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Escrever sobre o indizível

Por definição, o indizível é o que não se pode dizer. Se não pode porque não deve ou se não pode porque não pode mesmo, são ‘impossibilidades’ bem diferentes.

Às vezes, as recordações se parecem a alguns objectos, aparentemente inúteis, pelos quais sentimos um confuso apego. Sem saber muito bem porque razão, não nos decidimos a deitá-los fora e acabam amontoando-se no fundo desse gavetão que evitamos abrir, como se ali fossemos encontrar alguma coisa que não se deseja, ou até que se teme vagamente. (1)

Norman Rockwell, Truth About Santa, 1956

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No primeiro caso, pode decorrer da censura moral ou da proibição legal que impedem a expressão de ideias. O que é indizível aqui e agora deixa de o ser noutro lado ou noutro tempo, senão for mesmo agora e aqui de modo mais ou menos anónimo, publicado clandestinamente, ao arrepio das leis e dos costumes. Literariamente falando, não se trata do indizível mas do não-permitido, e a história da literatura é recheada de episódios a este respeito.

(…) Animam-no, como poeta e artista, os heróis e os criminosos, desde que o mesmo sol os doire belos. (2)

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Contudo, ainda neste caso, existem graus de dificuldade: escrever sobre alguém que tem um comportamento condenável a todos os títulos, e fazê-lo de modo a sugerir uma leitura positiva, que cause a involuntária compreensão, senão mesmo a concordância do leitor, é mais simples do que o próprio texto assumir os valores condenados e apresentá-los como válidos, sem a clássica inversão de valores ( o que é bom passa a mau e vice-versa).

(…) É impossível que recebamos dela [Natureza] um sentimento que a ofenda e nesta certeza podemos entregar-nos às nossas paixões, seja de que índole e violência forem (…). (3)

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Do ponto de vista estritamente literário, creio que o que vale é a forma, mais do que os conteúdos, e pode resultar. Aliás, essa é a função profiláctica das leis proibitivas e dos actos de censura prévia: evitar a sedução das leituras perigosas.

Convém mostrar as repulsões do crime lá embaixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem;ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente? (4)

JulioRey

Já o indizível, propriamente dito, é toda uma outra coisa: a sua expressão por palavras distorce, desvaloriza, falseia, ilude, por maior que seja a boa vontade de quem se exprime em não faltar à verdade (à sua verdade, pelo menos). E isso porquê? Uma imagem vale por mil palavras, a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, e outros ditos tentam responder à diferença entre o impacto não-verbal de certas experiências (vivenciadas ou pensadas) e a expressão delas.

Finalmente, existe outra expressão frequente que é igualmente impenetrável por cérebros não-indígenas. Por exemplo, a frase “Vá lá a gente saber porquê!”. Um estrangeiro interpreta-a como significando “Vamos todos àquele sítio para podermos averiguar as causas do sucedido”, quando, na verdade, significa incompreensivelmente que não vale a pena ir a seja onde for, porque não há maneira de saber seja o que for. Eles lá sabem porquê… (5)

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cartoon de Pawel Kuczynski

A matemática e a música serão melhores veículos para transmissão do indizível do que a linguagem verbal, dizem os entendidos e tendo a concordar (ainda que abissalmente ignorante a respeito das linguagens matemáticas e musicais).

Quando fui a primeira vez à terra natal de Amadeo, dezoito anos depois da sua morte, a luz na paisagem e as cores nas proporções eram as mesmíssimas nos seus quadros de pintura. (…) Toda a sua arte reflecte o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as suas próprias cores, as do seu rincão natal. (6)

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cartoon de El Roto

Mas é difícil lidar com o indizível no dia-a-dia sem cair na tentação de o exprimir, já que de outro modo torna-se uma experiência profundamente pessoal e única, sendo os escrevinhadores seres sociais e comunicadores por natureza, como a generalidade dos mamíferos.

Neste assunto, obscuro em extremo, farei o possível por ser claro. Ignoro se o conseguirei e— sem mais preâmbulos— vou começar. (7)

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cartoon de alain sieber

Daí haver escrevinhadores de todos os tempos a tentar contornar a impossibilidade e dizerem algo sobre o indizível, seja pela negativa, seja por comparação, seja recorrendo à metonímia: todo um arsenal retórico que permite exprimir o que não se sabe ou o que se julga saber mas não se entende.

Nesse caso, ouve-me em silêncio. Como este recanto parece ter algo de divino, se, no decorrer do meu discurso, me tornar possesso das Ninfas, não estranhes, (…). (…) Pode acontecer que a inspiração divina se esgote, mas isso fica ao arbítrio dos deuses. (8)

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Naturalmente, a poesia sempre teve inclinação para enfrentar o desafio através dos seus recursos extra-verbais (inspiração, paixão, loucura) que lhe permite ter um pé (senão ambos os pés) noutros mundos e a cabeça nas nuvens.

(…) O que aqui/ não está escrito é já a única/ prova de que disponho/ para reconhecer-me, interromper/ meu processo de erosão entre recordações/ urgentes. // Por aquela palavra/ a mais que disse então, trataria/ de dar minha vida agora (9)

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Pessoalmente, destaco toda a literatura que se situa na categoria do ‘absurdo’ (que não é a mesma coisa que a ‘fantasia’, atenção!): através de jogos de palavras, pela criação de palavras próprias, distorcendo regras gramaticais elementares, expandindo ou contraindo de forma absurda (claro está!) maneirismos narrativos ou dialogais, consegue “dizer” mais sobre o indizível do que a milenar literatura séria sobre o Inefável.

O E parecia um pente, o S uma serpente, o O um ovo, o X uma cruz de lado, o H uma escada para anões, (…). Não via diferença entre desenhar e escrever.

(…) Porque as letras e os desenhos eram irmãos de pai e mãe: o pai era o lápis afiado e a mãe a imaginação. (…) Estas palavras que nasciam sem ela mesmo querer, como flores silvestres que não precisam de ser regadas, eram as que mais gostava, as que lhe davam mais alegria, pois só ela as entendia. (…) e as chamava de “farfanías”. Quase sempre a faziam rir. (10)

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Mas a que mais me impressiona é a literatura sobre o Horror (não confundir com zumbis e quejandos), como a dos campos de concentração e de extermínio, a das perseguições e genocídio. Autores que passaram pelo Horror, testemunhas e vítimas ao mesmo tempo, e que conseguem pôr por escrito a experiência vivida, a própria e a de outros, mantendo um pudor e sangue-frio extraordinário na descrição, na valoração, no juízo.

(…) E tinham sido conduzidos para os balneários, onde, disseram-me, também havia tubos e chuveiros: só que, deles, não tinham feito sair água, mas gás. Não soube tudo isto de uma só vez, mas a pouco e pouco (…). Entretanto, ouço, são, até ao fim, muito amáveis para eles, tratam-nos carinhosamente, às crianças é permitido cantar e jogar à bola, e o local onde são gaseados é muito bonito e bem cuidado, (…). (11)

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E nessa contenção mantém-se toda a força, repelente ou atractiva, do indizível.

E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

—”Meu amor!” (12)

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(1) in Paraíso inabitado de Ana Maria Matute, ed.Destino

(2) ‘António Botto e o ideal estético creador’ in Apreciações Literárias—Bosquejos e Esquemas Críticos de Fernando Pessoa, ed.Estante

(3) ‘Justificação do Prazer’ in Escritos Filosóficos e Políticos (extraído de Justine ou os infortúnios da Virtude) de Donatien Alphonse F. de Sade, trad.Serafim Ferreira ed.colecção 70

(4) ‘Prefácio’ in O Esqueleto de Camilo Castelo Branco, ed.Livraria de Campos Junior

(5) ‘É-o-que-é’ inA Causa das Coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assírio e Alvim

(6) ‘Amadeo de Souza-Cardoso’ in Obras Completas vol.6 Textos de Intervenção De José Almada Negreiros, ed.Estampa

(7) in Loucura… de Mário de Sá-Carneiro, ed.Rolim

(8) in Fedro de Platão, ed.Guimarães & Cª

(9) in ‘Sobre o impossível ofício de escrever’ in Somos el tiempo que nos queda-Descrédito del Héroe de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral

(10)in Caperucita en Manhattan de Carmen Martín Gaite, ed.Siruela

(11) in Sem Destino de Imre Kertész, trad.Ernesto Rodrigues ed.Presença

(12) in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira

 

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Vale a pena escrever?

RESPOSTA: se alguém me puser esta pergunta, minha resposta automática é NÃO, não vale a pena.

Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!/ Se isto não é, porque é que é?/ Se isto não pode ser, então porque pôde ser? (1)

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Esta é a resposta preconceituosa de quem entende que a urgência da escrita se impõe ao escrevinhador, que depois defrontará a terrível, incontornável questão: o que escrevi tem algum valor?—uma questão totalmente diferente, portanto.

Sonho que sou a Poetisa eleita,/ Aquela que diz tudo e tudo sabe,/Que tem a inspiração pura e perfeita,/ Que reúne num verso a imensidade! (2)

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cartoon de allain sieber

Preconceito que radica, também, na crença de que a dita urgência é um dano colateral à exposição precoce à audição de contos e leituras, às leituras de livros de texto e banda desenhada, ao visionamento de filmes.

O que me dá prazer não é o vinho, não!/ Nem a música, nem o canto./Apenas os livros são o meu encanto/ E a pena: A espada que tenho sempre à mão. (3)

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-A TV está cada vez melhor. -É, acho que é um perda de tempo muito mais produtiva.

Essa exposição (que não tem de ser, na verdade, precoce) não é condição suficiente para responder afirmativamente à segunda questão: a do valor do que se escreveu. Outras formas de expressão podem surgir em alternativa e com outra qualidade; no mínimo, resulta no desenvolvimento duma percepção mais subtil, na sensibilidade à ironia, num grau de exigência maior, coisas assim que fazem de alguém uma pessoa mais interessante.

Eu não soube onde entrara,/ mas, quando ali me vi,/ sem saber onde estava,/ grandes coisas entendi;/ não direi o que senti,/ pois me fiquei sem saber,/ toda a ciência transcendendo. (4)

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Na realidade, porém, existe uma crescente número de pessoas sem qualquer relação afectiva com a leitura e, inclusive, com um domínio deficiente da escrita, determinadas em produzir textos, seja por razões estéticas, sentimentais ou profissionais

(…) o número de homens ignorantes e corajosos/ será maior ou menor que o número de homens corajosos e cultos? // (…) Se o assunto fosse assim tão simples…/ Mas não. (5)

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Como dizer-lhes que não vale a pena serem persistentes e produtivas nessa determinação? Na verdade, nem se colocam a questão de escrever (ou não), mas antes a de escrever como?

Tu que sabes em que recantos das terras invejosas/ O Deus ciumento esconde as pedras preciosas,/ Ó Satã, tem piedade da minha grande miséria! (6)

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Preconceito de lado, a tarefa é ingente mas factível; tudo depende do escrevinhador e do modo como se move no seu labirinto. Mesmo o mais aborrecido dos manuais pode estar organizado com um mínimo de lógica e ter sido escrito numa linguagem clara, duas características que são grandes qualidades e verdadeiros ‘facilitadores’ (palavra horrível muito em uso nas primeiras décadas do sec.XXI) para quem tenha de lidar com assuntos chaaaatos.

A bela e pura palavra Poesia/ Tanto pelos caminhos se arrastou/ Que alta noite a encontrei perdida/ Num bordel onde um morto a assassinou. (7)

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Contudo, ambas qualidades exigem um razoável domínio da matéria a tratar e da sua expressão escrita, qualidades que andam muitas vezes desirmanadas.

(…) E com um mimo que só sabe ter uma ama/ Cobre-me bem, “durma, não cisme”, dá-me um beijo,/ E sai. Finge que sai, ela cuida que eu não vejo,/ Mas fica à porta, à escuta, a ouvir-me falar só,/ E não se vai deitar…/ Onde há, assim, uma Avó? (8)

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Talvez por isso, surgem escritos num tom autobiográfico, meio confessional, meio exploratório, onde se cruzam dados objectivos (estatísticas, história, ciências) com a profunda subjectividade do olhar do escrevinhador, podendo até desenvolver narrativas ficcionadas.

Todo lo que he vivido, todo/ lo que he salvado vigilantemente/ del feroz exterminio de los dias,/ todo cuanto yo fui, hoy os lo ofrezco,/ ojos que seguiréis el rastro de estas letras, /(…) (9)

'When I was young I wanted to be a poet, but we couldn't afford a typewriter.'

‘Quando era novo queria ser poeta, mas não tinhamos dinheiro para comprar uma máquina de escrever!’

À extraordinária liberdade deste processo—ao nível dos factos, das personagens e do enredo— alia-se o tratamento mais ou menos rigoroso de assuntos concretos, reais, observáveis. Combinação que pode resultar numa abordagem refrescante, inspiradora, bem-humorada, poética… ou tudo isso em simultâneo.

Poeta, não, camarada,/ eu sou também cauteleiro;/ ser poeta não dá nada/ vender jogo dá dinheiro (10)

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Para quem não confia na bagagem literária dos seus anos de formação (infância, adolescência), explorar a sensibilidade e o olhar crítico com que a vida o enriqueceu torna-se um valor imenso em qualquer proposta artística. Aproveitando as experiências de vida e as histórias familiares, a escrita pode vencer os escolhos normais da criação literária e compensar certas deficiências com a inspiração genuína, uma perspectiva original, uma tonalidade distinta.

Imaginária menina/ entra em roda imaginária:/—Roseira que dás espinho,/ que dás espinho e dás flor:/ roseira de meu caminho/ dá ciranda aonde eu fôr.//  (…) que se houve espinho houve rosa. (11)

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Pintura de Luz Morais

As boas regras gramaticais e o exercício duma escrita literária acabarão por se incorporar com o tempo, muita prática e aprendizagem. E com uma ajudinha preciosa que pode chegar de modo abrupto e, até, ofensivo. Mas quem disse que escrever vale a pena?

Las cú. Lavitebá, Foscan moldé ca./ Divilanvoris cermalagos cía./ Ar conta latilosde balatía/ ormela banorcali tonzosteca. (12)

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“Concordo consigo: você tem dinamismo, ambição e autoconfiança, mas aquilo que procuramos é a competência.”

(1) ‘A Partida’ in Poesias de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(2) ‘Vaidade’ in Livro de Mágoas de Florbela Espanca, ed.Bertrand

(3) de Al-Kutayyr in O meu coração é árabe, colectânea e tradução de poesia luso-árabe de Adalberto Alves, ed.assírio&alvim

(4) ‘Coplas del mismo hechas sobre un éxtasis de alta contemplación’ in Poesias Completas de San Juan de la Cruz, ed.Planeta DeAgostini

(5)  ‘Canto IV’ in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(6) ‘Les Litanies de Satan’ in Les Fleurs du Mal de Charles Beaudelaire, ed.Gallimard

(7) ‘A Bela e Pura’ in Mar Novo de Sophia de Mello Breyner Andresen, ed.Caminho (Obra Poética vol.I)

(8) ‘Males de Anto’ in  de António Nobre, ed.A Bela e o Monstro lda

(9) ‘Todo lo que he vivido’ in Las Adivinaziones de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral (Somos el tiempo que nos queda obra poética completa 1952-2009)

(10) ‘Ocasionais’ in Este livro que vos deixo… de António Aleixo, ed.Vitalino Martins Aleixo

(11) ‘Rosa da Roda’ in Rapsódica de Stella Leonardos, ed.Orfeu

(12) ‘las cu la vi te ba fos can mol de ca’ in A Saga/Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester, ed. Dom Quixote

Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

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cartoon de Fernando Vicente

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A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

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Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

Escrever para crianças (dois pontos ou três…):

Será preciso lembrar que ‘crianças’ é uma generalização inútil (em literatura, pelo menos), e que escrever para leitores de 8-10 anos não é o mesmo que escrever para analfabetos de 3-5 anos?

A linguagem utilizada, naturalmente, deve ter em conta as limitações impostas pela idade, tal como certos efeitos estilísticos podem atrapalhar, por não serem entendidos.

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Mas a grande diferença, à partida, está em que a escrita para ser lida em voz alta deve valorizar as características da oralidade e, não menos importante, construir um texto que facilite a rememoração. Isso pode ser conseguido utilizando fórmulas assumidamente estereotipadas, como sejam poemas com rima e métrica, personagens tipificadas, frases feitas.

Neste caso, o escrevinhador pressupõe que o leitor irá dramatizar a leitura para uma audiência de (pelo menos) um ouvinte a várias dezenas (ou mais), a quem tem de prender a atenção e facilitar o entendimento desde as primeiras linhas até ao fim. E, assim sendo, o texto deve ter as necessárias indicações para quem ‘conta’ poder recorrer à panóplia de recursos que tenha (tons de voz, expressões de rosto, gestos e movimentos, gestão do silêncio, noção do ritmo, e outros).

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Deste modo, os recursos estilísticos podem ser usados com maior liberdade, pois há a mediação de um adulto que os reconhece, podendo ‘exprimi-los’ de forma não-textual, eventualmente sem recurso à própria oralidade: ironias e hipérboles que, lidas por crianças mais velhas são ainda entendidas literalmente (ou de modo algum entendidas), e que, através desta mediação, podem ser entendidas como tais, graças ao recurso a caretas, gestos desmesurados,vozes em falsete. Por exemplo.

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Para crianças com capacidade de leitura, a ausência de um narrador em carne e osso será a situação mais frequente, o que deverá levar o escrevinhador a ter maior cuidado com a ambiguidade na construção do texto e do enredo. O que não quer dizer que a exclua, antes pelo contrário.

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Obviamente, antes de escrever, o escrevinhador poderá aprofundar algumas noções de psicologia infantil, de pedagogia e coisas assim. Mas, importante mesmo, é manter o contacto com a criança que foi e com crianças, em geral.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

É provável que, desse modo, reveja certas ideias feitas sobre o entendimento, a inocência, os interesses, as dificuldades e problemas, assim como os sonhos e anseios, de uma idade que lhe está, a cada dia, mais distante.

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A janela aberta

Construído o enredo, ao escrevinhador colocam-se questões básicas: necessita de fazer trabalho de investigação, estudos, entrevistas com pessoas reais, deslocar-se a lugares, experimentar por si mesmo outras vivências?

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Ao contrário do académico, do jornalista ou de outros escrevinhadores que assumem a ligação com a realidade como base dos seus trabalhos, o escrevinhador de ficções não precisa de sair da cama para começar e acabar o que quer que seja.

Mas todo o trabalho prévio, nem que seja o da simples leitura, pode consolidar a verosimilhança do enredo (factos, personagens, modos de falar e de estar, etc), como pode reforçar a inspiração e o alento do processo criativo.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita literária.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita criativa.

Além disso, trata-se duma abertura para o mundo: o escrevinhador viaja, conhece novas terras, nova gente, ouve histórias e regista expressões, toma nota de ideias e sugestões, podendo fazer tudo isto e ir escrevendo, ao mesmo tempo, o que tem estruturado no enredo.

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Edward Hopper: Rooms by the sea 1951

Hoje em dia, mais do que em qualquer outra época, é possível realizar este trabalho sem sair de casa.

Saindo ou não, pode ser motivo de grande prazer e modo de atenuar vícios duma escrita autocentrada, duma experiência de vida necessariamente limitada pelo preconceito, dos erros assimilados e inconscientes…enfim, as consequências de atribuirmos demasiada relevância ao nosso umbigo ou às nossas dores.

E, como resultado final, pode ser a diferença que o leitor encontra numa estória e nas personagens que ‘respiram’ autenticidade e outra estória e suas personagens em que tudo lhe parece postiço, sem densidade ou paixão.

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Se depois o leitor vier a saber que o escrevinhador nunca esteve naqueles lugares (e que, talvez por isso mesmo, não corresponde o escrito com a realidade), ou que se inspirou em pessoas que nunca conheceu (e episódios de suas vidas) para construir as personagens, para em seguida distorcer uns e outros, talvez o leitor fique triste e desiludido por tudo aquilo que o fascinou não existir, nem ter existido nunca…mas o fascínio pela estória perdurará, e não é essa a nossa grande vaidade e ambição, ó escrevinhadores?

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Ensaios, monografias, memórias, estudos…

Os trabalhos académicos têm suas regras, sua metodologia, quem os escreve é suposto dominar minimamente as exigências formais, até porque recebeu formação nesse sentido e já leu muitos trabalhos do género antes.

Mas o escrevinhador amador, aquele que elege um tema sem ter preparação académica para o auxiliar, como deve fazer?14135233

Pode mesmo pôr-se em questão se o deve fazer, já que lhe falta a dita cuja preparação, mas trata-se de mero preconceito: existe uma longa lista de estudiosos autodidactas, sem preparação académica formal, que se destacaram pelo trabalho de investigação, experimentação, estudo ou divulgação.

Ora, se para a escrita da poesia ou de um romance é muito recomendável ter alguma bagagem literária, para o escrevinhador que desenvolva algum tipo de ensaio, investigação ou simples divulgação, é de simples bom senso que ‘leia tudo’ o que houver para ler antes de publicar alguma coisa.

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Já no post anterior me referi ao ‘à vontade constrangedor’ como se escreve sobre assuntos sem noção de erros, lapsos, confusões, lacunas que até o leitor leigo, mas razoavelmente informado, pode facilmente perceber.

Por vezes, o plágio é evidente, noutras vezes as fontes duvidosas são as mesmas das de outros livros.

Mais frequentemente, o tema é tratado de forma superficial, sem acrescentar nada à literatura que já existe: não há uma ideia, um facto, um enquadramento, nada, absolutamente nada, de novo. Excepto um nível mais elevado de tédio e monotonia (mas aqui estou a pensar naqueles trabalhos académicos que se fazem para cumprir metas).

-Então, a que é que você se dedica? -Sou um troll. Estrago a internet a toda a gente.                 -Este vinho não presta.

-Então, a que é que você se dedica?  -Sou um troll. Estrago a internet a toda gente.                    -Este vinho não presta.

Não penso que sejam géneros mais difíceis do que o poético ou a ficção, longe disso. Mas não permitem a mesma liberdade criativa e os artifícios de estilo, exigindo muito mais do que a simples verosimilhança, tendo de ser claro e transparente na argumentação, capacidade para sustentar ideias e afirmações com algo mais do que raciocínios ou estórias, respeitar a lógica básica e colocar-se a si próprio a questão da fundamentação do que é dito. Por uma questão de credibilidade, claro.

Bem, fácil é que não é, realmente…

Sobre o escrevinhador negligente

Se listar quais são, na minha opinião (que se baseia na estreita faixa da realidade que conheço), os defeitos mais comuns do comum dos escrevinhadores, surge um retrato que não me parece muito diferente do de outras épocas.

No topo dessa lista coloco a negligência: fico sempre abismado pelo descaramento como alguém se atreve a escrever (para ser lido e publicado) sem se preparar minimamente.

(…) Se há um plano/Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…)/Não tenciono escrever outro poema/Tenciono só dizer que me aborreço/(…)/Todo o conteúdo de mim é porco/E de uma chatíssima miséria/(…)/Para que escrevo? É uma pura perda. (1)

A preparação pode ter fases distintas, sendo a primeira a bagagem para esta aventura, ou seja, leituras variadas, de qualidade (tanto o texto, como a leitura).

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A seguir, talvez fosse de privilegiar a combinação da atenção com a reflexão: se o escrevinhador estiver ‘ligado’ a uma qualquer (ou mais do que uma) dimensão do real, e sobre isso desenvolver algum tipo de reflexão, naturalmente irá construir uma perspectiva sobre essa mesma realidade.

Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!/A chegada pela manhã a cais ou gares/Cheios de um silêncio repousado e claro!/Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega…/E o som especial que o correr das horas tem nas viagens… (2)

Depois, o exercício metódico da escrita irá apurando algo das fases anteriores, permitindo ao escrevinhador explorar, perceber os seus próprios limites e horizontes, corrigir trajectórias e cumprir metas.

O que resulta daqui é um dos milagres da actividade dos escrevinhadores: a de escreverem bem sobre temáticas interessantes, sem terem que ter qualquer experiência pessoal ou formação específica (para usar a terminologia horrorosa corrente).

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No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores/Mas no meu verso, por mais que o ice, há só ritmos e ideias,/Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,/Não há a realidade da pedra mais nula da rua,

Provavelmente, haverá sempre excepções ‘à regra’ que possam contradizer o que acabei de expor, mas creio que o comum dos mortais terá melhor qualidade de vida—vida de escrevinhador, claro!—se respeitar, de algum modo, esta preparação: ler (bem e variado), observar (com perspicácia, sensibilidade, intuição…), conhecer (reflexão, meditação, transe ou outros estados alterados da mente, ou simplesmente racionalizar), comunicar (escrevendo, mas não só).

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Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma/Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias./A minha época é o carimbo que levam todas as facturas,/E sinto que todas as cartas de todos os escritórios/Deviam ser endereçadas a mim. (4)

Posso não me ter feito entender ao usar, mais acima, a expressão ‘abismado pelo descaramento’: não pretendo ser pedante, polícia dos costumes ou coisa parecida, mas tenho lido ‘coisas’ (algumas publicadas) que revelam uma preparação diametralmente oposta àquela que sugiro, no todo ou em parte.

O resultado poético, narrativo, até mesmo documental ou técnico (estou a pensar em teses de mestrado e estudos sobre qualquer coisa, sim), reforça esta convicção.

E eu era parte de toda a gente que partia,/A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava/Da janela afastando-se de comboio…/(…)/E o comboio avança—eu fico… (5)

Deprime-me, confesso, que esta negligência surja  tanto entre pessoas com vinte, trinta anos, como com cinquenta ou mais anos, com cursos superiores ou exercendo profissões onde a escrita (e a leitura) não são ‘competências’ irrelevantes. Frequentemente, até dá para perceber que a ideia era boa, mas irremediavelmente comprometida por deficiências corrigíveis. E não negligenciáveis, também.

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E as suas consequências, não coisas contadas em livros,/Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,/E o sol também real sobre a terra também real/Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo! (6)

(1) in Carnaval, de Álvaro de Campos; todas as citações são deste autor retiradas da ‘Poesia de Álvaro de Campos‘, colecção dirigida pelo grande Vasco Graça Moura, ed. Planeta DeAgostini

(2) in poema 15

(3) in Saudação a Walt Whitman

(4) in Ode Marítima

(5) in poema 37

(6) in Ode Marcial

 

 

A escrita preguiçosa

Não tem como confundir o bloqueio da escrita com a escrita preguiçosa. O bloqueio até será frequente quanto já se escreveu (mais ainda se já publicou) algumas obras, enfrentando o escrevinhador a angústia de ter esgotado o assunto, de voltar a repetir temas, tiques e truques. A boa notícia é que está na hora de partir para outra etapa da viagem, a má é que a bela musa teima em não aparecer.

Sobre o bloqueio já aqui, ali, acoli e acolá (e mais além também!) se falou algo, e tanto pode acontecer ao inexperiente, como ao mais bem sucedido dos escrevinhadores. Mas preguiça é coisa totalmente diferente.

"Ele está a trabalhar uma canção de ninar."

“Ele está a trabalhar uma canção de ninar.”

O escrevinhador preguiçoso é uma espécie muito comum entre os principiantes, por falta de experiência e método, provavelmente. Da experiência se pode dizer como os versos de Machado a propósito do caminho Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar. Ora, se a sua tendência for a produção poética, ao fim de um tempo acabará por acumular um acervo razoável de poemas/textos poéticos, onde o crítico poderá confirmar a inconsistência ou a incapacidade de desenvolver o potencial. Falta de método, em qualquer dos casos.

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“Nunca penso enquanto estou a trabalhar. Não sou bom a fazer várias coisas ao mesmo tempo.”

Daí surge a ‘escrita preguiçosa’: plena de estereótipos, cultivando o lugar-comum como referência e tradição, desinspirada, abúlica, mais ainda se servida por uma gramática deficiente ou sofrendo um regime pobre em leituras. Porém, muitas vezes passa por voluntariosa, dedicada, sofrida, e outros atributos que têm mais a ver com as emoções do que com a literatura. image004 E, ao contrário do bloqueio, tende a tornar-se uma patologia crónica, maligna, potencialmente contagiosa.

Palavras, chaves e magia

Nunca é demais insistir na importância dos preliminares: o tempo dedicado antes resultará em maior prazer e intensidade durante e depois do acto solitário do escrevinhador. Aumentando, portanto, a possibilidade de satisfação do leitor.

"Se queremos que esta relação funcione temos de começar a comunicar.

“Se queremos que esta relação funcione temos de começar a comunicar. Começo primeiro: tira os pés de cima da mesa.”

Ora, como preliminares já foram aqui referidas alguma técnicas simples: viver uma vida, ler muito e bem, cultivar o grãozinho de loucura, viajar (mesmo sem sair de casa ou limitando-se a ir até ao fundo da rua).

E ter a rotina de tomar notas, recolher fragmentos de ideias e memórias, acumular impressões (tanto as fugazes como as duradouras), registar frases soltas e expressões…enfim, a matéria-prima de tudo o que possa se tornar um texto.

É como um diário abreviado. O importante é escrever qualquer coisa todos os dias.

É como um diário abreviado. O importante, na verdade, é escrever qualquer coisa todos os dias.

Também nisto existe o modo fácil e complicado, assim como o difícil e simples.

O primeiro caracteriza-se por anotar muito, em detalhe, obsessivamente, ou muito, pouco ou quase nada, tanto em detalhe como pela rama, obsessivamente ou nem por isso.

Por este modo o próprio escrevinhador aborrece-se e larga a rotina (ou tentativa de criação duma rotina), embrulha-se nela de modo estéril, afoga-se numa colecção de caderninhos ou ficheiros .doc de que só a muito custo extrai alguma ideia promissora.

Por vezes, acaba por descobrir a sua vocação maníaca e, com algum talento, talvez resulte em mais do que o amontoado de tretas de um observador sem critério.

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O segundo modo caracteriza-se por desenvolver uma percepção (ou várias), capaz de englobar pontos de vista (perspectivas) diferentes, contraditórios, normais ou aberrantes. Numa ideia: pôr-se no lugar do Outro, sendo o ‘outro’ todo o ‘ser’ que não o do próprio escrevinhador.*

Por essa via surgem personagens autónomas e genuínas. Ou enredos complexos, verosímeis ainda que fabulosos. Ou um sopro poético capaz de abalar o leitor.

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Essa percepção, na fase da tomada de notas, como deve ser registada?

Idealmente, por um número muito limitado de palavras: para se manter disponível (ou o escrevinhador passa à redacção de um rascunho ou vive o momento, é ilusório fazer ambas as coisas simultaneamente) e para apurar os sentidos crítico e estético que, mais tarde, serão fundamentais para recuperar a intensidade daquele momento.

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Daí empregar o termo ‘palavras-chave’: aquelas que, no imaginário e sensibilidade do escrevinhador, ajudam-no a reviver o momento original e inspirador. Quais são? Querem uma dica?!

Bem, essa é uma descoberta a fazer por si próprio. É como o outro que dizia que ‘lyrio’ com ‘y’ é que representava a flor.

Quando bem feito, a magia acontece.

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* Dito assim para simplificar, pois há escrevinhadores que exprimem o Outro em si mesmo, escrevinhador, quando não mesmo os Outros (não, não se trata de transtornos de personalidade).

 

‘Ano novo, vida nova’

O título deste post é o característico estereótipo, daí manter as distância graças ao uso das aspas. Começar de novo, fazer tábua rasa do passado: outras expressões estereotipadas e populares que podem não ser de grande valia, excepto como manifestação de um desejo, dum sentimento inconformista (mesmo que inconsequente), da insatisfação perante a vida, etc. Não são de grande valia?! Isso já depende…

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A vantagem do escrevinhador é que tudo isto é matéria-prima para ‘qualquer coisa’, e relembro estas linhas:

Há alguns anos, não interessa quando, achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. (…) principalmente quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua, percebo então que chegou a altura de voltar para o mar (…)’

(in Moby Dick de Herman Melville, ed.Relógio d'Água, trad.Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves)
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Bons tempos em que o mundo era grande e os mapas tinham enormes extensões brancas por assinalar. Porém, ao escrevinhador do ano de 2014 não faltarão recursos para ‘voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas‘, seja na versão radical de sair pelo mundo fora (que pode ser o trivial mundo para lá da porta de casa), seja pelos espaços infinitos da sua biblioteca, da memória e da imaginação (ok, e da internet também!).

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Pessoalmente, o tema das viagens é do mais apelativo que conheço, e por aqui e por ali já falei alguma coisa disso. Aproveitando o tema de Dezembro associado à ‘renovação’, em que se costuma fazer a lista das x coisas a realizar no próximo ano, que posso sugerir a um escrevinhador à procura dum tema, duma inspiração, duma mudança (no estilo, no tema)?

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante -Hum. -Hum. Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante
-Hum.
-Hum.
Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

Já dizia o sábio que ‘nada há de novo debaixo do Sol‘*, o que pode ser profundo e merecer reflexão, mas logo a seguir acrescenta que ‘mais amargo do que a morte é encontrar uma mulher que é uma armadilha cujo coração é uma rede, e cujas mãos são cadeias‘*. Ora, o que me apetece dizer ao velho sábio e aos escrevinhadores em geral, é aquilo que disse um outro sábio: ‘Eu sou uma coisa e os meus escritos outra‘**.

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“É isso, Kenji.Tudo acontece por uma razão, mas ninguém tem a menor ideia qual seja!”

O que, traduzido ao meu modo, dá nisto: ‘Vivam uma vida e escrevam como se tivessem vivido mil e uma vidas‘.

*in Eclesiastes

** in Ecce Homo de Friedrich Niesztche

Limites do estereótipo, ilimitados horizontes da literatura

Como bem repararam leitores deste blog, provavelmente vivendo noutras latitudes que não a minha, o mês de Dezembro pode significar mais calor, mais horas de luz solar, sendo fim-de-ano e época de Natal na mesma. O que ilustra na perfeição como somos condicionados pelo nosso pequeno mundo e pelos estereótipos dominantes.

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Pergunto, então, como é que a literatura tem lidado com a quadra nessas latitudes mais baixas? Quase arrisco dizer que não é tópico muito relevante, mas confesso minha ignorância.

Certamente, a tradição do presépio e das estórias associadas estão vivas e presentes em contos, poemas, mas…qual será a tendência nestes últimos, vá lá, 50 anos*? O imaginário comercial do Papai Noel, do pinheiro enfeitado e da neve artificial não me parecem suficientes para inspirar a criação literária, mas podem ter o efeito de esterilizar a tradição.

-Quem és tu e porque haveriamos de querer uma foto dele contigo?

-Quem és tu e porque haveríamos de querer uma foto dele contigo?

Mesmo assim, continuo a ter uma perspectiva naturalmente etnocêntrica, pois nada digo daquelas regiões onde boa parte da população, senão mesmo a grande maioria, não partilha o imaginário cristão, nem o calendário gregoriano. Será que suas literaturas orais e escritas estão completamente alheias aos temas de Dezembro?

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Volto a repetir a minha absoluta ignorância sobre tudo isso, mas adivinho aqui excelentes temas para um escrevinhador aprofundar e desenvolver.

* Ou década de 60 do sec.XX, em que a Televisão iniciou a conquista de todos os lares (para não dizer de todas as divisões da casa)
 e de todo o espaço público.

Escrever é preciso

Ainda ontem, falando com um pintor, este dizia que pintar ao fim-de-semana estava bem, mas quando se “anda nisto” a sério há que pintar todos os dias. Porque a ‘ideia’ tem de ser trabalhada, a mão exercitada até o gesto sair sem medo (e o medo nota-se nas pinceladas deixadas para trás).

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Com a escrita pode-se dizer o mesmo: até na ausência duma ideia, a pulsão pela escrita exige exercício, técnica, ensaio-erro-repetição. Felizmente com menos custo do que em outras artes.

Há algum tempo, alguém que não tem pretensão de publicar nada, mostrou-me o seu moleskine e maravilhei-me com a quantidade de anotações interessantes acumuladas em sequência caótica, fruto de leituras, reflexões, conversas. Coisas simples como uma citação latina, um verso solto, um dado estatístico, podem desencadear o processo mental criativo que resulte num projecto…imagine-se, então, um bloco de anotações com dezenas de páginas manuscritas! À sua maneira, o moleskine funciona como uma sessão de brainstorm disponível para uso e abuso do seu possuidor.

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Como vivemos numa era mais sofisticada do que as anteriores, os blogs abrem-nos outras possibilidades, como a de seguir o dia-a-dia do mundo em geral e dar-mos a nossa opinião, exprimir-mos nossas perplexidades e indignações, anotarmos ditos e factos que sejam relevantes.

Muita gente aborrece-se de manter um blog por falta de audiência, mas essa é uma questão secundária. O importante, para o que nos interessa aqui, é a possibilidade de ‘afixarmos’ nossos textos de modo organizado, com a frequência que entendermos e cuja leitura possa ser aberta a todo o mundo.

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A possibilidade de produzir textos com boa apresentação gráfica, expondo-os publicamente, tudo isto sem custos, não é, por si, motivo para alegrarmo-nos por viver nesta época, não noutra em que dependíamos dum editor?

-Continuas com aquele blog de poesia? -Sim, é fabuloso! Faz-me sentir que há um público muito maior a ignorar o meu trabalho!

-Continuas com aquele blog de poesia?
-Sim, é fabuloso! Faz-me sentir que há um público muito maior a ignorar o meu trabalho!

‘Ouça um bom conselho, que eu lhe dou de graça…’ *

* início duma conhecida canção de Chico Buarque
 

Num livro autobiográfico, cujo nome não recordo agora, o escritor Stefan Zweig aconselha todo o principiante na arte da escrita a tentar traduzir um livro, estratagema que, a ele, terá resultado muito bem.

Também não recordo as razões porque recomenda a tradução, mas creio que sejam a inevitável reflexão sobre a estrutura da obra, a percepção da perspectiva que o autor desenvolve (entre outras possíveis), o modo como aborda e desenvolve temas e personagens.

Lost in translation

Lost in translation

Não recordo ainda se outra das razões porque ele recomendava a tradução teria a ver com o que talvez se possa chamar abordagem estruturalista da língua: sempre que experimento traduzir um texto, seja do familiar castelhano, seja do inglês, mesmo um incompetente usuário da gramática como eu sente o vigor, a elasticidade, a sonoridade e o amparo das regras que nos bancos de escola pareciam tão desnecessárias quanto aborrecidas.

Parece-me tentador seguir esta recomendação, não fosse o meu pessimismo sobre as ‘competências’ (na horrorosa terminologia dominante) linguísticas da maioria dos escrevinhadores actuais. Zweig é de um tempo, lugar e condição social que favorecia especialmente as ‘competências’ poliglotas e literárias.

Ao escrever num blog que pode ser lido por qualquer um das muitas dezenas de milhões de falantes da Língua Portuguesa, sem limitações geográficas, assumo o risco da redundância, repetindo-me frequentemente: o gosto de escrever e de contar estórias, fazer história ou explicar coisas, exige algum domínio formal da língua, vulgo gramática, e vocabulário.

Sem esse domínio mínimo, torna-se complicado (se bem que não impossível) ter ‘fôlego’ para pensar, estruturar e desenvolver um texto longo com valor literário.

Frequentemente, textos e projectos de livros que leio revelam carências básicas neste capítulo, sem que os escrevinhadores tenham, aparentemente, consciência do problema.

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padre: Este é o corpo de Cristo…
legenda: O momento em que qualquer criança esclarecida percebe que a espécie humana tem problemas.

E falta de leitura é outra carência comum a muitos dos que se propõe escrever, mesmo quando escrevem segundo as boas regras da gramática.

Por tudo isto, a recomendação de Stefan Zweig pode ser óptima, mas receio que inútil para a maioria de nós.

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

A ter em conta, quando escrever…

"Queridos Mãe e Pai. Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade de me tornar uma escritora."

“Queridos Mãe e Pai: Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade que tivesse de me tornar uma escritora.”

Três tópicos para abordar a escrita de não-ficção: explicar, temperar e vaguear. Juntos ou em separado:

– a pessoa que se propõe escrever tem algo para dizer a propósito de alguma coisa, então convém que se explique ao que vai, como vai, porque vai, e outras minudências que podem incluir ainda o “porquê” ele, autor, a escrever sobre tal ou tais coisas;

– o modo como lida com o tema e outros temas que traga a propósito, o tom e o ritmo como aborda temas e como os relaciona, passando duns para outros, até à (in)conclusão final;

– a objectividade no tratamento dos temas, avançando para uma conclusão anunciada desde o início ou que o enredo vai construindo. Em qualquer dos casos acumulando factos, desenvolvendo raciocínios, citando testemunhos, estudos;

– ou a descarada subjectividade de quem fala seriamente em alhos, jamais esquecendo a importância dos bugalhos, estabelecendo afinidades, antagonismos, relacionamentos, cumplicidades, que tanto podem estar subjacentes à realidade de uns e de outros, como podem depender (quase) exclusivamente da sensibilidade de quem escreve.

Conta a experiência de vida do autor? Como não poderia contar? Para o melhor, ou para o pior, a experiência de vida de cada autor está presente de modo indelével. Até para aqueles autores moralistas, celibatários e castos, que escrevem longamente sobre as virtudes (e os perigos, claro) do amor conjugal, da vida sexual a dois, da educação da prole e outros temas assim.

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E conta, claro, a inevitável cultura, seja académica, seja bibliográfica, seja pelo convívio com outras criaturas da mesma espécie, humana ou outra. Dito de outra maneira: é preciso aprender, é preciso ler, é preciso debater. Sem dúvida, viver plenamente a vida ajuda muito. Mas isso leva a outras discussões, a começar logo pela própria pertinência e sentido desse “viver plenamente”.

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Não se trata aqui de apresentar receitas, sempre insisto em lembrar, mas de sugerir que a escrita goza duma extraordinária liberdade formal, se bem que não isente o seu autor das consequências.

Não importando agora falar das leis contra a difamação ou para proteção da moral e dos bons costumes, nada, nem ninguém, livra o autor da asneira sem o rigoroso trabalho de investigação a desenvolver pelo próprio, temperado pelo exercício saudável e profilático da autocrítica. E, mesmo assim…

Escrever como quem explica

O que torna algumas obras de não-ficção memoráveis e exemplares no seu género, não tem de ser o conhecimento especializado, mesmo quando escrito por um académico da área.

Pode ser, por exemplo, a capacidade de comunicar assuntos de imensa complexidade ou erudição de modo acessível ao grande público, sem faltar ao rigor da informação e dos dados.

Clima urso: E que tal te parece? comentário: Ele ainda não notou nada.

Clima
urso: E que tal te parece?
comentário: Ele ainda não deu conta do que se passa.

Para ilustrar com um exemplo, cito o livro Mais rápido que a luz de João Magueijo (ed.Gradiva), doutorado em Física Teórica: “A cosmologia foi durante muito tempo um assunto religioso. É espantoso que se tenha tornado um ramo da física. Que razões temos para esperar que um sistema tão complexo como o universo possa ser tratado cientificamente? A resposta irá talvez surpreendê-lo: pelo menos no que diz respeito às forças que o governam, o universo não é assim tão complexo. (…) É mais difícil descrever a dinâmica de uma ponte suspensa do que a do universo.

João Magueijo expõe problemáticas vagamente familiares ao leitor com alguma formação em ficção científica (“a matéria diz ao espaço a forma que há-de ter, o espaço diz à matéria como se há-de mover“), e põe-no a par das ideias aceites desde Einstein, das investigações e das especulações (na qual inclui a sua teoria sobre a velocidade da luz variável [a velocidade, não a luz]).

homem: É um mamute. legenda: microscópio primitivo.

homem: É um mamute.
legenda: Microscópio primitivo

A abertura do livro, por si, já é um polémico e excelente “insight” para o restrito universo da investigação científica e do mundo académico. Para ainda concluir, no final do livro: “No universo ninguém se diverte mais do que nós”.

“Nós”, os cientistas, bem entendido.

Regressando mais uma vez à primeira das Grandes Questões Existenciais…

Existem inúmeros exemplos de obras escritas por “não-especialistas” que tiveram (têm) merecido reconhecimento. E, mais uma vez, insisto: só o escrutínio crítico permite perceber se a obra tem qualidade. Esse escrutínio exige a apreciação, entre outros, de especialistas na área que o autor se propôs escrever.

Apesar de não me ter transmitido qualquer intenção de escrever sobre fósseis de dinossauros, um senhor que conheci há poucas semanas, da Lourinhã, falou-me com entusiasmo da colecção dos fósseis que recolhia quando trabalhava no seu campo agrícola.

Também me falou do espanto duma “doutora da Câmara” que lhe terá dito que ele acumulava mais exemplares num dia do que ela (e a sua equipa) durante um ano. Ainda que ele percebesse haver ali uma velada crítica, creio que nem compreendeu a ironia da “doutora”, nem as razões metodológicas que a obrigavam a ser tão menos produtiva. Por isso temo pelo dia em que este “paleontólogo” se entusiasme em escrever sobre os seus achados…

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

A verdadeira razão porque os dinossauros se extinguiram.

…E daí ao sentimento de injustiça de que “ninguém” se dê ao trabalho de falar, bem ou mal, do livro, vai um passo.

Mas com a quantidade de livros e textos publicados sobre qualquer assunto, como pode o desconhecido não-especialista atrair a atenção dos críticos e dos especialistas? Pois, não precisamos de recorrer a teorias de conspiração para responder: é mera questão retórica.

Por isso, percebo que quem escreva tenha muitas vezes o escrúpulo de se justificar quando não detém um título académico ou profissional. Se até António Aleixo justificou suas Quadras:

Peço às altas competências/Perdão, porque mal sei ler,/Para aquelas deficiências/Que os meus versos possam ter./(…)/Eu não tenho vistas largas,/Nem grande sabedoria,/Mas dão-me as horas amargas/Lições de filosofia. “

Nos acanhados mundos académicos e literários, o intruso fica exposto ao enxovalho ou ao desprezo militante. Que podem, ou não, ser merecidos.

Mas essa é a ecologia típica da selva editorial, e nem me vou estender aqui a falar da situação diametralmente inversa: a do sucesso da mediocridade e da incompetência graças à boa “crítica” dos media, à “boa” imagem mediática do autor e aos bons amigos que dão um “empurrãozinho” na promoção estratégica do autor/livro.

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questões de método ( e de princípio)

Obras de não-ficção são, por exemplo, os relatos de viagem ou ensaios temáticos.

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Alguns amáveis leitores  deste blogue estão em vias de escrever (ou já estão em fase de elaboração)  livros que se enquadram numa destas categorias e levantam questões curiosas, das quais destaco as seguintes, reformulando-as um pouco:

-é legítimo “apimentar” o relato com alguma ficção, e sendo legítimo, deve-se assumi-la como tal ou mantê-la em segredo?

-faz sentido acompanhar o relato com informação didáctica (tipo História, Geografia, Etnologia, etc)?

-a fotografia será fundamental para o “êxito” dum livro sobre viagens?

-um ensaio deve começar com a apresentação do assunto a desenvolver?

-o autor deve revelar as razões porque se dedica a tal tema, não tendo actividade académica ou profissional que o justifique?

-o autor pode, ou deve,  incluir um lado pessoal, autobiográfico, sobre um assunto mais geral? Ou, pelo contrário, deve manter uma linha objectiva no desenvolvimento do assunto, sem personalizar?

Nos próximos posts darei a minha perspectiva sobre cada questão, mas desde já antecipo a minha máxima favorita: vale tudo e nada está garantido. Na literatura, bem entendido.

"Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas."

“Num mundo cada vez mais complexo, por vezes as velhas questões exigem novas respostas.”

Neuras literárias

O tédio e a loucura surgem como dois agentes literários por excelência, com variações na melancolia, no desespero, “le mal de vivre”, etc.

“Há dias que deviam vir com um aviso:
Hoje vai ser um dia detestável, por isso larga o café e mete-te nos copos”

A loucura pode ser expressão de amores insatisfeitos: no sec.XVII, as famosas cartas atribuídas a Mariana de Alcoforado (Lettres portugaises) são um exemplo flagrante do género e que se tornou um best-seller mundial. A poesia de Florbela Espanca, no sec.XX, contém a mesma dimensão trágica e intensa.

O tédio, por sua vez, pode levar à infracção social (o adultério em Madame Bovary de Flaubert ou o Primo Basílio de Eça de Queirós). A que se pode associar os sentimentos de indiferença/afastamento/rejeição na relação com a envolvente social, inclusive familiar (ver Kafka, A metamorfose; Camus, O Estrangeiro; Bernardo Soares, O Livro do Desassossego).

Sob o olhar crítico do louco ou do entediado, as normas e hábitos sociais são absurdos e opressivos, as pessoas ditas normais não vivem a vida plenamente, por falta de coragem ou por nem disso serem conscientes, a sociedade é hipócrita.

Para um, o amor proibido seria a redenção; para o outro, não há salvação possível, mas existem paliativos, o cinismo pode ser uma defesa, a ausência de valores torna-se uma filosofia. Comum a ambos, ainda, o recurso à fuga para um mundo interior, donde o exterior é visto através duma lente muito própria.

Terrenos pantanosos para quem se inicia na escrita, mas onde também podem brilhar pérolas extraordinárias.

E voltamos à primeira Grande Questão Existencial

Porém, será necessário levar uma vida de aventuras ou empreender uma viagem longa para se escrever sobre viagens?

O velho Bilbo, no início do “Senhor dos Anéis”, abandona de vez a casa onde sempre viveu cantando que a estrada começa logo à saída da porta e segue adiante até desaparecer. Ou seja, a aventura está à distância duma passada do sítio onde estamos.

E Xavier de Maistre (1763-1852) escreveu as “Viagens à volta do meu quarto” porque, convalescente das sequelas dum duelo, fica limitado às paredes dum quarto durante 40 dias. Nessas “viagens” o humor e a reflexão misturam-se: o espelho torna-se um “objecto útil e precioso” para o viajante sedentário, as viagens que ele faz à sua biblioteca são muito superiores às do Capitão Cook pelo Oceano Pacífico.

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a viagem como metáfora

Não surpreende, assim, que viajar se torne sinónimo de “transformação”, metáfora da “iniciação” aos antigos saberes ocultos (ou perdidos).

Ou seja um modo de narrar o amadurecimento, a abertura ao mundo (na sua pluralidade, nas suas diferenças). E, também, uma mudança arriscada, indesejada, que traz perigo e ameaça a integridade, física e psicológica, do viajante.

Também  há os relatos de viagens estereotipados, seja na versão lúdica das férias na praia, seja na literatura dos mistérios de antanho em versão new age: a mistura do disparate, do preconceito cultural, do kitsch, da ignorância boçal, das pretensões eruditas, etc, etc.

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Bagagem literária

Ninguém surge do nada: quando tomamos a opção de nos dedicar à escrita, de modo mais ou menos sério, já estamos condicionados pela nossa história de vida.

Se alguém tem a felicidade de ser criado entre bibliotecas familiares (pais, tios, avós), as leituras surgem espontaneamente. De outro modo hão-de surgir mais tarde, talvez mais direccionadas para certos temas.

O importante é a tomada de consciência do processo (a formação duma “bagagem” literária), o apurar da sensibilidade, a curiosidade e, já o disse, a paixão.

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Mentiras de Um de Abril

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(…)

(Autopsicografia, Fernando Pessoa)

Muitas vezes desvaloriza-se um relato porque é “ficção”. A ficção como sendo inferior à realidade. A realidade entendida como o factual, o verdadeiro. Enquanto a ficção é do domínio da fantasia, da imaginação. Uma mentira, portanto.

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Por vezes, o autor bloqueia quando sente que não tem conhecimento suficiente para abordar certos temas. Ou, pelo contrário, porque tem e porque irá expor o que muitos amigos ou familiares não lhe perdoarão ter exposto. Se pretende escrever um texto com pretensões históricas (como o testemunho de quem viveu e participou nos factos narrados), esses são problemas sérios. Leia o resto deste artigo »

Que “gosto” tem?

O “gosto” é a própria manifestação individual da sensibilidade e bom senso (título dum livro muito popular noutros tempos), está em estreita relação com a educação familiar e o meio cultural envolvente (seja pelo seguidismo acrítico, seja pela rejeição neurótica, seja de qualquer outro modo), pode se tornar um manifesto, uma moda, uma tirania.

Tanto pode ser reivindicação de liberdade ou sujeição à maioria, como imposição dum princípio geral.

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Paixão não rima com rotina, certeza ou segurança

O que foi dito atrás sobre as paixões não é de grande utilidade para quem escreva ou pretenda fazê-lo. Não porque seja irrelevante, mas por ser daquelas matérias de estudo e reflexão que só ganham sentido se a vida for vivida plenamente. Disso fala extensamente a literatura universal, e acrescenta que se não dermos o passo para fora da casca da rotina, para o exterior da concha de certezas que nos defendem da dúvida, paixão torna-se uma palavra oca.

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Memória selectiva

Shakespeare escreveu dramas passados num suposto momento da história de Roma, com a atenção virada para os dramas contemporâneos. Não escreveu “ficção histórica”.

Tolkien escreveu narrativas a partir do material tradicional de mitos e lendas nórdicos. Não criou novos mitos, nem novas lendas.

Caeiro escreveu “O Guardador de Rebanhos” porque chegou a ser pastor em certa altura da vida, apesar de também ser um dos heterónimos de Fernando Pessoa, que era uma criatura decididamente urbana.

Que interessa a “autoridade” em qualquer um destes exemplos?

Autoridade, sim, têm milhares de militares, diplomatas, políticos e outros figurões que participaram activamente em acontecimentos que marcam as vidas de milhões de pessoas. Muitos deles deixaram, e continuam a deixar, suas autobiografias, suas memórias, suas cartas, seu testemunho, uns em jeito de defesa, outros de justificação, quase todos por terem noção de que a História talvez não lhes faça justiça.

Contudo, quantos destes livros escapam à crítica impiedosa que denuncia o facciosismo, o branqueamento, a omissão, a mentira, e todos os artifícios que lavam os pecados duma vida pública?

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A Autoridade do Autor

A “originalidade” pode ser entendida como a própria naturalidade do autor, sua perspectiva, sensibilidade, experiência de vida, percursos, aprendizagem, etc e tal, a modo das famosas “competências” dum certo discurso pedagógico. O que não é garantia de nada de bom, e até chega a ser praga.

Mas se for genuína, vinda dum impulso de comunicação temperado por algum critério estético, mesmo que pouco elaborado, a coisa pode funcionar. Leia o resto deste artigo »

Grandes Questões Existenciais

Depois do último post, seguem duas das grandes questões existenciais (GQE) que perseguem o autor:

  • Devo escrever sobre temas sobre os quais tenha algum tipo de autoridade (credibilidade) perante os outros?
  • Devo preocupar-me em ser original?

Vou tentar explicar melhor a segunda, antes de problematizar a primeira GQE. Mas fica para o próximo post.

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O tema tem algo a ver comigo?

O tema, creio que todos concordamos, é uma preocupação central. Se escrevo sobre fusíveis, parto do princípio que tenho algo a dizer por experiência própria, por ter partilhado a experiência de gente que tem algo a dizer sobre fusíveis ou, basicamente, porque é uma velha paixão (talvez, até, uma obsessão), li e estudei o assunto durante muitos anos, meses ou dias.

Quero partilhar receitas de cozinha? Não faria mal nenhum tentar perceber como outros, antes de mim, organizaram livros de culinária…será que escrevem só receitas de bacalhau sob um título e as receitas de carne de porco aparecem num outro livro? Ou há quem misture culinária com alimento espiritual, tipo new age?

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