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Tag: cultura bibliográfica

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

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O bigode da Gioconda

Escrevinhadores excessivamente escrupulosos evitam certas leituras, certos autores, por temor de duvidarem eles mesmos da originalidade dos próprios escritos. Assim, sentem-se de consciência tranquila se surgirem coincidências no enredo, nas personagens, em alguns detalhes da narrativa.

Tenho ao alcance da mão as definições de Elliot, de Arnold e de Sainte-Beuve,  razoáveis e luminosas sem dúvida, e seria me grato estar de acordo com estes ilustres autores, mas não os consultarei. Cumpri setenta e tal anos; na minha idade, as coincidências e as novidades importam menos do que aquilo que se tem por verdadeiro. Limitar-me-ei, pois, a declarar o que sobre este assunto pensei. (1)

EDUARDO ESTRADA5

Mesmo na literatura sagrada das mais diferentes religiões existem coincidências, que tanto se devem aos abismos do inconsciente humano quanto ao contrabando de mitos e crenças. Como há-de escapar às influências o simples escrevinhador, se até escribas inspirados pela voz de um anjo-mensageiro ou por um deus omnisciente repetem velhos estereótipos da criação, ascensão e queda da Humanidade?

Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas algo há na sua imagem que concorda com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em distintas latitudes e idades. (2)

'Ark, Noah - not arc!'

‘Arca, Noé – não um arco!’

Percebo que se evitem certas leituras em dado momento da escrita duma obra, mas duvido da sua eficácia e receio muito pelo que isso implique. Nos últimos vá lá 2500 anos, e de forma cada vez mais avassaladora, é impossível fugir à ‘influência’ —dos temas e outros aspectos da narrativa—  dada a fina malha cultural que entretece o imaginário, a mundividência, nossa memória colectiva.

Suspeito que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve tratar de ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas palavras são sinónimas), não de suas opiniões, que são o mais superficial que há nele. (3)

'It was a last-minute change, but a good one.'

Foi uma mudança de último minuto, mas uma boa mudança. Título do livro: ‘Guerra e Paz e Repolho’

O livro e o ensino, por razões evidentes, expuseram a população mais letrada a uma intensa contaminação de ideias, estórias e fórmulas literárias, mas o imaginário e a mundividência já são bebidos com o leite materno, embalados até adormecer no peito duma qualquer vizinha solícita, escutados com avidez à lareira junto dos mais velhos e assimilados no dia-a-dia entre conhecidos e desconhecidos… ou assim era dantes.

Hoje, a força conjugada dos mass media e da net tornam a influência omnipresente e opressiva, sem disso se ter consciência, e, por isso, sem desenvolver critérios entre o que é ‘original’ e o mero plágio ou estereótipo preguiçoso.

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável (…). (4)

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por aqui falei como uma obra anterior ao sec.V a.C., escrita por um cego grego —que, eventualmente, nem terá existido― pôde influenciar um poeta, guerreiro e zarolho português quinhentista, e um caixeiro-viajante cultural irlandês, que sofria de glaucoma, do sec.XX, os quais, por sua vez, inspiraram, já no sec.XXI, um académico nascido em Angola e que, por alguma razão, usa óculos.

Ou de como, no espaço de duas dezenas de anos, 3 nomes cimeiros da literatura de 3 países diferentes, escrevem sobre o mau comportamento de senhoras muito bem casadas (morrendo todas no final do livro, sujeitas aos comentários depreciativos da parte de outras personagens).

Plágio, em qualquer dos casos, nem pensar. Um insigne académico escreveu sobre a ‘angústia da influência’, e até intitulou o livro, coincidentemente ou não, A angústia da influência.

Como entendemos uma angústia? Sendo angustiados nós mesmos. Todo leitor profundo é um Perguntador Idiota. Pergunta: “Quem escreveu meu poema?” Dai a insistência de Emerson: “Em toda a obra de génio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados — voltam-nos com uma certa majestade alienada.” (…) A crítica é a arte de conhecer os caminhos ocultos que vão de um poema a outro. (5)

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-Não faço plágio… mas gosto do modo como este tipo expressou os meus pensamentos na secção de opinião.

Sem qualquer angústia, o já conhecido escritor argentino Pablo Katchadjian, em 2009, resolveu fazer aquilo a que chamou de ‘experimento literário’: ‘engordou’ (sic) o famoso conto —O Aleph― do ainda mais famoso escritor argentino Jorge Luís Borges, adicionando-lhe mais 5600 palavras às 4000 originais, dando-lhe o sugestivo nome de O Aleph Engordado. A ‘experiência’ parece que foi bem recebida nos meios literários argentinos, a avaliar pelo que pude ler em artigo publicado no El País por Carlos Cué.

Porém, representando os interesses (ou direitos de autor) da viúva de Borges, o advogado Fernando Soto exprimiu uma perspectiva notável: ‘Isto não é um experimento, afecta directamente o direito moral da obra, que foi alterada dolosamente. Queremos que reconheça que é uma ofensa à obra de Borges. É como se alguém pintasse bigodes na Gioconda.’*

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Vai daí, o autor do O Aleph Engordado é levado a tribunal e condenado (apelou, entretanto). Em sua defesa, alega que é ‘óbvio que não se pretende esconder um plágio de forma dolosa, que para isso se pensou a lei. O livro intitula-se El Aleph engordado e no final há uma explicação do trabalho que havia feito. Borges não é um monumento, é um escritor. A história da literatura é uma constante revisão e reflexão sobre a tradição. Borges defendia o plágio e sustentava que toda a literatura está construída uma sobre a outra, é absurdo este processo, é uma novela delirante.’ *

E sustenta que não tocou no original, só acrescentou.

Este factótum, em vez de limitar-se à tarefa específica, delapidou um tempo precioso lendo as sete lucubrações de Vilaseco. Chegou a descobrir que, salvo os títulos, eram exactamente a mesma. Nem uma virgula, nem um ponto e virgula, nem uma só palavra diferente! A descoberta, fruto gratuito do acaso, carece seguramente de importância para uma séria valoração da versátil obra vilasequista e se o mencionamos à última da hora é a título de simples curiosidade. (6)

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Ora, eu que não li o ‘engordado’, não vou discutir os méritos da obra. Provavelmente, se Katchadjian não tivesse incluído O Aleph original, a decisão jurídica teria lhe sido favorável.

(…) começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é uma linguagem de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca? (7)

Mas não me interessam as questões jurídicas, agora. O que acho relevante é a ‘tese’ do dr. Fernando Soto, sobre direitos morais das obras, sobre alterações dolosas, sobre ofensas à obra de alguém, sobre bigodes e giocondas. E a ideia de Katchadjian em ‘engordar’ obras alheias.

Gracias (…) pelo facto do poema ser inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e não chegará jamais ao último verso/ e varia segundo os homens (8)

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Sobre o primeiro, assusta-me a argumentação tão propícia ao fanatismo religioso, nacionalista, ideológico, quando se apropria do património cultural (e literário) e passa a assumir o direito de avaliar e condenar qualquer referência, glosa ou sátira. Daí a queimar livros, esfaquear ou balear escrevinhadores e editores, fazer explodir livrarias, não vai um passo assim tão largo, pelo que tenho visto nos dias da minha vida. Mais corriqueiramente, surgem a censura, a autocensura, a apreensão dos livros, as multas e penas de prisão.

Sobre o segundo, saúdo esta tendência saudavelmente infectante, contagiosa, da obra literária (na verdade, da obra de arte em geral), que nos faz redescobrir textos mais antigos e abrir horizontes insuspeitados por detrás daqueles que já conhecíamos.

Schopenhauer, Quincey, Stevenson, Mauthner, Shaw, Chesterton, Léon Bloy, formam o censo heterogéneo dos autores que releio continuamente. Na fantasia cristológica intitulada ‘Três versões de Judas’, creio pressentir a remota influência do último. (9)

Mas o mais saboroso é a ironia extraordinária deste pleito jurídico ter como referência a obra de Borges. O mesmo Borges que, cotejando um fragmento do texto original do Quixote de Cervantes com o texto exactamente igual do Quixote de Menard, fictício autor do sec.XX, descobre-lhe as diferenças nas ideias e nos estilos.

O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico (Mais ambíguo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.) (10)

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* do artigo publicado a 28/06/15 no El País por Carlos Cué

(1) de ‘Sobre los Clásicos’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(2) do ‘Prologo’ in El Libro de los Seres Imaginarios de Jorge Luis Borges (com a colaboração de Margarita Guerreiro) ed.Bruguera Alfaguara

(3) do ‘Prologo’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(4) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(5) in A Angústia da Influencia de Harold Bloom trad.Marcos Santarrita, Imago Ed.

(6) de ‘Ese Polifacético: Vilaseco’ in Cuentos de H.Bustos Domecq de Jorge Luis Borges ed.Seix Barral

(7) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(8) d’ ‘Outro Poema de los Dones’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(9) do ‘Prólogo’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

(10) de ‘Pierre Menard, autor do Quixote’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

Ir além

A autocrítica é entendida como esforço de aperfeiçoamento, um ‘ir além’ que o tempo-que-passa e a exposição dos textos tendem a estimular, sinal de maturidade e de vigor criativo. A qualidade da escrita ressente-se da falta de sentido crítico e autocrítico do escrevinhador (que também é, não o consigo imaginar de outro modo, um leitor).

‘Pai, Mãe,’ disse a sua irmã, batendo sobre a mesa com a mão como introdução, ‘não podemos continuar assim. Talvez não consigam perceber, mas eu consigo. Não quero chamar este monstro de meu irmão, tudo o que digo é isto: temos de tentar e livrar-nos disto. Tentamos tudo o que é humanamente possível para cuidar daquilo e ser paciente, penso que ninguém nos pode acusar de fazer algo errado.’ (1)

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Aplicações disponíveis no Facebook (esquerda)
Aplicações úteis no Facebook (direita)

Para o principiante o exercício autocrítico é mais penoso, menos óbvio, provavelmente mais urgente. Assim, a bagagem literária, a curiosidade pelo processo como outros escrevinhadores desenvolvem os mesmos temas, a sensibilidade ao modo como as pessoas comunicam, reflectem, actuam, lêem, são algumas ferramentas de trabalho que permitem avaliar a própria escrita.

Entretanto, Xerazad dizia à sua irmã Dunyazad: “Mandarei-te chamar quando estiver no palácio, e assim que chegues e vejas que o rei tenha terminado o seu assunto comigo, me dirás: ‘Irmã, conta alguma estória maravilhosa que nos faça passar a noite’. Então contarei contos que, se Deus quiser, serão a causa da libertação das filhas dos muçulmanos’ (2)

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Na prosa e na poesia, o escrevinhador constrói os textos de modo faseado, tanto na forma como no tempo, mesmo que sinta ter escrito tudo de rajada. Em alguma dessas fases o escrevinhador deve assumir qual é a sua pretensão formal, ou seja, como pretende exprimir algo de modo ‘original’. Essa pretensão tem menos a ver com o tema do que com a perspectiva, o tom, o ritmo, o nível de linguagem, entre outros aspectos que lhe pareçam significativos no material escrito.

Nietzsche é, na esteira dos pré-socráticos que tão caros lhe foram, o filósofo em cujos escritos se fundem a especulação abstracta, a poesia e a música. (3)

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Querido YOUTUBE, eu vou sempre ‘saltar a publicidade’

O mais estereotipado desfecho pode ser escrito pela enésima vez e surpreender…—como assim?! O assassino é o mordomo? Aparece o príncipe encantado —ou a cavalaria— mesmo antes do final da estória? Não sei, ninguém sabe, nem mesmo o escrevinhador quando cria. Mas, lendo e relendo com menos emoção e mais sentido crítico, talvez uns concluam que a surpresa está na diferença como se aborda o tema, no modo distinto como o desenvolve, pelas perplexidades que sugere ou expõe e que transcendem o género.

(…) é que os contos, uns têm graça por si mesmos, outros pelo modo de contá-los (quero dizer que alguns há que, ainda que se contem sem preâmbulos e ornamentos de palavras, satisfazem); outros há que é necessário vesti-los de palavras, e com demonstrações de rostro e de mãos, e com mudar a voz, resultando algo de muito pouco, e de frouxos e descoloridos se tornam penetrantes e saborosos (4)

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A estafada polémica da ‘originalidade’ é sempre produtiva quando posta em contexto, um problema tanto maior quando começa a ser difícil encontrar denominadores comuns entre leitores (complexa noção matemática aqui empregue no sentido de leituras comuns).

O verso branco para o elisabetano era novidade tão excitante quanto o ‘close-up’ num filme de Griffith, e ambos são muito semelhantes pela intensidade de ampliação e pelo não-exagero de sentimento que permitem. Mesmo Whitman, arrebatado pela nova intensidade visual do jornal do seu tempo, nada encontrou de maior capacidade de repercussão para o seu grito bárbaro do que os versos brancos. (5)

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-Sabes me dizer como chegar, como chegar à rua Sésamo? -Não, não sei. É um lugar de fantasia. Ninguém pode ir lá.

Sem esses comuns denominadores, fica complicado para o escrevinhador entender ou fazer entender toda uma tradição que povoa a literatura de mitos, dramas palacianos ou abismos da alma. Se ele não entende e reproduz, acrítica e inconscientemente, velhas estórias e bem conhecidas intrigas, cai no ridículo, no estereótipo e pode, inclusivamente, ser um sucesso de vendas. Se as entende e recria, corre o risco de ser um criador original sem ser entendido, permanecendo na obscuridade.

O originário, no homem, (…) indica sem cessar e numa proliferação sempre renovada que as coisas começaram muito antes que ele  (6)

Excepto este sacrifício, o resto é simbólico.

“Excepto este sacrifício, o resto é bastante simbólico.

Nada é garantido, na verdade, mas há elevada probabilidade de se ficar na medíocre obscuridade. O que, na verdade, tanto deriva dum mero cálculo estatístico como da natureza criativa.

Escrevo estas linhas.Parece impossível/ Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!/(…)/ Se ao menos eu por fora fosse tão/ Interessante como sou por dentro! (7)

Ilustración para El castillo, de Luis Scafati

imagem de Luis Scafati

(1) in Metamorfose de Franz Kafka, da trad.inglesa de David Wylli Project Gutenberg eBook
(2) in El libro de las mil noches y una noche, da trad. Joseph Charles Mardrus/Vicente Blasco Ibáñez Project Gutenberg eBook
(3) in A Poesia do Pensamento de George Steiner, trad.Miguel Serras Pereira ed.Relógio D'Água
(4) in Cipión y Berganza o El coloquio de los perros de Miguel de Cervantes
(5) in A galáxia de Gutenberg de Marshall McLuhan trad.Leónidas G.Carvalho/Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional
(6) in Las Palabras y las cosas  de Michel Foucault, da trad.Elsa C.Frost ed.Planeta
Agostini
(7) in Opiário de Álvaro de Campos

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

meditação sobre a criação e o desalento

Um dos temas mais interessantes nas artes é o da influência (não confundir com plágio), e já me têm pedido para falar sobre isso. Porém, são temas que escapam aos estreitos limites deste blog sobre criação literária no sentido mais imediato.

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Alguma coisa já disse a esse respeito para ilustrar a ‘falta de originalidade’ dos grandes autores que retomam velhos temas brilhantemente desenvolvidos em épocas ou lugares diferentes. Mas a influência acontece do modo mais imprevisto: uma rápida leitura on-line num jornal, num blog ou no facebook, podem provocar uma reacção em cadeia.

Daí que, quando me falam em dificuldades para encontrar, estruturar ou desenvolver um tema que dê origem a qualquer coisa de vagamente literário, só posso recomendar obsessivamente que ler é fundamental. Com a vantagem acessória da leitura poder ser enriquecida pela própria experiência de vida, pela observação atenta ou sensível, pela personalidade singular de cada um. E nem fica especialmente dispendioso.

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O que faz a diferença é o modo como o escrevinhador aborda aquilo que leu, viveu, observou (ouviu) ou sentiu, e não tanto a experiência em si. E é esse modo (que pode variar de escrevinhador para escrevinhador, como Caeiro, Campos, Reis, Soares e Pessoa tão bem exprimiram) que torna a coisa literária fascinante.

E também algo árdua e cruel, como qualquer um de nós pode avaliar numa rápida consulta da literatura de hipermercado ou assistindo a penosas tertúlias de leitura de poesia.

Não se trata só do estilo, algo que com o tempo e a produção escrita pode evoluir, amadurecer e cristalizar. Fundamenta-se nas tais leituras, vidas, observações e sentimentos (ou sensações) do escrevinhador, mas vai para lá disso tudo e pode resultar, se não em algo distinto, pelo menos num cocktail original e sugestivo.

Nas primeiras décadas do sec.XXI, a facilidade para publicar imediatamente é inversamente proporcional à capacidade de atingir um público interessante, dada a pulverização dos canais de comunicação. Por isso muitos desanimam em prosseguir. Alguns tentam escrevinhar do modo que julgam ser mais atraente para determinado público, variando entre o piadético e o sarcástico, passando pelo piegas e pelo popularucho.

1. Graças aos avanços das tecnologias de comunicação... 2.Podemos estar em qualquer lugar da Terra... 3.E continuar a ouvir conversas imbecis.

1. Graças aos avanços das tecnologias de comunicação…
2. podemos estar em qualquer lugar da Terra…
3. e continuar a ouvir conversas imbecis.

Ciente da infinidade de escrevinhadores do passado, hoje célebres mas completamente ignorados em vida, que posso dizer a esse respeito? Que há uma infinidade maior de escrevinhadores do passado, célebres em vida e hoje completamente ignorados? Que a escrita deva ser uma paixão, um prazer, que se justifica por isso mesmo? Que o desanimo ou o facilitismo podem ser sinais vitais do suposto escrevinhador para se dedicar a assuntos mais criativos e reconhecidos socialmente, como a contabilidade ou a interpretação das leis?

Regressando à questão da influência e da criatividade, vem-me à memória algo que Herberto Hélder escreveu a propósito de traduzir poemas duma língua que desconhece, com a vantagem de, ao fazê-lo, não só escreve um poema em português, como escreve um poema que é seu!

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Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

Ensaios, monografias, memórias, estudos…

Os trabalhos académicos têm suas regras, sua metodologia, quem os escreve é suposto dominar minimamente as exigências formais, até porque recebeu formação nesse sentido e já leu muitos trabalhos do género antes.

Mas o escrevinhador amador, aquele que elege um tema sem ter preparação académica para o auxiliar, como deve fazer?14135233

Pode mesmo pôr-se em questão se o deve fazer, já que lhe falta a dita cuja preparação, mas trata-se de mero preconceito: existe uma longa lista de estudiosos autodidactas, sem preparação académica formal, que se destacaram pelo trabalho de investigação, experimentação, estudo ou divulgação.

Ora, se para a escrita da poesia ou de um romance é muito recomendável ter alguma bagagem literária, para o escrevinhador que desenvolva algum tipo de ensaio, investigação ou simples divulgação, é de simples bom senso que ‘leia tudo’ o que houver para ler antes de publicar alguma coisa.

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Já no post anterior me referi ao ‘à vontade constrangedor’ como se escreve sobre assuntos sem noção de erros, lapsos, confusões, lacunas que até o leitor leigo, mas razoavelmente informado, pode facilmente perceber.

Por vezes, o plágio é evidente, noutras vezes as fontes duvidosas são as mesmas das de outros livros.

Mais frequentemente, o tema é tratado de forma superficial, sem acrescentar nada à literatura que já existe: não há uma ideia, um facto, um enquadramento, nada, absolutamente nada, de novo. Excepto um nível mais elevado de tédio e monotonia (mas aqui estou a pensar naqueles trabalhos académicos que se fazem para cumprir metas).

-Então, a que é que você se dedica? -Sou um troll. Estrago a internet a toda a gente.                 -Este vinho não presta.

-Então, a que é que você se dedica?  -Sou um troll. Estrago a internet a toda gente.                    -Este vinho não presta.

Não penso que sejam géneros mais difíceis do que o poético ou a ficção, longe disso. Mas não permitem a mesma liberdade criativa e os artifícios de estilo, exigindo muito mais do que a simples verosimilhança, tendo de ser claro e transparente na argumentação, capacidade para sustentar ideias e afirmações com algo mais do que raciocínios ou estórias, respeitar a lógica básica e colocar-se a si próprio a questão da fundamentação do que é dito. Por uma questão de credibilidade, claro.

Bem, fácil é que não é, realmente…

Nem poesia, nem ficção.

Escrever como quem dá a conhecer algo ou como quem trata ‘à sua maneira’ algo bem conhecido, sem pretensões literárias, sem ficção, mas também sem pretensões académicas, muito menos científicas, é uma tarefa a que muito escrevinhador se dedica por paixão, sentido de dever ou, simplesmente, para ocupar o tempo e fazer algo útil.

É um domínio que não tem limites, encontrando-se géneros que tanto raiam o delírio, como géneros que detalham técnicas e procedimentos práticos, e uma grande maioria que lida com os mais variados assuntos de modo amador, desajeitado e cheio de boa-vontade.

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Dos que mais aprecio são já de outro tempo, obras magrinhas ou enciclopédicas de padres de aldeia que se dedicavam a fazer o levantamento das curiosidades, costumes, lendas e história da região onde viviam.

Hoje em dia, havendo tantos estudos especializados sobre (quase) tudo, o trabalho do amador tem de ser mais exigente consigo mesmo se quiser evitar o embaraço de ser facilmente desmentido ou sofrer do ridículo puro e simples (isto na presunção do escrito ser cotejado por algum leitor crítico).

Dou um exemplo comum, inofensivo, mas revelador da solidez de certos ‘estudos’: a etimologia do nome duma terra dando como explicação a estória popular em que alguém (muitas vezes um rei), certa vez (muito, muito tempo atrás) e naquele lugar, diz qualquer coisa e do dito (mais ou menos literal) passa a ser conhecida a terra. Trata-se duma curiosidade, duma tradição, mas daí ao escrevinhador assumir que seja ‘a’ origem do nome da terra é duma grande ingenuidade, para não dizer mais.

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Frequentemente, um livro interessante é prejudicado por detalhes pouco relevantes para o assunto, é certo, mas que revelam precipitação, talvez pouca familiaridade com algo que o escrevinhador ‘traz’ para a obra (e mesmo assim traz, desastradamente). Podem ser curtas (des)informações geográficas, históricas, e não me refiro a simples trocas de datas ou nomes.

Fica mais complicado quando o escrevinhador se dedica a um tema sem verdadeiramente o abarcar, exibindo um à vontade constrangedor. Provavelmente, a sua relação com o tema é pessoal, real, afectiva, por isso mesmo fragmentária e parcial. No contexto duma obra de memórias, autobiográfica, será um testemunho válido, mas se tiver um propósito mais amplo, torna-se mistificador.

Se entrarmos na área dos escritos mais políticos, filosóficos, esotéricos, então os riscos aumentam assustadoramente por falta de fontes fidedignas, de bibliografia, de ‘conhecimentos mínimos’, de adequação da escrita para expressar ideias complexas, de simples bom senso e prudência.

"As suas gravações são intrigantes

“As suas gravações são intrigantes, mas ainda não são suficientes para provar que eles existem.”

E para não ser mal-interpretado, saliento que o que está ‘em jogo’ não é o tema, mas a sua formulação, o seu enquadramento e desenvolvimento.

Também se pode acrescentar que é possível, e desejável, que estes escritos tenham um nível de expressão literário. ‘Literatura’ não é só poesia e prosa de ficção, como se pode constatar na obra de Fernão Lopes, António Vieira ou Francisco Manuel Alves (o famoso Abade de Baçal) .

 

 

 

 

Sobre o escrevinhador negligente

Se listar quais são, na minha opinião (que se baseia na estreita faixa da realidade que conheço), os defeitos mais comuns do comum dos escrevinhadores, surge um retrato que não me parece muito diferente do de outras épocas.

No topo dessa lista coloco a negligência: fico sempre abismado pelo descaramento como alguém se atreve a escrever (para ser lido e publicado) sem se preparar minimamente.

(…) Se há um plano/Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…)/Não tenciono escrever outro poema/Tenciono só dizer que me aborreço/(…)/Todo o conteúdo de mim é porco/E de uma chatíssima miséria/(…)/Para que escrevo? É uma pura perda. (1)

A preparação pode ter fases distintas, sendo a primeira a bagagem para esta aventura, ou seja, leituras variadas, de qualidade (tanto o texto, como a leitura).

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A seguir, talvez fosse de privilegiar a combinação da atenção com a reflexão: se o escrevinhador estiver ‘ligado’ a uma qualquer (ou mais do que uma) dimensão do real, e sobre isso desenvolver algum tipo de reflexão, naturalmente irá construir uma perspectiva sobre essa mesma realidade.

Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!/A chegada pela manhã a cais ou gares/Cheios de um silêncio repousado e claro!/Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega…/E o som especial que o correr das horas tem nas viagens… (2)

Depois, o exercício metódico da escrita irá apurando algo das fases anteriores, permitindo ao escrevinhador explorar, perceber os seus próprios limites e horizontes, corrigir trajectórias e cumprir metas.

O que resulta daqui é um dos milagres da actividade dos escrevinhadores: a de escreverem bem sobre temáticas interessantes, sem terem que ter qualquer experiência pessoal ou formação específica (para usar a terminologia horrorosa corrente).

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No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores/Mas no meu verso, por mais que o ice, há só ritmos e ideias,/Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,/Não há a realidade da pedra mais nula da rua,

Provavelmente, haverá sempre excepções ‘à regra’ que possam contradizer o que acabei de expor, mas creio que o comum dos mortais terá melhor qualidade de vida—vida de escrevinhador, claro!—se respeitar, de algum modo, esta preparação: ler (bem e variado), observar (com perspicácia, sensibilidade, intuição…), conhecer (reflexão, meditação, transe ou outros estados alterados da mente, ou simplesmente racionalizar), comunicar (escrevendo, mas não só).

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Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma/Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias./A minha época é o carimbo que levam todas as facturas,/E sinto que todas as cartas de todos os escritórios/Deviam ser endereçadas a mim. (4)

Posso não me ter feito entender ao usar, mais acima, a expressão ‘abismado pelo descaramento’: não pretendo ser pedante, polícia dos costumes ou coisa parecida, mas tenho lido ‘coisas’ (algumas publicadas) que revelam uma preparação diametralmente oposta àquela que sugiro, no todo ou em parte.

O resultado poético, narrativo, até mesmo documental ou técnico (estou a pensar em teses de mestrado e estudos sobre qualquer coisa, sim), reforça esta convicção.

E eu era parte de toda a gente que partia,/A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava/Da janela afastando-se de comboio…/(…)/E o comboio avança—eu fico… (5)

Deprime-me, confesso, que esta negligência surja  tanto entre pessoas com vinte, trinta anos, como com cinquenta ou mais anos, com cursos superiores ou exercendo profissões onde a escrita (e a leitura) não são ‘competências’ irrelevantes. Frequentemente, até dá para perceber que a ideia era boa, mas irremediavelmente comprometida por deficiências corrigíveis. E não negligenciáveis, também.

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E as suas consequências, não coisas contadas em livros,/Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,/E o sol também real sobre a terra também real/Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo! (6)

(1) in Carnaval, de Álvaro de Campos; todas as citações são deste autor retiradas da ‘Poesia de Álvaro de Campos‘, colecção dirigida pelo grande Vasco Graça Moura, ed. Planeta DeAgostini

(2) in poema 15

(3) in Saudação a Walt Whitman

(4) in Ode Marítima

(5) in poema 37

(6) in Ode Marcial

 

 

Por mares nunca antes navegados, Luís Vaz?! Tens mesmo a certeza?

Poderá, ainda, haver a ilusão de ser original depois de dezenas de séculos de Literatura? Homero escreveu sobre a atribulada odisseia* marítima de Ulisses no regresso a casa, Camões descreve a viagem marítima de Gama à Índia, Joyce escreveu Ulysses relatando um dia na vida de um tal Leopold Bloom e Gonçalo M. Tavares relata a viagem à Índia do mesmo Bloom do livro de Joyce.

'EDITORA DO 1º SÉCULO' título do livro A vida de Cristo -Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

‘EDITORA DO 1º SÉCULO’
título do livro:”A vida de Cristo”
-Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

Homero remete para uma anterior obra, Ilíada (que fala dos acontecimentos que explicam a longa ausência de Ulisses) e é, obviamente, devedor de toda uma tradição narrativa mitológica e náutica; Camões é um expoente da tradição épica iniciada pela Ilíada e é, especialmente, tributário assumido do modelo da Odisseia; no Ulysses, Joyce desenvolve a narrativa e seus personagens principais em paralelo com os acontecimentos e personagens da Odisseia; Tavares vai ‘buscar’ o personagem principal de Ulysses e transporta-o para uma viagem que tem, por sua vez, assumida inspiração nos Lusíadas.

Por vezes, no espaço de 20 anos apenas, de Lisboa a S.Petersburgo, passando por Yonville l’Abbaye, surgem personagens literários que partilham idênticos fados, como são Emma Bovary, Ana Karenina e, menos famosa mas igualmente exemplar, Luísa Mendonça de Brito Carvalho.

-Diz algo ORIGINAL.
-Amo-te!
-A originalidade está sobrevalorizada.

Na altura da morte de Emma, o farmacêutico  Homais faz um balanço final:

(…) ou ela morreu em estado de graça (como diz a Igreja), e então ela não tem necessidade nenhuma das nossas orações; ou bem que ela morreu impenitente (que é, creio, a expressão eclesiástica), e então…” (1)

A respeito de Ana, a condessa Vronskaya não tinha dúvidas:

“Diga o que disser, a verdade é que era uma mulher má. Pode compreender uma paixão assim? Que quis ela demonstrar com aquela morte? Perdeu-se a si mesma e estragou a vida de dois homens, qualquer deles de grande mérito: o marido e o meu infeliz filho.” (2)

De Luísa diria o imortal Conselheiro Acácio:

Detendo-vos, e olhai a terra fria! Ali jaz a casta esposa tão cedo arrancada às carícias do seu talentoso cônjuge. Ali soçobrou, como baixel no escarcéu da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu lar! “(3)

A ela se referiu, também, o Visconde Reinaldo:

(…) mas a verdade é que não era uma amante chique; andava em tipóias de praça; usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuía relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sapatos de ourelo; não tinha espírito, não tinha toalete… que diabo! Era um trambolho!“(3)

Pela própria universalidade da condição humana dos escrevinhadores, podem-se listar tradições literárias, sem aparente relação entre si, a tratarem os mesmos temas. 

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!... -Pois fique a saber que penso exactamente igual!

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!…
-Pois fique a saber que penso exactamente igual!

Em nenhum dos casos citados acima há o menor risco de plágio, mas existem notórias evidências de criação e génio literário a partir da ‘contaminação’ de temas, estilos e enredos duma tradição livresca que, desde há muito, se expandiu para outras formas de expressão artística, tornando-se uma referência cultural que, cada vez mais, não passa pela leitura, nem pelo reconhecimento das fontes originais.

-O que disse César quando Brutus o apunhalou? -Ai!

-O que disse César quando Brutus o apunhalou?
-Ai!

É nesse sentido que falo nos ‘novos mundos’ que se abrem: abordando temas que julga serem íntimos, únicos, por terem sido vividos ou por qualquer outro motivo, o escrevinhador irá inevitavelmente encontrar ‘cidades antigas’ em territórios que julgava virgens da presença humana,  assim como descobrirá vestígios de anteriores ‘exploradores’.

O triste é se nem se dá conta de estar a trilhar um caminho bem conhecido. E, para cúmulo, nem tendo consciência do quanto é devedor daqueles que por ali passaram primeiro.

* originalmente, o nome de Ulisses em grego é Odysseus, pelo que ‘odisseia’ significa a ‘história de Odysseus’ e, mais tarde, passou a significar viagem de aventuras e acontecimentos extraordinários.

(1) in Madame Bovary de Gustave Flaubert

(2) in Ana Karenina de Leão Tolstoi trad. João Netto

(3) in O Primo Basílio de Eça de Queirós

Questões de estilo

Uma das marcas típicas do tempo que passa é o modo como o escrevinhador se exprime. Chamemos ‘estilo’ então, para simplificar.

Por exemplo: estilo (ou falta dele) no uso da linguagem.

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Textos que reflectem um universo de referências literárias anacrónicas, como se as leituras tivessem parado a partir duma certa idade e deixassem de evoluir, sem se enriquecerem com outras referências. Pedantes ou simplórios utilizando um fraseado de cartão, palavras em desuso e esdrúxulas, numa teia de ideias feitas.

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Ou textos que desesperam por ser ‘actuais’, pretendendo usar fórmulas igualmente estereotipadas do que se julga ser a linguagem comum, do dia-a-dia, de certos meios, de alguma gente, de toda a gente. Tipificando em excesso, negando à personagem autonomia.

E a necessidade comum em moralizar, apontar o dedo, dando por adquiridos valores, dicotomias, verdades. Mesmo que seja num registo em negativo, invertendo as regras, supostamente escandaloso.

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Em qualquer dos casos o escrevinhador precisa urgentemente de escancarar a janela e descobrir horizontes, abrir a porta e correr mundo, descobrir leituras de outras latitudes, viver um outro tempo, experimentar outras dimensões. Ah, sim!…a metáfora da viagem.

-Não sei

-Não sei, Gary…eles não são digitais. Parece que estamos numa região do mundo por revelar.

Mas o problema, a meu ver, está em se aperceber desse estado incipiente, imaturo…onde o espelho para reflectir a imagem crítica? Onde o crítico para oferecer uma avaliação discutível? Onde o impulso criador para não se conformar?

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-De acordo com os resultados do teste não tem nenhuma desordem de personalidade anti-social. O que revelou é que você é somente um parvalhão.

Limites do estereótipo, ilimitados horizontes da literatura

Como bem repararam leitores deste blog, provavelmente vivendo noutras latitudes que não a minha, o mês de Dezembro pode significar mais calor, mais horas de luz solar, sendo fim-de-ano e época de Natal na mesma. O que ilustra na perfeição como somos condicionados pelo nosso pequeno mundo e pelos estereótipos dominantes.

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Pergunto, então, como é que a literatura tem lidado com a quadra nessas latitudes mais baixas? Quase arrisco dizer que não é tópico muito relevante, mas confesso minha ignorância.

Certamente, a tradição do presépio e das estórias associadas estão vivas e presentes em contos, poemas, mas…qual será a tendência nestes últimos, vá lá, 50 anos*? O imaginário comercial do Papai Noel, do pinheiro enfeitado e da neve artificial não me parecem suficientes para inspirar a criação literária, mas podem ter o efeito de esterilizar a tradição.

-Quem és tu e porque haveriamos de querer uma foto dele contigo?

-Quem és tu e porque haveríamos de querer uma foto dele contigo?

Mesmo assim, continuo a ter uma perspectiva naturalmente etnocêntrica, pois nada digo daquelas regiões onde boa parte da população, senão mesmo a grande maioria, não partilha o imaginário cristão, nem o calendário gregoriano. Será que suas literaturas orais e escritas estão completamente alheias aos temas de Dezembro?

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Volto a repetir a minha absoluta ignorância sobre tudo isso, mas adivinho aqui excelentes temas para um escrevinhador aprofundar e desenvolver.

* Ou década de 60 do sec.XX, em que a Televisão iniciou a conquista de todos os lares (para não dizer de todas as divisões da casa)
 e de todo o espaço público.

A escrita encalhada

Um horizonte (aparentemente) inalcançável para quem se inicia nas artes da escrita de longa duração é aquele em que as diversas ideias, tópicos e/ou narrativas se relacionam natural e fluentemente, ao longo da elaboração do livro.

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Para os menos afortunados, quem dera a eles ser esse o problema! Na mochila de viajante não trazem, ou entendem não trazer, matéria suficiente para encher cem páginas, reduzindo-se tudo a breves linhas duma esplêndida ideia.

Eu escreveria, se tivesse tempo.

Eu escreveria, se tivesse tempo.

Segundo as lendas e narrativas habituais do género, todo o grande escritor, famoso já ou em vias de se tornar grande, passa pelas mesmas angústias e crises de criatividade. Não é propósito, nem pretensão do escrevinhador deste blog apresentar a cura para tão insidiosa doença, pois o diagnóstico é simples e sem outro remédio do que seguir vivendo, ou seja, escrevendo.

Já aqui falei da necessária bagagem literária, também referi a simbologia da viagem e abordei a via oral, mais recentemente assumi a importância dum ambiente social e polémico.

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Tentarei, durante a semana que vem, indicar uma fuga possível ao bloqueio do escrevinhador principiante.

 

Memorialismo, monografia, ensaio, estudo, enfim…

Acredito que não há “uma” maneira de se começar (já agora, de continuar e concluir) seja o que for. Inclusive, dos meus incipientes anos de estudo de matemática, recordo haver mais do que um modo de desenvolver determinado cálculo, mas é o mais elegante e simples que leva vantagem, quanto mais não seja pela “facilidade” do entendimento.

Há quem apresente o plano geral do livro, outros apresentam as conclusões e depois desenvolvem todo o processo para aí chegar.

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Mas porque não começar dum modo imprevisto pelo leitor que julgue conhecer o tema? Porque não começar com uma estória, banal ou insólita, que resulte numa introdução ao problema?

Quem tem um estatuto académico/profissional a defender pode se subordinar a certas regras de exigência formal, metodológica e/ou científicas. Ou manda as regras às malvas e “desce” ao nível do grande público, assumindo-se como um divulgador e, eventualmente, um provocador. Os riscos são conhecidos, a solidez dos conhecimentos e a qualidade da obra é que variam muito.

Já o erudito amador, noutros tempos um pároco de aldeia apaixonado pelos achados arqueológicos e documentos históricos da remota região onde exercia, dispensa essa preocupação. Sem perder noção dos limites do autodidatismo, nem negligenciar consulta da bibliografia especializada, e outras cautelas que evitam erros e omissões demasiado evidentes para um público interessado e bem formado. E recomendo o mais estrito cepticismo a tudo o que se leia na net.

Calvin: "Fico a pensar porque foi o Homem posto no mundo. Qual é o objectivo? Porque estamos aqui?" Hobbes: "Para serem comida de tigre."

Calvin: “Fico a pensar porque foi o Homem posto no mundo. Qual é o objectivo? Porque estamos aqui?”
Hobbes: “Para serem comida de tigre.”

Frequentemente, o autor nem é, nem pretende ser, um erudito. É, simplesmente, alguém que quer recordar outros tempos, outros hábitos e gente que já morreu. Tempos, hábitos e gente que ele viveu, conheceu e com quem conviveu. Ou de que ouviu falar da boca de seus pais e parentes mais velhos.

Se outro valor não tiver, o registo das memórias (mesmo que inexactas, contraditórias, falsas até) por parte de quem teve alguma relação com o tema é matéria e documento para estudos que venham a surgir depois.

Daiquiri

Daí que a apreciação crítica que se faça nunca deva ser no sentido de abafar o impulso de escrever. Porém, sem nunca deixar de lhe apontar os limites, as incorrecções e as distorções que este tipo de literatura fatalmente incorre.

O fôlego da poesia

“Seria possível escrever Os Lusíadas numa fórmula small is beautiful?” perguntam-me com alguma maldade.

A resposta é óbvia: Os Lusíadas é tão pequeno quanto foi possível ao autor “encaixar” nos dez cantos a História de Portugal (desde Viriato), a narrativa da viagem de Gama à Índia, “dissertar” de modo erudito e elegante sobre a Cultura e a Ciência europeias, produzir uma reflexão crítica sobre a “opção” de desenvolvimento que eram os Descobrimentos, fazer recomendações ao próprio rei enquanto lhe cravava uma pensão por mérito literário…Não sei, outro qualquer precisaria de escrever muito mais e, certamente, não melhoraria em nada a obra.

A questão pertinente, a meu ver, será: é possível, ainda, ler um livro de poesia com uma narrativa e dimensão desta natureza (e não me refiro a epopeias, métricas complicadas e coisas mitológicas)? Gonçalo Tavares, recentemente, atreveu-se a escrever um livro assim (Uma Viagem à Índia, ed.Caminho).

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“As colinas distantes”
As colinas distantes chamam por mim
Suas ondas rolando seduzem meu coração
Oh, como anseio pastar nos seus vales luxuriantes.
Oh, como desejo correr pelas suas encostas verdes.
Ai de mim que não posso!
Maldita cerca eléctrica!
Maldita cerca eléctrica!”
Obrigado.

Registar a oralidade no texto escrito

Apesar do escrúpulo do autor em apresentar O Malhadinhas como um “longo monólogo [que] é menos um registo do som que um registo psicológico” (nota preliminar da edição de 1958), desde as primeiras linhas até ao fim do livro o leitor é arrastado pelo coloquialismo da narração, rico em expressões proverbiais e idiomáticas que sustentam a continuação do trecho citado acima: “Reproduzir a linguagem dum rústico, já não digo com fidelidade mas artifício, redundaria num árduo e incompensável lavor literário. O que se cometeu foi filtrá-la, mais na substância do que na forma, com o cuidado, por conseguinte, de poupar ao oiro verbal as suas pepitas preciosas.”

Ao escritor não basta o ouvido familiarizado com a linguagem oral, regionalismos, calão, etc, como muitas vezes apreciamos em espontâneos contadores de histórias e anedotas. O filtro da linguagem, “mais na substância do que na forma”, permite explorar as dimensões humanas e literárias dos personagens e dos enredos que, de outro modo, teriam de ser sacrificadas em prol dum “naturalismo” que se pretende fiel à realidade retratada, nem por isso mais verídico.

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Assumindo esta opção, Aquilino coloca um aldeão sem grande instrução (ver nota 1), velhote e esperto, a entreter um grupo de homens de outra condição (ver nota 2) com a história de sua vida, oportunidade para o autor explorar tópicos de um país rural e beirão (ver nota 3), onde a coragem física (ver nota 4), a violência de macho (ver nota 5), o penhor da palavra (ver nota 6), se misturam com artes de navalha (ver nota 7) e jogo do pau (ver nota 8), manhas de feirante (ver nota 9), língua afiada (nota 10) e uma devoção popular que ultrapassa os limites da religião instituída (ver nota 11).

Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço”

Não é preciso que tenham rodado “dois carros de anos” sobre o cadáver do escritor (ou projecto de escritor) contemporâneo para poder ter tido a grata experiência de ouvir algum velhote rural ou urbano, falar com um estilo semelhante e a mesma riqueza vocabular, associados ao raciocínio inteligente ou à meditação filosófica.

Porém, para o leitor do sec.XXI  o resultado é algo estranho num primeiro tempo: a realidade descrita e a linguagem usada, juntamente com a técnica narrativa, parece dum tempo tão longínquo quanto o do protagonista do Lazarilho de Tormes (ver nota 12), cuja 1ª edição é do sec.XVI. Mas se o Portugal rural na 2ª década do sec.XX estava mais próximo dessa realidade do que da actual, Aquilino Ribeiro é uma autor intemporal que se revela na escrita, propiciando o diálogo com o leitor.

E uma das características da boa literatura é o apelo a reler, premiando o leitor com novos sentidos, novas descobertas. E o que já se sabia, ainda sabe melhor.

Choro pela minha vida de almocreve, e dessem-me hoje o machinho, tornassem-me as minhas pernas e a boa disposição, com dias grandes ou noites sem fim, não se furtava o filho de meu pai a recomeçar o fadário por Franças e Araganças. Mas ao tempo o meu pensar era outro (…). E a vida lá vai…ligeira como uma galga doida, esparvada. Já noutro diaço julguei que era chegada a minha hora. (in O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro, 1922)

A malha

Pode não haver enredo? Ou seja, não ter história, narração, sequência? Depende do sentido que se queira dar às palavras, mas a ausência dum enredo pressupõe o quê? Na verdade, o enredo é uma malha que o tempo e as palavras formam, sendo assim, impossível de lhe escapar.

A variedade de malhas possíveis para tecer o enredo (cuja etimologia já implica a ideia da tecelagem) é grande, podendo ser aqui um dos desafios que o autor coloca a si mesmo e ao leitor. Leia o resto deste artigo »

Infinitos livros: mais leitores, menos leitura

Uma citação, uma alusão, uma referência, cruciais para a fruição do livro, seja um diálogo, seja uma situação, podem passar completamente ao lado, perdendo-se emoção, ironia ou o próprio sentido.

O paradoxo é o seguinte: hoje há imensamente mais gente a ler livros, na esmagadora maioria dos casos lendo pouco e não lendo livros “fundamentais”; ainda há 50 anos, eram relativamente poucos os que liam, mas tinham, em geral, a noção dos livros que era importante ler, partilhando entre si a informação sobre um universo reduzido de títulos e autores (comparativamente, claro) e que já eram partilhados pelas gerações cultas anteriores.

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Tecnologia e leitura

McLuhan explicou detalhadamente a evolução dos sentidos e da consciência quando da passagem das sociedades orais para as sociedades históricas, do papiro ao pergaminho, deste à letra impressa e o advento da aldeia global gerada pelos mass media electrónicos.
Para o que nos interessa aqui, o importante é se quem escreve tem “bagagem” bibliográfica, se não tem. Que é o problema do público “culto” do sec.XXI:  formação universitária, domínio das tecnologias de comunicação, acesso a bases de dados infinitas, fruição de todas as formas de produção artística, experiências culturais colectivas catárticas, mas um conhecimento incoerente, fragmentado, inconsequente do passado.

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