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Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

CHEMA MADOZ1

imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

CHICLETE COM BANANA      ANGELI

cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

FERNANDO VICENTE

cartoon de Fernando Vicente

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Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

A frase como objecto artesanal

Numa época de ‘edições de autor’ disfarçadas sob a etiqueta duma editora mercenária, o escrevinhador não tem apoio editorial que o poupe das vergonhas da publicação de erros de palmatória, gralhas e qualquer deficiência demasiado óbvia que é o que pressupõe o regular trabalho de edição.

Muito escrevinhador sente-se confiante para escrever frase a frase deixando fluir naturalmente as palavras, corrigindo a gramática ou o estilo de modo quase intuitivo, sem maior esforço do que o de quem trauteia um tema musical.

Suponho que este é o método ideal, pois liberta o escrevinhador das preocupações técnicas, dedicando-se ao desenvolvimento dos conteúdos. Na condição de, num segundo tempo, lidar com as questões formais de modo rigoroso e crítico.

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A maioria, porém, é tentada a escrever apesar das muitas inseguranças, demasiadas fragilidades, óbvias lacunas. E sem ter disso noção, aparentemente.

Também nestes casos parece-me recomendável que as preocupações formais assumam destaque depois da produção de texto, e por todas as razões.

À cautela, o escrevinhador menos confiante deve estimular em si a capacidade de escrever de modo articulado, ou seja, usando palavras de que conheça o sentido e sem pretensão de ostentação, evitando frases longas onde o sentido se perca ou, pelo menos, perca clareza.

E ao ler e reler o escrito, que o escrevinhador apure ‘o ouvido’ para as expressões familiares, especialmente aquelas que neste blog chamo ‘estereótipos’, ‘bengalas’, ‘lugar-comum’: expressões que podem ser usadas num diálogo, mas a serem evitadas a todo o custo fora de contextos muito específicos.

-Aestereotipada?chas que sou

-Achas que sou um estereótipo?

O perigo, já o disse, é o da banalização. Sem cair no exagero oposto de usar fórmulas anacrónicas que tornem o texto uma caricatura pedante, ilegível, incompreensível.

Por vários motivos, a adjectivação pode tornar-se um tique, um excesso, uma praga. Escrever que ‘depois daquela maravilhosa noite, acordou com um sol magnífico, sentindo-se enérgico e confiante, e sabia que aquele seria um dia fantástico e pleno de acções decisivas para o projecto grandioso etc, etc‘ é mais revelador de um estado de espírito do que uma abordagem literária propriamente dita.

Ou seja, no tal segundo tempo, o escrevinhador pode cortar à adjectivação, reformulando a frase e, de acordo com os seus propósitos, desenvolver um olhar irónico, uma perspectiva ácida, um tom divertido: qualquer coisa que distancie a narração e o narrador das emoções que a personagem, ingenuamente ou não, experimenta ao despertar.

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“Eu era uma rapariga simples do campo com dezasseis anos quando fugi da quinta do meu tio…….”

Claro, pode fazer o contrário, reforçando a ‘vertigem’ da narração ser conduzida pelos delírios da personagem, assumir uma escrita confessional ‘à flor da pele’, ‘em carne viva’. E pode ser que resulte bem. Mas correrá ainda melhor se for parcimonioso na adjectivação.

Questões de gosto e de modas

Se não tem compromissos editoriais, nem público-leitor a quem justificar fidelidades, por que há-de o escrevinhador se preocupar com o ‘sucesso’? Por que há-de angustiar-se com a ‘formatação’ daquilo que está escrevendo neste momento? 

Sou um autor de 'edições de autor' que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Sou um autor de ‘edições de autor’ que envia constantemente cartas de rejeição a si mesmo.

Também aqui não existem respostas simples.

O ‘sucesso’ é uma aspiração legítima, um critério de valor, e a ‘formatação’ será o modo como os escritos estão estruturados num todo coerente e atraente do ponto de vista do leitor. 

O escrevinhador procura ‘a’ fórmula que resulte, aquela que vai de encontro às expectativas do leitor. Portanto, há que estar atento às tendências, aos gostos dominantes, ao que está na moda.

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Assumindo que os leitores valorizam menos o estilo e mais os conteúdos, por exemplo. Também se pode supor que o interesse pela estória será sempre maior quando o ritmo for rápido, as surpresas variadas e o desfecho imprevisto.

E, para facilitar a leitura e a compreensão ao leitor, evitam-se complicações estilísticas, caracterizações ambíguas, dilemas sem resposta evidente, referências extra-textuais, coisas assim que desafiam o entendimento e podem enfastiar o infeliz, levando-o a pousar o livro de forma definitiva e sem apelo.

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Os riscos duma tal abordagem são evidentes: se o enredo não estiver à altura das expectativas e/ou o ritmo ficar aquém da intensidade para ‘agarrar’ o leitor, o vazio literário torna-se óbvio.

Além disso, há sempre o risco de errar na premissa da fórmula: a de que o escrevinhador conhece os gostos, as tendências dominantes.

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Se fosse muito, mas muito crítico, diria que essas coisas a que chamam ‘tendências’, ‘gostos’ ou ‘moda’ são construções elaboradas, produzidas para servirem de orientação aos consumidores (e não é que o disse?!)

Talvez fosse melhor, por tudo isto,  que o escrevinhador novato nestas andanças não condicionasse a criatividade aos modelos estereotipados daquilo que possa julgar ser ‘o’ público-alvo. 

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A famosa torre de marfim do escrevinhador

Já aqui tenho referido que o pecado capital do escrevinhador é o de ser ‘chato’. Como todas as categorizações, é discutível.

À primeira vista nem parece difícil obter consenso quanto à ideia de que um livro ‘chato’ é um mau livro, mas o que é chato para uns, pode ser sublime para outros. E começam aqui as dificuldades, sendo a  dificuldade seguinte aquela impressão de que o escrevinhador que escreve livros chatos não tem noção disso.

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Também não é das menores das dificuldades a existência de leitores chatos, tanto pela incapacidade para atingir sentidos implícitos, como para descodificar ironias, por exemplo.Ou pela total falta de resistência física e mental para prosseguir a leitura de um livro de algumas centenas de páginas.

LIVRARIA "Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor"

LIVRARIA
“Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor”

E em todos os casos, em vez de se acusar a si mesmo, aponta o dedo ao escrevinhador e/ou ao livro.

Sobre essa espantosa criatura que é o leitor, Saramago se questionava ‘Quem lê poesia, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se? Quando o leitor assoma à entrada do poema, é para conhecê-lo, ou para reconhecer-se nele?’*

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Ora, esta é uma das tradicionais áreas de actuação de um bom trabalho editorial, uma espécie de mediação entre os recursos do escrevinhador e o potencial do leitor.

Porém, numa época em que a auto-edição e a edição por encomenda estão generalizadas (o que, por si, não é nenhum defeito), esta mediação desaparece. Entre muitos outros problemas, reforça o isolamento do escrevinhador na sua torre de marfim.

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* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago (em autocitação de artigo publicado no jornal Letras & Letras) ed.Caminho

O autor à procura da sua vocação

A imensa proliferação de escrevinhadores (com ou sem obra publicada) é um fenómeno social recente favorecido pelas tecnologias que permitem a auto-edição ou a edição incomparavelmente mais barata do que em qualquer outra época, e que tem como responsáveis directos a educação generalizada da sociedade através do modelo do ensino obrigatório e o acesso ao ensino superior por um número crescente de pessoas em diferentes fases da vida. Provavelmente, muitos escrevinhadores são tentados a iniciar um projecto porque estão na reforma, têm tempo, têm motivação.

O teu país precisa de TI

O teu país precisa de TI

E todos, claro está, são incitados por esse aguilhão que é impreciso, vago, variável, e que pode ser chamado de ‘criatividade’ para efeitos comerciais, estéticos ou de mera bengala para facilitar a comunicação. Porém, na categoria dos escrevinhadores principiantes é notória uma clivagem etária bastante acentuada: aqueles que tentam publicar ainda antes dos trinta, trinta e cinco anos, e os outros já depois dos sessenta, sessenta e cinco anos.

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Os mais novos podem ser encarados como todos os jovens escrevinhadores o foram nos últimos, vá, duzentos anos: irreverentes para com a ‘tradição’ e os ‘mestres’, desesperados pela originalidade, procurando os temas, o tom e o estilo para agradar rápida e lucrativamente.

'This is the shortest autobiography I've ever read!'

Esta é a autobiografia mais curta que li!

Ou seja, explorando os limites, fazendo pela vida, conformando-se com o que lhes parece mais fácil ou mais garantido. A diferença, para com os seus antecessores destes duzentos anos de literatura popular? Imensas diferenças: todas aquelas que identificamos com o estilhaçar da informação/formação/debate em milhentos canais de comunicação, a mercantilização global da cultura, os hábitos variáveis de consumo, essas coisas todas que tendemos a associar a modas e tendências. Que, noutro ritmo, com outro impacto, de algum modo sempre estiveram presentes nas atribulações culturais.

"Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

“Mas se não aprenderes a ler e a escrever, como poderás alguma vez enviar um SMS?

Mas o mais velhos? Esses sim, são a ‘novidade’ do século se atendermos à quantidade e variedade. O que escrevem? Para quem escrevem? Porque escrevem?

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“A minha professora diz que as meninas podem crescer e ser o que quiserem! Porque escolheste ser uma velhinha?”

Não o fazem pelo dinheiro, nem pela fama, e são alvo de mercado preferencial de toda uma ‘indústria’ de cursos faça-você-mesmo, de formação aprenda-num-instante, de tertúlias venha-conviver-em-poesia, de edições pague-já-que-nossa-editora-publica-amanhã e tantas coisas mais.

"Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada," murmurou Felix

“Que importa que a minha autobiografia fosse rejeitada?” murmurou Felix. “Era somente a minha primeira tentativa. Tenho ainda mais oito para escrever!”

Tudo isto é cultura, antropologicamente falando. Mas daí a resultar em boa literatura…

Temas duma época: Dezembro

Duma forma simples e directa, o escrevinhador sente-se interpelado, ou inspirado, pelo simples calendário pendurado numa parede de casa. Se há meses sugestivos, Dezembro pode ser o maior para muita gente: entre poemas e contos, desconfio que nenhum mês é mais prolífico enquanto tema literário.

Pintura de Katsushika Hokusai

Pintura de Katsushika Hokusai

Assim, de repente, qualquer pessoa associa a trilogia ‘natal-passagem de ano-inverno’ ao mês de Dezembro, e cada um desses três temas é um continente que se basta a si mesmo. Aqui está um desafio interessante para quem anda à procura de inspiração, de ideias ou assunto.

...

-Aqui está o Ano Novo, pequeno 1907. Toma. Leva-o.

Já ter lido alguma coisa sobre estes temas ajuda (ler ajuda sempre!), até porque todos partilhamos ideias feitas, estereótipos, a respeito destes mesmos temas sem termos, na maioria das vezes, noção de o serem e, geralmente, sem ter qualquer perspectiva sobre o legado literário donde nos chegam essas mesmas ideias, adaptadas, simplificadas, alteradas, através de filmes, canções, estórias orais e, cada vez mais, através da publicidade e campanhas comerciais características da época.

Que empresa nos vai patrocinar este ano, mãe?

-Que empresa nos vai patrocinar este ano, mãe?

Ora, conforme já o disse antes, não é tanto contra o estereótipo em si que o escrevinhador se deve precaver, mas o facto de o desconhecer. Porque falar do nascimento duma criança como sinal de esperança e promessa de salvação, da passagem inexorável do Tempo ou do ciclo da morte e do renascimento serão temas velhos, bem conhecidos, tratados já de todas as maneiras concebíveis (não que eu acredite nisso), mas o modo como o escrevinhador desenvolve estes temas pode ser, no mínimo, ‘refrescante’ se souber contaminá-los com algo que seja irredutívelmente ‘seu’.

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E aí, sim, o escrevinhador mete-se em trabalhos e expõe-se a grandes perigos…

Escrever como duvida

Há temas mais aliciantes do que outros, concedo, mas o critério é pessoal e o que se possa dizer sobre o assunto é meramente estatístico (mais gente gosta do tema x do que do tema y).

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Também há muito autor que estraga bons temas pelo modo banal como lida com eles. Na verdade, o tratamento do tema é que faz a diferença, muito mais do que o tema em si.

É importante o escrevinhador conhecer o modo como o tema já tem sido desenvolvido ao longo dos tempos, como tem sofrido variações. De outro modo arrisca-se ao anacronismo, a produzir textos que são variações de leituras focadas num outro tempo (ou, pior ainda, que são reflexo duma mente anquilosada) sem a frescura da sensibilidade contemporânea.

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Daí a utilidade do diálogo e debate crítico, menos ao estilo dos palestrantes que têm muito a dizer e mais ao modo de quem quer escutar e levantar questões. Para haver polémica frutuosa tem de haver diálogo e dúvida.

"-Harris, quando eu disse "alguma pergunta" estavaa usar uma figura de estilo."

“-Harris, quando eu disse ‘alguma pergunta’ estava a usar uma figura de estilo.”

A escrita, quando amadurecida, torna-se inquietante mesmo sem querer. Talvez porque seja, também, uma desconstrução de certezas e modelos. Porque os põe em causa?! Não necessariamente.

Críticas, critérios e cretinos

O problema da crítica começa logo no sentido atribuído a “crítica”. No uso corrente, a crítica é sempre negativa, depreciativa, destrutiva, senão mesmo ofensiva; porém, a raiz etimológica da palavra e o seu uso erudito (na filosofia, na ciência, nas artes) tem um sentido instrumental, mais do que valorativo: trata-se duma apreciação, duma avaliação, dum julgamento.

Uma crítica positiva que valorize um poema ou um livro, p.ex., está tão obrigada a justificar sua apreciação, seu juízo, quanto uma crítica negativa. Aliás, a crítica nem tem de se posicionar como positiva/negativa. Sua função vai muito além do “balanço geral”, e é especialmente útil para o debate e progresso do conhecimento, como para o exercício do gosto e da criatividade.

-Gostas de poesia americana? -Naah, muitos verbos. -Canadiana? -Demasiado uso da voz passiva. -E que tal a polaca? -Demasiadas consoantes. -Escocesa? -Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

-Gostas de poesia americana?
-Naah, muitos verbos.
-Canadiana?
-Demasiado uso da voz passiva.
-E que tal a polaca?
-Demasiadas consoantes.
-Escocesa?
-Se conseguires que o Sean Connery a leia para mim.

Vista assim, rareiam espaços e oportunidades para o exercício da crítica. E não admira: nada mais difícil do que assumir um critério, justificando razões, aceitando críticas à crítica e rebatendo-as de modo coerente e fundamentado, ou evoluir na própria argumentação a ponto de, inclusivamente, admitir erros ou reformular radicalmente o juízo inicial. Na verdade, a crítica é um diálogo e uma construção em progresso permanente.

As caricaturas de crítica que vulgarmente se ouvem e se lêem não passam de manifestações de gosto ou de carácter, coisas totalmente alheias à crítica como aqui se entende.

Quando o Leitor deste blog se queixar da falta de hábitos de leitura, do pouco interesse pelos livros e/ou boa literatura (e quem diz literatura, diz de qualquer arte), pense nisto: sem críticos, não há apreciadores.

E a crítica pode ser cruel, fria e desapiedada? Não, cruel nunca: a crueldade é uma patologia mental, e a crítica é uma actividade racional saudável e estimulante à convivência, mesmo quando não seja simpática aos nossos ouvidos. Porque o seu propósito não é reconfortar o ego dos autores, nem divertir leitores, mas obrigá-los a confrontar-se com suas próprias limitações. E seguirem todos mais além do horizonte da crítica.

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POESIA! ou: quanto vale a tua vida?
-Pá, os teus poemas mudaram a minha vida!
-Oh, obrigado! Queres comprar o livro? São 10 euros.
-Oh, umm…não obrigado.
-…
(tal como me foi contado por john t. unger)

Tautologias

Volta e meia surge a notícia de alguma grande editora ter recusado a publicação duma determinada obra por razões de falta de qualidade, muito reduzida perspectiva de vir a ganhar leitores, falta de oportunidade editorial, ou outra dessas razões que qualquer autor já recebeu por escrito após envio da cópia dum livro acabado de concluir.

Se é notícia, é porque o livro recusado é, nem mais, nem menos, uma qualquer obra-prima da literatura, sob disfarce de um outro título e autoria. E o que o autor da brincadeira pretende demonstrar é a falta de seriedade e profissionalismo das editoras.

-Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?

“Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?!”

Mas também revela a sensibilidade destas para o gosto dominante do público leitor. Aí, talvez as editoras não estejam tão enganadas assim: muitas das obras que o público aprende a venerar, e até aprecia genuinamente, só merecem essa atenção porque o autor já é um autor consagrado. E o fetichismo dos leitores pelos prémios literários e/ou pelos “best sellers” não deixa dúvidas a esse respeito.

Ou seja: os bons autores são os que têm fama de o ser e os títulos que se vendem melhor são os que têm mais procura.

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Felizmente, bons novos autores vão surgindo, mesmo que misturados num número imensamente maior de novos autores medíocres. A ecologia da literatura nunca foi um Jardim do Éden, e a proliferação de novos títulos/autores com a publicação em formato digital e para a net, não irá favorecer a qualidade da escrita ou apurar o gosto pela leitura.

Nem se espere do obscuro escriba deste blog a solução para o eterno problema da quadratura do círculo.

Retrato falado?

Uma vez explicaram-me que pretendiam escrever poesia do mesmo modo que gostariam de pintar (e desenhar), retratando algo através das palavras. Achei interessante a ideia, principalmente numa época em que a captação, reprodução e manipulação de imagens é tão acessível. E como pretendia “retratar” com as palavras? Os exemplos que me foram dados baseavam-se no uso de substantivos e adjectivos (do género: tal coisa/pessoa com tal qualidade) e comparações (do género: tal coisa/pessoa é como…).

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Não gostei e tentei explicar-me: mesmo que se usem recursos como a rima e a métrica, a estrutura torna-se monótona, o efeito pobre, o resultado aborrecido (como se montássemos um puzzle em que as peças são frases). Não utilizei a expressão “lista de mercearia”, mas é o que me ocorre quando as descrições ou referências se estendem ao longo de linhas e linhas de versos. Sugeri que cortasse na adjectivação e procurasse “pintar” usando verbos.

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1.Mamã! 2.Mais! 3.Não! 4.Meu!
-As primeiras palavras do bebé: 1.Substantivo 2.Adjectivo 3.Advérbio 4.Pronome Possessivo-

O trabalho poético progrediu e resultou em algo bastante diferente: surgiram as inevitáveis metáforas, elas suscitaram ideias (ou terá sido o contrário?) e os poemas foram ganhando dinamismo, tensão, exprimindo conflitos e anseios, na verdade, trabalhando o “material humano” que está na base do artefacto poético.

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“Que mão ou olho imortais poderiam captar a tua assustadora simetria?”

Melhorou bastante, na minha opinião, mesmo que haja muito ainda para aperfeiçoar (…e não há sempre?). Talvez o resultado final nem tenha nada a ver com o propósito de retratar. Mas, além de produzir imagens interessantes, creio que o poeta abriu um canal para projectar algo de muito pessoal e original. É por aí que a Musa se deixa, tanta vez, seduzir…

Valerá a pena escrever poesia no sec.XXI?

Se escrever prosa oferece dificuldades, poesia parece intuitivo e simples, trabalho de curta duração. E com um dicionário de rimas à mão, fica ainda mais fácil. Temas? Há tantos: uma flor, um amor, um pensamento profundo esticado em duas dúzias de linhas, um grito de revolta contra a injustiça, de tudo “se faz” poesia.

Mas quem a lê? Pior: quem a escreve?

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Registar a oralidade no texto escrito

Apesar do escrúpulo do autor em apresentar O Malhadinhas como um “longo monólogo [que] é menos um registo do som que um registo psicológico” (nota preliminar da edição de 1958), desde as primeiras linhas até ao fim do livro o leitor é arrastado pelo coloquialismo da narração, rico em expressões proverbiais e idiomáticas que sustentam a continuação do trecho citado acima: “Reproduzir a linguagem dum rústico, já não digo com fidelidade mas artifício, redundaria num árduo e incompensável lavor literário. O que se cometeu foi filtrá-la, mais na substância do que na forma, com o cuidado, por conseguinte, de poupar ao oiro verbal as suas pepitas preciosas.”

Ao escritor não basta o ouvido familiarizado com a linguagem oral, regionalismos, calão, etc, como muitas vezes apreciamos em espontâneos contadores de histórias e anedotas. O filtro da linguagem, “mais na substância do que na forma”, permite explorar as dimensões humanas e literárias dos personagens e dos enredos que, de outro modo, teriam de ser sacrificadas em prol dum “naturalismo” que se pretende fiel à realidade retratada, nem por isso mais verídico.

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Assumindo esta opção, Aquilino coloca um aldeão sem grande instrução (ver nota 1), velhote e esperto, a entreter um grupo de homens de outra condição (ver nota 2) com a história de sua vida, oportunidade para o autor explorar tópicos de um país rural e beirão (ver nota 3), onde a coragem física (ver nota 4), a violência de macho (ver nota 5), o penhor da palavra (ver nota 6), se misturam com artes de navalha (ver nota 7) e jogo do pau (ver nota 8), manhas de feirante (ver nota 9), língua afiada (nota 10) e uma devoção popular que ultrapassa os limites da religião instituída (ver nota 11).

Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço”

Não é preciso que tenham rodado “dois carros de anos” sobre o cadáver do escritor (ou projecto de escritor) contemporâneo para poder ter tido a grata experiência de ouvir algum velhote rural ou urbano, falar com um estilo semelhante e a mesma riqueza vocabular, associados ao raciocínio inteligente ou à meditação filosófica.

Porém, para o leitor do sec.XXI  o resultado é algo estranho num primeiro tempo: a realidade descrita e a linguagem usada, juntamente com a técnica narrativa, parece dum tempo tão longínquo quanto o do protagonista do Lazarilho de Tormes (ver nota 12), cuja 1ª edição é do sec.XVI. Mas se o Portugal rural na 2ª década do sec.XX estava mais próximo dessa realidade do que da actual, Aquilino Ribeiro é uma autor intemporal que se revela na escrita, propiciando o diálogo com o leitor.

E uma das características da boa literatura é o apelo a reler, premiando o leitor com novos sentidos, novas descobertas. E o que já se sabia, ainda sabe melhor.

Choro pela minha vida de almocreve, e dessem-me hoje o machinho, tornassem-me as minhas pernas e a boa disposição, com dias grandes ou noites sem fim, não se furtava o filho de meu pai a recomeçar o fadário por Franças e Araganças. Mas ao tempo o meu pensar era outro (…). E a vida lá vai…ligeira como uma galga doida, esparvada. Já noutro diaço julguei que era chegada a minha hora. (in O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro, 1922)

a viagem como metáfora

Não surpreende, assim, que viajar se torne sinónimo de “transformação”, metáfora da “iniciação” aos antigos saberes ocultos (ou perdidos).

Ou seja um modo de narrar o amadurecimento, a abertura ao mundo (na sua pluralidade, nas suas diferenças). E, também, uma mudança arriscada, indesejada, que traz perigo e ameaça a integridade, física e psicológica, do viajante.

Também  há os relatos de viagens estereotipados, seja na versão lúdica das férias na praia, seja na literatura dos mistérios de antanho em versão new age: a mistura do disparate, do preconceito cultural, do kitsch, da ignorância boçal, das pretensões eruditas, etc, etc.

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Tempos livres e perda de tempo

Ao longo da segunda metade do sec.XX, o livro cedeu terreno à televisão na ocupação dos tempos livres em casa.

Hoje, a situação é ainda mais desfavorável: muito do que se lê é sugerido pelo visionamento dum filme ou pela expectativa criada no final de temporada duma série de culto.

O resultado torna-se caricato, como seja a referência à versão em filme para se falar do enredo, originalmente escrito e de muito maior complexidade. Pior ainda: a importância dada a temas que são intensamente desenvolvidos há séculos, pelas mais variadas formas de expressão artística, mas dos quais muita gente só toma conhecimento, pela primeira vez, quando da publicação dum livro de terceira categoria ou do visionamento dum filme banal.

E o tema, tal como o enredo, as fontes, os personagens, a encenação, ou são clichés, ou são duma vulgaridade atroz.

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Mentiras de Um de Abril

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

(…)

(Autopsicografia, Fernando Pessoa)

Muitas vezes desvaloriza-se um relato porque é “ficção”. A ficção como sendo inferior à realidade. A realidade entendida como o factual, o verdadeiro. Enquanto a ficção é do domínio da fantasia, da imaginação. Uma mentira, portanto.

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Por vezes, o autor bloqueia quando sente que não tem conhecimento suficiente para abordar certos temas. Ou, pelo contrário, porque tem e porque irá expor o que muitos amigos ou familiares não lhe perdoarão ter exposto. Se pretende escrever um texto com pretensões históricas (como o testemunho de quem viveu e participou nos factos narrados), esses são problemas sérios. Leia o resto deste artigo »

O gosto de ler?! Mas ler o quê?

Na literatura, que se pode dizer a este respeito?

Passando ao lado das questões da censura e moral pública, o que é a “boa” literatura? E é boa em relação a qual outra literatura?

Será indiferente falar com um apreciador dos “clássicos” ou com alguém que aprecia a literatura “cor-de-rosa”?

 

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Que “gosto” tem?

O “gosto” é a própria manifestação individual da sensibilidade e bom senso (título dum livro muito popular noutros tempos), está em estreita relação com a educação familiar e o meio cultural envolvente (seja pelo seguidismo acrítico, seja pela rejeição neurótica, seja de qualquer outro modo), pode se tornar um manifesto, uma moda, uma tirania.

Tanto pode ser reivindicação de liberdade ou sujeição à maioria, como imposição dum princípio geral.

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Gostos não se discutem!

“Gostos não se discutem”, de todas as frases feitas, esta será a mais popular e consensual, sintetizando em poucas palavras a aversão ao debate e a incapacidade argumentativa, tanto de quem a profere como de quem se apressa a concordar.

Pois se os “gostos” não se discutem, o que resta para discutir?

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