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A noite dos mortos meio-vivos e outras coisas espantosas

A Morte (com maiúscula, atenção) é inesgotável fonte de inspiração literária, principalmente nestes dias de Outubro a Novembro, levando mesmo à questão se ainda há algo a respeito que não tenha sido dito algures por este mundo, nesta ou numa outra era.

—Escuta-me, amigo meu, o sonho que vi esta noite; (…) havia ali alguém de face tenebrosa, (…) as suas mãos eram patas de leão, suas unhas garras de águia, agarrando-me pelas pontas dos cabelos me violentava, eu tentava golpeá-lo, mas ele revolvia-se como quem salta à corda, logo me golpeando e atirando-me ao chão (…). “—Salva-me, amigo meu!”—gritei. Mas tu não me salvavas, tinhas tanto medo que nem te movias para me ajudar, tu (…). (1)

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O tom ou o desenvolvimento que se dá à estória é que faz a diferença, havendo até a possibilidade de surpreender pela conclusão. É realmente difícil mas, por isso mesmo, merece ser tentado pelo escrevinhador.

Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda (…). E na noite havia os que deixavam um rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados como um som de viola que se parte. (…) Muitos arrastavam caudas enormes pela lama, despedaçavam-nas de encontro às esquinas, e alguns procuravam deitá-las fora para não mais pensarem num passado tenebroso.

—O homem material —pensava o Palhaço— não existe. A vida é uma convenção. (…) (2)

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A indigência audiovisual ou literária produzida massivamente em redor da categoria do “Terror”  não esconde o potencial humano, existencial e, por isso mesmo, ‘eterno’, de um tema tão complexo: nas primeiras décadas do sec.XIX, escritores alemães, norte-americanos ou ingleses dedicaram-se com êxito a recuperar temas tradicionais a respeito da Morte, do Mal e do Outro.

O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. (3)

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Deram assim início a um género que tem como antepassado directo os contos populares, os quais reflectem, por sua vez, o folclore, as crenças e as práticas milenares da vida quotidiana, mesmo—ou principalmente— quando esta é interrompida (cíclica ou inesperadamente) por algo de extraordinário.

Do fundo da cova triste/Ouvi uma voz sair:/”Vive, vive, cavaleiro,/Vive tu que eu já morri:/Os olhos com que te olhava/De terra já os cobri./Boca com que te beijava/Já não tem sabor em si,/Os cabelos que entrançavas/Jaz caído a par de mim,/Dos braços que te abraçavam/As canas vê-las aqui!”(4)

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Na próxima reencarnação podes vir a ser uma espécie em perigo. Ajuda-nos a salvar o grou siberiano

As personagens podem ser gente banal em circunstâncias invulgares, seres fantásticos em ambientes familiares (ao leitor e/ou às outras personagens), uma combinação disto e daquilo. Porque —ainda será necessário lembrar?— vale tudo e nada é garantido.

O apóstolo Santo André andava invejoso do apóstolo Santiago porque lhe levava toda a paróquia.

—A Compostela chegam peregrinos de todas as partes do mundo (…) e, ao mesmo tempo, a Teixido não vêm nem de Ferrol ou de Viveiro ou de Ortigueira, que estão ali ao lado, isso não é justo porque eu também sou apóstolo, tão apóstolo como os outros.

Nosso Senhor Jesus Cristo, que vinha pelo mesmo caminho, lhe disse,

—Tens toda a razão do mundo, André, isto tem de se resolver, vou dispor que de ora em diante ninguém possa entrar no céu sem ter passado por Teixido.

—Muito obrigado. (5)

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Como qualquer leitor dedicado já experimentou, o maior terror sofrido não é o expresso pelas imagens gráficas de sangue, nem pelas descrições da mais lancinante dor, e ainda menos pelo detalhe de monstruosidades. Na escrita (e no cinema parece-me igual), o subentendido, o aludido (mas não explicitado), podem mais sobre o leitor.

“Não gosto do aspecto disso”, disse a sua governanta, “Tem um aspecto feioso.”

“A mim, dificilmente lhe vejo alguma forma.”

“Não gosto das coisas que crescem assim.”, disse a sua governanta.(…) “Parece uma aranha nojenta morta.” (6)

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Esta relação vai-me matar

No fundo, a mesma eficácia da escrita erótica frente ao grafismo meramente pornográfico. Não é um método fácil. Corre o risco, até, de não captar a atenção do leitor preguiçoso. E por uma razão simples: por estar dependente da sua imaginação,sensibilidade, sentido de humor e inteligência.

O livro estava aberto mais ou menos a meio e havia um parágrafo de tal forma sublinhado a negro pela pena trémula do possuidor que Mr.Merritt não conteve a curiosidade. Da natureza dessas poucas linhas sublinhadas e da força com que o tinham sido, nada saberia dizer, mas tudo isso lhe causou a pior impressão. (7)

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Mas essa é a maldição da Arte. Sem um leitor (espectador, ouvinte, ou lá o que for) interessado, perde-se o potencial do texto. Fazer o quê?

O final da história só pode ser narrado por metáforas já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Caberia talvez dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panónia. (…) para a insondável divindade, ele e João Panónia (o ortodoxo e o herege, o aborrecedor e o aborrecido, o acusador e a vítima) formavam uma só pessoa. (8)

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“É diferente essa sua burkha…” “Aãã…não,sou apicultora!”

Melhor dizendo: escrever como? Esse é mais um dos mistérios da criação literária, o maior terror do desgraçado escrevinhador, o suspense em que todo o leitor fica até à leitura do texto… não estão mesmo à espera que o revele, pois não?

Quero que a leitura deste livro vos deixe a impressão de terdes atravessado um pesadelo voluptuoso. (9)

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(1) in Poema de Gilgamesh (tábua VII coluna IV),trad.Frederico Lara Peinado, ed.Tecnos

(2) in A Morte do Palhaço de Raúl Brandão, ed.Verbo

(3) in Histórias de Mistério e Imaginação ‘O gato preto’ de Edgar Allan Poe, trad.Tomé Santos Júnior, ed.Verbo

(4) in Romanceiro ‘Bernal-Francês’ compilação de Almeida Garrett, ed.Circulo dos Leitores

(5) in Mazurca para dos muertos de Camilo José Cela, ed.Seix Barral

(6) in Contos Fantásticos ‘A Orquídia Estranha’ de H.G.Wells, ed.Collins

(7) in O caso de Charles Dexter Ward de H.P. Lovecraft, trad.Manuel João Gomes ed.Dom Quixote

(8) in O Aleph ‘Os Teólogos’ de Jorge Luis Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(9) in Livro do Desassossego de Bernardo Soares, ed.Assírio & Alvim

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Escrever sobre o indizível

Por definição, o indizível é o que não se pode dizer. Se não pode porque não deve ou se não pode porque não pode mesmo, são ‘impossibilidades’ bem diferentes.

Às vezes, as recordações se parecem a alguns objectos, aparentemente inúteis, pelos quais sentimos um confuso apego. Sem saber muito bem porque razão, não nos decidimos a deitá-los fora e acabam amontoando-se no fundo desse gavetão que evitamos abrir, como se ali fossemos encontrar alguma coisa que não se deseja, ou até que se teme vagamente. (1)

Norman Rockwell, Truth About Santa, 1956

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No primeiro caso, pode decorrer da censura moral ou da proibição legal que impedem a expressão de ideias. O que é indizível aqui e agora deixa de o ser noutro lado ou noutro tempo, senão for mesmo agora e aqui de modo mais ou menos anónimo, publicado clandestinamente, ao arrepio das leis e dos costumes. Literariamente falando, não se trata do indizível mas do não-permitido, e a história da literatura é recheada de episódios a este respeito.

(…) Animam-no, como poeta e artista, os heróis e os criminosos, desde que o mesmo sol os doire belos. (2)

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Contudo, ainda neste caso, existem graus de dificuldade: escrever sobre alguém que tem um comportamento condenável a todos os títulos, e fazê-lo de modo a sugerir uma leitura positiva, que cause a involuntária compreensão, senão mesmo a concordância do leitor, é mais simples do que o próprio texto assumir os valores condenados e apresentá-los como válidos, sem a clássica inversão de valores ( o que é bom passa a mau e vice-versa).

(…) É impossível que recebamos dela [Natureza] um sentimento que a ofenda e nesta certeza podemos entregar-nos às nossas paixões, seja de que índole e violência forem (…). (3)

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Do ponto de vista estritamente literário, creio que o que vale é a forma, mais do que os conteúdos, e pode resultar. Aliás, essa é a função profiláctica das leis proibitivas e dos actos de censura prévia: evitar a sedução das leituras perigosas.

Convém mostrar as repulsões do crime lá embaixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem;ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente? (4)

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Já o indizível, propriamente dito, é toda uma outra coisa: a sua expressão por palavras distorce, desvaloriza, falseia, ilude, por maior que seja a boa vontade de quem se exprime em não faltar à verdade (à sua verdade, pelo menos). E isso porquê? Uma imagem vale por mil palavras, a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, e outros ditos tentam responder à diferença entre o impacto não-verbal de certas experiências (vivenciadas ou pensadas) e a expressão delas.

Finalmente, existe outra expressão frequente que é igualmente impenetrável por cérebros não-indígenas. Por exemplo, a frase “Vá lá a gente saber porquê!”. Um estrangeiro interpreta-a como significando “Vamos todos àquele sítio para podermos averiguar as causas do sucedido”, quando, na verdade, significa incompreensivelmente que não vale a pena ir a seja onde for, porque não há maneira de saber seja o que for. Eles lá sabem porquê… (5)

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cartoon de Pawel Kuczynski

A matemática e a música serão melhores veículos para transmissão do indizível do que a linguagem verbal, dizem os entendidos e tendo a concordar (ainda que abissalmente ignorante a respeito das linguagens matemáticas e musicais).

Quando fui a primeira vez à terra natal de Amadeo, dezoito anos depois da sua morte, a luz na paisagem e as cores nas proporções eram as mesmíssimas nos seus quadros de pintura. (…) Toda a sua arte reflecte o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as suas próprias cores, as do seu rincão natal. (6)

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Mas é difícil lidar com o indizível no dia-a-dia sem cair na tentação de o exprimir, já que de outro modo torna-se uma experiência profundamente pessoal e única, sendo os escrevinhadores seres sociais e comunicadores por natureza, como a generalidade dos mamíferos.

Neste assunto, obscuro em extremo, farei o possível por ser claro. Ignoro se o conseguirei e— sem mais preâmbulos— vou começar. (7)

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Daí haver escrevinhadores de todos os tempos a tentar contornar a impossibilidade e dizerem algo sobre o indizível, seja pela negativa, seja por comparação, seja recorrendo à metonímia: todo um arsenal retórico que permite exprimir o que não se sabe ou o que se julga saber mas não se entende.

Nesse caso, ouve-me em silêncio. Como este recanto parece ter algo de divino, se, no decorrer do meu discurso, me tornar possesso das Ninfas, não estranhes, (…). (…) Pode acontecer que a inspiração divina se esgote, mas isso fica ao arbítrio dos deuses. (8)

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Naturalmente, a poesia sempre teve inclinação para enfrentar o desafio através dos seus recursos extra-verbais (inspiração, paixão, loucura) que lhe permite ter um pé (senão ambos os pés) noutros mundos e a cabeça nas nuvens.

(…) O que aqui/ não está escrito é já a única/ prova de que disponho/ para reconhecer-me, interromper/ meu processo de erosão entre recordações/ urgentes. // Por aquela palavra/ a mais que disse então, trataria/ de dar minha vida agora (9)

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Pessoalmente, destaco toda a literatura que se situa na categoria do ‘absurdo’ (que não é a mesma coisa que a ‘fantasia’, atenção!): através de jogos de palavras, pela criação de palavras próprias, distorcendo regras gramaticais elementares, expandindo ou contraindo de forma absurda (claro está!) maneirismos narrativos ou dialogais, consegue “dizer” mais sobre o indizível do que a milenar literatura séria sobre o Inefável.

O E parecia um pente, o S uma serpente, o O um ovo, o X uma cruz de lado, o H uma escada para anões, (…). Não via diferença entre desenhar e escrever.

(…) Porque as letras e os desenhos eram irmãos de pai e mãe: o pai era o lápis afiado e a mãe a imaginação. (…) Estas palavras que nasciam sem ela mesmo querer, como flores silvestres que não precisam de ser regadas, eram as que mais gostava, as que lhe davam mais alegria, pois só ela as entendia. (…) e as chamava de “farfanías”. Quase sempre a faziam rir. (10)

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Mas a que mais me impressiona é a literatura sobre o Horror (não confundir com zumbis e quejandos), como a dos campos de concentração e de extermínio, a das perseguições e genocídio. Autores que passaram pelo Horror, testemunhas e vítimas ao mesmo tempo, e que conseguem pôr por escrito a experiência vivida, a própria e a de outros, mantendo um pudor e sangue-frio extraordinário na descrição, na valoração, no juízo.

(…) E tinham sido conduzidos para os balneários, onde, disseram-me, também havia tubos e chuveiros: só que, deles, não tinham feito sair água, mas gás. Não soube tudo isto de uma só vez, mas a pouco e pouco (…). Entretanto, ouço, são, até ao fim, muito amáveis para eles, tratam-nos carinhosamente, às crianças é permitido cantar e jogar à bola, e o local onde são gaseados é muito bonito e bem cuidado, (…). (11)

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E nessa contenção mantém-se toda a força, repelente ou atractiva, do indizível.

E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

—”Meu amor!” (12)

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(1) in Paraíso inabitado de Ana Maria Matute, ed.Destino

(2) ‘António Botto e o ideal estético creador’ in Apreciações Literárias—Bosquejos e Esquemas Críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(3) ‘Justificação do Prazer’ in Escritos Filosóficos e Políticos (extraído de Justine ou os infortúnios da Virtude) de Donatien Alphonse F. de Sade, trad.Serafim Ferreira ed.colecção 70

(4) ‘Prefácio’ in O Esqueleto de Camilo Castelo Branco, ed.Livraria de Campos Junior

(5) ‘É-o-que-é’ inA Causa das Coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assírio e Alvim

(6) ‘Amadeo de Souza-Cardoso’ in Obras Completas vol.6 Textos de Intervenção De José Almada Negreiros, ed.Estampa

(7) in Loucura… de Mário de Sá-Carneiro, ed.Rolim

(8) in Fedro de Platão, ed.Guimarães & Cª

(9) in ‘Sobre o impossível ofício de escrever’ in Somos el tiempo que nos queda-Descrédito del Héroe de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral

(10)in Caperucita en Manhattan de Carmen Martín Gaite, ed.Siruela

(11) in Sem Destino de Imre Kertész, trad.Ernesto Rodrigues ed.Presença

(12) in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira

 

A palavra, o texto e a escrita

Não tenho como evitá-lo, logo insisto: ler é fundamental.

(…) publicavam-se inúmeros romances de conversa de anatomia social, cavavam-se galerias sob a arte de bem redigir, para apresentar a plebe com seus calões e os seus vícios de linguagem. (…), fazia-se um autor dum pequeno aventureiro que começava a despertar para as experiências (…). (1)

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Quando o bom leitor (e já adiantei o que entendo por isto aqui e ali, com as devidas ressalvas) se torna escrevinhador, os resultados podem ser catastróficos. Mas mais facilmente acontece o mesmo ao mau leitor ou não-leitor, como se pode rapidamente confirmar nos escaparates das livrarias das grandes superfícies ou dos postos de correios.

O nosso primeiro movimento, para ajuizar do valor de um livro, ou de um homem, ou de uma música, é perguntar-nos: “Sabe caminhar? Melhor ainda: sabe dançar?” (2)

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Só posso crer num deus que saiba dançar!

As vantagens da boa leitura para a escrita podiam limitar-se à percepção do valor daquilo que é escrito pelo próprio e já bastava. Felizmente, há mais do que isso.

—Ora pois, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter?

—Não consentiremos de maneira nenhuma.

—Logo, deveremos começar por vigiar os autores de fábulas, e seleccionar as que forem boas, e proscrever as más. (3)

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Porém, a sensibilidade ao valor da palavra e à sua tecelagem, seja em forma oral, seja por escrito, é algo que não se limita à leitura e exige, até, bom ouvido e alguma reacção epidérmica. Ou seja, tem qualquer coisa de musical e a poesia é a sua formulação mais óbvia, tradicional. Independentemente do que é dito, o modo como é dito é o que nos interessa aqui. Formalismo? Sim, claro e, todavia, não. Rotundamente não.

Depois fiz muitas cantigas, de dança e de rua/ para judias e mouras e para namoradeiras,/ para tocar em instrumentos melodias conhecidas:/ o cantar que não sabes, escuta-o às cantadeiras./ Cantares fiz alguns, daqueles que dizem os cegos/ e para estudantes que andam nas noitadas, (…) (4)

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A construção do texto não é arbitrária, como dolorosamente constatei nos compêndios de gramática dos meus anos de escola, e é por demais evidente quando se lê coisas escritas por escrevinhadores que pecam por não ler e, pior ainda, por não ter ouvido. Pois muito analfabeto foi responsável pela elaboração de textos literários excepcionais, principalmente em sociedades onde a produção escrita era inexistente ou quase.

“A tinta de escrever é um líquido com que a gente suja os dedos quando vai fazer a lição. (…) e uma coisa que eu não sei é como um vidrinho de tinta tão pequeno pode ter tanto erro de Português.” (5)

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Quando se passa da oralidade à escrita, tudo é evidente: os erros tornam-se flagrantes, a dissonância indisfarçável.

O nosso professor de francês nasceu no Minho e, até em francês, trocava os vvvvvvv por bbbbbbb. (6)

'I can't read this, you must write more clearly.' - 'If I did that, you'd see all my spelling mistakes.'

‘Não consigo ler isto, tem de escrever de modo mais claro.’ – ‘Se o fizesse, ia notar todos os meus erros de ortografia!’

Daí que a escrita exija tempo e prática regular, não dispensando a leitura dos textos bons (principalmente) e de todos os outros (para perceber as diferenças). Com o tempo, o escrevinhador (-leitor) percebe intuitivamente que existem vários modos de dizer te amo ou que a adjectivação pode ser como a cor de certas gravatas amarelas. A prática, essa, poderá levá-lo a aprender com os erros e a resistir à tentação de ir ao encontro do que julga ser o gosto dominante, sem cair no facilitismo da ‘originalidade’.

Amor, Amor, um hábito talhei para mim/ do vosso pano, vestindo-me o espírito;/ no vestir, muito largo o senti,/ e bastante apertado, quando sobre mim se ajustou. (7)

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Com a idade e a experiência do mundo, o escrevinhador talvez venha a decifrar o esfíngico enigma: vale tudo e nada é garantido. Literariamente falando, é claro.

Deixa dizer-te os lindos versos raros/ Que foram feitos para te endoidecer! (8)

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(1) in A Muralha de Agustina Bessa Luís, ed.Guimarães Editores

(2) in A Gaia Ciência §366 de Frederico Nietzsche, trad.Alfredo Margarido ed.Guimarães & Cª

(3) in A República de Platão, trad.Mª Helena da Rocha Pereira ed.Fundação Calouste Gulbenkian

(4) in Libro de Buen Amor do Arcipreste de Hita, org.José Luis Girón Alconchel, ed.Castalia

(5) in Conpozissõis Infãtis de Millôr Fernandes, ed.nordica

(6) in Calçada do Sol de José Gomes Ferreira, ed.Moraes

(7) ‘LXXVII’ in Poesies de Ausiàs March, ed.Barcino

(8) ‘Os versos que te fiz’ in O Livro de Soror Saudade-Poesia Completa de Florbela Espanca, ed.Bertrand

Vale a pena escrever?

RESPOSTA: se alguém me puser esta pergunta, minha resposta automática é NÃO, não vale a pena.

Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!/ Se isto não é, porque é que é?/ Se isto não pode ser, então porque pôde ser? (1)

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Esta é a resposta preconceituosa de quem entende que a urgência da escrita se impõe ao escrevinhador, que depois defrontará a terrível, incontornável questão: o que escrevi tem algum valor?—uma questão totalmente diferente, portanto.

Sonho que sou a Poetisa eleita,/ Aquela que diz tudo e tudo sabe,/Que tem a inspiração pura e perfeita,/ Que reúne num verso a imensidade! (2)

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Preconceito que radica, também, na crença de que a dita urgência é um dano colateral à exposição precoce à audição de contos e leituras, às leituras de livros de texto e banda desenhada, ao visionamento de filmes.

O que me dá prazer não é o vinho, não!/ Nem a música, nem o canto./Apenas os livros são o meu encanto/ E a pena: A espada que tenho sempre à mão. (3)

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-A TV está cada vez melhor. -É, acho que é um perda de tempo muito mais produtiva.

Essa exposição (que não tem de ser, na verdade, precoce) não é condição suficiente para responder afirmativamente à segunda questão: a do valor do que se escreveu. Outras formas de expressão podem surgir em alternativa e com outra qualidade; no mínimo, resulta no desenvolvimento duma percepção mais subtil, na sensibilidade à ironia, num grau de exigência maior, coisas assim que fazem de alguém uma pessoa mais interessante.

Eu não soube onde entrara,/ mas, quando ali me vi,/ sem saber onde estava,/ grandes coisas entendi;/ não direi o que senti,/ pois me fiquei sem saber,/ toda a ciência transcendendo. (4)

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Na realidade, porém, existe uma crescente número de pessoas sem qualquer relação afectiva com a leitura e, inclusive, com um domínio deficiente da escrita, determinadas em produzir textos, seja por razões estéticas, sentimentais ou profissionais

(…) o número de homens ignorantes e corajosos/ será maior ou menor que o número de homens corajosos e cultos? // (…) Se o assunto fosse assim tão simples…/ Mas não. (5)

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Como dizer-lhes que não vale a pena serem persistentes e produtivas nessa determinação? Na verdade, nem se colocam a questão de escrever (ou não), mas antes a de escrever como?

Tu que sabes em que recantos das terras invejosas/ O Deus ciumento esconde as pedras preciosas,/ Ó Satã, tem piedade da minha grande miséria! (6)

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Preconceito de lado, a tarefa é ingente mas factível; tudo depende do escrevinhador e do modo como se move no seu labirinto. Mesmo o mais aborrecido dos manuais pode estar organizado com um mínimo de lógica e ter sido escrito numa linguagem clara, duas características que são grandes qualidades e verdadeiros ‘facilitadores’ (palavra horrível muito em uso nas primeiras décadas do sec.XXI) para quem tenha de lidar com assuntos chaaaatos.

A bela e pura palavra Poesia/ Tanto pelos caminhos se arrastou/ Que alta noite a encontrei perdida/ Num bordel onde um morto a assassinou. (7)

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Contudo, ambas qualidades exigem um razoável domínio da matéria a tratar e da sua expressão escrita, qualidades que andam muitas vezes desirmanadas.

(…) E com um mimo que só sabe ter uma ama/ Cobre-me bem, “durma, não cisme”, dá-me um beijo,/ E sai. Finge que sai, ela cuida que eu não vejo,/ Mas fica à porta, à escuta, a ouvir-me falar só,/ E não se vai deitar…/ Onde há, assim, uma Avó? (8)

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Talvez por isso, surgem escritos num tom autobiográfico, meio confessional, meio exploratório, onde se cruzam dados objectivos (estatísticas, história, ciências) com a profunda subjectividade do olhar do escrevinhador, podendo até desenvolver narrativas ficcionadas.

Todo lo que he vivido, todo/ lo que he salvado vigilantemente/ del feroz exterminio de los dias,/ todo cuanto yo fui, hoy os lo ofrezco,/ ojos que seguiréis el rastro de estas letras, /(…) (9)

'When I was young I wanted to be a poet, but we couldn't afford a typewriter.'

‘Quando era novo queria ser poeta, mas não tinhamos dinheiro para comprar uma máquina de escrever!’

À extraordinária liberdade deste processo—ao nível dos factos, das personagens e do enredo— alia-se o tratamento mais ou menos rigoroso de assuntos concretos, reais, observáveis. Combinação que pode resultar numa abordagem refrescante, inspiradora, bem-humorada, poética… ou tudo isso em simultâneo.

Poeta, não, camarada,/ eu sou também cauteleiro;/ ser poeta não dá nada/ vender jogo dá dinheiro (10)

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Para quem não confia na bagagem literária dos seus anos de formação (infância, adolescência), explorar a sensibilidade e o olhar crítico com que a vida o enriqueceu torna-se um valor imenso em qualquer proposta artística. Aproveitando as experiências de vida e as histórias familiares, a escrita pode vencer os escolhos normais da criação literária e compensar certas deficiências com a inspiração genuína, uma perspectiva original, uma tonalidade distinta.

Imaginária menina/ entra em roda imaginária:/—Roseira que dás espinho,/ que dás espinho e dás flor:/ roseira de meu caminho/ dá ciranda aonde eu fôr.//  (…) que se houve espinho houve rosa. (11)

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Pintura de Luz Morais

As boas regras gramaticais e o exercício duma escrita literária acabarão por se incorporar com o tempo, muita prática e aprendizagem. E com uma ajudinha preciosa que pode chegar de modo abrupto e, até, ofensivo. Mas quem disse que escrever vale a pena?

Las cú. Lavitebá, Foscan moldé ca./ Divilanvoris cermalagos cía./ Ar conta latilosde balatía/ ormela banorcali tonzosteca. (12)

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“Concordo consigo: você tem dinamismo, ambição e autoconfiança, mas aquilo que procuramos é a competência.”

(1) ‘A Partida’ in Poesias de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(2) ‘Vaidade’ in Livro de Mágoas de Florbela Espanca, ed.Bertrand

(3) de Al-Kutayyr in O meu coração é árabe, colectânea e tradução de poesia luso-árabe de Adalberto Alves, ed.assírio&alvim

(4) ‘Coplas del mismo hechas sobre un éxtasis de alta contemplación’ in Poesias Completas de San Juan de la Cruz, ed.Planeta DeAgostini

(5)  ‘Canto IV’ in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(6) ‘Les Litanies de Satan’ in Les Fleurs du Mal de Charles Beaudelaire, ed.Gallimard

(7) ‘A Bela e Pura’ in Mar Novo de Sophia de Mello Breyner Andresen, ed.Caminho (Obra Poética vol.I)

(8) ‘Males de Anto’ in  de António Nobre, ed.A Bela e o Monstro lda

(9) ‘Todo lo que he vivido’ in Las Adivinaziones de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral (Somos el tiempo que nos queda obra poética completa 1952-2009)

(10) ‘Ocasionais’ in Este livro que vos deixo… de António Aleixo, ed.Vitalino Martins Aleixo

(11) ‘Rosa da Roda’ in Rapsódica de Stella Leonardos, ed.Orfeu

(12) ‘las cu la vi te ba fos can mol de ca’ in A Saga/Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester, ed. Dom Quixote

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Rever, reescrever, restruturar

Por melhores que sejam as intenções, o escrevinhador que pede a opinião alheia sobre a obra, acabada ou não, raramente encaixa as críticas, mas não tem qualquer problema em escutar elogios. Como resultado, só pode contar com o seu sentido crítico (neste caso autocrítico) para poder corrigir e evoluir.

Feito o inventário dos vícios e das virtudes, reunindo os principais traços das paixões, traçando os personagens, elegendo os acontecimentos primordiais, compondo os tipos por meio da reunião dos rasgos de vários personagens homogéneos, talvez pudesse chegar a escrever a história negligenciada por tantos historiadores: a dos costumes (…) (1)

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Se uns resistem a qualquer sugestão ou reparo crítico, outros confessam a sua incapacidade e desinteresse em alterar seja o que for. O que é compreensível, já que a escrita deixa sequelas, é sujeita a períodos de sofrimento e indecisão, e pode se tornar um imenso alívio ter-lhe dado fim. Por isso é comparável ao trabalho de parto. Indevidamente, porém: na escrita, o parto pode ser prolongado mesmo depois de publicadas várias edições do mesmo livro. E com melhores resultados, muitas vezes.

Instintivamente, a questão põe-se por si mesma: Para quem é isto feito? A quem pode agradar? (…) É dito que é tudo feito a bem da arte, e que a arte é algo de muito importante. (…) (2)

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É neste aspecto que se pode distinguir a escrita catártica da escrita assumidamente literária.

Certas almas manifestam a sua debilidade radical quando não conseguem se interessar por uma coisa se não acreditarem de que ela toda é o que há de melhor do mundo. (3)

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No primeiro caso, o escrevinhador tem necessidade, urgência, pulsão, em botar por escrito ideias que o atormentam, fantasmas do passado, anseios e sonhos falidos ou irrealizados (ou, simplesmente, contar uma estória, compor um poema). No segundo caso, sob a pressão (ou não) de tudo aquilo, o escrevinhador pretende que a escrita seja filtrada por um registo formal (linguístico, narrativo), ou seja, que esteja subordinada a critérios de exigência, peso e medida, para que se torne, creio eu, um prazer para quem lê e para quem escreve.

Negligenciei até agora a questão da forma no escritor naturalista, pois é ela que, precisamente,  singulariza a literatura. Não só o génio, para o escritor, se encontra no sentimento, na ideia a priori, mas também na forma, no estilo. (4)

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Mesmo que aplique filtros, o escrevinhador expõe-se às fórmulas estereotipadas, a desequilíbrios penosos, à ausência de ritmo, densidade e assunto. Que seja capaz de formular uma avaliação crítica sobre o que escreve e de justificar suas opções, resistindo às pressões da crítica alheia, pode ser um acto de resistência, autoconfiança e digno de merecido reconhecimento póstumo. Mas o esforço é sempre exigido por uma questão de simples bom senso.

Do arranjo das palavras adequadas, o que é simultaneamente arabesco e sensual, até à arquitectura da frase elegante e prenhe de sentido, o que é um acto vigoroso do intelecto puro, não há praticamente nenhuma faculdade humana que não seja exercitada. Não nos temos de espantar, portanto, de que frases perfeitas sejam raras, e páginas perfeitas mais raras ainda. (5)

Dama en amarillo escribiendo, Johannes Vermeer.

Ora, esse bom senso é prejudicado, geralmente, por uma imensa fadiga pós-criativa que acomete o escrevinhador ou pela simples indigência auto-suficiente de quem não tem sequer noção das tarefas de revisão que se impõe.

(Se soubesses se soubesses/quão triste a rosa guardada/ entre as páginas/ dos versos) (6)

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Conforme já tenho dito, essa fase não é menos criativa, não é menos estimulante (pessoalmente é a minha preferida) e não necessita recorrer a terceiros (embora sejam muito úteis leituras críticas).

Li o teu livro, Amor, sofregamente;/Li-o, e nele em vão me procurei!/ No teu livro d’amor não me encontrei,/ Tendo lá encontrado toda a gente. (7)

"Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade"

“Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade!”

Também nesta fase se tornam especialmente importantes as leituras com que o escrevinhador tenha alimentado a sua sensibilidade, pois daí lhe poderão ser fornecidos técnicas e recursos valiosos. No fundo, o desafio de ir mais além.

A nossa falta de familiaridade com o que é realmente excelente é a explicação pela qual tantos têm prazer no que é estúpido e insípido, somente por ser novidade. Deveríamos ter o hábito de ouvir, diariamente, alguma canção bonita, ler um bom poema, contemplar um quadro maravilhoso e, se possível, dizer algumas palavras tocantes. (8)

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Quando Clarence e Gilda decidiram trabalhar menos depois dos 50’s e divertirem-se, descobriram que eram, realmente, pessoas extremamente aborrecidas.

 

(1) in ‘Prologue’ à 1ª edição da La Comédie Humaine, de Honoré de Balzac

(2) in O que é a Arte?, de Leo Tolstoi, trad. (do russo para o inglês) Aylmer Maude ed.Thomas Y. Crowell & Co

(3) in Meditaciones, de Ortega y Gasset ed.Publicaciones de la Residencia de Estudiantes

(4) in Le Roman Experimental, de Émile Zola ed.Bibliothèque-Charpentier

(5) in Essays in the Art of Writing, de Robert L.Steveson ed.Chatto & Windus

(6) in ‘Capa’ Rapsódica de Stella Leonardos ed. Orfeu

(7)  in ‘O teu Livro’ Livro do Nosso Amor, de Florbela Espanca ed.Bertrand

(8) in A Aprendizagem e as Viagens de Wilhelm Meister de Johann W. Goethe, trad.Thomas Carlyle The Project Gutemberg eBooks

 

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

O Tempo e o Modo*

O leitor pode saltitar alegremente de livro em livro com a despreocupação das borboletas…? Talvez não: Sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema (José Pacheco Pereira, em artigo no jornal Público em 15-11-2014).

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Imagine-se, então, o escrevinhador ansioso por criar (ou alimentar) uma comunidade de leitores das suas obras: se eu pudesse escrever tudo…, mas não pode, claro. A boa notícia é que tem interesse e assunto a que se dedicar.

Se mantiver a preocupação em motivar leitores, potenciais leitores, e atrair ‘públicos’ diversificados, possivelmente colocar-se-à na sua cabecinha pensadora uma dúvida: devo situar o enredo na época actual, ou numa época futura ou passada?

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É uma preocupação legítima, visto o sucesso literário, cinematográfico ou televisivo, de narrativas ajustadas a épocas bem definidas. De modo não menos evidente, e qualquer que seja a opção, decorrem implicações formais, lógicas, factuais ou outras. Assim como os inerentes riscos. Sobre isso falarei mais detalhadamente num futuro post.

Outra dúvida que lhe poderá ocorrer, ao escrevinhador ansioso em agradar, é o do nível de linguagem a usar para fazer-se entender pela tal comunidade de leitores, virtual, existente ou a expandir. Bem vistas as coisas, essa deveria ser uma preocupação geral, já que o hermetismo em literatura é, propriamente, um género dirigido para aficionados e afins. Coisa que também deixarei para futuro post.

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Ambas as dúvidas assentam num denominador comum: o escrevinhador. Escreva sobre o que escrever, o modo como o faz é mais importante do que o tema e os conteúdos. Prioridade aos aspectos formais, então? De modo algum, isso seria negar o beijo à bela musa e trancar a louca da casa no sótão (ou na cave).

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Se, na literatura, vale tudo (e, na minha opinião, sim! vale mesmo tudo), é precisamente pelo grãozinho de loucura que desarruma ideias feitas e pela paixão que desperta artes de sedução. Sobre isso, creio já ter-me explicado em posts passados.

* título duma bem conhecida revista ‘de pensamento e acção’ dos anos 60 do século passado, em Portugal, e que exprimia em editorial o desejo de ‘tentar formular algumas perguntas e experimentar algumas respostas, que polarizassem a ansiedade geral que paira sobre o tempo comum.’

Questões de nível

A escrita, tal como a fala, está sujeita a códigos ‘de etiqueta’ que não se confundem com as regras da Gramática ou com normas ortográficas. Quem escreve pode nem estar consciente de seguir um qualquer código, limitando-se a fazer como sabe e sempre fez.

Se pedir, peço cantando,/ sou mais atendido assim;/ porque, se pedir chorando,/ ninguém tem pena de mim (in Este livro que vos deixo de António Aleixo ed.Vitalino Martins Aleixo)

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Nos finais do século passado ainda se publicavam um preciosos livrinhos que forneciam modelos para correspondência comercial, explicando em que circunstâncias se usava certa adjectivação (prezado, caro, excelentíssimo e aí por diante) ou se terminava oferecendo abraços ou atenções (com um abraço, atenciosamente). A correspondência amorosa também mereceu destaque nesse género de publicações, e não era menos rigorosa na utilização de fórmulas e do vocabulário.

Tão pouco te pergunto / meu amor:/ Como responde o corpo/ ao vazio dos lábios? (‘Pergunta’ in Só de Amor de Maria Teresa Horta, ed.Dom Quixote)

Textos com pretensões eruditas podem ser mais facilmente desacreditados se não respeitarem o rigor dos conceitos por de trás das palavras ou a articulação lógica entre diferentes afirmações e parágrafos, assim como um certo comedimento na expressão das emoções, o que não implica excluir frases poéticas ou efeitos cómicos.

O voo dos gansos bravos por cima da minha cabeça diz-nos que o protão perdura por muito tempo, mas não indefinidamente! (in Aves, maravilhosas aves de Hubert Reeves, trad.Francisco Agarez ed.Gradiva)

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Assim sendo, como se pode escrever um texto com aspirações literárias sem se prestar a necessária atenção para os níveis de linguagem? A questão torna-se especialmente pertinente quando o texto aborda a vida quotidiana, as pessoas nos seus diferentes estatutos sociais e contextos, mais ainda se o contexto histórico, geográfico ou outros são, de algum modo, familiares.

O capitão deu ordem de fogo. Arcádio apenas teve tempo de encher o peito e levantar a cabeça, sem compreender de donde fluía o líquido ardente que lhe queimava os músculos.

—Cabrões!—gritou—Viva o partido liberal!

(in Cien años de soledad de Gabriel Garcia Marquez, ed. Austral)

Mas as dificuldades para o escrevinhador serão maiores se não tem o pulso treinado para acompanhar o ritmo e o colorido dos estados emocionais, e não tem o ouvido apurado para as vozes da rua, dos convívios informais, dos encontros profissionais, das relações amorosas. Até mesmo nos insultos, certos escrevinhadores estão tão pouco à vontade que o resultado soa cómico, senão esquisito.

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe., e não apareceu nem respondeu—que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido.Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. (in Grande Sertão:Veredas de João Guimarães Rosa,ed. Nova Fronteira)

'Au!Au!Au!Au!Au!Au!...Au!...Au!... Raios...Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando'

‘Au!Au!Au!Au!Au!Au!…Au!…Au!… Raios…Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando’

Sempre foi o recurso clássico do mau escrevinhador defender-se deste problema recorrendo a uma linguagem ‘difícil’, mais rara do que erudita. Ou a formulações pomposas — ‘gongóricas’ diriam noutros tempos. Ou então, inversamente, cair na linguagem ordinária, calão mesmo, mais à semelhança do que ouve em certos reality shows do que na vida real. Em qualquer dos casos, o vulgar estereótipo.

Pilha aqui, pilha ali, vozeia autores,
Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e vários;
Propõe sistemas, tira corolários,
E usurpa o tom d’enfáticos doutores:

Ciência de livreiros e impressores
Tem da vasta memória nos armários;(…)

(‘Soneto ao Leitão’ de M.M. Barbosa du Bocage)

Não é este, de modo algum, um problema menor quando comparado à construção do enredo, à composição das personagens ou aos ritmos da narrativa. Há escrevinhadores que dão tanta relevância à linguagem empregue, que tudo o mais fica ofuscado numa primeira leitura, e digo isso num sentido elogioso, pensando nos exemplos já aqui abordados a respeito da oralidade do texto.

Sempre o mesmo afã de anotar coisas que parecem urgentes, sempre escrevinhando palavras soltas em papéis soltos, em cadernos, e afinal para quê, se quando vejo a minha letra escrita, as coisas a que se refere o texto se convertem em borboletas secas que antes voavam ao sol. (in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed. Planeta DeAgostini)

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O melhor enredo, ou a personagem mais fascinante, podem ser assassinados — pior ainda: cobertos de ridículo— se houver inadequação entre quem fala ou narra e o modo como fala ou narra. Polémicas literárias famosas sempre estalaram violentamente a este respeito, e não é para menos, já que este é um dos pilares da construção literária. Infelizmente, a maioria dos problemas de inadequação na construção do texto literário têm mais a ver com a falta de preparação do escrevinhador do que por questões de gosto.

O homem célebre é um homem que fez uma porção de coisas pra gente estudar na escola. Eu acho que se não existisse homem célebre nunca havia necessidade de ir na escola, porque nunca tinham inventado nada nem coisa nenhuma. (…) Os homens célebres ficam célebres por uma porção de coisas mas eu acho que a mais importante é a memória, pois todas as estátuas que eu conheço são dedicadas à memória deles. (in Conpozissõis Imfãtis de Millôr Fernandes, ed.Nórdica)

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Mais uma vez, o problema é agravado pela falta de boas e variadas leituras, e parte da solução está aqui. Treinar o ouvido é mais fácil, já que, quando confrontado com exemplos de inadequação, o escrevinhador reconhece facilmente a falha e consegue, quase de imediato, reformular e melhorar o texto. Mas o que dá mais trabalho e leva tempo é exercitar o pulso, pois aí reside aquilo que é específico do fenómeno artístico: a possessão.

(…) Às vezes sou algum/ desses esquivos personagens/ que repentinamente me suplantam,/ e às vezes somente sou/ como que um antecessor do que nunca serei/ ou talvez esse inconstante buscador de respostas/ que acaba sempre defraudado/ pela futilidade das suas pesquisas. / No entanto, minha história pessoal/ pouco tem que ver com essa história:/ Também eu sou aquele que nunca escreve nada/ se não é em legítima defesa. (‘Biobliografia’ de J. Caballero Bonald in Diário de Argónida  Somos el tiempo que nos queda-Obra Poética Completa ed.Austral)

Ou o beijo da bela Musa…

Qué fas ti mentras, meu bem?/ Dime dónde estás,en dónde,/ que te aspero e nunca chegas,/ que te chamo e non respondes./ Morreches, meu queridiño? O mar sin fondo tragóute?  (‘Cando a luniña aparece’ in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, ed.Cátedra)

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

A escrita chata

Pode parecer um grande enigma, mas há escrevinhadores chatos (ou maníacos) que são pessoas muito interessantes na aparência, e há pessoas muito chatas (ou maníacas) que são escrevinhadores muito interessantes.

E se a tua vida for chata em todos os universos paralelos?

E se a tua vida for chata em todos os universos paralelos?

Creio que a explicação não é muito difícil.

No primeiro caso, a escrita não surge do impulso apaixonado de quem tem algo a contar/exprimir, mas parte de um processo em que a literatura é simples instrumento.

"E todos vivemos lucrativamente para sempre."

“E todos vivemos lucrativamente para sempre.”

Já no segundo, a literatura pode ser a via do auto-conhecimento, da exploração do mundo, da criação.

-Que é que te faz pensar que achamos a tua estória sobre gatos chata?

“Que é que te faz pensar que achamos a tua estória sobre gatos chata?”

Pior, mesmo, são as pessoas realmente chatas que escrevem coisas muito chatas. E não se enxergam. No universo fechado dos amigos e das tertúlias de poesia, fica difícil que recebam outra coisa senão os elogios postiços e as palmas de circunstância.

Se publicarem, poderão ainda ser abençoados com uma crítica; se não…donde chegarão críticas válidas e construtivas (e desapiedadas)?

O que torna a escrita chata?! Já tenho dito alguma coisa do que penso sobre isto e, correndo o risco de me repetir, tentarei num próximo post elaborar algo mais.

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O escrevinhador à caça do leitor

Tem todo o sentido a preocupação do escrevinhador ‘agarrar’ o leitor nas primeiras linhas ou primeiras páginas.

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Pode ser uma arte, pode ser uma técnica, ou ambas. Para quem lê, não é indiferente concluir que todo um aparato técnico-literário foi montado para o frustrar no fim da leitura (pior ainda se for antes…). Ou numa segunda leitura, que é a prova de fogo de qualquer texto.

Ou, em alternativa, se foi ‘caçado’ pelas artes da inteligência, sedução e elegância  e é com emoção que termina a segunda leitura (e seguintes). Para então concluir que só um leitor com aquelas qualidades pode ser assim cativo pelo texto. Escrevinhadores que reforçam a auto-estima dos leitores são, geralmente, recompensados por uma justa fama (isso do proveito já é toda uma outra estória…).

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A estória pode arrancar em velocidade, trazendo situações, factos e personagens rapidamente para o desenvolvimento da intriga. Deste modo, o leitor desenvolve um interesse imediato pelas consequências do que se está a passar/a ler.

Ou ganhar velocidade pouco-a-pouco, depois da apresentação do contexto em que se irá desenvolver o enredo.

Também pode manter o mesmo ritmo, do início ao fim, como que hipnotizando o leitor numa certa toada. Esta é, das três, a estratégia mais arriscada, mais difícil e, eventualmente, mais sedutora. Suponho que exige um excepcional domínio da linguagem, da construção da frase, do tempo. Associo-a à música, talvez por ter mais facilmente características poéticas. O risco está em se perder nesse prazer estético e descurar a missão prioritária da narrativa: contar uma estória.

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FINALMENTE, A VERDADEIRA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:
Que se lixe isto, vamos pescar!

Nem poesia, nem ficção.

Escrever como quem dá a conhecer algo ou como quem trata ‘à sua maneira’ algo bem conhecido, sem pretensões literárias, sem ficção, mas também sem pretensões académicas, muito menos científicas, é uma tarefa a que muito escrevinhador se dedica por paixão, sentido de dever ou, simplesmente, para ocupar o tempo e fazer algo útil.

É um domínio que não tem limites, encontrando-se géneros que tanto raiam o delírio, como géneros que detalham técnicas e procedimentos práticos, e uma grande maioria que lida com os mais variados assuntos de modo amador, desajeitado e cheio de boa-vontade.

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Dos que mais aprecio são já de outro tempo, obras magrinhas ou enciclopédicas de padres de aldeia que se dedicavam a fazer o levantamento das curiosidades, costumes, lendas e história da região onde viviam.

Hoje em dia, havendo tantos estudos especializados sobre (quase) tudo, o trabalho do amador tem de ser mais exigente consigo mesmo se quiser evitar o embaraço de ser facilmente desmentido ou sofrer do ridículo puro e simples (isto na presunção do escrito ser cotejado por algum leitor crítico).

Dou um exemplo comum, inofensivo, mas revelador da solidez de certos ‘estudos’: a etimologia do nome duma terra dando como explicação a estória popular em que alguém (muitas vezes um rei), certa vez (muito, muito tempo atrás) e naquele lugar, diz qualquer coisa e do dito (mais ou menos literal) passa a ser conhecida a terra. Trata-se duma curiosidade, duma tradição, mas daí ao escrevinhador assumir que seja ‘a’ origem do nome da terra é duma grande ingenuidade, para não dizer mais.

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Frequentemente, um livro interessante é prejudicado por detalhes pouco relevantes para o assunto, é certo, mas que revelam precipitação, talvez pouca familiaridade com algo que o escrevinhador ‘traz’ para a obra (e mesmo assim traz, desastradamente). Podem ser curtas (des)informações geográficas, históricas, e não me refiro a simples trocas de datas ou nomes.

Fica mais complicado quando o escrevinhador se dedica a um tema sem verdadeiramente o abarcar, exibindo um à vontade constrangedor. Provavelmente, a sua relação com o tema é pessoal, real, afectiva, por isso mesmo fragmentária e parcial. No contexto duma obra de memórias, autobiográfica, será um testemunho válido, mas se tiver um propósito mais amplo, torna-se mistificador.

Se entrarmos na área dos escritos mais políticos, filosóficos, esotéricos, então os riscos aumentam assustadoramente por falta de fontes fidedignas, de bibliografia, de ‘conhecimentos mínimos’, de adequação da escrita para expressar ideias complexas, de simples bom senso e prudência.

"As suas gravações são intrigantes

“As suas gravações são intrigantes, mas ainda não são suficientes para provar que eles existem.”

E para não ser mal-interpretado, saliento que o que está ‘em jogo’ não é o tema, mas a sua formulação, o seu enquadramento e desenvolvimento.

Também se pode acrescentar que é possível, e desejável, que estes escritos tenham um nível de expressão literário. ‘Literatura’ não é só poesia e prosa de ficção, como se pode constatar na obra de Fernão Lopes, António Vieira ou Francisco Manuel Alves (o famoso Abade de Baçal) .

 

 

 

 

Algumas considerações intempestivas (e sempre oportunas)

O escrevinhador sofre, frequentemente, a solidão do criador. Por vezes interroga-se se vale a pena.

"Não, 5ªfeira não pode ser. Que tal nunca...nunca está bem para si?"

“Não, 5ªfeira não pode ser. Que tal nunca…nunca está bem para si?”

 

A ‘pena’ é o duro ofício que ele próprio elegeu. Compreendo a frustração, mais ainda se não tem obra publicada, nem leitores (ou, pelo menos, leitores que manifestem opinião).

Como és, Leitora? (…) és arrumada ou desarrumada? (…) És depressiva ou eufórica? És mesmo hospitaleira ou o deixar entrar em casa os conhecidos é sinal de indiferença?(…) Que mais? (…) A leitura é solidão. *

Sobre isso não tenho nada a dizer, muito menos a varinha de condão para resolver essa queixa recorrente do escrevinhador de todos os tempos, à excepção de alguns felizardos (mesmos esses sujeitos a um reconhecimento muito tardio, intermitente ou precocemente interrompido).

Que importa o nome do autor na capa?Viajemos com o pensamento até daqui a três mil anos. Sabe-se lá que livros da nossa época se terão salvado e de que autores se recordará ainda o nome.

Apetece-me, quando os ouço, lembrar-lhes o quase anonimato por que passaram escrevinhadores com a grandeza de Pessoa, e que depois de mortos se tornam figuras cimeiras da Literatura Mundial.

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E, para prémio de consolação, citar dois ou três nomes absolutamente desconhecidos, que já foram famosos, best sellers, premiados pela crítica e pelo público, mas que nem são dignos, hoje em dia, de dar nome a uma obscura rua da cidade onde nasceram.

Nem fada-madrinha, nem muro das lamentações, este blog lida com a escrita como fonte de prazer e de amadurecimento pessoal, com pretensões literárias, recreativas, didácticas. Se esse prazer ajudar a pagar as contas lá em casa, tanto melhor.

Os teus olhos tombam no principio do livro—mas não é o livro que eu estava a ler…Título igual, capa igual, tudo igual…Mas é outro livro! Um dos dois é falso.

Até porque, cada vez mais, torna-se acessível a publicação em papel (pagando-a, claro) ou em formato e-book (rigorosamente gratuita). Também poderia dar uma mão cheia de exemplos de grandes livros que foram publicados pela primeira vez em edição de Autor.

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O que faz falta, a meu ver, é uma rede de críticos, leitores, editores, agentes literários, publicações, livrarias, feiras literárias, com capacidade para ‘processar’ e consumir tantos autores e obras, principalmente no universo da Língua Portuguesa. Mas isso são largos contos.

Um momento, olha para o número da página. Que maçada! Da página 32 voltaste à página 17! O que julgaste ser um rebuscamento estilístico do autor não é mais que um erro de tipografia: repetiram duas vezes as mesmas páginas.

Por isso, e já o disse algures noutro post, ao escrevinhador só deve interessar o lado criativo da escrita, o trabalho meticuloso para ajustar a ideia à forma, o sentido crítico para o aperfeiçoar ou, inclusive, refazê-lo, desistir dele. Ou seja: dedique-se a activar as áreas cerebrais correspondentes ao prazer, ao sentido estético, ao juízo. Ah, viver uma vida também!

Há quantos anos não consigo entregar-me a um livro escrito por outros, sem nenhuma relação com as coisas que devo escrever eu?

E a preocupação de escrever como quem vai ser lido por milhões de pessoas anónimas, muito comuns mesmo, mas excepcionalmente bafejadas pelo Destino para poderem ter o discutível privilégio de conhecer sua obra.

Illustration by Jean Jullien

* Esta e todas as outras citações em itálico são retiradas do livro E Se Numa Noite de Inverno Um Viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed. Colecção Mil Folhas-Público

 

Para lá dos ‘estados de espírito’

Muitas vezes, o trabalho poético do escrevinhador  assenta na crença de que a verdade dos estados de espírito será suficiente para garantir ‘a alma’ do poema, enquanto que a aplicação duma qualquer métrica e sistemas de rimas bastará para a estrutura…e depois há um vocábulo, uma imagem, um efeito que podem ser acrescentados em revisões seguintes. Poderá também dispensar métrica e rima, sempre confiante na inspiração que o domina.

Se a emoção dominar a composição, reforça o risco do excesso, tanto na linguagem, como nas ideias, sem com isso dizer que se torna profundo ou complexo. Os sintomas mais evidentes são a perda de musicalidade, ritmo, clareza, empastelando frases longas (e a divisão da frase nos diferentes versos não a encurta, evidentemente).

-Tudo bem,David.

-Oh,David. Toda a gente sabe que és estúpido. Não precisas de tentar ganhar o campeonato mundial.

Ou seja, há mais preocupação em dizer do que em compor. Mas não será um risco aceitável, o de versejar livremente ao sabor da emoção e do sentimento? Aliás, não será até a característica principal da poesia? A de ser espontânea e vinda do fundo do Ser (ou ‘ do ser’, conforme os gostos)?

Pois, pois…não houvesse tanta negligência por parte dos escrevinhadores-poetas, compondo sem critério, nem auto-crítica.

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Sendo possível o compromisso entre estrutura, emoção (ou sentimento) e critérios (sejam lá quais), o escrevinhador estará a aperfeiçoar a técnica dos futuros poemas. Assim, mais facilmente captará os momentos de inspiração num texto que seja, por sua vez, inspirador.

Passei a vida a amar e a esquecer…/Um sol a apagar-se e outro a acender/nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo/É igual a outro amor que vai surgindo,/Que há de partir também…nem eu sei quando… (1)

Pode ser que algumas obras-primas da poesia tenham sido escritas logo à primeira redacção, sem mais do que um ou outro acerto posterior. É possível e é de génio (mas dá muito trabalho). A acontecer, deve ser raro.

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A inspiração, emoção, sentimento, a louca da casa, são fundamentais, mas não dispensam o pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica. Quando combinados, a vida banal do escrevinhador ganha dimensão universal e a poesia, bem…a poesia torna-se força da natureza.

Eventualmente paso días enteros sangrando/(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra/exagerado e implacable como una mujer enamorada./(…)/

No alimentaré a nadie con mi cuerpo/para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo./

Por eso sangro y tengo cólicos/y me aprieto este vientre vacío/y trago pastillas hasta dormirme y olvidar/que me desangro en mi negación  (2)

Madonna (1895), de Edvar Munch

Madonna (1895), de Edvar Munch

 

(1) in Inconstância, do  Livro de Sóror Saudade de Florbela Espanca

(2) in Eventualmente paso días enteros sangrando, do livro Espejo negro de Miriam Reyes, DVD ediciones

E agora algo completamente diferente *

*título de um famoso sketch dos Monthy Python

Pondo de lado os diversos tipos de censura literária e os critérios editoriais, a actividade literária tem evoluído para a dessacralização das regras, a liberdade de opção estética, o direito a escrever como o escrevinhador entende. Inclusive o de versejar com parâmetros métricos ou formais consagrados, anacrónicos ou outros.

Pode-se dizer e, por conseguinte, escrever seja o que for sobre seja o que for. Raramente nos detemos para observar ou confirmar este lugar-comum. Mas habita-o uma enigmática desmesura.(1)

É nesse sentido que formulo a expressão vale tudo e nada é garantido. O ‘nada’, bem entendido, é a receptividade do texto, o seu sucesso entre críticos, editores ou leitores. Ou a esperança de que uma posteridade ofendida vingará a memória do escrevinhador ignorado no seu tempo.

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

Vingança póstuma, aliás, ameaçada pela produção (e publicação) massiva de textos com pretensão literária. E a poesia, na minha limitada percepção, é a fórmula literária mais popular actualmente, como era há 500 anos atrás.

Se nada o limita, se nada tem a perder, porque há-de o escrevinhador abafar sua criatividade?

-Para teu bem, é melhor que o que vais dizer seja realmente importante!

-Para teu bem, é bom que o que tenhas a dizer seja realmente importante!

Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é um modo de não haver defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. Mas de qualquer modo há alguma desfasagem.Começa assim: como o amor impede a morte, e não sei o que estou querendo dizer com isto.(2)

Existe uma componente experimental na escrita, a nível do estilo, do tema, do enredo, até da própria linguagem e grafismo, que, por natureza, tende a aperfeiçoar com a persistência e o tempo. Se isso não acontecer, desista, caro escrevinhador: o seu caminho não é por aí.

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(a respeito da poesia pode ainda dizer-se:—A lâmpada faz com que se veja a própria lâmpada. E também à volta.) 

(Evita as tentações da teoria: o poema é uma coisa veemente e frágil. E não é frontal, mas insidiosa.) (3)

E como calibrar critérios de ‘perfeição’ numa via experimental? Seduzindo leitores, parece-me óbvio. Mas pode alguém seduzir se não estiver, por sua vez, seduzido por aquilo que faz?

O pior é que pode, o excessivo rigor ou a simples insegurança não impedem que se escreva textos gloriosos que o próprio escrevinhador tentará destruir, quantas vezes com êxito. Recorde-se o caso clássico do poeta Virgílio: deixou indicações escritas para que a obra-prima Eneida fosse destruída (eventualmente por estar a morrer e ter deixado a obra sem o desenvolvimento previsto, nem as revisões necessárias).

LIVROS RAROS "Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade."

LIVROS RAROS
“Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade.”

…E enquanto mantiverdes ainda, seja no que for, vergonha de vós próprios, não sereis capazes de ser dos nossos.(4)

Ora, torna-se pedagógico para o próprio escrevinhador desenvolver experiências, fugir às rotinas técnicas, temáticas e outras.

Deste modo torna-se consciente dos seus limites e percebe melhor aonde pode ir, se tentar.

Acima de tudo, a meu ver, torna-se crítico de si mesmo, nomeadamente das fórmulas estereotipadas como estrutura as ideias, como formata a sua expressão, o próprio vocabulário.

O que atrai o escritor, o que agita o artista, não é directamente a obra, é a sua busca (…). Daí que o pintor a um quadro prefira os diversos estados desse quadro. E o escritor muitas vezes deseja não acabar  quase nada, deixando no estado de fragmentos cem narrativas cujo interesse consistiu em terem-no conduzido a certo ponto.(5)

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO "A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito."

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO
“A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito.”

(1) in Presenças Reais de George Steiner ed.Presença trad.Miguel Serras Pereira

(2) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Nova Fronteira

(3) in Photomaton & Vox de Herberto Helder ed.Assirio e Alvim

(4) in A Gaia Ciência de Frederico Nietzsche, ed.Guimarães & Cª, trad.Alfredo Margarido

(5) in O Livro Por Vir de Maurice Blanchot ed.Relógio d’Água trad.Maria Regina Louro

A oficina de escrita

Um problema comum a imensos escrevinhadores principiantes, e de todas as idades, é o de reservar os momentos dedicados à escrita para os dias de inspiração. Infelizmente, muitos desses dias acabam por se reduzir a escassas horas, às vezes menos. Obviamente, assim não vão lá.

-Posso ajudar? -És uma cerveja?

-Posso ajudar?
-És uma cerveja?

Escrevinhadores com obra publicada e nome reconhecido  afirmam que praticam o acto da escrita diariamente por uma questão de disciplina. Entre os dois extremos encontram-se soluções de compromisso mais satisfatórias, provavelmente.

Quando um escrevinhador diz que tenta redigir um poema diário, mesmo que depois o rasgue ou o atire para o fundo da gaveta (tudo em sentido figurado, suponho), pergunto-me (e às vezes pergunto-lhe) que outras (pre)ocupações literárias se impõe.

Por exemplo: encontra algo em comum aos poemas entretanto produzidos? O quê: o tema, o estilo, o tom?

Acha que os exames de escolha múltipla são um modo objectivo de avaliar o conhecimento? A: SIM B: A e C C: A e B D: todas as respostas acima

Acha que os exames de escolha múltipla são um modo objectivo de avaliar o conhecimento?
A: Sim
B: A e C
C: A e B
D: Todas as respostas acima

E será que os expõe à apreciação ou os confronta com poemas de outros para, de algum modo, perceber o que possa estar a mais ou a menos, o que é dito igual, mas de outro modo, o que pode haver de fraco, deselegante ou, simplesmente, mal elaborado?

Não se trata só de escrever. Rever e reescrever, sem dúvida. Sem nunca descurar a auto-avaliação, confrontando com os escritos de terceiros, com a crítica fundamentada.

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E, repetindo-me pela enésima vez, ampliar o leque de leituras para escapar a uma ‘formatação’ demasiado datada, ainda que contemporânea.

Bastam estes exercícios para que a escrita comece a surgir fluída e harmoniosamente? Isso é que era bom!

"O segredo para ser um escritor está em captar toda a tristeza e agitação bem lá no fundo do teu ser e canalizá-lo para um livro de culinária dietética.

“O segredo para ser um escritor está em captar toda a tristeza e agitação bem lá no fundo do teu ser e canalizá-lo para um livro de dietas.”

Oferta dum fim-de-semana de sonho

Sugestão para um fim-de-semana de chuva, vento e frio: o escrevinhador reunir seus textos, mesmo os mais díspares ou fragmentários, e perceber se formam uma unidade, algum tipo de conjunto ou de conjuntos.

"A nossa investigação mostra como a hereditariedade e o ambiente são igualmente significativas, mas nenhuma é mais importante do que a regulamentação legal."
“A nossa investigação prova como a hereditariedade e o ambiente são ambos significativos, mas nenhum é mais importante do que a regulamentação legal.”

Dito de outra maneira: guardar uma certa distância em relação ao que escreveu, olhar os textos numa qualquer perspectiva, estabelecer relações, descobrir rupturas.

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Sim, é um modo de auto-avaliação. Uma abordagem crítica. Tanto mais útil se o material reunido tem anos, ou é algo extenso: tempo e trabalho, portanto. Produtividade, criatividade, vocação, chamem-lhe o que quiserem.

Fundamental mesmo é perceber a intenção original e o resultado, entender a adequação entre os recursos (vocabulário, processos estilísticos), o contexto (propósito, tema) e a execução (abordagem, ordenação, desenvolvimento, conclusão).

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Sem cair na tentação de jogar com tudo ao fogo aceso na lareira (tecla ‘Delete’).

O autor à procura da sua vocação

A imensa proliferação de escrevinhadores (com ou sem obra publicada) é um fenómeno social recente favorecido pelas tecnologias que permitem a auto-edição ou a edição incomparavelmente mais barata do que em qualquer outra época, e que tem como responsáveis directos a educação generalizada da sociedade através do modelo do ensino obrigatório e o acesso ao ensino superior por um número crescente de pessoas em diferentes fases da vida. Provavelmente, muitos escrevinhadores são tentados a iniciar um projecto porque estão na reforma, têm tempo, têm motivação.

O teu país precisa de TI

O teu país precisa de TI

E todos, claro está, são incitados por esse aguilhão que é impreciso, vago, variável, e que pode ser chamado de ‘criatividade’ para efeitos comerciais, estéticos ou de mera bengala para facilitar a comunicação. Porém, na categoria dos escrevinhadores principiantes é notória uma clivagem etária bastante acentuada: aqueles que tentam publicar ainda antes dos trinta, trinta e cinco anos, e os outros já depois dos sessenta, sessenta e cinco anos.

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Os mais novos podem ser encarados como todos os jovens escrevinhadores o foram nos últimos, vá, duzentos anos: irreverentes para com a ‘tradição’ e os ‘mestres’, desesperados pela originalidade, procurando os temas, o tom e o estilo para agradar rápida e lucrativamente.

'This is the shortest autobiography I've ever read!'

Esta é a autobiografia mais curta que li!

Ou seja, explorando os limites, fazendo pela vida, conformando-se com o que lhes parece mais fácil ou mais garantido. A diferença, para com os seus antecessores destes duzentos anos de literatura popular? Imensas diferenças: todas aquelas que identificamos com o estilhaçar da informação/formação/debate em milhentos canais de comunicação, a mercantilização global da cultura, os hábitos variáveis de consumo, essas coisas todas que tendemos a associar a modas e tendências. Que, noutro ritmo, com outro impacto, de algum modo sempre estiveram presentes nas atribulações culturais.

"Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

“Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

Mas o mais velhos? Esses sim, são a ‘novidade’ do século se atendermos à quantidade e variedade. O que escrevem? Para quem escrevem? Porque escrevem?

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“A minha professora diz que as meninas podem crescer e ser o que quiserem! Porque escolheste ser uma velhinha?”

Não o fazem pelo dinheiro, nem pela fama, e são alvo de mercado preferencial de toda uma ‘indústria’ de cursos faça-você-mesmo, de formação aprenda-num-instante, de tertúlias venha-conviver-em-poesia, de edições pague-já-que-nossa-editora-publica-amanhã e tantas coisas mais.

"Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada," murmurou Felix

“Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada?” murmurou Felix. “Era somente a minha primeira tentativa. Tenho ainda mais oito para escrever!”

Tudo isto é cultura, antropologicamente falando. Mas daí a resultar em boa literatura…

O escrevinhador e o Tempo

Há quem escreva com a noção de já ter vivido ‘o seu’ tempo, não sendo ‘seu’ o tempo contemporâneo. Supõem, por isso, que o que escrevem destina-se à sua faixa etária e a gente ainda mais velha: os mais novos não se interessam, nem o escrevinhador percebe o que lhes interessa.

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 Ou vivem o drama duma ausência existencial.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?… Aqui, tudo já foi… Em sombra estilizada, A cor morreu — e até o ar é uma ruína… Vem de Outro tempo a luz que me ilumina 

[in Epigrafe de Mário Sá Carneiro]
Lista Telefónica -Sinto-me inútil.

Lista Telefónica
-Sinto-me inútil.

O curioso neste ponto de vista é a negação, implícita, da própria Literatura, essa forma de arte em palavras que pretende agir sobre o leitor (ou ouvinte).

Tristes mãos longas e lindas/ Que eram feitas pra se dar…

Ninguém mas quis apertar…/ Tristes mãos longas e lindas… 

E tenho pêna de mim, /Pobre menino ideal… 

Que me faltou afinal? /Um elo? Um rastro?… Ai de mim!… 

[in Dispersão de Mário de Sá-Carneiro]

Os temas, como o talento, podem envelhecer, cair em desuso, desaparecer, nada de mais natural…mas como pode o escrevinhador sentir-se com autoridade suficiente para decretar a morte eminente de um tema (ou do próprio talento), após a morte dele (escrevinhador) e dos seus (poucos) leitores?

-Para de ser tão negativo. -Um verdadeiro optimista teria dito "Sê positivo".

-Para de ser tão negativo.
-Um verdadeiro optimista teria dito “Sê positivo”.

Anúncios destes podem resultar em boas ficções literárias, dramatizando o necessário para alimentar a tensão que uma perda definitiva sempre desperta. Até podem resultar como estratégia de marketing.

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-Queres parecer muito esperto, Corto Maltese. É esse o teu defeito…mas sei uma coisa a teu respeito: no fundo és honesto e é isso que me convém.
-As mulheres deveriam ter sido a minha ruína já há muito tempo.

Ora, ao escrevinhador resignado a escrever para ‘os do seu tempo’ falta, quase sempre, fôlego literário. Se algo definha não é a literatura, nem o tema, mas a escrita dos textos (dele, escrevinhador), e esse definhamento é o problema número um de toda a Criação (com maiúscula e porque sim): a falta de inspiração.

Eu próprio me traguei na profundura, Me sequei todo, endureci de tédio.
[in Além-Tédio de Mário Sá Carneiro]

 

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O resto são tretas. Mas é com tretas (e letras) que se responde a tão singela questão: escrever como?

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Mário Sá Carneiro, desenho de Almada Negreiros

Um pouco mais de sol – e fôra brasa, Um pouco mais de azul – e fôra além. Para atingir, faltou-me um golpe de aza… Se ao menos eu permanecesse àquem…

[in Quási de Mário Sá-Carneiro]

‘Ano novo, vida nova’

O título deste post é o característico estereótipo, daí manter as distância graças ao uso das aspas. Começar de novo, fazer tábua rasa do passado: outras expressões estereotipadas e populares que podem não ser de grande valia, excepto como manifestação de um desejo, dum sentimento inconformista (mesmo que inconsequente), da insatisfação perante a vida, etc. Não são de grande valia?! Isso já depende…

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A vantagem do escrevinhador é que tudo isto é matéria-prima para ‘qualquer coisa’, e relembro estas linhas:

Há alguns anos, não interessa quando, achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. (…) principalmente quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua, percebo então que chegou a altura de voltar para o mar (…)’

(in Moby Dick de Herman Melville, ed.Relógio d'Água, trad.Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves)
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Bons tempos em que o mundo era grande e os mapas tinham enormes extensões brancas por assinalar. Porém, ao escrevinhador do ano de 2014 não faltarão recursos para ‘voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas‘, seja na versão radical de sair pelo mundo fora (que pode ser o trivial mundo para lá da porta de casa), seja pelos espaços infinitos da sua biblioteca, da memória e da imaginação (ok, e da internet também!).

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Pessoalmente, o tema das viagens é do mais apelativo que conheço, e por aqui e por ali já falei alguma coisa disso. Aproveitando o tema de Dezembro associado à ‘renovação’, em que se costuma fazer a lista das x coisas a realizar no próximo ano, que posso sugerir a um escrevinhador à procura dum tema, duma inspiração, duma mudança (no estilo, no tema)?

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante -Hum. -Hum. Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante
-Hum.
-Hum.
Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

Já dizia o sábio que ‘nada há de novo debaixo do Sol‘*, o que pode ser profundo e merecer reflexão, mas logo a seguir acrescenta que ‘mais amargo do que a morte é encontrar uma mulher que é uma armadilha cujo coração é uma rede, e cujas mãos são cadeias‘*. Ora, o que me apetece dizer ao velho sábio e aos escrevinhadores em geral, é aquilo que disse um outro sábio: ‘Eu sou uma coisa e os meus escritos outra‘**.

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“É isso, Kenji.Tudo acontece por uma razão, mas ninguém tem a menor ideia qual seja!”

O que, traduzido ao meu modo, dá nisto: ‘Vivam uma vida e escrevam como se tivessem vivido mil e uma vidas‘.

*in Eclesiastes

** in Ecce Homo de Friedrich Niesztche

Transbordando de amor

O Natal (um dos três temas fortes de Dezembro) é época em que os ‘bons sentimentos’ são extensíveis a toda a gente, de modo indiscriminado e despudorado.

No registo literário, a efusão de afectos para com o mundo exprime-se, na maioria das vezes, através de poemas e, menos frequentemente, por contos. Aparentemente, obras de maior fôlego devem sufocar o próprio escrevinhador, pois só tenho ideia de encontrá-las nas secções de ‘auto-ajuda’ ou ‘espiritualidades’ das melhores livrarias, secções que pertencem a um outro domínio que não o estritamente literário.

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Desde (quase) sempre existe literatura que aborda o tema do ‘amor’ visto sob as mais variadas perspectivas, mas aquela que trago aqui é relativamente recente: a expressão dum amor incondicional, impessoal (porque dirigido a todos e a tudo),que pode facilmente centrar-se no próprio escrevinhador e nas suas dores, anseios e desejo dum mundo melhor, através duma linguagem poética que abusa da adjectivação, das descrições e enumerações (‘listas de mercearia’, digo eu). Além dos chamados lugares-comuns, que são a forma mais banal de estereótipo e de valor literário nulo quando usados sem outro critério do que o do seu valor expressivo.

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“T-Tempo para chorar…tempo para dizer adeus…tempo para…amar…m-morrer…!”

Com o acesso de um número maior de pessoas à categoria de ‘escrevinhadores’, graças ao ensino das letras e à redução dos custos de publicação, muitos fenómenos surgiram e este é um deles. No sec.XIX surgem como precursores na poesia, nas cartas (sim, já foram um género muito apreciado), em discursos (porque houve um tempo em que se imprimiam e distribuíam discursos de todo o tipo) e em outros géneros de pendor muito diverso que se limitavam a canalizar o ‘acrisolado’ amor a temas mais terra-a-terra como a ‘pátria’, ‘a nossa terra’ (neste caso, a ‘terrinha que nos viu nascer’), a ‘história’ (da pátria ou da terrinha) e outros tópicos em voga que inflamavam facilmente auditórios e leitores de jornais.

"Empatia? Sim, percebo como pode ser útil."

“Empatia? Sim, percebo como isso possa vir a ser útil.”

Daí a figura do poeta local, do escritor da terra, aqueles que ‘imortalizavam’ a pequena cidade, cantavam os rios e as fontes, descreviam com rica adjectivação as qualidades das gentes e a excelência dos produtos da região. Os conterrâneos agradecidos, emigrantes ou residentes, mesmo que analfabetos, sabiam alguns versos ou descrições sugestivas e o nome de quem os escreveu. Algum dia, mais tarde, uma praça, uma estátua, uma rotunda, seria dedicada à egrégia figura.

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“-Eu adoro a sua poesia!”

A acrescentar a tudo isso, temos o fenómeno muito mais recente do amor sem objecto, nem limites, decorrente da anonimidade urbana e da proliferação de escrevinhadores com obra publicada. É assim como a necessidade de gritar alto, da janela da casa, toda a indignação contra o que está mal e com total simpatia pelo que é o Bom, o Justo e essas coisas aparentemente indiscutíveis.

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.'

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.’

Ora, devo reconhecer que ambos os fenómenos não são coisa que coloquem em perigo a ordem pública, mas geralmente têm uma função mais catártica do que literária, e é aí que me volto a repetir: cuidado com o excesso das emoções na construção dos textos.

"Liberdade é

“Liberdade é mais uma palavra para fazeres o que te mandam…”                                                 Fascistas dão em péssimos cantores populares.

Mesmo privilegiando os sentimentos, l’amour fou ou se transborde de amor sobre seus semelhantes, a natureza ou alguma das infinitas categorias do divino, o uso das imagens, o rigor na construção das frases, o domínio da composição geral são ainda mais importantes precisamente pela necessidade de equilibrar a emoção com algum sentido estético. Não se trata de menosprezar a inspiração, o impulso criativo, o tema ou o propósito, mas de garantir o compromisso necessário entre o que se pretende escrever e o modo como se escreve.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Elogio da Loucura

Surpreende-me sempre o poder de sugestão de um texto sobre alguns leitores: depois de publicado o post ‘Com um grãozinho de loucura’, houve quem perguntasse se nos posts seguintes daria dicas para obter a ‘divina inspiração’ e quem protestasse por nada ter dito em termos práticos.

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Este modesto blog de dicas e tópicos sobre a escrita nada tem a dizer, de facto, sobre a louca inspiração que os deuses concedem aos tristes mortais. Nada?! Bem… talvez, duas ou três coisas.

Não cultivo qualquer fascínio pela imagem e culto do artista-louco ou ‘possuído’, embora hajam exemplos extraordinários de grande arte com doses apreciáveis de loucura. Muito menos pelos sucedâneos de excentricidade e palermice, ou pelas experiências psicadélicas, alcoólatras e outras para se aceder ao estado criativo.

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Aliás, nem aprecio sequer a ideia de tudo se sacrificar em prol da arte. A própria Loucura, no famoso discurso sobre si mesma dizia a propósito dos escritores:

“Outra espécie de pessoas mais ou menos da mesma laia é constituída pelos que ambicionam uma fama imortal publicando livros. Todos esses escritores têm parentesco comigo, sobretudo os que só publicam coisas insípidas. Quanto aos autores que só escrevem para poucos, isto é, para pessoas de fino gosto e perspicazes,(…) confesso-vos ingenuamente que merecem mais compaixão do que inveja.

Imersos numa contínua meditação, pensam, tornam a pensar, acrescentam, emendam, cortam, tornam a pôr, burilam, refundem, fazem, riscam, consultam, e, nesse trabalho, levam às vezes nove e dez anos, de acordo com o preceito de Horácio, antes do manuscrito ser impresso.

Oh! como me causam piedade tais escritores! Nunca estando satisfeitos com o seu trabalho, que recompensa podem esperar? Ai de mim! um pouco de incenso, um reduzido número de leitores, um louvor incerto.” (in O Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam)

Ou como dizemos na América: Get a life!

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“Podes ser quem tu quiseres, não há limites.”

Porém, o tal ‘grãozinho de loucura’ é um ingrediente notável (imprescindível, na minha opinião) e faz toda a diferença. Ingrediente que não impede, necessariamente, o regresso pontual a casa ou ao local de trabalho, aos mesquinhos afazeres do dia-a-dia, permitindo ao ‘Criador’ o convívio com gente banal, comum.

Ao longo da História, esse grãozinho foi o suficiente para forçar donas-de-casa, medíocres escriturários, estudantes esfaimados ou bem-nutridos, comerciantes e soldados, a roubarem horas ao descanso (quiçá ao trabalho…), dias e meses ao longo de semanas e anos, para colocarem em letra manuscrita textos de incerta valia. Todos eles vivendo fora de torres-de-marfim, e muito, muito longe, do Olimpo.

-Oh, Alice, tu és quem eu quero para mim. -Mas, Bob, num universo quântico como é possível tem alguma certeza?

-Oh, Alice…tu és quem eu quero para mim.
-Mas, Bob…num universo quântico como é possível ter certezas?

Esse grão foi, e continua a ser, o grão de sal que dá gosto às suas vidas banais, rotineiras, previsíveis. Numa época com tantas oferta e soluções de escapismo, será da maior injustiça confundir este ‘grãozinho de loucura’ como mais uma fórmula de evasão do quotidiano.

Claro, pode haver uma componente de escapismo (geralmente tem), e de terapia (provavelmente, na maioria dos casos)… e daí? Já a Loucura lembrava, no referido auto-elogio, que ‘quanto mais o homem se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incomoda velhice, tão insuportável para si como para os outros‘.

Através da escrita (mas pode-se dizer o mesmo de outras actividades), tanta gente medíocre, insignificante, até aborrecida, deixou páginas maravilhosas sobre o mundo. Mundo que também era o dos seus contemporâneos, e por vezes dum modo que nem estes imaginavam.

Bem...isto arruma com o trabalho de casa!

Bem…isto arruma com o trabalho de casa!

O que revela a presença desse pequenino grão de loucura em alguém pode ser uma ou várias evidências, nem sempre óbvias para os que o rodeiam ou com ele se cruzem diariamente.

Conforme a personalidade, ou aparente falta de personalidade, de cada um, esses sinais variam muito: uma obsessão compulsiva ou um intenso prazer, uma vontade de exteriorização ou um desejo de isolamento, uma aparente auto-confiança absoluta no valor do que faz ou uma absoluta insegurança.

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-O meu namorado? Oh, é um escritor.
-Oh, meu Deus, desculpa ter perguntado!

Nada disto, ou quaisquer outros sinais, são marcadores de qualidade. Mas a persistência e a necessidade em prosseguir revelam uma ‘possessão’, a tal ‘loucura divina’.

E repetindo-me, mais uma vez: para que resulte em ‘obra de arte’, claro está, o escrevinhador precisa ainda dos favores da bela Musa…

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Escrever, ler, reler, reescrever

O escrevinhador devia acompanhar a sua actividade com um permanente exercício de reflexão sobre os mistérios da leitura e dessa estranha, ignota, criatura que é o leitor. Afinal, toda a escrita deveria supor um leitor,não?! Poderá até o escrevinhador começar por se questionar a si mesmo: quantos livros irá reler ao longo da vida? Porquê esses e não qualquer dos outros?

"Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido"

“Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido!”

 

E que importância tem isto para o escrevinhador?

Mas com tanto livro por ler e tão pouco tempo para ler, não será caso para perguntar: o que leva alguém a repetir a leitura uma, duas, n vezes?

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Para complicar, acrescento ainda que, por vezes, a segunda leitura não coincide com a primeira. Outras vezes,confirma-a. Tem vezes que nem chega a ser concluída por falta de interesse.

O que leva a outra questão, perturbante e quase fantasmagórica: pode o texto mudar, no interior dum livro fechado e alinhado numa fileira da estante onde outros livros foram arrumados?

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Sei o que pensas sobre isto’, disse Tweedledum: ‘Mas não é assim, de modo algum.’

‘Pelo contrário’, prosseguiu Tweedkedee, ‘se fosse assim, podia ser assim; e sendo assim, seria assim: mas como não é assim, não é assim. É lógico.’ (Through the looking-glass de Lewis Carrol)

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A arte de dizer algo escrevendo o seu contrário

Tal como Camilo, Eça é um escritor com extenso rol de personagens que lhe servem para retratar a sociedade do seu tempo, colocando em evidência ‘taras’ nacionais como a hipocrisia religiosa, a falta de instrução e de cultura, a ausência de ética dos cargos públicos, o obscurantismo militante de instituições e poderes, etc.

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Ao contrário de Camilo, Eça prefere a ironia refinada para desenvolver o próprio enredo, a ponto de não só não fazer afirmações explícitas de condenação ou reserva relativamente aos actos e pensamentos das personagens, como até os louvar ou justificar, se nos ficarmos por uma leitura estritamente literal.

A ironia é um exercício exigente para o escrevinhador, por implicar domínio dos sentidos e, obviamente, humor. Mas também o é para o leitor, como se pode perceber por muitas reacções no dia-a-dia a este propósito.

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-Está a chegar uma mensagem!
-ZDRZDRPA OOG GREP ZOW PFLARP
-…Chefe,penso que estão a contar anedotas de peidos!
-Finalmente! Uma inteligência que rivaliza com a nossa! 

Por vezes, Eça recorre à narração duma cena banal, em contexto extraordinário para o leitor: o contraste entre os comportamentos e ditos das personagens, eventualmente normais, e o seu estatuto social, profissional ou outro, basta para afirmar (sem o dizer) o propósito da obra (a denúncia de tal ou tal coisa), apelando ao bom senso e humor dos seus leitores.

Outras vezes, desenvolve cenas ou diálogos ridículos e divertidos, pondo uma personagem a dizer ou a fazer coisas, que ela própria desvaloriza ou crítica ao narrar a história.

Em ambas as situações, Eça evita tomar uma posição (ao contrário de Camilo, que reforça o sarcasmo com comentários directos), dando ao leitor a obrigação de ‘descodificar’. As personagens têm liberdade para se exprimir, para se justificar, mas são traídas pelo contexto ou por elas próprias assumirem suas intenções menos dignas.

O que não quer dizer que sejam mais autênticas do que as personagens camilianas. Camilo mais depressa deixa a sua personagem exprimir-se, apesar de, imediatamente depois ou ainda antes de esta falar, já estar a adjectivá-la, a censurá-la, ou a divagar a esse respeito; enquanto Eça cria uma encenação, usa um nível de conversação ou obtém efeitos de linguagem que colocam as personagens atrás duma lente que amplia ou foca de acordo com os propósitos do autor, poupando a este uma intervenção directa e moralizadora.

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Em ambos os casos, são dois expoentes máximos da Literatura, justamente famosos pelas técnicas de narrativa e caracterização.

Camilo dizia a respeito do que escrevia: ‘Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea. Não partimos de uma renovação da Moral; emergimos de um lodaçal de inveterados vícios.’ (in Boémia do Espírito)

Eça, à sua maneira, diz ao que vem criticando a literatura contemporânea:

Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem acção. Júlia pálida, casada com António gordo, atira as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel, António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre este drama de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1851. O autor, ordinariamente, tem o hábito de Sant’Iago. O editor tem a perda. O leitor tem o tédio. – Santa distribuição do trabalho!

De resto, quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da fazenda. (in prólogo d’ As Farpas)

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Back to the basics

Tendo nascido no século passado, nesses tempos a escola primária tinha ainda por hábito a prática da ‘redacção’, que não era outra coisa senão uma ‘short story’, um pequeno conto.

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A ‘redacção’ abordava temas inócuos como a clássica Primavera, e vinha após a leitura de algum texto do livro de Língua Portuguesa que servia de introdução ao assunto. Na verdade, a mesma técnica que neste blog se recomenda: ler livros e textos variados, escrever sobre esses mesmos temas e livros, acabará por resultar num qualquer processo criativo e literário. Ou não.

'Estória Curta' -Vai publicar os meus contos? -Não FIM

‘Estória Curta’
-Vai publicar os meus contos?
-Não
FIM

O que faltava na escola, se bem me lembro, era a devida crítica comparativa das redacções dos alunos, resumindo-se tudo a uma apreciação sumária e classificativa. Assim como não havia a análise dos textos produzidos que ultrapassasse a gramática básica e o vocabulário.

-Que tal achaste o meu poema? ... ... -Bem, o papel em que o imprimiste é maravilhoso

-Que tal achaste o meu poema?


-Bem, o papel em que o imprimiste é maravilhoso

Que é o que as oficinas de ‘escrita criativa’ e outras modalidades de aperfeiçoamento da escrita e da criação literária se propõe fazer. Na verdade, há necessidade de confrontar nossa produção escrita com a opinião dos outros, preferencialmente gente interessada e interessante.

E isso exige espírito simultaneamente crítico e auto-crítico, muito melhor ainda se convenientemente doseado por uma porção de amor-próprio (vulgo auto-estima) e sentido de humor (ou capacidade de ‘encaixe’).

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Além da vontade de aperfeiçoamento, claro.

Escrever é preciso

Ainda ontem, falando com um pintor, este dizia que pintar ao fim-de-semana estava bem, mas quando se “anda nisto” a sério há que pintar todos os dias. Porque a ‘ideia’ tem de ser trabalhada, a mão exercitada até o gesto sair sem medo (e o medo nota-se nas pinceladas deixadas para trás).

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Com a escrita pode-se dizer o mesmo: até na ausência duma ideia, a pulsão pela escrita exige exercício, técnica, ensaio-erro-repetição. Felizmente com menos custo do que em outras artes.

Há algum tempo, alguém que não tem pretensão de publicar nada, mostrou-me o seu moleskine e maravilhei-me com a quantidade de anotações interessantes acumuladas em sequência caótica, fruto de leituras, reflexões, conversas. Coisas simples como uma citação latina, um verso solto, um dado estatístico, podem desencadear o processo mental criativo que resulte num projecto…imagine-se, então, um bloco de anotações com dezenas de páginas manuscritas! À sua maneira, o moleskine funciona como uma sessão de brainstorm disponível para uso e abuso do seu possuidor.

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Como vivemos numa era mais sofisticada do que as anteriores, os blogs abrem-nos outras possibilidades, como a de seguir o dia-a-dia do mundo em geral e dar-mos a nossa opinião, exprimir-mos nossas perplexidades e indignações, anotarmos ditos e factos que sejam relevantes.

Muita gente aborrece-se de manter um blog por falta de audiência, mas essa é uma questão secundária. O importante, para o que nos interessa aqui, é a possibilidade de ‘afixarmos’ nossos textos de modo organizado, com a frequência que entendermos e cuja leitura possa ser aberta a todo o mundo.

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A possibilidade de produzir textos com boa apresentação gráfica, expondo-os publicamente, tudo isto sem custos, não é, por si, motivo para alegrarmo-nos por viver nesta época, não noutra em que dependíamos dum editor?

-Continuas com aquele blog de poesia? -Sim, é fabuloso! Faz-me sentir que há um público muito maior a ignorar o meu trabalho!

-Continuas com aquele blog de poesia?
-Sim, é fabuloso! Faz-me sentir que há um público muito maior a ignorar o meu trabalho!

‘Ouça um bom conselho, que eu lhe dou de graça…’ *

* início duma conhecida canção de Chico Buarque
 

Num livro autobiográfico, cujo nome não recordo agora, o escritor Stefan Zweig aconselha todo o principiante na arte da escrita a tentar traduzir um livro, estratagema que, a ele, terá resultado muito bem.

Também não recordo as razões porque recomenda a tradução, mas creio que sejam a inevitável reflexão sobre a estrutura da obra, a percepção da perspectiva que o autor desenvolve (entre outras possíveis), o modo como aborda e desenvolve temas e personagens.

Lost in translation

Lost in translation

Não recordo ainda se outra das razões porque ele recomendava a tradução teria a ver com o que talvez se possa chamar abordagem estruturalista da língua: sempre que experimento traduzir um texto, seja do familiar castelhano, seja do inglês, mesmo um incompetente usuário da gramática como eu sente o vigor, a elasticidade, a sonoridade e o amparo das regras que nos bancos de escola pareciam tão desnecessárias quanto aborrecidas.

Parece-me tentador seguir esta recomendação, não fosse o meu pessimismo sobre as ‘competências’ (na horrorosa terminologia dominante) linguísticas da maioria dos escrevinhadores actuais. Zweig é de um tempo, lugar e condição social que favorecia especialmente as ‘competências’ poliglotas e literárias.

Ao escrever num blog que pode ser lido por qualquer um das muitas dezenas de milhões de falantes da Língua Portuguesa, sem limitações geográficas, assumo o risco da redundância, repetindo-me frequentemente: o gosto de escrever e de contar estórias, fazer história ou explicar coisas, exige algum domínio formal da língua, vulgo gramática, e vocabulário.

Sem esse domínio mínimo, torna-se complicado (se bem que não impossível) ter ‘fôlego’ para pensar, estruturar e desenvolver um texto longo com valor literário.

Frequentemente, textos e projectos de livros que leio revelam carências básicas neste capítulo, sem que os escrevinhadores tenham, aparentemente, consciência do problema.

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padre: Este é o corpo de Cristo…
legenda: O momento em que qualquer criança esclarecida percebe que a espécie humana tem problemas.

E falta de leitura é outra carência comum a muitos dos que se propõe escrever, mesmo quando escrevem segundo as boas regras da gramática.

Por tudo isto, a recomendação de Stefan Zweig pode ser óptima, mas receio que inútil para a maioria de nós.

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

O escrevinhador no seu labirinto

Tal como no mito de Ariana existem versões muitos distintas, o escrevinhador pode passar por processos muito contrastados: umas vezes produz torrencialmente, sem qualquer dificuldade, para depois entender de que nada daquilo o satisfaz; como pode escrever de modo doloroso, hesitante, diminuto, porém produtivo e satisfatório, permitindo-lhe progredir; ou anda à roda duma ideia, incapaz de lhe dar o sentido, a dinâmica, mas certo de lhe ter apanhado o estilo, a expressão.

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MANTENHA A CALMA e
ESCREVA ALGO

Na versão mais conhecida do mito, Ariana perde o homem que ama e salvou a vida, porque este desiste dela frente à pretensão dum candidato com mais poder e prestígio. Assim, do escrito pode resultar coisa muito diferente do que estava previsto, resultando um outro desenvolvimento, uma dinâmica segura, uma voz própria.

-Uau! 932 páginas de documentação. Impressionante. Como conseguiste lidar com tanta documentação? -Bem, precisas de certas competências, alguma paciência, alguma paixão e... -E muito crtl-c crtl-v? -Correcto!

-Uau! 932 páginas de documentação. Impressionante. Como conseguiste lidar com tanta documentação?
-Bem, precisas de certas competências, alguma paciência, alguma paixão e…
-E muito crtl-c crtl-v?
-Correcto!

A escrita é metamórfica, instável, vulnerável. Mas quando movida por um interesse genuíno, visceral, é persistente como qualquer doença reincidente.

O fio de Ariana

Deixar fluir livremente o texto sem pudor, eis a grande vitória do escrevinhador. Mais tarde, do que produzir terá a sorte de peneirar alguma pepita de ouro…ou uma pedra de vidro colorida, ao menos .

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Depois, jogar à “apanhadinha” com a intuição e o intuito. Se algo o move, algo também lhe toca: entre o intelecto e a emoção, o fio duma ideia pode surgir, conduzindo-o pelo labirinto até ao exterior.

Produzir texto, escrever sem valorizar a forma, procurando a expressão de ideias, sensibilidades, sonoridades.

Que a quase totalidade dessa produção seja para deitar fora não afecte o esforço de reciclar textos, ideias, dando-lhes outros contextos, formulando variações, editando como quem monta puzzles.

Editor (com o original de Moby Dick nas mãos): "Está bom, mas vamos trocar o canguru por uma baleia."

Editor (com o original de Moby Dick nas mãos): “Está bom, mas vamos trocar o canguru por uma baleia.”

Pessoalmente, confesso que é a parte que me dá mais gozo. Principalmente a partir do meio duma tarde de Outono ou de Inverno, entrando pela noite adentro.

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“A musa que a maioria de nós realmente precisa”

 

Escrever como quem vagueia

Caminhos escritos com um horizonte longínquo cada vez mais perto, mas ao qual nunca chegamos. E a que sempre regressamos. O pretexto como se desenvolvem outros temas à volta do tema central, numa espécie de peregrinação ou viagem cujo destino final é conhecido, mas que o leitor nem pode imaginar qual seja sem chegar ao fim. Paradoxal? Claro que sim. 

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“Nenhum autor foi ferido ou maltratado na preparação desta história.”

Neste caso, o livro que me ocorre com mais nitidez é um outro título falsamente “geográfico”: Danúbio, de Cláudio Magris (ed.Quetzal). Bem, talvez eu esteja a exagerar um pouco, afinal o início do livro coincide com o início do rio Danúbio (a busca da nascente mítica e a verdadeira); e depois acompanhamos o autor ao longo do curso das águas (quase 2900 km) até à foz.

Mas cedo descobrimos que o rio é pretexto, senão metonímia,  duma aventura cultural: a cultura centro-europeia (Mitteleuropa).

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E até as longínquas águas do Tejo reforçam a corrente da bacia cultural do Danúbio: “Utilizar o termo ‘empregado’ como uma injúria não passa duma vulgaridade banal: pelo menos Pessoa e Svevo teriam acolhido o empregado como um justo atributo do poeta. Este não se parece com Aquiles ou Diomedes, que se enfurecem nos seus carros de guerra, mas antes com Ulisses, que sabe não ser ninguém”. 

E mais adiante, continua: “Kafka e Pessoa viajam não até ao fim duma noite tenebrosa, mas de uma mediocridade incolor ainda mais inquietante, na qual damos conta de ser apenas um cabide da vida e no fundo da qual pode haver, graças a essa consciência, uma extrema resistência da verdade.” O curioso contraponto que estabelece à ‘viagem’ de Kafka e Pessoa são a banalidade do mal, a guerra total, a mentira odiosa, a hipocrisia.

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Mas não é do Danúbio que falamos? Não te impacientes, leitor(a): o homem é um professor de Línguas e Literaturas Germânicas e desce a corrente do rio para nos propor conhecer uma paisagem menos evidente. A dado passo diz que para o autor romeno  Mihail Sadoveanu, é “…como se o Danúbio levasse para o mar e espalhasse à sua volta, galgando as margens, destroços de séculos e de civilizações.

Remota fronteira do Império Romano, fronteira belicosa entre os Impérios Austro-Húngaro e o Turco, fortíssima corrente que une países, que nem assentam nas suas margens, numa história comum, este rio imenso arrasta o autor para as águas que lhe são familiares e preferidas, e com ele o leitor que se deixe fascinar por esta viagem pela cultura europeia.

Em sua defesa, a citação do austríaco Franz Tumler: “Escrever sobre o Danúbio não é fácil, porque o rio flui contínuo e indistinto, ignorando as proposições e a linguagem que articulam e cindem a unidade do vivido.”

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Há quem escreva como quem navega, bússola e mapas debaixo do olho, rumo ao incerto horizonte.

E quem escreva como o rio que vagueia sinuoso, depositando sedimentos aqui, arrastando tudo nas águas violentas ali, desaparecendo da superfície por momentos, e logo reaparecendo mais adiante. Por vezes, sua nascente perde-se no tempo, assim como desagua no mar através dum delta tão variável, quanto impreciso.

Ou como contava aquele empregado do patrão Vasques: “Devaneio entre Cascais e Lisboa. (…) Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação dessas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho do visível. (…) O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.” (Livro do Desassossego, de Bernardo Soares)

 

Escrever como quem explica

O que torna algumas obras de não-ficção memoráveis e exemplares no seu género, não tem de ser o conhecimento especializado, mesmo quando escrito por um académico da área.

Pode ser, por exemplo, a capacidade de comunicar assuntos de imensa complexidade ou erudição de modo acessível ao grande público, sem faltar ao rigor da informação e dos dados.

Clima urso: E que tal te parece? comentário: Ele ainda não notou nada.

Clima
urso: E que tal te parece?
comentário: Ele ainda não deu conta do que se passa.

Para ilustrar com um exemplo, cito o livro Mais rápido que a luz de João Magueijo (ed.Gradiva), doutorado em Física Teórica: “A cosmologia foi durante muito tempo um assunto religioso. É espantoso que se tenha tornado um ramo da física. Que razões temos para esperar que um sistema tão complexo como o universo possa ser tratado cientificamente? A resposta irá talvez surpreendê-lo: pelo menos no que diz respeito às forças que o governam, o universo não é assim tão complexo. (…) É mais difícil descrever a dinâmica de uma ponte suspensa do que a do universo.

João Magueijo expõe problemáticas vagamente familiares ao leitor com alguma formação em ficção científica (“a matéria diz ao espaço a forma que há-de ter, o espaço diz à matéria como se há-de mover“), e põe-no a par das ideias aceites desde Einstein, das investigações e das especulações (na qual inclui a sua teoria sobre a velocidade da luz variável [a velocidade, não a luz]).

homem: É um mamute. legenda: microscópio primitivo.

homem: É um mamute.
legenda: Microscópio primitivo

A abertura do livro, por si, já é um polémico e excelente “insight” para o restrito universo da investigação científica e do mundo académico. Para ainda concluir, no final do livro: “No universo ninguém se diverte mais do que nós”.

“Nós”, os cientistas, bem entendido.

questões de método ( e de princípio)

Obras de não-ficção são, por exemplo, os relatos de viagem ou ensaios temáticos.

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Alguns amáveis leitores  deste blogue estão em vias de escrever (ou já estão em fase de elaboração)  livros que se enquadram numa destas categorias e levantam questões curiosas, das quais destaco as seguintes, reformulando-as um pouco:

-é legítimo “apimentar” o relato com alguma ficção, e sendo legítimo, deve-se assumi-la como tal ou mantê-la em segredo?

-faz sentido acompanhar o relato com informação didáctica (tipo História, Geografia, Etnologia, etc)?

-a fotografia será fundamental para o “êxito” dum livro sobre viagens?

-um ensaio deve começar com a apresentação do assunto a desenvolver?

-o autor deve revelar as razões porque se dedica a tal tema, não tendo actividade académica ou profissional que o justifique?

-o autor pode, ou deve,  incluir um lado pessoal, autobiográfico, sobre um assunto mais geral? Ou, pelo contrário, deve manter uma linha objectiva no desenvolvimento do assunto, sem personalizar?

Nos próximos posts darei a minha perspectiva sobre cada questão, mas desde já antecipo a minha máxima favorita: vale tudo e nada está garantido. Na literatura, bem entendido.

"Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas."

“Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas.”

Escrevinhador ou escritor: eis uma questão.

Memórias, ficções ou poemas muitas vezes apresentam-se num português sofrível, alternando frases excessivamente curtas (e insuficientes para o entendimento e o desenvolvimento do tema) com outras longas de mais (divagando de modo despropositado, ou abusando das perífrases, da voz passiva, dos detalhes).

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

A bengala de que se fala no post anterior muitas vezes surge associada a textos de difícil entendimento por falta de clareza na exposição de ideias e factos, pela precária estrutura que as sustenta e na desproporção das partes entre si. Como se o autor tivesse mais prazer (ou urgência) em escrever suas coisas assim como lhe ocorrem do que em fazê-lo seduzindo (ou comunicando com) um hipotético leitor.

Em qualquer das situações, os textos precisam de maior qualidade formal (gramática, vocabulário) e de que o autor tenha noção das exigências próprias da expressão escrita (em contraponto ao fio dos seus pensamentos ou à expressão oral).

Se o fizer intencionalmente, deverá assegurar-se se o efeito pretendido é eficaz. Por exemplo: o texto desenrola um novelo de ideias, expressões e estórias conforme estas acorrem ao narrador (que pode ser um personagem).

Uma análise crítica verificará se o efeito é voluntário; sendo voluntário, se é eficaz. Se essa eficácia é consistente com os propósitos do texto, já é outra coisa que irá analisar depois.

Mundo Monstro

Marketing e Literatura

O desespero de quem escreve e quer editar (e se consegue a almejada edição, logo a quer promover e vender rapidamente), leva a questionar quais os “segredos”, as técnicas”, para atingir esses objectivos. Tudo desejos legítimos e naturais para os quais não há que ter vergonha ou sentir culpa.

Será o título? Um título apelativo, mobilizador, que fica no ouvido?

Ou é mesmo o tema? Vampiros contra lobisomens ainda está na moda?

Talvez o famoso arranque logo na primeira página que agarra a atenção do leitor distraído ou aborrecido.

É a capa quem atrai o leitor num primeiro tempo, dirão os perspicazes.

Depois, as redes sociais farão o milagre. Diz-se. Melhor mesmo só aparecendo na TV.

Tudo questões pertinentes para o editor, sem dúvida. Mas sem sentido quando o livro ainda está por escrever.

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Reconheço o valor de qualquer uma das questões anteriores, todas têm relevância para a promoção e o impacto da obra perante um público que desconhece o autor. Daí a importância estratégica duma editora competente, daí os conflitos entre a editora e o autor sobre estes e outros aspectos do livro a publicar. Daí a falta que faz a figura do “agente literário” no nosso pequeno mundo da Língua Portuguesa.

Mas este blog limita-se à área da criação, cultiva o culto da inspiração, ou seja, o da relação erótica e fiel com a bela Musa. E fá-lo por defeito. “Defeito”, sim, no sentido de imperfeição (não como anglicismo importado pela prática de “correr” programas informáticos e quejandos). A escrita é uma pulsão, uma “necessidade interior”. É possível que seja, até, uma patologia benigna. Acima de tudo, e desejavelmente, deve ser uma paixão.

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Conseguir equilibrar os excessos dessa paixão com o rigor da gramática, estruturando um texto legível e interessante, parece-me uma tarefa suficientemente complexa e absorvente. E, por defeito e limitação assumidas, apetece-me dizer como Guerra Junqueiro dizia de cada livro que concluía, que  era como deixar um filho na “roda”: a partir daí deixava-se de preocupar com o que viesse a acontecer-lhe.

A “roda” de que falava era uma placa giratória, na parede de certos conventos, onde quem passasse na rua podia deixar os recém-nascidos ao cuidado das freiras. Exagero dele, certamente.

Palavras, “paroles” e parolices

Fazendo mais uma vez a ressalva de que não há receitas, e toda a experimentação é legítima desde que não se indigne com a opinião crítica, chamo a atenção para a escolha das palavras: se são banais e previsíveis, se são insólitas e incompreensíveis, se são raras e pedantes.

A mim fascinam-me palavras banais, insólitas no contexto, mas apropriadas para a intenção geral do poema e para a estrutura que o suporta.

Por vezes, palavras com sabor antigo, erudito ou popular, que nos obriguem a saboreá-las ao ler ou dizer.

"O espantoso

O espantoso POETA-BOT apresenta: Então queres ser um poeta?
“A vida não é uma festa,/É como pastilha elástica/Na tua testa”             “?”                           …………………………………………………………………Exercício #97: escreve uma canção sobre o desespero. Canta-ao teu gato.

E pudor na adjectivação, assim como ousadia no verbo.

Há palavras repetidas? Desde que seja intencional, cumprindo o efeito pretendido, tornam-se fortes. De outro modo…       (ver nota)

Poesia oral e/ou escrita?

Originalmente, os poemas eram o modo “literário” por excelência em culturas analfabetas, daí a procura dum padrão, dum método: métricas e rimas, fórmulas repetitivas, imagens e outras referências que fossem partilhadas pela maioria, tudo o que ajudasse a memória do declamador/poeta e facilitasse o entendimento dos ouvintes.

_Vocês, poetas, pensam que são...tão...tão...incrivelmente... -...articulados?

_Vocês poetas pensam que são…tão…tão…incrivelmente…
-…articulados?

Com a escrita, simultaneamente se cristalizaram técnicas e libertou-se a criatividade individual. Mas isso demorou séculos e sofre recuos sempre que os hábitos de leitura se perdem. A feliz união da poesia com a música tem ajudado à divulgação de poemas e autores de todas as épocas, ultrapassando os anacronismos típicos e dificuldades de vocabulário.

Muitas vezes, poemas de grande beleza são de impacto duvidoso quando ditos a alta voz para um público, talvez porque não são concebidos originalmente para esse efeito, que tem suas exigências de dicção e forma.

E depois há o sentido, ou múltiplos sentidos, do poema: tanto maior será a compreensão de quem ouve quando suas expectativas não são confrontadas com dissonâncias e subtis ironias.

Mas deverá o autor esforçar-se por corresponder a essas expectativas? Épater le bourgeois (Chocar o burguês) já era a ambição de poetas franceses como Baudelaire (a frase creio que é dele mesmo) e não era isso o que o Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros, também pretendia? (ver nota)

Ou como diz outro poeta: o mar subiu ao degrau das manhãs idosas/inundou o corpo quebrado pela serena desilusão/assim me habituei a morrer sem ti/com uma esferográfica cravada no coração. (in Mais Nada se Move em Cima do Papel de Al Berto)

Recriando a oralidade e a linguagem

Mas foi em 1956, e do outro lado do Atlântico, que alguém deu vida e voz a uma variante do almocreve beirão Malhadinhas.

Igualmente do interior (ver nota 1) e com pouca instrução (ver nota 2), muito cismático das coisas da religião (ver nota 3), destemido e aventureiro (ver nota 4), apaixonado por sua mulher e apreciador de todas as mulheres bonitas (ver nota 5) : o sertanejo e jagunço Riobaldo, Tatarana, o Urutu-Branco!

Grande Sertão: Veredas , de João Guimarães Rosa, ultrapassa largamente o projecto de Aquilino de filtrar “a linguagem dum rústico”: a linguagem do rústico Riobaldo terá como base o modo de se expressar do Sertão (vocabulário, ditos e expressões), a que o autor acresce palavras do português arcaico (muitas delas ainda usadas no Sertão), e que permitem a formação de neologismos (ou recriação de palavras).

Logo nas primeiras linhas: “-Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo o dia isso faço, gosto, desde mal em minha mocidade.” E será assim até ao fim dum livro de várias centenas de páginas.

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Pedra-de-Toque

Arrisco dizer que a “pedra-de-toque” está na capacidade do autor em ajudar o leitor a descobrir sua própria fractura interior, seus próprios demónios, sua condição instável e de fronteira entre “dois mundos”.

Quando consegue, a qualidade da escrita está, de algum modo, garantida.

Infelizmente, o risco de cair no delírio de emoções, torrentes de ideias, textos palavrosos, é muito frequente. Nesses casos, a pulsão de escrever como desabafo e escape não é moderada pelo judicioso exercício crítico ou por um mínimo de sensibilidade estética.

Que todos nós temos um pouco de louco é um lugar comum, mas a loucura, em si, não é porta aberta para o mundo da arte.

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a viagem como metáfora

Não surpreende, assim, que viajar se torne sinónimo de “transformação”, metáfora da “iniciação” aos antigos saberes ocultos (ou perdidos).

Ou seja um modo de narrar o amadurecimento, a abertura ao mundo (na sua pluralidade, nas suas diferenças). E, também, uma mudança arriscada, indesejada, que traz perigo e ameaça a integridade, física e psicológica, do viajante.

Também  há os relatos de viagens estereotipados, seja na versão lúdica das férias na praia, seja na literatura dos mistérios de antanho em versão new age: a mistura do disparate, do preconceito cultural, do kitsch, da ignorância boçal, das pretensões eruditas, etc, etc.

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O Processo

Os personagens acabarão por surgir impondo a sua presença e exigindo atenção, assim o processo narrativo se desenvolva. Este processo pode ser conduzido por um narrador-personagem ou por um narrador omnisciente e impessoal, mas também pode dispensá-los e desenvolver-se num “efeito caleidoscópio”, dando expressão a diferentes “vozes”, que são outras tantas perspectivas parciais cujo somatório é o “trabalho” do leitor. Esta é uma área vocacionada para a criação e a sensibilidade, que na esmagadora maioria das vezes é tratada de modo banal e previsível.

Para quem não está familiarizado com o processo de escrita extensa dum livro, o mais óbvio é seguir o impulso de se dedicar ao tema/enredo num jogo criativo que poderá misturar ficção com realidade, sem se comprometer com matérias que possam distrair do propósito do livro.

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Ler bem para escrever razoavelmente

Ler, indiscutivelmente, apura o sentido da escrita. Porque a escrita exige conhecimento e prática, não há como evitá-lo.

Claro que se pode publicar o primeiro livro e ser logo bem recebido pela crítica e pelo público, mas isso nada diz dos anos de leituras e de escrita antes da publicação.

Podem-se citar mãos cheias de livros bem escritos, de autores sem preparação académica, sem ambiente familiar propício à leitura, ao estudo e à escrita, e que até falam de modo algo limitado, mas isso só reforça a ideia do excelente trabalho editorial que está na sua base.

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Que “gosto” tem?

O “gosto” é a própria manifestação individual da sensibilidade e bom senso (título dum livro muito popular noutros tempos), está em estreita relação com a educação familiar e o meio cultural envolvente (seja pelo seguidismo acrítico, seja pela rejeição neurótica, seja de qualquer outro modo), pode se tornar um manifesto, uma moda, uma tirania.

Tanto pode ser reivindicação de liberdade ou sujeição à maioria, como imposição dum princípio geral.

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A (i)materialidade da escrita

Descendo ao nível que me proponho falar da escrita, citei a frase “ler é fundamental”.

Nem ler, nem escrever, são actos naturais e espontâneos como a linguagem: exigem, tal como ela, aprendizagem. Mas, ao contrário dela, não são necessários para a sociedade humana prosperar.

Através da linguagem, o humano passa do reino da natureza para o cultural; da linguagem à escrita-leitura, a palavra ganha materialidade, permanecendo mesmo depois de todas as vozes se calarem. Daí o medo gerado no início duma era em que a palavra se torna, cada vez mais, uma realidade virtual, desaparecendo com a falta de energia duma bateria ou da ligação à internet.

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Paixão não rima com rotina, certeza ou segurança

O que foi dito atrás sobre as paixões não é de grande utilidade para quem escreva ou pretenda fazê-lo. Não porque seja irrelevante, mas por ser daquelas matérias de estudo e reflexão que só ganham sentido se a vida for vivida plenamente. Disso fala extensamente a literatura universal, e acrescenta que se não dermos o passo para fora da casca da rotina, para o exterior da concha de certezas que nos defendem da dúvida, paixão torna-se uma palavra oca.

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Ler é fundamental

A paixão que falo também pode ser tão serena como um koan, alimentando-se dum grãozinho de loucura que desequilibra toda a expectativa, sem trair o propósito do autor.

Por ela, podem se passar anos a trabalhar o texto, polindo da frase a adjectivação e aguçando-a com verbos intransitivos.

Sim, apesar de haver inúmeros exemplos de poetas e narradores analfabetos, para escrever faz diferença conhecer a língua escrita, uma outra forma de dizer que “ler é fundamental”.

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A escrita como sedução

O escritor deve supor o seu leitor, aquilo que têm em comum? Deve preocupar-se com tudo o que consome o tempo dedicado à leitura,distraindo o leitor para outras actividades?

Deverá, pelo contrário, escrever o que realmente lhe dá na gana (ver nota 1), sem pudor (ver nota 2), sem consideração para as modas (ver nota 3)?

O sossego tão avesso aos hábitos dominantes, em casa ou fora de casa, em férias ou nos tempos livres, é um luxo que o bom, o exigente leitor, cada vez mais preza. Também por isso, dá por mal empregue o tempo perdido à volta de um livro medíocre.

Escrever deve supor um acto de sedução (escrevo para que me leiam), com o vagar necessário, mas sem abusar da paciência.

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