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Escrever como terapia…???

Consultado como uma espécie de autoridade xamânica a propósito das virtudes terapêuticas da escrita —além de ser, também, auscultado regularmente sobre quais leituras recomendaria com objectivos terapêuticos e cívicos, morais(!), etc e tal—, constato como a internet, por mais que se avise (e surgem avisos a todo o tempo!), é o lugar ideal para se ter encontros perigosos. Escudado numa espécie de anonimato, o autor deste blogue não merece dos seus leitores mais do que a leitura e apreciação crítica assente nos conteúdos práticos aqui tratados, e tudo o mais resulta duma projecção ou ilusão do leitor que anda à procura de algo. Algo que, garantidamente, aqui não há.

Escrevendo listas como terapia

“Coisas que me aborrecem.”  Escrevendo listas como terapia

Claro que ler e escrever, como qualquer actividade humana socialmente aceite, têm uma componente terapêutica. E como não haveriam de ter?! Porém, a perspectiva que aqui se procura desenvolver é predominantemente literária. O que, para quem esteja menos familiarizado com o conceito, pode parecer algo de muito válido e construtivo. E é. Assim como todo o seu contrário.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre!

Basta considerar a quantidade de livros colocados no Index e outras listas censórias, destruídos em praça pública juntamente com os seus autores e leitores, ou nas vidas miseráveis, alcoólatras, suicidas, de tanto escrevinhador, para perceber que a escrita como terapia não é um conceito evidente.

IDÍGORAS Y PACHI

Na verdade, em tempos que já lá vão, quando a Literatura era genuinamente apreciada, temida ou vilipendiada, o exercício da escrita (e o da leitura) estava desaconselhado para as classes menos favorecidas,  visto como nada adequado à condição feminina e, em geral, as leis e os costumes condicionavam fortemente os temas e as formas.

'Niña leyendo' (1850) de Franz Eybl.

Provavelmente, a partir do momento em que se tornou mercadoria, a escrita, enquanto livro, ganhou em popularidade com a consequente desvalorização, servindo de veículo para qualquer necessidade de comunicação mais ou menos propagandista ou, meramente, para satisfação lúdica ligeira. Da literatura, quantas vezes, fica-se pela pretensão.

-Os livros de História trazem muitos contos.

-Lê livros de História, trazem muitos contos.

Daí à confusão entre o potencial terapêutico da escrita (Freud recomendava anotar os sonhos) e a criação literária vai um passo, correndo-se o tremendo risco de cair na banalidade das expressões emocionais e sentimentais. E o escrevinhador sente-se aliviado? É possível, pois terá exorcizado seus fantasmas e demónios.

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Porém, ao longo dos tópicos desenvolvidos neste blogue há mais de 2 anos, tem-se privilegiado uma perspectiva distinta, eventualmente oposta: a de que a escrita, como forma de expressão literária, resulta melhor se feita com paixão, em desequilíbrio, procurando seduzir a bela Musa e atrair o leitor para o labirinto peculiar do escrevinhador. Para quem tenha alguma bagagem literária, pode já prever os abismos e monstros que se ocultam nos labirintos…

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Para conseguir tudo isto há que cultivar o salutar grãozinho de loucura. Ora, não poucos venderam a alma ao tabaco, ao álcool ou à cocaína para atingirem estes objectivos. E destes, alguns conseguiram-no, mesmo assim.

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Neste blogue entende-se que ler muito e bem, viver a vida plenamente e criar rotinas, alternando-as com rupturas, além de estar aberto para o mundo (e para o que aí se passa), é todo um processo de motivação que, em caso de não resultar em qualquer obra-prima, tem, pelo menos, a vantagem de fazer do escrevinhador ‘falhado’ melhor pessoa e pessoa mais interessante.

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A ser terapia, a escrita será assim pretexto para se viver uma vida estimulante. Mas nada está garantido, e nem é esse o objectivo da criação literária. Ou, já agora, deste blogue.

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Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

Aventuras da vida real:profissões que ninguém

Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

O Passado presente

Situar o enredo numa época passada é um dos aliciantes da escrita, encantando leitores. Ou, muito pelo contrário, o maior fiasco para quem escreve e pura perda de tempo para quem lê.

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Qualquer narrativa tem um contexto, e se este  remete explicitamente o leitor para uma época histórica (ou mesmo pré-histórica) existem dificuldades que o escrevinhador não deverá negligenciar. A maior de todas, na minha opinião, é a da linguagem falada pelas personagens. Não se trata só do vocabulário e da sintaxe características da época e de que, muitas vezes, só podemos imaginar, mas do modo como se articulam ideias, raciocínios ou se expressam emoções.

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O problema central é o do chamado ‘anacronismo’, o erro de atribuir algo (uma ideia, um preconceito, um facto) a uma época que não corresponde. Esse é um erro que acontece na melhor literatura, mas tende a ser comum entre os que se dedicam a produzir narrativas segundo formatos estereotipados.

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA? Serpente: 'Maldito sejas,Homem-Aranha!'

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA?
Serpente: ‘Maldito sejas,Homem-Aranha!’

Os chamados ‘romances históricos’ podem ser boas surpresas, mas frequentemente pecam por desleixo na caracterização (de lugares e de pessoas), no conhecimento do ambiente social, cultural, político, ou pelo excesso de descrições e informações; e tudo acompanhado de diálogos ‘empastelados’ para dar o ‘tom’ da época.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Que o enredo vá ao arrepio da ‘verdade histórica’ é uma liberdade típica do escrevinhador, já que se trata de ficção assumida. A questão é a de dar verosimilhança, criar personagens ‘de carne e osso’ (mesmo que sejam fantásticas) e manter o ritmo, o fôlego narrativo, tudo aspectos comuns a qualquer escrita com pretensões literárias.

Ora, isto tanto é pertinente para um enredo situado no outro lado do mundo, mil anos atrás, como à porta de casa do escrevinhador, há cem ou dez anos, ou ainda na semana passada. Mas, convenhamos: o que nos é distante e estranho deveria obrigar-nos a um maior estudo e cuidado na composição.

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escrever para crianças

Sou de um tempo em que se distinguiam os livros por sexo e por idade dos potenciais leitores: para rapazes ou para raparigas, para crianças ou para jovens, para mulherzinhas, para adultos (ou para mulheres, e, nesse caso, dizia-se ‘literatura feminina’).

Não se tratava somente do incipiente marketing da época, mas da própria mentalidade duma literatura ‘adaptada’ às necessidades afectivas, às exigências culturais e à formação dos leitores.

Quem tiver tempo e curiosidade, pode se entreter a procurar catálogos de colecções de livros dos últimos 200 anos e, provavelmente, descobrirá algo de novo sobre a natureza humana e o modo como se tenta enquadrá-la numa qualquer formatação cultural prêt-a-porter. Nada que não se continue a fazer hoje em dia, ainda que com diferentes categorias e estratégias.

Daquelas categorias antigas, a mais persistente é a dita ‘literatura infantil’. Ainda que a sua definição seja sempre difícil, plena de equívocos e polémicas.

Menina Sentada, pintura de Sarah Afonso

Menina Sentada, pintura de Sarah Afonso

Já aqui referi os ‘contos de fadas’,  esse género literário surgido das brumas da literatura erudita antiga, do caldeirão inesgotável da literatura oral de todos os tempos, e sei lá donde mais, reciclado pelas bonnes femmes de todos os tempos e países.

Qualquer um dos dois livros das aventuras da Alice no País das Maravilhas causa desconforto se lido para um público, infantil ou não, hoje como na época da sua publicação…por serem obscenos, cruentos ou fantasmagóricos como eram os antigos ‘contos de fadas’ antes de depurados (conforme Marina Warner nos recorda)?

(…) pois este Ogre não deixava de ser muito bom marido, ainda que comesse criancinhas. (1)

Não, mas por serem perfeitamente absurdos e exibirem um domínio espectacular da linguagem escrita e oral. Para crianças?! Tanto quanto qualquer sketch dos Monthy Python.

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Porém, com alusões mais ou menos explícitas ao incesto, à violação ou ao abuso infantil, os ‘contos de fadas’ seduzem o seu público infantil também por isso mesmo (Bruno Bettelheim chama a atenção para isso). Ou  a manipulação dos outros pela linguagem, no caso das aventuras da Alice.

Será pelas mesmas razões que a actual literatura ‘juvenil’ usa as metáforas do vampirismo e dos lobisomens para cativar leitores? Ou zombies? Inequivocamente. São tudo matérias com profundas raízes na cultura e na psique individual.

‘—Estás a ver aquela mulher idosa?Aquilo nunca te acontecerá. Nunca envelhecerás, e nunca irás morrer.

—E isso também significa outra coisa, não é? Nunca me tornarei uma adulta.’ (2)

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Mas a qualidade dos escritos é outra coisa, como este blog tenta explicar de mais do que uma maneira (por exemplo, aqui e ali). Para entender isso, não há maior desafio do que a literatura para crianças escrita por escrevinhadores adultos. Noutro post tentarei desenvolver melhor esta ideia.

(1) in O Pequeno Polegar, de Charles Perrault.

(2) in Interview with the Vampire, de Anne Rice

to be continued

 

Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

Nem poesia, nem ficção.

Escrever como quem dá a conhecer algo ou como quem trata ‘à sua maneira’ algo bem conhecido, sem pretensões literárias, sem ficção, mas também sem pretensões académicas, muito menos científicas, é uma tarefa a que muito escrevinhador se dedica por paixão, sentido de dever ou, simplesmente, para ocupar o tempo e fazer algo útil.

É um domínio que não tem limites, encontrando-se géneros que tanto raiam o delírio, como géneros que detalham técnicas e procedimentos práticos, e uma grande maioria que lida com os mais variados assuntos de modo amador, desajeitado e cheio de boa-vontade.

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Dos que mais aprecio são já de outro tempo, obras magrinhas ou enciclopédicas de padres de aldeia que se dedicavam a fazer o levantamento das curiosidades, costumes, lendas e história da região onde viviam.

Hoje em dia, havendo tantos estudos especializados sobre (quase) tudo, o trabalho do amador tem de ser mais exigente consigo mesmo se quiser evitar o embaraço de ser facilmente desmentido ou sofrer do ridículo puro e simples (isto na presunção do escrito ser cotejado por algum leitor crítico).

Dou um exemplo comum, inofensivo, mas revelador da solidez de certos ‘estudos’: a etimologia do nome duma terra dando como explicação a estória popular em que alguém (muitas vezes um rei), certa vez (muito, muito tempo atrás) e naquele lugar, diz qualquer coisa e do dito (mais ou menos literal) passa a ser conhecida a terra. Trata-se duma curiosidade, duma tradição, mas daí ao escrevinhador assumir que seja ‘a’ origem do nome da terra é duma grande ingenuidade, para não dizer mais.

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Frequentemente, um livro interessante é prejudicado por detalhes pouco relevantes para o assunto, é certo, mas que revelam precipitação, talvez pouca familiaridade com algo que o escrevinhador ‘traz’ para a obra (e mesmo assim traz, desastradamente). Podem ser curtas (des)informações geográficas, históricas, e não me refiro a simples trocas de datas ou nomes.

Fica mais complicado quando o escrevinhador se dedica a um tema sem verdadeiramente o abarcar, exibindo um à vontade constrangedor. Provavelmente, a sua relação com o tema é pessoal, real, afectiva, por isso mesmo fragmentária e parcial. No contexto duma obra de memórias, autobiográfica, será um testemunho válido, mas se tiver um propósito mais amplo, torna-se mistificador.

Se entrarmos na área dos escritos mais políticos, filosóficos, esotéricos, então os riscos aumentam assustadoramente por falta de fontes fidedignas, de bibliografia, de ‘conhecimentos mínimos’, de adequação da escrita para expressar ideias complexas, de simples bom senso e prudência.

"As suas gravações são intrigantes

“As suas gravações são intrigantes, mas ainda não são suficientes para provar que eles existem.”

E para não ser mal-interpretado, saliento que o que está ‘em jogo’ não é o tema, mas a sua formulação, o seu enquadramento e desenvolvimento.

Também se pode acrescentar que é possível, e desejável, que estes escritos tenham um nível de expressão literário. ‘Literatura’ não é só poesia e prosa de ficção, como se pode constatar na obra de Fernão Lopes, António Vieira ou Francisco Manuel Alves (o famoso Abade de Baçal) .

 

 

 

 

Sobre o escrevinhador negligente

Se listar quais são, na minha opinião (que se baseia na estreita faixa da realidade que conheço), os defeitos mais comuns do comum dos escrevinhadores, surge um retrato que não me parece muito diferente do de outras épocas.

No topo dessa lista coloco a negligência: fico sempre abismado pelo descaramento como alguém se atreve a escrever (para ser lido e publicado) sem se preparar minimamente.

(…) Se há um plano/Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…)/Não tenciono escrever outro poema/Tenciono só dizer que me aborreço/(…)/Todo o conteúdo de mim é porco/E de uma chatíssima miséria/(…)/Para que escrevo? É uma pura perda. (1)

A preparação pode ter fases distintas, sendo a primeira a bagagem para esta aventura, ou seja, leituras variadas, de qualidade (tanto o texto, como a leitura).

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A seguir, talvez fosse de privilegiar a combinação da atenção com a reflexão: se o escrevinhador estiver ‘ligado’ a uma qualquer (ou mais do que uma) dimensão do real, e sobre isso desenvolver algum tipo de reflexão, naturalmente irá construir uma perspectiva sobre essa mesma realidade.

Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!/A chegada pela manhã a cais ou gares/Cheios de um silêncio repousado e claro!/Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega…/E o som especial que o correr das horas tem nas viagens… (2)

Depois, o exercício metódico da escrita irá apurando algo das fases anteriores, permitindo ao escrevinhador explorar, perceber os seus próprios limites e horizontes, corrigir trajectórias e cumprir metas.

O que resulta daqui é um dos milagres da actividade dos escrevinhadores: a de escreverem bem sobre temáticas interessantes, sem terem que ter qualquer experiência pessoal ou formação específica (para usar a terminologia horrorosa corrente).

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No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores/Mas no meu verso, por mais que o ice, há só ritmos e ideias,/Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,/Não há a realidade da pedra mais nula da rua,

Provavelmente, haverá sempre excepções ‘à regra’ que possam contradizer o que acabei de expor, mas creio que o comum dos mortais terá melhor qualidade de vida—vida de escrevinhador, claro!—se respeitar, de algum modo, esta preparação: ler (bem e variado), observar (com perspicácia, sensibilidade, intuição…), conhecer (reflexão, meditação, transe ou outros estados alterados da mente, ou simplesmente racionalizar), comunicar (escrevendo, mas não só).

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Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma/Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias./A minha época é o carimbo que levam todas as facturas,/E sinto que todas as cartas de todos os escritórios/Deviam ser endereçadas a mim. (4)

Posso não me ter feito entender ao usar, mais acima, a expressão ‘abismado pelo descaramento’: não pretendo ser pedante, polícia dos costumes ou coisa parecida, mas tenho lido ‘coisas’ (algumas publicadas) que revelam uma preparação diametralmente oposta àquela que sugiro, no todo ou em parte.

O resultado poético, narrativo, até mesmo documental ou técnico (estou a pensar em teses de mestrado e estudos sobre qualquer coisa, sim), reforça esta convicção.

E eu era parte de toda a gente que partia,/A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava/Da janela afastando-se de comboio…/(…)/E o comboio avança—eu fico… (5)

Deprime-me, confesso, que esta negligência surja  tanto entre pessoas com vinte, trinta anos, como com cinquenta ou mais anos, com cursos superiores ou exercendo profissões onde a escrita (e a leitura) não são ‘competências’ irrelevantes. Frequentemente, até dá para perceber que a ideia era boa, mas irremediavelmente comprometida por deficiências corrigíveis. E não negligenciáveis, também.

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E as suas consequências, não coisas contadas em livros,/Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,/E o sol também real sobre a terra também real/Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo! (6)

(1) in Carnaval, de Álvaro de Campos; todas as citações são deste autor retiradas da ‘Poesia de Álvaro de Campos‘, colecção dirigida pelo grande Vasco Graça Moura, ed. Planeta DeAgostini

(2) in poema 15

(3) in Saudação a Walt Whitman

(4) in Ode Marítima

(5) in poema 37

(6) in Ode Marcial

 

 

O escrevinhador no seu labirinto

Perante a dispersão das atenções do potencial público-leitor e a concorrência avassaladora de outras formas de entretenimento, é natural que o escrevinhador se sinta perante o dilema de explorar processos narrativos que sigam o gosto dominante, daí tentando criar o ‘seu’ público; ou esquecer tudo isso e escrever para o leitor ideal, o qual é, na verdade, um reflexo de si mesmo.

Problema de Marketing

São dúvidas legítimas e sem resposta definitiva, pois encontram-se exemplos de sucesso editorial em ambos sentidos. A meu ver, trata-se mais de um sucesso do trabalho da editora do que do escrevinhador, sem desprestígio para nenhuma das partes, nem dos leitores. Por isso, neste blog não há dicas para se escrever assim ou assado, mas simplesmente sugere-se, neste capítulo, que o escrevinhador tenha em consideração se realiza de modo satisfatório os seus propósitos, ao assumir uma ou outra destas vias. E só.

"Espero que vocêstodos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo."

‘Espero que vocês todos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo.’

Grande sucesso editorial tiveram autores como Alexandre Dumas, Júlio Verne ou Emílio Salgari, sendo ainda nomes familiares para muita gente com mais de quarenta anos, e alguns dos seus livros ou heróis ainda são populares entre gerações mais novas graças às adaptações para televisão e cinema. Os três tiveram uma produção tão prolífica que seria impossível esperar o mesmo nível de qualidade no conjunto da sua obra. E, do ponto de vista da crítica, são autores de muito menor valia literária do que o seu sucesso.

"Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui."

“Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui.”

Porém, tendo sido casos de influência duradoura, muito além do seu desaparecimento físico, marcando os gostos e a imaginação popular de várias gerações, tornaram-se modelos da escrita de estórias de aventuras, amor e intriga política, fortemente dependentes do contexto histórico, científico e/ou geográfico da narrativa e que constitui sua ‘imagem de marca’.

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Que esta reflexão ‘não se limite a ser um exercício de nostalgia mas ocasião para iniciar um discurso crítico. Sem que isto, obviamente, seja turvado por preconceitos irónicos ou moralistas demasiado imediatos, capazes de inquinar aquilo de que muitas destas páginas sabem dar: a alegria da narrativa por si mesma.‘ (in Il Superuomo di Massa-retorica e ideologia nel romanzo popolare de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani)

"Li-os a todos."

“Li-os a todos.”

Ao escrevinhador do sec.XXI dificilmente lhe surgirá o desafio do folhetim nos jornais ou algo parecido, mas permanece o da escrita que prenda a atenção do leitor,dando satisfação ao autor. E se houver ainda um editor contente, tanto melhor para todos.

Todavia, não deixe o escrevinhador de ter presente que o universo literário é muito mais vasto do que tudo isto.

 

Por mares nunca antes navegados, Luís Vaz?! Tens mesmo a certeza?

Poderá, ainda, haver a ilusão de ser original depois de dezenas de séculos de Literatura? Homero escreveu sobre a atribulada odisseia* marítima de Ulisses no regresso a casa, Camões descreve a viagem marítima de Gama à Índia, Joyce escreveu Ulysses relatando um dia na vida de um tal Leopold Bloom e Gonçalo M. Tavares relata a viagem à Índia do mesmo Bloom do livro de Joyce.

'EDITORA DO 1º SÉCULO' título do livro A vida de Cristo -Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

‘EDITORA DO 1º SÉCULO’
título do livro:”A vida de Cristo”
-Realmente é muito bom, João, mas temos outros três autores com a mesma história.

Homero remete para uma anterior obra, Ilíada (que fala dos acontecimentos que explicam a longa ausência de Ulisses) e é, obviamente, devedor de toda uma tradição narrativa mitológica e náutica; Camões é um expoente da tradição épica iniciada pela Ilíada e é, especialmente, tributário assumido do modelo da Odisseia; no Ulysses, Joyce desenvolve a narrativa e seus personagens principais em paralelo com os acontecimentos e personagens da Odisseia; Tavares vai ‘buscar’ o personagem principal de Ulysses e transporta-o para uma viagem que tem, por sua vez, assumida inspiração nos Lusíadas.

Por vezes, no espaço de 20 anos apenas, de Lisboa a S.Petersburgo, passando por Yonville l’Abbaye, surgem personagens literários que partilham idênticos fados, como são Emma Bovary, Ana Karenina e, menos famosa mas igualmente exemplar, Luísa Mendonça de Brito Carvalho.

-Diz algo ORIGINAL.
-Amo-te!
-A originalidade está sobrevalorizada.

Na altura da morte de Emma, o farmacêutico  Homais faz um balanço final:

(…) ou ela morreu em estado de graça (como diz a Igreja), e então ela não tem necessidade nenhuma das nossas orações; ou bem que ela morreu impenitente (que é, creio, a expressão eclesiástica), e então…” (1)

A respeito de Ana, a condessa Vronskaya não tinha dúvidas:

“Diga o que disser, a verdade é que era uma mulher má. Pode compreender uma paixão assim? Que quis ela demonstrar com aquela morte? Perdeu-se a si mesma e estragou a vida de dois homens, qualquer deles de grande mérito: o marido e o meu infeliz filho.” (2)

De Luísa diria o imortal Conselheiro Acácio:

Detendo-vos, e olhai a terra fria! Ali jaz a casta esposa tão cedo arrancada às carícias do seu talentoso cônjuge. Ali soçobrou, como baixel no escarcéu da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu lar! “(3)

A ela se referiu, também, o Visconde Reinaldo:

(…) mas a verdade é que não era uma amante chique; andava em tipóias de praça; usava meias de tear; casara com um reles indivíduo de secretaria; vivia numa casinhola, não possuía relações decentes; jogava naturalmente o quino, e andava por casa de sapatos de ourelo; não tinha espírito, não tinha toalete… que diabo! Era um trambolho!“(3)

Pela própria universalidade da condição humana dos escrevinhadores, podem-se listar tradições literárias, sem aparente relação entre si, a tratarem os mesmos temas. 

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!... -Pois fique a saber que penso exactamente igual!

-É terrível, toda a gente acaba por pensar igual!…
-Pois fique a saber que penso exactamente igual!

Em nenhum dos casos citados acima há o menor risco de plágio, mas existem notórias evidências de criação e génio literário a partir da ‘contaminação’ de temas, estilos e enredos duma tradição livresca que, desde há muito, se expandiu para outras formas de expressão artística, tornando-se uma referência cultural que, cada vez mais, não passa pela leitura, nem pelo reconhecimento das fontes originais.

-O que disse César quando Brutus o apunhalou? -Ai!

-O que disse César quando Brutus o apunhalou?
-Ai!

É nesse sentido que falo nos ‘novos mundos’ que se abrem: abordando temas que julga serem íntimos, únicos, por terem sido vividos ou por qualquer outro motivo, o escrevinhador irá inevitavelmente encontrar ‘cidades antigas’ em territórios que julgava virgens da presença humana,  assim como descobrirá vestígios de anteriores ‘exploradores’.

O triste é se nem se dá conta de estar a trilhar um caminho bem conhecido. E, para cúmulo, nem tendo consciência do quanto é devedor daqueles que por ali passaram primeiro.

* originalmente, o nome de Ulisses em grego é Odysseus, pelo que ‘odisseia’ significa a ‘história de Odysseus’ e, mais tarde, passou a significar viagem de aventuras e acontecimentos extraordinários.

(1) in Madame Bovary de Gustave Flaubert

(2) in Ana Karenina de Leão Tolstoi trad. João Netto

(3) in O Primo Basílio de Eça de Queirós

O autor à procura da sua vocação

A imensa proliferação de escrevinhadores (com ou sem obra publicada) é um fenómeno social recente favorecido pelas tecnologias que permitem a auto-edição ou a edição incomparavelmente mais barata do que em qualquer outra época, e que tem como responsáveis directos a educação generalizada da sociedade através do modelo do ensino obrigatório e o acesso ao ensino superior por um número crescente de pessoas em diferentes fases da vida. Provavelmente, muitos escrevinhadores são tentados a iniciar um projecto porque estão na reforma, têm tempo, têm motivação.

O teu país precisa de TI

O teu país precisa de TI

E todos, claro está, são incitados por esse aguilhão que é impreciso, vago, variável, e que pode ser chamado de ‘criatividade’ para efeitos comerciais, estéticos ou de mera bengala para facilitar a comunicação. Porém, na categoria dos escrevinhadores principiantes é notória uma clivagem etária bastante acentuada: aqueles que tentam publicar ainda antes dos trinta, trinta e cinco anos, e os outros já depois dos sessenta, sessenta e cinco anos.

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Os mais novos podem ser encarados como todos os jovens escrevinhadores o foram nos últimos, vá, duzentos anos: irreverentes para com a ‘tradição’ e os ‘mestres’, desesperados pela originalidade, procurando os temas, o tom e o estilo para agradar rápida e lucrativamente.

'This is the shortest autobiography I've ever read!'

Esta é a autobiografia mais curta que li!

Ou seja, explorando os limites, fazendo pela vida, conformando-se com o que lhes parece mais fácil ou mais garantido. A diferença, para com os seus antecessores destes duzentos anos de literatura popular? Imensas diferenças: todas aquelas que identificamos com o estilhaçar da informação/formação/debate em milhentos canais de comunicação, a mercantilização global da cultura, os hábitos variáveis de consumo, essas coisas todas que tendemos a associar a modas e tendências. Que, noutro ritmo, com outro impacto, de algum modo sempre estiveram presentes nas atribulações culturais.

"Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

“Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

Mas o mais velhos? Esses sim, são a ‘novidade’ do século se atendermos à quantidade e variedade. O que escrevem? Para quem escrevem? Porque escrevem?

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“A minha professora diz que as meninas podem crescer e ser o que quiserem! Porque escolheste ser uma velhinha?”

Não o fazem pelo dinheiro, nem pela fama, e são alvo de mercado preferencial de toda uma ‘indústria’ de cursos faça-você-mesmo, de formação aprenda-num-instante, de tertúlias venha-conviver-em-poesia, de edições pague-já-que-nossa-editora-publica-amanhã e tantas coisas mais.

"Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada," murmurou Felix

“Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada?” murmurou Felix. “Era somente a minha primeira tentativa. Tenho ainda mais oito para escrever!”

Tudo isto é cultura, antropologicamente falando. Mas daí a resultar em boa literatura…

Limites do estereótipo, ilimitados horizontes da literatura

Como bem repararam leitores deste blog, provavelmente vivendo noutras latitudes que não a minha, o mês de Dezembro pode significar mais calor, mais horas de luz solar, sendo fim-de-ano e época de Natal na mesma. O que ilustra na perfeição como somos condicionados pelo nosso pequeno mundo e pelos estereótipos dominantes.

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Pergunto, então, como é que a literatura tem lidado com a quadra nessas latitudes mais baixas? Quase arrisco dizer que não é tópico muito relevante, mas confesso minha ignorância.

Certamente, a tradição do presépio e das estórias associadas estão vivas e presentes em contos, poemas, mas…qual será a tendência nestes últimos, vá lá, 50 anos*? O imaginário comercial do Papai Noel, do pinheiro enfeitado e da neve artificial não me parecem suficientes para inspirar a criação literária, mas podem ter o efeito de esterilizar a tradição.

-Quem és tu e porque haveriamos de querer uma foto dele contigo?

-Quem és tu e porque haveríamos de querer uma foto dele contigo?

Mesmo assim, continuo a ter uma perspectiva naturalmente etnocêntrica, pois nada digo daquelas regiões onde boa parte da população, senão mesmo a grande maioria, não partilha o imaginário cristão, nem o calendário gregoriano. Será que suas literaturas orais e escritas estão completamente alheias aos temas de Dezembro?

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Volto a repetir a minha absoluta ignorância sobre tudo isso, mas adivinho aqui excelentes temas para um escrevinhador aprofundar e desenvolver.

* Ou década de 60 do sec.XX, em que a Televisão iniciou a conquista de todos os lares (para não dizer de todas as divisões da casa)
 e de todo o espaço público.

A ter em conta, quando escrever…

"Queridos Mãe e Pai. Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade de me tornar uma escritora."

“Queridos Mãe e Pai: Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade que tivesse de me tornar uma escritora.”

Três tópicos para abordar a escrita de não-ficção: explicar, temperar e vaguear. Juntos ou em separado:

– a pessoa que se propõe escrever tem algo para dizer a propósito de alguma coisa, então convém que se explique ao que vai, como vai, porque vai, e outras minudências que podem incluir ainda o “porquê” ele, autor, a escrever sobre tal ou tais coisas;

– o modo como lida com o tema e outros temas que traga a propósito, o tom e o ritmo como aborda temas e como os relaciona, passando duns para outros, até à (in)conclusão final;

– a objectividade no tratamento dos temas, avançando para uma conclusão anunciada desde o início ou que o enredo vai construindo. Em qualquer dos casos acumulando factos, desenvolvendo raciocínios, citando testemunhos, estudos;

– ou a descarada subjectividade de quem fala seriamente em alhos, jamais esquecendo a importância dos bugalhos, estabelecendo afinidades, antagonismos, relacionamentos, cumplicidades, que tanto podem estar subjacentes à realidade de uns e de outros, como podem depender (quase) exclusivamente da sensibilidade de quem escreve.

Conta a experiência de vida do autor? Como não poderia contar? Para o melhor, ou para o pior, a experiência de vida de cada autor está presente de modo indelével. Até para aqueles autores moralistas, celibatários e castos, que escrevem longamente sobre as virtudes (e os perigos, claro) do amor conjugal, da vida sexual a dois, da educação da prole e outros temas assim.

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E conta, claro, a inevitável cultura, seja académica, seja bibliográfica, seja pelo convívio com outras criaturas da mesma espécie, humana ou outra. Dito de outra maneira: é preciso aprender, é preciso ler, é preciso debater. Sem dúvida, viver plenamente a vida ajuda muito. Mas isso leva a outras discussões, a começar logo pela própria pertinência e sentido desse “viver plenamente”.

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Não se trata aqui de apresentar receitas, sempre insisto em lembrar, mas de sugerir que a escrita goza duma extraordinária liberdade formal, se bem que não isente o seu autor das consequências.

Não importando agora falar das leis contra a difamação ou para proteção da moral e dos bons costumes, nada, nem ninguém, livra o autor da asneira sem o rigoroso trabalho de investigação a desenvolver pelo próprio, temperado pelo exercício saudável e profilático da autocrítica. E, mesmo assim…

Escrever como tempero

A abordagem enciclopédica, transmitida através duma linguagem simultaneamente poética e rigorosa, pode levar o autor a desenvolver o tema de modo caleidoscópico. Ou como quem tempera alegremente o prato favorito.

Escrevo estas linhas pensando num dos livros que mais me tocaram: Breviário Mediterrânico, de Pedrag Matvejevitch (ed.Quetzal).

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Um livro sobre geografia, portanto, em que o autor começa por dizer, logo na primeira linha: “Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba, tanto em terra como no mar.” Pode-se ser, simultaneamente, mais claro e preciso? E mais adiante, acrescenta: “O Mediterrâneo não é apenas uma geografia.”

Claramente, não é um geógrafo a falar, nem mesmo um historiador como Fernand Braudel a situar o tempo de Filipe II no espaço mediterrânico (ou vice-versa): “ A veemência meridional introduz, tanto nos palavrões populares como nas blasfémias puníveis com o inferno, uma parte maior ou menor do corpo, e às vezes o corpo inteiro, exibindo-o ou fingindo oferecê-lo”. Como quem diz: as palavras têm cores, sabores e nutrientes.

Pedrag Matvejevitch é um professor de literatura francesa que escreve sobre o Mediterrâneo…que há mesmo a esperar saído dum autor assim sobre um assunto que lhe é tão estranho, não é mesmo? “Quanto mais conhecemos o Mediterrâneo, menos o vemos apenas com os nossos olhos: este mar não é de solidão.”

Matthew Cusick, Collages de mapas

Escrever como quem prepara uma sopa de pedra…

Escrever como quem explica

O que torna algumas obras de não-ficção memoráveis e exemplares no seu género, não tem de ser o conhecimento especializado, mesmo quando escrito por um académico da área.

Pode ser, por exemplo, a capacidade de comunicar assuntos de imensa complexidade ou erudição de modo acessível ao grande público, sem faltar ao rigor da informação e dos dados.

Clima urso: E que tal te parece? comentário: Ele ainda não notou nada.

Clima
urso: E que tal te parece?
comentário: Ele ainda não deu conta do que se passa.

Para ilustrar com um exemplo, cito o livro Mais rápido que a luz de João Magueijo (ed.Gradiva), doutorado em Física Teórica: “A cosmologia foi durante muito tempo um assunto religioso. É espantoso que se tenha tornado um ramo da física. Que razões temos para esperar que um sistema tão complexo como o universo possa ser tratado cientificamente? A resposta irá talvez surpreendê-lo: pelo menos no que diz respeito às forças que o governam, o universo não é assim tão complexo. (…) É mais difícil descrever a dinâmica de uma ponte suspensa do que a do universo.

João Magueijo expõe problemáticas vagamente familiares ao leitor com alguma formação em ficção científica (“a matéria diz ao espaço a forma que há-de ter, o espaço diz à matéria como se há-de mover“), e põe-no a par das ideias aceites desde Einstein, das investigações e das especulações (na qual inclui a sua teoria sobre a velocidade da luz variável [a velocidade, não a luz]).

homem: É um mamute. legenda: microscópio primitivo.

homem: É um mamute.
legenda: Microscópio primitivo

A abertura do livro, por si, já é um polémico e excelente “insight” para o restrito universo da investigação científica e do mundo académico. Para ainda concluir, no final do livro: “No universo ninguém se diverte mais do que nós”.

“Nós”, os cientistas, bem entendido.

Críticas, critérios e cretinos

O problema da crítica começa logo no sentido atribuído a “crítica”. No uso corrente, a crítica é sempre negativa, depreciativa, destrutiva, senão mesmo ofensiva; porém, a raiz etimológica da palavra e o seu uso erudito (na filosofia, na ciência, nas artes) tem um sentido instrumental, mais do que valorativo: trata-se duma apreciação, duma avaliação, dum julgamento.

Uma crítica positiva que valorize um poema ou um livro, p.ex., está tão obrigada a justificar sua apreciação, seu juízo, quanto uma crítica negativa. Aliás, a crítica nem tem de se posicionar como positiva/negativa. Sua função vai muito além do “balanço geral”, e é especialmente útil para o debate e progresso do conhecimento, como para o exercício do gosto e da criatividade.

-Gostas de poesia americana? -Naah, muitos verbos. -Canadiana? -Demasiado uso da voz passiva. -E que tal a polaca? -Demasiadas consoantes. -Escocesa? -Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

-Gostas de poesia americana?
-Naah, muitos verbos.
-Canadiana?
-Demasiado uso da voz passiva.
-E que tal a polaca?
-Demasiadas consoantes.
-Escocesa?
-Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

Vista assim, rareiam espaços e oportunidades para o exercício da crítica. E não admira: nada mais difícil do que assumir um critério, justificando razões, aceitando críticas à crítica e rebatendo-as de modo coerente e fundamentado, ou evoluir na própria argumentação a ponto de, inclusivamente, admitir erros ou reformular radicalmente o juízo inicial. Na verdade, a crítica é um diálogo e uma construção em progresso permanente.

As caricaturas de crítica que vulgarmente se ouvem e se lêem não passam de manifestações de gosto ou de carácter, coisas totalmente alheias à crítica como aqui se entende.

Quando o Leitor deste blog se queixar da falta de hábitos de leitura, do pouco interesse pelos livros e/ou boa literatura (e quem diz literatura, diz de qualquer arte), pense nisto: sem críticos, não há apreciadores.

E a crítica pode ser cruel, fria e desapiedada? Não, cruel nunca: a crueldade é uma patologia mental, e a crítica é uma actividade racional saudável e estimulante à convivência, mesmo quando não seja simpática aos nossos ouvidos. Porque o seu propósito não é reconfortar o ego dos autores, nem divertir leitores, mas obrigá-los a confrontar-se com suas próprias limitações. E seguirem todos mais além do horizonte da crítica.

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POESIA! ou: quanto vale a tua vida?
-Pá, os teus poemas mudaram a minha vida!
-Oh, obrigado! Queres comprar o livro? São 10 euros.
-Oh, umm…não obrigado.
-…
(tal como me foi contado por john t. unger)

Tautologias

Volta e meia surge a notícia de alguma grande editora ter recusado a publicação duma determinada obra por razões de falta de qualidade, muito reduzida perspectiva de vir a ganhar leitores, falta de oportunidade editorial, ou outra dessas razões que qualquer autor já recebeu por escrito após envio da cópia dum livro acabado de concluir.

Se é notícia, é porque o livro recusado é, nem mais, nem menos, uma qualquer obra-prima da literatura, sob disfarce de um outro título e autoria. E o que o autor da brincadeira pretende demonstrar é a falta de seriedade e profissionalismo das editoras.

-Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?

“Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?!”

Mas também revela a sensibilidade destas para o gosto dominante do público leitor. Aí, talvez as editoras não estejam tão enganadas assim: muitas das obras que o público aprende a venerar, e até aprecia genuinamente, só merecem essa atenção porque o autor já é um autor consagrado. E o fetichismo dos leitores pelos prémios literários e/ou pelos “best sellers” não deixa dúvidas a esse respeito.

Ou seja: os bons autores são os que têm fama de o ser e os títulos que se vendem melhor são os que têm mais procura.

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Felizmente, bons novos autores vão surgindo, mesmo que misturados num número imensamente maior de novos autores medíocres. A ecologia da literatura nunca foi um Jardim do Éden, e a proliferação de novos títulos/autores com a publicação em formato digital e para a net, não irá favorecer a qualidade da escrita ou apurar o gosto pela leitura.

Nem se espere do obscuro escriba deste blog a solução para o eterno problema da quadratura do círculo.

Ainda há quem consiga ler um livro genial?

As dificuldades da leitura do Grande Sertão: Veredas são o paradoxo da própria expressão artística: a originalidade da escrita “exige” entrega do leitor, sua dedicação (tempo e qualidade de leitura), para se “deixar levar” na corrente do discurso do narrador e do seu peculiar modo de se exprimir.

Hagar

(clicar encima para ampliar)

Em forma de monólogo (como n’ O Malhadinhas), o personagem central da história conta a sua vida, dirigindo-se a alguém a quem chama “doutor”, de outra condição social e estranho ao mundo do Sertão, muitos anos depois dos acontecimentos narrados.

Mas a narrativa de Riobaldo não é linear, frequentemente interrompida por reflexões a que se sucedem relatos episódicos da vida. O recurso dos neologismos, das onomatopeias, de palavras do português antigo, do imaginário sertanejo (fortemente devedor do imaginário europeu medieval), de frases construídas ao arrepio da boa lógica ou gramática, ultrapassam os limites da expressividade a que qualquer linguagem restringe as emoções, permitindo assim ao leitor penetrar no sentido profundo da narração.

Um dos aspectos mais interessantes do Grande Sertão: Veredas está, precisamente, em ser uma obra a todos os títulos original, tributária duma longa tradição literária, a começar pelos romances medievais, reflectindo a origem e a evolução da Língua Portuguesa no modo como constrói frases e vocábulos.

A história vai ganhando ritmo, desenvolvendo um eixo (a vida de jagunço e, desta, a vingança contra o inimigo Hermógenes) onde giram, com igual significado para o narrador e para a narração, temas recorrentes que atormentam Riobaldo: o amor por Otacília (que virá a ser sua mulher), o amor secreto por Diadorim (seu amigo cangaceiro), o Demo (que teima em  se convencer que não existe) e o pacto que celebraram ambos (mas que não sabe ao certo se aconteceu) em determinado lugar (que veio a saber depois que não existe).

Acima de tudo, porque tudo o mais ganha novo sentido com a revelação, o segredo imenso que Diadorim trazia consigo e que Riobaldo só vem a descobrir tarde de mais. Aqui, a narrativa assume uma dimensão trágica, ainda para mais associada ao tema faustiano da venda da alma ao Diabo.

Sua originalidade assenta, entre outros aspectos, no modo aparentemente caótico da narrativa (o narrador facilmente perde o fio à meada e frequentemente se afunda nas suas angústias) associado à peculiar linguagem e expressividade do narrador (poética, ritmada, hesitante, pontuada de interrogações), onde nem o próprio, por vezes, tem a certeza de dizer a verdade do que viu.

Infelizmente, toda esta riqueza torna a leitura problemática, de difícil acesso ao leitor, principalmente quando não está habituado a ter de “lidar” com estruturas fora do comum e ter de ser ele próprio a retirar o sentido duma frase que, à letra, nada ou pouco diz. Ou a ter de completar entreditos, perceber alusões.

Bem diversa da narrativa literária onde a ausência da ambiguidade, o contraste marcado (entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, etc), a utilização do vocabulário corrente, uma construção com principio, meio e fim, personagens tipificados desde o início, a opção por um tema que, por mais exótico que seja aparentemente, se reduz às mesmas problemáticas do dia-a-dia do leitor, tornam a leitura fácil e a “mensagem” compreensível.

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a viagem como metáfora

Não surpreende, assim, que viajar se torne sinónimo de “transformação”, metáfora da “iniciação” aos antigos saberes ocultos (ou perdidos).

Ou seja um modo de narrar o amadurecimento, a abertura ao mundo (na sua pluralidade, nas suas diferenças). E, também, uma mudança arriscada, indesejada, que traz perigo e ameaça a integridade, física e psicológica, do viajante.

Também  há os relatos de viagens estereotipados, seja na versão lúdica das férias na praia, seja na literatura dos mistérios de antanho em versão new age: a mistura do disparate, do preconceito cultural, do kitsch, da ignorância boçal, das pretensões eruditas, etc, etc.

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Infinitos livros: mais leitores, menos leitura

Uma citação, uma alusão, uma referência, cruciais para a fruição do livro, seja um diálogo, seja uma situação, podem passar completamente ao lado, perdendo-se emoção, ironia ou o próprio sentido.

O paradoxo é o seguinte: hoje há imensamente mais gente a ler livros, na esmagadora maioria dos casos lendo pouco e não lendo livros “fundamentais”; ainda há 50 anos, eram relativamente poucos os que liam, mas tinham, em geral, a noção dos livros que era importante ler, partilhando entre si a informação sobre um universo reduzido de títulos e autores (comparativamente, claro) e que já eram partilhados pelas gerações cultas anteriores.

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A (i)materialidade da escrita

Descendo ao nível que me proponho falar da escrita, citei a frase “ler é fundamental”.

Nem ler, nem escrever, são actos naturais e espontâneos como a linguagem: exigem, tal como ela, aprendizagem. Mas, ao contrário dela, não são necessários para a sociedade humana prosperar.

Através da linguagem, o humano passa do reino da natureza para o cultural; da linguagem à escrita-leitura, a palavra ganha materialidade, permanecendo mesmo depois de todas as vozes se calarem. Daí o medo gerado no início duma era em que a palavra se torna, cada vez mais, uma realidade virtual, desaparecendo com a falta de energia duma bateria ou da ligação à internet.

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