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A palavra, o texto e a escrita

Não tenho como evitá-lo, logo insisto: ler é fundamental.

(…) publicavam-se inúmeros romances de conversa de anatomia social, cavavam-se galerias sob a arte de bem redigir, para apresentar a plebe com seus calões e os seus vícios de linguagem. (…), fazia-se um autor dum pequeno aventureiro que começava a despertar para as experiências (…). (1)

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Quando o bom leitor (e já adiantei o que entendo por isto aqui e ali, com as devidas ressalvas) se torna escrevinhador, os resultados podem ser catastróficos. Mas mais facilmente acontece o mesmo ao mau leitor ou não-leitor, como se pode rapidamente confirmar nos escaparates das livrarias das grandes superfícies ou dos postos de correios.

O nosso primeiro movimento, para ajuizar do valor de um livro, ou de um homem, ou de uma música, é perguntar-nos: “Sabe caminhar? Melhor ainda: sabe dançar?” (2)

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Só posso crer num deus que saiba dançar!

As vantagens da boa leitura para a escrita podiam limitar-se à percepção do valor daquilo que é escrito pelo próprio e já bastava. Felizmente, há mais do que isso.

—Ora pois, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter?

—Não consentiremos de maneira nenhuma.

—Logo, deveremos começar por vigiar os autores de fábulas, e seleccionar as que forem boas, e proscrever as más. (3)

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Porém, a sensibilidade ao valor da palavra e à sua tecelagem, seja em forma oral, seja por escrito, é algo que não se limita à leitura e exige, até, bom ouvido e alguma reacção epidérmica. Ou seja, tem qualquer coisa de musical e a poesia é a sua formulação mais óbvia, tradicional. Independentemente do que é dito, o modo como é dito é o que nos interessa aqui. Formalismo? Sim, claro e, todavia, não. Rotundamente não.

Depois fiz muitas cantigas, de dança e de rua/ para judias e mouras e para namoradeiras,/ para tocar em instrumentos melodias conhecidas:/ o cantar que não sabes, escuta-o às cantadeiras./ Cantares fiz alguns, daqueles que dizem os cegos/ e para estudantes que andam nas noitadas, (…) (4)

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A construção do texto não é arbitrária, como dolorosamente constatei nos compêndios de gramática dos meus anos de escola, e é por demais evidente quando se lê coisas escritas por escrevinhadores que pecam por não ler e, pior ainda, por não ter ouvido. Pois muito analfabeto foi responsável pela elaboração de textos literários excepcionais, principalmente em sociedades onde a produção escrita era inexistente ou quase.

“A tinta de escrever é um líquido com que a gente suja os dedos quando vai fazer a lição. (…) e uma coisa que eu não sei é como um vidrinho de tinta tão pequeno pode ter tanto erro de Português.” (5)

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Quando se passa da oralidade à escrita, tudo é evidente: os erros tornam-se flagrantes, a dissonância indisfarçável.

O nosso professor de francês nasceu no Minho e, até em francês, trocava os vvvvvvv por bbbbbbb. (6)

'I can't read this, you must write more clearly.' - 'If I did that, you'd see all my spelling mistakes.'

‘Não consigo ler isto, tem de escrever de modo mais claro.’ – ‘Se o fizesse, ia notar todos os meus erros de ortografia!’

Daí que a escrita exija tempo e prática regular, não dispensando a leitura dos textos bons (principalmente) e de todos os outros (para perceber as diferenças). Com o tempo, o escrevinhador (-leitor) percebe intuitivamente que existem vários modos de dizer te amo ou que a adjectivação pode ser como a cor de certas gravatas amarelas. A prática, essa, poderá levá-lo a aprender com os erros e a resistir à tentação de ir ao encontro do que julga ser o gosto dominante, sem cair no facilitismo da ‘originalidade’.

Amor, Amor, um hábito talhei para mim/ do vosso pano, vestindo-me o espírito;/ no vestir, muito largo o senti,/ e bastante apertado, quando sobre mim se ajustou. (7)

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Com a idade e a experiência do mundo, o escrevinhador talvez venha a decifrar o esfíngico enigma: vale tudo e nada é garantido. Literariamente falando, é claro.

Deixa dizer-te os lindos versos raros/ Que foram feitos para te endoidecer! (8)

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(1) in A Muralha de Agustina Bessa Luís, ed.Guimarães Editores

(2) in A Gaia Ciência §366 de Frederico Nietzsche, trad.Alfredo Margarido ed.Guimarães & Cª

(3) in A República de Platão, trad.Mª Helena da Rocha Pereira ed.Fundação Calouste Gulbenkian

(4) in Libro de Buen Amor do Arcipreste de Hita, org.José Luis Girón Alconchel, ed.Castalia

(5) in Conpozissõis Infãtis de Millôr Fernandes, ed.nordica

(6) in Calçada do Sol de José Gomes Ferreira, ed.Moraes

(7) ‘LXXVII’ in Poesies de Ausiàs March, ed.Barcino

(8) ‘Os versos que te fiz’ in O Livro de Soror Saudade-Poesia Completa de Florbela Espanca, ed.Bertrand

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Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Escrever como e para quem?

Escrever como quem vai ao encontro de gostos e preferências alheios, tentando agradar, é um objectivo legítimo e básico para o marketing do produto literário ou, mais propriamente, editorial. Pode o escrevinhador desdenhar este esforço ou jamais assumi-lo, mas a escrita não é um sacerdócio, não tem de ser uma paixão e muito menos um acto moral (tipo 10 Mandamentos).

Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea: é ela que faz os nossos romances. (1)

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Aventuras da vida real: ‘físico nuclear e notário: profissões que ninguém percebe o que andas a fazer’.

Provavelmente, a prática jornalística tem sido responsável pelo mais profundo, vigoroso e controverso debate teórico sobre os modos de escrever bem, respeitando os factos (neste caso, a ficção é fraude), agradando aos leitores e esforçando-se por os sensibilizar, interessar, mobilizar e, principalmente, informar. O compromisso ético do escrevinhador-jornalista para com o leitor é essencial por uma questão de credibilidade, sem a qual a informação passa a ruído, desinformação, manipulação, etc.

Todos os pensamentos que referi e muitos outros me ocorreram ao presenciar as acções e os divertimentos que os meus pastores e todos os demais daquela costa cometiam, tão diferentes dos que, segundo ouvira ler, praticavam os pastores de todos aqueles livros (2)

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Já o escrevinhador que compõe um texto assumidamente ficcional não tem de ser credível. Quando muito, basta-lhe ser verosímil. Se tenta agradar, se vai ao encontro dos tais gostos e preferências alheios, pode fazê-lo pela escolha dos temas, pelo recurso a enredos claros com personagens bem definidas, escrevinhando com um nível de linguagem acessível. O trabalho do editor será sempre nesse sentido: adequar o ‘produto-livro’ aos potenciais leitores (o que envolve aspectos menos literários como a capa e outros muito literários como o título).

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. (3)

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Sempre existiu essa pressão sobre o escrevinhador com pretensão de publicar, mais ainda se quer fazer disso fonte de rendimento. E não é por isso que a sua obra se torna literariamente medíocre ou desinteressante, embora o risco seja maior do que se escrevesse com paixão, obsessão ou outra motivação muito pessoal. Porém, estas motivações também não são garantia de qualidade.

Somos contos contando contos, nada.(4)

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

O meu papá diz que se eu receber 1 milhão de likes eu posso voltar

Assim, talvez seja de seguir uma via do meio, que expresse a vertigem interior do escrevinhador de modo a conciliá-la com aquilo que seja a mundividência do comum dos potenciais leitores. Um exercício sempre problemático, incerto e discutível, claro. Como se o escrevinhador seja uma espécie de feiticeiro que convoca os (seus) demónios para seduzir leitores conhecidos e desconhecidos.

Com que lanterna seria preciso, aqui, procurar por homens que fossem capazes de um mergulho interior e de um abandono puro ao gênio e tivessem a coragem e força suficientes para invocar demônios que fugiram de nosso tempo! (5)

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Não há receitas (na verdade, há muitas!), mas o escrevinhador que seja um bom leitor estará melhor preparado para entender isso. De resto, de pouco lhe valerá o esforço num mercado literário que privilegie o mais estereotipado dos produtos. Se, pelo menos, lhe proporcionar a satisfação de ter escrito algo de que se orgulhe, já não é tudo mau.

(…) há uma tentativa de poesia nova, — uma expressão incompleta, difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda não é o futuro, não é já o passado. Nem tudo é ouro nessa produção recente; e o mesmo ouro nem sempre se revela de bom quilate; não há um fôlego igual e constante; mas o essencial é que um espírito novo parece animar a geração que alvorece, o essencial é que esta geração não se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que verdadeiramente acabou. (6)

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um dia de trabalho.

-Um mau dia caminhando sem sentido num território estranho e provavelmente hostil é melhor do que um bom dia de trabalho.

Isso, e cultivar a esperança de que a posteridade o redimirá…

Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha. (7)

Túmulo do escritor desconhecido 'o FIM'

Túmulo do escritor desconhecido
‘o FIM’

(1) in Modelo de polémica portuguesa de C. Castelo Branco ed. Lello e Irmão

(2) in Novela e colóquio de Cipión e Berganza de Miguel Cervantes trad.Virgílio Godinho ed.Verbo

(3) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Rocco

(4) in Nada fica de Ricardo Reis

(5) in David Strauss: o Devoto e o Escritor de Frederico Nietzche Trad. de Rubens
Rodrigues Torres Filho Ed. Nova Cultural

(6) in A Nova Geração de Machado de Assis ed. Nova Aguilar

(7) in  A Filinto de M.M. Barbosa du Bocage

E agora algo completamente diferente *

*título de um famoso sketch dos Monthy Python

Pondo de lado os diversos tipos de censura literária e os critérios editoriais, a actividade literária tem evoluído para a dessacralização das regras, a liberdade de opção estética, o direito a escrever como o escrevinhador entende. Inclusive o de versejar com parâmetros métricos ou formais consagrados, anacrónicos ou outros.

Pode-se dizer e, por conseguinte, escrever seja o que for sobre seja o que for. Raramente nos detemos para observar ou confirmar este lugar-comum. Mas habita-o uma enigmática desmesura.(1)

É nesse sentido que formulo a expressão vale tudo e nada é garantido. O ‘nada’, bem entendido, é a receptividade do texto, o seu sucesso entre críticos, editores ou leitores. Ou a esperança de que uma posteridade ofendida vingará a memória do escrevinhador ignorado no seu tempo.

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

-Porque é que ninguém reconhece a minha genialidade?

Vingança póstuma, aliás, ameaçada pela produção (e publicação) massiva de textos com pretensão literária. E a poesia, na minha limitada percepção, é a fórmula literária mais popular actualmente, como era há 500 anos atrás.

Se nada o limita, se nada tem a perder, porque há-de o escrevinhador abafar sua criatividade?

-Para teu bem, é melhor que o que vais dizer seja realmente importante!

-Para teu bem, é bom que o que tenhas a dizer seja realmente importante!

Agora vou escrever ao correr da mão: não mexo no que ela escrever. Esse é um modo de não haver defasagem entre o instante e eu: ajo no âmago do próprio instante. Mas de qualquer modo há alguma desfasagem.Começa assim: como o amor impede a morte, e não sei o que estou querendo dizer com isto.(2)

Existe uma componente experimental na escrita, a nível do estilo, do tema, do enredo, até da própria linguagem e grafismo, que, por natureza, tende a aperfeiçoar com a persistência e o tempo. Se isso não acontecer, desista, caro escrevinhador: o seu caminho não é por aí.

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(a respeito da poesia pode ainda dizer-se:—A lâmpada faz com que se veja a própria lâmpada. E também à volta.) 

(Evita as tentações da teoria: o poema é uma coisa veemente e frágil. E não é frontal, mas insidiosa.) (3)

E como calibrar critérios de ‘perfeição’ numa via experimental? Seduzindo leitores, parece-me óbvio. Mas pode alguém seduzir se não estiver, por sua vez, seduzido por aquilo que faz?

O pior é que pode, o excessivo rigor ou a simples insegurança não impedem que se escreva textos gloriosos que o próprio escrevinhador tentará destruir, quantas vezes com êxito. Recorde-se o caso clássico do poeta Virgílio: deixou indicações escritas para que a obra-prima Eneida fosse destruída (eventualmente por estar a morrer e ter deixado a obra sem o desenvolvimento previsto, nem as revisões necessárias).

LIVROS RAROS "Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade."

LIVROS RAROS
“Procuro por algo que não tenha sido escrito por uma celebridade.”

…E enquanto mantiverdes ainda, seja no que for, vergonha de vós próprios, não sereis capazes de ser dos nossos.(4)

Ora, torna-se pedagógico para o próprio escrevinhador desenvolver experiências, fugir às rotinas técnicas, temáticas e outras.

Deste modo torna-se consciente dos seus limites e percebe melhor aonde pode ir, se tentar.

Acima de tudo, a meu ver, torna-se crítico de si mesmo, nomeadamente das fórmulas estereotipadas como estrutura as ideias, como formata a sua expressão, o próprio vocabulário.

O que atrai o escritor, o que agita o artista, não é directamente a obra, é a sua busca (…). Daí que o pintor a um quadro prefira os diversos estados desse quadro. E o escritor muitas vezes deseja não acabar  quase nada, deixando no estado de fragmentos cem narrativas cujo interesse consistiu em terem-no conduzido a certo ponto.(5)

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO "A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito."

LIVROS MADRUGADA DE OUTONO
“A boa notícia é que tu escreves sobre o que sabes. Infelizmente, não sabes muito.”

(1) in Presenças Reais de George Steiner ed.Presença trad.Miguel Serras Pereira

(2) in Água Viva de Clarice Lispector ed.Nova Fronteira

(3) in Photomaton & Vox de Herberto Helder ed.Assirio e Alvim

(4) in A Gaia Ciência de Frederico Nietzsche, ed.Guimarães & Cª, trad.Alfredo Margarido

(5) in O Livro Por Vir de Maurice Blanchot ed.Relógio d’Água trad.Maria Regina Louro

A ambiguidade inequívoca

Habituados os leitores à exaltação da virtude da Verdade e da Certeza na vida social pública e privada, muito mais ainda na esfera política e económica, compreendo que fiquem alguns escrevinhadores perplexos com a insistência com que neste blog se propõe a ‘ambiguidade’ como valor literário e critério de avaliação do texto e do enredo.

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Atribuir às palavras uma correspondência com “as coisas de fora”, vê-las e usá-las como algo que representa a “realidade” do mundo, não é apenas uma ilusão comum. Torna também a linguagem uma mentira. (in Presenças Reais de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed. Presença)

Já noutros posts se falou algo sobre isso, mas creio nunca ser demais caracterizar o ‘literário’ como o exercício da ambiguidade. Não como um ‘vício’ da linguagem (ou de carácter), mas como expressão da polissemia das palavras, dos potenciais sentidos duma frase.

Poema de geometria e de silêncio/Ângulos agudos e lisos/Entre duas linhas vive o branco (‘Poema’ in Coral de Sophia de Mello Breyner, ‘Obra Poética’ ed.Caminho)

Este é um dos ‘segredos’ da poesia: mesmo sob o rigor formal da composição, sua liberdade de interpretação escapa ao próprio escrevinhador a partir do momento em que o leitor a lê.

'I'm a divorce lawyer. That helps a lot because as a sideline, I'm writing love poems.'

‘Sou um advogado especializado em divórcios. Isso ajuda-me muito porque também escrevo poemas de amor.’

A ambiguidade também pode ser vista como técnica de construção das personagens, dando-lhes espaço para afirmar a ‘sua’ verdade sem serem agrilhoadas a uma tipologia que as empurre para o lado dos ‘bons’ ou dos ‘maus’.

Que te disse pois, outrora, Zaratustra? Que os poetas mentem demasiado? E contudo o próprio Zaratustra é poeta. Acreditarás agora que ele tenha , neste ponto, falado verdade? E, se assim é, porque o acreditas? (in Assim falava Zaratustra de Frederico Nietzsche trad.Carlos Grifo Babo ed.Presença)

E, deste modo, estendendo-se a ambiguidade ao próprio enredo.

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A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio: essa é que é a regra do rei! O senhor…Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira)

Todavia, a ambiguidade é a própria medida da capacidade de interpretação do leitor. Como se o acto de criação não terminasse com o fim da escrita.

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O que leva a outro tópico do post anterior: as cidades antigas e as marcas de exploradores ‘num mundo sempre novo por explorar’.

‘Ano novo, vida nova’

O título deste post é o característico estereótipo, daí manter as distância graças ao uso das aspas. Começar de novo, fazer tábua rasa do passado: outras expressões estereotipadas e populares que podem não ser de grande valia, excepto como manifestação de um desejo, dum sentimento inconformista (mesmo que inconsequente), da insatisfação perante a vida, etc. Não são de grande valia?! Isso já depende…

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A vantagem do escrevinhador é que tudo isto é matéria-prima para ‘qualquer coisa’, e relembro estas linhas:

Há alguns anos, não interessa quando, achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. (…) principalmente quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua, percebo então que chegou a altura de voltar para o mar (…)’

(in Moby Dick de Herman Melville, ed.Relógio d'Água, trad.Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves)
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Bons tempos em que o mundo era grande e os mapas tinham enormes extensões brancas por assinalar. Porém, ao escrevinhador do ano de 2014 não faltarão recursos para ‘voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas‘, seja na versão radical de sair pelo mundo fora (que pode ser o trivial mundo para lá da porta de casa), seja pelos espaços infinitos da sua biblioteca, da memória e da imaginação (ok, e da internet também!).

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Pessoalmente, o tema das viagens é do mais apelativo que conheço, e por aqui e por ali já falei alguma coisa disso. Aproveitando o tema de Dezembro associado à ‘renovação’, em que se costuma fazer a lista das x coisas a realizar no próximo ano, que posso sugerir a um escrevinhador à procura dum tema, duma inspiração, duma mudança (no estilo, no tema)?

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante -Hum. -Hum. Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

A Arte da Conversação licção 6: ser interessante
-Hum.
-Hum.
Não consegues? Vai e vive um pouco e depois tenta de novo.

Já dizia o sábio que ‘nada há de novo debaixo do Sol‘*, o que pode ser profundo e merecer reflexão, mas logo a seguir acrescenta que ‘mais amargo do que a morte é encontrar uma mulher que é uma armadilha cujo coração é uma rede, e cujas mãos são cadeias‘*. Ora, o que me apetece dizer ao velho sábio e aos escrevinhadores em geral, é aquilo que disse um outro sábio: ‘Eu sou uma coisa e os meus escritos outra‘**.

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“É isso, Kenji.Tudo acontece por uma razão, mas ninguém tem a menor ideia qual seja!”

O que, traduzido ao meu modo, dá nisto: ‘Vivam uma vida e escrevam como se tivessem vivido mil e uma vidas‘.

*in Eclesiastes

** in Ecce Homo de Friedrich Niesztche

99% transpiração?! É mesmo?

Há um lugar-comum que diz, a propósito da criação artística, ‘que é 1% de inspiração e 99% de transpiração’, ou coisa parecida. Nunca simpatizei com esta repartição, mas também nunca fui dado ao cálculo aritmético ou estatístico, porém devo reconhecer que algo terá a ver com o número de horas, dias, meses, para desenvolver qualquer projecto literário: passar da ideia ao texto definitivo é um trabalho laborioso, sujeito a revisões e ajustamentos.

E aqui está, a meu ver, a chave para a compreensão do ‘bloqueio do autor’: a incapacidade, queira-deus-que-momentânea, para se focar no trabalho. Porque é de trabalho que se trata, se existe a pretensão de seduzir o leitor, de comunicar, de cultivar um estilo, de desenvolver o potencial duma situação, e outras tantas coisas mais.

Montes de gente hão-de te avisar como é difícil ser um artista: -Passarás fome! Mas ninguém te avisa como é difícil NÃO ser um artista: -Trabalha!

Montes de gente hão-de te avisar como é difícil ser um artista:
-Passarás fome!
Mas ninguém te avisa como é difícil NÃO ser um artista:
-Trabalha!

Assim sendo, é fácil de entender a miríade de acontecimentos diários que podem interferir na rotina do escrevinhador, para não falar da sua própria tendência à procrastinação, ao desânimo, a deixar-se levar pela espuma dos dias, ou a dificuldade em conciliar a disciplina da escrita com as exigências da vida familiar, profissional, inclusive com problemas de saúde.

Para cada exemplo que justifique o bloqueio, convém lembrar exemplos de escritores que, passando pelo mesmo, souberam ultrapassar o obstáculo e prosseguir até ao fim com o projecto. Por uma questão de higiene mental e pragmatismo, o que o escrevinhador bloqueado menos necessita é de complacência ou piedade.

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E não conheço melhor exemplo de quem escrevesse sobre as dificuldades pessoais e as apresentasse como qualidades que favoreceram a escrita e a reflexão, como escreveu Nietzsche a seu respeito e, concretamente a respeito da escrita do livro Aurora:

A completa claridade e serenidade, e até exuberância de espírito que a referida obra reflecte, harmonizam-se em mim não só com a mais profunda debilidade fisiológica, mas ainda com o agudo sentido do sofrimento. No meio do martírio que me causavam ininterruptas dores de cabeça durante três dias, com vómitos violentos, mantinha uma lucidez dialéctica excepcional e meditava friamente os problemas para os quais em melhores condições de saúde me teria achado desprovido de subtileza e de frieza, sem a indispensável audácia do alpinista.’ (in Ecce Homo, ed.Guimarães e Cª, trad. José Marinho)

E, mais à frente, dá as seguintes dicas para um ‘pensamento sagaz’: ‘À escolha da alimentação, à escolha do clima e do sítio adequado para viver – uma terceira se acrescenta, na qual também cumpre evitar todo o erro, e é essa a escolha da forma de divertimento’.

Ou seja, está na mão do escrevinhador reagir e dar solução ao bloqueio. A alternativa é resignar-se e aguardar por uma madrugada promissora, ou que apareça um anjo-editor que o leve ao colo para um desses paraísos sobre a Terra onde possa dedicar-se infatigavelmente à escrita.

"-Sim, sou uma musa masculina-tens algum problema com isso?"

“-Sim, sou uma musa masculina-tens algum problema com isso?”

Sem esquecer, contudo, que a inspiração é fundamental e que o segredo está em seduzir novamente, e sempre, a bela Musa. Ou, como diz alguém que entende destas coisas literárias e afins:

Si lo que estás haciendo te importa de veras, si crees en él, si estás convencido de que es una buena historia, no hay nada que te interese más en el mundo y te sientas a escribir porque es lo único que quieres hacer, aunque te esté esperando Sofía Loren.

Para mí, esta es la clave definitiva para saber qué es lo que estoy haciendo: si me da flojera sentarme a escribir, es mejor olvidarse de eso y esperar a que aparezca una historia mejor.” (Gabriel Garcia Marquez em carta a Plinio Apuleyo Mendoza )

quatro obstáculos para quem escreve um carrinho de bebé na sala abelhas no quarto nada no banco poltergeist na casa

quatro obstáculos para quem escreve:
um carrinho de bebé na sala
abelhas no quarto
nada no banco
poltergeist na casa