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Tag: ficção

contar estórias

Sem ofensa: um escrevinhador tem de saber contar estórias, mentirinhas, apropriar-se de narrativas alheias e dar-lhes ‘uma volta’. Inventar, claro. Sobretudo reinventar.

O nosso Cervantes—continua falando Mairena aos seus alunos—não matou, porque já estavam mortos, os livros de cavalaria, senão que os ressuscitou (…). Do mais humilde propósito literário, a paródia, surge—que ironia!—a obra mais original de todas as literaturas. (1)

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Mesmo a literatura académica, séria, científica, tem saborosos exemplos de anedotas reais e relatos de fraudes fabulosas, ou comentários irónicos, capazes de forçar o sorriso ao mais sisudo leitor. Ou episódios simplesmente lastimáveis…

No dia 13 de dezembro (…) saí do carro pelo lado errado e atravessei a Quinta Avenida sem me lembrar de que na América conduzem do lado contrário ao do meu país e sem obedecer ao semáforo vermelho, coisa então desconhecida na Grã-Bretanha. Fui violentamente atropelado e durante dois meses fiquei praticamente inválido. (2)

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DOUTOR JESUS: -Desculpe, mas não posso curá-lo. Você tem um condição pré-existente.

Em verso ou em prosa, o escrevinhador distingue-se por essa extraordinária capacidade de dar a sentir experiências alheias ou imaginárias, sentimentos muito pessoais, emoções fingidas que deveras sente. Através da escrita, obviamente.

Doces galleguiños aires,/(…)/ alegres compañeiriños,/ rum-rum de toda-las festas,/ levái-me nas vosas alas/ como unha folliña seca (3)

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O único escrúpulo será o de não se levar demasiado a sério, a ponto de confundir a verdade do texto com a opaca realidade.

Parece-nos impossível que para os nossos filhos seja já passado irrevogável e desconhecido aquilo que para nós é ainda presente árduo. (4)

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Excepto se tiver pretensões de contar histórias sobre pessoas reais no seu tempo e na sua circunstância, assumindo a intenção de se restringir a documentos, testemunhos e coisas assim: o leitor tem todo o direito de se sentir burlado ao perceber que o escrevinhador é incompetente para tal pretensão ou, pior ainda, um desenvergonhado manipulador. Essa coisa de confirmar se os alegados factos, documentos, testemunhos, são fidedignos, é uma obrigação de que só está isenta a informação nas redes sociais.

—As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se  —disse Polo—  Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco. (5)

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‘PLACEBO-dose máxima’ tão eficaz quanto os melhores tratamentos homeopáticos 16 cápsulas

É como uma espécie de contrato entre o escrevinhador e o leitor, pese embora a flexibilidade com que um e outro possam interpretar as cláusulas não-escritas, nem negociadas.

(…), acreditem nossos leitores todos, que nem uma vírgula se lança neste parágrafo que não seja unicamente ditada pelo interesse público, nosso único móvel. A ninguém, absolutamente a ninguém queremos ofender, (…). (6)

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Dito isto, quantos clássicos da ficção literária universal não se apresentam como escrituras verídicas, senão sagradas?

—Gilgamesh, vou revelar-te uma coisa oculta, vou confiar-te um segredo dos deuses. Foi em Shuruppak, (…) cidade já antiga que aos deuses agradava morar, onde os grandes deuses tomaram a decisão de provocar o Dilúvio. (7)

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cartoon de El Roto

Quando bem escrito, vale tudo realmente.

(…), ela levantou-se em silêncio e arranjou botas de sete-léguas, pegou numa varinha mágica e num bolo com um feijão que dava resposta para tudo. Depois ela fugiu com o príncipe. (8)

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(1) in Juan de Mairena de Antonio Machado, ed.Alianza Editorial

(2) in Memórias da Segunda Guerra Mundial de Wiston Churchill, trad.Manuel Cabral ed.Texto Editores

(3) in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, Ediciones Cátedra

(4) in Danúbio de Claude Magris, trad.Miguel Serras Pereira ed.Quetzal

(5) in As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, trad.João Colaço Barreiros ed.Teorema

(6) in Doutrinação Liberal (textos escolhidos de 1826 a 1827) de Almeida Garrett, ed.Publicações Alfa

(7) in Poema de Gilgamesh tábua XI, tradução para castelhano de Federico Lara Peinado, ed.Tecnos

(8) Os contos populares e de fadas originais dos Irmãos Grimm, traduzidos para o inglês por Jack Zipes ed.Princeton University Press

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Sem musa e sem paixão escrevem-se livros?

Há quem escreva para poder cumprir o fado de ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore. Se ter um filho é um acto de consequências previsíveis e imprevisíveis e plantar uma árvore é sempre um benefício, escrever um livro tanto pode causar muito mal como algum bem.

-Uma vez descobri uma partícula assim de pequena. -Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!

-Uma vez descobri uma partícula assim pequenina.
-Ah foi? Pois eu, uma vez, escrevi um livro deste tamanho!                                                                                             BASÓFIAS NO LAR DOS FÍSICOS E ESCRITORES IDOSOS

O problema é escrever sem paixão (o que também se poderá dizer de ter um filho, evidentemente). Mas a paixão não é uma condição, somente um benefício.

Lima Barreto, no início do sec.XX, comentava assim os círculos literários cariocas que frequentava:

(…) uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopeia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal (in Diário Íntimo de Lima Barreto)

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Se o candidato a escrevinhador sente a comichão de um tema e a vontade em o desenvolver, não precisa de autorização superior para deitar mãos à obra. E se conseguir desenvolvê-lo com alguma extensão, profundidade e elevação, a ideia passa a ter as necessárias três dimensões para se tornar um objecto apreciável.

Poesia ou ficção sem paixão não deve ser fácil, mas com algum entusiasmo ou motivação fazem-se coisas.

Mais acessível para aqueles que não se sentem arrebatados pela musa, são os estudos e monografias, memórias e relatos, trabalhos escritos que exigem, principalmente, conhecimento do tema e técnica expositiva.

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Aí o escrevinhador cruza as fronteiras nebulosas da literatura e entra em domínios mais rigorosos, sujeitos a outro tipo de escrutínio: rigor, fundamentação, lógica, entre outros requisitos.

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Ah, vocabulário adequado e gramática limpinha também ajudam.

A ficção é tão real quanto a verdade

A vida do escrevinhador é dura, sem dúvida. E não é justa, a maioria das vezes: pode ter o plano da obra ao pormenor, tempo e condições, força de vontade para dedicar horas, dias e semanas consecutivas e, entretanto, nada do que escreve o satisfaz. Excesso de rigor para consigo mesmo? Pode ser.

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Ou, simplesmente, falta-lhe paixão. O trabalho da escrita é isso mesmo: trabalho, e nota-se quando a aplicação é metódica, mecânica, certinha, limpinha. Ora, a paixão exige desequilíbrios e vertigens. Eventualmente. Porque, na literatura, como na paixão, nada é certo.

Daiquiri

E vale tudo, como no conto de Borges Emma Zunz. A personagem Emma Zunz elabora uma ficção para atingir certos fins na vida real: vingar o pai, apresentando-se como vítima daquele que ela mesma matou. O morto, e verdadeira vítima, ‘era, para todos, um homem sério;(…)Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto que o eximia de agir bem a troco de orações e devoções.’(in O Aleph de Jorge Luis Borges, ed.Estampa 1988, trad.Flávio José Cardoso)

Ora, a ficção que Emma concebeu para matá-lo em legítima defesa ‘era incrível, com efeito, mas impôs-se a todos,pois substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas algumas circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.’

Hostia

Escrever como quem conta um conto e acrescenta um ponto (omitindo dois ou três).

A fala de um homem mau

Escrever sobre um período histórico e desenvolver um enredo onde a ficção e a realidade se cruzam, confrontando pessoas concretas com outras imaginadas, factos e episódios reais e incontestáveis enredando-se com outros incertos ou claramente inventados, é sempre um desafio estimulante para o escrevinhador.

Por exemplo, um enredo em que vítimas, opositores e cúmplices têm voz através das personagens que intervêm ao longo da narrativa, exprimindo directamente seu juízo sobre certo ditador, figura histórica e bem documentada.

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Este último facto pode ser útil ao autor, mas obriga-o a um rigoroso exercício de verosimilhança, que não é mais do que uma restrição à liberdade criativa, se é que há pretensão de respeitar a verdade histórica.

Porém, a ‘verdade histórica’ tem sempre áreas de sombra, sequências cronológicas obscuras, testemunhos contraditórios cuja elucidação não é fácil, o que dá origem a narrativas históricas mais ou menos contrastadas e polémicas, ou seja, interstícios de sombra e luz que a ficção pode recriar.

Na Festa do Chibo de Mário Vargas Llosa (ed.Dom Quixote), o autor sonda os meandros da personalidade dum homem a todos os títulos brutal e repugnante, dotado dum poder (quase) absoluto há várias décadas.

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E fá-lo dando-lhe a ele, ao homem brutal e repugnante, voz activa. Não para se condenar e pedir perdão, nem para se defender e apresentar atenuantes. Também não para se justificar e dar uma versão gloriosa dos seus actos.

Muito menos para fazer dele uma marionete de ventríloquo, e assim o autor comprometê-lo de modo ostensivo, de acordo com a personagem odiosa que a história e a memória popular retiveram.

O que Vargas Llosa faz é um artifício literário típico: a personagem pensa ‘em discurso directo’, permitindo-nos acompanhar todo o fio dos seus pensamentos, na verdade, os fios dos pensamentos, que se enovelam ao longo do tempo, num processo que é familiar a qualquer ser pensante e reflexivo. Como o leitor é suposto ser.

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Viajar é preciso

Já é uma tradição antiga desconfiar da veracidade do conteúdo dos livros de viagem, senão na totalidade, pelo menos de certas passagens aparentemente fabulosas. O que é tanto mais extraordinário nas épocas em que o mito, a religião e a lenda se cruzavam indiferenciadamente no conhecimento histórico e geográfico da época.

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O trabalho de autores escrupulosos e a necessidade prática de usar esses relatos para futuras viagens terá aguçado o espírito crítico destas leituras. Porém, se já faz algum tempo que se torna inverosímil relatar que em determinadas zonas da Terra existem dragões ou homens sem cabeça, outros problemas se colocam na apreciação da literatura de viagem.

Nomeadamente preconceitos sexistas, etnocêntricos, racistas, entre outros, distorcem de maneira mais ou menos evidente factos e observações, graças à peculiar lente pela qual o observador narra suas viagens. O termo “orientalismo” foi crismado por Edward Said para criticar o olhar europeu (ou Ocidental) sobre outras culturas e povos.

Daí ser legítimo perguntar que necessidade terá o autor dum livro de viagens de acrescentar alguma ficção, mesmo que de modo evidente e assumido. Tornar a leitura mais interessante? Certamente, mas porque não tornar interessante, ou mais interessante, o relato propriamente dito?

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É como se fosse preciso viajar até aos antípodas e visitar aldeias de canibais para se poder escrever sobre alguma coisa que motive a leitura. De facto, o mundo está cada vez mais pequeno, somos cada vez mais os que viajamos entre continentes, todos temos histórias sobre os mesmos sítios exóticos. E fotos e vídeos para ilustrar.

Aí está um desafio para quem escreve sobre suas viagens: abordar o já conhecido por um ângulo diferente, com a sensibilidade própria, sem com isso ceder ao preconceito. O facto de se fazerem certos percursos de comboio, de bicicleta ou à boleia já marca uma diferença em relação ao automóvel ou ao avião; a interação com os outros é sempre diferente de pessoa para pessoa, conforme todos nos podemos aperceber na nossa vida quotidiana. O sentido de observação, o humor, a cultura, fazem a diferença entre relatos sobre a mesma realidade.

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Admito que certos roteiros possam desviar o autor para um registo mais confessional, introspectivo, levando-o a fantasiar (seja sobre uma pedra enorme na encosta dum monte, seja sobre o brilho dum sorriso que se cruze com ele no caminho), e que a escolha de certos temas de viagem (o Caminho de Santiago, a vida desta ou daquela personalidade das artes ou da história, os bares de praia da costa algarvia) seja um incentivo a divagações e porque não? a ficções.

Se, a páginas tantas duma viagem de comboio, o autor acorda entre duas estações e, à sua frente, estão sentados uma bela rapariga ou um senhor distinto e impecavelmente vestido que, em ambos os casos, lhe prometem uma série de benesses em troca duma gota de sangue para firmar um contrato, porque hei-de duvidar, por um instante que seja, da verdade desse relato? Haverá alguém a quem não tenha acontecido algo semelhante?

“Se não é verdadeiro…está bem contado”

Relatos de viagem, crónicas e memórias de tempos vividos (ou ouvidos da boca dos seus protagonistas), autobiografia/biografia, tudo isto são narrativas supostamente de não-ficção, mas podem ser estruturadas como uma narrativa ficcionada: tema, enredo, personagens, ritmo, tempo, desfecho, propósito, tudo elementos que podem estar presentes para auxiliar quem escreve a alinhar os factos e a quem lê acompanhar com interesse.

O que faz a diferença, o que credibiliza essa narrativa na sua pretensão de se ater à “verdade”, está na revelação de fontes, documentos, testemunhos, através de fotos, cartas, registos oficiais, pessoas, locais. Que é a marca d’água da transparência, da honestidade, permitindo que tudo o que está ali escrito seja confirmado por qualquer leitor interessado. E daqui abrem-se as vias para a saudável, desejável polémica. O famoso contraditório, como agora se usa dizer em jargão jurídico-jornalístico.

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Frequentemente, o escrúpulo do autor em apresentar documentação e em manter um relato objectivo, torna a leitura desinteressante para o leitor comum, ainda que útil para os investigadores.

Muitas outras vezes, nem há escrúpulo, nem qualquer pretensão de objectividade, construindo-se uma narrativa que, também por isso, é enfadonha. E por muitas verdades que sejam ditas, o leitor pode se reservar o direito de duvidar de tudo o que lê: primeiro, porque não tem como confrontar afirmações e alegados factos; depois, porque pode legitimamente desconfiar do tom, da perspectiva assumida, do preconceito que o autor manifesta, sem jamais reconhecer.

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Finalmente, há livros (ou textos) que não importa se o que relatam é verdadeiro, aplicando-se-lhes o clássico juízo: ” se non é vero…é ben trovato”. Valha-nos isso!

A escrita de ficção e a escrita de não-ficção serão assim tão diferentes?

Às vezes sou agradavelmente surpreendido com a leitura dum livro que me impressiona de diversas maneiras: traz um assunto radicalmente novo para mim, dá informação suficiente para me informar e poder documentar posteriormente, prende a atenção com o ritmo da narrativa, balançando a natural expectativa do resultado final com as peripécias do protagonista, e concluindo de modo a não só não decepcionar, como a motivar-me a saber mais sobre o tema.

Mundo Monstro

Posso estar a referir-me a um livro de ficção como Nome da Rosa de Umberto Eco: o tema das grandes abadias medievais e o seu papel na preservação de livros antigos, através do custoso trabalho dos monges copistas, a que se associa um livro perdido de Aristóteles sobre o riso, do qual só podemos especular o conteúdo.

Outro tema, menos explícito mas fundamental, é o da força extraordinária das ideias e do conhecimento sobre as paixões dos homens eruditos (e aparentemente cerebrais, racionais). Ou vice-versa.

Mas também posso referir um outro livro, sem ser de ficção ou ter pretensões literárias, em que o autor relata como, no decurso das suas actividades profissionais na Etiópia do anos 80 do sec.XX, foi tomando conhecimento das tradições religiosas e míticas desse país, visitando monumentos históricos e localidades (The Sign and the Seal, de Graham Hancock, que em Portugal foi traduzido sob o título Em busca da Arca da Aliança)

Tempos depois, já na Europa,  Graham Hancock decide regressar à Etiópia (mas em circunstâncias dramaticamente diferentes) para aprofundar a investigação que, entretanto, todo aquele conhecimento lhe suscitara. E o livro prossegue numa excitante mistura de aventura, conhecimento e expectativa, abrindo ao leitor novos horizontes, abordando a história antiga e recente dum país algo remoto, senão mesmo desconhecido. Tudo isto através duma narrativa cuidada, dinâmica e estimulante.

No Nome da Rosa, o autor constrói um cenário, um enredo e seus personagens, tendo como base temas “pesados”, demasiado afastados das preocupações e sensibilidades comuns: filosofia antiga e medieval, história medieval, mentalidades, usos e costumes de monges medievais. Alguém acredita que o autor deste livro terá alguma vez tido a ousadia de sonhar que viria a ser um best-seller?

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No Em busca da Arca da Aliança, o autor “limita-se” a relatar o que se passou em determinada altura da sua vida, dando-nos o contexto pessoal e o do país, utilizando como técnica “obrigar” o leitor a acompanhá-lo na sua busca, partilhando dúvidas e perplexidades, sua ansiedade, seus pensamentos, fazendo o leitor escutar os diálogos que teve em certos momentos e levando-o a ver o que seus olhos viram, tudo numa sequência cronológica normal.

E como estamos a falar da Etiópia, de sua história, religiões, mitos e tradições, em que abundam mosteiros, livros e monges, também nos podemos questionar sobre a sanidade mental do seu autor (para não falar do editor), ao acreditar que um livro assim poderá ter algum interesse para além de meia-dúzia de leitores algo estranhos.

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Antes de se tornar um grande filósofo, Descartes trabalhou para o sector público.
Legenda no mapa: “Você está aqui, logo você existe.”

A bem dizer, e sem faltar à verdade…

Poesia e ficção à parte, a composição dum livro que relate factos, acontecimentos, memórias, pessoas de carne e osso, é muito menos exigente do ponto de vista literário, mas rigorosa no escrúpulo em dizer a verdade.

Para complicar, apetece-me perguntar de seguida: será a realidade mais verdadeira do que a ficção? E o discurso objectivo mais real do que o poético?

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Abrir parênteses. Atenção, leitor apressado ou acabado de chegar a este blog: quem escrevinha estas linhas é mais do jeito de lançar pedras ao telhado do vizinho do que de levantar alicerces em terreno firme.

Outra forma de dizer que tem como objectivo problematizar, mas não o de dizer como se faz isto ou aquilo. Fechar parênteses.

Uma analogia clássica é a da verdade da fotografia. Esta retrata a realidade tal qual é, sem artifícios, tal como a capta o olho humano. Será mesmo? E se assim é, o que dizer da fotografia animada (vulgo cinema)?

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Ou seja, e este é o meu ponto: quem pretende escrever sobre determinado assunto ou determinado acontecimento/pessoa, poupa-se às canseiras e desafios a que se submete o escritor duma narrativa ficcionada?

Sim, claro, evidentemente. Ou muito pelo contrário, na verdade.

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Mentiras de Um de Abril

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(…)

(Autopsicografia, Fernando Pessoa)

Muitas vezes desvaloriza-se um relato porque é “ficção”. A ficção como sendo inferior à realidade. A realidade entendida como o factual, o verdadeiro. Enquanto a ficção é do domínio da fantasia, da imaginação. Uma mentira, portanto.

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Por vezes, o autor bloqueia quando sente que não tem conhecimento suficiente para abordar certos temas. Ou, pelo contrário, porque tem e porque irá expor o que muitos amigos ou familiares não lhe perdoarão ter exposto. Se pretende escrever um texto com pretensões históricas (como o testemunho de quem viveu e participou nos factos narrados), esses são problemas sérios. Leia o resto deste artigo »