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Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

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Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Rever, reescrever, restruturar

Por melhores que sejam as intenções, o escrevinhador que pede a opinião alheia sobre a obra, acabada ou não, raramente encaixa as críticas, mas não tem qualquer problema em escutar elogios. Como resultado, só pode contar com o seu sentido crítico (neste caso autocrítico) para poder corrigir e evoluir.

Feito o inventário dos vícios e das virtudes, reunindo os principais traços das paixões, traçando os personagens, elegendo os acontecimentos primordiais, compondo os tipos por meio da reunião dos rasgos de vários personagens homogéneos, talvez pudesse chegar a escrever a história negligenciada por tantos historiadores: a dos costumes (…) (1)

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Se uns resistem a qualquer sugestão ou reparo crítico, outros confessam a sua incapacidade e desinteresse em alterar seja o que for. O que é compreensível, já que a escrita deixa sequelas, é sujeita a períodos de sofrimento e indecisão, e pode se tornar um imenso alívio ter-lhe dado fim. Por isso é comparável ao trabalho de parto. Indevidamente, porém: na escrita, o parto pode ser prolongado mesmo depois de publicadas várias edições do mesmo livro. E com melhores resultados, muitas vezes.

Instintivamente, a questão põe-se por si mesma: Para quem é isto feito? A quem pode agradar? (…) É dito que é tudo feito a bem da arte, e que a arte é algo de muito importante. (…) (2)

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É neste aspecto que se pode distinguir a escrita catártica da escrita assumidamente literária.

Certas almas manifestam a sua debilidade radical quando não conseguem se interessar por uma coisa se não acreditarem de que ela toda é o que há de melhor do mundo. (3)

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No primeiro caso, o escrevinhador tem necessidade, urgência, pulsão, em botar por escrito ideias que o atormentam, fantasmas do passado, anseios e sonhos falidos ou irrealizados (ou, simplesmente, contar uma estória, compor um poema). No segundo caso, sob a pressão (ou não) de tudo aquilo, o escrevinhador pretende que a escrita seja filtrada por um registo formal (linguístico, narrativo), ou seja, que esteja subordinada a critérios de exigência, peso e medida, para que se torne, creio eu, um prazer para quem lê e para quem escreve.

Negligenciei até agora a questão da forma no escritor naturalista, pois é ela que, precisamente,  singulariza a literatura. Não só o génio, para o escritor, se encontra no sentimento, na ideia a priori, mas também na forma, no estilo. (4)

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Mesmo que aplique filtros, o escrevinhador expõe-se às fórmulas estereotipadas, a desequilíbrios penosos, à ausência de ritmo, densidade e assunto. Que seja capaz de formular uma avaliação crítica sobre o que escreve e de justificar suas opções, resistindo às pressões da crítica alheia, pode ser um acto de resistência, autoconfiança e digno de merecido reconhecimento póstumo. Mas o esforço é sempre exigido por uma questão de simples bom senso.

Do arranjo das palavras adequadas, o que é simultaneamente arabesco e sensual, até à arquitectura da frase elegante e prenhe de sentido, o que é um acto vigoroso do intelecto puro, não há praticamente nenhuma faculdade humana que não seja exercitada. Não nos temos de espantar, portanto, de que frases perfeitas sejam raras, e páginas perfeitas mais raras ainda. (5)

Dama en amarillo escribiendo, Johannes Vermeer.

Ora, esse bom senso é prejudicado, geralmente, por uma imensa fadiga pós-criativa que acomete o escrevinhador ou pela simples indigência auto-suficiente de quem não tem sequer noção das tarefas de revisão que se impõe.

(Se soubesses se soubesses/quão triste a rosa guardada/ entre as páginas/ dos versos) (6)

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Conforme já tenho dito, essa fase não é menos criativa, não é menos estimulante (pessoalmente é a minha preferida) e não necessita recorrer a terceiros (embora sejam muito úteis leituras críticas).

Li o teu livro, Amor, sofregamente;/Li-o, e nele em vão me procurei!/ No teu livro d’amor não me encontrei,/ Tendo lá encontrado toda a gente. (7)

"Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade"

“Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade!”

Também nesta fase se tornam especialmente importantes as leituras com que o escrevinhador tenha alimentado a sua sensibilidade, pois daí lhe poderão ser fornecidos técnicas e recursos valiosos. No fundo, o desafio de ir mais além.

A nossa falta de familiaridade com o que é realmente excelente é a explicação pela qual tantos têm prazer no que é estúpido e insípido, somente por ser novidade. Deveríamos ter o hábito de ouvir, diariamente, alguma canção bonita, ler um bom poema, contemplar um quadro maravilhoso e, se possível, dizer algumas palavras tocantes. (8)

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Quando Clarence e Gilda decidiram trabalhar menos depois dos 50’s e divertirem-se, descobriram que eram, realmente, pessoas extremamente aborrecidas.

 

(1) in ‘Prologue’ à 1ª edição da La Comédie Humaine, de Honoré de Balzac

(2) in O que é a Arte?, de Leo Tolstoi, trad. (do russo para o inglês) Aylmer Maude ed.Thomas Y. Crowell & Co

(3) in Meditaciones, de Ortega y Gasset ed.Publicaciones de la Residencia de Estudiantes

(4) in Le Roman Experimental, de Émile Zola ed.Bibliothèque-Charpentier

(5) in Essays in the Art of Writing, de Robert L.Steveson ed.Chatto & Windus

(6) in ‘Capa’ Rapsódica de Stella Leonardos ed. Orfeu

(7)  in ‘O teu Livro’ Livro do Nosso Amor, de Florbela Espanca ed.Bertrand

(8) in A Aprendizagem e as Viagens de Wilhelm Meister de Johann W. Goethe, trad.Thomas Carlyle The Project Gutemberg eBooks

 

Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

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cartoon de Fernando Vicente

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

O remate final e o que se lhe segue

O final de um poema ou de uma estória pode ser problemático para o escrevinhador, realmente: a dificuldade em ‘chegar’ ao fim, em estruturar a composição de modo a lhe dar conclusão. É que, muitas vezes, uma boa ideia surge como fragmento de algo maior e difícil de entrever, muito mais ainda de desenvolver e de expressar. E de lhe dar o remate adequado.

El instante que pasa ocupa todo el tiempo.

No hay final ni principio:

sólo el todo y nada equidistando

(‘Didáctica’ de J.M. Caballero Bonald in Diario de Argónida, Obra Poética Completa ed.Austral)

Túmulo do escritor desconhecido

Túmulo do escritor desconhecido

 

Mas pode acontecer o exacto oposto: a narrativa, ou o poema, tem um final aberto que permite progredir facilmente. Na ausência de um prazo para entrega do original para publicação, o escrevinhador prossegue indefinidamente, sem sentir perca de qualidade ou perturbação no equilíbrio original do enredo.

"Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má."

“Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má.”

As sequelas de que se falava no post anterior têm, quantas vezes, origem nessa impossibilidade de dar um ‘fim’. Não que este não pudesse ser dado páginas atrás, mas precisamente por haver uma pulsão das personagens ou do próprio contexto em prosseguir.

Assim como a leitura se torna compulsiva, obcecando o leitor a continuar com sacrifício do tempo para dormir, e depois lhe dá aquela tristeza por chegar ao final, também o escrevinhador pode entusiasmar-se a ponto de não conseguir parar. E se o fizer, sofre o mesmo vazio que o leitor sente ao interromper a leitura que lhe dava tanto prazer.

“Bem sei, bem sei que te seria difícil  terminar o teu ensaio-narrativa (posso chamar-lhe assim, um ensaio-narrativa?) se te não trouxesse eu uns últimos esclarecimentos. Pois ouve, que vou continuar…”

(in Os paradoxos do bem de José Régio, incluído na colectânea O vestido cor de fogo e outras histórias, ed.Verbo)

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Donde vem este entusiasmo criativo, ‘localizado’ numa obra em particular e incapaz de se alargar a outros projectos? Creio que se trata duma feliz combinação entre a louca da casa, que se liberta dos estreitos limites do quotidiano, com a bela musa, seduzida pela ideia e pelo discurso (escrito, claro), às quais se juntam as personagens dotadas de voz própria, de capacidade de escolha, decisão e acção.

Isso e mais o contexto em que as personagens vivem e actuam, contexto flutuando conforme as variáveis que o determinam. Tudo isso e mais, ainda, o tempo (ou os tempos) que determinam o ritmo e a sequência dos acontecimentos.

Garantia porém a quem folheia—o tema é de passagem, de passionar, passar paixão e o tom é compaixão, é compartido com paixão.

(‘Terceira Carta I’ in Novas cartas portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, ed. Moraes)

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A que se pode acrescentar ainda uma dimensão trágica, que não tem aqui o sentido de ‘desgraça’ geralmente usado, mas de conflito seguido dum qualquer tipo de desfecho que está para além dos desejos e da vontade das personagens (fatalidade, mistério). O qual, a partir do sec.XX, se pode caracterizar por um não-desfecho, uma indefinição (incerteza, imponderabilidade), ou seja, um final incaracterístico, não-intuitivo, e nem por isso inverosímil.

Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. (…) Assim eu te escrevo para te demorares um pouco.

(in cartas a Sandra de Virgílio Ferreira, ed.Bertrand)

Ou, simplesmente, nada disto: o texto prossegue alegremente repetindo o esquema inicial adicionando episódios que exploram as características das personagens e das suas circunstâncias de modo previsível. Se o escrevinhador está contente, o editor feliz e os leitores maravilhados, é uma receita de sucesso.

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O lugar do meio

Uma dificuldade curiosa, mais frequente do que se julga, e que, provavelmente, só surpreende quem nunca tentou escrever uma estória de ‘longa duração’, é a do escrevinhador que consegue arrancar com a narrativa sabendo muito bem como a quer concluir, mas sente enormes dificuldades em preencher ‘o meio’.

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Ou seja, o escrevinhador tem delineado o tema, o enredo e o propósito, conhece as personagens e o seu contexto, sabe de antemão o remate final da estória…então, o que lhe falta?

Literalmente, falta-lhe algo para preencher o ‘espaço’ entre o início e o fim. Ou assim julga ele. Pode ser que o que já tenha seja a estória praticamente acabada, não fosse a sua ambição de a ampliar em mais algumas dezenas ou centenas de páginas.

Ou pode ser que tenha razão: o enredo não está suficientemente desenvolvido, a intriga perde substância se despachada de modo abreviado…mas não tinha dito que o escrevinhador já tinha estruturado o enredo?

Observa-se melhor este fenómeno quando lemos narrativas divididas em sequelas. Dentro do plano geral, a sequela apresenta a evolução num determinado sentido (que pode estar mais ou menos explícito ou ser absolutamente imprevisível), mas surgem novidades: personagens, ambientes, intrigas, factos. O peso que cada uma das ‘novidades’ tem no plano geral é variável: umas vezes são simples acidentes de percurso, outras vezes são importantes, senão decisivas, para o progresso da narrativa.

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As sequelas podem obedecer a um plano mais ou menos rigoroso, que as estrutura dum modo familiar ao leitor, e as ditas novidades tornam-se variações do tema que se arriscam a se tornar ‘mais do mesmo’, ou seja, a serem puro entretenimento já que nada acrescentam à intriga, limitando-se a somar episódios sobre episódios.

Ou as sequelas evoluem, conceptual e estilisticamente inclusive. Quando há evolução, provavelmente deve-se à já referida autonomia das personagens: alteradas as circunstâncias ao longo do tempo, tendo passado pelo que passou, cada personagem reage de modo imprevisto para o próprio escrevinhador.

Deste modo, as novidades que surgem em cada sequela são igualmente imprevisíveis no que implicam para o futuro dos acontecimentos. Até o plano da obra pode ser, senão irremediavelmente alterado, profundamente afectado.

Esta é a magia própria da criação literária e que tanto escrevinhador sente pulsar nas linhas acabadas de escrever: a estória é-lhe oferecida, as personagens determinam o seu destino, o tempo da narrativa é indeterminado, o escrevinhador é o primeiro a ser surpreendido pelo desfecho dos acontecimentos.

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Voltando ao problema inicial: quando o enredo está perfeitamente delineado, mas o escrevinhador sente que o tem de alongar com alguns conteúdos extra, talvez seja o modo da sua sensibilidade crítica o alertar para a brevidade, simplicidade, linearidade, do argumento.

Como se a bela musa lhe concedesse uma breve carícia na expectativa de ser seduzida pelo acto criativo do escrevinhador, a centelha de génio que irá libertar a narrativa do que quer que seja que a tolhe.

Sendo assim, a dificuldade tem mais do que uma resposta. Mas se o escrevinhador não a consegue encontrar, torna-se um problema de bloqueio.

E como já tivemos ocasião de ver, há uma dimensão extra-literária no bloqueio criativo que o escrevinhador deve resolver.

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Abertura e fluidez

Seja como forem a abertura, as primeiras páginas, o início do livro, o escrevinhador deve dar especial atenção à fluidez das ideias e das frases.

A proposta, de Judith Leyster (1631)

A proposta, de Judith Leyster (1631)

Com ‘fluidez’ pretendo dizer que a leitura se faça sem especial esforço, que o prazer de ler seja imediato, que o enredo e/ou o estilo da escrita cativem de algum modo.

Em tempos que já lá vão, era algo frequente começar por descrições detalhadas de ambientes e personagens, descrevendo verdadeiros quadros num apelo à composição visual. Porém, o risco de ser chato é enorme, como se pode verificar na maioria destes casos.

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Numa evolução que suponho devedora dos scripts para cinema, o mesmo detalhe descritivo se aplicou em ritmo dinâmico de acontecimentos mais ou menos interessantes ou intrigantes. Provavelmente, diminuiu-se o risco do tédio, mas este pode ter sido substituído pelo ‘arranque’ estereotipado que se vai repetindo em livros e autores diferentes.

Sem pretensão de ter receitas, abominando visceralmente as prédicas e sabendo que em literatura tudo vale (e nada é garantido), direi que o condimento mais discreto é o que faz a diferença: a qualidade literária da escrita.

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‘Estou escrevendo um livro…já terminei a numeração das páginas’.

Quando esta existe, o livro pode prometer falar sobre alhos e o escrevinhador estender-se longamente sobre bugalhos, que a coisa até pode ser que resulte bem. Mas lá está! os riscos estão sempre presentes.

Se há muito de intuitivo na escrita, não deixa de ser fundamental a revisão crítica da parte do próprio escrevinhador: o apuro da sintaxe ou a riqueza do vocabulário condicionam a expressão das ideias e da sensibilidade, alteram a relação de forças entre ambas, podem se tornar a assinatura do escrevinhador.

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AULAS DE ESCRITA                                                                                             Professora: ‘Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta. ‘

 

 

O escrevinhador à caça do leitor

Tem todo o sentido a preocupação do escrevinhador ‘agarrar’ o leitor nas primeiras linhas ou primeiras páginas.

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Pode ser uma arte, pode ser uma técnica, ou ambas. Para quem lê, não é indiferente concluir que todo um aparato técnico-literário foi montado para o frustrar no fim da leitura (pior ainda se for antes…). Ou numa segunda leitura, que é a prova de fogo de qualquer texto.

Ou, em alternativa, se foi ‘caçado’ pelas artes da inteligência, sedução e elegância  e é com emoção que termina a segunda leitura (e seguintes). Para então concluir que só um leitor com aquelas qualidades pode ser assim cativo pelo texto. Escrevinhadores que reforçam a auto-estima dos leitores são, geralmente, recompensados por uma justa fama (isso do proveito já é toda uma outra estória…).

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A estória pode arrancar em velocidade, trazendo situações, factos e personagens rapidamente para o desenvolvimento da intriga. Deste modo, o leitor desenvolve um interesse imediato pelas consequências do que se está a passar/a ler.

Ou ganhar velocidade pouco-a-pouco, depois da apresentação do contexto em que se irá desenvolver o enredo.

Também pode manter o mesmo ritmo, do início ao fim, como que hipnotizando o leitor numa certa toada. Esta é, das três, a estratégia mais arriscada, mais difícil e, eventualmente, mais sedutora. Suponho que exige um excepcional domínio da linguagem, da construção da frase, do tempo. Associo-a à música, talvez por ter mais facilmente características poéticas. O risco está em se perder nesse prazer estético e descurar a missão prioritária da narrativa: contar uma estória.

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FINALMENTE, A VERDADEIRA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:
Que se lixe isto, vamos pescar!

Modos de dar início à narrativa

O ‘princípio’ da narrativa não obriga, cronologicamente falando, a começar pelo início dos acontecimentos.

O escrevinhador pode aproveitar para apresentar o narrador da estória: alguém que vai rememorar os acontecimentos, e que, no princípio, preparará o ‘ambiente’, excitando a curiosidade do ouvinte e do leitor em conhecer os detalhes de algo que o narrador deixa suspenso.

Aqueles foram meus dias. (…) O senhor vá lá, verá. Os lugares sempre estão aí em si, para confirmar. (1)

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Pode dispensar o narrador e começar pelo fim, como acontece a propósito de alguém de quem nunca viremos a saber o nome, mas a quem acompanharemos da infância até à morte.

À volta da sepultura no cemitério desleixado, estavam alguns dos seus antigos colegas de Nova York, que recordavam a sua energia e originalidade (…) (2)

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desenho de Pawel Kuczynski

Ou pode ser pelo meio, por um dos muitos acidentes de percurso da estória, também como modo de excitar a curiosidade do leitor, e começar pelo início cronológico algumas linhas mais à frente.

Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota (…). (3)

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Pode, até, misturar nas mesmas linhas acontecimentos passados com intervalos de anos, numa narrativa que parece não ‘arrancar’, aparentemente circular, fluindo ao ritmo da memória.

Raimundo, o dos Casandulfes, pensa que Fabián Minguela passeia pela vida os nove sinais do filho-da-puta.

E quais são?

Tem paciência, lá os saberás pouco a pouco. (4)

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Lea Goldman ‘the story teller’

 

(1) in Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; ed. Nova Fronteira

(2) in Everyman, de Philip Roth; ed. Vintage Books

(3) in Cien años de soledad, de Gabriel Garcia Marquez; ed.Espasa Calpe

(4) in Mazurca para dos muertos, de Camilo José Cela; ed.Seix Barral

As fases da construção

Se houvesse uma regra de construção da narrativa, seria a de ter principio-meio-e-fim. Mas não necessariamente por esta ordem.

Podem ser citados bons livros que seguem esta ordem e bons livros que não a seguem, assim como existem muitos maus livros e livros assim-assim que tanto fazem duma maneira, como da outra.

Ou seja, a qualidade da escrita e do enredo não passa por aqui. O que passa é a ‘facilidade’ com que o escrevinhador organiza os materiais (tema, personagens, intriga) ao longo do desenvolvimento. Principalmente nas estórias longas.

-Onde vais buscar estas ideias?

-Onde vais buscar estas ideias?

Fico com a impressão de que o escrevinhador, frequentemente, paga o preço da (des)organização escrevendo uma estória em que se perde o fio à meada (o foco da atenção) acompanhada duma perca de qualidade (assumindo que esta existe) no tratamento dos detalhes (caracterização das personagens ou a coerência dos acontecimentos, por exemplo).

Nos gloriosos tempos em que os escrevinhadores produziam para satisfazer o ritmo da publicação em formato de folhetim, nos jornais, para pagar as despesas básicas de tabaco e álcool, é natural que muitos não tivessem tempo para grandes reflexões metodológicas e escreviam com paixão, furor.

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Mas mesmo os mais produtivos tinham o seu método mínimo, como Ponson du Terrail, que tinha bonequinhos  encima duma mesa para não confundir as personagens mortas ao longo da escrita das aventuras de Rocambole, com as que permaneciam vivas. Diz a lenda que, por vezes, ao limpar a casa, a empregada acrescentava ou retirava bonecos à mesa. Inadvertidamente, claro.

E que seria por essa razão que, ao longo das aventuras daquele herói, personagens desaparecem subitamente, e assim permanecem ao longo de vários capítulos sem explicação nenhuma, e outras reaparecem inopinadamente, apesar de terem sido mortas de modo público e notório.

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Rocambolesco, dir-se-ia noutros tempos.

A trilha e o horizonte

O enredo é um plano que o escrevinhador giza e depois irá desenvolver; é um mapa para orientação do escrevinhador, obrigando-o a rever se está no caminho certo ou se anda às voltas e precisa de perceber o que se passa; é uma estrutura à qual a narrativa adere e graças à qual torna-se articulada nas suas distintas partes, ganhando autonomia do próprio escrevinhador.

Pedi ao escrivão para chamar pelo meu irmão João, que, surpreendentemente (porque nunca havia tido irmãos), veio e me fez saber, pela benigna voz do médium, que não devia me preocupar com ele pois estava com Deus e que sempre rezava por mim. Tranquilizado com esta notícia, desinteressei-me pela sessão (…). (1)

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Você é um cidadão normal ou é dos que pensam?

Não é definitivo nunca: a morte da personagem X na conclusão da narrativa pode, afinal, ser mesmo evitada  ou deixada no limbo da ambiguidade…e porquê? Será que o escrevinhador se condoeu da pobrezinha? Ou descobriu-lhe um potencial até então desconhecido? Como todos os planos, o enredo sempre pode ser alterado e o leitor nunca o suspeitará, não pelo livro que tem entre mãos.

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Na realidade, o escrevinhador vê no enredo um horizonte para o qual caminha, mas sente-se livre de se desviar ou de seguir mais além ainda. Como mapa, é igual a todos os mapas: quando o escrevinhador pisa o terreno, penando pelo esforço ou entusiasmado com o que o enredo não revelara, tanto pode ser picado pelo bicho venenoso que extingue a inspiração, como ser beijado pela musa uma e outra vez.

Como aconteceu com todos os meus romances anteriores, de cada vez que pego neste, tenho de voltar à primeira linha, releio e emendo, emendo e releio, com uma exigência intratável que se modera na continuação. (2)

-Algém que eu julgava perdido nas minhas recordações veio me dizer que estava no mau caminho...

-…Alguém que eu julgava perdido nas minhas recordações veio me dizer que estava no mau caminho…   -Ah…ao menos esse alguém te entendeu bem…

Assim, torna-se também uma estrutura adaptável, modulada, e necessariamente frágil. Pode acontecer que o enredo, desde o início, aponte para um determinado fim (embora o leitor não o tenha de saber) e o próprio escrevinhador entenda que alterá-lo desvirtua o sentido da obra: é o que o Coro das antigas tragédias insiste em no-lo recordar. Mas a liberdade criativa permite-o, a estrutura é que deverá sofrer alterações e o resultado já não será o mesmo.

Não gosto do que acabo de escrever—mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E eu respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.(3)

Se o escrevinhador respeitar o enredo, provavelmente será assaltado por muitas dúvidas…mas esse é um bom sinal. É a prova de que as estórias no interior do enredo, assim como as personagens, têm autonomia própria e impõe sua lógica, sua dinâmica.

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Resta saber se o escrevinhador tem pulso para lidar com essas estórias e personagens, sem se perder na complexa trama do enredo.

Esta história que me propus escrever é ainda mais difícil do que eu pensava.(…) A arte de escrever histórias está no saber tirar das pequenas coisas, que se apanham na vida, todo o resto; mas acabada a página retorna-se à vida e apercebemo-nos de que o que sabíamos era o mesmo que nada. (4)

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(1) in La Tia Julia y el Escribidor, de Mario Vargas Llosa, ed. Seix Barral

(2) in Cadernos de Lanzarote, de José Saramago, ed.Caminho

(3) in Água Viva de Clarice Lispector, ed.Nova Fronteira

(4) in O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino, trad.Fernanda Ribeiro, ed.Teorema

A janela aberta

Construído o enredo, ao escrevinhador colocam-se questões básicas: necessita de fazer trabalho de investigação, estudos, entrevistas com pessoas reais, deslocar-se a lugares, experimentar por si mesmo outras vivências?

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Ao contrário do académico, do jornalista ou de outros escrevinhadores que assumem a ligação com a realidade como base dos seus trabalhos, o escrevinhador de ficções não precisa de sair da cama para começar e acabar o que quer que seja.

Mas todo o trabalho prévio, nem que seja o da simples leitura, pode consolidar a verosimilhança do enredo (factos, personagens, modos de falar e de estar, etc), como pode reforçar a inspiração e o alento do processo criativo.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita literária.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita criativa.

Além disso, trata-se duma abertura para o mundo: o escrevinhador viaja, conhece novas terras, nova gente, ouve histórias e regista expressões, toma nota de ideias e sugestões, podendo fazer tudo isto e ir escrevendo, ao mesmo tempo, o que tem estruturado no enredo.

Edward Hopper: Rooms by the sea 1951

Edward Hopper: Rooms by the sea 1951

Hoje em dia, mais do que em qualquer outra época, é possível realizar este trabalho sem sair de casa.

Saindo ou não, pode ser motivo de grande prazer e modo de atenuar vícios duma escrita autocentrada, duma experiência de vida necessariamente limitada pelo preconceito, dos erros assimilados e inconscientes…enfim, as consequências de atribuirmos demasiada relevância ao nosso umbigo ou às nossas dores.

E, como resultado final, pode ser a diferença que o leitor encontra numa estória e nas personagens que ‘respiram’ autenticidade e outra estória e suas personagens em que tudo lhe parece postiço, sem densidade ou paixão.

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Se depois o leitor vier a saber que o escrevinhador nunca esteve naqueles lugares (e que, talvez por isso mesmo, não corresponde o escrito com a realidade), ou que se inspirou em pessoas que nunca conheceu (e episódios de suas vidas) para construir as personagens, para em seguida distorcer uns e outros, talvez o leitor fique triste e desiludido por tudo aquilo que o fascinou não existir, nem ter existido nunca…mas o fascínio pela estória perdurará, e não é essa a nossa grande vaidade e ambição, ó escrevinhadores?

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Endurance e fitness para o exercício literário

O escrevinhador deve ter o enredo à frente dos olhos quando sarrabisca ou digita obra de maior fôlego. O conto ou o poema tem outras exigências, mas o romance, ou novela, é como uma maratona: mesmo conhecendo o percurso, há que dosear o esforço com inteligência e preparar-se para surpresas.

‘O author trabalha desde antes de hontem no encadeamento lógico e ideologico dos dezesete tomos de reconstrucção, e já tem promptos dez volumes para a publicidade.’

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O enredo estruturado numa só folha de papel, capítulo a capítulo, ou por partes, não é um esquema rígido, mas mantém o rumo e assinala desvios.

Só de olhar para o esquema, o escrevinhador antecipa opções imprevistas duma personagem, a necessidade de surgir ‘alguém’ ou ‘algo’ para que se dê certo impulso (ou se dê certa volta) ao ritmo, ao rumo, à retórica.

‘Os capítulos inclusos n’este volume são preludios, uma symphonia offenbachiana, a gaita e o berimbau, da abertura de uma grande charivari de trompões fortes bramindo pelas suas guelas concavas, metálicas.’

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Relativamente a esta última, o escrevinhador pode sentir-se confuso a seu próprio respeito: umas vezes só lhe saem diálogos, outras vezes longas narrativas, vezes em que os textos são curtos, incisivos, outros nem disfarçam o prazer de divagar…

Que isso não seja motivo de preocupação: posteriormente fará opções, ajustes, correções.

Mas é necessario a quem reedifica a sociedade saber primeiro se ella quer ser desabada a pontapés de estylo para depois ser reedificada com adjectivos pomposos e adverbios rutilantes.’

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AVISO: A vida não é justa

Importante é perceber se o desenvolvimento do enredo progride, se o que ‘está para a frente’ é uma força centrípeta ou se é miragem. Durante a semana que vem tentarei explicar-me melhor a este respeito.

‘É o que se faz nas folhas preliminares d’esta obra violenta, de combate, destinada a entrar pelos corações dentro e a sahir pelas merciarias fora.’

 

nota: todas as citações em itálico foram retiradas da ‘Advertência’ de Camilo Castelo Branco, na 1ª edição de Eusébio Macário (1879), ed.Livraria Chardron.

Tecendo o enredo

Entendo que a prioridade do escrevinhador seja desenvolver a ideia de modo extenso e conclusivo, e o que produzir será, com toda a probabilidade, o esboço a partir do qual trabalhará.

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Não deve deixar o censor interno pronunciar-se nesta fase, pois tudo o que escrever não se destina a publicação, nem à leitura por pessoas amigas, eventualmente.

Se se deparar com um impasse e não encontra solução, salte para uma outra linha de desenvolvimento e deixe para trás os problemas (mais tarde irá se concentrar exclusivamente neles).

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Aliás, os detalhes são só para tratar numa fase posterior. O que importa é estruturar de modo a detectar as incongruências, as implicações, as alternativas, pois a fase da formação do enredo torna-se a primeira grande dificuldade do acto da escrita.

Essa dificuldade assenta na transposição para o texto de uma ou de várias ideias, as quais tendem a parecer melhores enquanto não ganham corpo escrito. Quando ganham, tanto podem revelar-se banais, como exigirem muito mais do que o escrevinhador sente ser capaz.

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Duma ou de outra maneira, o escrevinhador arrisca-se a tropeçar nos próprios dedos e cair no abismo do bloqueio criativo.

Por precaução, o escrevinhador deve prosseguir em frente deixando para trás o que terá para resolver depois.

A vantagem é que no desenvolvimento podem surgir respostas e soluções às dúvidas sobre determinada sequência. Caso não surjam, também pode o escrevinhador avaliar a pertinência narrativa desta ou daquela passagem, desta ou daquela situação e assim por diante.

Com o enredo estruturado e desenvolvido, o trabalho formal criativo  começa.

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Nem poesia, nem ficção.

Escrever como quem dá a conhecer algo ou como quem trata ‘à sua maneira’ algo bem conhecido, sem pretensões literárias, sem ficção, mas também sem pretensões académicas, muito menos científicas, é uma tarefa a que muito escrevinhador se dedica por paixão, sentido de dever ou, simplesmente, para ocupar o tempo e fazer algo útil.

É um domínio que não tem limites, encontrando-se géneros que tanto raiam o delírio, como géneros que detalham técnicas e procedimentos práticos, e uma grande maioria que lida com os mais variados assuntos de modo amador, desajeitado e cheio de boa-vontade.

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Dos que mais aprecio são já de outro tempo, obras magrinhas ou enciclopédicas de padres de aldeia que se dedicavam a fazer o levantamento das curiosidades, costumes, lendas e história da região onde viviam.

Hoje em dia, havendo tantos estudos especializados sobre (quase) tudo, o trabalho do amador tem de ser mais exigente consigo mesmo se quiser evitar o embaraço de ser facilmente desmentido ou sofrer do ridículo puro e simples (isto na presunção do escrito ser cotejado por algum leitor crítico).

Dou um exemplo comum, inofensivo, mas revelador da solidez de certos ‘estudos’: a etimologia do nome duma terra dando como explicação a estória popular em que alguém (muitas vezes um rei), certa vez (muito, muito tempo atrás) e naquele lugar, diz qualquer coisa e do dito (mais ou menos literal) passa a ser conhecida a terra. Trata-se duma curiosidade, duma tradição, mas daí ao escrevinhador assumir que seja ‘a’ origem do nome da terra é duma grande ingenuidade, para não dizer mais.

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Frequentemente, um livro interessante é prejudicado por detalhes pouco relevantes para o assunto, é certo, mas que revelam precipitação, talvez pouca familiaridade com algo que o escrevinhador ‘traz’ para a obra (e mesmo assim traz, desastradamente). Podem ser curtas (des)informações geográficas, históricas, e não me refiro a simples trocas de datas ou nomes.

Fica mais complicado quando o escrevinhador se dedica a um tema sem verdadeiramente o abarcar, exibindo um à vontade constrangedor. Provavelmente, a sua relação com o tema é pessoal, real, afectiva, por isso mesmo fragmentária e parcial. No contexto duma obra de memórias, autobiográfica, será um testemunho válido, mas se tiver um propósito mais amplo, torna-se mistificador.

Se entrarmos na área dos escritos mais políticos, filosóficos, esotéricos, então os riscos aumentam assustadoramente por falta de fontes fidedignas, de bibliografia, de ‘conhecimentos mínimos’, de adequação da escrita para expressar ideias complexas, de simples bom senso e prudência.

"As suas gravações são intrigantes

“As suas gravações são intrigantes, mas ainda não são suficientes para provar que eles existem.”

E para não ser mal-interpretado, saliento que o que está ‘em jogo’ não é o tema, mas a sua formulação, o seu enquadramento e desenvolvimento.

Também se pode acrescentar que é possível, e desejável, que estes escritos tenham um nível de expressão literário. ‘Literatura’ não é só poesia e prosa de ficção, como se pode constatar na obra de Fernão Lopes, António Vieira ou Francisco Manuel Alves (o famoso Abade de Baçal) .

 

 

 

 

A propósito de métricas e rimas

Tempos houve em que a expressão poética era avaliada tecnicamente pelo respeito às formas e convenções da época, do meio, da crítica. Na poesia, como em todas as formas de expressão artística, aliás.

Obviamente, a inovação rompia com as regras e acabava por ‘impor’ as suas, não por decisão superior, mas por mera adesão. Veja-se o ‘caso’do poeta Bonagiunta Orbicciani ao cruzar-se com Dante na passagem deste pelo Purgatório (Canto XXIV): não só o distingue como aquele que ‘soube pôr cá fora as novas rimas’, como reconhece ter o ‘doce estilo novo‘ de Dante se libertado do ‘ que o estilo precedente obrigava.

Não menos óbvio, a dominância de um estilo, a mediocridade da maioria dos seus seguidores, a tendência ao mandarinato de uns tantos deles, tudo contribui para converter a novidade em algum tipo de formalismo a ser ultrapassado, mais tarde, por outro ciclo criador.

“-Rápido: une o sujeito ao predicado.” “-Eu…! ” E como resultado da sintaxe experimental da Susana…

Porém, as convenções não são o problema, mas o seu uso ostensivo e sem graça, sem arte, como se aplicação das duas dúzias de regras seja garantia de qualidade. Toda a História da Literatura está cheia de polémicas a este respeito.

Por vezes, estilos datados são recuperados por poetas que lhes dão novo alento, tanto no conteúdo como na forma. Vejam-se os sonetos.

Mas o que caracteriza as Artes em geral, nos últimos duzentos anos, é a reivindicação da liberdade frente a toda a exigência formal (e temática, já agora).

-Acreditas no amor incondicional? -Depende.

-Acreditas no amor incondicional?
-Depende.

O que, na poesia, pode ser expresso pelos versos sem rima, sem métrica, por exemplo. E são melhores por essa razão? Claro que não, e nem se pode dizer que sejam melhores. A questão não é essa.

Vivemos, ao contrário de outras épocas, um período especialmente rico em ‘experimentalismos’, sem sujeição a convenções que abafem a subjectividade do escrevinhador. O que não quer dizer que seja mais fácil publicar (até é, mas por razões meramente técnicas), nem que se deva dispensar a crítica literária impiedosa (pelo contrário, está a fazer mais falta do que nunca!).

Pessoalmente, não valorizo muito a métrica (por total incapacidade de ser metódico e ordenado, na verdade), nem a rima, apesar de, se quiser perceber a razão pela qual certo poema soa tão bem, muitas vezes confirmo que é (ou também é) pelo uso discreto e eficaz de uma ou da outra.

"A prosa dele é tão musculada"

“A prosa dele é tão musculada.”

Quando o escrevinhador se sente confiante em usar ou dispensar algum tipo de regra, deve fazê-lo ciente de que o faz. E a razão por que o faz. No meu caso, parece-me ser pela sonoridade, ritmo, o que tem a ver com a acentuação (que pode implicar uma métrica) e, eventualmente, com a rima. Mas faço-o ‘de ouvido’, sem preocupações formais de corresponder a um modelo.

"Se não acreditares em ti, quem acreditará?"

“Se não acreditares em ti, quem acreditará?”

A verdade, verdadinha, é que sempre fui um péssimo aluno a matemática e sempre entendi a gramática como a matemática da língua. Como poderia eu dar-me bem com sistemas métricos ou outros? Ou seja, a ser problema é problema meu, daí não servir de exemplo.

 

 

Escrever como quem amordaça a emoção?!

O último post suscitou algumas dúvidas por parte de leitores, que sintetizo deste modo:

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—para quê tanta ênfase contra a emoção-espontaneidade, se é esta que alimenta a veia poética?

—qual é a recomendação que faço, afinal, a propósito da utilização da métrica e das rimas?

—se quando digo que o “pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica” são indispensáveis, não estou a propor uma qualquer ‘escola’ ou corrente poética, já que a mente crítica pode ser entendida de um modo que contradiz o sentimento ingénuo, o impulso, a própria paixão?

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-Quando é que lá chegamos?     viagem em família para a Iluminação

Reconheço-me sempre devedor de quem se presta a ler e reflectir sobre os textos aqui publicados, mais ainda quando alguém se incomoda em dar-lhes réplica. A primeira questão creio que foi respondida ao longo de vários posts publicados em diferentes alturas, a terceira até um certo ponto também, mas a segunda não de todo.

Durante a próxima semana tentarei esclarecer o melhor possível o que penso em relação às três questões.

Porém, tenho de reconhecer ser sempre complicado este tipo de considerações sem referência às leituras de uns ou de outros e aos escritos deles mesmos.

La lectora, de Federico Faruffini.

A leitora, de Federico Faruffini.

 

Aos leitores que levantaram estas questões, perguntei o que andam a ler, o que andam a escrever, e isso por duas grandes razões: a primeira, porque é mais fácil esclarecer uma dica, um tópico, fazendo referência a poemas, neste caso, e autores (daí, muitas vezes citar trechos de autores conhecidos); a segunda, analisando a produção escrita do próprio, posso exemplificar melhor o que pretendo dizer.

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Para lá dos ‘estados de espírito’

Muitas vezes, o trabalho poético do escrevinhador  assenta na crença de que a verdade dos estados de espírito será suficiente para garantir ‘a alma’ do poema, enquanto que a aplicação duma qualquer métrica e sistemas de rimas bastará para a estrutura…e depois há um vocábulo, uma imagem, um efeito que podem ser acrescentados em revisões seguintes. Poderá também dispensar métrica e rima, sempre confiante na inspiração que o domina.

Se a emoção dominar a composição, reforça o risco do excesso, tanto na linguagem, como nas ideias, sem com isso dizer que se torna profundo ou complexo. Os sintomas mais evidentes são a perda de musicalidade, ritmo, clareza, empastelando frases longas (e a divisão da frase nos diferentes versos não a encurta, evidentemente).

-Tudo bem,David.

-Oh,David. Toda a gente sabe que és estúpido. Não precisas de tentar ganhar o campeonato mundial.

Ou seja, há mais preocupação em dizer do que em compor. Mas não será um risco aceitável, o de versejar livremente ao sabor da emoção e do sentimento? Aliás, não será até a característica principal da poesia? A de ser espontânea e vinda do fundo do Ser (ou ‘ do ser’, conforme os gostos)?

Pois, pois…não houvesse tanta negligência por parte dos escrevinhadores-poetas, compondo sem critério, nem auto-crítica.

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Sendo possível o compromisso entre estrutura, emoção (ou sentimento) e critérios (sejam lá quais), o escrevinhador estará a aperfeiçoar a técnica dos futuros poemas. Assim, mais facilmente captará os momentos de inspiração num texto que seja, por sua vez, inspirador.

Passei a vida a amar e a esquecer…/Um sol a apagar-se e outro a acender/nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo/É igual a outro amor que vai surgindo,/Que há de partir também…nem eu sei quando… (1)

Pode ser que algumas obras-primas da poesia tenham sido escritas logo à primeira redacção, sem mais do que um ou outro acerto posterior. É possível e é de génio (mas dá muito trabalho). A acontecer, deve ser raro.

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A inspiração, emoção, sentimento, a louca da casa, são fundamentais, mas não dispensam o pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica. Quando combinados, a vida banal do escrevinhador ganha dimensão universal e a poesia, bem…a poesia torna-se força da natureza.

Eventualmente paso días enteros sangrando/(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra/exagerado e implacable como una mujer enamorada./(…)/

No alimentaré a nadie con mi cuerpo/para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo./

Por eso sangro y tengo cólicos/y me aprieto este vientre vacío/y trago pastillas hasta dormirme y olvidar/que me desangro en mi negación  (2)

Madonna (1895), de Edvar Munch

Madonna (1895), de Edvar Munch

 

(1) in Inconstância, do  Livro de Sóror Saudade de Florbela Espanca

(2) in Eventualmente paso días enteros sangrando, do livro Espejo negro de Miriam Reyes, DVD ediciones

Escrever como quem corre

Ao narrar acontecimentos ficcionais, o escrevinhador goza de todas as liberdades, inclusive a de violar a Lógica.

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A HEROÍNA QUE-NÃO-É-ÓRFàDO LIVRO DE CRIANÇAS.                                                                                                 Mago:’Sally tem de se juntar à nossa aventura. Só ela pode derrotar a rainha-bruxa de Mordax.                                                                                                                   Mãe de Sally:’Não antes dela comer os brócolos.’

O trabalho literário não está isento de juízos de valor, e apesar de não ter qualquer sentido a expressão gostos não se discutem, que é popular e aceite acriticamente, ninguém vai ao ponto de afirmar que livros não se discutem…bem, à excepção dos livros sagrados, claro.

Ora, o ‘pecado’ de alguns livros é o de criar expectativas (intriga, tensão), despachando-as rapidamente e de modo insatisfatório, penalizando os méritos que a obra eventualmente tenha. A pressa com que o escrevinhador resolve enigmas, dilemas, ambiguidades, e outras ‘zonas obscuras’ do enredo, pode lhe ser fatal.

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Há alguns anos saiu um livro com sucesso comercial e de autor bem conhecido, tendo como enredo a elucidação de um enigma histórico. Li com muito interesse, já que me pareceu uma boa resenha das diferentes teorias para resolver o tal enigma, todas com seus defensores eruditos e documentados.

Mas a intriga que liga o protagonista principal a essa investigação, a caracterização deste, as restantes personagens, a qualidade da escrita, são banais. E a parte que me interessou foi quase sempre despachada por diálogos extensos, didácticos, entre o investigador e especialistas. Ou seja, um tema interessante tratado de modo estereotipado, ‘fácil’.

Contudo, as expectativas que tinha foram satisfeitas, que eram a de perceber os ‘contornos’ do tal enigma, mas confesso que o destino das personagens e o desfecho da intriga não me empolgaram em nenhum momento.

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Publicações Livros Irrelevantes                                                 “Os teus livros vendem-se muito bem nas farmácias…logo a seguir aos comprimidos para dormir.”

Pior será quando o escrevinhador carece do apoio editorial para corrigir as falhas mais evidentes do enredo e do seu desenvolvimento, carecendo ainda de tempo, de resistência e de perspectiva crítica. Uma boa ideia, desenvolvida satisfatoriamente, pode ser comprometida por finais abruptos, às vezes sem sequer ‘despachar’ todas as pendências alimentadas ao longo da estória.

Se o escrevinhador opta pelo estereótipo porque entende que se enquadra numa boa estratégia de comunicação, como no tal livro que li, a coisa até funciona muito bem. Talvez deixe de funcionar ao longo dos anos, ao deixar de beneficiar da tal estratégia de comunicação (que envolve técnicas extra-literárias, essencialmente), e passe à categoria dos monos.

Mas se o escrevinhador não cumpre os ‘mínimos’, ou seja, se deixa o leitor suspenso no vazio, sem pistas, nem respostas ou mistérios profundos, arrisca-se a estragar um enredo promissor sem ter qualquer benefício.

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‘Olha, lamentamos muito. Se soubéssemos que ias te tornar numa escritora, seriamos melhores pais!’ cartaz: Encontro com o autor de ‘A minha vida miserável’

‘Para quê tanta pressa em dar por concluído um livro?’, perguntará legitimamente o leitor frustrado.

A resposta é, geralmente, muito simples: fadiga. O escrevinhador propôs-se correr a maratona e saiu da prova antes da meta.

 

A frase como objecto artesanal

Numa época de ‘edições de autor’ disfarçadas sob a etiqueta duma editora mercenária, o escrevinhador não tem apoio editorial que o poupe das vergonhas da publicação de erros de palmatória, gralhas e qualquer deficiência demasiado óbvia que é o que pressupõe o regular trabalho de edição.

Muito escrevinhador sente-se confiante para escrever frase a frase deixando fluir naturalmente as palavras, corrigindo a gramática ou o estilo de modo quase intuitivo, sem maior esforço do que o de quem trauteia um tema musical.

Suponho que este é o método ideal, pois liberta o escrevinhador das preocupações técnicas, dedicando-se ao desenvolvimento dos conteúdos. Na condição de, num segundo tempo, lidar com as questões formais de modo rigoroso e crítico.

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A maioria, porém, é tentada a escrever apesar das muitas inseguranças, demasiadas fragilidades, óbvias lacunas. E sem ter disso noção, aparentemente.

Também nestes casos parece-me recomendável que as preocupações formais assumam destaque depois da produção de texto, e por todas as razões.

À cautela, o escrevinhador menos confiante deve estimular em si a capacidade de escrever de modo articulado, ou seja, usando palavras de que conheça o sentido e sem pretensão de ostentação, evitando frases longas onde o sentido se perca ou, pelo menos, perca clareza.

E ao ler e reler o escrito, que o escrevinhador apure ‘o ouvido’ para as expressões familiares, especialmente aquelas que neste blog chamo ‘estereótipos’, ‘bengalas’, ‘lugar-comum’: expressões que podem ser usadas num diálogo, mas a serem evitadas a todo o custo fora de contextos muito específicos.

-Aestereotipada?chas que sou

-Achas que sou um estereótipo?

O perigo, já o disse, é o da banalização. Sem cair no exagero oposto de usar fórmulas anacrónicas que tornem o texto uma caricatura pedante, ilegível, incompreensível.

Por vários motivos, a adjectivação pode tornar-se um tique, um excesso, uma praga. Escrever que ‘depois daquela maravilhosa noite, acordou com um sol magnífico, sentindo-se enérgico e confiante, e sabia que aquele seria um dia fantástico e pleno de acções decisivas para o projecto grandioso etc, etc‘ é mais revelador de um estado de espírito do que uma abordagem literária propriamente dita.

Ou seja, no tal segundo tempo, o escrevinhador pode cortar à adjectivação, reformulando a frase e, de acordo com os seus propósitos, desenvolver um olhar irónico, uma perspectiva ácida, um tom divertido: qualquer coisa que distancie a narração e o narrador das emoções que a personagem, ingenuamente ou não, experimenta ao despertar.

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“Eu era uma rapariga simples do campo com dezasseis anos quando fugi da quinta do meu tio…….”

Claro, pode fazer o contrário, reforçando a ‘vertigem’ da narração ser conduzida pelos delírios da personagem, assumir uma escrita confessional ‘à flor da pele’, ‘em carne viva’. E pode ser que resulte bem. Mas correrá ainda melhor se for parcimonioso na adjectivação.

Forma e Conteúdo

Estruturar a obra por partes permite ao escrevinhador observar quebras de qualidade, de ritmo, de interesse, de foco.

Argumentista de Cinema

Argumentista de Cinema

 

Ou seja, auxilia-o a avaliar as partes na sua relação com o todo, podendo assim eliminar um capítulo que está a mais (ou acrescentar mais um), mudar sua inserção uns tantos capítulos mais adiante ou mais atrás, confirmando se cumpre com as expectativas da narrativa ou se as compromete, etc.

Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade.

Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor.

Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem… *

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Esta divisão não tem de ser assumida de modo evidente e gráfico: capítulo I, capítulo II e segs.. Pode até ser ‘baralhada’ pelo escrevinhador na fase final da escrita, alterando cronologias, sequências, obtendo efeitos como o trair as expectativas iniciais do leitor e surpreendê-lo.

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim,
isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. *

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“Estou escrevendo o meu obituário, mas com um truque: eu engano a morte no último minuto.”

Conforme já algures por aqui sugeri, depois do árduo e longo processo de escrever uma estória (ou um livro de poemas, já agora), o escrevinhador pode considerar, mais tranquilamente, mudanças formais.

Meu caro crítico,
(…) O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo. *

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-Ok…então todos concordamos que isto tudo é por minha causa!                                                             A VITÓRIA DO EGOCENTRISMO

 

Essas alterações podem fazer a diferença, permitindo a liberdade e ousadia de lidar com um tema eventualmente banal, chocante, aborrecido, desagradável, absolutamente desinteressante, absurdo ou ridículo, e tratá-lo de forma original.

(…) ao contrário de uma velha fórmula absurda, não é a letra que mata; a letra dá vida; o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação, e conseguintemente de luta e de morte. *

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* in Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

 

 

 

Engenharia literária

Seja uma obra em verso, seja em prosa, o escrevinhador pode dividi-la em secções para benefício da clareza, da unidade/diversidade interna, da dinâmica da leitura, por qualquer outra razão que entenda válida. Bem entendido, pode não fazer nada disso.

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A divisão por capítulos, livros, partes, reforça a intenção que engloba o todo, eventualmente o propósito, o tema, o estilo e/ou o enredo, estruturando-os de modo a obter um efeito.

Ou, para respeitar o óbvio conforme Aristóteles: ‘ O todo é o que tem principio, meio e fim. Um início é aquilo que não é necessariamente depois de outra coisa e tem naturalmente algo a seguir; um fim é aquilo que é naturalmente depois de alguma coisa, como consequência necessária ou habitual, e sem mais nada a seguir; e o meio é aquilo que está naturalmente a seguir a qualquer coisa e tem também outra a seguir.’ (in Arte Poética)

"Mas não nos tinha ensinado de que o todo é maior do que a soma das partes?"

“Mas não nos tinha ensinado de que ‘o todo é maior do que a soma das partes’?”

Tendo isto em mente, o escrevinhador tanto pode começar a meio da estória, como pelo próprio fim: em Todo-o-mundo, Philip Roth apresenta-nos uma narrativa biográfica que começa pelo funeral da principal personagem e termina com ela a morrer.

Entre outros méritos, a meu ver, está o trabalho do escrevinhador ao regular a tensão ao longo do texto: aqui mais tenso, ali menos, muito mais lá para a frente, muito menos a seguir, e assim por diante. Sobre a ‘tensão’ já me expliquei aqui.

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Conforme o leitor habitual deste blog já terá reparado, para cada regra existem exemplos que revelam a arbitrariedade das regras: vale tudo.

A ausência das divisões, a dinâmica aparentemente circular da narrativa que parece não evoluir , assim abafando a tensão, também funcionam muito bem: Mazurca para dois mortos, de  Camilo José Cela, é um expoente dessa técnica. Porém, exige maior disponibilidade do leitor…

 

Elogio à prolixidade

Há quem escreva com tanta atenção ao detalhe que perde o fio da narrativa, secundarizando-a; talvez porque o instante seja decisivo, talvez porque o enredo tenha mais a ver com o sentimento, a emoção, a percepção, do que com a ilusão do tempo progredindo de acontecimento para acontecimento.

Ao Pepe lhe agrada muito dizer frases lapidárias nos momentos de mau humor. Depois vai-se distraindo pouco a pouco e acaba por esquecer tudo.

Duas crianças de quatro ou cinco anos jogam aborrecidamente, sem nenhum entusiasmo, aos comboios entre as mesas. (…)

Pepe observa-os e diz-lhes: —Ainda ides cair…

Pepe fala o castelhano, ainda que leve já quase meio século em Castela, traduzindo directamente do galego. (1)

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Também há quem desenvolva tantos relatos paralelos ao enredo que o submerge; talvez por força do efeito caleidoscópico das diversas dimensões de uma vida, de uma sociedade, de um tempo, recusando comprimi-las, ou anulá-las, numa perspectiva reducionista.

Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado, mas não bem explicado. Viste que eu pedi (capítulo CX) a um professor de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Matacavalos. Em si, a matéria é chocha, e não vale a pena de um capítulo, quanto mais dois; mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, senão agradáveis. Expliquemos o explicado. (2)

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Quem, ainda, utilize muitos e variadíssimos vocábulos (insólitos até) com suas derivações e efeitos bombásticos, em longas e coloridas formulações frásicas a ponto dos aspectos formais da escrita ganharem preponderância sobre os conteúdos; talvez por assim exprimir as características da oralidade, ou para caracterizar cada personagem nas suas relações e desenvolvimentos.

Com o vezo e a experiência e porque ladrãozinho de agulheta sobe sempre a barjuleta, o João Bispo deitou o pé mais longe. A vizinhança começou a queixar-se de sumiços sobre sumiços, ovos que desapareciam do ninho ainda a pita poedeira a repenicar, queijos frescos da francela e até broa dos açafates. Foi cão, foi gato, foi doninha, e o João Bispo com o odre à ufa. (3)

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-Dêem as boas vindas ao Bert Phelps. Ele será o responsável pela segurança de toda a divisão de produtos de capoeira.

E tudo isso pode resultar bem, pois o propósito literário tanto pode ser o de contar mais uma estória, como o de contar de certa maneira.

Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionadas, o que se pretende é tão-só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios de vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria. (4)

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O fluxo do texto ininterrupto, encadeando personagens, acontecimentos, reflexões, ambientes, torna-se hipnótico, sedutor, e tanto mais sensual  quando bem escrito e levando o leitor a saborear a sonoridade das frases, a experimentar o dobrar da língua ao enrolar a sílaba.

E dissessem o que bem lhes aprouvesse, ele era que não ia se incomodar, como não se incomodou com o olhar de Lindaura de Jacinto, quando entrou na quitanda do marido dela e pediu uma botija—uma botija, não, um botijão— de cachaça, suor de alambique mesmo, coisa de fazer o bafo do bebedor pegar fogo na hora de acender o charuto, coisa de macho mesmo. (5)

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Repetindo a conclusão do post anterior, apesar de me referir a coisa completamente diversa, não é à toa que se associam as noções de conciso, insípido (pobre), desapaixonado: as palavras não são gratuitas, nem a escrita é um mero registo.

(1) in La Colmena de Camilo José Cela

(2) in Dom Casmurro de Machado de Assis ed.Europa-América

(3) in Terras do Demo de Aquilino Ribeiro ed.Bertrand

(4) in O Evangelho segundo Jesus Cristo de José Saramago ed.Caminho

(5) in Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro ed.Dom Quixote

Elogio à simplicidade

As frases curtas, o texto sóbrio, o estilo discreto, mas aguçado, são opções do escrevinhador ou reflexo do seu modo de ser? Questão ociosa, mas pertinente.

-Tentem ver as coisas do meu ponto de vista.

-Tentem ver as coisas do meu ponto de vista.

A frase curta pode ter o efeito hipnótico dos aforismos, essa modalidade de saber popular ou erudito, e que brilha na formulação acutilante ou vaga, porém igualmente iluminadora, tanto para o intelecto, como para o sentimento.

— A verdade—dizia Zita— é só esta. Não me podes ocultar que me desprezas a ponto de não acreditar nas coisas que te lisonjeariam. Não fazes essa vida miserável senão para vexar a minha condição; e és tão refinado que quase tenho que admirar a escolha de atitude que tu fazes. Deve ser agradável poder envergonhar assim alguém. (1)

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Também é eficaz na descrição, seja de estados de alma, seja da alma de certos ambientes ou situações. Além de poderem ser alinhadas de modo a suscitarem um efeito cinético, como o de arrastamento. Ou a queda e o seu oposto.

Contra o seu próprio feitio, ela brilhou. Ele recorda-se ter-lhe dito, “Não consigo viver sem ti”, e Phoebe responder, “Nunca ninguém me falou assim antes,” e ele reconhecendo, “Nunca antes o havia dito.”

O Verão de 1967. Ela tinha vinte e seis anos. (2)

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Já a sobriedade do texto advirá de uma exigência da frase curta, por economia óbvia, mas pode decorrer da necessidade de centrar a atenção no essencial, sem distracções, sem perda do vigor da frase.

Devias arranjar um homem para te casares logo, sem esperar mais. Daqui a pouco será tarde, e não vais querer que isso aconteça. Não vais a lado nenhum  cirandando à volta do Lov como tens feito, não o poderás ter dessa maneira. Ele já está casado. São os homens solteiros que tens de correr para apanhar. (3)

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Quanto ao estilo, a discrição torna-se apelativa sempre que o conteúdo e o ritmo apelem à compreensão de assuntos e sequências (de factos, acontecimentos, raciocínios) de alguma complexidade.

(..) A sua conclusão é a de que o assassino deverá matá-lo agora a ele. No dia e hora calculados, o homem vai ao lugar onde deve ser cometido o quarto assassinato e espera pelo assassino. Mas o assassino não chega. Revê as suas deduções: podia ter calculado mal o lugar: não, o lugar está bem; podia ter calculado mal a hora: não, a hora está bem. A conclusão é horrorosa: o assassino  já deve estar no lugar. Por outras palavras: o assassino é ele mesmo, que cometeu os outros crimes em estado de inconsciência. O detective e o assassino são a mesma pessoa. (4)

"Boas notícias. Os testes revelaram que se trata duma metáfora."

“Boas notícias. Os testes revelaram que se trata duma metáfora.”

Não é à toa que se associam as noções de palavroso, embrulhado (enrolado), fala-barato: as palavras não são gratuitas, nem a escrita é um mero registo.

(1) in A Muralha de Agustina Bessa Luís, ed.Guimarães Editores

(2) in Everyman de Philip Roth

(3) in Tobacco Road de Erskine Caldwell

(4) in El Tunel de Ernesto Sábato

Questões de gosto e de modas

Se não tem compromissos editoriais, nem público-leitor a quem justificar fidelidades, por que há-de o escrevinhador se preocupar com o ‘sucesso’? Por que há-de angustiar-se com a ‘formatação’ daquilo que está escrevendo neste momento? 

Sou um autor de 'edições de autor' que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Sou um autor de ‘edições de autor’ que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Também aqui não existem respostas simples.

O ‘sucesso’ é uma aspiração legítima, um critério de valor, e a ‘formatação’ será o modo como os escritos estão estruturados num todo coerente e atraente do ponto de vista do leitor. 

O escrevinhador procura ‘a’ fórmula que resulte, aquela que vai de encontro às expectativas do leitor. Portanto, há que estar atento às tendências, aos gostos dominantes, ao que está na moda.

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Assumindo que os leitores valorizam menos o estilo e mais os conteúdos, por exemplo. Também se pode supor que o interesse pela estória será sempre maior quando o ritmo for rápido, as surpresas variadas e o desfecho imprevisto.

E, para facilitar a leitura e a compreensão ao leitor, evitam-se complicações estilísticas, caracterizações ambíguas, dilemas sem resposta evidente, referências extra-textuais, coisas assim que desafiam o entendimento e podem enfastiar o infeliz, levando-o a pousar o livro de forma definitiva e sem apelo.

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Os riscos duma tal abordagem são evidentes: se o enredo não estiver à altura das expectativas e/ou o ritmo ficar aquém da intensidade para ‘agarrar’ o leitor, o vazio literário torna-se óbvio.

Além disso, há sempre o risco de errar na premissa da fórmula: a de que o escrevinhador conhece os gostos, as tendências dominantes.

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Se fosse muito, mas muito crítico, diria que essas coisas a que chamam ‘tendências’, ‘gostos’ ou ‘moda’ são construções elaboradas, produzidas para servirem de orientação aos consumidores (e não é que o disse?!)

Talvez fosse melhor, por tudo isto,  que o escrevinhador novato nestas andanças não condicionasse a criatividade aos modelos estereotipados daquilo que possa julgar ser ‘o’ público-alvo. 

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O ritmo dos acontecimentos

O enredo pode exigir que os acontecimentos se sucedam com rapidez, numa sequência não-necessariamente-linear, empolgando o leitor a virar página atrás de página. Ou que assim seja em certos momentos. Tudo em prol do desenvolvimento duma estória rica em surpresas e mudanças.

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“20 de Abril: Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira (…) como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? (…) Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo “clássico” do “conto filosófico”, inserindo nele (…) personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada.” *

Ou, pelo contrário, o enredo segue um ritmo certinho como um relógio. E porquê? Talvez porque o tempo da narrativa seja circular, talvez porque os acontecimentos evoluam lentamente, talvez porque as personagens valorizem menos a acção, privilegiando as relações entre si.

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“21 de Junho: Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após a outra, até substituírem, por completo: as que têm visão podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.” *

Possivelmente, o escrevinhador é condicionado pela interacção das personagens e pelo horizonte da narrativa, ele próprio sendo surpreendido por decisões que lhe escapam, impostas pela lógica implacável do enredo, pelo temperamento de uma ou de várias personagens. Quando assim é, escrever torna-se uma aventura, uma descoberta, uma possessão demoníaca…enfim, uma paixão.

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“15 de Agosto: Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio (…). Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, (…) enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.” *

* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago, ed.Caminho

Método e improviso

O tempo e esforço dedicados ao plano da obra podem garantir, por paradoxal que pareça, a liberdade e espontaneidade ao longo da sua execução.

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Já aqui trouxe alguns exemplos de livros que podem sugerir, ao leitor mais apressado e impaciente, uma verdadeira cacofonia, desordem e ausência de um fio condutor.

Porém, são obras de um rigor tanto mais extraordinário quando, depois do leitor se aperceber da complexa organização do enredo, o confronta com a torrente de vozes, diálogos, frases soltas, pensamentos, à partes, estranhos vocábulos, tópicos e personagens que formam o texto e dão vida à estória.

O plano funciona como um mapa e bússola que liberta a atenção do escrevinhador para os detalhes, os efeitos sonoros, a recriação oral, as anedotas.

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No meio do caminho
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra”
Carlos Drummond de Andrade

Se o tema é fundamental, o modo como se conta a estória e os artifícios da escrita marcam a diferença entre autores que escrevem sobre o mesmo tema, por vezes a mesma estória com as mesmas personagens.

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Transbordando de amor

O Natal (um dos três temas fortes de Dezembro) é época em que os ‘bons sentimentos’ são extensíveis a toda a gente, de modo indiscriminado e despudorado.

No registo literário, a efusão de afectos para com o mundo exprime-se, na maioria das vezes, através de poemas e, menos frequentemente, por contos. Aparentemente, obras de maior fôlego devem sufocar o próprio escrevinhador, pois só tenho ideia de encontrá-las nas secções de ‘auto-ajuda’ ou ‘espiritualidades’ das melhores livrarias, secções que pertencem a um outro domínio que não o estritamente literário.

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Desde (quase) sempre existe literatura que aborda o tema do ‘amor’ visto sob as mais variadas perspectivas, mas aquela que trago aqui é relativamente recente: a expressão dum amor incondicional, impessoal (porque dirigido a todos e a tudo),que pode facilmente centrar-se no próprio escrevinhador e nas suas dores, anseios e desejo dum mundo melhor, através duma linguagem poética que abusa da adjectivação, das descrições e enumerações (‘listas de mercearia’, digo eu). Além dos chamados lugares-comuns, que são a forma mais banal de estereótipo e de valor literário nulo quando usados sem outro critério do que o do seu valor expressivo.

"T-Tempo para chorar

“T-Tempo para chorar…tempo para dizer adeus…tempo para…amar…m-morrer…!”

Com o acesso de um número maior de pessoas à categoria de ‘escrevinhadores’, graças ao ensino das letras e à redução dos custos de publicação, muitos fenómenos surgiram e este é um deles. No sec.XIX surgem como precursores na poesia, nas cartas (sim, já foram um género muito apreciado), em discursos (porque houve um tempo em que se imprimiam e distribuíam discursos de todo o tipo) e em outros géneros de pendor muito diverso que se limitavam a canalizar o ‘acrisolado’ amor a temas mais terra-a-terra como a ‘pátria’, ‘a nossa terra’ (neste caso, a ‘terrinha que nos viu nascer’), a ‘história’ (da pátria ou da terrinha) e outros tópicos em voga que inflamavam facilmente auditórios e leitores de jornais.

"Empatia? Sim, percebo como pode ser útil."

“Empatia? Sim, percebo como isso possa vir a ser útil.”

Daí a figura do poeta local, do escritor da terra, aqueles que ‘imortalizavam’ a pequena cidade, cantavam os rios e as fontes, descreviam com rica adjectivação as qualidades das gentes e a excelência dos produtos da região. Os conterrâneos agradecidos, emigrantes ou residentes, mesmo que analfabetos, sabiam alguns versos ou descrições sugestivas e o nome de quem os escreveu. Algum dia, mais tarde, uma praça, uma estátua, uma rotunda, seria dedicada à egrégia figura.

-

“-Eu adoro a sua poesia!”

A acrescentar a tudo isso, temos o fenómeno muito mais recente do amor sem objecto, nem limites, decorrente da anonimidade urbana e da proliferação de escrevinhadores com obra publicada. É assim como a necessidade de gritar alto, da janela da casa, toda a indignação contra o que está mal e com total simpatia pelo que é o Bom, o Justo e essas coisas aparentemente indiscutíveis.

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.'

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.’

Ora, devo reconhecer que ambos os fenómenos não são coisa que coloquem em perigo a ordem pública, mas geralmente têm uma função mais catártica do que literária, e é aí que me volto a repetir: cuidado com o excesso das emoções na construção dos textos.

"Liberdade é

“Liberdade é mais uma palavra para fazeres o que te mandam…”                                                 Fascistas dão em péssimos cantores populares.

Mesmo privilegiando os sentimentos, l’amour fou ou se transborde de amor sobre seus semelhantes, a natureza ou alguma das infinitas categorias do divino, o uso das imagens, o rigor na construção das frases, o domínio da composição geral são ainda mais importantes precisamente pela necessidade de equilibrar a emoção com algum sentido estético. Não se trata de menosprezar a inspiração, o impulso criativo, o tema ou o propósito, mas de garantir o compromisso necessário entre o que se pretende escrever e o modo como se escreve.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Fazendo de pequenas estórias uma grande história

Pequenas estórias podem ser justapostas até o tempo (e o enredo) as entrelaçar formando uma narrativa maior, muito mais complexa e apaixonante.

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Por exemplo, quando uma senhora de idade, viúva e só, espreita pelo óculo da porta e vê ‘(…) uma sombra. Como se estivesse a ponto de ir embora, como se não esperasse que alguém a abrisse [a porta]. O que pude ver foi um olho a meio da obscuridade e deu-me a impressão de ver um olho de cão triste. Talvez a abrisse por causa do olho, vejam vocês.

Essa senhora ainda não sabia na altura, mas relata-nos ela própria que aquele não foi um encontro banal: ‘O senhor de olho de cão triste, o dos olhos de cão triste -porque lhe vi os dois- e cara de mocho explicou-me coisas da alma que eu ignorava. Não podia dizer que fosse infeliz antes, porém aceitava as desgraças como uma consequência de ter vindo ao mundo. Agora vejo que a ignorância é uma maneira de ser feliz, não lhes parece?

Ora bem, se há quem saiba começar um relato e logo no início consegue dar-lhe uma espécie de conclusão e extrair-lhe significado, também há quem tenha de se esforçar para começar, fazendo disso questão: ‘Agora estou armando uma confusão, misturo tudo e não conto a minha estória. E hão-de sabê-la toda. Senão cansam-se de mim, e já começo a estar farta de gente que se canse de mim. Antes, quando não tinha recordações, tudo estava bem porque os velhos falavam e eu fingia escutá-los, mas quando me decidi a falar eu, as pessoas fogem-me e agora não sobe a casa nem o rapaz de Seu, porque diz que falo demais.

Neste caso, a palavra é a vela que permite à vida rumar para algum lado, mas também a âncora para que o passado se fixe e tenha, também, um sentido. Involuntariamente, porém, o uso da palavra pode ser vista como o hastear de bandeira pirata: arma reivindicativa, declaração de guerra (ou de princípios), acto de pilhagem (expressão de desejo)…

Daiquiri

Assim como há quem tenha necessidade de ter um ouvinte atento, capaz de o interromper no desfiar do monólogo quotidiano e matinal:

-Não compreendo bem isso que disse, senhor Duc.

–A que se refere?

 –A isso de que não gosta de gatos porque não os entende…

-A senhora sabe o que são os ciúmes, senhora Miralpeix?

 –Só os tive uma vez e não quero recorda-lo.

 –Pois é como uma ave de rapina que te vigia dia e noite. Algumas vezes dorme, outras vezes desperta e te rói por dentro. E a tua vontade de nada serve, não a podes deter.

 –E que têm que ver os gatos com os ciúmes?

 –É que, falando consigo, vêm-me à memória diversos acontecimentos. Aparentemente não têm relação, mas misturam-se dentro do meu cérebro. E não é que esses acontecimentos sejam cronológicos, antes me vêm sem ordem, nem conserto. Talvez seja por ter demasiadas horas livres, não sei. É má coisa, isso de não trabalhar. Antes via um gato e não lhe prestava atenção.

O relato tem uma função apaziguadora, é acerto de contas com a vida ou com algum facto passado. De qualquer forma, é uma tentativa de libertação e um acto de justificação.

-Este jogo de ligar os pontos não tem números -É para te ensinar que a vida não é justa

-Este jogo de ligar os pontos não tem números
-É para te ensinar que a vida não é justa

Há quem tendo igual necessidade de falar, falar, falar, não faça questão que o ouvinte participe, mas exija que esteja atento: ‘ (…) E nunca mais vim a sentir o que senti naquela noite de tempestade em que os raios feriam o céu. Só um sonho, uma quimera.

Mas, miúda, estás-me ouvindo ou adormeceste? Adormeceste, não é? E eu pago-te para que me escutes. E lembra-te disto: amanhã terás de me fazer a manicura.

Falar, divagar, efabular, como quem escreve um conto: a vida é sempre mais suportável quando se é capaz de sonhar ou de imaginar um enredo distinto.

Ou como disse a senhora Miralpeix, mais acima: ‘Agora vejo que a ignorância é uma maneira de ser feliz.’

De Kus, Bernardien Sternheim (2001), Marcel Oosterwijk

Quatro vidas que se cruzam, quatro vozes que se levantam tentando não se afogar no dia-a-dia. Uma história maior que se oferece ao leitor.

(todas as citações em itálico são retiradas do livro de Montserrat Roig L’òpera cotidiana 1983)

‘Quem conta um conto, acrescenta um ponto’

 O escrevinhador pode facilitar a sua ‘tarefa’ escrevendo pequenas estórias onde oferece ao leitor outras tantas perspectivas singulares da realidade comum às personagens que nela vivem e se cruzam. Podem ser narrativas independentes, mas ganham dimensão e sentido lidas em conjunto. Esta é uma dica que tem exemplos notáveis.

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Na tradição literária europeia, duas grandes obras, ambas do sec.XIV, utilizam a técnica de recitação de contos através de personagens reunidos num contexto excepcional: O Decameron de Bocaccio e Os Contos da Cantuária de Chaucer.

Cada um destes livros apresenta um determinado número de narradores que se propõem contar uns aos outros uma estória.

No caso d’ O Decameron, os narradores obedecem a um tema (que irá variar dia após dia ao longo dos dez dias que são a origem do título da obra, incluindo dois dias de tema livre), à excepção de um narrador (sempre o mesmo), que tem a liberdade de optar pelo tema que lhe apeteça. Cada conto é independente dos outros, embora possa haver referências e cruzamentos, já que o material literário assenta na tradição medieval e outras mais antigas e exóticas.

Os Contos da Cantuária utilizam uma estrutura semelhante no contexto duma viagem de peregrinos, com a notável diferença das estórias reflectirem a condição social dos narradores (o moleiro, o frade, o cavaleiro, a esposa, a freira, o mercador, etc), tanto na linguagem, como no tratamento dos temas. Alguns narradores, inclusive, exprimem antagonismos recíprocos ao longo das suas estórias.

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O mais interessante, para aquilo que neste blog se trata, está no modelo de curtas estórias que, na sua sucessão, exprimem a visão do autor sobre a vida social, a cultura e costumes, do seu tempo.

Sem pretensões moralizantes, edificantes ou condenatórias, ambas as obras celebram a expressão escrita em ‘língua vulgar’, em contraposição ao uso do Latim, falando das pessoas comuns e da vida quotidiana, polemizando, criticando ou elogiando através de diferentes vozes, o que as relativiza e afasta qualquer propósito de apresentar ‘uma’ verdade ao leitor.

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Graças à estrutura como os contos são apresentados, a sua leitura tem um valor acrescido à da leitura conto a conto, pois há uma história subjacente à recitação dos contos, e é essa história que permite outras leituras, outros horizontes muito além do que cada conto pode oferecer. Na verdade, esses horizontes nem são oferecidos a quem leia todos os contos, se prescindir da leitura do texto que os enquadra e lhes dá sequência.

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RESSACA DO LIVRO
incapacidade para começar um livro novo porque ainda estás vivendo no mundo do último livro

Quando a bela Musa se deixa seduzir por esta técnica, abre-se ao próprio escrevinhador um outro horizonte: o da evolução para outras estruturas narrativas, comummente conhecidas por ‘romance’ e ‘novela’.

Da arte de escrever pouco

Começar uma história torna-se uma prova árdua porque exige fio condutor, fôlego, estrutura. E muitas vezes o que motiva o escrevinhador são algumas ideias soltas sem a base onde assentem e formem algum tipo de unidade narrativa.

"Há menos aqui do que a vista pode alcançar."

“Há menos aqui do que a vista pode alcançar.”

Daí a tentação em enveredar pela história curta na ilusão de ser mais fácil de ‘dominar’. Ilusão assente numa outra: o que é pequeno é, necessariamente, mais fácil de fazer do que aquilo que é maior. Mas será bom que o escrevinhador tenha em atenção que as estórias curtas sofrem do mesmo grau de exigência que as anedotas: há um elemento surpresa, uma ‘punchline’, e não conheço técnica mais difícil de apurar.

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Embora se possam organizar contos numa unidade narrativa, formando seu universo próprio, conto a conto levando o leitor a reencontrar os mesmos temas sob um estilo comum, equivalente à voz dum narrador familiar. Essa unidade exige que a compreensão dum conto só seja plenamente conseguida lendo-os a todos.

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Deste modo, o autor concede-se ‘espaço’ para além de cada conto onde poderá desenvolver o que para trás fica inacabado ou por dizer. Essa continuidade poderá, eventualmente, sugerir-lhe outra estrutura. Na verdade, o fôlego do escrevinhador é que será outro, por essa altura.

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Escrever uma história banal como?!

Uma história banal: o relato da vida de um homem comum até ao momento da sua morte. Que pode resultar daqui senão uma série de acontecimentos anedóticos pontuados por justificações, remorsos, desculpas, mentiras? 

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Afastemos os propósitos morais, a tentação do autor em nos ensinar através do exemplo: é um género e dos mais glosados, dos mais insuportáveis pelo uso e abuso de estereótipos. E pressupõe uma moral, uma verdade, uma via recta. Reconheço que tem um público, duvido é do valor literário quando levado a sério.

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Se contamos a vida (e morte) de alguém, então porque não nos centrarmos na verdade que ele toma como sua? Ou nas verdades que cada ser humano que com ele se cruzou na vida têm a dizer a seu respeito? Quantos retratos do mesmo homem se podem fazer deste modo?

Procedendo assim, provavelmente deslocamos a ‘verdade’ para o ‘sentido’ (da vida), e afastamos qualquer propósito legislador e propagandístico. Os ‘factos’, já o devíamos saber, são uma construção.

Tendo o Tema (a vida e morte de alguém) e a Abordagem (uma narração omnisciente do ponto de vista do protagonista e o das pessoas que se cruzam com ele), o Propósito torna-se mais simples e transparente: entender/expor/problematizar a complexidade duma vida (ainda que banal) e reflectir sobre o ‘material’ que a escrita produza.

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A partir daqui, ao escrevinhador coloca-se o desafio do Processo: como irá desenvolver o tema de acordo com a abordagem definida tendo como propósito fazer do banal uma história…uma história, sei lá!… profunda, misteriosa, fascinante? Até mesmo, por paradoxal que seja, extraordinária?

‘Como contar uma história banal de modo interessante?’ pergunto à bela Musa. Mas a resposta brinca-lhe nos lábios…

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Ajustar a ideia, o sentimento e a gramática numa linha escrita

Escrever não é como falar, já aqui abordamos o tema. Muito menos é como pensar ou sentir. Mas está numa região de fronteira entre a expressão oral e a reflexão/emoção, tendo estabelecido seu domínio próprio, suas tradições e protocolos.

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“Então em Inglês uma dupla negação está mal, mas em matemática é positivo?”

Ao contrário da fala, que pode ser severa e imediatamente restringida na sua expressão, a escrita cresce sem contraditório, nem coacção, pelo menos duma forma directa e imediata. Essa vantagem de construir um texto livremente deve ser apreciada devidamente pelo escrevinhador, pois é uma força e, simultaneamente, sua maior fraqueza.

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A ausência do contraditório empobrece o sentido auto-crítico, fundamental para o aperfeiçoamento e a evolução da escrita. Fechado num casulo, quando muito exposto aos comentários condescendentes ou meramente depreciativos, o escrevinhador terá maior dificuldade para, por exemplo, corrigir falhas, acertar o estilo, desenvolver outros sentidos. Também já aqui falamos disso.

Ao contrário da reflexão/emoção, que podem ocorrer de modo auto-evidente, tanto numa medida equilibrada, como desmesurada, a escrita precisa de ajustar o equilíbrio entre a expressão formal e os conteúdos, sob pena de não estabelecer comunicação ou, mais frequentemente, de ficar muito aquém dos propósitos do autor.

A ausência do equilíbrio arrisca-se, por exemplo, a desenvolver um modo pedante e/ou confuso de exposição das ideias, temas e enredos, ou a ser lamuriento, saudosista, adocicado.

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Não perceber a diferença entre ‘ter’ uma ideia (ou sentimento) e exprimi-la, confundir a expressão oral com a escrita, evitar a exposição à crítica: eis alguns problemas sérios que o escrevinhador deve ter em conta quando analisa o seu próprio texto.

A escrita tanto serve para anunciar uma guerra santa, como para declarar amor eterno. Em ambos os casos, tanto pode exprimir um inesgotável amor por algo ou por tudo, assim como o seu contrário.

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E deste modo, o autor, como o texto, correm o risco de morrer de ridículo. Nem que seja uma morte póstuma…

‘Ouça um bom conselho, que eu lhe dou de graça…’ *

* início duma conhecida canção de Chico Buarque
 

Num livro autobiográfico, cujo nome não recordo agora, o escritor Stefan Zweig aconselha todo o principiante na arte da escrita a tentar traduzir um livro, estratagema que, a ele, terá resultado muito bem.

Também não recordo as razões porque recomenda a tradução, mas creio que sejam a inevitável reflexão sobre a estrutura da obra, a percepção da perspectiva que o autor desenvolve (entre outras possíveis), o modo como aborda e desenvolve temas e personagens.

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Lost in translation

Não recordo ainda se outra das razões porque ele recomendava a tradução teria a ver com o que talvez se possa chamar abordagem estruturalista da língua: sempre que experimento traduzir um texto, seja do familiar castelhano, seja do inglês, mesmo um incompetente usuário da gramática como eu sente o vigor, a elasticidade, a sonoridade e o amparo das regras que nos bancos de escola pareciam tão desnecessárias quanto aborrecidas.

Parece-me tentador seguir esta recomendação, não fosse o meu pessimismo sobre as ‘competências’ (na horrorosa terminologia dominante) linguísticas da maioria dos escrevinhadores actuais. Zweig é de um tempo, lugar e condição social que favorecia especialmente as ‘competências’ poliglotas e literárias.

Ao escrever num blog que pode ser lido por qualquer um das muitas dezenas de milhões de falantes da Língua Portuguesa, sem limitações geográficas, assumo o risco da redundância, repetindo-me frequentemente: o gosto de escrever e de contar estórias, fazer história ou explicar coisas, exige algum domínio formal da língua, vulgo gramática, e vocabulário.

Sem esse domínio mínimo, torna-se complicado (se bem que não impossível) ter ‘fôlego’ para pensar, estruturar e desenvolver um texto longo com valor literário.

Frequentemente, textos e projectos de livros que leio revelam carências básicas neste capítulo, sem que os escrevinhadores tenham, aparentemente, consciência do problema.

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padre: Este é o corpo de Cristo…
legenda: O momento em que qualquer criança esclarecida percebe que a espécie humana tem problemas.

E falta de leitura é outra carência comum a muitos dos que se propõe escrever, mesmo quando escrevem segundo as boas regras da gramática.

Por tudo isto, a recomendação de Stefan Zweig pode ser óptima, mas receio que inútil para a maioria de nós.

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

questões de método ( e de princípio)

Obras de não-ficção são, por exemplo, os relatos de viagem ou ensaios temáticos.

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Alguns amáveis leitores  deste blogue estão em vias de escrever (ou já estão em fase de elaboração)  livros que se enquadram numa destas categorias e levantam questões curiosas, das quais destaco as seguintes, reformulando-as um pouco:

-é legítimo “apimentar” o relato com alguma ficção, e sendo legítimo, deve-se assumi-la como tal ou mantê-la em segredo?

-faz sentido acompanhar o relato com informação didáctica (tipo História, Geografia, Etnologia, etc)?

-a fotografia será fundamental para o “êxito” dum livro sobre viagens?

-um ensaio deve começar com a apresentação do assunto a desenvolver?

-o autor deve revelar as razões porque se dedica a tal tema, não tendo actividade académica ou profissional que o justifique?

-o autor pode, ou deve,  incluir um lado pessoal, autobiográfico, sobre um assunto mais geral? Ou, pelo contrário, deve manter uma linha objectiva no desenvolvimento do assunto, sem personalizar?

Nos próximos posts darei a minha perspectiva sobre cada questão, mas desde já antecipo a minha máxima favorita: vale tudo e nada está garantido. Na literatura, bem entendido.

"Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas."

“Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas.”

A escrita de ficção e a escrita de não-ficção serão assim tão diferentes?

Às vezes sou agradavelmente surpreendido com a leitura dum livro que me impressiona de diversas maneiras: traz um assunto radicalmente novo para mim, dá informação suficiente para me informar e poder documentar posteriormente, prende a atenção com o ritmo da narrativa, balançando a natural expectativa do resultado final com as peripécias do protagonista, e concluindo de modo a não só não decepcionar, como a motivar-me a saber mais sobre o tema.

Mundo Monstro

Posso estar a referir-me a um livro de ficção como Nome da Rosa de Umberto Eco: o tema das grandes abadias medievais e o seu papel na preservação de livros antigos, através do custoso trabalho dos monges copistas, a que se associa um livro perdido de Aristóteles sobre o riso, do qual só podemos especular o conteúdo.

Outro tema, menos explícito mas fundamental, é o da força extraordinária das ideias e do conhecimento sobre as paixões dos homens eruditos (e aparentemente cerebrais, racionais). Ou vice-versa.

Mas também posso referir um outro livro, sem ser de ficção ou ter pretensões literárias, em que o autor relata como, no decurso das suas actividades profissionais na Etiópia do anos 80 do sec.XX, foi tomando conhecimento das tradições religiosas e míticas desse país, visitando monumentos históricos e localidades (The Sign and the Seal, de Graham Hancock, que em Portugal foi traduzido sob o título Em busca da Arca da Aliança)

Tempos depois, já na Europa,  Graham Hancock decide regressar à Etiópia (mas em circunstâncias dramaticamente diferentes) para aprofundar a investigação que, entretanto, todo aquele conhecimento lhe suscitara. E o livro prossegue numa excitante mistura de aventura, conhecimento e expectativa, abrindo ao leitor novos horizontes, abordando a história antiga e recente dum país algo remoto, senão mesmo desconhecido. Tudo isto através duma narrativa cuidada, dinâmica e estimulante.

No Nome da Rosa, o autor constrói um cenário, um enredo e seus personagens, tendo como base temas “pesados”, demasiado afastados das preocupações e sensibilidades comuns: filosofia antiga e medieval, história medieval, mentalidades, usos e costumes de monges medievais. Alguém acredita que o autor deste livro terá alguma vez tido a ousadia de sonhar que viria a ser um best-seller?

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No Em busca da Arca da Aliança, o autor “limita-se” a relatar o que se passou em determinada altura da sua vida, dando-nos o contexto pessoal e o do país, utilizando como técnica “obrigar” o leitor a acompanhá-lo na sua busca, partilhando dúvidas e perplexidades, sua ansiedade, seus pensamentos, fazendo o leitor escutar os diálogos que teve em certos momentos e levando-o a ver o que seus olhos viram, tudo numa sequência cronológica normal.

E como estamos a falar da Etiópia, de sua história, religiões, mitos e tradições, em que abundam mosteiros, livros e monges, também nos podemos questionar sobre a sanidade mental do seu autor (para não falar do editor), ao acreditar que um livro assim poderá ter algum interesse para além de meia-dúzia de leitores algo estranhos.

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Antes de se tornar um grande filósofo, Descartes trabalhou para o sector público.
Legenda no mapa: “Você está aqui, logo você existe.”

Liberdade poética

A liberdade poética está presente (na prosa inclusive) quando não se deixa inibir pelo rigor lógico dos dicionários, é capaz de trocar as voltas à gramática, inclusive quando infringe as leis da ortografia (ver nota 1). A Poesia Concreta, por exemplo, é um movimento estético na linha de outros semelhantes na música, na pintura, etc, que procura ultrapassar a própria noção de “conteúdo” e recriar a partir da forma.

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Provavelmente, desse modo  o autor procura sublinhar o que há de convencional na linguagem, particularmente na linguagem escrita, e ultrapassar seus limites e expressar ideias, emoções ou intuições (ver nota 2).

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As quais, de outro modo, resultariam diminuídas, senão mesmo mumificadas (ver nota 3). O que é uma outra maneira de lidar com os “conteúdos”.

Ao contrário do que possa parecer ao leitor apressado, não é um caminho fácil: para ser credível exige coerência, ideias, projecto. Ou arrisca-se a ser mera babugem, verborreia, ruído. E daí a ser interessante, a cativar o leitor…bem, isso já são outros contos.

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-Queres ser um poeta?
-Estou nisto só pelo dinheiro.

Como, aliás, mestre Caeiro frequentemente nos chama a atenção:

“(…) Enquanto vou na estrada antes da curva/ Só olho para a estrada antes da curva, / Porque não posso ver senão a estrada antes da curva./ De nada me serviria estar olhando para outro lado/ E para aquilo que não vejo./ Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. / Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer./ Se há alguém para além da curva da estrada, /Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. (…)

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Escrevinhador ou escritor: eis uma questão.

Memórias, ficções ou poemas muitas vezes apresentam-se num português sofrível, alternando frases excessivamente curtas (e insuficientes para o entendimento e o desenvolvimento do tema) com outras longas de mais (divagando de modo despropositado, ou abusando das perífrases, da voz passiva, dos detalhes).

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

A bengala de que se fala no post anterior muitas vezes surge associada a textos de difícil entendimento por falta de clareza na exposição de ideias e factos, pela precária estrutura que as sustenta e na desproporção das partes entre si. Como se o autor tivesse mais prazer (ou urgência) em escrever suas coisas assim como lhe ocorrem do que em fazê-lo seduzindo (ou comunicando com) um hipotético leitor.

Em qualquer das situações, os textos precisam de maior qualidade formal (gramática, vocabulário) e de que o autor tenha noção das exigências próprias da expressão escrita (em contraponto ao fio dos seus pensamentos ou à expressão oral).

Se o fizer intencionalmente, deverá assegurar-se se o efeito pretendido é eficaz. Por exemplo: o texto desenrola um novelo de ideias, expressões e estórias conforme estas acorrem ao narrador (que pode ser um personagem).

Uma análise crítica verificará se o efeito é voluntário; sendo voluntário, se é eficaz. Se essa eficácia é consistente com os propósitos do texto, já é outra coisa que irá analisar depois.

Mundo Monstro

Palavras, “paroles” e parolices

Fazendo mais uma vez a ressalva de que não há receitas, e toda a experimentação é legítima desde que não se indigne com a opinião crítica, chamo a atenção para a escolha das palavras: se são banais e previsíveis, se são insólitas e incompreensíveis, se são raras e pedantes.

A mim fascinam-me palavras banais, insólitas no contexto, mas apropriadas para a intenção geral do poema e para a estrutura que o suporta.

Por vezes, palavras com sabor antigo, erudito ou popular, que nos obriguem a saboreá-las ao ler ou dizer.

"O espantoso

O espantoso POETA-BOT apresenta: Então queres ser um poeta?
“A vida não é uma festa,/É como pastilha elástica/Na tua testa”             “?”                           …………………………………………………………………Exercício #97: escreve uma canção sobre o desespero. Canta-ao teu gato.

E pudor na adjectivação, assim como ousadia no verbo.

Há palavras repetidas? Desde que seja intencional, cumprindo o efeito pretendido, tornam-se fortes. De outro modo…       (ver nota)

A materialidade da língua oral

Há autores que escrevem fazendo um uso torrencial da linguagem oral marcada por regionalismos (Malhadinhas de Aquilino Ribeiro), por regionalismos e/ou pelo modo peculiar de raciocinar do personagem-narrador (Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa), por tudo isso e ainda pelo modo (aparentemente) circular, como desenvolve o enredo tipo roda dum moinho que gira, gira (Mazurca para dois mortos de Camilo José Cela).

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O impacto para o leitor desprevenido pode ser negativo, tendo de se esforçar por entender a linguagem e, nos dois últimos exemplos, para perceber o enredo que “nunca mais começa” (não é verdade, mas simplifiquemos). Se desistir ao começo, não espanta. Mas quem prossegue eleva-se a um nível superior de sensibilidade e de entendimento.

Qualquer um dos autores é digno dum Nobel da Literatura (C.J.Cela foi o único dos três a ganhar, os outros nasceram muito cedo…). E estes três títulos são do melhor que fizeram, na minha opinião. Perfeitamente estruturada a narrativa, ela não é acessível sem que o leitor se deixe afundar no caudal da língua, fortemente oral e tantas vezes de difícil entendimento.