escrever como?

tópicos e dicas para escrita

Tag: emoções

Escrever baba e ranho

Escrevinhar expondo sentimentos e emoções —pessoalmente prefiro dizer ‘estados de espírito’— é arriscado e já o disse por aqui. Mas não quero com isso dizer que seja de evitar, antes entenda-se como um aviso e um desafio.

E os sinos dobram a defuntos,/ Dlim! dlão! dlim! dlom!/ E os sinos dobram, todos juntos,/ Dlom! dlim! dlim! dlom! (1)

33B

Há poemas e novelas com tanta dor e tristeza que fazem escorrer lágrimas por mais que se torça o livro… e o efeito redunda no oposto do pretendido: o escrevinhador é motivo de chacota, tudo o que rodeia a sua escrita (personagens ou atribulações) provoca a gargalhada.

Mas vocês juraram agora fabricar a saudade artificialmente, sem os ingredientes necessários: sem o rei absoluto e o pai tirano, sem o convento e sem o gato. É impossível, meus santinhos, é absurdo. (…) É pena, é, mas que querem vocês que eu lhes faça? (2)

52A

Porém, grande literatura se escreve a propósito dos temas mais dolorosos e tristes imagináveis. Lendo alguma dela, talvez dê para entender o que a distingue do ‘choradinho’ de tantos escritos, uns famosos e a esmagadora maioria nem por isso. Sem esquecer que existe público para ambos.

—Senhora, o rei aqui me enviou para que encomendeis a vossa alma àquele que a criou, que a vossa hora é chegada, e não a posso alargar eu.

—Amigo,-disse a rainha- a minha morte vos perdoou eu; se o rei meu senhor o manda, faça-se como ordenou (…).

Suas lágrimas e gemidos ao maceiro enterneceu, com voz fraca tremendo, isto dizendo começou:

—(…) Hoje cumpro dezassete anos, para os dezoito vou. O rei não me conheceu, com as virgens me vou. Castela, diz o que te fiz? Não te atraiçoei, as coroas que me deste, de sangue e suspiros são, mas outra terei no céu, será de mais valor.

E ditas estas palavras, o maceiro a feriu, os miolos da sua cabeça, pela sala os espalhou. (3)

553378_296058487148600_1549409117_n

-Padre, pequei.  -Sim…sim, já tinha percebido isso…

Da tristeza à felicidade, a praga do texto lamechas (na poesia, então…!) sempre esteve presente e não mostra sinais de melhoria para futuro. Mas daí também nunca veio grande mal ao mundo.

No dia seguinte àquele em que me conheceu foi levar-me a casa uma poesia que me é dedicada e em que me aconselha a que siga a escola do Sentimento, ou antes a que escreva apenas o que sinto. A poesia tem um certo perfume oriental. Diz ele que a mandará para o ‘Diário Popular’. Verás… (4)

944908_10153786915882290_8617508190873252993_n

Alcool: só bebo para tornar-TE mais interessante!

No extremo oposto do espectro está o humor com toda a sua panóplia de recursos, marcando o tom e a perspectiva do texto. Há escrevinhadores que tomam de emprestado o estilo dum grande satírico de outros tempos e escrevem sobre assuntos contemporâneos com frescura e bom efeito: isso observa-se com frequência em crónicas semanais de jornais e revistas.

O português, regra geral, não acha graça nenhuma à graça propriamente dita. Ri-se, sobretudo da desgraça. Enfim— como a palavra indica— do que não tem graça absolutamente nenhuma. (…) ” É prá desgraça!” é uma expressão que faz rir os mais trombudos (…). (5)

11224205_916014248434065_7403657928542800783_n

Tanto o sucesso como o falhanço do escrevinhador em obter o efeito risível pretendido podem ser motivo para intermináveis polémicas, algumas mortalmente violentas. No pior dos casos, o tédio absoluto e o silêncio eterno em seu redor.

QUINTA-FEIRA à tarde, pouco mais de três horas, vi uma cousa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve-me a impertinência; os gostos não são iguais. (6)

11701207_945650555496184_8501480537043917139_n

angústia da influência (ver aqui) não deve inibir o impulso da escrita, antes pode levá-la a ultrapassar suas limitações e exercitar a própria voz. Claro que, para isso, há que sofrer a angústia (ter consciência de ser fiel depositário duma tradição) e tentar ir além das influências. Creio que essa é a fronteira entre o estereotipo e a influência propriamente dita.

Chegar atrasado, em termos culturais, jamais é aceitável para um grande escritor, embora Borges fizesse carreira explorando sua secundaridade. O atraso não me parece de modo algum uma condição histórica, mas uma condição que pertence à situação cultural como tal. (7)

12063309_867124040050729_7556974658289218778_n

Ora, na expressão das emoções a criatividade é, provavelmente, uma impossibilidade. E, no entanto, vale tudo e nada é garantido.

Eu só queria ter o tempo e o sossego suficientes/ Para não pensar em cousa nenhuma,/ Para nem me sentir viver,/ Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido. (8)

12107802_1482748895362408_2404512370198577060_n

(1) ‘Os Sinos’ in  de António Nobre, ed.A bela e o monstro

(2) ‘Polémica sobre o Saudosismo texto 3’ de António Sérgio in A Águia selecção de textos de Marieta Dá Mesquita, ed. alfa

(3) ‘Morte da rainha Branca’ in El Romancero viejo, edição de Mercedez Díaz Roig, ed.Cátedra

(4) ‘carta a Silva Pinto’ in Obra Completa de Cesário Verde, org.Joel Serrão, ed.Livros do horizonte

(5) ‘Graça’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed. assírio&alvim

(6) in A Semana de Machado de Assis, Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro

(7) in ‘A Angústia da Contaminação’ prefácio à 2ª edição da A Angústia da Influência de Harold Bloom, trad. Marcos Santarrita, ed.Imago

(8) in Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro, ed. assírio&alvim

Anúncios

contar estórias

Sem ofensa: um escrevinhador tem de saber contar estórias, mentirinhas, apropriar-se de narrativas alheias e dar-lhes ‘uma volta’. Inventar, claro. Sobretudo reinventar.

O nosso Cervantes—continua falando Mairena aos seus alunos—não matou, porque já estavam mortos, os livros de cavalaria, senão que os ressuscitou (…). Do mais humilde propósito literário, a paródia, surge—que ironia!—a obra mais original de todas as literaturas. (1)

10968442_833682400026203_1120774136108635287_n

Mesmo a literatura académica, séria, científica, tem saborosos exemplos de anedotas reais e relatos de fraudes fabulosas, ou comentários irónicos, capazes de forçar o sorriso ao mais sisudo leitor. Ou episódios simplesmente lastimáveis…

No dia 13 de dezembro (…) saí do carro pelo lado errado e atravessei a Quinta Avenida sem me lembrar de que na América conduzem do lado contrário ao do meu país e sem obedecer ao semáforo vermelho, coisa então desconhecida na Grã-Bretanha. Fui violentamente atropelado e durante dois meses fiquei praticamente inválido. (2)

DOCTOR-Jesus-Pre-existing-Condition

DOUTOR JESUS: -Desculpe, mas não posso curá-lo. Você tem um condição pré-existente.

Em verso ou em prosa, o escrevinhador distingue-se por essa extraordinária capacidade de dar a sentir experiências alheias ou imaginárias, sentimentos muito pessoais, emoções fingidas que deveras sente. Através da escrita, obviamente.

Doces galleguiños aires,/(…)/ alegres compañeiriños,/ rum-rum de toda-las festas,/ levái-me nas vosas alas/ como unha folliña seca (3)

MCHNY

O único escrúpulo será o de não se levar demasiado a sério, a ponto de confundir a verdade do texto com a opaca realidade.

Parece-nos impossível que para os nossos filhos seja já passado irrevogável e desconhecido aquilo que para nós é ainda presente árduo. (4)

vw

Excepto se tiver pretensões de contar histórias sobre pessoas reais no seu tempo e na sua circunstância, assumindo a intenção de se restringir a documentos, testemunhos e coisas assim: o leitor tem todo o direito de se sentir burlado ao perceber que o escrevinhador é incompetente para tal pretensão ou, pior ainda, um desenvergonhado manipulador. Essa coisa de confirmar se os alegados factos, documentos, testemunhos, são fidedignos, é uma obrigação de que só está isenta a informação nas redes sociais.

—As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se  —disse Polo—  Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco. (5)

Placebo_Effect_Max_Strength_package

‘PLACEBO-dose máxima’ tão eficaz quanto os melhores tratamentos homeopáticos 16 cápsulas

É como uma espécie de contrato entre o escrevinhador e o leitor, pese embora a flexibilidade com que um e outro possam interpretar as cláusulas não-escritas, nem negociadas.

(…), acreditem nossos leitores todos, que nem uma vírgula se lança neste parágrafo que não seja unicamente ditada pelo interesse público, nosso único móvel. A ninguém, absolutamente a ninguém queremos ofender, (…). (6)

12715495_1059265474140480_1738431302946624780_n

Dito isto, quantos clássicos da ficção literária universal não se apresentam como escrituras verídicas, senão sagradas?

—Gilgamesh, vou revelar-te uma coisa oculta, vou confiar-te um segredo dos deuses. Foi em Shuruppak, (…) cidade já antiga que aos deuses agradava morar, onde os grandes deuses tomaram a decisão de provocar o Dilúvio. (7)

1455273480_850309_1455293392_noticia_normal

cartoon de El Roto

Quando bem escrito, vale tudo realmente.

(…), ela levantou-se em silêncio e arranjou botas de sete-léguas, pegou numa varinha mágica e num bolo com um feijão que dava resposta para tudo. Depois ela fugiu com o príncipe. (8)

11873375_10204479360134241_8714979672804233878_n

(1) in Juan de Mairena de Antonio Machado, ed.Alianza Editorial

(2) in Memórias da Segunda Guerra Mundial de Wiston Churchill, trad.Manuel Cabral ed.Texto Editores

(3) in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, Ediciones Cátedra

(4) in Danúbio de Claude Magris, trad.Miguel Serras Pereira ed.Quetzal

(5) in As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, trad.João Colaço Barreiros ed.Teorema

(6) in Doutrinação Liberal (textos escolhidos de 1826 a 1827) de Almeida Garrett, ed.Publicações Alfa

(7) in Poema de Gilgamesh tábua XI, tradução para castelhano de Federico Lara Peinado, ed.Tecnos

(8) Os contos populares e de fadas originais dos Irmãos Grimm, traduzidos para o inglês por Jack Zipes ed.Princeton University Press

Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

49bac0f0-9898-4f9a-82dc-c552a9a47ed2-2060x1403

Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

10486136_10152913023841018_7111779316449339679_n

Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

11017017_888898667869855_2050099890293042001_n

Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

1509654_10152863924725841_4846414522989401024_n

Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

15042180

Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

15134455

A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

cropped-mujer_leyendo23

Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

Juliet10041953

“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

Aventuras da vida real:profissões que ninguém

Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

113ffab6-5541-42cc-8619-c8faa4459af8-620x322

Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

14198195

Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

comes-silence-912b

Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

Poetry debate

Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

segundo-a-nova-regra-ortografica-plateia-nao-tem-mais-acento-agora-todos-ficam-em-pe-1870

Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

antiDantas

O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

slide_378038_4457172_free

A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

A-Freira

A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

1392802473_extras_noticia_foton_1_1

O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

1394132506_744595_1394136789_album_normal

Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

897219

Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

1452579_546396735431220_1401219500_n

Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

charlie-apres

Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

charlie

Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

Temas duma época: o Verão

Há uma agitação editorial que se associa ao Verão, ao tempo de férias e de praia, expressa por publicações ‘light’, supostamente divertidas e da autoria de ‘famosos’, pela edição de best-sellers de autores já conhecidos, e coisas assim para ajudar a passar o tempo sem o ocupar: a antítese da paixão de ler, realmente.

Enviar SMS's enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Enviar SMS’s enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Ao Verão associam-se temas como as viagens de lazer e descoberta, os regressos e reencontros que trazem memórias de outros Verões, artes de sedução, episódios festivos. Muito para além do registo lamecha ou do pseudo-transgressor, existem bons exemplos de estórias centradas nos encontros e desencontros da época.

Paralelamente, há escrevinhadores que desenvolvem temas mais introvertidos e controversos: a solidão voluntária ou sofrida, a pausa para reflexão, a fuga à rotina ou a imersão na rotina própria da temporada, o tédio existencial e a miragem duma vida-outra.

'Nighthawks', Edward Hopper

‘Nighthawks’, Edward Hopper

Porém, é bom recordar que o Verão não se resume a um período de lazer. No passado longínquo, como no recente, as guerras europeias têm tendência a começar nesta época: primeira e segunda grande guerra, guerras civis de Espanha e da Jugoslávia, para ficar só pelos sec.XX e XXI. E no tempo em que as actividades rurais ocupavam a maior parte da população, os latifúndios exigiam o trabalho sazonal de migrantes em grande número, sendo o tempo de Verão especialmente penoso, ainda que pudesse ser visto numa tonalidade dourada e nostálgica.

Ou seja, trata-se duma época dotada para a escrita que privilegie a ambiguidade, o contraste entre as expectativas e o vivido, onde as personagens podem ser abordadas numa perspectiva caricata e, simultâneamente, humana como é próprio dum certo tipo de ironia.

-Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.

“Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.”

O que traz, no fundo, uma boa dose de complexidade ao enredo, mesmo que se limite ao registo de uns pouco dias de Verão na vida de alguém.

Ainda (e sempre) a sedução…

O grande desafio que a escrita coloca à expressão das emoções é o da combinação dos limites da linguagem (facial, gestual, oral) com os limites (ainda mais apertados) da Língua, para depois serem ainda mais limitados pela própria escrita. (ler mais neste outro post)

13311539

Nada que o comum dos mortais, desde pequenino, não tenha experimentado à sua própria custa e que se resume numa frase igualmente comum: ‘não sei como dizer isto, mas…’.

Pergunto-me se o músico ou o pintor sofrerão de idêntico problema: a paleta de cores ou as pautas também pecam por defeito na altura de exprimir emoções?

1798375_829443463740761_120487048326338749_n

Curiosamente, a dança (em sentido geral) não me parece sofrer qualquer limitação e ser o veículo por excelência da expressão das emoções.

E o teatro, claro, pela sua capacidade de integrar todas as outras artes.

Mas a escrita? A escrita impõe os limites acima referidos e só pelo engenho poético consegue iludi-los, que não é o mesmo que superá-los. (a este respeito, ler mais aqui)

Dito isto, é com facilidade que a emoção (ou o sentimento) tanto pode sofrer graves amputações na expressão literária, como, pelo contrário, abafá-la. (ler este post, para melhor entender)

A Ameaça, de René Margritte

A Ameaça, de René Margritte

Daí não ser por piada que insisto tanto na sedução da bela Musa: dela vem a inspiração, do escrevinhador sai a emoção-sentimento, e entre ambos resulta a composição.

 

Escrever como quem amordaça a emoção?!

O último post suscitou algumas dúvidas por parte de leitores, que sintetizo deste modo:

1482994_428745710587026_1084041178_n

—para quê tanta ênfase contra a emoção-espontaneidade, se é esta que alimenta a veia poética?

—qual é a recomendação que faço, afinal, a propósito da utilização da métrica e das rimas?

—se quando digo que o “pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica” são indispensáveis, não estou a propor uma qualquer ‘escola’ ou corrente poética, já que a mente crítica pode ser entendida de um modo que contradiz o sentimento ingénuo, o impulso, a própria paixão?

1959378_610458389026929_1752449537_n

-Quando é que lá chegamos?     viagem em família para a Iluminação

Reconheço-me sempre devedor de quem se presta a ler e reflectir sobre os textos aqui publicados, mais ainda quando alguém se incomoda em dar-lhes réplica. A primeira questão creio que foi respondida ao longo de vários posts publicados em diferentes alturas, a terceira até um certo ponto também, mas a segunda não de todo.

Durante a próxima semana tentarei esclarecer o melhor possível o que penso em relação às três questões.

Porém, tenho de reconhecer ser sempre complicado este tipo de considerações sem referência às leituras de uns ou de outros e aos escritos deles mesmos.

La lectora, de Federico Faruffini.

A leitora, de Federico Faruffini.

 

Aos leitores que levantaram estas questões, perguntei o que andam a ler, o que andam a escrever, e isso por duas grandes razões: a primeira, porque é mais fácil esclarecer uma dica, um tópico, fazendo referência a poemas, neste caso, e autores (daí, muitas vezes citar trechos de autores conhecidos); a segunda, analisando a produção escrita do próprio, posso exemplificar melhor o que pretendo dizer.

29826297_640

Para lá dos ‘estados de espírito’

Muitas vezes, o trabalho poético do escrevinhador  assenta na crença de que a verdade dos estados de espírito será suficiente para garantir ‘a alma’ do poema, enquanto que a aplicação duma qualquer métrica e sistemas de rimas bastará para a estrutura…e depois há um vocábulo, uma imagem, um efeito que podem ser acrescentados em revisões seguintes. Poderá também dispensar métrica e rima, sempre confiante na inspiração que o domina.

Se a emoção dominar a composição, reforça o risco do excesso, tanto na linguagem, como nas ideias, sem com isso dizer que se torna profundo ou complexo. Os sintomas mais evidentes são a perda de musicalidade, ritmo, clareza, empastelando frases longas (e a divisão da frase nos diferentes versos não a encurta, evidentemente).

-Tudo bem,David.

-Oh,David. Toda a gente sabe que és estúpido. Não precisas de tentar ganhar o campeonato mundial.

Ou seja, há mais preocupação em dizer do que em compor. Mas não será um risco aceitável, o de versejar livremente ao sabor da emoção e do sentimento? Aliás, não será até a característica principal da poesia? A de ser espontânea e vinda do fundo do Ser (ou ‘ do ser’, conforme os gostos)?

Pois, pois…não houvesse tanta negligência por parte dos escrevinhadores-poetas, compondo sem critério, nem auto-crítica.

14006195

Sendo possível o compromisso entre estrutura, emoção (ou sentimento) e critérios (sejam lá quais), o escrevinhador estará a aperfeiçoar a técnica dos futuros poemas. Assim, mais facilmente captará os momentos de inspiração num texto que seja, por sua vez, inspirador.

Passei a vida a amar e a esquecer…/Um sol a apagar-se e outro a acender/nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo/É igual a outro amor que vai surgindo,/Que há de partir também…nem eu sei quando… (1)

Pode ser que algumas obras-primas da poesia tenham sido escritas logo à primeira redacção, sem mais do que um ou outro acerto posterior. É possível e é de génio (mas dá muito trabalho). A acontecer, deve ser raro.

B29

A inspiração, emoção, sentimento, a louca da casa, são fundamentais, mas não dispensam o pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica. Quando combinados, a vida banal do escrevinhador ganha dimensão universal e a poesia, bem…a poesia torna-se força da natureza.

Eventualmente paso días enteros sangrando/(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra/exagerado e implacable como una mujer enamorada./(…)/

No alimentaré a nadie con mi cuerpo/para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo./

Por eso sangro y tengo cólicos/y me aprieto este vientre vacío/y trago pastillas hasta dormirme y olvidar/que me desangro en mi negación  (2)

Madonna (1895), de Edvar Munch

Madonna (1895), de Edvar Munch

 

(1) in Inconstância, do  Livro de Sóror Saudade de Florbela Espanca

(2) in Eventualmente paso días enteros sangrando, do livro Espejo negro de Miriam Reyes, DVD ediciones

Liberdade criativa e autocensura

Onde haja censura legal ou de facto, o escrevinhador pode gozar a liberdade (correndo riscos) de escrever o que bem entende, como bem entende, guardando depois na gaveta ou fazendo circular clandestinamente os seus escritos. Muitos escrevinhadores escreveram e publicaram sob regimes de censura, conseguindo iludir os censores de alguma maneira.

tirinha-feliz

Mas, independentemente da época, do país e das circunstâncias políticas e sociais, o escrevinhador enfrenta a dificuldade imposta pela sua própria incapacidade em lidar com certos conteúdos, formulações, umas vezes evitando-os, outras encobrindo-os até de si próprio.

A nostalgia escorre dos livros/introduz-se debaixo da pele/e esta cidade sem pálpebras/este país que nunca sonha/logo se converte no único sítio/onde o ar é o meu ar/e a culpa a minha culpa. (1)

A autocensura não é, de modo algum, confundível com a autocrítica: a primeira manifesta-se pela compulsão, negação, recalcamento, abstenção, silêncio, enquanto a segunda é, ou deve ser, uma reflexão ponderada e livre sobre o texto escrito.

Poetas a vir! Oradores, cantores, músicos que estão a vir!/Não é o hoje que me justifica nem que responderá para que vim,/Mas vocês, uma nova linhagem, nativa, atlética, continental, tão grande quanto jamais vista,/Venham! pois vocês são quem deve me justificar./Eu por mim mesmo escrevo apenas uma ou duas palavras indicativas para o futuro,/eu avanço um momento apenas na engrenagem e volto rápido pela escuridão./Eu sou um homem que, perambulando por aí sem nunca parar totalmente, lança um olhar sobre vocês e, depois, desvia sua face,/Deixando isto para que o afirmem e definam-no,/Esperando as maiores coisas de vocês! (2)

Por vezes, quando os escrevinhadores exprimem suas dificuldades em rever, reescrever, reflectir criticamente os textos, suspeito que estejam sob a influência de um mecanismo inconsciente de autocensura. Que me parece ter algo a ver com as clássicas descrições dos fenómenos de recalcamento.

1335413

Isso pelo modo como exprimem a resistência em proceder a qualquer tipo de auto-exame: sentem uma grande fadiga mental, desalento, falta de concentração, aversão, em alguns casos mal-estar, enjoo ou náusea, irritação, impulsos destrutivos (rasgar o texto ou apagá-lo), etc.

Dizem-me teus olhos, claros como o cristal:/”Por ti, bizarro amante, qual é então o meu mérito?”/—Sê charmosa e calá-te! Meu coração, a quem tudo irrita,/ Excepto a candura do antigo animal/Não quer mostrar-te o seu segredo infernal/(…)/Odeio a paixão e o espírito me faz mal! (3)

A ser assim, entendo-o pela função que a escrita possa ter para o escrevinhador: é o seu modo ‘terapêutico’ de lidar com assuntos mal resolvidos, emoções profundas e traumas de que talvez tenha, talvez não, consciência.

1382847_718475488173697_388708662_n

Ora, como já aqui tem sido dito (e também ali, além, acolá e ainda aqui), a qualidade literária pode ter  mais a sofrer do que a ganhar quando a escrita, em vez de ser acto de expressão criativa, resulta num mecanismo qualquer de libertação de tensões. Sem com isso negar o seu valor terapêutico, bem entendido.

-Odeio quando me fazes passar por um idiota.

-Odeio quando me fazes passar por um idiota.

E a possibilidade de, apesar disso ou por causa disso mesmo, estar na origem duma obra-prima.

(1) in Noción de Patria, de Mario Benedetti

(2) Poetas a vir  (Poets to Come) de Walt Whitman, tradução de André Boniatti

(3) in Sonnet d’Automne, de Charles Beaudelaire

Escrever como terapia

O sentido dado aqui a ‘terapia’ é muito amplo, e desde há muito que as artes em geral são entendidas, também, como um modo do sofredor (de amores, de melancolia, de obsessões, de desgostos, de doenças físicas ou mentais…) recuperar a saúde até um certo ponto. Ou, de algum modo, a comprazer-se com a dor.

2

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

A escrita literária, principalmente, gerou muitas e boas obras graças a este processo. Mas é incomensurável o número das que são simplesmente insuportáveis.

14007207

O problema não está na necessidade do escrevinhador em ‘trabalhar’ suas emoções e sentimentos, ordenando ideias, exprimindo sensações. Provavelmente, tudo isto é a matéria-prima e o combustível do processo artístico.

1

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

O problema está, creio eu, em deixar o processo ser dominado por essas mesmas emoções, sentimentos, ideias e sensações: o escrevinhador como que se isenta de quaisquer faculdades críticas e estéticas.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se se pode escrever bem sem essas faculdades, só o vejo possível para quem tem interiorizado com elevada técnica e apuro o exercício da escrita.

14101515

De outro modo, acontece o previsto: a produção de textos sem valor literário, ainda que ricos em material para análise psicanalítica…e, na esmagadora maioria das vezes, nem isso, vista a sua banalidade confrangedora.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Conforme já por aqui tenho dito, não se está a pôr em causa a importância da espontaneidade, das emoções-sentimentos-etc-e-tal, e de tudo o mais que exprima o mundo interior de cada qual. Mas a relativizá-los enquanto material para uma escrita com pretensões literárias, a ser partilhada com leitores desconhecidos.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se são importantes, para não dizer fundamentais, numa primeira fase do processo da escrita, têm de ser avaliados rigorosamente numa fase posterior a que chamei ‘pós-produção’ literária.

QUESTIONÁRIO POPULAR! Há mais alguma coisa na vida? SIM/NÃO -Raios.Eu devia saber esta...

QUESTIONÁRIO POPULAR!
Há mais alguma coisa na vida?
SIM/NÃO
-Raios.Eu devia saber esta…

 

* retirado de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro (apresentação crítica, fixação do texto, notas e linhas de leitura de Teresa Amado) Colecção Textos Literários—Editorial Comunicação 1984

 

 

 

 

Escrever para chegar ao fim

Uma coisa boa a respeito da ‘falta de fôlego’ do escrevinhador, tema do post anterior: resulta, na esmagadora maioria dos casos, duma consciência auto-crítica sobre o valor do texto.

Depois de doze minutos/Do seu drama  O Marinheiro/Em que os mais ágeis e astutos/Se sentem com sono e brutos,/E de sentido nem cheiro,/Diz uma das veladoras/Com langorosa magia:/ 

De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos falando ainda?

/Ora isso mesmo é que eu ia/ Perguntar a essas senhoras…(1)1982260_797510686944822_1081620113_nO escrevinhador percebe que esgotou a capacidade de inovar, acrescentar, renovar, limitando-se a produzir texto a metro, e mesmo assim com muito custo. Obviamente, o resultado não o pode satisfazer.

Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu./Senti de mais para poder continuar a sentir/ Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. (2)

ME_205_LoveYourself

-Primeiro tens de gostar de ti mesmo. -De mim?!…Eu mereço melhor!

Se parar, guardando o texto numa gaveta e aproveitando para arejar as ideias, talvez seja beneficiado por uma lufada de inspiração mais tarde. Ou abandone o projecto.

Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir…/É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…Prá frente! (3)

Infelizmente, muitos assumem o ‘dever’ de lhe dar um fim, arrumando de vez com aquela tarefa penosa. Percebo que o façam por obrigação contratual, mas isso só beneficiará a lista dos monos, caso venham a publicar.

(…) Se há um plano/ Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…) (4)

1395685003_127341_1395685121_noticia_normal

Contudo, a imensa maioria não está sujeita a prazos, muito menos a contratos. Sem gosto, nem proveito, porque insistem?

Vou atirar uma bomba ao destino. (5)

ange21072010

Sem entrar nas águas turvas da criação artística, creio que a resposta está no nível emocional do exercício da escrita literária: a generalidade dos escrevinhadores escreve por necessidade interior, como se o acto ajudasse a por em ordem as ideias, os sentimentos, a vida. Que não é uma terapia cem por cento eficaz demonstra-o a legião de suicidas, alcoólatras,  e doidos que brilharam (e brilham) no universo literário.

Mas escrever como terapia também não é garantia de que o escrevinhador se torne melhor pessoa, e muito menos de que os seus escritos se elevem da mediocridade.

Hup lá, hup lá, hup-lá-hô, hup-lá!/Hé-lá! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!/Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! (6)

onomatopc3a9ia

 

(1) in A Fernando Pessoa depois de ler o seu drama estático “O Marinheiro” em “Orpheu I” ; esta e as citações seguintes são da autoria de Álvaro de Campos  Poesia vol.I ed.Planeta DeAgostini

(2) in Ode Marítima

(3) in Carnaval

(4) in Saudação a Walt Whitman 

(5) Poema nº 42 (sem título)

(6) in Ode Triunfal

Montagem, harmonia, linha de fuga…

Para ilustrar técnicas, processos estilísticos e outros aspectos da criação literária, é mais fácil recorrer a conceitos de outras formas de expressão artística, como o cinema, a música e a pintura.

9828069-cartoon-ancient-writing-poet

Também, cada vez menos partilharmos o mesmo cânone literário, e pormo-nos a par não se faz em meia-dúzia de dias; assim,como ‘trabalho de casa’ costumo sugerir o visionamento de filmes para comparar o tratamento dado ao mesmo argumento por realizadores diferentes .

Quando digo ‘argumento’ tanto me refiro às diferentes versões cinematográficas do mesmo livro (‘Romeu e Julieta’ de Shakespeare, p.ex.), da mesma estória (a vida de Cristo, p.ex.) ou do mesmo tema (a fuga da prisão, o adultério, a vida de bairro).

Um dos aspectos mais fascinantes e úteis na técnica narrativa, comum à literatura e ao cinema, é a montagem, aquele trabalho pós-gravação das cenas, onde se dá ordem e coerência a centenas de horas de filme, cortando o que não interessa, colando captações distintas da mesma cena, dando sequência duma cena para a outra, com efeitos estilísticos paralelos ao da narrativa escrita.

Sobre cinema e literatura ainda me atrevo a dar palpites e comentários, mas de música devia estar calado e ser absolutamente omisso.

6a00d8341bfb1653ef01a73da02914970d-550wi

Combinação entre uma técnica de Banda Desenhada (os ‘balões’) e o Cinema (fotograma retirado do Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica) resultando num  ‘cartoon’ satírico com o característico ‘punch-line’.

 

Porém, como toda a gente aprecio música, sei como a banda sonora de um filme pode ter um efeito sinestético poderoso e  sinto a sonoridade do texto, experimento uma harmonia musical no enredo, por vezes escrevo com um ritmo que é o de ‘qualquer-coisa-musical’ que faz a diferença de outros escritos, ou secções do mesmo livro.

Por absoluta ignorância, sou incapaz de desenvolver teoricamente o paralelismo entre a música e a escrita literária, e temo sempre o meu entusiasmo a este respeito, principalmente quando vou buscar termos técnicos da música para ilustrar algum tópico. Mas fica a dica para o efeito sensorial, estético, que é comum a muitos escrevinhadores, sendo fonte de inspiração para todos eles.

Moisés faz o balanço... -Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia...mas nunca tive um êxito musical.

Moisés faz o balanço…
-Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia…mas nunca tive um êxito musical.

Do mesmo modo, a pintura e a fotografia são igualmente estimulantes, igualmente simbióticas para com a literatura, e frequentemente sugiro que se  ‘olhe’ um poema, um livro, como quem ‘lê’ certos quadros, certas fotos. A perspectiva, a linha-de-fuga, por exemplo, é uma noção particularmente útil.

E aqui tenho de acrescentar a Oitava Arte, a Banda Desenhada, que sintetiza exemplarmente o Cinema, a Pintura, a Literatura, além de desenvolver a sua abordagem estética específica.

corto4.1

Da dança gostaria de dizer alguma coisa, até porque sou particularmente sensível à parte física da palavra, da ideia, do enredo, coisa que ‘entendo’ muito bem quando assisto a danças de salão ou de ballet contemporâneo. Mas aí falha-me o próprio vocabulário, desgraçadamente.

Em todos os casos, esta contaminação das artes, do mais básico ao mais elaborado dos raciocínios e das teorias, da simples fruição ao exercício apurado, do apreciador ocasional ao diletante, ajudam o escrevinhador a compreender as relações entre a parte e o todo na fase da pós-produção literária, distinguindo o sentimentalismo da paixão, a emoção da criação, assim como a desenvolver sentido crítico.

la muse, de jean esparbes

la muse, de jean esparbes

Cultivando sempre o grãozinho de loucura, a relação com a bela Musa, obviamente.

 

 

 

Reconstruir os alicerces do texto

Para iniciar a revisão crítica do texto, depois de concluída a fase criativa, é fundamental que o escrevinhador se distancie emocionalmente do processo.

O ideal será passar alguns dias sem lidar com ‘aquele’ texto, já que, ao retomá-lo, irá estar muito mais atento ou sensível aos erros, incongruências, deselegâncias, banalidades e muitos outros defeitos.

1503939_484420251676357_1918546267_n

O problema varia consoante o escrevinhador, o momento ou a obra, mas tem sempre a ver com o natural envolvimento emocional focado na intensidade do enredo (ou do processo criativo), insensibilizando a atenção para detalhes técnicos. Às vezes, essa emoção sobrevaloriza aspectos secundários, dando-lhes espaço e destaque injustificado.

Por isso, num momento posterior em que o vinculo emocional é menos forte, graças ao distanciamento criado pela quebra da rotina, pela atenção dada a outros projectos ou aspectos da vida pessoal, o escrevinhador pode proceder à revisão crítica com acuidade.

Ao nível mais básico, possivelmente encontrará erros ortográficos e gramaticais: prejudicam a comunicação com o leitor, podem ser mais ou menos vergonhosos, mais ou  menos comprometedores no que toca ao estilo, à beleza, à fluidez do texto.

Niquels

Erros frequentes em escrevinhadores de todos os tipos de formação, actividade profissional e etc e tal (podem até ser ilustríssimos desconhecidos que escrevem em blogs que dão dicas sobre escrita!), devido à tal intensidade emocional em que formulações mentais e formas de oralidade se ‘atropelam’ no texto, onde as regras de comunicação são outras.

Certamente, a fragilidade duma aprendizagem formal da Língua, a falta de hábitos de leitura activa (distinta da passiva porque não se esgota na ‘mensagem’) e de escrita, contribuem muito para esta categoria de erros.

law-and-order-gramatica

Para além dos chamados ‘erros de palmatória’ (não faço a menor ideia qual seja a origem desta expressão…), existem outros não menos importantes, por vezes bem escondidos em longas frases confusas. Dos mais arreliantes são aquelas situações em que o leitor fica na dúvida qual seja o sujeito de determinada frase, criando ambiguidades tanto maiores quando, em qualquer das hipóteses, a frase tem sentido.

A terapêutica duma escrita de frases sucintas, logicamente encadeadas, pode ser bom remédio para a maioria das situações, obrigando o escrevinhador a desenvolver o alerta interno sempre que é tentado a esticar, esticar, colocando virgulas a eito como em certas estradas colocam placas de transito nos últimos metros antes do cruzamento.

10153670_619163911486166_1468205017_n

Porém, este remédio não é tão eficaz  para o caso da poesia, onde os artifícios estilísticos são muito mais ricos e variados, o que é sinónimo de terreno traiçoeiro e movediço.

 

 

 

A frase como objecto artesanal

Numa época de ‘edições de autor’ disfarçadas sob a etiqueta duma editora mercenária, o escrevinhador não tem apoio editorial que o poupe das vergonhas da publicação de erros de palmatória, gralhas e qualquer deficiência demasiado óbvia que é o que pressupõe o regular trabalho de edição.

Muito escrevinhador sente-se confiante para escrever frase a frase deixando fluir naturalmente as palavras, corrigindo a gramática ou o estilo de modo quase intuitivo, sem maior esforço do que o de quem trauteia um tema musical.

Suponho que este é o método ideal, pois liberta o escrevinhador das preocupações técnicas, dedicando-se ao desenvolvimento dos conteúdos. Na condição de, num segundo tempo, lidar com as questões formais de modo rigoroso e crítico.

2mediummemoirs.jpg

A maioria, porém, é tentada a escrever apesar das muitas inseguranças, demasiadas fragilidades, óbvias lacunas. E sem ter disso noção, aparentemente.

Também nestes casos parece-me recomendável que as preocupações formais assumam destaque depois da produção de texto, e por todas as razões.

À cautela, o escrevinhador menos confiante deve estimular em si a capacidade de escrever de modo articulado, ou seja, usando palavras de que conheça o sentido e sem pretensão de ostentação, evitando frases longas onde o sentido se perca ou, pelo menos, perca clareza.

E ao ler e reler o escrito, que o escrevinhador apure ‘o ouvido’ para as expressões familiares, especialmente aquelas que neste blog chamo ‘estereótipos’, ‘bengalas’, ‘lugar-comum’: expressões que podem ser usadas num diálogo, mas a serem evitadas a todo o custo fora de contextos muito específicos.

-Aestereotipada?chas que sou

-Achas que sou um estereótipo?

O perigo, já o disse, é o da banalização. Sem cair no exagero oposto de usar fórmulas anacrónicas que tornem o texto uma caricatura pedante, ilegível, incompreensível.

Por vários motivos, a adjectivação pode tornar-se um tique, um excesso, uma praga. Escrever que ‘depois daquela maravilhosa noite, acordou com um sol magnífico, sentindo-se enérgico e confiante, e sabia que aquele seria um dia fantástico e pleno de acções decisivas para o projecto grandioso etc, etc‘ é mais revelador de um estado de espírito do que uma abordagem literária propriamente dita.

Ou seja, no tal segundo tempo, o escrevinhador pode cortar à adjectivação, reformulando a frase e, de acordo com os seus propósitos, desenvolver um olhar irónico, uma perspectiva ácida, um tom divertido: qualquer coisa que distancie a narração e o narrador das emoções que a personagem, ingenuamente ou não, experimenta ao despertar.

mmm

“Eu era uma rapariga simples do campo com dezasseis anos quando fugi da quinta do meu tio…….”

Claro, pode fazer o contrário, reforçando a ‘vertigem’ da narração ser conduzida pelos delírios da personagem, assumir uma escrita confessional ‘à flor da pele’, ‘em carne viva’. E pode ser que resulte bem. Mas correrá ainda melhor se for parcimonioso na adjectivação.

Inspiração, transpiração…

Por muito importante que seja a inspiração, há sempre um problema pratico e arreliante a resolver: método.

Porque, por falta de método, perdem-se ideias e sugestões inspiradoras. Tradicionalmente, o escrevinhador previdente está munido dum bloco de notas para rabiscar imediatamente o que lhe foi sugerido numa conversa ouvida casualmente ou ao passar por certo lugar sob incerta luz.

"Não te importas que escreva no meu diário?"

“Não te importas que escreva no meu diário?”

E, mesmo assim, pode lhe faltar o reflexo de anotar logo ou a argúcia em tomar nota das palavras-chave. Porque a inspiração tem algo de químico, activando hormonas que hão-de despertar memórias, associar ideias,  suscitar estórias ou encadear imagens, etc, etc, e o processo pode ser reactivado horas, dias, anos depois, pela ordem inversa, através das palavras.

Daí que, quando o escrevinhador se queixa de falta de assunto, de inspiração ou bloqueio, talvez o problema seja mais simples de entender assim.

ChallengeWinner_002

O meu psicólogo diz que vai levar anos para trabalhar os meus problemas de fúria, mas não tenho a certeza. Basta escrever uma estória de violência assassina e sinto-me bastante bem.

Quando ouço em resposta ah, isso dá muito trabalho! ou não se pode estar todo o tempo a tomar notas do que acontece fico com a impressão de que estou a gastar o meu latim com simples curiosos.

Gosto de falar na musa, de exaltar a paixão, de insistir no grãozinho de loucura e todas essas imagens ou ideias que transmitem a possessão no acto da escrita. Faço-o porque sei que, se até o mero leitor, também ele, quando se defronta com um certo poema ou estória, é capaz de sentir o sopro da inspiração, como não há-de senti-la o escrevinhador nas suas horas felizes obsessivas dando forma ao que lhe vai por dentro?

"O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela estão a usar luvas."

“O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela começaram a usar luvas.”

Porém, mesmo o mais sagrado dos mistérios exige ritos banais a seguir com algum escrúpulo e disciplina.

christopher-weyant-helen-i-really-wish-you-would-respect-my-creative-process-new-yorker-cartoon

“Helena,eu apreciaria muito se respeitasses o meu processo criativo.”

O ritmo dos acontecimentos

O enredo pode exigir que os acontecimentos se sucedam com rapidez, numa sequência não-necessariamente-linear, empolgando o leitor a virar página atrás de página. Ou que assim seja em certos momentos. Tudo em prol do desenvolvimento duma estória rica em surpresas e mudanças.

14027291

“20 de Abril: Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira (…) como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? (…) Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo “clássico” do “conto filosófico”, inserindo nele (…) personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada.” *

Ou, pelo contrário, o enredo segue um ritmo certinho como um relógio. E porquê? Talvez porque o tempo da narrativa seja circular, talvez porque os acontecimentos evoluam lentamente, talvez porque as personagens valorizem menos a acção, privilegiando as relações entre si.

caco galhardo

“21 de Junho: Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após a outra, até substituírem, por completo: as que têm visão podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.” *

Possivelmente, o escrevinhador é condicionado pela interacção das personagens e pelo horizonte da narrativa, ele próprio sendo surpreendido por decisões que lhe escapam, impostas pela lógica implacável do enredo, pelo temperamento de uma ou de várias personagens. Quando assim é, escrever torna-se uma aventura, uma descoberta, uma possessão demoníaca…enfim, uma paixão.

1545708_10152231693496579_1495971127_n

“15 de Agosto: Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio (…). Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, (…) enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.” *

* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago, ed.Caminho

Sem musa e sem paixão escrevem-se livros?

Há quem escreva para poder cumprir o fado de ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore. Se ter um filho é um acto de consequências previsíveis e imprevisíveis e plantar uma árvore é sempre um benefício, escrever um livro tanto pode causar muito mal como algum bem.

-Uma vez descobri uma partícula assim de pequena. -Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!

-Uma vez descobri uma partícula assim pequenina.
-Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!                                                                                             BASÓFIAS NO LAR DOS FÍSICOS E ESCRITORES IDOSOS

O problema é escrever sem paixão (o que também se poderá dizer de ter um filho, evidentemente). Mas a paixão não é uma condição, somente um benefício.

Lima Barreto, no início do sec.XX, comentava assim os círculos literários cariocas que frequentava:

(…) uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopeia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal (in Diário Íntimo de Lima Barreto)

Romantismo

Se o candidato a escrevinhador sente a comichão de um tema e a vontade em o desenvolver, não precisa de autorização superior para deitar mãos à obra. E se conseguir desenvolvê-lo com alguma extensão, profundidade e elevação, a ideia passa a ter as necessárias três dimensões para se tornar um objecto apreciável.

Poesia ou ficção sem paixão não deve ser fácil, mas com algum entusiasmo ou motivação fazem-se coisas.

Mais acessível para aqueles que não se sentem arrebatados pela musa, são os estudos e monografias, memórias e relatos, trabalhos escritos que exigem, principalmente, conhecimento do tema e técnica expositiva.

TiraARTE

Aí o escrevinhador cruza as fronteiras nebulosas da literatura e entra em domínios mais rigorosos, sujeitos a outro tipo de escrutínio: rigor, fundamentação, lógica, entre outros requisitos.

fernando-gonsales-tiras

Ah, vocabulário adequado e gramática limpinha também ajudam.

Transbordando de amor

O Natal (um dos três temas fortes de Dezembro) é época em que os ‘bons sentimentos’ são extensíveis a toda a gente, de modo indiscriminado e despudorado.

No registo literário, a efusão de afectos para com o mundo exprime-se, na maioria das vezes, através de poemas e, menos frequentemente, por contos. Aparentemente, obras de maior fôlego devem sufocar o próprio escrevinhador, pois só tenho ideia de encontrá-las nas secções de ‘auto-ajuda’ ou ‘espiritualidades’ das melhores livrarias, secções que pertencem a um outro domínio que não o estritamente literário.

2012-06-06-at-07-17-19-M

Desde (quase) sempre existe literatura que aborda o tema do ‘amor’ visto sob as mais variadas perspectivas, mas aquela que trago aqui é relativamente recente: a expressão dum amor incondicional, impessoal (porque dirigido a todos e a tudo),que pode facilmente centrar-se no próprio escrevinhador e nas suas dores, anseios e desejo dum mundo melhor, através duma linguagem poética que abusa da adjectivação, das descrições e enumerações (‘listas de mercearia’, digo eu). Além dos chamados lugares-comuns, que são a forma mais banal de estereótipo e de valor literário nulo quando usados sem outro critério do que o do seu valor expressivo.

"T-Tempo para chorar

“T-Tempo para chorar…tempo para dizer adeus…tempo para…amar…m-morrer…!”

Com o acesso de um número maior de pessoas à categoria de ‘escrevinhadores’, graças ao ensino das letras e à redução dos custos de publicação, muitos fenómenos surgiram e este é um deles. No sec.XIX surgem como precursores na poesia, nas cartas (sim, já foram um género muito apreciado), em discursos (porque houve um tempo em que se imprimiam e distribuíam discursos de todo o tipo) e em outros géneros de pendor muito diverso que se limitavam a canalizar o ‘acrisolado’ amor a temas mais terra-a-terra como a ‘pátria’, ‘a nossa terra’ (neste caso, a ‘terrinha que nos viu nascer’), a ‘história’ (da pátria ou da terrinha) e outros tópicos em voga que inflamavam facilmente auditórios e leitores de jornais.

"Empatia? Sim, percebo como pode ser útil."

“Empatia? Sim, percebo como isso possa vir a ser útil.”

Daí a figura do poeta local, do escritor da terra, aqueles que ‘imortalizavam’ a pequena cidade, cantavam os rios e as fontes, descreviam com rica adjectivação as qualidades das gentes e a excelência dos produtos da região. Os conterrâneos agradecidos, emigrantes ou residentes, mesmo que analfabetos, sabiam alguns versos ou descrições sugestivas e o nome de quem os escreveu. Algum dia, mais tarde, uma praça, uma estátua, uma rotunda, seria dedicada à egrégia figura.

-

“-Eu adoro a sua poesia!”

A acrescentar a tudo isso, temos o fenómeno muito mais recente do amor sem objecto, nem limites, decorrente da anonimidade urbana e da proliferação de escrevinhadores com obra publicada. É assim como a necessidade de gritar alto, da janela da casa, toda a indignação contra o que está mal e com total simpatia pelo que é o Bom, o Justo e essas coisas aparentemente indiscutíveis.

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.'

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.’

Ora, devo reconhecer que ambos os fenómenos não são coisa que coloquem em perigo a ordem pública, mas geralmente têm uma função mais catártica do que literária, e é aí que me volto a repetir: cuidado com o excesso das emoções na construção dos textos.

"Liberdade é

“Liberdade é mais uma palavra para fazeres o que te mandam…”                                                 Fascistas dão em péssimos cantores populares.

Mesmo privilegiando os sentimentos, l’amour fou ou se transborde de amor sobre seus semelhantes, a natureza ou alguma das infinitas categorias do divino, o uso das imagens, o rigor na construção das frases, o domínio da composição geral são ainda mais importantes precisamente pela necessidade de equilibrar a emoção com algum sentido estético. Não se trata de menosprezar a inspiração, o impulso criativo, o tema ou o propósito, mas de garantir o compromisso necessário entre o que se pretende escrever e o modo como se escreve.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Temas duma época: Dezembro

Duma forma simples e directa, o escrevinhador sente-se interpelado, ou inspirado, pelo simples calendário pendurado numa parede de casa. Se há meses sugestivos, Dezembro pode ser o maior para muita gente: entre poemas e contos, desconfio que nenhum mês é mais prolífico enquanto tema literário.

Pintura de Katsushika Hokusai

Pintura de Katsushika Hokusai

Assim, de repente, qualquer pessoa associa a trilogia ‘natal-passagem de ano-inverno’ ao mês de Dezembro, e cada um desses três temas é um continente que se basta a si mesmo. Aqui está um desafio interessante para quem anda à procura de inspiração, de ideias ou assunto.

...

-Aqui está o Ano Novo, pequeno 1907. Toma. Leva-o.

Já ter lido alguma coisa sobre estes temas ajuda (ler ajuda sempre!), até porque todos partilhamos ideias feitas, estereótipos, a respeito destes mesmos temas sem termos, na maioria das vezes, noção de o serem e, geralmente, sem ter qualquer perspectiva sobre o legado literário donde nos chegam essas mesmas ideias, adaptadas, simplificadas, alteradas, através de filmes, canções, estórias orais e, cada vez mais, através da publicidade e campanhas comerciais características da época.

Que empresa nos vai patrocinar este ano, mãe?

-Que empresa nos vai patrocinar este ano, mãe?

Ora, conforme já o disse antes, não é tanto contra o estereótipo em si que o escrevinhador se deve precaver, mas o facto de o desconhecer. Porque falar do nascimento duma criança como sinal de esperança e promessa de salvação, da passagem inexorável do Tempo ou do ciclo da morte e do renascimento serão temas velhos, bem conhecidos, tratados já de todas as maneiras concebíveis (não que eu acredite nisso), mas o modo como o escrevinhador desenvolve estes temas pode ser, no mínimo, ‘refrescante’ se souber contaminá-los com algo que seja irredutívelmente ‘seu’.

m

E aí, sim, o escrevinhador mete-se em trabalhos e expõe-se a grandes perigos…

Ajustar a ideia, o sentimento e a gramática numa linha escrita

Escrever não é como falar, já aqui abordamos o tema. Muito menos é como pensar ou sentir. Mas está numa região de fronteira entre a expressão oral e a reflexão/emoção, tendo estabelecido seu domínio próprio, suas tradições e protocolos.

942291_628311350529523_1388025079_n

“Então em Inglês uma dupla negação está mal, mas em matemática é positivo?”

Ao contrário da fala, que pode ser severa e imediatamente restringida na sua expressão, a escrita cresce sem contraditório, nem coacção, pelo menos duma forma directa e imediata. Essa vantagem de construir um texto livremente deve ser apreciada devidamente pelo escrevinhador, pois é uma força e, simultaneamente, sua maior fraqueza.

1341594621_953066_1341594716_noticia_normal

A ausência do contraditório empobrece o sentido auto-crítico, fundamental para o aperfeiçoamento e a evolução da escrita. Fechado num casulo, quando muito exposto aos comentários condescendentes ou meramente depreciativos, o escrevinhador terá maior dificuldade para, por exemplo, corrigir falhas, acertar o estilo, desenvolver outros sentidos. Também já aqui falamos disso.

Ao contrário da reflexão/emoção, que podem ocorrer de modo auto-evidente, tanto numa medida equilibrada, como desmesurada, a escrita precisa de ajustar o equilíbrio entre a expressão formal e os conteúdos, sob pena de não estabelecer comunicação ou, mais frequentemente, de ficar muito aquém dos propósitos do autor.

A ausência do equilíbrio arrisca-se, por exemplo, a desenvolver um modo pedante e/ou confuso de exposição das ideias, temas e enredos, ou a ser lamuriento, saudosista, adocicado.

13258189

Não perceber a diferença entre ‘ter’ uma ideia (ou sentimento) e exprimi-la, confundir a expressão oral com a escrita, evitar a exposição à crítica: eis alguns problemas sérios que o escrevinhador deve ter em conta quando analisa o seu próprio texto.

A escrita tanto serve para anunciar uma guerra santa, como para declarar amor eterno. Em ambos os casos, tanto pode exprimir um inesgotável amor por algo ou por tudo, assim como o seu contrário.

1318617

E deste modo, o autor, como o texto, correm o risco de morrer de ridículo. Nem que seja uma morte póstuma…

O toque da Musa

Há poemas com a brevidade e a força dum raio caído do céu, a linguagem de tal forma depurada, o raciocínio tão claro, que ferem o leitor. E este fica com a ilusão de partilhar um momento divino: o da musa que tocou o poeta.

Porém, se a inspiração é a matéria-prima da poesia, não esquecer a laboriosa arte do ouvido (ver nota 1), a sensibilidade do corpo ao movimento (ver nota 2), o difícil equilíbrio entre a ideia e a emoção (ver nota 3)

6a00d834516b3c69e201156fcb8d1e970c-500wi

Título do livro: “Você”
Escritor: -Não é sobre o que você tem…mas sobre quem você é.
Homem na assistência: -E “quem poderia ter sido” não conta?

Sem advogar métodos e normas, parece-me prudente não dar jamais por concluído o poema sem meditar nestes três aspectos.

Rima, métrica?! Falha minha certamente, que nunca fui dado às ciências exactas.

Valerá a pena escrever poesia no sec.XXI?

Se escrever prosa oferece dificuldades, poesia parece intuitivo e simples, trabalho de curta duração. E com um dicionário de rimas à mão, fica ainda mais fácil. Temas? Há tantos: uma flor, um amor, um pensamento profundo esticado em duas dúzias de linhas, um grito de revolta contra a injustiça, de tudo “se faz” poesia.

Mas quem a lê? Pior: quem a escreve?

1360681312_884867_1360681389_noticia_normal

Música e polifonia na construção do texto

Mazurca para dois mortos, de Camilo José Cela, assenta sobre um texto “oral” dum narrador obscuro, “perdido” entre vozes que vêm a propósito de algo que o narrador acaba de dizer. (ver nota 1)

As “vozes” acrescentam peças ao mosaico (ou ao tema musical, provavelmente) que o leitor terá de montar para concluir o livro. Deste modo, o leitor demorará algum tempo a perceber se há enredo, e havendo, qual seja.

v0_master

A forte componente poética do texto associa-se à verbalização incontinente de tantas vozes distintas, todas marcadas fortemente pela língua galaico-portuguesa e pelo imaginário rural do noroeste peninsular, carregando consigo pequenos episódios da vida de pessoas que se vão revelando por fragmentos de suas vidas.

Num registo (aparentemente) circular, formam um texto da maior beleza e harmonia, riquíssimo, fiel ao registo histórico duma época, e simultaneamente intemporal. (ver nota 2)

Por tudo isto, o livro exige do leitor a entrega e a participação na composição, como se fosse mais um dos dançarinos desta mazurca. N’ O Malhadinhas, o narrador desenvolve uma história linear, ainda que volta-e-meia pontuada por reflexões ou à partes; no Grande Sertão: Veredas, o narrador anda perdido nas suas reflexões e memórias, mas o enredo progride até à inevitável conclusão.

botero1

Na Mazurca para dois mortos, o processo é menos evidente dada a polifonia das vozes que se “intrometem” no discurso do narrador, o qual, além de discreto também é vago, dando a ilusão de acumular repetições, quando, na verdade, acrescenta mais um ponto ao conto. (ver nota 3)

Porém, o enredo torna-se claro, dando sentido ao título e a conclusão (previsível a partir de certo ponto) é completada por um “anexo” totalmente alheio aos recursos estilísticos do resto do livro. Anexo, aliás, que é um texto com a  rigorosa formatação técnica do seu género, e por isso surpreende.

Deste modo aparentemente simples e desordenado,  uma estrutura complexa e de grande risco para o autor se vai revelando e permite aceder ao mais íntimo das memórias do narrador, trazendo à vida as pessoas “daquele tempo”, abrindo-se-nos as portas para um mundo que também é o da Língua Portuguesa e o do Norte de Portugal. E inúmeros temas se abrem à curiosidade do leitor, outros tantos caminhos para novas leituras. 

images (44)

A expressividade das emoções

A expressão escrita das emoções enfrenta o desafio da desproporção: se a linguagem for medida e controlada em excesso, perde eficácia e naturalidade; se, pelo contrário, for excessiva, hiperbólica, arrisca-se ao ridículo ou a ser tomada como um fingimento.

chickenfeelings

-Tudo o que você faz é perguntar-me como me sinto.
-E como se sente quando pergunto isso?

A linguagem sofre de grandes limitações para exprimir satisfatoriamente as emoções, daí o recurso às metáforas para poder libertar-se dos limites da lógica e do objectivo.

(…)
E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas…
E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas…
(Florbela Espanca Frémito do Meu Corpo a Procurar-te)

Recurso, bem entendido, que pode levar à repetição de fórmulas conhecidas, tornando-se banal, monótono, cliché.

Surpreendendo pela imagem e associação de ideias, torna-se possível a transmissão das emoções mais profundas ou violentas, apelando ao leitor a sua participação activa para preencher as lacunas do discurso lógico e estabelecer empatia com o autor.

A falta que faz a boa crítica

A viagem pelo mundo interior é um percurso complexo e com mais perigos do que a viagem de Ulisses de regresso a Ítaca. Pelo menos no domínio da literatura.

Aqui se mistura o inconsciente, as memórias (inclusive, ou principalmente, as falsas memórias), o desejo de acertar contas e o desejo em realizar sonhos, frustrações e anseios, todo um cocktail explosivo que, na maioria das vezes, tem como resultado uma pasta inodora, insípida, informe, incaracterística, quando vertido em texto com pretensões poéticas. Basta  consultar a secção de Auto-Ajuda ou afins nas livrarias para comprová-lo.
O perigo da sobrevalorização das emoções pessoais, a ponto de prejudicar a qualidade literária do texto, é bem conhecido e sua profilaxia só é possível através do exercício da crítica fundamentada por terceiros e pelo penoso processo da autocrítica, que nada tem a ver com o flagelo da auto-depreciação.

images (5)
Exactamente o contrário do que se assiste em milhentas tertúlias literárias de café ou nos grupos dedicados que pululam no Facebook, onde as palmas e os elogios parecem estar na directa proporção do alívio por ver terminada uma seca. Ou são meros rituais eufóricos de reforço do grupo, mesmo que virtual.