira parte do Don Quixote, terá surpreendido favoravelmente os leitores contemporâneos com aquilo que parecia ser uma sátira aos romances de cavalaria.

(…) a história do famoso dom Quixote de la Mancha, de que todos os moradores do distrito do campo de Montiel têm a opinião de ser o mais casto enamorado e o mais valente cavalheiro que, de muitos anos a esta parte, se viu por aquelas bandas. Não pretendo encarecer-te o serviço que te faço em dar-te a conhecer tão nobre e tão honrado cavaleiro; mas quero que me agradeças o conhecimento que terás do famoso Sancho Pança, seu escudeiro, (…). [do Prólogo d’O Engenhoso Fidalgo don Quixote de la Mancha]

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Para os leitores dos sec.XX e XXI, a segunda parte do mesmo livro (publicada uma década depois da primeira) surpreende mais pelo diálogo de Quixote e Sancho com leitores da primeira parte, discutindo o modo como são relatadas as suas aventuras.

—Desse modo, é verdade que há uma história minha e que foi mouro e sábio quem a compôs?

—É tão verdade, senhor—disse Sansão—, que tenho para mim que no dia de hoje estão impressos mais de doze mil da tal história; senão, diga-o Portugal, Barcelona e Valência, onde se imprimiram; (…).

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As duas partes reunidas sob um só título constituem, por isso e pelo mais que o tempo e a crítica vão desvelando, um dos maiores monumentos literários. Não sendo propósito deste blog fazer crítica literária, a referência ao Don Quixote interessa como exemplo de uma obra que se desenvolve para além das pretensões iniciais do escrevinhador.

(…) e o que mais demonstrou desejá-la [a segunda parte do Don Quixotefoi o grande imperador da China, pois em língua chinesa haverá um mês que me escreveu uma carta(…) suplicando-me que a enviasse porque queria fundar um colégio onde se lesse a língua castelhana e queria que o livro que se lesse fosse o da história de dom Quixote. Juntamente com isso dizia que seria eu o reitor de tal colégio. [da Dedicatória ao Conde de Lemos in Segunda Parte do Engenhoso Cavaleiro dom Quixote de La Mancha]

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Esse ‘desenvolvimento’ é evidente pela aparição da segunda parte (que a primeira não pressupunha), e que decorre da popularidade que narrativa e personagens tiveram logo a seguir à sua publicação. No mínimo, o êxito confirma como é gratificante e potencialmente inspirador o diálogo entre o escrevinhador e os seus leitores.

Diz-me, irmão escudeiro: esse vosso senhor não é um de quem anda impressa uma história que se chama do Engenhoso Fidalgo dom Quixote de la Mancha, que tem por senhora da sua alma a uma tal Dulcineia de Toboso?

O mesmo, senhora—respondeu Sancho—; e aquele escudeiro seu que anda, ou deve de andar, na tal história, a quem chamam Sancho Pança, sou eu, se é que não me trocaram do berço; quero dizer, que me trocaram na estampa.

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“-Então é verdade que sou tido como uma personagem cómica, agora?”(cartoon de Rob Davies)

 

Por outro lado, talvez a ideia inicial fosse satirizar, mas as personagens de Quixote e de Sancho desenvolveram-se com tal complexidade que se tornaram mais do que simples estereótipos do alienado (Quixote) e do bronco (Sancho), ganhando dimensão, profundidade, ou seja, humanizando-se. Nesse sentido, mais do que uma vez o leitor tende a identificar-se com elas, a percebê-las, a ver pelo seu ponto de vista.

—Isso de os governar bem—respondeu Sancho—não tem que mo recomendar, pois sou caridoso por feitio e tenho compaixão pelos pobres; e a quem coze e amassa, não lhe furtes fogaça; e para minha benção que não me hão-de lançar falsidades; sou cão velho e entendo todos tus, tus, e sei espevitar-me quando é preciso, e não consinto que me deitem areia nos olhos, porque sei onde me aperta o sapato: digo-o porque os bons terão comigo mão e concavidade, e os maus, nem pé, nem entrada.

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Sem prejuízo do riso que, volta e meia, suscitam pelas suas palavras e actos; mas o riso estende-se às outras personagens, as ditas ‘normais’, as que partilham com o leitor a mesma estranheza e hilaridade frente àquele extraordinário duo.

E como não mentem—disse nesta altura dona Rodrigues, a dona, que era uma das ouvintes:—que meteram ao rei Rodrigo, vivo vivo, numa tumba cheia de sapos, cobras e lagartos, e que daí a dois dias disse o rei de dentro da tumba, com voz baixa e dorida: Já me comem, já me comem/ por onde mais pecado havia; e por isto, muita razão tem este senhor [Sancho Pança] em dizer que quer mais ser lavrador do que rei, se lhe vão a comer os bicharocos.

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Porém, esse outro riso poderá ter um travo amargo, levar a uma reflexão inesperada, fazer simpatizar com o alvo habitual da troça. O que não é outra coisa senão actuar ao nível dos nossos preconceitos.

(…) Daqui aproveitou a ocasião o duque em fazer-lhe aquela partida: tanto era o que gostava das coisas de Sancho e de dom Quixote; (…). E disse mais Cid Hamete [o ‘verdadeiro’ autor de dom Quixote e de quem Cervantes se diz mero tradutor]: que tem para si serem tão loucos os burlões como os burlados, e não estavam os duques dois dedos de parecerem tontos, pois tanto afinco punham em enganar dois tontos.

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cartaz: Seguradora La Mancha                                          ‘O que é que aconteceu ao seu moinho de vento?’

Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

O bigode da Gioconda

Escrevinhadores excessivamente escrupulosos evitam certas leituras, certos autores, por temor de duvidarem eles mesmos da originalidade dos próprios escritos. Assim, sentem-se de consciência tranquila se surgirem coincidências no enredo, nas personagens, em alguns detalhes da narrativa.

Tenho ao alcance da mão as definições de Elliot, de Arnold e de Sainte-Beuve,  razoáveis e luminosas sem dúvida, e seria me grato estar de acordo com estes ilustres autores, mas não os consultarei. Cumpri setenta e tal anos; na minha idade, as coincidências e as novidades importam menos do que aquilo que se tem por verdadeiro. Limitar-me-ei, pois, a declarar o que sobre este assunto pensei. (1)

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Mesmo na literatura sagrada das mais diferentes religiões existem coincidências, que tanto se devem aos abismos do inconsciente humano quanto ao contrabando de mitos e crenças. Como há-de escapar às influências o simples escrevinhador, se até escribas inspirados pela voz de um anjo-mensageiro ou por um deus omnisciente repetem velhos estereótipos da criação, ascensão e queda da Humanidade?

Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas algo há na sua imagem que concorda com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em distintas latitudes e idades. (2)

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‘Arca, Noé – não um arco!’

Percebo que se evitem certas leituras em dado momento da escrita duma obra, mas duvido da sua eficácia e receio muito pelo que isso implique. Nos últimos vá lá 2500 anos, e de forma cada vez mais avassaladora, é impossível fugir à ‘influência’ —dos temas e outros aspectos da narrativa—  dada a fina malha cultural que entretece o imaginário, a mundividência, nossa memória colectiva.

Suspeito que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve tratar de ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas palavras são sinónimas), não de suas opiniões, que são o mais superficial que há nele. (3)

'It was a last-minute change, but a good one.'

Foi uma mudança de último minuto, mas uma boa mudança. Título do livro: ‘Guerra e Paz e Repolho’

O livro e o ensino, por razões evidentes, expuseram a população mais letrada a uma intensa contaminação de ideias, estórias e fórmulas literárias, mas o imaginário e a mundividência já são bebidos com o leite materno, embalados até adormecer no peito duma qualquer vizinha solícita, escutados com avidez à lareira junto dos mais velhos e assimilados no dia-a-dia entre conhecidos e desconhecidos… ou assim era dantes.

Hoje, a força conjugada dos mass media e da net tornam a influência omnipresente e opressiva, sem disso se ter consciência, e, por isso, sem desenvolver critérios entre o que é ‘original’ e o mero plágio ou estereótipo preguiçoso.

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável (…). (4)

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por aqui falei como uma obra anterior ao sec.V a.C., escrita por um cego grego —que, eventualmente, nem terá existido― pôde influenciar um poeta, guerreiro e zarolho português quinhentista, e um caixeiro-viajante cultural irlandês, que sofria de glaucoma, do sec.XX, os quais, por sua vez, inspiraram, já no sec.XXI, um académico nascido em Angola e que, por alguma razão, usa óculos.

Ou de como, no espaço de duas dezenas de anos, 3 nomes cimeiros da literatura de 3 países diferentes, escrevem sobre o mau comportamento de senhoras muito bem casadas (morrendo todas no final do livro, sujeitas aos comentários depreciativos da parte de outras personagens).

Plágio, em qualquer dos casos, nem pensar. Um insigne académico escreveu sobre a ‘angústia da influência’, e até intitulou o livro, coincidentemente ou não, A angústia da influência.

Como entendemos uma angústia? Sendo angustiados nós mesmos. Todo leitor profundo é um Perguntador Idiota. Pergunta: “Quem escreveu meu poema?” Dai a insistência de Emerson: “Em toda a obra de génio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados — voltam-nos com uma certa majestade alienada.” (…) A crítica é a arte de conhecer os caminhos ocultos que vão de um poema a outro. (5)

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-Não faço plágio… mas gosto do modo como este tipo expressou os meus pensamentos na secção de opinião.

Sem qualquer angústia, o já conhecido escritor argentino Pablo Katchadjian, em 2009, resolveu fazer aquilo a que chamou de ‘experimento literário’: ‘engordou’ (sic) o famoso conto —O Aleph― do ainda mais famoso escritor argentino Jorge Luís Borges, adicionando-lhe mais 5600 palavras às 4000 originais, dando-lhe o sugestivo nome de O Aleph Engordado. A ‘experiência’ parece que foi bem recebida nos meios literários argentinos, a avaliar pelo que pude ler em artigo publicado no El País por Carlos Cué.

Porém, representando os interesses (ou direitos de autor) da viúva de Borges, o advogado Fernando Soto exprimiu uma perspectiva notável: ‘Isto não é um experimento, afecta directamente o direito moral da obra, que foi alterada dolosamente. Queremos que reconheça que é uma ofensa à obra de Borges. É como se alguém pintasse bigodes na Gioconda.’*

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Vai daí, o autor do O Aleph Engordado é levado a tribunal e condenado (apelou, entretanto). Em sua defesa, alega que é ‘óbvio que não se pretende esconder um plágio de forma dolosa, que para isso se pensou a lei. O livro intitula-se El Aleph engordado e no final há uma explicação do trabalho que havia feito. Borges não é um monumento, é um escritor. A história da literatura é uma constante revisão e reflexão sobre a tradição. Borges defendia o plágio e sustentava que toda a literatura está construída uma sobre a outra, é absurdo este processo, é uma novela delirante.’ *

E sustenta que não tocou no original, só acrescentou.

Este factótum, em vez de limitar-se à tarefa específica, delapidou um tempo precioso lendo as sete lucubrações de Vilaseco. Chegou a descobrir que, salvo os títulos, eram exactamente a mesma. Nem uma virgula, nem um ponto e virgula, nem uma só palavra diferente! A descoberta, fruto gratuito do acaso, carece seguramente de importância para uma séria valoração da versátil obra vilasequista e se o mencionamos à última da hora é a título de simples curiosidade. (6)

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Ora, eu que não li o ‘engordado’, não vou discutir os méritos da obra. Provavelmente, se Katchadjian não tivesse incluído O Aleph original, a decisão jurídica teria lhe sido favorável.

(…) começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é uma linguagem de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca? (7)

Mas não me interessam as questões jurídicas, agora. O que acho relevante é a ‘tese’ do dr. Fernando Soto, sobre direitos morais das obras, sobre alterações dolosas, sobre ofensas à obra de alguém, sobre bigodes e giocondas. E a ideia de Katchadjian em ‘engordar’ obras alheias.

Gracias (…) pelo facto do poema ser inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e não chegará jamais ao último verso/ e varia segundo os homens (8)

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Sobre o primeiro, assusta-me a argumentação tão propícia ao fanatismo religioso, nacionalista, ideológico, quando se apropria do património cultural (e literário) e passa a assumir o direito de avaliar e condenar qualquer referência, glosa ou sátira. Daí a queimar livros, esfaquear ou balear escrevinhadores e editores, fazer explodir livrarias, não vai um passo assim tão largo, pelo que tenho visto nos dias da minha vida. Mais corriqueiramente, surgem a censura, a autocensura, a apreensão dos livros, as multas e penas de prisão.

Sobre o segundo, saúdo esta tendência saudavelmente infectante, contagiosa, da obra literária (na verdade, da obra de arte em geral), que nos faz redescobrir textos mais antigos e abrir horizontes insuspeitados por detrás daqueles que já conhecíamos.

Schopenhauer, Quincey, Stevenson, Mauthner, Shaw, Chesterton, Léon Bloy, formam o censo heterogéneo dos autores que releio continuamente. Na fantasia cristológica intitulada ‘Três versões de Judas’, creio pressentir a remota influência do último. (9)

Mas o mais saboroso é a ironia extraordinária deste pleito jurídico ter como referência a obra de Borges. O mesmo Borges que, cotejando um fragmento do texto original do Quixote de Cervantes com o texto exactamente igual do Quixote de Menard, fictício autor do sec.XX, descobre-lhe as diferenças nas ideias e nos estilos.

O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico (Mais ambíguo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.) (10)

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* do artigo publicado a 28/06/15 no El País por Carlos Cué

(1) de ‘Sobre los Clásicos’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(2) do ‘Prologo’ in El Libro de los Seres Imaginarios de Jorge Luis Borges (com a colaboração de Margarita Guerreiro) ed.Bruguera Alfaguara

(3) do ‘Prologo’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(4) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(5) in A Angústia da Influencia de Harold Bloom trad.Marcos Santarrita, Imago Ed.

(6) de ‘Ese Polifacético: Vilaseco’ in Cuentos de H.Bustos Domecq de Jorge Luis Borges ed.Seix Barral

(7) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(8) d’ ‘Outro Poema de los Dones’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(9) do ‘Prólogo’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

(10) de ‘Pierre Menard, autor do Quixote’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

Escrever como terapia…???

Consultado como uma espécie de autoridade xamânica a propósito das virtudes terapêuticas da escrita —além de ser, também, auscultado regularmente sobre quais leituras recomendaria com objectivos terapêuticos e cívicos, morais(!), etc e tal—, constato como a internet, por mais que se avise (e surgem avisos a todo o tempo!), é o lugar ideal para se ter encontros perigosos. Escudado numa espécie de anonimato, o autor deste blogue não merece dos seus leitores mais do que a leitura e apreciação crítica assente nos conteúdos práticos aqui tratados, e tudo o mais resulta duma projecção ou ilusão do leitor que anda à procura de algo. Algo que, garantidamente, aqui não há.

Escrevendo listas como terapia

“Coisas que me aborrecem.”  Escrevendo listas como terapia

Claro que ler e escrever, como qualquer actividade humana socialmente aceite, têm uma componente terapêutica. E como não haveriam de ter?! Porém, a perspectiva que aqui se procura desenvolver é predominantemente literária. O que, para quem esteja menos familiarizado com o conceito, pode parecer algo de muito válido e construtivo. E é. Assim como todo o seu contrário.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre!

Basta considerar a quantidade de livros colocados no Index e outras listas censórias, destruídos em praça pública juntamente com os seus autores e leitores, ou nas vidas miseráveis, alcoólatras, suicidas, de tanto escrevinhador, para perceber que a escrita como terapia não é um conceito evidente.

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Na verdade, em tempos que já lá vão, quando a Literatura era genuinamente apreciada, temida ou vilipendiada, o exercício da escrita (e o da leitura) estava desaconselhado para as classes menos favorecidas,  visto como nada adequado à condição feminina e, em geral, as leis e os costumes condicionavam fortemente os temas e as formas.

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Provavelmente, a partir do momento em que se tornou mercadoria, a escrita, enquanto livro, ganhou em popularidade com a consequente desvalorização, servindo de veículo para qualquer necessidade de comunicação mais ou menos propagandista ou, meramente, para satisfação lúdica ligeira. Da literatura, quantas vezes, fica-se pela pretensão.

-Os livros de História trazem muitos contos.

-Lê livros de História, trazem muitos contos.

Daí à confusão entre o potencial terapêutico da escrita (Freud recomendava anotar os sonhos) e a criação literária vai um passo, correndo-se o tremendo risco de cair na banalidade das expressões emocionais e sentimentais. E o escrevinhador sente-se aliviado? É possível, pois terá exorcizado seus fantasmas e demónios.

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Porém, ao longo dos tópicos desenvolvidos neste blogue há mais de 2 anos, tem-se privilegiado uma perspectiva distinta, eventualmente oposta: a de que a escrita, como forma de expressão literária, resulta melhor se feita com paixão, em desequilíbrio, procurando seduzir a bela Musa e atrair o leitor para o labirinto peculiar do escrevinhador. Para quem tenha alguma bagagem literária, pode já prever os abismos e monstros que se ocultam nos labirintos…

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Para conseguir tudo isto há que cultivar o salutar grãozinho de loucura. Ora, não poucos venderam a alma ao tabaco, ao álcool ou à cocaína para atingirem estes objectivos. E destes, alguns conseguiram-no, mesmo assim.

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Neste blogue entende-se que ler muito e bem, viver a vida plenamente e criar rotinas, alternando-as com rupturas, além de estar aberto para o mundo (e para o que aí se passa), é todo um processo de motivação que, em caso de não resultar em qualquer obra-prima, tem, pelo menos, a vantagem de fazer do escrevinhador ‘falhado’ melhor pessoa e pessoa mais interessante.

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A ser terapia, a escrita será assim pretexto para se viver uma vida estimulante. Mas nada está garantido, e nem é esse o objectivo da criação literária. Ou, já agora, deste blogue.

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Ir além

A autocrítica é entendida como esforço de aperfeiçoamento, um ‘ir além’ que o tempo-que-passa e a exposição dos textos tendem a estimular, sinal de maturidade e de vigor criativo. A qualidade da escrita ressente-se da falta de sentido crítico e autocrítico do escrevinhador (que também é, não o consigo imaginar de outro modo, um leitor).

‘Pai, Mãe,’ disse a sua irmã, batendo sobre a mesa com a mão como introdução, ‘não podemos continuar assim. Talvez não consigam perceber, mas eu consigo. Não quero chamar este monstro de meu irmão, tudo o que digo é isto: temos de tentar e livrar-nos disto. Tentamos tudo o que é humanamente possível para cuidar daquilo e ser paciente, penso que ninguém nos pode acusar de fazer algo errado.’ (1)

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Aplicações disponíveis no Facebook (esquerda)
Aplicações úteis no Facebook (direita)

Para o principiante o exercício autocrítico é mais penoso, menos óbvio, provavelmente mais urgente. Assim, a bagagem literária, a curiosidade pelo processo como outros escrevinhadores desenvolvem os mesmos temas, a sensibilidade ao modo como as pessoas comunicam, reflectem, actuam, lêem, são algumas ferramentas de trabalho que permitem avaliar a própria escrita.

Entretanto, Xerazad dizia à sua irmã Dunyazad: “Mandarei-te chamar quando estiver no palácio, e assim que chegues e vejas que o rei tenha terminado o seu assunto comigo, me dirás: ‘Irmã, conta alguma estória maravilhosa que nos faça passar a noite’. Então contarei contos que, se Deus quiser, serão a causa da libertação das filhas dos muçulmanos’ (2)

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Na prosa e na poesia, o escrevinhador constrói os textos de modo faseado, tanto na forma como no tempo, mesmo que sinta ter escrito tudo de rajada. Em alguma dessas fases o escrevinhador deve assumir qual é a sua pretensão formal, ou seja, como pretende exprimir algo de modo ‘original’. Essa pretensão tem menos a ver com o tema do que com a perspectiva, o tom, o ritmo, o nível de linguagem, entre outros aspectos que lhe pareçam significativos no material escrito.

Nietzsche é, na esteira dos pré-socráticos que tão caros lhe foram, o filósofo em cujos escritos se fundem a especulação abstracta, a poesia e a música. (3)

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Querido YOUTUBE, eu vou sempre ‘saltar a publicidade’

O mais estereotipado desfecho pode ser escrito pela enésima vez e surpreender…—como assim?! O assassino é o mordomo? Aparece o príncipe encantado —ou a cavalaria— mesmo antes do final da estória? Não sei, ninguém sabe, nem mesmo o escrevinhador quando cria. Mas, lendo e relendo com menos emoção e mais sentido crítico, talvez uns concluam que a surpresa está na diferença como se aborda o tema, no modo distinto como o desenvolve, pelas perplexidades que sugere ou expõe e que transcendem o género.

(…) é que os contos, uns têm graça por si mesmos, outros pelo modo de contá-los (quero dizer que alguns há que, ainda que se contem sem preâmbulos e ornamentos de palavras, satisfazem); outros há que é necessário vesti-los de palavras, e com demonstrações de rostro e de mãos, e com mudar a voz, resultando algo de muito pouco, e de frouxos e descoloridos se tornam penetrantes e saborosos (4)

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A estafada polémica da ‘originalidade’ é sempre produtiva quando posta em contexto, um problema tanto maior quando começa a ser difícil encontrar denominadores comuns entre leitores (complexa noção matemática aqui empregue no sentido de leituras comuns).

O verso branco para o elisabetano era novidade tão excitante quanto o ‘close-up’ num filme de Griffith, e ambos são muito semelhantes pela intensidade de ampliação e pelo não-exagero de sentimento que permitem. Mesmo Whitman, arrebatado pela nova intensidade visual do jornal do seu tempo, nada encontrou de maior capacidade de repercussão para o seu grito bárbaro do que os versos brancos. (5)

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-Sabes me dizer como chegar, como chegar à rua Sésamo? -Não, não sei. É um lugar de fantasia. Ninguém pode ir lá.

Sem esses comuns denominadores, fica complicado para o escrevinhador entender ou fazer entender toda uma tradição que povoa a literatura de mitos, dramas palacianos ou abismos da alma. Se ele não entende e reproduz, acrítica e inconscientemente, velhas estórias e bem conhecidas intrigas, cai no ridículo, no estereótipo e pode, inclusivamente, ser um sucesso de vendas. Se as entende e recria, corre o risco de ser um criador original sem ser entendido, permanecendo na obscuridade.

O originário, no homem, (…) indica sem cessar e numa proliferação sempre renovada que as coisas começaram muito antes que ele  (6)

Excepto este sacrifício, o resto é simbólico.

“Excepto este sacrifício, o resto é bastante simbólico.

Nada é garantido, na verdade, mas há elevada probabilidade de se ficar na medíocre obscuridade. O que, na verdade, tanto deriva dum mero cálculo estatístico como da natureza criativa.

Escrevo estas linhas.Parece impossível/ Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!/(…)/ Se ao menos eu por fora fosse tão/ Interessante como sou por dentro! (7)

Ilustración para El castillo, de Luis Scafati

imagem de Luis Scafati

(1) in Metamorfose de Franz Kafka, da trad.inglesa de David Wylli Project Gutenberg eBook
(2) in El libro de las mil noches y una noche, da trad. Joseph Charles Mardrus/Vicente Blasco Ibáñez Project Gutenberg eBook
(3) in A Poesia do Pensamento de George Steiner, trad.Miguel Serras Pereira ed.Relógio D'Água
(4) in Cipión y Berganza o El coloquio de los perros de Miguel de Cervantes
(5) in A galáxia de Gutenberg de Marshall McLuhan trad.Leónidas G.Carvalho/Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional
(6) in Las Palabras y las cosas  de Michel Foucault, da trad.Elsa C.Frost ed.Planeta
Agostini
(7) in Opiário de Álvaro de Campos

Escrever como não tendo um propósito

A narrativa não tem de estar sujeita a um enredo povoado de personagens ou carregado de situações, seguindo um ritmo rápido ou surpreendente (pelo menos, no sentido de surpreender pelo dramatismo).

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram*

«Jeu d’enfants #1», 2010, dessin de Jérôme Zonder

«Jeu d’enfants #1», 2010, desenho de Jérôme Zonder

O olhar de quem narra pode deambular pelo mundo que nos descreve, detendo-se em detalhes como são as cores ou os rostos, espantando-se com o movimento alucinado de um insecto em voo ou de uma vida, meditando sobre o café da manhã de todos os dias (em frente ao jornal ou a uma janela virada à rua), exprimindo ideias e impressões do narrador e daqueles que narra.

O moço atava os embrulhos de todos os dias no frio crepuscular do escritório vasto. “Que grande trovão”, disse para ninguém, com um tom alto de “bons dias”

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‘Antes de se auto-diagnosticar com depressão ou baixa auto-estima, certifique-se se, na realidade, não está rodeado de imbecis.’

Como todas as opções, esta corre o risco de desagradar e, pior que tudo, ser mesmo muito chata. Se for bem sucedida, torna-se um desafio ao leitor e pode ser extremamente gratificante.

O patrão Vasques, o guarda-livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo—tudo isso se tornou parte da minha vida

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Que tem ela de original, estimulante ou outro qualquer atributo positivo? De original, bem entendido, não tem nada. Mas coloca um parênteses no modo habitual de contar uma estória, eventualmente fazendo estória da ausência de um enredo (o qual deveria progredir página após página até o leitor afirmar com segurança que ‘este é um livro sobre…’).

Querer ir morrer a Pequim e não poder é das coisas que pesam sobre mim como a ideia dum cataclismo vindouro

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Sob a aparência da banalidade quotidiana e sem rumo definido, na realidade o enredo constrói-se sobre uma série de instantâneos que sugerem uma deriva, um mosaico ou puzzle, intrigando o leitor pela sua assumida negligência ou falta de propósito. Se o leitor tiver já alguma experiência, provavelmente percebe que é a ele mesmo que compete montar ‘as peças’ para que o mecanismo do enredo se revele e, como todo o mecanismo, revele o seu propósito.

Sinto já com a banalidade do conhecimento. Isto agora não é já a Realidade: é simplesmente a Vida

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-Olha,Emma, os nossos telefones estão a enviar textos um para o outro. Estou convencido que planeiam a nossa morte…

Porém, este processo narrativo exige algumas ‘competências’ para resultar satisfatoriamente. Destacaria o nível de qualidade da escrita (e não me refiro só ao vocabulário mínimo e correcção gramatical para se escrever um texto literário), imprescindível para prender a atenção do leitor, principalmente ao início, quando ‘não se passa nada’ e ele ainda não percebe aonde se veio meter. Sendo a escrita suficientemente elegante, convém que não seja fútil e, pelo contrário, revele inteligência e sensibilidade, duas qualidades que dão sentido ao narrado e poderão fazer o leitor ganhar o dia… melhor ainda: a perder a noite!

Contemplei-a do fundo do abismo, anónimo e desperto. Ela tinha tons verdes de azul preto e era lustrosa de um nojo que não era feio

desenho de ENRIQUE FLORES

desenho de ENRIQUE FLORES

Claro que estas ‘competências’ são as mesmas que recomendo para a elaboração de qualquer texto, literário ou não, mas aqui tornam-se mais importantes pois actuam sem rede, ou seja, sem um enredo que compense carências ou descuidos perfeitamente evitáveis. A inteligência e sensibilidade, neste caso, têm de suprir a ausência de tensão do enredo, provocando pelo humor, inquietando pelo ritmo, intrigando pela diferença.

Não costumo estar nas ruas àquela hora e por isso estava numa cidade diferente

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O resultado pode ser um texto inclassificável, uma estória talvez sem nexo, um estranho objecto literário. Daí o risco, daí as dificuldades.

Eram seis horas. Fechava-se o escritório. O patrão Vasques disse, do guarda-vento entreaberto, “Podem sair”, e disse-o como uma bênção comercial. Levantei-me logo, fechei o livro e guardei-o

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imagem de Chema Madoz

*Esta e todas as citações em itálico são retiradas do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, ed.Assírio e Alvim

Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

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cartoon de Fernando Vicente

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

Poetry debate

Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

O Passado presente

Situar o enredo numa época passada é um dos aliciantes da escrita, encantando leitores. Ou, muito pelo contrário, o maior fiasco para quem escreve e pura perda de tempo para quem lê.

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Qualquer narrativa tem um contexto, e se este  remete explicitamente o leitor para uma época histórica (ou mesmo pré-histórica) existem dificuldades que o escrevinhador não deverá negligenciar. A maior de todas, na minha opinião, é a da linguagem falada pelas personagens. Não se trata só do vocabulário e da sintaxe características da época e de que, muitas vezes, só podemos imaginar, mas do modo como se articulam ideias, raciocínios ou se expressam emoções.

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O problema central é o do chamado ‘anacronismo’, o erro de atribuir algo (uma ideia, um preconceito, um facto) a uma época que não corresponde. Esse é um erro que acontece na melhor literatura, mas tende a ser comum entre os que se dedicam a produzir narrativas segundo formatos estereotipados.

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA? Serpente: 'Maldito sejas,Homem-Aranha!'

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA?
Serpente: ‘Maldito sejas,Homem-Aranha!’

Os chamados ‘romances históricos’ podem ser boas surpresas, mas frequentemente pecam por desleixo na caracterização (de lugares e de pessoas), no conhecimento do ambiente social, cultural, político, ou pelo excesso de descrições e informações; e tudo acompanhado de diálogos ‘empastelados’ para dar o ‘tom’ da época.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Que o enredo vá ao arrepio da ‘verdade histórica’ é uma liberdade típica do escrevinhador, já que se trata de ficção assumida. A questão é a de dar verosimilhança, criar personagens ‘de carne e osso’ (mesmo que sejam fantásticas) e manter o ritmo, o fôlego narrativo, tudo aspectos comuns a qualquer escrita com pretensões literárias.

Ora, isto tanto é pertinente para um enredo situado no outro lado do mundo, mil anos atrás, como à porta de casa do escrevinhador, há cem ou dez anos, ou ainda na semana passada. Mas, convenhamos: o que nos é distante e estranho deveria obrigar-nos a um maior estudo e cuidado na composição.

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Escrever para teatro

E sobre teatro, têm-me perguntado algumas vezes, não há nada a dizer? Haver há, nem que seja para reconhecer dificuldades e limitações.

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Noutros tempos, não assim tão distantes  há milhões de anos, ali por 1900*, qualquer escrevinhador com pretensões fazia a sua peça de teatro para acrescentar mais um género à sua lista de obras publicadas ou por publicar.

Gradualmente, o cinema foi ocupando a maioria das salas de teatro e os actores migraram para a grande tela ou para o pequeno ecrã. Deste modo, a veia dramática dos escrevinhadores passou a dedicar-se à construção de scripts, roteiros, argumentos ou guiões para filmes e séries.

O teatro oferece-nos do que há de melhor na Literatura, mas existe uma grande diferença entre ler  e ver uma peça de teatro. Do mesmo modo, escrever uma peça de teatro não é uma experiência comparável à da escrita dos textos de prosa e de poesia, tal como aqui venho tratando.14205219

Professor: E contudo é muito simples: para a palavra Itália, em francês temos a palavra França que é a tradução exacta. Minha pátria é a França. E França em oriental: Oriente! Minha pátria é o Oriente. E Oriente em português: Portugal! A expressão oriental: a minha pátria é o Oriente traduz-se deste modo em português: a minha pátria é Portugal! E deste modo…

Aluna: Está bem! Está bem! Estou mal…

Professor: Dos dentes! Dentes! Dentes!…Eu vou lhos arrancar, eu! Ainda um outro exemplo. A palavra capital, a capital tem, segundo a língua que falamos, um sentido diferente. (in La leçon de Eugène Ionesco, ed.Gallimard)

Escrever para teatro pressupõe que o texto destina-se, prioritariamente, a ser ouvido. Todos os efeitos literários, neste caso, devem privilegiar o entendimento e o fascínio dum ‘espectador’. Nesse aspecto, as semelhanças com a poesia são grandes.

E, tal como a poesia, o texto dramático é interpretado por alguém que o dirá a alta voz. O texto pode até ter uma estrutura poética (com rimas e métricas).

Mas, na minha opinião, as semelhanças terminam aqui.

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desenho de Pawel Kuczynski

O teatro tem enredo, personagens, intriga, intensidade variável, toda a panóplia de efeitos que uma estória em forma de romance pode ter. Mas não existe o narrador impessoal, nem há tempo para desenvolver contextos detalhados, pois a peça tem uma duração temporal real a que se deve subordinar, e que é a convencionada para o tempo do espectáculo.

Além disso, mesmo que surja a personagem ‘narrador’, até esta se exprime em diálogo (para com o público, por exemplo) ou na clássica forma do coro grego, e, em qualquer dos casos, dando uma urgência (ou imediatismo) ao que é narrado, pois destina-se a dar lugar à acção que se desenrolará imediatamente a seguir ou a imprimir dramatismo ao que acaba de acontecer.

Coro: Há coisas prodigiosas, mas nenhuma como o homem!(…) Se respeita os usos e costumes locais e a justiça confirmados por divinos juramentos, consegue chegar ao cimo da cidadania; mas o que, ousadamente se deleita no erro, perde os direitos de cidadania;(…). (in Antígona de Sófocles, trad.António M.Couto Viana, ed.Verbo)

Ora, escrever para ser encenado, representado e declamado em palco (isto é, ao vivo), por actores e perante um público espectador, é algo que nós, a esmagadora maioria dos escrevinhadores deveríamos reflectir muito humildemente antes de nos propormos a fazê-lo.

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Hamlet(dirigindo-se aos comediantes): Peço-te que digas esta fala como te ensinei, com desembaraço e naturalidade, porque se a declamas empoladamente, (…), mais valia dar os meus versos ao pregoeiro para que os gritasse. (…) Conjuga acção com a palavra e a palavra com a acção (…). E não deixes os que desempenham os papéis de bobos dizerem senão o que lhes foi indicado, porque alguns deles começam a dar gargalhadas para fazerem rir uns quantos espectadores imbecis, precisamente na altura em que qualquer coisa importante na peça exige atenção. (in Hamlet cena II do Terceiro Acto de William Shakespeare trad.Ricardo Alberty ed.Verbo)

1. Mil macacos em mil máquinas de escrever... 2.poderão escrever 'Hamlet'. 3.Mil gatos em mil máquinas de escrever... 4.irão dizer-te para escreveres o teu maldito 'Hamlet'.

1. Mil macacos em mil máquinas de escrever…
2.poderão escrever ‘Hamlet’.
3.Mil gatos em mil máquinas de escrever…
4.irão dizer-te para escreveres o teu maldito ‘Hamlet’.

A arte dramática não se confunde com a literatura, e não poucas vezes tenho visto peças que são um verdadeiro fiasco por terem ‘literatura’ a mais e serem maçudas, muito, muito chatas. Inversamente, já vi uma peça baseada na Divina Comédia de Dante, em italiano (de que pouco ou nada pude entender), e fiquei fascinado.

Aborde o enredo logo no começo, /Até que vá morigerando o passo;/ Mas não permita nunca o desenlace/ Antes que chegue a derradeira cena;/ Porque em sabendo o vulgo como acaba,/ Vira-se para a porta e volta as costas/ Ao que esperou três horas, cara a cara,/ Porque já sabe no que a coisa pára./(…)/

(…) tenho escritas,/Com uma que acabei esta semana,/Quatrocentas e oitenta e três comédias/(…)/Porém, sustento o que escrevi, e sei/Que se fossem melhores doutra maneira/Não teriam o agrado que tiveram,/Que às vezes o que ao justo vira o rosto/Pela mesma razão deleita o gosto.

(in Arte Nova de Fazer Comédias Neste Tempo de Lope de Vega trad.A.Lopes Ribeiro, ed.Verbo)

"Que tal um pouco de música para adiantar o enredo?

“Que tal um pouco de música para adiantar o enredo?

Ou seja, em teatro o texto pode fazer a diferença, mas há muito mais para lá dele. Daí não ser minha pretensão dar dicas sobre algo que me escapa quase completamente.

*in Waiting for Godot de Samuel Beckett

 

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

Uma recomendação de um velho que já viu muito…

Não se pode falar dos escrevinhadores como sendo todos madeira do mesmo lenho, mas com isto não pretendo dizer o óbvio (que há os bons, os assim-assim e todos nós que sobramos), nem o evidente (que uns tendem para umas coisas e outros para outras, como são os prosadores e os poetas).

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Na realidade, e sem que isso pretenda ser juízo de valor, o que entendo é que há os que escrevinham por prazer, outros por paixão, uns por tédio e alguns por obsessão, talvez ainda por algum tipo de vaidade ou de dor, e assim por diante. Provavelmente, até haverá os que escrevinham por todas estas razões.

Na história da literatura de todos os países com tradição literária hão-de sobrar exemplos disto tudo. Mas o que me interessa sublinhar é que distintas motivações resultam, naturalmente, em diferentes processos de criação.

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Pessoalmente, gosto da atitude daqueles escrevinhadores já com nome feito e obra reputada que insistem em colocar o prazer de contar estórias (ou criar enredos) e a paixão pela escrita como arte de composição no topo das suas motivações.

O que não quer dizer que não haja tanto neurasténico, rancoroso ou morcão (como se diz na minha terra) na história universal da literatura a escrevinhar obras geniais.

Porém, o desejo do aperfeiçoamento, a vontade de experimentar algo diferente, creio que nasce dos que têm prazer e paixão. E nota-se, senão na qualidade dos escritos, no modo como exploram leituras e compõem suas coisas.

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Neste Verão (ou Inverno, se estiver abaixo do equador), em que o humilde escriba deste ainda mais humilde blog passará a ter uma quebra de produtividade semanal, fica esta recomendação: leiam bem, escrevam como podem e, acima de tudo, vivam uma vida!

Um curto parênteses para repetir o de sempre

Para aqueles que pedem dicas para a promoção dos livros editados, relembro que não é essa a vocação deste humilde blog. O seu propósito é reflectir sobre a criação literária numa perspectiva algo teórica, algo prática.

imagem de Pawel Kuczynski

imagem de Pawel Kuczynski

Numa época em que a auto-edição (ou edição de autor) é cada vez mais acessível, o escrevinhador tem total liberdade criativa, correndo o risco de não ser lido e que é o risco de todos os tempos, no passado, no presente e no futuro.

É por isso que entendo vivermos numa época de ouro da escrita (tudo se pode publicar) e o seu contrário (raro é o livro publicado que se aproveita).

Quando digo ‘raro’, não pretendo dizer que hoje se escreve pior do que antes, mas que o aumento maciço de edições desequilibra a proporção entre os livros interessantes e os outros.

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Assim, mais do que se preocupar com a promoção, creio que o escrevinhador deve ser autêntico e interessante…qualidades que, de modo algum, se confundem.

Pode ser interessante sem ser autêntico?

Evidentemente que sim, mas acaba sempre por se notar algo de postiço e/ou vazio na escrita.

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‘Dr.Peter-psiquiatra’  PACIENTE:”Ninguém presta atenção ao que eu digo. Sou tão chato, as pessoas desinteressam-se” PSIQUIATRA: “Desculpe, estava a dizer alguma coisa?”

Autêntico sem ser interessante é o mais comum, pois se a qualidade de alguém ser o que é já se torna muito duvidosa na vida em geral, não há nenhuma razão para que a escrita seja excepção.

Daí regressar incessantemente à interrogação escrever como?

"Oh, sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se eu trabalhasse desse modo acabava despedido."

“Oh, eu sei que Ele trabalha de modo misterioso, mas se trabalhasse desse modo acabava despedido.”

 

 

Liberdade criativa e autocensura

Onde haja censura legal ou de facto, o escrevinhador pode gozar a liberdade (correndo riscos) de escrever o que bem entende, como bem entende, guardando depois na gaveta ou fazendo circular clandestinamente os seus escritos. Muitos escrevinhadores escreveram e publicaram sob regimes de censura, conseguindo iludir os censores de alguma maneira.

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Mas, independentemente da época, do país e das circunstâncias políticas e sociais, o escrevinhador enfrenta a dificuldade imposta pela sua própria incapacidade em lidar com certos conteúdos, formulações, umas vezes evitando-os, outras encobrindo-os até de si próprio.

A nostalgia escorre dos livros/introduz-se debaixo da pele/e esta cidade sem pálpebras/este país que nunca sonha/logo se converte no único sítio/onde o ar é o meu ar/e a culpa a minha culpa. (1)

A autocensura não é, de modo algum, confundível com a autocrítica: a primeira manifesta-se pela compulsão, negação, recalcamento, abstenção, silêncio, enquanto a segunda é, ou deve ser, uma reflexão ponderada e livre sobre o texto escrito.

Poetas a vir! Oradores, cantores, músicos que estão a vir!/Não é o hoje que me justifica nem que responderá para que vim,/Mas vocês, uma nova linhagem, nativa, atlética, continental, tão grande quanto jamais vista,/Venham! pois vocês são quem deve me justificar./Eu por mim mesmo escrevo apenas uma ou duas palavras indicativas para o futuro,/eu avanço um momento apenas na engrenagem e volto rápido pela escuridão./Eu sou um homem que, perambulando por aí sem nunca parar totalmente, lança um olhar sobre vocês e, depois, desvia sua face,/Deixando isto para que o afirmem e definam-no,/Esperando as maiores coisas de vocês! (2)

Por vezes, quando os escrevinhadores exprimem suas dificuldades em rever, reescrever, reflectir criticamente os textos, suspeito que estejam sob a influência de um mecanismo inconsciente de autocensura. Que me parece ter algo a ver com as clássicas descrições dos fenómenos de recalcamento.

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Isso pelo modo como exprimem a resistência em proceder a qualquer tipo de auto-exame: sentem uma grande fadiga mental, desalento, falta de concentração, aversão, em alguns casos mal-estar, enjoo ou náusea, irritação, impulsos destrutivos (rasgar o texto ou apagá-lo), etc.

Dizem-me teus olhos, claros como o cristal:/”Por ti, bizarro amante, qual é então o meu mérito?”/—Sê charmosa e calá-te! Meu coração, a quem tudo irrita,/ Excepto a candura do antigo animal/Não quer mostrar-te o seu segredo infernal/(…)/Odeio a paixão e o espírito me faz mal! (3)

A ser assim, entendo-o pela função que a escrita possa ter para o escrevinhador: é o seu modo ‘terapêutico’ de lidar com assuntos mal resolvidos, emoções profundas e traumas de que talvez tenha, talvez não, consciência.

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Ora, como já aqui tem sido dito (e também ali, além, acolá e ainda aqui), a qualidade literária pode ter  mais a sofrer do que a ganhar quando a escrita, em vez de ser acto de expressão criativa, resulta num mecanismo qualquer de libertação de tensões. Sem com isso negar o seu valor terapêutico, bem entendido.

-Odeio quando me fazes passar por um idiota.

-Odeio quando me fazes passar por um idiota.

E a possibilidade de, apesar disso ou por causa disso mesmo, estar na origem duma obra-prima.

(1) in Noción de Patria, de Mario Benedetti

(2) Poetas a vir  (Poets to Come) de Walt Whitman, tradução de André Boniatti

(3) in Sonnet d’Automne, de Charles Beaudelaire

Escrever como terapia

O sentido dado aqui a ‘terapia’ é muito amplo, e desde há muito que as artes em geral são entendidas, também, como um modo do sofredor (de amores, de melancolia, de obsessões, de desgostos, de doenças físicas ou mentais…) recuperar a saúde até um certo ponto. Ou, de algum modo, a comprazer-se com a dor.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

A escrita literária, principalmente, gerou muitas e boas obras graças a este processo. Mas é incomensurável o número das que são simplesmente insuportáveis.

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O problema não está na necessidade do escrevinhador em ‘trabalhar’ suas emoções e sentimentos, ordenando ideias, exprimindo sensações. Provavelmente, tudo isto é a matéria-prima e o combustível do processo artístico.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

O problema está, creio eu, em deixar o processo ser dominado por essas mesmas emoções, sentimentos, ideias e sensações: o escrevinhador como que se isenta de quaisquer faculdades críticas e estéticas.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se se pode escrever bem sem essas faculdades, só o vejo possível para quem tem interiorizado com elevada técnica e apuro o exercício da escrita.

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De outro modo, acontece o previsto: a produção de textos sem valor literário, ainda que ricos em material para análise psicanalítica…e, na esmagadora maioria das vezes, nem isso, vista a sua banalidade confrangedora.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Conforme já por aqui tenho dito, não se está a pôr em causa a importância da espontaneidade, das emoções-sentimentos-etc-e-tal, e de tudo o mais que exprima o mundo interior de cada qual. Mas a relativizá-los enquanto material para uma escrita com pretensões literárias, a ser partilhada com leitores desconhecidos.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se são importantes, para não dizer fundamentais, numa primeira fase do processo da escrita, têm de ser avaliados rigorosamente numa fase posterior a que chamei ‘pós-produção’ literária.

QUESTIONÁRIO POPULAR! Há mais alguma coisa na vida? SIM/NÃO -Raios.Eu devia saber esta...

QUESTIONÁRIO POPULAR!
Há mais alguma coisa na vida?
SIM/NÃO
-Raios.Eu devia saber esta…

 

* retirado de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro (apresentação crítica, fixação do texto, notas e linhas de leitura de Teresa Amado) Colecção Textos Literários—Editorial Comunicação 1984

 

 

 

 

Montagem, harmonia, linha de fuga…

Para ilustrar técnicas, processos estilísticos e outros aspectos da criação literária, é mais fácil recorrer a conceitos de outras formas de expressão artística, como o cinema, a música e a pintura.

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Também, cada vez menos partilharmos o mesmo cânone literário, e pormo-nos a par não se faz em meia-dúzia de dias; assim,como ‘trabalho de casa’ costumo sugerir o visionamento de filmes para comparar o tratamento dado ao mesmo argumento por realizadores diferentes .

Quando digo ‘argumento’ tanto me refiro às diferentes versões cinematográficas do mesmo livro (‘Romeu e Julieta’ de Shakespeare, p.ex.), da mesma estória (a vida de Cristo, p.ex.) ou do mesmo tema (a fuga da prisão, o adultério, a vida de bairro).

Um dos aspectos mais fascinantes e úteis na técnica narrativa, comum à literatura e ao cinema, é a montagem, aquele trabalho pós-gravação das cenas, onde se dá ordem e coerência a centenas de horas de filme, cortando o que não interessa, colando captações distintas da mesma cena, dando sequência duma cena para a outra, com efeitos estilísticos paralelos ao da narrativa escrita.

Sobre cinema e literatura ainda me atrevo a dar palpites e comentários, mas de música devia estar calado e ser absolutamente omisso.

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Combinação entre uma técnica de Banda Desenhada (os ‘balões’) e o Cinema (fotograma retirado do Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica) resultando num  ‘cartoon’ satírico com o característico ‘punch-line’.

 

Porém, como toda a gente aprecio música, sei como a banda sonora de um filme pode ter um efeito sinestético poderoso e  sinto a sonoridade do texto, experimento uma harmonia musical no enredo, por vezes escrevo com um ritmo que é o de ‘qualquer-coisa-musical’ que faz a diferença de outros escritos, ou secções do mesmo livro.

Por absoluta ignorância, sou incapaz de desenvolver teoricamente o paralelismo entre a música e a escrita literária, e temo sempre o meu entusiasmo a este respeito, principalmente quando vou buscar termos técnicos da música para ilustrar algum tópico. Mas fica a dica para o efeito sensorial, estético, que é comum a muitos escrevinhadores, sendo fonte de inspiração para todos eles.

Moisés faz o balanço... -Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia...mas nunca tive um êxito musical.

Moisés faz o balanço…
-Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia…mas nunca tive um êxito musical.

Do mesmo modo, a pintura e a fotografia são igualmente estimulantes, igualmente simbióticas para com a literatura, e frequentemente sugiro que se  ‘olhe’ um poema, um livro, como quem ‘lê’ certos quadros, certas fotos. A perspectiva, a linha-de-fuga, por exemplo, é uma noção particularmente útil.

E aqui tenho de acrescentar a Oitava Arte, a Banda Desenhada, que sintetiza exemplarmente o Cinema, a Pintura, a Literatura, além de desenvolver a sua abordagem estética específica.

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Da dança gostaria de dizer alguma coisa, até porque sou particularmente sensível à parte física da palavra, da ideia, do enredo, coisa que ‘entendo’ muito bem quando assisto a danças de salão ou de ballet contemporâneo. Mas aí falha-me o próprio vocabulário, desgraçadamente.

Em todos os casos, esta contaminação das artes, do mais básico ao mais elaborado dos raciocínios e das teorias, da simples fruição ao exercício apurado, do apreciador ocasional ao diletante, ajudam o escrevinhador a compreender as relações entre a parte e o todo na fase da pós-produção literária, distinguindo o sentimentalismo da paixão, a emoção da criação, assim como a desenvolver sentido crítico.

la muse, de jean esparbes

la muse, de jean esparbes

Cultivando sempre o grãozinho de loucura, a relação com a bela Musa, obviamente.

 

 

 

Corrigir, eliminar, acrescentar, realinhar, jogar fora e começar de novo…

Na pós-produção literária, catar erros ortográficos e morfológicos ou corrigir deficiências na sintaxe são actividades básicas.

E também há que esquadrinhar frase a frase para clarificar o sentido, eliminando incoerências, redundâncias, incertezas.

?Não consigo ler isto, tem de melhorar a sua escrita!'

                      -Não consigo ler isto, tem de melhorar a sua escrita!                                                                                           -Se melhorar, vai descobrir todos os meus erros ortográficos!           

Aqui começa a revisão dos conteúdos do texto, procurando eventuais contradições internas (por exemplo: na cronologia dos acontecimentos e nos detalhes biográficos das personagens)  e erros de facto (relativos ao que é exterior ao próprio texto, como a geografia, datas e acontecimentos históricos, dados científicos citados). Mesmo escrevinhadores talentosos e de obra reconhecida falham nestes detalhes, o que também não abona nada sobre o trabalho editorial que devia apoiá-los.

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Por vezes, o trabalho da pós-produção revela que frases, parágrafos, capítulos inteiros, têm de ser radicalmente reescritos. Ou simplesmente eliminados. Porquê?

Esse é um dos mistérios da criação literária. Ou talvez resulte do amadurecimento do escrevinhador, depois de ter escrito aquilo que se propunha e quando vê o conjunto dum ponto de vista mais distante, menos emocional. Pode ser especialmente gratificante, porque é uma reescrita que visa realçar o essencial e eliminar o que prejudica, resultando em algo mais elegante, mais atraente, mais contundente, mais…enfim, dá para entender, não dá?

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A pós-produção irá agravar a fragilidade do escrevinhador inseguro, ao revelar-lhe deficiências e problemas em demasia (ou assim ele julga), para os quais a única saída que encontra é mandar tudo para o caixote do lixo (ou tecla DELETE). Porém, muitas vezes há vantagem em realinhar o enredo, acrescentar  e retirar situações, desenvolvimentos, personagens. Dá trabalho, exige inspiração, consome tempo…pois, na escrita, barato mesmo são só o papel e a tinta.

Dilbert Marketing

Que a pós-produção é responsável por alguns suicídios, muitas depressões, bloqueios, destruição de obras inteiras, é algo que todo o escrevinhador deveria ter presente antes de se iniciar na aventura da escrita. Mais grave, no entanto, é a legião de escrevinhadores que não só não tem disto consciência, como depois despreza ou ignora a pós-produção.

FÁBIO MOON E GABRIEL BÁ

Os cínicos dirão que não virá grande mal ao mundo por se escrever (e publicar) mais um mau livro, mais um livro assim-assim, mais um livro chato. E que esses escrevinhadores não estarão a cometer piores barbaridades enquanto se entretêm a escrever. Provavelmente, os cínico estão certos.

 

E agora algo completamente diferente *

*título de um famoso sketch dos Monthy Python

Pondo de lado os diversos tipos de censura literária e os critérios editoriais, a actividade literária tem evoluído para a dessacralização das regras, a liberdade de opção estética, o direito a escrever como o escrevinhador entende. Inclusive o de versejar com parâmetros métricos ou formais consagrados, anacrónicos ou outros.

Pode-se dizer e, por conseguinte, escrever seja o que for sobre seja o que for. Raramente nos detemos para observar ou confirmar este lugar-comum. Mas habita-o uma enigmática desmesura.(1)

É nesse sentido que formulo a expressão vale tudo e nada é garantido. O ‘nada’, bem entendido, é a receptividade do texto, o seu sucesso entre críticos, editores ou leitores. Ou a esperança de que uma posteridade ofendida vingará a memória do escrevinhador ignorado no seu tempo.

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

Vingança póstuma, aliás, ameaçada pela produção (e publicação) massiva de textos com pretensão literária. E a poesia, na minha limitada percepção, é a fórmula literária mais popular actualmente, como era há 500 anos atrás.

Se nada o limita, se nada tem a perder, porque há-de o escrevinhador abafar sua criatividade?

-Para teu bem, é melhor que o que vais dizer seja realmente importante!

-Para teu bem, é bom que o que tenhas a dizer seja realmente importante!

Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é um modo de não haver defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. Mas de qualquer modo há alguma desfasagem.Começa assim: como o amor impede a morte, e não sei o que estou querendo dizer com isto.(2)

Existe uma componente experimental na escrita, a nível do estilo, do tema, do enredo, até da própria linguagem e grafismo, que, por natureza, tende a aperfeiçoar com a persistência e o tempo. Se isso não acontecer, desista, caro escrevinhador: o seu caminho não é por aí.

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(a respeito da poesia pode ainda dizer-se:—A lâmpada faz com que se veja a própria lâmpada. E também à volta.) 

(Evita as tentações da teoria: o poema é uma coisa veemente e frágil. E não é frontal, mas insidiosa.) (3)

E como calibrar critérios de ‘perfeição’ numa via experimental? Seduzindo leitores, parece-me óbvio. Mas pode alguém seduzir se não estiver, por sua vez, seduzido por aquilo que faz?

O pior é que pode, o excessivo rigor ou a simples insegurança não impedem que se escreva textos gloriosos que o próprio escrevinhador tentará destruir, quantas vezes com êxito. Recorde-se o caso clássico do poeta Virgílio: deixou indicações escritas para que a obra-prima Eneida fosse destruída (eventualmente por estar a morrer e ter deixado a obra sem o desenvolvimento previsto, nem as revisões necessárias).

LIVROS RAROS "Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade."

LIVROS RAROS
“Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade.”

…E enquanto mantiverdes ainda, seja no que for, vergonha de vós próprios, não sereis capazes de ser dos nossos.(4)

Ora, torna-se pedagógico para o próprio escrevinhador desenvolver experiências, fugir às rotinas técnicas, temáticas e outras.

Deste modo torna-se consciente dos seus limites e percebe melhor aonde pode ir, se tentar.

Acima de tudo, a meu ver, torna-se crítico de si mesmo, nomeadamente das fórmulas estereotipadas como estrutura as ideias, como formata a sua expressão, o próprio vocabulário.

O que atrai o escritor, o que agita o artista, não é directamente a obra, é a sua busca (…). Daí que o pintor a um quadro prefira os diversos estados desse quadro. E o escritor muitas vezes deseja não acabar  quase nada, deixando no estado de fragmentos cem narrativas cujo interesse consistiu em terem-no conduzido a certo ponto.(5)

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO "A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito."

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO
“A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito.”

(1) in Presenças Reais de George Steiner ed.Presença trad.Miguel Serras Pereira

(2) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Nova Fronteira

(3) in Photomaton & Vox de Herberto Helder ed.Assirio e Alvim

(4) in A Gaia Ciência de Frederico Nietzsche, ed.Guimarães & Cª, trad.Alfredo Margarido

(5) in O Livro Por Vir de Maurice Blanchot ed.Relógio d’Água trad.Maria Regina Louro

Questões de gosto e de modas

Se não tem compromissos editoriais, nem público-leitor a quem justificar fidelidades, por que há-de o escrevinhador se preocupar com o ‘sucesso’? Por que há-de angustiar-se com a ‘formatação’ daquilo que está escrevendo neste momento? 

Sou um autor de 'edições de autor' que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Sou um autor de ‘edições de autor’ que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Também aqui não existem respostas simples.

O ‘sucesso’ é uma aspiração legítima, um critério de valor, e a ‘formatação’ será o modo como os escritos estão estruturados num todo coerente e atraente do ponto de vista do leitor. 

O escrevinhador procura ‘a’ fórmula que resulte, aquela que vai de encontro às expectativas do leitor. Portanto, há que estar atento às tendências, aos gostos dominantes, ao que está na moda.

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Assumindo que os leitores valorizam menos o estilo e mais os conteúdos, por exemplo. Também se pode supor que o interesse pela estória será sempre maior quando o ritmo for rápido, as surpresas variadas e o desfecho imprevisto.

E, para facilitar a leitura e a compreensão ao leitor, evitam-se complicações estilísticas, caracterizações ambíguas, dilemas sem resposta evidente, referências extra-textuais, coisas assim que desafiam o entendimento e podem enfastiar o infeliz, levando-o a pousar o livro de forma definitiva e sem apelo.

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Os riscos duma tal abordagem são evidentes: se o enredo não estiver à altura das expectativas e/ou o ritmo ficar aquém da intensidade para ‘agarrar’ o leitor, o vazio literário torna-se óbvio.

Além disso, há sempre o risco de errar na premissa da fórmula: a de que o escrevinhador conhece os gostos, as tendências dominantes.

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Se fosse muito, mas muito crítico, diria que essas coisas a que chamam ‘tendências’, ‘gostos’ ou ‘moda’ são construções elaboradas, produzidas para servirem de orientação aos consumidores (e não é que o disse?!)

Talvez fosse melhor, por tudo isto,  que o escrevinhador novato nestas andanças não condicionasse a criatividade aos modelos estereotipados daquilo que possa julgar ser ‘o’ público-alvo. 

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Horizontes da escrita

Um dos atractivos e paradoxos da actividade do escrevinhador é que a medida do seu talento, a produção de uma obra literária interessante (senão mesmo magnífica), não tem nada a ver com ter vivido uma vida com a mesma grandeza.

Inversamente, pessoas que viveram vidas de aventura, paixão e combate podem resultar em medíocres escrevinhadores. O que serve de alerta para os mais apressados: a expressão escrita e a criação literária dependem de algo mais do que inspiração e desejo.

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Porém, não se deduza daí que a vida banal, monótona e sem cultivar interesses é porta aberta para uma carreira literária de sucesso.

Em todos os tempos, o escrevinhador que soube transformar o seu dia-a-dia em material bruto para a poesia, a ficção ou algum tipo de estudo, memorialismo, reflexão, pôde transcender os limites duma vida obviamente limitada.

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ouve todo o mal-observa todo o mal-posta todo o mal

Conversas, viagens e usufruir livros, pinturas, músicas, filmes, são contributos acessíveis ao escrevinhador do terceiro milénio d.C., boa parte deles já aproveitados com sucesso por outros escrevinhadores dos milénios passados.

Como faz o próprio Dante pedindo a Virgílio que o guie: ” ‘Poeta, me concede (…) que tu me leves lá onde disseste, à porta de São Pedro, ora te rogo, e a esses que tão tristes descreveste.’ Então moveu-se e eu seguiu-o logo.” (Inferno canto I in A Divina Comédia de Dante Alighieri trad.Miguel Graça Moura, ed.Bertrand)

O desafio que se coloca ao escrevinhador mantém-se intemporal: desenvolver uma óptica peculiar, distintiva, ‘original’.

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Mas sem chegar ao apuro de Tzinacan, mago da pirâmide de Qaholon, que depois de ‘longos anos a aprender a ordem e a configuração das manchas‘ do pêlo do jaguar, decifrou-as e entendeu que aquela forma de escrita era ‘uma fórmula de catorze palavras casuais (que pareciam casuais) e bastar-me-ia dizê-la em voz alta para ser todo-poderoso‘.

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Tzinacan nunca as disse, apesar de com isso ganhar a liberdade, recuperar a juventude e obter a imortalidade. E porquê? ‘Quem entreviu o universo, quem entreviu os ardentes desígnios do universo, não pode pensar num homem, nas suas triviais venturas ou desventuras, mesmo que esse homem seja ele. (…) Por isso não pronuncio a fórmula, por isso deixo que os dias me esqueçam, deitado na escuridão.’ (A escrita do Deus in Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa)

Mas Tzinacan é um mago, um místico, sem intenções de escrevinhar para os seus contemporâneos ou para a posteridade.

A óptica peculiar de que falo pode ser entendida como a fuga à repetição, mesmo que em processo de re-criação. Como se o cume da criação literária seja o dispensar da Musa (tradição, cultura) e do demónio interior (afectos, influências).*

Numa perspectiva crítica rigorosa, provavelmente se resumem a uma, duas dúzias, os que foram capazes de o fazer.

Que importa? O desafio é um aguilhão ao conformismo da auto-satisfação.

"Se não acreditas em ti, quem acreditará?"

“Se não acreditas em ti, quem acreditará?”

E a esse desafio acrescente-se o domínio formal da escrita, da Língua. Principalmente se aparenta subvertê-la.

Demasiada areia para todos nós, escrevinhadores anónimos e inseguros, não é mesmo? E contudo, quantos livros não foram feitos segundo o mote ‘Vivam uma vida e escrevam como se tivessem vivido mil e uma vidas‘?

*se bem entendo Harold Bloom em A Angústia da Influência uma teoria da poesia trad. Miguel Tamem ed. Cotovia

Por mares nunca antes navegados, Luís Vaz?! Tens mesmo a certeza?

Poderá, ainda, haver a ilusão de ser original depois de dezenas de séculos de Literatura? Homero escreveu sobre a atribulada odisseia* marítima de Ulisses no regresso a casa, Camões descreve a viagem marítima de Gama à Índia, Joyce escreveu Ulysses relatando um dia na vida de um tal Leopold Bloom e Gonçalo M. Tavares relata a viagem à Índia do mesmo Bloom do livro de Joyce.

'EDITORA DO 1º SÉCULO' título do livro A vida de Cristo -Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

‘EDITORA DO 1º SÉCULO’
título do livro:”A vida de Cristo”
-Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

Homero remete para uma anterior obra, Ilíada (que fala dos acontecimentos que explicam a longa ausência de Ulisses) e é, obviamente, devedor de toda uma tradição narrativa mitológica e náutica; Camões é um expoente da tradição épica iniciada pela Ilíada e é, especialmente, tributário assumido do modelo da Odisseia; no Ulysses, Joyce desenvolve a narrativa e seus personagens principais em paralelo com os acontecimentos e personagens da Odisseia; Tavares vai ‘buscar’ o personagem principal de Ulysses e transporta-o para uma viagem que tem, por sua vez, assumida inspiração nos Lusíadas.

Por vezes, no espaço de 20 anos apenas, de Lisboa a S.Petersburgo, passando por Yonville l’Abbaye, surgem personagens literários que partilham idênticos fados, como são Emma Bovary, Ana Karenina e, menos famosa mas igualmente exemplar, Luísa Mendonça de Brito Carvalho.

-Diz algo ORIGINAL.
-Amo-te!
-A originalidade está sobrevalorizada.

Na altura da morte de Emma, o farmacêutico  Homais faz um balanço final:

(…) ou ela morreu em estado de graça (como diz a Igreja), e então ela não tem necessidade nenhuma das nossas orações; ou bem que ela morreu impenitente (que é, creio, a expressão eclesiástica), e então…” (1)

A respeito de Ana, a condessa Vronskaya não tinha dúvidas:

“Diga o que disser, a verdade é que era uma mulher má. Pode compreender uma paixão assim? Que quis ela demonstrar com aquela morte? Perdeu-se a si mesma e estragou a vida de dois homens, qualquer deles de grande mérito: o marido e o meu infeliz filho.” (2)

De Luísa diria o imortal Conselheiro Acácio:

Detendo-vos, e olhai a terra fria! Ali jaz a casta esposa tão cedo arrancada às carícias do seu talentoso cônjuge. Ali soçobrou, como baixel no escarcéu da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu lar! “(3)

A ela se referiu, também, o Visconde Reinaldo:

(…) mas a verdade é que não era uma amante chique; andava em tipóias de praça; usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuía relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sapatos de ourelo; não tinha espírito, não tinha toalete… que diabo! Era um trambolho!“(3)

Pela própria universalidade da condição humana dos escrevinhadores, podem-se listar tradições literárias, sem aparente relação entre si, a tratarem os mesmos temas. 

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!... -Pois fique a saber que penso exactamente igual!

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!…
-Pois fique a saber que penso exactamente igual!

Em nenhum dos casos citados acima há o menor risco de plágio, mas existem notórias evidências de criação e génio literário a partir da ‘contaminação’ de temas, estilos e enredos duma tradição livresca que, desde há muito, se expandiu para outras formas de expressão artística, tornando-se uma referência cultural que, cada vez mais, não passa pela leitura, nem pelo reconhecimento das fontes originais.

-O que disse César quando Brutus o apunhalou? -Ai!

-O que disse César quando Brutus o apunhalou?
-Ai!

É nesse sentido que falo nos ‘novos mundos’ que se abrem: abordando temas que julga serem íntimos, únicos, por terem sido vividos ou por qualquer outro motivo, o escrevinhador irá inevitavelmente encontrar ‘cidades antigas’ em territórios que julgava virgens da presença humana,  assim como descobrirá vestígios de anteriores ‘exploradores’.

O triste é se nem se dá conta de estar a trilhar um caminho bem conhecido. E, para cúmulo, nem tendo consciência do quanto é devedor daqueles que por ali passaram primeiro.

* originalmente, o nome de Ulisses em grego é Odysseus, pelo que ‘odisseia’ significa a ‘história de Odysseus’ e, mais tarde, passou a significar viagem de aventuras e acontecimentos extraordinários.

(1) in Madame Bovary de Gustave Flaubert

(2) in Ana Karenina de Leão Tolstoi trad. João Netto

(3) in O Primo Basílio de Eça de Queirós

A ambiguidade inequívoca

Habituados os leitores à exaltação da virtude da Verdade e da Certeza na vida social pública e privada, muito mais ainda na esfera política e económica, compreendo que fiquem alguns escrevinhadores perplexos com a insistência com que neste blog se propõe a ‘ambiguidade’ como valor literário e critério de avaliação do texto e do enredo.

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Atribuir às palavras uma correspondência com “as coisas de fora”, vê-las e usá-las como algo que representa a “realidade” do mundo, não é apenas uma ilusão comum. Torna também a linguagem uma mentira. (in Presenças Reais de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed. Presença)

Já noutros posts se falou algo sobre isso, mas creio nunca ser demais caracterizar o ‘literário’ como o exercício da ambiguidade. Não como um ‘vício’ da linguagem (ou de carácter), mas como expressão da polissemia das palavras, dos potenciais sentidos duma frase.

Poema de geometria e de silêncio/Ângulos agudos e lisos/Entre duas linhas vive o branco (‘Poema’ in Coral de Sophia de Mello Breyner, ‘Obra Poética’ ed.Caminho)

Este é um dos ‘segredos’ da poesia: mesmo sob o rigor formal da composição, sua liberdade de interpretação escapa ao próprio escrevinhador a partir do momento em que o leitor a lê.

'I'm a divorce lawyer. That helps a lot because as a sideline, I'm writing love poems.'

‘Sou um advogado especializado em divórcios. Isso ajuda-me muito porque também escrevo poemas de amor.’

A ambiguidade também pode ser vista como técnica de construção das personagens, dando-lhes espaço para afirmar a ‘sua’ verdade sem serem agrilhoadas a uma tipologia que as empurre para o lado dos ‘bons’ ou dos ‘maus’.

Que te disse pois, outrora, Zaratustra? Que os poetas mentem demasiado? E contudo o próprio Zaratustra é poeta. Acreditarás agora que ele tenha , neste ponto, falado verdade? E, se assim é, porque o acreditas? (in Assim falava Zaratustra de Frederico Nietzsche trad.Carlos Grifo Babo ed.Presença)

E, deste modo, estendendo-se a ambiguidade ao próprio enredo.

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A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio: essa é que é a regra do rei! O senhor…Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira)

Todavia, a ambiguidade é a própria medida da capacidade de interpretação do leitor. Como se o acto de criação não terminasse com o fim da escrita.

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O que leva a outro tópico do post anterior: as cidades antigas e as marcas de exploradores ‘num mundo sempre novo por explorar’.

Impulsos aleatórios

Certo: o esboço duma ideia, o fantasma duma memória há muito esquecida, um sentido imprevisto ao escutar algo, o realinhar de perspectiva frente ao horizonte sugerido por uma leitura…tudo rápido e incerto, difícil de expressar, quanto mais de elaborar.

Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. (…)

Quero apossar-me do é da coisa. (…) E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro.*

pintura de Clarice Lispector

Ás vezes, nem isso: é o impulso de passar por escrito relâmpagos que se acendem numa tempestade interior, íntima.

Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo às pinturas e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras __ e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão. *

Com que resultado? Ah, pois…!

Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê agora o que se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação energética dos eléctrons, prótons, nêutrons, no fascínio que é a palavra e a sua sombra.” *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

As palavras até podem surgir, mas o texto não se parece em nada com o que tão fortemente impressionara o escrevinhador segundos antes. E por mais voltas que dê, entre a ideia-intuição-sensação-não-sei-o-quê e aquilo que é escrito gera-se uma claustrofobia que provoca a sensação de impotência.

As grutas são o meu inferno. (…) Tudo é pesado de sonho quando pinto uma gruta ou te escrevo sobre ela, (…) Quero pôr em palavras mas sem descrição a existência da gruta que faz algum tempo pintei__e não sei como. (…) Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar. Vejo palavras. O que falo é puro presente e este livro é uma linha reta no espaço. *

Mas tem um porém.

O que te escrevo não vem de manso, subindo aos poucos até um auge para depois ir morrendo de manso. Não: o que te escrevo é de fogo como olhos em brasa.

(…)Será que isto que estou te escrevendo é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é. Quem for capaz de parar de raciocinar__o que é terrivelmente difícil__ que me acompanhe. (…) Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei onde me levará esta liberdade. *

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Tenha o escrevinhador persistência para acumular estes ‘vómitos’ (conforme já ouvi alguém dizer a propósito do que escrevinhava), coragem para os enfrentar com regularidade e método para os trabalhar, e verá acontecer debaixo dos seus próprios olhos o mecanismo da selecção natural.

(…) sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. 

Vou agora parar um pouco para me aprofundar mais. Depois eu volto.

Voltei. Fui existindo. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Do caos e dos detritos, surgem conjuntos, categorias, ordens, sistemas: relações e desenvolvimentos que se impõe ao próprio escrevinhador, segundo uma lógica e um sentido que tanto podem ser misteriosamente familiares, como espantosamente originais.

Escrevo ao correr das palavras. (…)

No fundo de tudo há a aleluia.

Este instante é. Você que me lê é. (…)

Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Haja método para trabalhar a inspiração. Uma outra forma de dizer: seduzir a Musa para que ela se entregue com paixão.

(…)agora quero ver se consigo prender o que me aconteceu usando palavras. Ao usá-las estarei destruindo um pouco o que senti__mas é fatal.

(…) São sensações que se transformam em ideias porque tenho que usar palavras.(…)

O que te escrevo continua. E estou enfeitiçada. *

* in Água Viva de Clarice Lispector ed. Nova Fronteira

Provocar a inspiração

A propósito dos temporais em terra e no mar, neste momento muito mediáticos e actuais, pedem-me orientação para uma qualquer obra a ser escrita.

Quando dediquei a Dezembro uma série de posts, destaquei três temas recorrentes: o Tempo, o Natal, o Inverno. Conforme expliquei na altura, e corrigi a seguir, o mês de Dezembro será o mais sugestivo dos meses. 

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Podia fazer o mesmo mês a mês ou, em alternativa, isolar um tema (‘o temporal’) e explorar as suas linhas de força. É um modo ‘criativo’, como outro qualquer, de sondar temas que o escrevinhador pressente que tenham potencial para a sua escrita. Mas se já está impressionado com os relatos do (mau) tempo que faz por aí, então deve aprofundar a razão dessa ‘impressão’.

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Pode ser o fascínio pela força da natureza em fúria. Pode ser o relembrar de outro temporal, outras catástrofes, de que, eventualmente, tenha sido testemunha ou de que ouviu contar por quem tenha assistido e/ou sofrido as consequências. 

Assim como podem ser associações, geralmente inconscientes, e que são o combustível para alimentar toda uma narrativa. Ou várias. Nesse caso, o temporal de chuva, vento e frio é pretexto para outras tormentas, mais íntimas, pessoais e menos óbvias.

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Como acontece, exemplarmente, em Wuthering Heights (traduzido tanto por O Morro dos Ventos Uivantes como O Monte dos Vendavais)  de Emily Brontë:

Wuthering Heights é o nome da residência do sr.Heathcliff. ‘Wuthering’ é um adjectivo com significado local, descritivo da perturbação atmosférica a que a sua situação é exposta em dias de tempestade.“*

De facto, o narrador e personagem do livro, o sr.Lockwood, irá constatar à chegada ao Monte dos Vendavais que o nome tem essa justificação, mas o título do livro alude muito mais à tempestade dos afectos e das vidas das pessoas que viveram naquela casa. Como o próprio leitor será levado a concluir.

“Meu amor por Linton é como a folhagem no bosque: o tempo há-de mudá-lo, sei bem, tal como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas por baixo: uma fonte de escasso prazer visível, mas necessário. Nelly, eu sou Heathcliff!”*

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A escolha do adjectivo ‘wuthering’, que associa o vento e o ruído do soprar do vento, sai reforçado na cena fantasmagórica que uma noite de temporal suscita, perturbando o sono do narrador:

(…) os meus dedos apertaram dedos duma pequena mão gelada! O horror intenso de um pesadelo apoderou-se de mim: tentei retirar o braço, mas a mão agarrava-o, e a voz mais melancólica gemeu, ‘Deixa-me entrar, deixa-me entrar!’ ‘Quem és tu?’, perguntei, esforçando-me, entretanto, por me libertar. ‘Catherine Linton,’ respondeu (…) ‘Voltei para casa: andei perdida no pântano!’  Enquanto falava, pude ver vagamente, um rosto de criança através da janela. O terror fez-me ser cruel; e, percebendo que era inútil tentar sacudir a criatura, puxei o seu punho para o vidro partido, e esfreguei-o para trás e para a frente até o sangue correr (…) mas continuava a gritar, ‘Deixa-me entrar!’ e persistia com o pulso fechado e tenaz, enlouquecendo-me de medo.“*

O escrevinhador faz bem em estar atento a todos os estímulos à sua veia criativa, explorando sentidos e desenvolvendo relações, tomando notas, deixando sua fantasia correr livremente. O resto virá depois, se tiver de vir.

* in The Wuthering Heights de Emily Brontë

O ritmo dos acontecimentos

O enredo pode exigir que os acontecimentos se sucedam com rapidez, numa sequência não-necessariamente-linear, empolgando o leitor a virar página atrás de página. Ou que assim seja em certos momentos. Tudo em prol do desenvolvimento duma estória rica em surpresas e mudanças.

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“20 de Abril: Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira (…) como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? (…) Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo “clássico” do “conto filosófico”, inserindo nele (…) personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada.” *

Ou, pelo contrário, o enredo segue um ritmo certinho como um relógio. E porquê? Talvez porque o tempo da narrativa seja circular, talvez porque os acontecimentos evoluam lentamente, talvez porque as personagens valorizem menos a acção, privilegiando as relações entre si.

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“21 de Junho: Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após a outra, até substituírem, por completo: as que têm visão podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.” *

Possivelmente, o escrevinhador é condicionado pela interacção das personagens e pelo horizonte da narrativa, ele próprio sendo surpreendido por decisões que lhe escapam, impostas pela lógica implacável do enredo, pelo temperamento de uma ou de várias personagens. Quando assim é, escrever torna-se uma aventura, uma descoberta, uma possessão demoníaca…enfim, uma paixão.

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“15 de Agosto: Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio (…). Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, (…) enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.” *

* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago, ed.Caminho

Sem musa e sem paixão escrevem-se livros?

Há quem escreva para poder cumprir o fado de ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore. Se ter um filho é um acto de consequências previsíveis e imprevisíveis e plantar uma árvore é sempre um benefício, escrever um livro tanto pode causar muito mal como algum bem.

-Uma vez descobri uma partícula assim de pequena. -Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!

-Uma vez descobri uma partícula assim pequenina.
-Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!                                                                                             BASÓFIAS NO LAR DOS FÍSICOS E ESCRITORES IDOSOS

O problema é escrever sem paixão (o que também se poderá dizer de ter um filho, evidentemente). Mas a paixão não é uma condição, somente um benefício.

Lima Barreto, no início do sec.XX, comentava assim os círculos literários cariocas que frequentava:

(…) uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopeia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal (in Diário Íntimo de Lima Barreto)

Romantismo

Se o candidato a escrevinhador sente a comichão de um tema e a vontade em o desenvolver, não precisa de autorização superior para deitar mãos à obra. E se conseguir desenvolvê-lo com alguma extensão, profundidade e elevação, a ideia passa a ter as necessárias três dimensões para se tornar um objecto apreciável.

Poesia ou ficção sem paixão não deve ser fácil, mas com algum entusiasmo ou motivação fazem-se coisas.

Mais acessível para aqueles que não se sentem arrebatados pela musa, são os estudos e monografias, memórias e relatos, trabalhos escritos que exigem, principalmente, conhecimento do tema e técnica expositiva.

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Aí o escrevinhador cruza as fronteiras nebulosas da literatura e entra em domínios mais rigorosos, sujeitos a outro tipo de escrutínio: rigor, fundamentação, lógica, entre outros requisitos.

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Ah, vocabulário adequado e gramática limpinha também ajudam.

O autor à procura da sua vocação

A imensa proliferação de escrevinhadores (com ou sem obra publicada) é um fenómeno social recente favorecido pelas tecnologias que permitem a auto-edição ou a edição incomparavelmente mais barata do que em qualquer outra época, e que tem como responsáveis directos a educação generalizada da sociedade através do modelo do ensino obrigatório e o acesso ao ensino superior por um número crescente de pessoas em diferentes fases da vida. Provavelmente, muitos escrevinhadores são tentados a iniciar um projecto porque estão na reforma, têm tempo, têm motivação.

O teu país precisa de TI

O teu país precisa de TI

E todos, claro está, são incitados por esse aguilhão que é impreciso, vago, variável, e que pode ser chamado de ‘criatividade’ para efeitos comerciais, estéticos ou de mera bengala para facilitar a comunicação. Porém, na categoria dos escrevinhadores principiantes é notória uma clivagem etária bastante acentuada: aqueles que tentam publicar ainda antes dos trinta, trinta e cinco anos, e os outros já depois dos sessenta, sessenta e cinco anos.

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Os mais novos podem ser encarados como todos os jovens escrevinhadores o foram nos últimos, vá, duzentos anos: irreverentes para com a ‘tradição’ e os ‘mestres’, desesperados pela originalidade, procurando os temas, o tom e o estilo para agradar rápida e lucrativamente.

'This is the shortest autobiography I've ever read!'

Esta é a autobiografia mais curta que li!

Ou seja, explorando os limites, fazendo pela vida, conformando-se com o que lhes parece mais fácil ou mais garantido. A diferença, para com os seus antecessores destes duzentos anos de literatura popular? Imensas diferenças: todas aquelas que identificamos com o estilhaçar da informação/formação/debate em milhentos canais de comunicação, a mercantilização global da cultura, os hábitos variáveis de consumo, essas coisas todas que tendemos a associar a modas e tendências. Que, noutro ritmo, com outro impacto, de algum modo sempre estiveram presentes nas atribulações culturais.

"Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

“Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

Mas o mais velhos? Esses sim, são a ‘novidade’ do século se atendermos à quantidade e variedade. O que escrevem? Para quem escrevem? Porque escrevem?

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“A minha professora diz que as meninas podem crescer e ser o que quiserem! Porque escolheste ser uma velhinha?”

Não o fazem pelo dinheiro, nem pela fama, e são alvo de mercado preferencial de toda uma ‘indústria’ de cursos faça-você-mesmo, de formação aprenda-num-instante, de tertúlias venha-conviver-em-poesia, de edições pague-já-que-nossa-editora-publica-amanhã e tantas coisas mais.

"Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada," murmurou Felix

“Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada?” murmurou Felix. “Era somente a minha primeira tentativa. Tenho ainda mais oito para escrever!”

Tudo isto é cultura, antropologicamente falando. Mas daí a resultar em boa literatura…

O escrevinhador e o Tempo

Há quem escreva com a noção de já ter vivido ‘o seu’ tempo, não sendo ‘seu’ o tempo contemporâneo. Supõem, por isso, que o que escrevem destina-se à sua faixa etária e a gente ainda mais velha: os mais novos não se interessam, nem o escrevinhador percebe o que lhes interessa.

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 Ou vivem o drama duma ausência existencial.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?… Aqui, tudo já foi… Em sombra estilizada, A cor morreu — e até o ar é uma ruína… Vem de Outro tempo a luz que me ilumina 

[in Epigrafe de Mário Sá Carneiro]
Lista Telefónica -Sinto-me inútil.

Lista Telefónica
-Sinto-me inútil.

O curioso neste ponto de vista é a negação, implícita, da própria Literatura, essa forma de arte em palavras que pretende agir sobre o leitor (ou ouvinte).

Tristes mãos longas e lindas/ Que eram feitas pra se dar…

Ninguém mas quis apertar…/ Tristes mãos longas e lindas… 

E tenho pêna de mim, /Pobre menino ideal… 

Que me faltou afinal? /Um elo? Um rastro?… Ai de mim!… 

[in Dispersão de Mário de Sá-Carneiro]

Os temas, como o talento, podem envelhecer, cair em desuso, desaparecer, nada de mais natural…mas como pode o escrevinhador sentir-se com autoridade suficiente para decretar a morte eminente de um tema (ou do próprio talento), após a morte dele (escrevinhador) e dos seus (poucos) leitores?

-Para de ser tão negativo. -Um verdadeiro optimista teria dito "Sê positivo".

-Para de ser tão negativo.
-Um verdadeiro optimista teria dito “Sê positivo”.

Anúncios destes podem resultar em boas ficções literárias, dramatizando o necessário para alimentar a tensão que uma perda definitiva sempre desperta. Até podem resultar como estratégia de marketing.

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-Queres parecer muito esperto, Corto Maltese. É esse o teu defeito…mas sei uma coisa a teu respeito: no fundo és honesto e é isso que me convém.
-As mulheres deveriam ter sido a minha ruína já há muito tempo.

Ora, ao escrevinhador resignado a escrever para ‘os do seu tempo’ falta, quase sempre, fôlego literário. Se algo definha não é a literatura, nem o tema, mas a escrita dos textos (dele, escrevinhador), e esse definhamento é o problema número um de toda a Criação (com maiúscula e porque sim): a falta de inspiração.

Eu próprio me traguei na profundura, Me sequei todo, endureci de tédio.
[in Além-Tédio de Mário Sá Carneiro]

 

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O resto são tretas. Mas é com tretas (e letras) que se responde a tão singela questão: escrever como?

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Mário Sá Carneiro, desenho de Almada Negreiros

Um pouco mais de sol – e fôra brasa, Um pouco mais de azul – e fôra além. Para atingir, faltou-me um golpe de aza… Se ao menos eu permanecesse àquem…

[in Quási de Mário Sá-Carneiro]

‘Ano novo, vida nova’

O título deste post é o característico estereótipo, daí manter as distância graças ao uso das aspas. Começar de novo, fazer tábua rasa do passado: outras expressões estereotipadas e populares que podem não ser de grande valia, excepto como manifestação de um desejo, dum sentimento inconformista (mesmo que inconsequente), da insatisfação perante a vida, etc. Não são de grande valia?! Isso já depende…

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A vantagem do escrevinhador é que tudo isto é matéria-prima para ‘qualquer coisa’, e relembro estas linhas:

Há alguns anos, não interessa quando, achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. (…) principalmente quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua, percebo então que chegou a altura de voltar para o mar (…)’

(in Moby Dick de Herman Melville, ed.Relógio d'Água, trad.Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves)
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Bons tempos em que o mundo era grande e os mapas tinham enormes extensões brancas por assinalar. Porém, ao escrevinhador do ano de 2014 não faltarão recursos para ‘voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas‘, seja na versão radical de sair pelo mundo fora (que pode ser o trivial mundo para lá da porta de casa), seja pelos espaços infinitos da sua biblioteca, da memória e da imaginação (ok, e da internet também!).

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Pessoalmente, o tema das viagens é do mais apelativo que conheço, e por aqui e por ali já falei alguma coisa disso. Aproveitando o tema de Dezembro associado à ‘renovação’, em que se costuma fazer a lista das x coisas a realizar no próximo ano, que posso sugerir a um escrevinhador à procura dum tema, duma inspiração, duma mudança (no estilo, no tema)?

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante -Hum. -Hum. Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante
-Hum.
-Hum.
Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

Já dizia o sábio que ‘nada há de novo debaixo do Sol‘*, o que pode ser profundo e merecer reflexão, mas logo a seguir acrescenta que ‘mais amargo do que a morte é encontrar uma mulher que é uma armadilha cujo coração é uma rede, e cujas mãos são cadeias‘*. Ora, o que me apetece dizer ao velho sábio e aos escrevinhadores em geral, é aquilo que disse um outro sábio: ‘Eu sou uma coisa e os meus escritos outra‘**.

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“É isso, Kenji.Tudo acontece por uma razão, mas ninguém tem a menor ideia qual seja!”

O que, traduzido ao meu modo, dá nisto: ‘Vivam uma vida e escrevam como se tivessem vivido mil e uma vidas‘.

*in Eclesiastes

** in Ecce Homo de Friedrich Niesztche

Vozes do Outro-Mundo

Por vezes, o escrevinhador é assombrado por fantasmagorias apelando a uma memória colectiva, tanto reclamando o ajuste de contas com o Passado, como a celebração dum Futuro de outra época, ainda que negado e destruído, e que, de algum modo, preparou o Presente.

Pintura de Cândido Portinari

Pintura de Cândido Portinari

O apelo do passado remoto de outras vidas pode incentivar à pesquisa de documentos e relatos, resultando num estudo onde janelas de luz se abrem para novos factos e outras interpretações.

Ou assim o escrevinhador pressente, sofrendo o abalo duma revelação:

O passado não abre a sua porta/ e não pode entender a nossa pena./ Mas, nos campos sem fim que o sonho corta, / vejo uma forma no ar subir serena:/ vaga forma, do tempo desprendida./ É a mão do Alferes, que de longe acena. /Eloqüência da simples despedida:/ “Adeus! que trabalhar vou para todos!…” (Esse adeus estremece a minha vida.) *

Assim como também tem vezes em que o escrevinhador vai atrás duma história e é possuído por outra, que se impõe pela urgência e passa a fazer parte dele mesmo:

Quando, há cerca de 15 anos, cheguei pela primeira vez a Ouro Preto, o Gênio que a protege descerrou, como num teatro, o véu das recordações que, mais do que a sua bruma, envolve estas montanhas e estas casas, e todo o presente emudeceu, como platéia humilde (…)

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Pintura de A.Almeida

Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores (…). Na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas (…). Então, dos grandes edifícios, um apelo irresistível me atraía (…)

Deixei Ouro Preto e seguiram comigo todos esses fantasmas. Seguiram outros (…).’ **

A escrita deixa de ser mero ofício ou prazer artístico, torna-se paixão. Escrever como quem dá voz a vozes de outro tempo, outro mundo.

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* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

Com um grãozinho de loucura

Pois, a loucura…essa porta aberta para o lado de lá do espelho! Não se diz de todo o artista que tem algo de louco?

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Os antigos gregos distinguiam a doença, propriamente dita, da loucura por inspiração divina ‘que atira connosco para fora das regras rotineiras‘(in Fedro de Platão), e consoante o deus, a louca inspiração tinha sua especialização.

Ora, os dons divinos sempre têm um lado sombrio: Demódoco era ‘(…) o exímio aedo [poeta, cantor e tocador de lira], a  quem a Musa muito amava. Dera-lhe tanto o bem como o mal. Privara-o da vista dos olhos; mas um doce canto lhe concedera’ (in Odisseia de Homero, tradução de Frederico Lourenço, ed.Livros Cotovia  2003)386327_309440535742834_1090181842_n.

Como se o excesso de talento tivesse de ser compensado por um défice de saúde, bom-senso ou outra qualquer qualidade. Pode, também, ter uma vida atribulada (para dizer o mínimo) como a do mítico bardo Taliesin, que suportava mal os seus colegas da corte  e lhes dizia, cantando:

‘E eu sei, de ciência mui certa,/Que vós não sabeis como entender/Este meu cantar./E sei também, de clara ciência,/Que vós não sabeis fazer a deslinda/Entre a verdade e a falsidade./Vós todos, bardos sem tamanho,/Corvos do poder!Batei vossas asas, fugi voando./Onde está o bardo que me cale?’ (da ‘Repreensão dos Bardos’ in Mabinogion, trad.José Domingos Morais ed.Assirio e Alvim 2000)

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O que Taliesin censurava, afinal, era a falta de inspiração (divina, claro está) e, portanto, de autenticidade: para servirem quem lhes pagasse, os bardos sabiam técnicas (‘loas sem moral’, ‘ditos sem razão’), mas não passavam de ‘arautos da falsidade’.

Porque Taliesin, evidentemente, não despreza ‘rimas e versos/nem a arte de bem cantar‘, mas despreza e não respeita ‘quem abusa a divina graça,/em blasfémias se deleita‘. No Livro de Taliesin, ele próprio se apresenta como alguém que já foi ‘uma mensagem escrita’ e ‘um livro’ (para além de muitas outras coisas da natureza animada e inanimada).

De algum modo, a crítica de Taliesin ressoa nos versos de Caeiro quando este censura quem repete o que ouviu ao vento: ‘Nunca ouviste passar o vento./O vento só fala do vento./O que lhe ouviste foi mentira,/E a mentira está em ti.’

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Assim como parece que o panteísmo do bardo se reflecte no guardador de rebanhos: ‘Penso com os olhos e com os ouvidos/ E com as mãos e os pés/E com o nariz e a boca/(…)/Por isso (…)/(…)/Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,/Sei a verdade e sou feliz.’

A criatura e o criador

Sendo o texto uma criatura viva, é infiel ao criador ao permitir-se ir muito mais além do que este pretende, traindo intenções obscuras, permitindo derivações imprevistas, surpreendendo-o com uma autonomia desconcertante.

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Também é verdade que o texto definha e sobrevive mal em sequência de um acto criativo falhado, condenado ao ridículo e à obscuridade, senão ao extremo de se abrigar no antro das leituras enfadonhas que o leitor, avisadamente, evita.

Mesmo que tenha passado por uma fase inicial de popularidade e reconhecimento público: o juízo crítico será sempre mais duradouro do que as tabelas dos top, as últimas novidades chegam cada vez em maior número e mais depressa, a indústria cultural faz pela vida e as campanhas de marketing têm orçamentos e prazos de validade.

"Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever? Eu pretendo reescrever a História."

“Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever?- Eu pretendo reescrever a História.”

Escrever como quem quer ir ao encontro dos gostos, das modas, dum obscuro, potencialmente promissor, nicho de mercado? Óptimo, genial, provavelmente ninguém antes pensara nisso.

Escrever como que poupando ao leitor o incómodo de parar para reler e melhor entender? Que solução eficaz, sem complicações, nem ambiguidades!

Escrever como que evitando as referências e dificuldades que, presumivelmente, a maioria dos potenciais leitores manifestamente desconhecem e fogem de enfrentar? Ligeiro e superficial para se usar em qualquer dia do ano, sem dúvida.

LER FAZ VIVER prazer

LER FAZ VIVER
             Prazer15mg Curiosidade8mg Imaginação10mg Revolta12mg Saber9mg  Agentes de sabor:muitos!

Culpa dos leitores…ou da falta deles?! Claro, claramente que sim. E também!

Mas seja qual for o ângulo da acusação, por maior que seja o rosário de culpas ou o banco dos réus, a qualidade do texto não tem de depender senão da relação do escrevinhador com a bela Musa.

Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui’. (in Fedro de Platão, ed. Guimarães e Cª 1981 tradução de Pinharanda Gomes)

Louca inspiração, portanto. Sem álibis.

Ah, se tudo fosse assim tão simples…

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-Amo-te.
-Amo-te muito!
-Olá, bode! Eu amo esta rapariga!

A força do estereótipo

No tempo em que minha filha era pequenita, ela tinha de memorizar uns poemas ou cançonetas para recitar na escola diante de toda a turma. Além do nervoso miudinho de se expor ao ridículo, havia a dificuldade de memorizar todo o texto; quando achava que estava minimamente preparada vinha ensaiar para mim e, geralmente, fazia-o numa toada qualquer que a professora dera na apresentação do trabalho.

Esse é um dos vícios mais comuns de escrita, o de reproduzirmos esquemas que são habituais em determinadas situações e enredos. A esse vício chama-se estereótipo, numa alusão explícita à impressão em série da mesma imagem ou texto (também usamos o galicismo cliché com o mesmo sentido).

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Ora, nada é menos estimulante do que ouvirmos a enésima reprodução duma qualquer abordagem narrativa (seja a dum belo pôr-do-sol que traz melancolia e/ou paz ao espírito, seja a da rapariga má que estraga a vida ao casal tão feliz).

A massificação da produção artística, a sua industrialização, não só na literatura, como no cinema e na televisão principalmente, exploraram os estereótipos ad nauseam. As redes sociais na internet tornaram-nos um problema público de higiene mental.

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Porém, a literatura permite uma autonomia e resistência frente a esse condicionamento cultural que leva a colocar um (in)evitável adjetivo logo a seguir a determinados substantivos (tipo a “lua prateada” e o “sol dourado”). E permite-o porque nós, escrevinhadores, somos criaturas que podemos trabalhar por conta própria, na solidão, no anonimato, fazendo deste modo de vida uma paixão pela bela Musa.

À minha filha, após ela ensaiar a recitação ou cançoneta, sugeria-lhe para repetir, mas dessa vez como se estivesse muito, mas muito feliz. E, a seguir, como se estivesse triste, mas mesmo muito triste. E muito zangada, depois.

Chiclete com Banana

No dia seguinte aquilo acabava por lhe sair bem, dentro do modo convencional e politicamente correcto. E nós divertíamo-nos até às lágrimas nos ensaios; ao nosso modo, tentávamos desconstruir modelos consagrados.

Back to the basics

Tendo nascido no século passado, nesses tempos a escola primária tinha ainda por hábito a prática da ‘redacção’, que não era outra coisa senão uma ‘short story’, um pequeno conto.

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A ‘redacção’ abordava temas inócuos como a clássica Primavera, e vinha após a leitura de algum texto do livro de Língua Portuguesa que servia de introdução ao assunto. Na verdade, a mesma técnica que neste blog se recomenda: ler livros e textos variados, escrever sobre esses mesmos temas e livros, acabará por resultar num qualquer processo criativo e literário. Ou não.

'Estória Curta' -Vai publicar os meus contos? -Não FIM

‘Estória Curta’
-Vai publicar os meus contos?
-Não
FIM

O que faltava na escola, se bem me lembro, era a devida crítica comparativa das redacções dos alunos, resumindo-se tudo a uma apreciação sumária e classificativa. Assim como não havia a análise dos textos produzidos que ultrapassasse a gramática básica e o vocabulário.

-Que tal achaste o meu poema? ... ... -Bem, o papel em que o imprimiste é maravilhoso

-Que tal achaste o meu poema?


-Bem, o papel em que o imprimiste é maravilhoso

Que é o que as oficinas de ‘escrita criativa’ e outras modalidades de aperfeiçoamento da escrita e da criação literária se propõe fazer. Na verdade, há necessidade de confrontar nossa produção escrita com a opinião dos outros, preferencialmente gente interessada e interessante.

E isso exige espírito simultaneamente crítico e auto-crítico, muito melhor ainda se convenientemente doseado por uma porção de amor-próprio (vulgo auto-estima) e sentido de humor (ou capacidade de ‘encaixe’).

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Além da vontade de aperfeiçoamento, claro.

Começar de novo

O escrevinhador pode iniciar sua estória de modo lógico e sequencial ‘Era uma vez,…’ colocando tijolo a tijolo os alicerces do precário edifício que tem em mente. Sem preocupações de maior, excepto a de alinhar os acontecimentos, apresentar as personagens relevantes e outras, deixar fluir a escrita, tentar a bela musa.

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Ao fim dum tempo, mais ou menos longo, ao reescrevinhar pela enésima vez, o escrevinhador começará a brincar.

Umas vezes surpreendendo: “Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.” (primeiras linhas de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez)

Outras vezes trocando as voltas ao bom senso do leitor: “Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas , que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável.” (primeiras linhas de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, ed. Publicações Dom Quixote)

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Aí, certamente, o escrevinhador já sentirá o pulso firme do escritor segurando o fio de prumo do enredo.

O escrevinhador no seu labirinto

Tal como no mito de Ariana existem versões muitos distintas, o escrevinhador pode passar por processos muito contrastados: umas vezes produz torrencialmente, sem qualquer dificuldade, para depois entender de que nada daquilo o satisfaz; como pode escrever de modo doloroso, hesitante, diminuto, porém produtivo e satisfatório, permitindo-lhe progredir; ou anda à roda duma ideia, incapaz de lhe dar o sentido, a dinâmica, mas certo de lhe ter apanhado o estilo, a expressão.

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MANTENHA A CALMA e
ESCREVA ALGO

Na versão mais conhecida do mito, Ariana perde o homem que ama e salvou a vida, porque este desiste dela frente à pretensão dum candidato com mais poder e prestígio. Assim, do escrito pode resultar coisa muito diferente do que estava previsto, resultando um outro desenvolvimento, uma dinâmica segura, uma voz própria.

-Uau! 932 páginas de documentação. Impressionante. Como conseguiste lidar com tanta documentação? -Bem, precisas de certas competências, alguma paciência, alguma paixão e... -E muito crtl-c crtl-v? -Correcto!

-Uau! 932 páginas de documentação. Impressionante. Como conseguiste lidar com tanta documentação?
-Bem, precisas de certas competências, alguma paciência, alguma paixão e…
-E muito crtl-c crtl-v?
-Correcto!

A escrita é metamórfica, instável, vulnerável. Mas quando movida por um interesse genuíno, visceral, é persistente como qualquer doença reincidente.

O fio de Ariana

Deixar fluir livremente o texto sem pudor, eis a grande vitória do escrevinhador. Mais tarde, do que produzir terá a sorte de peneirar alguma pepita de ouro…ou uma pedra de vidro colorida, ao menos .

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Depois, jogar à “apanhadinha” com a intuição e o intuito. Se algo o move, algo também lhe toca: entre o intelecto e a emoção, o fio duma ideia pode surgir, conduzindo-o pelo labirinto até ao exterior.

Produzir texto, escrever sem valorizar a forma, procurando a expressão de ideias, sensibilidades, sonoridades.

Que a quase totalidade dessa produção seja para deitar fora não afecte o esforço de reciclar textos, ideias, dando-lhes outros contextos, formulando variações, editando como quem monta puzzles.

Editor (com o original de Moby Dick nas mãos): "Está bom, mas vamos trocar o canguru por uma baleia."

Editor (com o original de Moby Dick nas mãos): “Está bom, mas vamos trocar o canguru por uma baleia.”

Pessoalmente, confesso que é a parte que me dá mais gozo. Principalmente a partir do meio duma tarde de Outono ou de Inverno, entrando pela noite adentro.

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“A musa que a maioria de nós realmente precisa”

 

Bloqueio criativo

Por mais voltas que demos, voltamos sempre ao básico: escrever como?

A folha branca diante dos olhos (permitam-me a imagem clássica, apesar de tudo verosímil por causa da página do word) continua desesperadamente imaculada e o autor, uma criatura ainda virtual, atormentado com a evidência da sua incapacidade.

galinha:-Maldita sejas, página branca! Tu fazes pouco de mim com a tua brancura! pagina branca:-Volta! Eu acredito em ti! lapiseira:-Vai e não voltes! Que parvalhão! O bloqueio do autor, normalmente atribuído a uma pagina em branco, tem origem em lapiseiras perversas.

galinha:-Maldita sejas, página branca! Tu fazes pouco de mim com a tua brancura!
pagina branca:-Volta! Eu acredito em ti!
lapiseira:-Vai e não voltes! Que parvalhão!
O bloqueio do autor, normalmente atribuído a uma pagina em branco, tem origem em lapiseiras perversas.

No tempo das folhas de papel, um caixote de lixo atafulhado de escritos amarrotados faria prova do contrário: em desespero, o escrevinhador alisaria o amarrotado na tentativa de extrair algum metal precioso daquela escória toda. Talvez fosse, subitamente, bafejado pelo dom de reordenar, editar e recriar muito do que antes fora desprezado.

Um (re)começo constante até à fórmula final. Ou quase final.

Com a tecla ‘delete’ tentadora, por um lado, ou a insidiosa questão final antes do fecho do documento ‘deseja guardar as alterações?’, o escrevinhador de teclado de computador arrisca deitar fora duma vez, e de vez, todo o trabalho de horas, dias, talvez semanas e meses. Assim, a maldição de Sísifo condena o seu esforço, sem glória, nem emenda.

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Estimulantes literários

Ainda não há vitamínicos específicos para o processo criativo, embora seja longa a lista dos “consumíveis” para obter o mesmo efeito, na tradição literária de todos os tempos e lugares.

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A escrita pode ser uma tarefa ou um passatempo, tanto funciona como um escape como pode ser uma pulsão. Ao contrário do que possa parecer, o facto de ser uma actividade solitária não favorece a criatividade, já que esta exige abertura e confronto. Mas o recolhimento, ou introspecção, pode funcionar como uma etapa fundamental para o arranque e desenvolvimento da obra.

Daí que aqueles mais cientes do modo como “funcionam” dêem relevância a certos rituais, preparem o espaço aonde vão trabalhar a ideia e passa-la a escrito. Sobre isso que se pode dizer? Cada qual arranja o espaço como lhe convém, acomoda o tempo como pode, e enfrenta, sempre, distracções que prejudicam a “criação”. Não se trata dum problema exclusivo do universo literário, como é fácil de entender, e varia imenso de indivíduo para indivíduo.

"Para de olhar para mim"

“Para de olhar para mim!!!”

O bloqueio criativo, o pavor da folha em branco, e outras expressões apelativas, muitas vezes escondem verdades mais simples: falta de trabalho, de preparação, de investigação, em todos os níveis da construção literária. Como se a preguiça mental confiasse em demasia no processo criativo espontâneo. Umas vezes, até pode acontecer. Mas não dá para esperar pelo beijo da Musa toda a vez que alguém tenha vontade de escrever. Para isso, a exposição pública de ideias, o confronto de opiniões, a crítica desapiedada, podem ser um estímulo poderoso.

Houve tempos mais favoráveis, e em certos espaços, mesmo assim, para o debate de ideias e produção escrita. Se nas vilas do interior dum pequeno país quase analfabeto, sempre havia um café central onde as pessoas mais ilustradas podiam debater, um jornal que dedicava algum espaço às letras, algum prestígio podia dourar a reduzida edição de algum título poético ou polémico. Dentro dos limites do permissível, bem entendido.

Tempos e lugares para grandes polémicas, literárias ou não. Mas não hajam ilusões sobre um passado abençoado para a produção escrita: basta ler os clássicos como Camilo ou Eça, para nos sentirmos confortáveis na nossa época.

O sentimento doloroso de que não seria imortalizado pelos seus textos brilhantes, mas por alguma coisa banal como a sua pegada ou dente.

O sentimento doloroso de que não seria imortalizado pelos seus textos brilhantes, mas por alguma coisa banal como a sua pegada ou dente.

 

Marketing e Literatura

O desespero de quem escreve e quer editar (e se consegue a almejada edição, logo a quer promover e vender rapidamente), leva a questionar quais os “segredos”, as técnicas”, para atingir esses objectivos. Tudo desejos legítimos e naturais para os quais não há que ter vergonha ou sentir culpa.

Será o título? Um título apelativo, mobilizador, que fica no ouvido?

Ou é mesmo o tema? Vampiros contra lobisomens ainda está na moda?

Talvez o famoso arranque logo na primeira página que agarra a atenção do leitor distraído ou aborrecido.

É a capa quem atrai o leitor num primeiro tempo, dirão os perspicazes.

Depois, as redes sociais farão o milagre. Diz-se. Melhor mesmo só aparecendo na TV.

Tudo questões pertinentes para o editor, sem dúvida. Mas sem sentido quando o livro ainda está por escrever.

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Reconheço o valor de qualquer uma das questões anteriores, todas têm relevância para a promoção e o impacto da obra perante um público que desconhece o autor. Daí a importância estratégica duma editora competente, daí os conflitos entre a editora e o autor sobre estes e outros aspectos do livro a publicar. Daí a falta que faz a figura do “agente literário” no nosso pequeno mundo da Língua Portuguesa.

Mas este blog limita-se à área da criação, cultiva o culto da inspiração, ou seja, o da relação erótica e fiel com a bela Musa. E fá-lo por defeito. “Defeito”, sim, no sentido de imperfeição (não como anglicismo importado pela prática de “correr” programas informáticos e quejandos). A escrita é uma pulsão, uma “necessidade interior”. É possível que seja, até, uma patologia benigna. Acima de tudo, e desejavelmente, deve ser uma paixão.

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Conseguir equilibrar os excessos dessa paixão com o rigor da gramática, estruturando um texto legível e interessante, parece-me uma tarefa suficientemente complexa e absorvente. E, por defeito e limitação assumidas, apetece-me dizer como Guerra Junqueiro dizia de cada livro que concluía, que  era como deixar um filho na “roda”: a partir daí deixava-se de preocupar com o que viesse a acontecer-lhe.

A “roda” de que falava era uma placa giratória, na parede de certos conventos, onde quem passasse na rua podia deixar os recém-nascidos ao cuidado das freiras. Exagero dele, certamente.

Small is beautiful

Escrever poemas curtos levanta outro tipo de dificuldades, principalmente se o autor se impõe uma métrica rigorosa (tipo haiku) ou outras regras.

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-Penso que o teu poema não presta.
-É precisamente o que o poema pretende que tu penses.

O principal, numa economia de frases e palavras, é a transmissão duma ideia, dum sentir, duma imagem. Isso exige uma depuração rigorosa, uma noção de ritmo, a musicalidade inerente à forma, tudo tanto mais difícil quanto menor for o número de versos e sua métrica. Além de que, no caso dos poemas curtos, o sentido raramente ser evidente. (ver nota 1)

O que fascina nestas “construções” diminutas é a sua leveza associada ao impacto profundo daquilo que transmite, por vezes indefinível, outras vezes perturbante. O trabalho é comparável, imagino eu, ao do lapidar duma pedra preciosa.

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E, por vezes, transmitem tranquilidade, como se as palavras fossem o rumor do vento no bosque. Ou da noite a entrar pela janela. (ver nota 2)

Retrato falado?

Uma vez explicaram-me que pretendiam escrever poesia do mesmo modo que gostariam de pintar (e desenhar), retratando algo através das palavras. Achei interessante a ideia, principalmente numa época em que a captação, reprodução e manipulação de imagens é tão acessível. E como pretendia “retratar” com as palavras? Os exemplos que me foram dados baseavam-se no uso de substantivos e adjectivos (do género: tal coisa/pessoa com tal qualidade) e comparações (do género: tal coisa/pessoa é como…).

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Não gostei e tentei explicar-me: mesmo que se usem recursos como a rima e a métrica, a estrutura torna-se monótona, o efeito pobre, o resultado aborrecido (como se montássemos um puzzle em que as peças são frases). Não utilizei a expressão “lista de mercearia”, mas é o que me ocorre quando as descrições ou referências se estendem ao longo de linhas e linhas de versos. Sugeri que cortasse na adjectivação e procurasse “pintar” usando verbos.

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1.Mamã! 2.Mais! 3.Não! 4.Meu!
-As primeiras palavras do bebé: 1.Substantivo 2.Adjectivo 3.Advérbio 4.Pronome Possessivo-

O trabalho poético progrediu e resultou em algo bastante diferente: surgiram as inevitáveis metáforas, elas suscitaram ideias (ou terá sido o contrário?) e os poemas foram ganhando dinamismo, tensão, exprimindo conflitos e anseios, na verdade, trabalhando o “material humano” que está na base do artefacto poético.

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“Que mão ou olho imortais poderiam captar a tua assustadora simetria?”

Melhorou bastante, na minha opinião, mesmo que haja muito ainda para aperfeiçoar (…e não há sempre?). Talvez o resultado final nem tenha nada a ver com o propósito de retratar. Mas, além de produzir imagens interessantes, creio que o poeta abriu um canal para projectar algo de muito pessoal e original. É por aí que a Musa se deixa, tanta vez, seduzir…

Poesia e estados de ânimo

A nostalgia do tempo perdido, será esse o tema da poesia? Da dor, da perca, da separação, do repúdio. (ver nota 1)

Há quem desenvolva elaborado misticismo à volta da Saudade. E diga que é um tema nacional.

Como se não houvesse poesia alegre, sensual e toda virada para o presente. (ver nota 2)946588_596544917036820_1077050884_n

 

Valerá a pena escrever poesia no sec.XXI?

Se escrever prosa oferece dificuldades, poesia parece intuitivo e simples, trabalho de curta duração. E com um dicionário de rimas à mão, fica ainda mais fácil. Temas? Há tantos: uma flor, um amor, um pensamento profundo esticado em duas dúzias de linhas, um grito de revolta contra a injustiça, de tudo “se faz” poesia.

Mas quem a lê? Pior: quem a escreve?

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Música e polifonia na construção do texto

Mazurca para dois mortos, de Camilo José Cela, assenta sobre um texto “oral” dum narrador obscuro, “perdido” entre vozes que vêm a propósito de algo que o narrador acaba de dizer. (ver nota 1)

As “vozes” acrescentam peças ao mosaico (ou ao tema musical, provavelmente) que o leitor terá de montar para concluir o livro. Deste modo, o leitor demorará algum tempo a perceber se há enredo, e havendo, qual seja.

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A forte componente poética do texto associa-se à verbalização incontinente de tantas vozes distintas, todas marcadas fortemente pela língua galaico-portuguesa e pelo imaginário rural do noroeste peninsular, carregando consigo pequenos episódios da vida de pessoas que se vão revelando por fragmentos de suas vidas.

Num registo (aparentemente) circular, formam um texto da maior beleza e harmonia, riquíssimo, fiel ao registo histórico duma época, e simultaneamente intemporal. (ver nota 2)

Por tudo isto, o livro exige do leitor a entrega e a participação na composição, como se fosse mais um dos dançarinos desta mazurca. N’ O Malhadinhas, o narrador desenvolve uma história linear, ainda que volta-e-meia pontuada por reflexões ou à partes; no Grande Sertão: Veredas, o narrador anda perdido nas suas reflexões e memórias, mas o enredo progride até à inevitável conclusão.

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Na Mazurca para dois mortos, o processo é menos evidente dada a polifonia das vozes que se “intrometem” no discurso do narrador, o qual, além de discreto também é vago, dando a ilusão de acumular repetições, quando, na verdade, acrescenta mais um ponto ao conto. (ver nota 3)

Porém, o enredo torna-se claro, dando sentido ao título e a conclusão (previsível a partir de certo ponto) é completada por um “anexo” totalmente alheio aos recursos estilísticos do resto do livro. Anexo, aliás, que é um texto com a  rigorosa formatação técnica do seu género, e por isso surpreende.

Deste modo aparentemente simples e desordenado,  uma estrutura complexa e de grande risco para o autor se vai revelando e permite aceder ao mais íntimo das memórias do narrador, trazendo à vida as pessoas “daquele tempo”, abrindo-se-nos as portas para um mundo que também é o da Língua Portuguesa e o do Norte de Portugal. E inúmeros temas se abrem à curiosidade do leitor, outros tantos caminhos para novas leituras. 

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