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Escrever baba e ranho

Escrevinhar expondo sentimentos e emoções —pessoalmente prefiro dizer ‘estados de espírito’— é arriscado e já o disse por aqui. Mas não quero com isso dizer que seja de evitar, antes entenda-se como um aviso e um desafio.

E os sinos dobram a defuntos,/ Dlim! dlão! dlim! dlom!/ E os sinos dobram, todos juntos,/ Dlom! dlim! dlim! dlom! (1)

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Há poemas e novelas com tanta dor e tristeza que fazem escorrer lágrimas por mais que se torça o livro… e o efeito redunda no oposto do pretendido: o escrevinhador é motivo de chacota, tudo o que rodeia a sua escrita (personagens ou atribulações) provoca a gargalhada.

Mas vocês juraram agora fabricar a saudade artificialmente, sem os ingredientes necessários: sem o rei absoluto e o pai tirano, sem o convento e sem o gato. É impossível, meus santinhos, é absurdo. (…) É pena, é, mas que querem vocês que eu lhes faça? (2)

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Porém, grande literatura se escreve a propósito dos temas mais dolorosos e tristes imagináveis. Lendo alguma dela, talvez dê para entender o que a distingue do ‘choradinho’ de tantos escritos, uns famosos e a esmagadora maioria nem por isso. Sem esquecer que existe público para ambos.

—Senhora, o rei aqui me enviou para que encomendeis a vossa alma àquele que a criou, que a vossa hora é chegada, e não a posso alargar eu.

—Amigo,-disse a rainha- a minha morte vos perdoou eu; se o rei meu senhor o manda, faça-se como ordenou (…).

Suas lágrimas e gemidos ao maceiro enterneceu, com voz fraca tremendo, isto dizendo começou:

—(…) Hoje cumpro dezassete anos, para os dezoito vou. O rei não me conheceu, com as virgens me vou. Castela, diz o que te fiz? Não te atraiçoei, as coroas que me deste, de sangue e suspiros são, mas outra terei no céu, será de mais valor.

E ditas estas palavras, o maceiro a feriu, os miolos da sua cabeça, pela sala os espalhou. (3)

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-Padre, pequei.  -Sim…sim, já tinha percebido isso…

Da tristeza à felicidade, a praga do texto lamechas (na poesia, então…!) sempre esteve presente e não mostra sinais de melhoria para futuro. Mas daí também nunca veio grande mal ao mundo.

No dia seguinte àquele em que me conheceu foi levar-me a casa uma poesia que me é dedicada e em que me aconselha a que siga a escola do Sentimento, ou antes a que escreva apenas o que sinto. A poesia tem um certo perfume oriental. Diz ele que a mandará para o ‘Diário Popular’. Verás… (4)

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Alcool: só bebo para tornar-TE mais interessante!

No extremo oposto do espectro está o humor com toda a sua panóplia de recursos, marcando o tom e a perspectiva do texto. Há escrevinhadores que tomam de emprestado o estilo dum grande satírico de outros tempos e escrevem sobre assuntos contemporâneos com frescura e bom efeito: isso observa-se com frequência em crónicas semanais de jornais e revistas.

O português, regra geral, não acha graça nenhuma à graça propriamente dita. Ri-se, sobretudo da desgraça. Enfim— como a palavra indica— do que não tem graça absolutamente nenhuma. (…) ” É prá desgraça!” é uma expressão que faz rir os mais trombudos (…). (5)

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Tanto o sucesso como o falhanço do escrevinhador em obter o efeito risível pretendido podem ser motivo para intermináveis polémicas, algumas mortalmente violentas. No pior dos casos, o tédio absoluto e o silêncio eterno em seu redor.

QUINTA-FEIRA à tarde, pouco mais de três horas, vi uma cousa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve-me a impertinência; os gostos não são iguais. (6)

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angústia da influência (ver aqui) não deve inibir o impulso da escrita, antes pode levá-la a ultrapassar suas limitações e exercitar a própria voz. Claro que, para isso, há que sofrer a angústia (ter consciência de ser fiel depositário duma tradição) e tentar ir além das influências. Creio que essa é a fronteira entre o estereotipo e a influência propriamente dita.

Chegar atrasado, em termos culturais, jamais é aceitável para um grande escritor, embora Borges fizesse carreira explorando sua secundaridade. O atraso não me parece de modo algum uma condição histórica, mas uma condição que pertence à situação cultural como tal. (7)

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Ora, na expressão das emoções a criatividade é, provavelmente, uma impossibilidade. E, no entanto, vale tudo e nada é garantido.

Eu só queria ter o tempo e o sossego suficientes/ Para não pensar em cousa nenhuma,/ Para nem me sentir viver,/ Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido. (8)

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(1) ‘Os Sinos’ in  de António Nobre, ed.A bela e o monstro

(2) ‘Polémica sobre o Saudosismo texto 3’ de António Sérgio in A Águia selecção de textos de Marieta Dá Mesquita, ed. alfa

(3) ‘Morte da rainha Branca’ in El Romancero viejo, edição de Mercedez Díaz Roig, ed.Cátedra

(4) ‘carta a Silva Pinto’ in Obra Completa de Cesário Verde, org.Joel Serrão, ed.Livros do horizonte

(5) ‘Graça’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed. assírio&alvim

(6) in A Semana de Machado de Assis, Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro

(7) in ‘A Angústia da Contaminação’ prefácio à 2ª edição da A Angústia da Influência de Harold Bloom, trad. Marcos Santarrita, ed.Imago

(8) in Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro, ed. assírio&alvim

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contar estórias

Sem ofensa: um escrevinhador tem de saber contar estórias, mentirinhas, apropriar-se de narrativas alheias e dar-lhes ‘uma volta’. Inventar, claro. Sobretudo reinventar.

O nosso Cervantes—continua falando Mairena aos seus alunos—não matou, porque já estavam mortos, os livros de cavalaria, senão que os ressuscitou (…). Do mais humilde propósito literário, a paródia, surge—que ironia!—a obra mais original de todas as literaturas. (1)

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Mesmo a literatura académica, séria, científica, tem saborosos exemplos de anedotas reais e relatos de fraudes fabulosas, ou comentários irónicos, capazes de forçar o sorriso ao mais sisudo leitor. Ou episódios simplesmente lastimáveis…

No dia 13 de dezembro (…) saí do carro pelo lado errado e atravessei a Quinta Avenida sem me lembrar de que na América conduzem do lado contrário ao do meu país e sem obedecer ao semáforo vermelho, coisa então desconhecida na Grã-Bretanha. Fui violentamente atropelado e durante dois meses fiquei praticamente inválido. (2)

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DOUTOR JESUS: -Desculpe, mas não posso curá-lo. Você tem um condição pré-existente.

Em verso ou em prosa, o escrevinhador distingue-se por essa extraordinária capacidade de dar a sentir experiências alheias ou imaginárias, sentimentos muito pessoais, emoções fingidas que deveras sente. Através da escrita, obviamente.

Doces galleguiños aires,/(…)/ alegres compañeiriños,/ rum-rum de toda-las festas,/ levái-me nas vosas alas/ como unha folliña seca (3)

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O único escrúpulo será o de não se levar demasiado a sério, a ponto de confundir a verdade do texto com a opaca realidade.

Parece-nos impossível que para os nossos filhos seja já passado irrevogável e desconhecido aquilo que para nós é ainda presente árduo. (4)

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Excepto se tiver pretensões de contar histórias sobre pessoas reais no seu tempo e na sua circunstância, assumindo a intenção de se restringir a documentos, testemunhos e coisas assim: o leitor tem todo o direito de se sentir burlado ao perceber que o escrevinhador é incompetente para tal pretensão ou, pior ainda, um desenvergonhado manipulador. Essa coisa de confirmar se os alegados factos, documentos, testemunhos, são fidedignos, é uma obrigação de que só está isenta a informação nas redes sociais.

—As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se  —disse Polo—  Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco. (5)

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‘PLACEBO-dose máxima’ tão eficaz quanto os melhores tratamentos homeopáticos 16 cápsulas

É como uma espécie de contrato entre o escrevinhador e o leitor, pese embora a flexibilidade com que um e outro possam interpretar as cláusulas não-escritas, nem negociadas.

(…), acreditem nossos leitores todos, que nem uma vírgula se lança neste parágrafo que não seja unicamente ditada pelo interesse público, nosso único móvel. A ninguém, absolutamente a ninguém queremos ofender, (…). (6)

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Dito isto, quantos clássicos da ficção literária universal não se apresentam como escrituras verídicas, senão sagradas?

—Gilgamesh, vou revelar-te uma coisa oculta, vou confiar-te um segredo dos deuses. Foi em Shuruppak, (…) cidade já antiga que aos deuses agradava morar, onde os grandes deuses tomaram a decisão de provocar o Dilúvio. (7)

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cartoon de El Roto

Quando bem escrito, vale tudo realmente.

(…), ela levantou-se em silêncio e arranjou botas de sete-léguas, pegou numa varinha mágica e num bolo com um feijão que dava resposta para tudo. Depois ela fugiu com o príncipe. (8)

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(1) in Juan de Mairena de Antonio Machado, ed.Alianza Editorial

(2) in Memórias da Segunda Guerra Mundial de Wiston Churchill, trad.Manuel Cabral ed.Texto Editores

(3) in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, Ediciones Cátedra

(4) in Danúbio de Claude Magris, trad.Miguel Serras Pereira ed.Quetzal

(5) in As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, trad.João Colaço Barreiros ed.Teorema

(6) in Doutrinação Liberal (textos escolhidos de 1826 a 1827) de Almeida Garrett, ed.Publicações Alfa

(7) in Poema de Gilgamesh tábua XI, tradução para castelhano de Federico Lara Peinado, ed.Tecnos

(8) Os contos populares e de fadas originais dos Irmãos Grimm, traduzidos para o inglês por Jack Zipes ed.Princeton University Press

Liberdade formal e estereótipo

Em comparação com outros géneros literários, a poesia ou qualquer tipo de ficção têm total liberdade formal. A diferença entre géneros, evidentemente, está no estatuto artístico de uns em oposição à objectividade, ao respeito à verdade, à isenção de preconceitos e sentimentalismos, que outros géneros, supostamente, são obrigados.

É muito o que permanece enigmático na capacidade da literatura, da palavra e da frase escrita ou falada, de criar, de nos comunicar, de tornar certos personagens inesquecíveis. (1)

As lesmas têm 32 cérebros -Mas tudo o que vos interessa é a aparência.

As sanguessugas têm 32 cérebros.
-Mas tudo o que vos interessa é a aparência.

O texto jornalístico pressupõe regras de construção e de verificação para merecer crédito, tal como o texto científico ou académico, e qualquer inexactidão, ambiguidade ou subjectividade compromete texto e autor.

Há uma necessidade urgente de comentários e críticas mais inteligentes. (…) a escrita de artigos e de livros de apreciação sérios que distingam o que é fidedigno do que não é, que sistematizem e encapsulem, sob a forma de teorias e de outros esquemas razoavelmente conseguidos, aquilo que parece ser realmente fidedigno. (2)

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Pelo contrário, e por mais regras que mandarins, comissários culturais, censores em geral, tenham tentado uniformizar a literatura poética e de ficção, a inesgotável criatividade artística encontra sempre os meios para se afirmar. Seus maiores obstáculos são a apatia social, o conformismo cultural, a ausência de crítica, a banalização: tudo aspectos que têm mais a ver com a sociedade em si mesma, do que com proibicionismos ou modas.

A maioria das pessoas não se sente parte de nenhuma conversa importante. Dizem-lhes o que pensar e como pensá-lo. Fazem-nas sentir-se incapazes assim que que se abordam questões de pormenor; e quanto a objectivos gerais, encorajam-nas a acreditar que foram há muito determinados. (3)

PRAÇA TIEN AN MEN: neste local, em 1989, não se passou nada

PRAÇA TIEN AN MEN:
neste local, em 1989, não se passou nada

Embora não bastem para garantir qualidade, os níveis de linguagem, a complexidade psicológica das personagens, as possibilidades de interpretação, entre outros aspectos, dão um cunho próprio ao texto e o distinguem da produção estereotipada. Mas também são o que dificultam a captação imediata da atenção, a compreensão fácil, a leitura entusiasta, mesmo daqueles que valorizam os textos densos, ricos e/ou insólitos. Isso tanto se pode dever a serem deficientemente elaborados como por suscitarem reacções conflituosas. E aqui surgem os campos da polémica e da crítica, espaços difíceis de aceder e, sem os quais, a literatura definha.

Quem deu a estes poetas o direito de assim julgarem as pessoas? Quais os critérios que para eles determinam o valor autêntico? (…) O que há entre eles de comum é (…) algo de negativo: a sua desconformidade com os valores universalmente reconhecidos não procede de um interesse predominantemente moral ou ético. (4)

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O que nos leva, mais uma vez e sempre, à eterna questão: para quem escreve o escrevinhador?

Para si mesmo? Para o leitor ideal? Para Todo-o-Mundo e Ninguém…? A pergunta pode ser pertinente ou ociosa, e só faz sentido quando aplicada ao escrevinhador em concreto; mesmo assim, seu interesse para o leitor é discutível. Existe sempre o risco clássico do artista ‘não compreendido’ no seu tempo, e existe, maciçamente, a evidência típica do escrevinhador autocomplacente, tolhido pelas suas inseguranças estruturais (escrita pobrezinha, enredo estereotipado, estilo plastificado, etc) mas em fuga para a frente.

Por isso, a questão é especialmente relevante para o próprio escrevinhador.

Aprendi a converter aquela derrota em literatura, mais uma vez, a intensificar os meus sonhos, preparando aquela frase que diria a alguém alguma vez, escrevia um poema, nunca tinha pressa, e assim passava o tempo (…). (5)

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O texto que se subordina ao sentimento ou à ideia pode transmitir emoções fortes e impressionar pela sugestão, mas este é um processo excessivamente traiçoeiro: o tempo condena-o a revelar suas debilidades, como aquela cançoneta de verão que nos entretém até à náusea. Na esmagadora maioria das vezes, o melhor que se pode dizer é que se trata duma escrita levezinha, como aquela que, geralmente, se lê na praia, à beira da piscina, nas horas de espera no aeroporto.

Ou seja, reduz-se ao lugar-comum. Ainda se fosse esta uma receita fiável para acedermos aos quinze minutos de fama…

E depois?/ A prevista acrobacia/ do mais quotidiano, o que apenas/ importa como sintoma: homens/ parados nas praças, homens carrancudos/ e com vinte e cinco eventuais/ anos sobrevivendo sem o saber. (6)

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(1) in A Poesia do Pensamento de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(2) in O Quark e o Jaguar de Murray Gell-Mann, trad.José Luís Malaquias ed.Gradiva

(3) in Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos de Tony Judt, trad. Marcelo Felix edições 70

(4) in A descoberta do Espírito de Bruno Snell, trad.Artur Mourão edições 70

(5) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(6) ‘Color Local’ in Pliegos de Cordel de J.M. Caballero Bonald, Obra Poética Completa ed. Seix Barral

Rever, reescrever, restruturar

Por melhores que sejam as intenções, o escrevinhador que pede a opinião alheia sobre a obra, acabada ou não, raramente encaixa as críticas, mas não tem qualquer problema em escutar elogios. Como resultado, só pode contar com o seu sentido crítico (neste caso autocrítico) para poder corrigir e evoluir.

Feito o inventário dos vícios e das virtudes, reunindo os principais traços das paixões, traçando os personagens, elegendo os acontecimentos primordiais, compondo os tipos por meio da reunião dos rasgos de vários personagens homogéneos, talvez pudesse chegar a escrever a história negligenciada por tantos historiadores: a dos costumes (…) (1)

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Se uns resistem a qualquer sugestão ou reparo crítico, outros confessam a sua incapacidade e desinteresse em alterar seja o que for. O que é compreensível, já que a escrita deixa sequelas, é sujeita a períodos de sofrimento e indecisão, e pode se tornar um imenso alívio ter-lhe dado fim. Por isso é comparável ao trabalho de parto. Indevidamente, porém: na escrita, o parto pode ser prolongado mesmo depois de publicadas várias edições do mesmo livro. E com melhores resultados, muitas vezes.

Instintivamente, a questão põe-se por si mesma: Para quem é isto feito? A quem pode agradar? (…) É dito que é tudo feito a bem da arte, e que a arte é algo de muito importante. (…) (2)

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É neste aspecto que se pode distinguir a escrita catártica da escrita assumidamente literária.

Certas almas manifestam a sua debilidade radical quando não conseguem se interessar por uma coisa se não acreditarem de que ela toda é o que há de melhor do mundo. (3)

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No primeiro caso, o escrevinhador tem necessidade, urgência, pulsão, em botar por escrito ideias que o atormentam, fantasmas do passado, anseios e sonhos falidos ou irrealizados (ou, simplesmente, contar uma estória, compor um poema). No segundo caso, sob a pressão (ou não) de tudo aquilo, o escrevinhador pretende que a escrita seja filtrada por um registo formal (linguístico, narrativo), ou seja, que esteja subordinada a critérios de exigência, peso e medida, para que se torne, creio eu, um prazer para quem lê e para quem escreve.

Negligenciei até agora a questão da forma no escritor naturalista, pois é ela que, precisamente,  singulariza a literatura. Não só o génio, para o escritor, se encontra no sentimento, na ideia a priori, mas também na forma, no estilo. (4)

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Mesmo que aplique filtros, o escrevinhador expõe-se às fórmulas estereotipadas, a desequilíbrios penosos, à ausência de ritmo, densidade e assunto. Que seja capaz de formular uma avaliação crítica sobre o que escreve e de justificar suas opções, resistindo às pressões da crítica alheia, pode ser um acto de resistência, autoconfiança e digno de merecido reconhecimento póstumo. Mas o esforço é sempre exigido por uma questão de simples bom senso.

Do arranjo das palavras adequadas, o que é simultaneamente arabesco e sensual, até à arquitectura da frase elegante e prenhe de sentido, o que é um acto vigoroso do intelecto puro, não há praticamente nenhuma faculdade humana que não seja exercitada. Não nos temos de espantar, portanto, de que frases perfeitas sejam raras, e páginas perfeitas mais raras ainda. (5)

Dama en amarillo escribiendo, Johannes Vermeer.

Ora, esse bom senso é prejudicado, geralmente, por uma imensa fadiga pós-criativa que acomete o escrevinhador ou pela simples indigência auto-suficiente de quem não tem sequer noção das tarefas de revisão que se impõe.

(Se soubesses se soubesses/quão triste a rosa guardada/ entre as páginas/ dos versos) (6)

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Conforme já tenho dito, essa fase não é menos criativa, não é menos estimulante (pessoalmente é a minha preferida) e não necessita recorrer a terceiros (embora sejam muito úteis leituras críticas).

Li o teu livro, Amor, sofregamente;/Li-o, e nele em vão me procurei!/ No teu livro d’amor não me encontrei,/ Tendo lá encontrado toda a gente. (7)

"Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade"

“Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade!”

Também nesta fase se tornam especialmente importantes as leituras com que o escrevinhador tenha alimentado a sua sensibilidade, pois daí lhe poderão ser fornecidos técnicas e recursos valiosos. No fundo, o desafio de ir mais além.

A nossa falta de familiaridade com o que é realmente excelente é a explicação pela qual tantos têm prazer no que é estúpido e insípido, somente por ser novidade. Deveríamos ter o hábito de ouvir, diariamente, alguma canção bonita, ler um bom poema, contemplar um quadro maravilhoso e, se possível, dizer algumas palavras tocantes. (8)

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Quando Clarence e Gilda decidiram trabalhar menos depois dos 50’s e divertirem-se, descobriram que eram, realmente, pessoas extremamente aborrecidas.

 

(1) in ‘Prologue’ à 1ª edição da La Comédie Humaine, de Honoré de Balzac

(2) in O que é a Arte?, de Leo Tolstoi, trad. (do russo para o inglês) Aylmer Maude ed.Thomas Y. Crowell & Co

(3) in Meditaciones, de Ortega y Gasset ed.Publicaciones de la Residencia de Estudiantes

(4) in Le Roman Experimental, de Émile Zola ed.Bibliothèque-Charpentier

(5) in Essays in the Art of Writing, de Robert L.Steveson ed.Chatto & Windus

(6) in ‘Capa’ Rapsódica de Stella Leonardos ed. Orfeu

(7)  in ‘O teu Livro’ Livro do Nosso Amor, de Florbela Espanca ed.Bertrand

(8) in A Aprendizagem e as Viagens de Wilhelm Meister de Johann W. Goethe, trad.Thomas Carlyle The Project Gutemberg eBooks

 

Impulsos aleatórios

Certo: o esboço duma ideia, o fantasma duma memória há muito esquecida, um sentido imprevisto ao escutar algo, o realinhar de perspectiva frente ao horizonte sugerido por uma leitura…tudo rápido e incerto, difícil de expressar, quanto mais de elaborar.

Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. (…)

Quero apossar-me do é da coisa. (…) E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro.*

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Ás vezes, nem isso: é o impulso de passar por escrito relâmpagos que se acendem numa tempestade interior, íntima.

Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo às pinturas e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras __ e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão. *

Com que resultado? Ah, pois…!

Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê agora o que se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação energética dos eléctrons, prótons, nêutrons, no fascínio que é a palavra e a sua sombra.” *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

As palavras até podem surgir, mas o texto não se parece em nada com o que tão fortemente impressionara o escrevinhador segundos antes. E por mais voltas que dê, entre a ideia-intuição-sensação-não-sei-o-quê e aquilo que é escrito gera-se uma claustrofobia que provoca a sensação de impotência.

As grutas são o meu inferno. (…) Tudo é pesado de sonho quando pinto uma gruta ou te escrevo sobre ela, (…) Quero pôr em palavras mas sem descrição a existência da gruta que faz algum tempo pintei__e não sei como. (…) Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar. Vejo palavras. O que falo é puro presente e este livro é uma linha reta no espaço. *

Mas tem um porém.

O que te escrevo não vem de manso, subindo aos poucos até um auge para depois ir morrendo de manso. Não: o que te escrevo é de fogo como olhos em brasa.

(…)Será que isto que estou te escrevendo é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é. Quem for capaz de parar de raciocinar__o que é terrivelmente difícil__ que me acompanhe. (…) Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei onde me levará esta liberdade. *

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Tenha o escrevinhador persistência para acumular estes ‘vómitos’ (conforme já ouvi alguém dizer a propósito do que escrevinhava), coragem para os enfrentar com regularidade e método para os trabalhar, e verá acontecer debaixo dos seus próprios olhos o mecanismo da selecção natural.

(…) sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. 

Vou agora parar um pouco para me aprofundar mais. Depois eu volto.

Voltei. Fui existindo. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Do caos e dos detritos, surgem conjuntos, categorias, ordens, sistemas: relações e desenvolvimentos que se impõe ao próprio escrevinhador, segundo uma lógica e um sentido que tanto podem ser misteriosamente familiares, como espantosamente originais.

Escrevo ao correr das palavras. (…)

No fundo de tudo há a aleluia.

Este instante é. Você que me lê é. (…)

Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Haja método para trabalhar a inspiração. Uma outra forma de dizer: seduzir a Musa para que ela se entregue com paixão.

(…)agora quero ver se consigo prender o que me aconteceu usando palavras. Ao usá-las estarei destruindo um pouco o que senti__mas é fatal.

(…) São sensações que se transformam em ideias porque tenho que usar palavras.(…)

O que te escrevo continua. E estou enfeitiçada. *

* in Água Viva de Clarice Lispector ed. Nova Fronteira

Inspiração, transpiração…

Por muito importante que seja a inspiração, há sempre um problema pratico e arreliante a resolver: método.

Porque, por falta de método, perdem-se ideias e sugestões inspiradoras. Tradicionalmente, o escrevinhador previdente está munido dum bloco de notas para rabiscar imediatamente o que lhe foi sugerido numa conversa ouvida casualmente ou ao passar por certo lugar sob incerta luz.

"Não te importas que escreva no meu diário?"

“Não te importas que escreva no meu diário?”

E, mesmo assim, pode lhe faltar o reflexo de anotar logo ou a argúcia em tomar nota das palavras-chave. Porque a inspiração tem algo de químico, activando hormonas que hão-de despertar memórias, associar ideias,  suscitar estórias ou encadear imagens, etc, etc, e o processo pode ser reactivado horas, dias, anos depois, pela ordem inversa, através das palavras.

Daí que, quando o escrevinhador se queixa de falta de assunto, de inspiração ou bloqueio, talvez o problema seja mais simples de entender assim.

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O meu psicólogo diz que vai levar anos para trabalhar os meus problemas de fúria, mas não tenho a certeza. Basta escrever uma estória de violência assassina e sinto-me bastante bem.

Quando ouço em resposta ah, isso dá muito trabalho! ou não se pode estar todo o tempo a tomar notas do que acontece fico com a impressão de que estou a gastar o meu latim com simples curiosos.

Gosto de falar na musa, de exaltar a paixão, de insistir no grãozinho de loucura e todas essas imagens ou ideias que transmitem a possessão no acto da escrita. Faço-o porque sei que, se até o mero leitor, também ele, quando se defronta com um certo poema ou estória, é capaz de sentir o sopro da inspiração, como não há-de senti-la o escrevinhador nas suas horas felizes obsessivas dando forma ao que lhe vai por dentro?

"O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela estão a usar luvas."

“O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela começaram a usar luvas.”

Porém, mesmo o mais sagrado dos mistérios exige ritos banais a seguir com algum escrúpulo e disciplina.

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“Helena,eu apreciaria muito se respeitasses o meu processo criativo.”

Elogio da Loucura

Surpreende-me sempre o poder de sugestão de um texto sobre alguns leitores: depois de publicado o post ‘Com um grãozinho de loucura’, houve quem perguntasse se nos posts seguintes daria dicas para obter a ‘divina inspiração’ e quem protestasse por nada ter dito em termos práticos.

Uno-Momento

Este modesto blog de dicas e tópicos sobre a escrita nada tem a dizer, de facto, sobre a louca inspiração que os deuses concedem aos tristes mortais. Nada?! Bem… talvez, duas ou três coisas.

Não cultivo qualquer fascínio pela imagem e culto do artista-louco ou ‘possuído’, embora hajam exemplos extraordinários de grande arte com doses apreciáveis de loucura. Muito menos pelos sucedâneos de excentricidade e palermice, ou pelas experiências psicadélicas, alcoólatras e outras para se aceder ao estado criativo.

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Aliás, nem aprecio sequer a ideia de tudo se sacrificar em prol da arte. A própria Loucura, no famoso discurso sobre si mesma dizia a propósito dos escritores:

“Outra espécie de pessoas mais ou menos da mesma laia é constituída pelos que ambicionam uma fama imortal publicando livros. Todos esses escritores têm parentesco comigo, sobretudo os que só publicam coisas insípidas. Quanto aos autores que só escrevem para poucos, isto é, para pessoas de fino gosto e perspicazes,(…) confesso-vos ingenuamente que merecem mais compaixão do que inveja.

Imersos numa contínua meditação, pensam, tornam a pensar, acrescentam, emendam, cortam, tornam a pôr, burilam, refundem, fazem, riscam, consultam, e, nesse trabalho, levam às vezes nove e dez anos, de acordo com o preceito de Horácio, antes do manuscrito ser impresso.

Oh! como me causam piedade tais escritores! Nunca estando satisfeitos com o seu trabalho, que recompensa podem esperar? Ai de mim! um pouco de incenso, um reduzido número de leitores, um louvor incerto.” (in O Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam)

Ou como dizemos na América: Get a life!

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“Podes ser quem tu quiseres, não há limites.”

Porém, o tal ‘grãozinho de loucura’ é um ingrediente notável (imprescindível, na minha opinião) e faz toda a diferença. Ingrediente que não impede, necessariamente, o regresso pontual a casa ou ao local de trabalho, aos mesquinhos afazeres do dia-a-dia, permitindo ao ‘Criador’ o convívio com gente banal, comum.

Ao longo da História, esse grãozinho foi o suficiente para forçar donas-de-casa, medíocres escriturários, estudantes esfaimados ou bem-nutridos, comerciantes e soldados, a roubarem horas ao descanso (quiçá ao trabalho…), dias e meses ao longo de semanas e anos, para colocarem em letra manuscrita textos de incerta valia. Todos eles vivendo fora de torres-de-marfim, e muito, muito longe, do Olimpo.

-Oh, Alice, tu és quem eu quero para mim. -Mas, Bob, num universo quântico como é possível tem alguma certeza?

-Oh, Alice…tu és quem eu quero para mim.
-Mas, Bob…num universo quântico como é possível ter certezas?

Esse grão foi, e continua a ser, o grão de sal que dá gosto às suas vidas banais, rotineiras, previsíveis. Numa época com tantas oferta e soluções de escapismo, será da maior injustiça confundir este ‘grãozinho de loucura’ como mais uma fórmula de evasão do quotidiano.

Claro, pode haver uma componente de escapismo (geralmente tem), e de terapia (provavelmente, na maioria dos casos)… e daí? Já a Loucura lembrava, no referido auto-elogio, que ‘quanto mais o homem se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incomoda velhice, tão insuportável para si como para os outros‘.

Através da escrita (mas pode-se dizer o mesmo de outras actividades), tanta gente medíocre, insignificante, até aborrecida, deixou páginas maravilhosas sobre o mundo. Mundo que também era o dos seus contemporâneos, e por vezes dum modo que nem estes imaginavam.

Bem...isto arruma com o trabalho de casa!

Bem…isto arruma com o trabalho de casa!

O que revela a presença desse pequenino grão de loucura em alguém pode ser uma ou várias evidências, nem sempre óbvias para os que o rodeiam ou com ele se cruzem diariamente.

Conforme a personalidade, ou aparente falta de personalidade, de cada um, esses sinais variam muito: uma obsessão compulsiva ou um intenso prazer, uma vontade de exteriorização ou um desejo de isolamento, uma aparente auto-confiança absoluta no valor do que faz ou uma absoluta insegurança.

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-O meu namorado? Oh, é um escritor.
-Oh, meu Deus, desculpa ter perguntado!

Nada disto, ou quaisquer outros sinais, são marcadores de qualidade. Mas a persistência e a necessidade em prosseguir revelam uma ‘possessão’, a tal ‘loucura divina’.

E repetindo-me, mais uma vez: para que resulte em ‘obra de arte’, claro está, o escrevinhador precisa ainda dos favores da bela Musa…

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