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Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

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Questões de nível

A escrita, tal como a fala, está sujeita a códigos ‘de etiqueta’ que não se confundem com as regras da Gramática ou com normas ortográficas. Quem escreve pode nem estar consciente de seguir um qualquer código, limitando-se a fazer como sabe e sempre fez.

Se pedir, peço cantando,/ sou mais atendido assim;/ porque, se pedir chorando,/ ninguém tem pena de mim (in Este livro que vos deixo de António Aleixo ed.Vitalino Martins Aleixo)

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Nos finais do século passado ainda se publicavam um preciosos livrinhos que forneciam modelos para correspondência comercial, explicando em que circunstâncias se usava certa adjectivação (prezado, caro, excelentíssimo e aí por diante) ou se terminava oferecendo abraços ou atenções (com um abraço, atenciosamente). A correspondência amorosa também mereceu destaque nesse género de publicações, e não era menos rigorosa na utilização de fórmulas e do vocabulário.

Tão pouco te pergunto / meu amor:/ Como responde o corpo/ ao vazio dos lábios? (‘Pergunta’ in Só de Amor de Maria Teresa Horta, ed.Dom Quixote)

Textos com pretensões eruditas podem ser mais facilmente desacreditados se não respeitarem o rigor dos conceitos por de trás das palavras ou a articulação lógica entre diferentes afirmações e parágrafos, assim como um certo comedimento na expressão das emoções, o que não implica excluir frases poéticas ou efeitos cómicos.

O voo dos gansos bravos por cima da minha cabeça diz-nos que o protão perdura por muito tempo, mas não indefinidamente! (in Aves, maravilhosas aves de Hubert Reeves, trad.Francisco Agarez ed.Gradiva)

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Assim sendo, como se pode escrever um texto com aspirações literárias sem se prestar a necessária atenção para os níveis de linguagem? A questão torna-se especialmente pertinente quando o texto aborda a vida quotidiana, as pessoas nos seus diferentes estatutos sociais e contextos, mais ainda se o contexto histórico, geográfico ou outros são, de algum modo, familiares.

O capitão deu ordem de fogo. Arcádio apenas teve tempo de encher o peito e levantar a cabeça, sem compreender de donde fluía o líquido ardente que lhe queimava os músculos.

—Cabrões!—gritou—Viva o partido liberal!

(in Cien años de soledad de Gabriel Garcia Marquez, ed. Austral)

Mas as dificuldades para o escrevinhador serão maiores se não tem o pulso treinado para acompanhar o ritmo e o colorido dos estados emocionais, e não tem o ouvido apurado para as vozes da rua, dos convívios informais, dos encontros profissionais, das relações amorosas. Até mesmo nos insultos, certos escrevinhadores estão tão pouco à vontade que o resultado soa cómico, senão esquisito.

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe., e não apareceu nem respondeu—que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido.Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. (in Grande Sertão:Veredas de João Guimarães Rosa,ed. Nova Fronteira)

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‘Au!Au!Au!Au!Au!Au!…Au!…Au!… Raios…Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando’

Sempre foi o recurso clássico do mau escrevinhador defender-se deste problema recorrendo a uma linguagem ‘difícil’, mais rara do que erudita. Ou a formulações pomposas — ‘gongóricas’ diriam noutros tempos. Ou então, inversamente, cair na linguagem ordinária, calão mesmo, mais à semelhança do que ouve em certos reality shows do que na vida real. Em qualquer dos casos, o vulgar estereótipo.

Pilha aqui, pilha ali, vozeia autores,
Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e vários;
Propõe sistemas, tira corolários,
E usurpa o tom d’enfáticos doutores:

Ciência de livreiros e impressores
Tem da vasta memória nos armários;(…)

(‘Soneto ao Leitão’ de M.M. Barbosa du Bocage)

Não é este, de modo algum, um problema menor quando comparado à construção do enredo, à composição das personagens ou aos ritmos da narrativa. Há escrevinhadores que dão tanta relevância à linguagem empregue, que tudo o mais fica ofuscado numa primeira leitura, e digo isso num sentido elogioso, pensando nos exemplos já aqui abordados a respeito da oralidade do texto.

Sempre o mesmo afã de anotar coisas que parecem urgentes, sempre escrevinhando palavras soltas em papéis soltos, em cadernos, e afinal para quê, se quando vejo a minha letra escrita, as coisas a que se refere o texto se convertem em borboletas secas que antes voavam ao sol. (in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed. Planeta DeAgostini)

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O melhor enredo, ou a personagem mais fascinante, podem ser assassinados — pior ainda: cobertos de ridículo— se houver inadequação entre quem fala ou narra e o modo como fala ou narra. Polémicas literárias famosas sempre estalaram violentamente a este respeito, e não é para menos, já que este é um dos pilares da construção literária. Infelizmente, a maioria dos problemas de inadequação na construção do texto literário têm mais a ver com a falta de preparação do escrevinhador do que por questões de gosto.

O homem célebre é um homem que fez uma porção de coisas pra gente estudar na escola. Eu acho que se não existisse homem célebre nunca havia necessidade de ir na escola, porque nunca tinham inventado nada nem coisa nenhuma. (…) Os homens célebres ficam célebres por uma porção de coisas mas eu acho que a mais importante é a memória, pois todas as estátuas que eu conheço são dedicadas à memória deles. (in Conpozissõis Imfãtis de Millôr Fernandes, ed.Nórdica)

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Mais uma vez, o problema é agravado pela falta de boas e variadas leituras, e parte da solução está aqui. Treinar o ouvido é mais fácil, já que, quando confrontado com exemplos de inadequação, o escrevinhador reconhece facilmente a falha e consegue, quase de imediato, reformular e melhorar o texto. Mas o que dá mais trabalho e leva tempo é exercitar o pulso, pois aí reside aquilo que é específico do fenómeno artístico: a possessão.

(…) Às vezes sou algum/ desses esquivos personagens/ que repentinamente me suplantam,/ e às vezes somente sou/ como que um antecessor do que nunca serei/ ou talvez esse inconstante buscador de respostas/ que acaba sempre defraudado/ pela futilidade das suas pesquisas. / No entanto, minha história pessoal/ pouco tem que ver com essa história:/ Também eu sou aquele que nunca escreve nada/ se não é em legítima defesa. (‘Biobliografia’ de J. Caballero Bonald in Diário de Argónida  Somos el tiempo que nos queda-Obra Poética Completa ed.Austral)

Ou o beijo da bela Musa…

Qué fas ti mentras, meu bem?/ Dime dónde estás,en dónde,/ que te aspero e nunca chegas,/ que te chamo e non respondes./ Morreches, meu queridiño? O mar sin fondo tragóute?  (‘Cando a luniña aparece’ in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, ed.Cátedra)

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Modos de dar início à narrativa

O ‘princípio’ da narrativa não obriga, cronologicamente falando, a começar pelo início dos acontecimentos.

O escrevinhador pode aproveitar para apresentar o narrador da estória: alguém que vai rememorar os acontecimentos, e que, no princípio, preparará o ‘ambiente’, excitando a curiosidade do ouvinte e do leitor em conhecer os detalhes de algo que o narrador deixa suspenso.

Aqueles foram meus dias. (…) O senhor vá lá, verá. Os lugares sempre estão aí em si, para confirmar. (1)

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Pode dispensar o narrador e começar pelo fim, como acontece a propósito de alguém de quem nunca viremos a saber o nome, mas a quem acompanharemos da infância até à morte.

À volta da sepultura no cemitério desleixado, estavam alguns dos seus antigos colegas de Nova York, que recordavam a sua energia e originalidade (…) (2)

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desenho de Pawel Kuczynski

Ou pode ser pelo meio, por um dos muitos acidentes de percurso da estória, também como modo de excitar a curiosidade do leitor, e começar pelo início cronológico algumas linhas mais à frente.

Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota (…). (3)

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Pode, até, misturar nas mesmas linhas acontecimentos passados com intervalos de anos, numa narrativa que parece não ‘arrancar’, aparentemente circular, fluindo ao ritmo da memória.

Raimundo, o dos Casandulfes, pensa que Fabián Minguela passeia pela vida os nove sinais do filho-da-puta.

E quais são?

Tem paciência, lá os saberás pouco a pouco. (4)

Lea Goldman 'the story teller'

Lea Goldman ‘the story teller’

 

(1) in Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; ed. Nova Fronteira

(2) in Everyman, de Philip Roth; ed. Vintage Books

(3) in Cien años de soledad, de Gabriel Garcia Marquez; ed.Espasa Calpe

(4) in Mazurca para dos muertos, de Camilo José Cela; ed.Seix Barral

Final feliz…ou nem por isso

Não é raro ouvir algum escrevinhador declarar  que não constrói enredos, nem precisa: a narrativa começa e progride ao ritmo da inspiração, tendo muitas vezes como exclusiva preocupação nunca perder a capacidade de ‘agarrar’ o leitor.

Nada disso invalida o que foi dito nos posts anteriores sobre a importância do enredo. Além do mais, um dos maiores problemas da construção de qualquer narrativa, da simples anedota ao maior épico, é o final frouxo (na anedota, a ausência do punch-line, do final hilariante).

Ludmilla fecha o livro, apaga o candeeiro do seu lado, abandona a cabeça na almofada e diz:—Apaga também a luz. Não estás farto de ler?

E tu:—É só mais um instante. Estou mesmo a acabar Se numa noite de Inverno um Viajante  de Italo Calvino. (1)

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Nada de mais desconsolador, todavia muito comum: uma estória bem esgalhada, redunda num final completamente ineficaz. Porque acontece isso quando é tão evidente?

Já anteriormente o disse: Uma boa ideia, desenvolvida satisfatoriamente, pode ser comprometida por finais abruptos, às vezes sem sequer ‘despachar’ todas as pendências alimentadas ao longo da estória. (aqui)

Com o mesmo resultado, o final tanto pode ser extenso e chato, como simplesmente confuso, desastrado, inverosímil (à luz da própria lógica interna da narrativa).

Ou simplesmente banal ( e viveram felizes para sempre…).

Ora, o que a construção esquemática do enredo permite, em qualquer fase da construção literária da narrativa, é colocar a sua dinâmica em perspectiva…e em perspectiva do quê? Obviamente, do seu final. Mesmo que seja um final aberto, inconclusivo ou ambíguo.

E fá-lo como? Simplesmente por estar ali definido o ‘momento do fecho’, espaço e tempo em que o escrevinhador terá de dar um propósito a tudo o que atrás fora dito.

E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me…A terra lhes seja leve! Vamos à ‘História dos Subúrbios’. [‘História dos Subúrbios’ é o título do livro que a personagem-narrador-autor ia escrever mas adiou para escrever o actual livro primeiro, conforme ele próprio indica no início] (2)

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Belmiro Barbosa de Almeida-‘namoro do guarda’

Não se trata duma ‘mensagem’ (também pode ser), nem duma intenção oculta finalmente revelada (o que também pode ser), ou de um passe mágico que baralha tudo e muda todo o sentido anterior da estória, dando um tapa na cabeça do leitor (ou um murro no estômago…)(mas também pode ser isso, claro).

O propósito, aqui, significa dizer ‘eis ao que chegamos!’ e isso, de algum modo, estando à altura das expectativas criadas ao longo da leitura.

Deambulei à sua volta [das sepulturas], sob aquele céu benigno; observei as mariposas bordejando entre a urze e as campainhas; fiquei atento ao vento suave roçando pelas ervas; e pensei como poderia alguém imaginar sonos inquietos para os dormentes naquela terra tranquila. (3)

Éxtasis de la beata Ludovica Albertoni (entre 1671-1674)

Éxtasis de la beata Ludovica Albertoni (1671-1674) de Bernini 

Pode ser uma expectativa gorada, mas legitimamente gorada: o leitor alimenta suas fantasias e interpreta os factos e personagens narrados como pode, o escrevinhador tem toda a liberdade de o enredar numa teia complexa e dar um final impossível de prever, mas perfeitamente dentro da ‘lógica’ do enredo.

E pode o escrevinhador fazer tudo isto sem ter o enredo esquematizado na cabeça (ou nas estrelas)? Claro que pode, mas assim também fica mais fácil alguma coisa (ou muitas coisas) ficar pelo caminho…

(…) e que todo o escrito neles [os pergaminhos] era irrepetível desde sempre e para sempre porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra. (4)

Bran Ruz de auclair/deschamps

Bran Ruz de auclair/deschamps

 

nota: todas as citações são as últimas linhas dos respectivos livros

(1) in E se numa noite de Inverno um viajante, de Italo Calvino, ed.Público trad.José Colaço Barreiros

(2) in Dom Casmurro, de Machado Assis, ed.Europa-América

(3) in Wuthering Heights, de Emily Brontë, ed.Penguin Books

(4) in Cien Años de Soledad, de Gabriel García Marquez, ed.Espasa Calpe

99% transpiração?! É mesmo?

Há um lugar-comum que diz, a propósito da criação artística, ‘que é 1% de inspiração e 99% de transpiração’, ou coisa parecida. Nunca simpatizei com esta repartição, mas também nunca fui dado ao cálculo aritmético ou estatístico, porém devo reconhecer que algo terá a ver com o número de horas, dias, meses, para desenvolver qualquer projecto literário: passar da ideia ao texto definitivo é um trabalho laborioso, sujeito a revisões e ajustamentos.

E aqui está, a meu ver, a chave para a compreensão do ‘bloqueio do autor’: a incapacidade, queira-deus-que-momentânea, para se focar no trabalho. Porque é de trabalho que se trata, se existe a pretensão de seduzir o leitor, de comunicar, de cultivar um estilo, de desenvolver o potencial duma situação, e outras tantas coisas mais.

Montes de gente hão-de te avisar como é difícil ser um artista: -Passarás fome! Mas ninguém te avisa como é difícil NÃO ser um artista: -Trabalha!

Montes de gente hão-de te avisar como é difícil ser um artista:
-Passarás fome!
Mas ninguém te avisa como é difícil NÃO ser um artista:
-Trabalha!

Assim sendo, é fácil de entender a miríade de acontecimentos diários que podem interferir na rotina do escrevinhador, para não falar da sua própria tendência à procrastinação, ao desânimo, a deixar-se levar pela espuma dos dias, ou a dificuldade em conciliar a disciplina da escrita com as exigências da vida familiar, profissional, inclusive com problemas de saúde.

Para cada exemplo que justifique o bloqueio, convém lembrar exemplos de escritores que, passando pelo mesmo, souberam ultrapassar o obstáculo e prosseguir até ao fim com o projecto. Por uma questão de higiene mental e pragmatismo, o que o escrevinhador bloqueado menos necessita é de complacência ou piedade.

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E não conheço melhor exemplo de quem escrevesse sobre as dificuldades pessoais e as apresentasse como qualidades que favoreceram a escrita e a reflexão, como escreveu Nietzsche a seu respeito e, concretamente a respeito da escrita do livro Aurora:

A completa claridade e serenidade, e até exuberância de espírito que a referida obra reflecte, harmonizam-se em mim não só com a mais profunda debilidade fisiológica, mas ainda com o agudo sentido do sofrimento. No meio do martírio que me causavam ininterruptas dores de cabeça durante três dias, com vómitos violentos, mantinha uma lucidez dialéctica excepcional e meditava friamente os problemas para os quais em melhores condições de saúde me teria achado desprovido de subtileza e de frieza, sem a indispensável audácia do alpinista.’ (in Ecce Homo, ed.Guimarães e Cª, trad. José Marinho)

E, mais à frente, dá as seguintes dicas para um ‘pensamento sagaz’: ‘À escolha da alimentação, à escolha do clima e do sítio adequado para viver – uma terceira se acrescenta, na qual também cumpre evitar todo o erro, e é essa a escolha da forma de divertimento’.

Ou seja, está na mão do escrevinhador reagir e dar solução ao bloqueio. A alternativa é resignar-se e aguardar por uma madrugada promissora, ou que apareça um anjo-editor que o leve ao colo para um desses paraísos sobre a Terra onde possa dedicar-se infatigavelmente à escrita.

"-Sim, sou uma musa masculina-tens algum problema com isso?"

“-Sim, sou uma musa masculina-tens algum problema com isso?”

Sem esquecer, contudo, que a inspiração é fundamental e que o segredo está em seduzir novamente, e sempre, a bela Musa. Ou, como diz alguém que entende destas coisas literárias e afins:

Si lo que estás haciendo te importa de veras, si crees en él, si estás convencido de que es una buena historia, no hay nada que te interese más en el mundo y te sientas a escribir porque es lo único que quieres hacer, aunque te esté esperando Sofía Loren.

Para mí, esta es la clave definitiva para saber qué es lo que estoy haciendo: si me da flojera sentarme a escribir, es mejor olvidarse de eso y esperar a que aparezca una historia mejor.” (Gabriel Garcia Marquez em carta a Plinio Apuleyo Mendoza )

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quatro obstáculos para quem escreve:
um carrinho de bebé na sala
abelhas no quarto
nada no banco
poltergeist na casa

Começar de novo

O escrevinhador pode iniciar sua estória de modo lógico e sequencial ‘Era uma vez,…’ colocando tijolo a tijolo os alicerces do precário edifício que tem em mente. Sem preocupações de maior, excepto a de alinhar os acontecimentos, apresentar as personagens relevantes e outras, deixar fluir a escrita, tentar a bela musa.

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Ao fim dum tempo, mais ou menos longo, ao reescrevinhar pela enésima vez, o escrevinhador começará a brincar.

Umas vezes surpreendendo: “Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.” (primeiras linhas de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez)

Outras vezes trocando as voltas ao bom senso do leitor: “Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas , que daqui a pouco chegarão com o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher e sem ter feito qualquer coisa de memorável.” (primeiras linhas de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, ed. Publicações Dom Quixote)

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Aí, certamente, o escrevinhador já sentirá o pulso firme do escritor segurando o fio de prumo do enredo.

Clássicos

Marco Polo “criou” o género ao escrever “As Viagens” (no original Il Milione) sobre a sua própria experiência ao longo da famosa “Rota da Seda”, de Itália à China, no século XIII.

Fernão Mendes Pinto, no sec.XVI, foi um dos mais ilustres continuadores deste género com a “Peregrinação”, relatando suas aventuras e desventuras, da Índia ao Japão, na “Rota das Especiarias”.

Muitos autores limitam-se às viagens de outros, principalmente se forem relatos fantásticos como é o caso das “Aventuras de Gulliver”, de Jonatham Swift (sec.XVIII).

Bem distinto dos anteriores, a “Epopeia de Gilgamesh” (cerca de 2500 a.C) relata a viagem desesperada de Gilgamesh à procura da Imortalidade, sem que disso tire proveito, nem alegria.

Muitos autores se inspiraram em livros como estes para recriarem suas viagens, imaginárias ou não.

Os livros são, por vezes, intoxicantes: viciam o leitor, infectam-no de ideias estranhas, abrem-lhe as “portas da percepção” (Aldous Huxley), metamorfoseando-o em alguém que quer “viver para contá-la” (G.G.Marquez), tornando-se ele próprio, autor. E, com um pouco de talento, o ciclo da contaminação prossegue.

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