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Sem ofensa: um escrevinhador tem de saber contar estórias, mentirinhas, apropriar-se de narrativas alheias e dar-lhes ‘uma volta’. Inventar, claro. Sobretudo reinventar.

O nosso Cervantes—continua falando Mairena aos seus alunos—não matou, porque já estavam mortos, os livros de cavalaria, senão que os ressuscitou (…). Do mais humilde propósito literário, a paródia, surge—que ironia!—a obra mais original de todas as literaturas. (1)

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Mesmo a literatura académica, séria, científica, tem saborosos exemplos de anedotas reais e relatos de fraudes fabulosas, ou comentários irónicos, capazes de forçar o sorriso ao mais sisudo leitor. Ou episódios simplesmente lastimáveis…

No dia 13 de dezembro (…) saí do carro pelo lado errado e atravessei a Quinta Avenida sem me lembrar de que na América conduzem do lado contrário ao do meu país e sem obedecer ao semáforo vermelho, coisa então desconhecida na Grã-Bretanha. Fui violentamente atropelado e durante dois meses fiquei praticamente inválido. (2)

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DOUTOR JESUS: -Desculpe, mas não posso curá-lo. Você tem um condição pré-existente.

Em verso ou em prosa, o escrevinhador distingue-se por essa extraordinária capacidade de dar a sentir experiências alheias ou imaginárias, sentimentos muito pessoais, emoções fingidas que deveras sente. Através da escrita, obviamente.

Doces galleguiños aires,/(…)/ alegres compañeiriños,/ rum-rum de toda-las festas,/ levái-me nas vosas alas/ como unha folliña seca (3)

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O único escrúpulo será o de não se levar demasiado a sério, a ponto de confundir a verdade do texto com a opaca realidade.

Parece-nos impossível que para os nossos filhos seja já passado irrevogável e desconhecido aquilo que para nós é ainda presente árduo. (4)

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Excepto se tiver pretensões de contar histórias sobre pessoas reais no seu tempo e na sua circunstância, assumindo a intenção de se restringir a documentos, testemunhos e coisas assim: o leitor tem todo o direito de se sentir burlado ao perceber que o escrevinhador é incompetente para tal pretensão ou, pior ainda, um desenvergonhado manipulador. Essa coisa de confirmar se os alegados factos, documentos, testemunhos, são fidedignos, é uma obrigação de que só está isenta a informação nas redes sociais.

—As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se  —disse Polo—  Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, já venha a perdê-la pouco a pouco. (5)

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‘PLACEBO-dose máxima’ tão eficaz quanto os melhores tratamentos homeopáticos 16 cápsulas

É como uma espécie de contrato entre o escrevinhador e o leitor, pese embora a flexibilidade com que um e outro possam interpretar as cláusulas não-escritas, nem negociadas.

(…), acreditem nossos leitores todos, que nem uma vírgula se lança neste parágrafo que não seja unicamente ditada pelo interesse público, nosso único móvel. A ninguém, absolutamente a ninguém queremos ofender, (…). (6)

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Dito isto, quantos clássicos da ficção literária universal não se apresentam como escrituras verídicas, senão sagradas?

—Gilgamesh, vou revelar-te uma coisa oculta, vou confiar-te um segredo dos deuses. Foi em Shuruppak, (…) cidade já antiga que aos deuses agradava morar, onde os grandes deuses tomaram a decisão de provocar o Dilúvio. (7)

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cartoon de El Roto

Quando bem escrito, vale tudo realmente.

(…), ela levantou-se em silêncio e arranjou botas de sete-léguas, pegou numa varinha mágica e num bolo com um feijão que dava resposta para tudo. Depois ela fugiu com o príncipe. (8)

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(1) in Juan de Mairena de Antonio Machado, ed.Alianza Editorial

(2) in Memórias da Segunda Guerra Mundial de Wiston Churchill, trad.Manuel Cabral ed.Texto Editores

(3) in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, Ediciones Cátedra

(4) in Danúbio de Claude Magris, trad.Miguel Serras Pereira ed.Quetzal

(5) in As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, trad.João Colaço Barreiros ed.Teorema

(6) in Doutrinação Liberal (textos escolhidos de 1826 a 1827) de Almeida Garrett, ed.Publicações Alfa

(7) in Poema de Gilgamesh tábua XI, tradução para castelhano de Federico Lara Peinado, ed.Tecnos

(8) Os contos populares e de fadas originais dos Irmãos Grimm, traduzidos para o inglês por Jack Zipes ed.Princeton University Press

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Vale a pena escrever?

RESPOSTA: se alguém me puser esta pergunta, minha resposta automática é NÃO, não vale a pena.

Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!/ Se isto não é, porque é que é?/ Se isto não pode ser, então porque pôde ser? (1)

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Esta é a resposta preconceituosa de quem entende que a urgência da escrita se impõe ao escrevinhador, que depois defrontará a terrível, incontornável questão: o que escrevi tem algum valor?—uma questão totalmente diferente, portanto.

Sonho que sou a Poetisa eleita,/ Aquela que diz tudo e tudo sabe,/Que tem a inspiração pura e perfeita,/ Que reúne num verso a imensidade! (2)

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Preconceito que radica, também, na crença de que a dita urgência é um dano colateral à exposição precoce à audição de contos e leituras, às leituras de livros de texto e banda desenhada, ao visionamento de filmes.

O que me dá prazer não é o vinho, não!/ Nem a música, nem o canto./Apenas os livros são o meu encanto/ E a pena: A espada que tenho sempre à mão. (3)

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-A TV está cada vez melhor. -É, acho que é um perda de tempo muito mais produtiva.

Essa exposição (que não tem de ser, na verdade, precoce) não é condição suficiente para responder afirmativamente à segunda questão: a do valor do que se escreveu. Outras formas de expressão podem surgir em alternativa e com outra qualidade; no mínimo, resulta no desenvolvimento duma percepção mais subtil, na sensibilidade à ironia, num grau de exigência maior, coisas assim que fazem de alguém uma pessoa mais interessante.

Eu não soube onde entrara,/ mas, quando ali me vi,/ sem saber onde estava,/ grandes coisas entendi;/ não direi o que senti,/ pois me fiquei sem saber,/ toda a ciência transcendendo. (4)

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Na realidade, porém, existe uma crescente número de pessoas sem qualquer relação afectiva com a leitura e, inclusive, com um domínio deficiente da escrita, determinadas em produzir textos, seja por razões estéticas, sentimentais ou profissionais

(…) o número de homens ignorantes e corajosos/ será maior ou menor que o número de homens corajosos e cultos? // (…) Se o assunto fosse assim tão simples…/ Mas não. (5)

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Como dizer-lhes que não vale a pena serem persistentes e produtivas nessa determinação? Na verdade, nem se colocam a questão de escrever (ou não), mas antes a de escrever como?

Tu que sabes em que recantos das terras invejosas/ O Deus ciumento esconde as pedras preciosas,/ Ó Satã, tem piedade da minha grande miséria! (6)

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Preconceito de lado, a tarefa é ingente mas factível; tudo depende do escrevinhador e do modo como se move no seu labirinto. Mesmo o mais aborrecido dos manuais pode estar organizado com um mínimo de lógica e ter sido escrito numa linguagem clara, duas características que são grandes qualidades e verdadeiros ‘facilitadores’ (palavra horrível muito em uso nas primeiras décadas do sec.XXI) para quem tenha de lidar com assuntos chaaaatos.

A bela e pura palavra Poesia/ Tanto pelos caminhos se arrastou/ Que alta noite a encontrei perdida/ Num bordel onde um morto a assassinou. (7)

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Contudo, ambas qualidades exigem um razoável domínio da matéria a tratar e da sua expressão escrita, qualidades que andam muitas vezes desirmanadas.

(…) E com um mimo que só sabe ter uma ama/ Cobre-me bem, “durma, não cisme”, dá-me um beijo,/ E sai. Finge que sai, ela cuida que eu não vejo,/ Mas fica à porta, à escuta, a ouvir-me falar só,/ E não se vai deitar…/ Onde há, assim, uma Avó? (8)

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Talvez por isso, surgem escritos num tom autobiográfico, meio confessional, meio exploratório, onde se cruzam dados objectivos (estatísticas, história, ciências) com a profunda subjectividade do olhar do escrevinhador, podendo até desenvolver narrativas ficcionadas.

Todo lo que he vivido, todo/ lo que he salvado vigilantemente/ del feroz exterminio de los dias,/ todo cuanto yo fui, hoy os lo ofrezco,/ ojos que seguiréis el rastro de estas letras, /(…) (9)

'When I was young I wanted to be a poet, but we couldn't afford a typewriter.'

‘Quando era novo queria ser poeta, mas não tinhamos dinheiro para comprar uma máquina de escrever!’

À extraordinária liberdade deste processo—ao nível dos factos, das personagens e do enredo— alia-se o tratamento mais ou menos rigoroso de assuntos concretos, reais, observáveis. Combinação que pode resultar numa abordagem refrescante, inspiradora, bem-humorada, poética… ou tudo isso em simultâneo.

Poeta, não, camarada,/ eu sou também cauteleiro;/ ser poeta não dá nada/ vender jogo dá dinheiro (10)

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Para quem não confia na bagagem literária dos seus anos de formação (infância, adolescência), explorar a sensibilidade e o olhar crítico com que a vida o enriqueceu torna-se um valor imenso em qualquer proposta artística. Aproveitando as experiências de vida e as histórias familiares, a escrita pode vencer os escolhos normais da criação literária e compensar certas deficiências com a inspiração genuína, uma perspectiva original, uma tonalidade distinta.

Imaginária menina/ entra em roda imaginária:/—Roseira que dás espinho,/ que dás espinho e dás flor:/ roseira de meu caminho/ dá ciranda aonde eu fôr.//  (…) que se houve espinho houve rosa. (11)

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Pintura de Luz Morais

As boas regras gramaticais e o exercício duma escrita literária acabarão por se incorporar com o tempo, muita prática e aprendizagem. E com uma ajudinha preciosa que pode chegar de modo abrupto e, até, ofensivo. Mas quem disse que escrever vale a pena?

Las cú. Lavitebá, Foscan moldé ca./ Divilanvoris cermalagos cía./ Ar conta latilosde balatía/ ormela banorcali tonzosteca. (12)

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“Concordo consigo: você tem dinamismo, ambição e autoconfiança, mas aquilo que procuramos é a competência.”

(1) ‘A Partida’ in Poesias de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(2) ‘Vaidade’ in Livro de Mágoas de Florbela Espanca, ed.Bertrand

(3) de Al-Kutayyr in O meu coração é árabe, colectânea e tradução de poesia luso-árabe de Adalberto Alves, ed.assírio&alvim

(4) ‘Coplas del mismo hechas sobre un éxtasis de alta contemplación’ in Poesias Completas de San Juan de la Cruz, ed.Planeta DeAgostini

(5)  ‘Canto IV’ in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(6) ‘Les Litanies de Satan’ in Les Fleurs du Mal de Charles Beaudelaire, ed.Gallimard

(7) ‘A Bela e Pura’ in Mar Novo de Sophia de Mello Breyner Andresen, ed.Caminho (Obra Poética vol.I)

(8) ‘Males de Anto’ in  de António Nobre, ed.A Bela e o Monstro lda

(9) ‘Todo lo que he vivido’ in Las Adivinaziones de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral (Somos el tiempo que nos queda obra poética completa 1952-2009)

(10) ‘Ocasionais’ in Este livro que vos deixo… de António Aleixo, ed.Vitalino Martins Aleixo

(11) ‘Rosa da Roda’ in Rapsódica de Stella Leonardos, ed.Orfeu

(12) ‘las cu la vi te ba fos can mol de ca’ in A Saga/Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester, ed. Dom Quixote

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

O bigode da Gioconda

Escrevinhadores excessivamente escrupulosos evitam certas leituras, certos autores, por temor de duvidarem eles mesmos da originalidade dos próprios escritos. Assim, sentem-se de consciência tranquila se surgirem coincidências no enredo, nas personagens, em alguns detalhes da narrativa.

Tenho ao alcance da mão as definições de Elliot, de Arnold e de Sainte-Beuve,  razoáveis e luminosas sem dúvida, e seria me grato estar de acordo com estes ilustres autores, mas não os consultarei. Cumpri setenta e tal anos; na minha idade, as coincidências e as novidades importam menos do que aquilo que se tem por verdadeiro. Limitar-me-ei, pois, a declarar o que sobre este assunto pensei. (1)

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Mesmo na literatura sagrada das mais diferentes religiões existem coincidências, que tanto se devem aos abismos do inconsciente humano quanto ao contrabando de mitos e crenças. Como há-de escapar às influências o simples escrevinhador, se até escribas inspirados pela voz de um anjo-mensageiro ou por um deus omnisciente repetem velhos estereótipos da criação, ascensão e queda da Humanidade?

Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas algo há na sua imagem que concorda com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em distintas latitudes e idades. (2)

'Ark, Noah - not arc!'

‘Arca, Noé – não um arco!’

Percebo que se evitem certas leituras em dado momento da escrita duma obra, mas duvido da sua eficácia e receio muito pelo que isso implique. Nos últimos vá lá 2500 anos, e de forma cada vez mais avassaladora, é impossível fugir à ‘influência’ —dos temas e outros aspectos da narrativa—  dada a fina malha cultural que entretece o imaginário, a mundividência, nossa memória colectiva.

Suspeito que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve tratar de ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas palavras são sinónimas), não de suas opiniões, que são o mais superficial que há nele. (3)

'It was a last-minute change, but a good one.'

Foi uma mudança de último minuto, mas uma boa mudança. Título do livro: ‘Guerra e Paz e Repolho’

O livro e o ensino, por razões evidentes, expuseram a população mais letrada a uma intensa contaminação de ideias, estórias e fórmulas literárias, mas o imaginário e a mundividência já são bebidos com o leite materno, embalados até adormecer no peito duma qualquer vizinha solícita, escutados com avidez à lareira junto dos mais velhos e assimilados no dia-a-dia entre conhecidos e desconhecidos… ou assim era dantes.

Hoje, a força conjugada dos mass media e da net tornam a influência omnipresente e opressiva, sem disso se ter consciência, e, por isso, sem desenvolver critérios entre o que é ‘original’ e o mero plágio ou estereótipo preguiçoso.

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável (…). (4)

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por aqui falei como uma obra anterior ao sec.V a.C., escrita por um cego grego —que, eventualmente, nem terá existido― pôde influenciar um poeta, guerreiro e zarolho português quinhentista, e um caixeiro-viajante cultural irlandês, que sofria de glaucoma, do sec.XX, os quais, por sua vez, inspiraram, já no sec.XXI, um académico nascido em Angola e que, por alguma razão, usa óculos.

Ou de como, no espaço de duas dezenas de anos, 3 nomes cimeiros da literatura de 3 países diferentes, escrevem sobre o mau comportamento de senhoras muito bem casadas (morrendo todas no final do livro, sujeitas aos comentários depreciativos da parte de outras personagens).

Plágio, em qualquer dos casos, nem pensar. Um insigne académico escreveu sobre a ‘angústia da influência’, e até intitulou o livro, coincidentemente ou não, A angústia da influência.

Como entendemos uma angústia? Sendo angustiados nós mesmos. Todo leitor profundo é um Perguntador Idiota. Pergunta: “Quem escreveu meu poema?” Dai a insistência de Emerson: “Em toda a obra de génio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados — voltam-nos com uma certa majestade alienada.” (…) A crítica é a arte de conhecer os caminhos ocultos que vão de um poema a outro. (5)

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-Não faço plágio… mas gosto do modo como este tipo expressou os meus pensamentos na secção de opinião.

Sem qualquer angústia, o já conhecido escritor argentino Pablo Katchadjian, em 2009, resolveu fazer aquilo a que chamou de ‘experimento literário’: ‘engordou’ (sic) o famoso conto —O Aleph― do ainda mais famoso escritor argentino Jorge Luís Borges, adicionando-lhe mais 5600 palavras às 4000 originais, dando-lhe o sugestivo nome de O Aleph Engordado. A ‘experiência’ parece que foi bem recebida nos meios literários argentinos, a avaliar pelo que pude ler em artigo publicado no El País por Carlos Cué.

Porém, representando os interesses (ou direitos de autor) da viúva de Borges, o advogado Fernando Soto exprimiu uma perspectiva notável: ‘Isto não é um experimento, afecta directamente o direito moral da obra, que foi alterada dolosamente. Queremos que reconheça que é uma ofensa à obra de Borges. É como se alguém pintasse bigodes na Gioconda.’*

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Vai daí, o autor do O Aleph Engordado é levado a tribunal e condenado (apelou, entretanto). Em sua defesa, alega que é ‘óbvio que não se pretende esconder um plágio de forma dolosa, que para isso se pensou a lei. O livro intitula-se El Aleph engordado e no final há uma explicação do trabalho que havia feito. Borges não é um monumento, é um escritor. A história da literatura é uma constante revisão e reflexão sobre a tradição. Borges defendia o plágio e sustentava que toda a literatura está construída uma sobre a outra, é absurdo este processo, é uma novela delirante.’ *

E sustenta que não tocou no original, só acrescentou.

Este factótum, em vez de limitar-se à tarefa específica, delapidou um tempo precioso lendo as sete lucubrações de Vilaseco. Chegou a descobrir que, salvo os títulos, eram exactamente a mesma. Nem uma virgula, nem um ponto e virgula, nem uma só palavra diferente! A descoberta, fruto gratuito do acaso, carece seguramente de importância para uma séria valoração da versátil obra vilasequista e se o mencionamos à última da hora é a título de simples curiosidade. (6)

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Ora, eu que não li o ‘engordado’, não vou discutir os méritos da obra. Provavelmente, se Katchadjian não tivesse incluído O Aleph original, a decisão jurídica teria lhe sido favorável.

(…) começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é uma linguagem de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca? (7)

Mas não me interessam as questões jurídicas, agora. O que acho relevante é a ‘tese’ do dr. Fernando Soto, sobre direitos morais das obras, sobre alterações dolosas, sobre ofensas à obra de alguém, sobre bigodes e giocondas. E a ideia de Katchadjian em ‘engordar’ obras alheias.

Gracias (…) pelo facto do poema ser inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e não chegará jamais ao último verso/ e varia segundo os homens (8)

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Sobre o primeiro, assusta-me a argumentação tão propícia ao fanatismo religioso, nacionalista, ideológico, quando se apropria do património cultural (e literário) e passa a assumir o direito de avaliar e condenar qualquer referência, glosa ou sátira. Daí a queimar livros, esfaquear ou balear escrevinhadores e editores, fazer explodir livrarias, não vai um passo assim tão largo, pelo que tenho visto nos dias da minha vida. Mais corriqueiramente, surgem a censura, a autocensura, a apreensão dos livros, as multas e penas de prisão.

Sobre o segundo, saúdo esta tendência saudavelmente infectante, contagiosa, da obra literária (na verdade, da obra de arte em geral), que nos faz redescobrir textos mais antigos e abrir horizontes insuspeitados por detrás daqueles que já conhecíamos.

Schopenhauer, Quincey, Stevenson, Mauthner, Shaw, Chesterton, Léon Bloy, formam o censo heterogéneo dos autores que releio continuamente. Na fantasia cristológica intitulada ‘Três versões de Judas’, creio pressentir a remota influência do último. (9)

Mas o mais saboroso é a ironia extraordinária deste pleito jurídico ter como referência a obra de Borges. O mesmo Borges que, cotejando um fragmento do texto original do Quixote de Cervantes com o texto exactamente igual do Quixote de Menard, fictício autor do sec.XX, descobre-lhe as diferenças nas ideias e nos estilos.

O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico (Mais ambíguo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.) (10)

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* do artigo publicado a 28/06/15 no El País por Carlos Cué

(1) de ‘Sobre los Clásicos’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(2) do ‘Prologo’ in El Libro de los Seres Imaginarios de Jorge Luis Borges (com a colaboração de Margarita Guerreiro) ed.Bruguera Alfaguara

(3) do ‘Prologo’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(4) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(5) in A Angústia da Influencia de Harold Bloom trad.Marcos Santarrita, Imago Ed.

(6) de ‘Ese Polifacético: Vilaseco’ in Cuentos de H.Bustos Domecq de Jorge Luis Borges ed.Seix Barral

(7) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(8) d’ ‘Outro Poema de los Dones’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(9) do ‘Prólogo’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

(10) de ‘Pierre Menard, autor do Quixote’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

Escrever como terapia…???

Consultado como uma espécie de autoridade xamânica a propósito das virtudes terapêuticas da escrita —além de ser, também, auscultado regularmente sobre quais leituras recomendaria com objectivos terapêuticos e cívicos, morais(!), etc e tal—, constato como a internet, por mais que se avise (e surgem avisos a todo o tempo!), é o lugar ideal para se ter encontros perigosos. Escudado numa espécie de anonimato, o autor deste blogue não merece dos seus leitores mais do que a leitura e apreciação crítica assente nos conteúdos práticos aqui tratados, e tudo o mais resulta duma projecção ou ilusão do leitor que anda à procura de algo. Algo que, garantidamente, aqui não há.

Escrevendo listas como terapia

“Coisas que me aborrecem.”  Escrevendo listas como terapia

Claro que ler e escrever, como qualquer actividade humana socialmente aceite, têm uma componente terapêutica. E como não haveriam de ter?! Porém, a perspectiva que aqui se procura desenvolver é predominantemente literária. O que, para quem esteja menos familiarizado com o conceito, pode parecer algo de muito válido e construtivo. E é. Assim como todo o seu contrário.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre!

Basta considerar a quantidade de livros colocados no Index e outras listas censórias, destruídos em praça pública juntamente com os seus autores e leitores, ou nas vidas miseráveis, alcoólatras, suicidas, de tanto escrevinhador, para perceber que a escrita como terapia não é um conceito evidente.

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Na verdade, em tempos que já lá vão, quando a Literatura era genuinamente apreciada, temida ou vilipendiada, o exercício da escrita (e o da leitura) estava desaconselhado para as classes menos favorecidas,  visto como nada adequado à condição feminina e, em geral, as leis e os costumes condicionavam fortemente os temas e as formas.

'Niña leyendo' (1850) de Franz Eybl.

Provavelmente, a partir do momento em que se tornou mercadoria, a escrita, enquanto livro, ganhou em popularidade com a consequente desvalorização, servindo de veículo para qualquer necessidade de comunicação mais ou menos propagandista ou, meramente, para satisfação lúdica ligeira. Da literatura, quantas vezes, fica-se pela pretensão.

-Os livros de História trazem muitos contos.

-Lê livros de História, trazem muitos contos.

Daí à confusão entre o potencial terapêutico da escrita (Freud recomendava anotar os sonhos) e a criação literária vai um passo, correndo-se o tremendo risco de cair na banalidade das expressões emocionais e sentimentais. E o escrevinhador sente-se aliviado? É possível, pois terá exorcizado seus fantasmas e demónios.

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Porém, ao longo dos tópicos desenvolvidos neste blogue há mais de 2 anos, tem-se privilegiado uma perspectiva distinta, eventualmente oposta: a de que a escrita, como forma de expressão literária, resulta melhor se feita com paixão, em desequilíbrio, procurando seduzir a bela Musa e atrair o leitor para o labirinto peculiar do escrevinhador. Para quem tenha alguma bagagem literária, pode já prever os abismos e monstros que se ocultam nos labirintos…

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Para conseguir tudo isto há que cultivar o salutar grãozinho de loucura. Ora, não poucos venderam a alma ao tabaco, ao álcool ou à cocaína para atingirem estes objectivos. E destes, alguns conseguiram-no, mesmo assim.

Fernando pessoa em flagrante delitro

Neste blogue entende-se que ler muito e bem, viver a vida plenamente e criar rotinas, alternando-as com rupturas, além de estar aberto para o mundo (e para o que aí se passa), é todo um processo de motivação que, em caso de não resultar em qualquer obra-prima, tem, pelo menos, a vantagem de fazer do escrevinhador ‘falhado’ melhor pessoa e pessoa mais interessante.

brise-du-soir-92-x-65Andrzej UMIASTOWSKI

A ser terapia, a escrita será assim pretexto para se viver uma vida estimulante. Mas nada está garantido, e nem é esse o objectivo da criação literária. Ou, já agora, deste blogue.

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Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

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Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

Questões de nível

A escrita, tal como a fala, está sujeita a códigos ‘de etiqueta’ que não se confundem com as regras da Gramática ou com normas ortográficas. Quem escreve pode nem estar consciente de seguir um qualquer código, limitando-se a fazer como sabe e sempre fez.

Se pedir, peço cantando,/ sou mais atendido assim;/ porque, se pedir chorando,/ ninguém tem pena de mim (in Este livro que vos deixo de António Aleixo ed.Vitalino Martins Aleixo)

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Nos finais do século passado ainda se publicavam um preciosos livrinhos que forneciam modelos para correspondência comercial, explicando em que circunstâncias se usava certa adjectivação (prezado, caro, excelentíssimo e aí por diante) ou se terminava oferecendo abraços ou atenções (com um abraço, atenciosamente). A correspondência amorosa também mereceu destaque nesse género de publicações, e não era menos rigorosa na utilização de fórmulas e do vocabulário.

Tão pouco te pergunto / meu amor:/ Como responde o corpo/ ao vazio dos lábios? (‘Pergunta’ in Só de Amor de Maria Teresa Horta, ed.Dom Quixote)

Textos com pretensões eruditas podem ser mais facilmente desacreditados se não respeitarem o rigor dos conceitos por de trás das palavras ou a articulação lógica entre diferentes afirmações e parágrafos, assim como um certo comedimento na expressão das emoções, o que não implica excluir frases poéticas ou efeitos cómicos.

O voo dos gansos bravos por cima da minha cabeça diz-nos que o protão perdura por muito tempo, mas não indefinidamente! (in Aves, maravilhosas aves de Hubert Reeves, trad.Francisco Agarez ed.Gradiva)

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Assim sendo, como se pode escrever um texto com aspirações literárias sem se prestar a necessária atenção para os níveis de linguagem? A questão torna-se especialmente pertinente quando o texto aborda a vida quotidiana, as pessoas nos seus diferentes estatutos sociais e contextos, mais ainda se o contexto histórico, geográfico ou outros são, de algum modo, familiares.

O capitão deu ordem de fogo. Arcádio apenas teve tempo de encher o peito e levantar a cabeça, sem compreender de donde fluía o líquido ardente que lhe queimava os músculos.

—Cabrões!—gritou—Viva o partido liberal!

(in Cien años de soledad de Gabriel Garcia Marquez, ed. Austral)

Mas as dificuldades para o escrevinhador serão maiores se não tem o pulso treinado para acompanhar o ritmo e o colorido dos estados emocionais, e não tem o ouvido apurado para as vozes da rua, dos convívios informais, dos encontros profissionais, das relações amorosas. Até mesmo nos insultos, certos escrevinhadores estão tão pouco à vontade que o resultado soa cómico, senão esquisito.

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe., e não apareceu nem respondeu—que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido.Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. (in Grande Sertão:Veredas de João Guimarães Rosa,ed. Nova Fronteira)

'Au!Au!Au!Au!Au!Au!...Au!...Au!... Raios...Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando'

‘Au!Au!Au!Au!Au!Au!…Au!…Au!… Raios…Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando’

Sempre foi o recurso clássico do mau escrevinhador defender-se deste problema recorrendo a uma linguagem ‘difícil’, mais rara do que erudita. Ou a formulações pomposas — ‘gongóricas’ diriam noutros tempos. Ou então, inversamente, cair na linguagem ordinária, calão mesmo, mais à semelhança do que ouve em certos reality shows do que na vida real. Em qualquer dos casos, o vulgar estereótipo.

Pilha aqui, pilha ali, vozeia autores,
Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e vários;
Propõe sistemas, tira corolários,
E usurpa o tom d’enfáticos doutores:

Ciência de livreiros e impressores
Tem da vasta memória nos armários;(…)

(‘Soneto ao Leitão’ de M.M. Barbosa du Bocage)

Não é este, de modo algum, um problema menor quando comparado à construção do enredo, à composição das personagens ou aos ritmos da narrativa. Há escrevinhadores que dão tanta relevância à linguagem empregue, que tudo o mais fica ofuscado numa primeira leitura, e digo isso num sentido elogioso, pensando nos exemplos já aqui abordados a respeito da oralidade do texto.

Sempre o mesmo afã de anotar coisas que parecem urgentes, sempre escrevinhando palavras soltas em papéis soltos, em cadernos, e afinal para quê, se quando vejo a minha letra escrita, as coisas a que se refere o texto se convertem em borboletas secas que antes voavam ao sol. (in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed. Planeta DeAgostini)

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O melhor enredo, ou a personagem mais fascinante, podem ser assassinados — pior ainda: cobertos de ridículo— se houver inadequação entre quem fala ou narra e o modo como fala ou narra. Polémicas literárias famosas sempre estalaram violentamente a este respeito, e não é para menos, já que este é um dos pilares da construção literária. Infelizmente, a maioria dos problemas de inadequação na construção do texto literário têm mais a ver com a falta de preparação do escrevinhador do que por questões de gosto.

O homem célebre é um homem que fez uma porção de coisas pra gente estudar na escola. Eu acho que se não existisse homem célebre nunca havia necessidade de ir na escola, porque nunca tinham inventado nada nem coisa nenhuma. (…) Os homens célebres ficam célebres por uma porção de coisas mas eu acho que a mais importante é a memória, pois todas as estátuas que eu conheço são dedicadas à memória deles. (in Conpozissõis Imfãtis de Millôr Fernandes, ed.Nórdica)

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Mais uma vez, o problema é agravado pela falta de boas e variadas leituras, e parte da solução está aqui. Treinar o ouvido é mais fácil, já que, quando confrontado com exemplos de inadequação, o escrevinhador reconhece facilmente a falha e consegue, quase de imediato, reformular e melhorar o texto. Mas o que dá mais trabalho e leva tempo é exercitar o pulso, pois aí reside aquilo que é específico do fenómeno artístico: a possessão.

(…) Às vezes sou algum/ desses esquivos personagens/ que repentinamente me suplantam,/ e às vezes somente sou/ como que um antecessor do que nunca serei/ ou talvez esse inconstante buscador de respostas/ que acaba sempre defraudado/ pela futilidade das suas pesquisas. / No entanto, minha história pessoal/ pouco tem que ver com essa história:/ Também eu sou aquele que nunca escreve nada/ se não é em legítima defesa. (‘Biobliografia’ de J. Caballero Bonald in Diário de Argónida  Somos el tiempo que nos queda-Obra Poética Completa ed.Austral)

Ou o beijo da bela Musa…

Qué fas ti mentras, meu bem?/ Dime dónde estás,en dónde,/ que te aspero e nunca chegas,/ que te chamo e non respondes./ Morreches, meu queridiño? O mar sin fondo tragóute?  (‘Cando a luniña aparece’ in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, ed.Cátedra)

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

O remate final e o que se lhe segue

O final de um poema ou de uma estória pode ser problemático para o escrevinhador, realmente: a dificuldade em ‘chegar’ ao fim, em estruturar a composição de modo a lhe dar conclusão. É que, muitas vezes, uma boa ideia surge como fragmento de algo maior e difícil de entrever, muito mais ainda de desenvolver e de expressar. E de lhe dar o remate adequado.

El instante que pasa ocupa todo el tiempo.

No hay final ni principio:

sólo el todo y nada equidistando

(‘Didáctica’ de J.M. Caballero Bonald in Diario de Argónida, Obra Poética Completa ed.Austral)

Túmulo do escritor desconhecido

Túmulo do escritor desconhecido

 

Mas pode acontecer o exacto oposto: a narrativa, ou o poema, tem um final aberto que permite progredir facilmente. Na ausência de um prazo para entrega do original para publicação, o escrevinhador prossegue indefinidamente, sem sentir perca de qualidade ou perturbação no equilíbrio original do enredo.

"Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má."

“Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má.”

As sequelas de que se falava no post anterior têm, quantas vezes, origem nessa impossibilidade de dar um ‘fim’. Não que este não pudesse ser dado páginas atrás, mas precisamente por haver uma pulsão das personagens ou do próprio contexto em prosseguir.

Assim como a leitura se torna compulsiva, obcecando o leitor a continuar com sacrifício do tempo para dormir, e depois lhe dá aquela tristeza por chegar ao final, também o escrevinhador pode entusiasmar-se a ponto de não conseguir parar. E se o fizer, sofre o mesmo vazio que o leitor sente ao interromper a leitura que lhe dava tanto prazer.

“Bem sei, bem sei que te seria difícil  terminar o teu ensaio-narrativa (posso chamar-lhe assim, um ensaio-narrativa?) se te não trouxesse eu uns últimos esclarecimentos. Pois ouve, que vou continuar…”

(in Os paradoxos do bem de José Régio, incluído na colectânea O vestido cor de fogo e outras histórias, ed.Verbo)

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Donde vem este entusiasmo criativo, ‘localizado’ numa obra em particular e incapaz de se alargar a outros projectos? Creio que se trata duma feliz combinação entre a louca da casa, que se liberta dos estreitos limites do quotidiano, com a bela musa, seduzida pela ideia e pelo discurso (escrito, claro), às quais se juntam as personagens dotadas de voz própria, de capacidade de escolha, decisão e acção.

Isso e mais o contexto em que as personagens vivem e actuam, contexto flutuando conforme as variáveis que o determinam. Tudo isso e mais, ainda, o tempo (ou os tempos) que determinam o ritmo e a sequência dos acontecimentos.

Garantia porém a quem folheia—o tema é de passagem, de passionar, passar paixão e o tom é compaixão, é compartido com paixão.

(‘Terceira Carta I’ in Novas cartas portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, ed. Moraes)

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A que se pode acrescentar ainda uma dimensão trágica, que não tem aqui o sentido de ‘desgraça’ geralmente usado, mas de conflito seguido dum qualquer tipo de desfecho que está para além dos desejos e da vontade das personagens (fatalidade, mistério). O qual, a partir do sec.XX, se pode caracterizar por um não-desfecho, uma indefinição (incerteza, imponderabilidade), ou seja, um final incaracterístico, não-intuitivo, e nem por isso inverosímil.

Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. (…) Assim eu te escrevo para te demorares um pouco.

(in cartas a Sandra de Virgílio Ferreira, ed.Bertrand)

Ou, simplesmente, nada disto: o texto prossegue alegremente repetindo o esquema inicial adicionando episódios que exploram as características das personagens e das suas circunstâncias de modo previsível. Se o escrevinhador está contente, o editor feliz e os leitores maravilhados, é uma receita de sucesso.

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O lugar do meio

Uma dificuldade curiosa, mais frequente do que se julga, e que, provavelmente, só surpreende quem nunca tentou escrever uma estória de ‘longa duração’, é a do escrevinhador que consegue arrancar com a narrativa sabendo muito bem como a quer concluir, mas sente enormes dificuldades em preencher ‘o meio’.

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Ou seja, o escrevinhador tem delineado o tema, o enredo e o propósito, conhece as personagens e o seu contexto, sabe de antemão o remate final da estória…então, o que lhe falta?

Literalmente, falta-lhe algo para preencher o ‘espaço’ entre o início e o fim. Ou assim julga ele. Pode ser que o que já tenha seja a estória praticamente acabada, não fosse a sua ambição de a ampliar em mais algumas dezenas ou centenas de páginas.

Ou pode ser que tenha razão: o enredo não está suficientemente desenvolvido, a intriga perde substância se despachada de modo abreviado…mas não tinha dito que o escrevinhador já tinha estruturado o enredo?

Observa-se melhor este fenómeno quando lemos narrativas divididas em sequelas. Dentro do plano geral, a sequela apresenta a evolução num determinado sentido (que pode estar mais ou menos explícito ou ser absolutamente imprevisível), mas surgem novidades: personagens, ambientes, intrigas, factos. O peso que cada uma das ‘novidades’ tem no plano geral é variável: umas vezes são simples acidentes de percurso, outras vezes são importantes, senão decisivas, para o progresso da narrativa.

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As sequelas podem obedecer a um plano mais ou menos rigoroso, que as estrutura dum modo familiar ao leitor, e as ditas novidades tornam-se variações do tema que se arriscam a se tornar ‘mais do mesmo’, ou seja, a serem puro entretenimento já que nada acrescentam à intriga, limitando-se a somar episódios sobre episódios.

Ou as sequelas evoluem, conceptual e estilisticamente inclusive. Quando há evolução, provavelmente deve-se à já referida autonomia das personagens: alteradas as circunstâncias ao longo do tempo, tendo passado pelo que passou, cada personagem reage de modo imprevisto para o próprio escrevinhador.

Deste modo, as novidades que surgem em cada sequela são igualmente imprevisíveis no que implicam para o futuro dos acontecimentos. Até o plano da obra pode ser, senão irremediavelmente alterado, profundamente afectado.

Esta é a magia própria da criação literária e que tanto escrevinhador sente pulsar nas linhas acabadas de escrever: a estória é-lhe oferecida, as personagens determinam o seu destino, o tempo da narrativa é indeterminado, o escrevinhador é o primeiro a ser surpreendido pelo desfecho dos acontecimentos.

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Voltando ao problema inicial: quando o enredo está perfeitamente delineado, mas o escrevinhador sente que o tem de alongar com alguns conteúdos extra, talvez seja o modo da sua sensibilidade crítica o alertar para a brevidade, simplicidade, linearidade, do argumento.

Como se a bela musa lhe concedesse uma breve carícia na expectativa de ser seduzida pelo acto criativo do escrevinhador, a centelha de génio que irá libertar a narrativa do que quer que seja que a tolhe.

Sendo assim, a dificuldade tem mais do que uma resposta. Mas se o escrevinhador não a consegue encontrar, torna-se um problema de bloqueio.

E como já tivemos ocasião de ver, há uma dimensão extra-literária no bloqueio criativo que o escrevinhador deve resolver.

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Temas duma época: o Verão

Há uma agitação editorial que se associa ao Verão, ao tempo de férias e de praia, expressa por publicações ‘light’, supostamente divertidas e da autoria de ‘famosos’, pela edição de best-sellers de autores já conhecidos, e coisas assim para ajudar a passar o tempo sem o ocupar: a antítese da paixão de ler, realmente.

Enviar SMS's enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Enviar SMS’s enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Ao Verão associam-se temas como as viagens de lazer e descoberta, os regressos e reencontros que trazem memórias de outros Verões, artes de sedução, episódios festivos. Muito para além do registo lamecha ou do pseudo-transgressor, existem bons exemplos de estórias centradas nos encontros e desencontros da época.

Paralelamente, há escrevinhadores que desenvolvem temas mais introvertidos e controversos: a solidão voluntária ou sofrida, a pausa para reflexão, a fuga à rotina ou a imersão na rotina própria da temporada, o tédio existencial e a miragem duma vida-outra.

'Nighthawks', Edward Hopper

‘Nighthawks’, Edward Hopper

Porém, é bom recordar que o Verão não se resume a um período de lazer. No passado longínquo, como no recente, as guerras europeias têm tendência a começar nesta época: primeira e segunda grande guerra, guerras civis de Espanha e da Jugoslávia, para ficar só pelos sec.XX e XXI. E no tempo em que as actividades rurais ocupavam a maior parte da população, os latifúndios exigiam o trabalho sazonal de migrantes em grande número, sendo o tempo de Verão especialmente penoso, ainda que pudesse ser visto numa tonalidade dourada e nostálgica.

Ou seja, trata-se duma época dotada para a escrita que privilegie a ambiguidade, o contraste entre as expectativas e o vivido, onde as personagens podem ser abordadas numa perspectiva caricata e, simultâneamente, humana como é próprio dum certo tipo de ironia.

-Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.

“Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.”

O que traz, no fundo, uma boa dose de complexidade ao enredo, mesmo que se limite ao registo de uns pouco dias de Verão na vida de alguém.

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

Para lá dos ‘estados de espírito’

Muitas vezes, o trabalho poético do escrevinhador  assenta na crença de que a verdade dos estados de espírito será suficiente para garantir ‘a alma’ do poema, enquanto que a aplicação duma qualquer métrica e sistemas de rimas bastará para a estrutura…e depois há um vocábulo, uma imagem, um efeito que podem ser acrescentados em revisões seguintes. Poderá também dispensar métrica e rima, sempre confiante na inspiração que o domina.

Se a emoção dominar a composição, reforça o risco do excesso, tanto na linguagem, como nas ideias, sem com isso dizer que se torna profundo ou complexo. Os sintomas mais evidentes são a perda de musicalidade, ritmo, clareza, empastelando frases longas (e a divisão da frase nos diferentes versos não a encurta, evidentemente).

-Tudo bem,David.

-Oh,David. Toda a gente sabe que és estúpido. Não precisas de tentar ganhar o campeonato mundial.

Ou seja, há mais preocupação em dizer do que em compor. Mas não será um risco aceitável, o de versejar livremente ao sabor da emoção e do sentimento? Aliás, não será até a característica principal da poesia? A de ser espontânea e vinda do fundo do Ser (ou ‘ do ser’, conforme os gostos)?

Pois, pois…não houvesse tanta negligência por parte dos escrevinhadores-poetas, compondo sem critério, nem auto-crítica.

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Sendo possível o compromisso entre estrutura, emoção (ou sentimento) e critérios (sejam lá quais), o escrevinhador estará a aperfeiçoar a técnica dos futuros poemas. Assim, mais facilmente captará os momentos de inspiração num texto que seja, por sua vez, inspirador.

Passei a vida a amar e a esquecer…/Um sol a apagar-se e outro a acender/nas brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo/É igual a outro amor que vai surgindo,/Que há de partir também…nem eu sei quando… (1)

Pode ser que algumas obras-primas da poesia tenham sido escritas logo à primeira redacção, sem mais do que um ou outro acerto posterior. É possível e é de génio (mas dá muito trabalho). A acontecer, deve ser raro.

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A inspiração, emoção, sentimento, a louca da casa, são fundamentais, mas não dispensam o pulso exercitado, o olhar perspicaz, a mente crítica. Quando combinados, a vida banal do escrevinhador ganha dimensão universal e a poesia, bem…a poesia torna-se força da natureza.

Eventualmente paso días enteros sangrando/(por negarme a ser madre).

El vientre vacío sangra/exagerado e implacable como una mujer enamorada./(…)/

No alimentaré a nadie con mi cuerpo/para que viva este suicidio en cuotas que vivo yo./

Por eso sangro y tengo cólicos/y me aprieto este vientre vacío/y trago pastillas hasta dormirme y olvidar/que me desangro en mi negación  (2)

Madonna (1895), de Edvar Munch

Madonna (1895), de Edvar Munch

 

(1) in Inconstância, do  Livro de Sóror Saudade de Florbela Espanca

(2) in Eventualmente paso días enteros sangrando, do livro Espejo negro de Miriam Reyes, DVD ediciones

Escrever como terapia

O sentido dado aqui a ‘terapia’ é muito amplo, e desde há muito que as artes em geral são entendidas, também, como um modo do sofredor (de amores, de melancolia, de obsessões, de desgostos, de doenças físicas ou mentais…) recuperar a saúde até um certo ponto. Ou, de algum modo, a comprazer-se com a dor.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

A escrita literária, principalmente, gerou muitas e boas obras graças a este processo. Mas é incomensurável o número das que são simplesmente insuportáveis.

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O problema não está na necessidade do escrevinhador em ‘trabalhar’ suas emoções e sentimentos, ordenando ideias, exprimindo sensações. Provavelmente, tudo isto é a matéria-prima e o combustível do processo artístico.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

O problema está, creio eu, em deixar o processo ser dominado por essas mesmas emoções, sentimentos, ideias e sensações: o escrevinhador como que se isenta de quaisquer faculdades críticas e estéticas.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se se pode escrever bem sem essas faculdades, só o vejo possível para quem tem interiorizado com elevada técnica e apuro o exercício da escrita.

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De outro modo, acontece o previsto: a produção de textos sem valor literário, ainda que ricos em material para análise psicanalítica…e, na esmagadora maioria das vezes, nem isso, vista a sua banalidade confrangedora.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Conforme já por aqui tenho dito, não se está a pôr em causa a importância da espontaneidade, das emoções-sentimentos-etc-e-tal, e de tudo o mais que exprima o mundo interior de cada qual. Mas a relativizá-los enquanto material para uma escrita com pretensões literárias, a ser partilhada com leitores desconhecidos.

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro

in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se são importantes, para não dizer fundamentais, numa primeira fase do processo da escrita, têm de ser avaliados rigorosamente numa fase posterior a que chamei ‘pós-produção’ literária.

QUESTIONÁRIO POPULAR! Há mais alguma coisa na vida? SIM/NÃO -Raios.Eu devia saber esta...

QUESTIONÁRIO POPULAR!
Há mais alguma coisa na vida?
SIM/NÃO
-Raios.Eu devia saber esta…

 

* retirado de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro (apresentação crítica, fixação do texto, notas e linhas de leitura de Teresa Amado) Colecção Textos Literários—Editorial Comunicação 1984

 

 

 

 

Escrever para chegar ao fim

Uma coisa boa a respeito da ‘falta de fôlego’ do escrevinhador, tema do post anterior: resulta, na esmagadora maioria dos casos, duma consciência auto-crítica sobre o valor do texto.

Depois de doze minutos/Do seu drama  O Marinheiro/Em que os mais ágeis e astutos/Se sentem com sono e brutos,/E de sentido nem cheiro,/Diz uma das veladoras/Com langorosa magia:/ 

De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos falando ainda?

/Ora isso mesmo é que eu ia/ Perguntar a essas senhoras…(1)1982260_797510686944822_1081620113_nO escrevinhador percebe que esgotou a capacidade de inovar, acrescentar, renovar, limitando-se a produzir texto a metro, e mesmo assim com muito custo. Obviamente, o resultado não o pode satisfazer.

Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu./Senti de mais para poder continuar a sentir/ Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. (2)

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-Primeiro tens de gostar de ti mesmo. -De mim?!…Eu mereço melhor!

Se parar, guardando o texto numa gaveta e aproveitando para arejar as ideias, talvez seja beneficiado por uma lufada de inspiração mais tarde. Ou abandone o projecto.

Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir…/É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…Prá frente! (3)

Infelizmente, muitos assumem o ‘dever’ de lhe dar um fim, arrumando de vez com aquela tarefa penosa. Percebo que o façam por obrigação contratual, mas isso só beneficiará a lista dos monos, caso venham a publicar.

(…) Se há um plano/ Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…) (4)

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Contudo, a imensa maioria não está sujeita a prazos, muito menos a contratos. Sem gosto, nem proveito, porque insistem?

Vou atirar uma bomba ao destino. (5)

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Sem entrar nas águas turvas da criação artística, creio que a resposta está no nível emocional do exercício da escrita literária: a generalidade dos escrevinhadores escreve por necessidade interior, como se o acto ajudasse a por em ordem as ideias, os sentimentos, a vida. Que não é uma terapia cem por cento eficaz demonstra-o a legião de suicidas, alcoólatras,  e doidos que brilharam (e brilham) no universo literário.

Mas escrever como terapia também não é garantia de que o escrevinhador se torne melhor pessoa, e muito menos de que os seus escritos se elevem da mediocridade.

Hup lá, hup lá, hup-lá-hô, hup-lá!/Hé-lá! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!/Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! (6)

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(1) in A Fernando Pessoa depois de ler o seu drama estático “O Marinheiro” em “Orpheu I” ; esta e as citações seguintes são da autoria de Álvaro de Campos  Poesia vol.I ed.Planeta DeAgostini

(2) in Ode Marítima

(3) in Carnaval

(4) in Saudação a Walt Whitman 

(5) Poema nº 42 (sem título)

(6) in Ode Triunfal

Montagem, harmonia, linha de fuga…

Para ilustrar técnicas, processos estilísticos e outros aspectos da criação literária, é mais fácil recorrer a conceitos de outras formas de expressão artística, como o cinema, a música e a pintura.

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Também, cada vez menos partilharmos o mesmo cânone literário, e pormo-nos a par não se faz em meia-dúzia de dias; assim,como ‘trabalho de casa’ costumo sugerir o visionamento de filmes para comparar o tratamento dado ao mesmo argumento por realizadores diferentes .

Quando digo ‘argumento’ tanto me refiro às diferentes versões cinematográficas do mesmo livro (‘Romeu e Julieta’ de Shakespeare, p.ex.), da mesma estória (a vida de Cristo, p.ex.) ou do mesmo tema (a fuga da prisão, o adultério, a vida de bairro).

Um dos aspectos mais fascinantes e úteis na técnica narrativa, comum à literatura e ao cinema, é a montagem, aquele trabalho pós-gravação das cenas, onde se dá ordem e coerência a centenas de horas de filme, cortando o que não interessa, colando captações distintas da mesma cena, dando sequência duma cena para a outra, com efeitos estilísticos paralelos ao da narrativa escrita.

Sobre cinema e literatura ainda me atrevo a dar palpites e comentários, mas de música devia estar calado e ser absolutamente omisso.

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Combinação entre uma técnica de Banda Desenhada (os ‘balões’) e o Cinema (fotograma retirado do Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica) resultando num  ‘cartoon’ satírico com o característico ‘punch-line’.

 

Porém, como toda a gente aprecio música, sei como a banda sonora de um filme pode ter um efeito sinestético poderoso e  sinto a sonoridade do texto, experimento uma harmonia musical no enredo, por vezes escrevo com um ritmo que é o de ‘qualquer-coisa-musical’ que faz a diferença de outros escritos, ou secções do mesmo livro.

Por absoluta ignorância, sou incapaz de desenvolver teoricamente o paralelismo entre a música e a escrita literária, e temo sempre o meu entusiasmo a este respeito, principalmente quando vou buscar termos técnicos da música para ilustrar algum tópico. Mas fica a dica para o efeito sensorial, estético, que é comum a muitos escrevinhadores, sendo fonte de inspiração para todos eles.

Moisés faz o balanço... -Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia...mas nunca tive um êxito musical.

Moisés faz o balanço…
-Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia…mas nunca tive um êxito musical.

Do mesmo modo, a pintura e a fotografia são igualmente estimulantes, igualmente simbióticas para com a literatura, e frequentemente sugiro que se  ‘olhe’ um poema, um livro, como quem ‘lê’ certos quadros, certas fotos. A perspectiva, a linha-de-fuga, por exemplo, é uma noção particularmente útil.

E aqui tenho de acrescentar a Oitava Arte, a Banda Desenhada, que sintetiza exemplarmente o Cinema, a Pintura, a Literatura, além de desenvolver a sua abordagem estética específica.

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Da dança gostaria de dizer alguma coisa, até porque sou particularmente sensível à parte física da palavra, da ideia, do enredo, coisa que ‘entendo’ muito bem quando assisto a danças de salão ou de ballet contemporâneo. Mas aí falha-me o próprio vocabulário, desgraçadamente.

Em todos os casos, esta contaminação das artes, do mais básico ao mais elaborado dos raciocínios e das teorias, da simples fruição ao exercício apurado, do apreciador ocasional ao diletante, ajudam o escrevinhador a compreender as relações entre a parte e o todo na fase da pós-produção literária, distinguindo o sentimentalismo da paixão, a emoção da criação, assim como a desenvolver sentido crítico.

la muse, de jean esparbes

la muse, de jean esparbes

Cultivando sempre o grãozinho de loucura, a relação com a bela Musa, obviamente.

 

 

 

Escrever como quem martela ferro frio…

São variados os obstáculos que se põe no caminho do escrevinhador  (bloqueio, inconsistência, desinspiração, etc, etc), faltando-lhe fôlego para animar a obra e dar-lhe ritmo, velocidade, tensão ou qualquer outro ingrediente que provoque a reacção química necessária para que o processo desencadeie.

Claro, tudo isto se pode simular. E simula-se. Com algum trabalho. Mas simula-se. Porque no fundo inspiração talvez não seja mais do que a construção, mais ou menos rápida, de um sistema ou de uma armadilha de palavras que nos prende e nos liberta.(1)

A eterna luta

A eterna luta: levando material daqui para ali.

Na prosa, como na poesia, existe maneira de ultrapassar o problema em termos meramente produtivos: martelando. Que é, no fundo, uma discutível virtude da persistência, da ambição, da vontade, ou o que quer que seja que move o escrevinhador (e que não é, obviamente, a bela Musa).

Você disse que o poeta é um fingidor. Eu o confesso, são adivinhações que nos saem pela boca sem que saibamos que caminhos andámos para lá chegar, o pior é que morri antes de ter percebido se é o poeta que se finge de homem ou o homem que se finge de poeta. Fingir e fingir-se não é o mesmo, Isso é uma afirmação, ou uma pergunta, É uma pergunta, Claro que não é o mesmo, eu apenas fingi, você finge-se, se quiser ver as diferenças, leia-me e volte a ler-se. (2)

"McWit, a tua licença poética expirou

“McWit, a tua licença poética expirou há anos.”

Graças à aplicação correcta das regras gramaticais, do uso de estruturas métricas e/ou de variações estilísticas em moda, copiando a formatação de modelos bem sucedidos, o resultado até pode ser satisfatório, demonstrando conhecimento, trabalho, critério.

Que este método também não é fácil, demonstra-o a legião de ‘marteladores’ justamente ignorados.

Lá de dentro, do fundo da livraria, (…) despegou-se abruptamente esta voz de fúria aflautada:

—É uma besta! Uma grandessíssima besta! Uma besta quadrada!

Bem. Aposto tudo (…) em como estão a falar de um mestre crítico qualquer. (3)

...o Fim

-…o Fim. Bem, hora de dormir. O que estás a escrever?                                 -Uma recensão negativa do livro!

Porém, quando reforçado com recursos não-literários pode obter reconhecimento e sucesso, até um público.

(…) o seu livro não é cano de escorrências muito nauseabundas, nem é canal de notícias úteis, tirante a dos hotéis infamados de percevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo porque custa sete tostões e —vá de calão—como troça e bexiga, é caro. (4)

-És tão ilógica. Nunca conseguiu ganhar uma discussão contra ti! -

-És tão ilógica. Nunca consigo ganhar uma discussão contra ti!
-Não experimentes, nem me confundas com factos.

Invariavelmente, o seu destino é o de se tornar um ‘mono’. Mas, até lá, sempre vai rendendo alguma coisa. De qualquer modo e maneira, já dizia o moralista: sic transit gloria mundi…

Ia (…) tão contente do seu destino de enfeitar selectas, que me apeteceu gritar-lhe, cá de longe, do fundo da inveja irónica do sono escondido:

—Mais depressa, pá! Avia-te! Corre! Enfia pelo futuro adentro! Pois não vês que estão lá todos à tua espera para te dividirem em orações?

Mas contive-me. (Se for como tu e como os teus versos, há-de ser fresco, o futuro!)  (5)

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“Vamos acrescentar mais umas banalidades. Este é um discurso reconfortante e as frases feitas são um alimento de conforto verbal.”

 

 

(1)in Duas respostas a um inquérito de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(2) diálogo entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, já falecido, in O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago ed.Caminho

(3)in Grupos, grupinhos e grupelhos de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(4)recensão do livro Portugal à Vol d’Oiseau daPrincesa Ratazzi in A Senhora Ratazzi de Camilo Castelo Branco, incluído na Boémia do Espírito ed.Lello e Irmão

(5)in Meditações sobre a estratégia da glória de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes.

 

Impulsos aleatórios

Certo: o esboço duma ideia, o fantasma duma memória há muito esquecida, um sentido imprevisto ao escutar algo, o realinhar de perspectiva frente ao horizonte sugerido por uma leitura…tudo rápido e incerto, difícil de expressar, quanto mais de elaborar.

Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. (…)

Quero apossar-me do é da coisa. (…) E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro.*

pintura de Clarice Lispector

Ás vezes, nem isso: é o impulso de passar por escrito relâmpagos que se acendem numa tempestade interior, íntima.

Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo às pinturas e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras __ e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão. *

Com que resultado? Ah, pois…!

Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê agora o que se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação energética dos eléctrons, prótons, nêutrons, no fascínio que é a palavra e a sua sombra.” *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

As palavras até podem surgir, mas o texto não se parece em nada com o que tão fortemente impressionara o escrevinhador segundos antes. E por mais voltas que dê, entre a ideia-intuição-sensação-não-sei-o-quê e aquilo que é escrito gera-se uma claustrofobia que provoca a sensação de impotência.

As grutas são o meu inferno. (…) Tudo é pesado de sonho quando pinto uma gruta ou te escrevo sobre ela, (…) Quero pôr em palavras mas sem descrição a existência da gruta que faz algum tempo pintei__e não sei como. (…) Escrevo-te como exercício de esboços antes de pintar. Vejo palavras. O que falo é puro presente e este livro é uma linha reta no espaço. *

Mas tem um porém.

O que te escrevo não vem de manso, subindo aos poucos até um auge para depois ir morrendo de manso. Não: o que te escrevo é de fogo como olhos em brasa.

(…)Será que isto que estou te escrevendo é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é. Quem for capaz de parar de raciocinar__o que é terrivelmente difícil__ que me acompanhe. (…) Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei onde me levará esta liberdade. *

pintura de clarice lispector

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Tenha o escrevinhador persistência para acumular estes ‘vómitos’ (conforme já ouvi alguém dizer a propósito do que escrevinhava), coragem para os enfrentar com regularidade e método para os trabalhar, e verá acontecer debaixo dos seus próprios olhos o mecanismo da selecção natural.

(…) sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. 

Vou agora parar um pouco para me aprofundar mais. Depois eu volto.

Voltei. Fui existindo. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Do caos e dos detritos, surgem conjuntos, categorias, ordens, sistemas: relações e desenvolvimentos que se impõe ao próprio escrevinhador, segundo uma lógica e um sentido que tanto podem ser misteriosamente familiares, como espantosamente originais.

Escrevo ao correr das palavras. (…)

No fundo de tudo há a aleluia.

Este instante é. Você que me lê é. (…)

Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos. *

Pintura de Clarice Lispector

Pintura de Clarice Lispector

Haja método para trabalhar a inspiração. Uma outra forma de dizer: seduzir a Musa para que ela se entregue com paixão.

(…)agora quero ver se consigo prender o que me aconteceu usando palavras. Ao usá-las estarei destruindo um pouco o que senti__mas é fatal.

(…) São sensações que se transformam em ideias porque tenho que usar palavras.(…)

O que te escrevo continua. E estou enfeitiçada. *

* in Água Viva de Clarice Lispector ed. Nova Fronteira

Inspiração, transpiração…

Por muito importante que seja a inspiração, há sempre um problema pratico e arreliante a resolver: método.

Porque, por falta de método, perdem-se ideias e sugestões inspiradoras. Tradicionalmente, o escrevinhador previdente está munido dum bloco de notas para rabiscar imediatamente o que lhe foi sugerido numa conversa ouvida casualmente ou ao passar por certo lugar sob incerta luz.

"Não te importas que escreva no meu diário?"

“Não te importas que escreva no meu diário?”

E, mesmo assim, pode lhe faltar o reflexo de anotar logo ou a argúcia em tomar nota das palavras-chave. Porque a inspiração tem algo de químico, activando hormonas que hão-de despertar memórias, associar ideias,  suscitar estórias ou encadear imagens, etc, etc, e o processo pode ser reactivado horas, dias, anos depois, pela ordem inversa, através das palavras.

Daí que, quando o escrevinhador se queixa de falta de assunto, de inspiração ou bloqueio, talvez o problema seja mais simples de entender assim.

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O meu psicólogo diz que vai levar anos para trabalhar os meus problemas de fúria, mas não tenho a certeza. Basta escrever uma estória de violência assassina e sinto-me bastante bem.

Quando ouço em resposta ah, isso dá muito trabalho! ou não se pode estar todo o tempo a tomar notas do que acontece fico com a impressão de que estou a gastar o meu latim com simples curiosos.

Gosto de falar na musa, de exaltar a paixão, de insistir no grãozinho de loucura e todas essas imagens ou ideias que transmitem a possessão no acto da escrita. Faço-o porque sei que, se até o mero leitor, também ele, quando se defronta com um certo poema ou estória, é capaz de sentir o sopro da inspiração, como não há-de senti-la o escrevinhador nas suas horas felizes obsessivas dando forma ao que lhe vai por dentro?

"O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela estão a usar luvas."

“O Inverno deve estar a chegar. As pessoas da minha novela começaram a usar luvas.”

Porém, mesmo o mais sagrado dos mistérios exige ritos banais a seguir com algum escrúpulo e disciplina.

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“Helena,eu apreciaria muito se respeitasses o meu processo criativo.”

Provocar a inspiração

A propósito dos temporais em terra e no mar, neste momento muito mediáticos e actuais, pedem-me orientação para uma qualquer obra a ser escrita.

Quando dediquei a Dezembro uma série de posts, destaquei três temas recorrentes: o Tempo, o Natal, o Inverno. Conforme expliquei na altura, e corrigi a seguir, o mês de Dezembro será o mais sugestivo dos meses. 

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Podia fazer o mesmo mês a mês ou, em alternativa, isolar um tema (‘o temporal’) e explorar as suas linhas de força. É um modo ‘criativo’, como outro qualquer, de sondar temas que o escrevinhador pressente que tenham potencial para a sua escrita. Mas se já está impressionado com os relatos do (mau) tempo que faz por aí, então deve aprofundar a razão dessa ‘impressão’.

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Pode ser o fascínio pela força da natureza em fúria. Pode ser o relembrar de outro temporal, outras catástrofes, de que, eventualmente, tenha sido testemunha ou de que ouviu contar por quem tenha assistido e/ou sofrido as consequências. 

Assim como podem ser associações, geralmente inconscientes, e que são o combustível para alimentar toda uma narrativa. Ou várias. Nesse caso, o temporal de chuva, vento e frio é pretexto para outras tormentas, mais íntimas, pessoais e menos óbvias.

Golconde de René Magritte

Como acontece, exemplarmente, em Wuthering Heights (traduzido tanto por O Morro dos Ventos Uivantes como O Monte dos Vendavais)  de Emily Brontë:

Wuthering Heights é o nome da residência do sr.Heathcliff. ‘Wuthering’ é um adjectivo com significado local, descritivo da perturbação atmosférica a que a sua situação é exposta em dias de tempestade.“*

De facto, o narrador e personagem do livro, o sr.Lockwood, irá constatar à chegada ao Monte dos Vendavais que o nome tem essa justificação, mas o título do livro alude muito mais à tempestade dos afectos e das vidas das pessoas que viveram naquela casa. Como o próprio leitor será levado a concluir.

“Meu amor por Linton é como a folhagem no bosque: o tempo há-de mudá-lo, sei bem, tal como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff assemelha-se às rochas eternas por baixo: uma fonte de escasso prazer visível, mas necessário. Nelly, eu sou Heathcliff!”*

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A escolha do adjectivo ‘wuthering’, que associa o vento e o ruído do soprar do vento, sai reforçado na cena fantasmagórica que uma noite de temporal suscita, perturbando o sono do narrador:

(…) os meus dedos apertaram dedos duma pequena mão gelada! O horror intenso de um pesadelo apoderou-se de mim: tentei retirar o braço, mas a mão agarrava-o, e a voz mais melancólica gemeu, ‘Deixa-me entrar, deixa-me entrar!’ ‘Quem és tu?’, perguntei, esforçando-me, entretanto, por me libertar. ‘Catherine Linton,’ respondeu (…) ‘Voltei para casa: andei perdida no pântano!’  Enquanto falava, pude ver vagamente, um rosto de criança através da janela. O terror fez-me ser cruel; e, percebendo que era inútil tentar sacudir a criatura, puxei o seu punho para o vidro partido, e esfreguei-o para trás e para a frente até o sangue correr (…) mas continuava a gritar, ‘Deixa-me entrar!’ e persistia com o pulso fechado e tenaz, enlouquecendo-me de medo.“*

O escrevinhador faz bem em estar atento a todos os estímulos à sua veia criativa, explorando sentidos e desenvolvendo relações, tomando notas, deixando sua fantasia correr livremente. O resto virá depois, se tiver de vir.

* in The Wuthering Heights de Emily Brontë

O ritmo dos acontecimentos

O enredo pode exigir que os acontecimentos se sucedam com rapidez, numa sequência não-necessariamente-linear, empolgando o leitor a virar página atrás de página. Ou que assim seja em certos momentos. Tudo em prol do desenvolvimento duma estória rica em surpresas e mudanças.

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“20 de Abril: Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio sobre a Cegueira (…) como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? (…) Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo “clássico” do “conto filosófico”, inserindo nele (…) personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada.” *

Ou, pelo contrário, o enredo segue um ritmo certinho como um relógio. E porquê? Talvez porque o tempo da narrativa seja circular, talvez porque os acontecimentos evoluam lentamente, talvez porque as personagens valorizem menos a acção, privilegiando as relações entre si.

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“21 de Junho: Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após a outra, até substituírem, por completo: as que têm visão podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.” *

Possivelmente, o escrevinhador é condicionado pela interacção das personagens e pelo horizonte da narrativa, ele próprio sendo surpreendido por decisões que lhe escapam, impostas pela lógica implacável do enredo, pelo temperamento de uma ou de várias personagens. Quando assim é, escrever torna-se uma aventura, uma descoberta, uma possessão demoníaca…enfim, uma paixão.

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“15 de Agosto: Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio (…). Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, (…) enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.” *

* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago, ed.Caminho

O escrevinhador e o Tempo

Há quem escreva com a noção de já ter vivido ‘o seu’ tempo, não sendo ‘seu’ o tempo contemporâneo. Supõem, por isso, que o que escrevem destina-se à sua faixa etária e a gente ainda mais velha: os mais novos não se interessam, nem o escrevinhador percebe o que lhes interessa.

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 Ou vivem o drama duma ausência existencial.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?… Aqui, tudo já foi… Em sombra estilizada, A cor morreu — e até o ar é uma ruína… Vem de Outro tempo a luz que me ilumina 

[in Epigrafe de Mário Sá Carneiro]
Lista Telefónica -Sinto-me inútil.

Lista Telefónica
-Sinto-me inútil.

O curioso neste ponto de vista é a negação, implícita, da própria Literatura, essa forma de arte em palavras que pretende agir sobre o leitor (ou ouvinte).

Tristes mãos longas e lindas/ Que eram feitas pra se dar…

Ninguém mas quis apertar…/ Tristes mãos longas e lindas… 

E tenho pêna de mim, /Pobre menino ideal… 

Que me faltou afinal? /Um elo? Um rastro?… Ai de mim!… 

[in Dispersão de Mário de Sá-Carneiro]

Os temas, como o talento, podem envelhecer, cair em desuso, desaparecer, nada de mais natural…mas como pode o escrevinhador sentir-se com autoridade suficiente para decretar a morte eminente de um tema (ou do próprio talento), após a morte dele (escrevinhador) e dos seus (poucos) leitores?

-Para de ser tão negativo. -Um verdadeiro optimista teria dito "Sê positivo".

-Para de ser tão negativo.
-Um verdadeiro optimista teria dito “Sê positivo”.

Anúncios destes podem resultar em boas ficções literárias, dramatizando o necessário para alimentar a tensão que uma perda definitiva sempre desperta. Até podem resultar como estratégia de marketing.

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-Queres parecer muito esperto, Corto Maltese. É esse o teu defeito…mas sei uma coisa a teu respeito: no fundo és honesto e é isso que me convém.
-As mulheres deveriam ter sido a minha ruína já há muito tempo.

Ora, ao escrevinhador resignado a escrever para ‘os do seu tempo’ falta, quase sempre, fôlego literário. Se algo definha não é a literatura, nem o tema, mas a escrita dos textos (dele, escrevinhador), e esse definhamento é o problema número um de toda a Criação (com maiúscula e porque sim): a falta de inspiração.

Eu próprio me traguei na profundura, Me sequei todo, endureci de tédio.
[in Além-Tédio de Mário Sá Carneiro]

 

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O resto são tretas. Mas é com tretas (e letras) que se responde a tão singela questão: escrever como?

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Mário Sá Carneiro, desenho de Almada Negreiros

Um pouco mais de sol – e fôra brasa, Um pouco mais de azul – e fôra além. Para atingir, faltou-me um golpe de aza… Se ao menos eu permanecesse àquem…

[in Quási de Mário Sá-Carneiro]

Limites do estereótipo, ilimitados horizontes da literatura

Como bem repararam leitores deste blog, provavelmente vivendo noutras latitudes que não a minha, o mês de Dezembro pode significar mais calor, mais horas de luz solar, sendo fim-de-ano e época de Natal na mesma. O que ilustra na perfeição como somos condicionados pelo nosso pequeno mundo e pelos estereótipos dominantes.

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Pergunto, então, como é que a literatura tem lidado com a quadra nessas latitudes mais baixas? Quase arrisco dizer que não é tópico muito relevante, mas confesso minha ignorância.

Certamente, a tradição do presépio e das estórias associadas estão vivas e presentes em contos, poemas, mas…qual será a tendência nestes últimos, vá lá, 50 anos*? O imaginário comercial do Papai Noel, do pinheiro enfeitado e da neve artificial não me parecem suficientes para inspirar a criação literária, mas podem ter o efeito de esterilizar a tradição.

-Quem és tu e porque haveriamos de querer uma foto dele contigo?

-Quem és tu e porque haveríamos de querer uma foto dele contigo?

Mesmo assim, continuo a ter uma perspectiva naturalmente etnocêntrica, pois nada digo daquelas regiões onde boa parte da população, senão mesmo a grande maioria, não partilha o imaginário cristão, nem o calendário gregoriano. Será que suas literaturas orais e escritas estão completamente alheias aos temas de Dezembro?

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Volto a repetir a minha absoluta ignorância sobre tudo isso, mas adivinho aqui excelentes temas para um escrevinhador aprofundar e desenvolver.

* Ou década de 60 do sec.XX, em que a Televisão iniciou a conquista de todos os lares (para não dizer de todas as divisões da casa)
 e de todo o espaço público.

Vozes do Outro-Mundo

Por vezes, o escrevinhador é assombrado por fantasmagorias apelando a uma memória colectiva, tanto reclamando o ajuste de contas com o Passado, como a celebração dum Futuro de outra época, ainda que negado e destruído, e que, de algum modo, preparou o Presente.

Pintura de Cândido Portinari

Pintura de Cândido Portinari

O apelo do passado remoto de outras vidas pode incentivar à pesquisa de documentos e relatos, resultando num estudo onde janelas de luz se abrem para novos factos e outras interpretações.

Ou assim o escrevinhador pressente, sofrendo o abalo duma revelação:

O passado não abre a sua porta/ e não pode entender a nossa pena./ Mas, nos campos sem fim que o sonho corta, / vejo uma forma no ar subir serena:/ vaga forma, do tempo desprendida./ É a mão do Alferes, que de longe acena. /Eloqüência da simples despedida:/ “Adeus! que trabalhar vou para todos!…” (Esse adeus estremece a minha vida.) *

Assim como também tem vezes em que o escrevinhador vai atrás duma história e é possuído por outra, que se impõe pela urgência e passa a fazer parte dele mesmo:

Quando, há cerca de 15 anos, cheguei pela primeira vez a Ouro Preto, o Gênio que a protege descerrou, como num teatro, o véu das recordações que, mais do que a sua bruma, envolve estas montanhas e estas casas, e todo o presente emudeceu, como platéia humilde (…)

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Pintura de A.Almeida

Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores (…). Na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas (…). Então, dos grandes edifícios, um apelo irresistível me atraía (…)

Deixei Ouro Preto e seguiram comigo todos esses fantasmas. Seguiram outros (…).’ **

A escrita deixa de ser mero ofício ou prazer artístico, torna-se paixão. Escrever como quem dá voz a vozes de outro tempo, outro mundo.

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* in Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, ed.Nova Fronteira

** in Como escrevi o “Romanceiro da Inconfidência” conferência de Cecília Meireles em 1955, na Casa dos Contos de Ouro Preto

A louca da casa

Variando com as épocas e as culturas, o escrevinhador podia sentir-se possuído, ferido ou recebido um dom de uma qualquer entidade divina, perturbado ou assombrado pelo(s) seu (s) demónio(s), o qual podia ser verde se bebesse absinto, ou visitar uma qualquer Lucy num céu de diamantes. absinthe_drinker Ou idealizar alguém, uma suposta Beatriz, por exemplo, colocando-se ao seu serviço e imortalizando-a em retribuição pela inspiração: ‘E ainda que a sua imagem, que comigo continuadamente estava, encorajasse Amor a assenhorar-se de mim, era todavia  de tão nobre virtude, que nunca deixou que Amor me regesse sem o fiel conselho da razão, naquelas cousas em que tal conselho fosse útil de ouvir. (…) Pensando no que me tinha aparecido, me propus de fazê-lo escutar por muitos que eram famosos trovadores daquele tempo: e como a arte de dizer palavras por rimas fosse cousa que já por mim mesmo tivesse praticado, me propus fazer um soneto’. (in A Vita Nuova de Dante Alighieri, trad.Vasco Graça Moura Bertrand Editora 2001)

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Pode ser esta a maneira mais trivial de exprimir a ‘divina inspiração’ do escrevinhador, aquela que nenhum apaixonado(a) escapou ao alinhar dois pares de versos, pelo menos. Mas também é, certamente, prolífica: Dante relata que, para esconder a identidade da verdadeira dona do seu coração, escrevia poemas a outras ‘belas damas da cidade‘.

-Estás linda hoje, querida. -Eu estou aqui.

-Hoje estás muito linda, querida…
-Eu estou aqui.

O certo é que a laicização das sociedades, o individualismo, a massificação da cultura, reforçaram a componente ‘genial’ do escrevinhador, passando a ser ele próprio o ‘criador’. Motivos de inspiração não lhe faltam: a sociedade em geral, as pessoas em concreto, o seu insondável, imenso, tortuoso ego, o tempo perdido, a espuma dos dias, Godot, o que se quiser.

Mensagem Inspiradora Rejeitada #408 -A vida será melhor quando ganhares a lotaria!

Mensagem Inspiradora Rejeitada #408
-A vida será melhor quando ganhares a lotaria!

Mas permanece sempre um Outro de quem o escrevinhador teme perder o contacto, a inspiração, o beijo inspirador. Depressivo, satírico, bem-humorado, zangado com o mundo, sofrendo todas as dores alheias, rigorosamente concreto e materialista, absolutamente poético ou espiritual, o texto bafejado pela aragem agitada pela ‘louca da casa’ tem vigor para disseminar-se num processo epidémico característico, hajam condições atmosféricas para que saia da gaveta ou do baú.

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Mas que estou para aqui a dizer?! No sec.XXI a auto-edição e a edição de e-books já não permitem alimentar a aura romântica dos livros por publicar. Na verdade, as ‘condições atmosféricas’, a ‘luz do dia’, estafadas figuras de retórica para exprimir a oportunidade de se dar a conhecer literáriamente, têm a ver com a crítica especializada e os espaços de divulgação (virtuais ou não). Mas isso são outros contos…

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Elogio da Loucura

Surpreende-me sempre o poder de sugestão de um texto sobre alguns leitores: depois de publicado o post ‘Com um grãozinho de loucura’, houve quem perguntasse se nos posts seguintes daria dicas para obter a ‘divina inspiração’ e quem protestasse por nada ter dito em termos práticos.

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Este modesto blog de dicas e tópicos sobre a escrita nada tem a dizer, de facto, sobre a louca inspiração que os deuses concedem aos tristes mortais. Nada?! Bem… talvez, duas ou três coisas.

Não cultivo qualquer fascínio pela imagem e culto do artista-louco ou ‘possuído’, embora hajam exemplos extraordinários de grande arte com doses apreciáveis de loucura. Muito menos pelos sucedâneos de excentricidade e palermice, ou pelas experiências psicadélicas, alcoólatras e outras para se aceder ao estado criativo.

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Aliás, nem aprecio sequer a ideia de tudo se sacrificar em prol da arte. A própria Loucura, no famoso discurso sobre si mesma dizia a propósito dos escritores:

“Outra espécie de pessoas mais ou menos da mesma laia é constituída pelos que ambicionam uma fama imortal publicando livros. Todos esses escritores têm parentesco comigo, sobretudo os que só publicam coisas insípidas. Quanto aos autores que só escrevem para poucos, isto é, para pessoas de fino gosto e perspicazes,(…) confesso-vos ingenuamente que merecem mais compaixão do que inveja.

Imersos numa contínua meditação, pensam, tornam a pensar, acrescentam, emendam, cortam, tornam a pôr, burilam, refundem, fazem, riscam, consultam, e, nesse trabalho, levam às vezes nove e dez anos, de acordo com o preceito de Horácio, antes do manuscrito ser impresso.

Oh! como me causam piedade tais escritores! Nunca estando satisfeitos com o seu trabalho, que recompensa podem esperar? Ai de mim! um pouco de incenso, um reduzido número de leitores, um louvor incerto.” (in O Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam)

Ou como dizemos na América: Get a life!

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“Podes ser quem tu quiseres, não há limites.”

Porém, o tal ‘grãozinho de loucura’ é um ingrediente notável (imprescindível, na minha opinião) e faz toda a diferença. Ingrediente que não impede, necessariamente, o regresso pontual a casa ou ao local de trabalho, aos mesquinhos afazeres do dia-a-dia, permitindo ao ‘Criador’ o convívio com gente banal, comum.

Ao longo da História, esse grãozinho foi o suficiente para forçar donas-de-casa, medíocres escriturários, estudantes esfaimados ou bem-nutridos, comerciantes e soldados, a roubarem horas ao descanso (quiçá ao trabalho…), dias e meses ao longo de semanas e anos, para colocarem em letra manuscrita textos de incerta valia. Todos eles vivendo fora de torres-de-marfim, e muito, muito longe, do Olimpo.

-Oh, Alice, tu és quem eu quero para mim. -Mas, Bob, num universo quântico como é possível tem alguma certeza?

-Oh, Alice…tu és quem eu quero para mim.
-Mas, Bob…num universo quântico como é possível ter certezas?

Esse grão foi, e continua a ser, o grão de sal que dá gosto às suas vidas banais, rotineiras, previsíveis. Numa época com tantas oferta e soluções de escapismo, será da maior injustiça confundir este ‘grãozinho de loucura’ como mais uma fórmula de evasão do quotidiano.

Claro, pode haver uma componente de escapismo (geralmente tem), e de terapia (provavelmente, na maioria dos casos)… e daí? Já a Loucura lembrava, no referido auto-elogio, que ‘quanto mais o homem se afasta de mim, tanto menos goza dos bens da vida, avançando de tal maneira nesse sentido que logo chega à fastidiosa e incomoda velhice, tão insuportável para si como para os outros‘.

Através da escrita (mas pode-se dizer o mesmo de outras actividades), tanta gente medíocre, insignificante, até aborrecida, deixou páginas maravilhosas sobre o mundo. Mundo que também era o dos seus contemporâneos, e por vezes dum modo que nem estes imaginavam.

Bem...isto arruma com o trabalho de casa!

Bem…isto arruma com o trabalho de casa!

O que revela a presença desse pequenino grão de loucura em alguém pode ser uma ou várias evidências, nem sempre óbvias para os que o rodeiam ou com ele se cruzem diariamente.

Conforme a personalidade, ou aparente falta de personalidade, de cada um, esses sinais variam muito: uma obsessão compulsiva ou um intenso prazer, uma vontade de exteriorização ou um desejo de isolamento, uma aparente auto-confiança absoluta no valor do que faz ou uma absoluta insegurança.

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-O meu namorado? Oh, é um escritor.
-Oh, meu Deus, desculpa ter perguntado!

Nada disto, ou quaisquer outros sinais, são marcadores de qualidade. Mas a persistência e a necessidade em prosseguir revelam uma ‘possessão’, a tal ‘loucura divina’.

E repetindo-me, mais uma vez: para que resulte em ‘obra de arte’, claro está, o escrevinhador precisa ainda dos favores da bela Musa…

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Com um grãozinho de loucura

Pois, a loucura…essa porta aberta para o lado de lá do espelho! Não se diz de todo o artista que tem algo de louco?

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Os antigos gregos distinguiam a doença, propriamente dita, da loucura por inspiração divina ‘que atira connosco para fora das regras rotineiras‘(in Fedro de Platão), e consoante o deus, a louca inspiração tinha sua especialização.

Ora, os dons divinos sempre têm um lado sombrio: Demódoco era ‘(…) o exímio aedo [poeta, cantor e tocador de lira], a  quem a Musa muito amava. Dera-lhe tanto o bem como o mal. Privara-o da vista dos olhos; mas um doce canto lhe concedera’ (in Odisseia de Homero, tradução de Frederico Lourenço, ed.Livros Cotovia  2003)386327_309440535742834_1090181842_n.

Como se o excesso de talento tivesse de ser compensado por um défice de saúde, bom-senso ou outra qualquer qualidade. Pode, também, ter uma vida atribulada (para dizer o mínimo) como a do mítico bardo Taliesin, que suportava mal os seus colegas da corte  e lhes dizia, cantando:

‘E eu sei, de ciência mui certa,/Que vós não sabeis como entender/Este meu cantar./E sei também, de clara ciência,/Que vós não sabeis fazer a deslinda/Entre a verdade e a falsidade./Vós todos, bardos sem tamanho,/Corvos do poder!Batei vossas asas, fugi voando./Onde está o bardo que me cale?’ (da ‘Repreensão dos Bardos’ in Mabinogion, trad.José Domingos Morais ed.Assirio e Alvim 2000)

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O que Taliesin censurava, afinal, era a falta de inspiração (divina, claro está) e, portanto, de autenticidade: para servirem quem lhes pagasse, os bardos sabiam técnicas (‘loas sem moral’, ‘ditos sem razão’), mas não passavam de ‘arautos da falsidade’.

Porque Taliesin, evidentemente, não despreza ‘rimas e versos/nem a arte de bem cantar‘, mas despreza e não respeita ‘quem abusa a divina graça,/em blasfémias se deleita‘. No Livro de Taliesin, ele próprio se apresenta como alguém que já foi ‘uma mensagem escrita’ e ‘um livro’ (para além de muitas outras coisas da natureza animada e inanimada).

De algum modo, a crítica de Taliesin ressoa nos versos de Caeiro quando este censura quem repete o que ouviu ao vento: ‘Nunca ouviste passar o vento./O vento só fala do vento./O que lhe ouviste foi mentira,/E a mentira está em ti.’

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Assim como parece que o panteísmo do bardo se reflecte no guardador de rebanhos: ‘Penso com os olhos e com os ouvidos/ E com as mãos e os pés/E com o nariz e a boca/(…)/Por isso (…)/(…)/Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,/Sei a verdade e sou feliz.’

A criatura e o criador

Sendo o texto uma criatura viva, é infiel ao criador ao permitir-se ir muito mais além do que este pretende, traindo intenções obscuras, permitindo derivações imprevistas, surpreendendo-o com uma autonomia desconcertante.

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Também é verdade que o texto definha e sobrevive mal em sequência de um acto criativo falhado, condenado ao ridículo e à obscuridade, senão ao extremo de se abrigar no antro das leituras enfadonhas que o leitor, avisadamente, evita.

Mesmo que tenha passado por uma fase inicial de popularidade e reconhecimento público: o juízo crítico será sempre mais duradouro do que as tabelas dos top, as últimas novidades chegam cada vez em maior número e mais depressa, a indústria cultural faz pela vida e as campanhas de marketing têm orçamentos e prazos de validade.

"Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever? Eu pretendo reescrever a História."

“Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever?- Eu pretendo reescrever a História.”

Escrever como quem quer ir ao encontro dos gostos, das modas, dum obscuro, potencialmente promissor, nicho de mercado? Óptimo, genial, provavelmente ninguém antes pensara nisso.

Escrever como que poupando ao leitor o incómodo de parar para reler e melhor entender? Que solução eficaz, sem complicações, nem ambiguidades!

Escrever como que evitando as referências e dificuldades que, presumivelmente, a maioria dos potenciais leitores manifestamente desconhecem e fogem de enfrentar? Ligeiro e superficial para se usar em qualquer dia do ano, sem dúvida.

LER FAZ VIVER prazer

LER FAZ VIVER
             Prazer15mg Curiosidade8mg Imaginação10mg Revolta12mg Saber9mg  Agentes de sabor:muitos!

Culpa dos leitores…ou da falta deles?! Claro, claramente que sim. E também!

Mas seja qual for o ângulo da acusação, por maior que seja o rosário de culpas ou o banco dos réus, a qualidade do texto não tem de depender senão da relação do escrevinhador com a bela Musa.

Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui’. (in Fedro de Platão, ed. Guimarães e Cª 1981 tradução de Pinharanda Gomes)

Louca inspiração, portanto. Sem álibis.

Ah, se tudo fosse assim tão simples…

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-Amo-te.
-Amo-te muito!
-Olá, bode! Eu amo esta rapariga!

99% transpiração?! É mesmo?

Há um lugar-comum que diz, a propósito da criação artística, ‘que é 1% de inspiração e 99% de transpiração’, ou coisa parecida. Nunca simpatizei com esta repartição, mas também nunca fui dado ao cálculo aritmético ou estatístico, porém devo reconhecer que algo terá a ver com o número de horas, dias, meses, para desenvolver qualquer projecto literário: passar da ideia ao texto definitivo é um trabalho laborioso, sujeito a revisões e ajustamentos.

E aqui está, a meu ver, a chave para a compreensão do ‘bloqueio do autor’: a incapacidade, queira-deus-que-momentânea, para se focar no trabalho. Porque é de trabalho que se trata, se existe a pretensão de seduzir o leitor, de comunicar, de cultivar um estilo, de desenvolver o potencial duma situação, e outras tantas coisas mais.

Montes de gente hão-de te avisar como é difícil ser um artista: -Passarás fome! Mas ninguém te avisa como é difícil NÃO ser um artista: -Trabalha!

Montes de gente hão-de te avisar como é difícil ser um artista:
-Passarás fome!
Mas ninguém te avisa como é difícil NÃO ser um artista:
-Trabalha!

Assim sendo, é fácil de entender a miríade de acontecimentos diários que podem interferir na rotina do escrevinhador, para não falar da sua própria tendência à procrastinação, ao desânimo, a deixar-se levar pela espuma dos dias, ou a dificuldade em conciliar a disciplina da escrita com as exigências da vida familiar, profissional, inclusive com problemas de saúde.

Para cada exemplo que justifique o bloqueio, convém lembrar exemplos de escritores que, passando pelo mesmo, souberam ultrapassar o obstáculo e prosseguir até ao fim com o projecto. Por uma questão de higiene mental e pragmatismo, o que o escrevinhador bloqueado menos necessita é de complacência ou piedade.

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E não conheço melhor exemplo de quem escrevesse sobre as dificuldades pessoais e as apresentasse como qualidades que favoreceram a escrita e a reflexão, como escreveu Nietzsche a seu respeito e, concretamente a respeito da escrita do livro Aurora:

A completa claridade e serenidade, e até exuberância de espírito que a referida obra reflecte, harmonizam-se em mim não só com a mais profunda debilidade fisiológica, mas ainda com o agudo sentido do sofrimento. No meio do martírio que me causavam ininterruptas dores de cabeça durante três dias, com vómitos violentos, mantinha uma lucidez dialéctica excepcional e meditava friamente os problemas para os quais em melhores condições de saúde me teria achado desprovido de subtileza e de frieza, sem a indispensável audácia do alpinista.’ (in Ecce Homo, ed.Guimarães e Cª, trad. José Marinho)

E, mais à frente, dá as seguintes dicas para um ‘pensamento sagaz’: ‘À escolha da alimentação, à escolha do clima e do sítio adequado para viver – uma terceira se acrescenta, na qual também cumpre evitar todo o erro, e é essa a escolha da forma de divertimento’.

Ou seja, está na mão do escrevinhador reagir e dar solução ao bloqueio. A alternativa é resignar-se e aguardar por uma madrugada promissora, ou que apareça um anjo-editor que o leve ao colo para um desses paraísos sobre a Terra onde possa dedicar-se infatigavelmente à escrita.

"-Sim, sou uma musa masculina-tens algum problema com isso?"

“-Sim, sou uma musa masculina-tens algum problema com isso?”

Sem esquecer, contudo, que a inspiração é fundamental e que o segredo está em seduzir novamente, e sempre, a bela Musa. Ou, como diz alguém que entende destas coisas literárias e afins:

Si lo que estás haciendo te importa de veras, si crees en él, si estás convencido de que es una buena historia, no hay nada que te interese más en el mundo y te sientas a escribir porque es lo único que quieres hacer, aunque te esté esperando Sofía Loren.

Para mí, esta es la clave definitiva para saber qué es lo que estoy haciendo: si me da flojera sentarme a escribir, es mejor olvidarse de eso y esperar a que aparezca una historia mejor.” (Gabriel Garcia Marquez em carta a Plinio Apuleyo Mendoza )

quatro obstáculos para quem escreve um carrinho de bebé na sala abelhas no quarto nada no banco poltergeist na casa

quatro obstáculos para quem escreve:
um carrinho de bebé na sala
abelhas no quarto
nada no banco
poltergeist na casa

A força do estereótipo

No tempo em que minha filha era pequenita, ela tinha de memorizar uns poemas ou cançonetas para recitar na escola diante de toda a turma. Além do nervoso miudinho de se expor ao ridículo, havia a dificuldade de memorizar todo o texto; quando achava que estava minimamente preparada vinha ensaiar para mim e, geralmente, fazia-o numa toada qualquer que a professora dera na apresentação do trabalho.

Esse é um dos vícios mais comuns de escrita, o de reproduzirmos esquemas que são habituais em determinadas situações e enredos. A esse vício chama-se estereótipo, numa alusão explícita à impressão em série da mesma imagem ou texto (também usamos o galicismo cliché com o mesmo sentido).

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Ora, nada é menos estimulante do que ouvirmos a enésima reprodução duma qualquer abordagem narrativa (seja a dum belo pôr-do-sol que traz melancolia e/ou paz ao espírito, seja a da rapariga má que estraga a vida ao casal tão feliz).

A massificação da produção artística, a sua industrialização, não só na literatura, como no cinema e na televisão principalmente, exploraram os estereótipos ad nauseam. As redes sociais na internet tornaram-nos um problema público de higiene mental.

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Porém, a literatura permite uma autonomia e resistência frente a esse condicionamento cultural que leva a colocar um (in)evitável adjetivo logo a seguir a determinados substantivos (tipo a “lua prateada” e o “sol dourado”). E permite-o porque nós, escrevinhadores, somos criaturas que podemos trabalhar por conta própria, na solidão, no anonimato, fazendo deste modo de vida uma paixão pela bela Musa.

À minha filha, após ela ensaiar a recitação ou cançoneta, sugeria-lhe para repetir, mas dessa vez como se estivesse muito, mas muito feliz. E, a seguir, como se estivesse triste, mas mesmo muito triste. E muito zangada, depois.

Chiclete com Banana

No dia seguinte aquilo acabava por lhe sair bem, dentro do modo convencional e politicamente correcto. E nós divertíamo-nos até às lágrimas nos ensaios; ao nosso modo, tentávamos desconstruir modelos consagrados.

Bloqueio criativo

Por mais voltas que demos, voltamos sempre ao básico: escrever como?

A folha branca diante dos olhos (permitam-me a imagem clássica, apesar de tudo verosímil por causa da página do word) continua desesperadamente imaculada e o autor, uma criatura ainda virtual, atormentado com a evidência da sua incapacidade.

galinha:-Maldita sejas, página branca! Tu fazes pouco de mim com a tua brancura! pagina branca:-Volta! Eu acredito em ti! lapiseira:-Vai e não voltes! Que parvalhão! O bloqueio do autor, normalmente atribuído a uma pagina em branco, tem origem em lapiseiras perversas.

galinha:-Maldita sejas, página branca! Tu fazes pouco de mim com a tua brancura!
pagina branca:-Volta! Eu acredito em ti!
lapiseira:-Vai e não voltes! Que parvalhão!
O bloqueio do autor, normalmente atribuído a uma pagina em branco, tem origem em lapiseiras perversas.

No tempo das folhas de papel, um caixote de lixo atafulhado de escritos amarrotados faria prova do contrário: em desespero, o escrevinhador alisaria o amarrotado na tentativa de extrair algum metal precioso daquela escória toda. Talvez fosse, subitamente, bafejado pelo dom de reordenar, editar e recriar muito do que antes fora desprezado.

Um (re)começo constante até à fórmula final. Ou quase final.

Com a tecla ‘delete’ tentadora, por um lado, ou a insidiosa questão final antes do fecho do documento ‘deseja guardar as alterações?’, o escrevinhador de teclado de computador arrisca deitar fora duma vez, e de vez, todo o trabalho de horas, dias, talvez semanas e meses. Assim, a maldição de Sísifo condena o seu esforço, sem glória, nem emenda.

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Estimulantes literários

Ainda não há vitamínicos específicos para o processo criativo, embora seja longa a lista dos “consumíveis” para obter o mesmo efeito, na tradição literária de todos os tempos e lugares.

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A escrita pode ser uma tarefa ou um passatempo, tanto funciona como um escape como pode ser uma pulsão. Ao contrário do que possa parecer, o facto de ser uma actividade solitária não favorece a criatividade, já que esta exige abertura e confronto. Mas o recolhimento, ou introspecção, pode funcionar como uma etapa fundamental para o arranque e desenvolvimento da obra.

Daí que aqueles mais cientes do modo como “funcionam” dêem relevância a certos rituais, preparem o espaço aonde vão trabalhar a ideia e passa-la a escrito. Sobre isso que se pode dizer? Cada qual arranja o espaço como lhe convém, acomoda o tempo como pode, e enfrenta, sempre, distracções que prejudicam a “criação”. Não se trata dum problema exclusivo do universo literário, como é fácil de entender, e varia imenso de indivíduo para indivíduo.

"Para de olhar para mim"

“Para de olhar para mim!!!”

O bloqueio criativo, o pavor da folha em branco, e outras expressões apelativas, muitas vezes escondem verdades mais simples: falta de trabalho, de preparação, de investigação, em todos os níveis da construção literária. Como se a preguiça mental confiasse em demasia no processo criativo espontâneo. Umas vezes, até pode acontecer. Mas não dá para esperar pelo beijo da Musa toda a vez que alguém tenha vontade de escrever. Para isso, a exposição pública de ideias, o confronto de opiniões, a crítica desapiedada, podem ser um estímulo poderoso.

Houve tempos mais favoráveis, e em certos espaços, mesmo assim, para o debate de ideias e produção escrita. Se nas vilas do interior dum pequeno país quase analfabeto, sempre havia um café central onde as pessoas mais ilustradas podiam debater, um jornal que dedicava algum espaço às letras, algum prestígio podia dourar a reduzida edição de algum título poético ou polémico. Dentro dos limites do permissível, bem entendido.

Tempos e lugares para grandes polémicas, literárias ou não. Mas não hajam ilusões sobre um passado abençoado para a produção escrita: basta ler os clássicos como Camilo ou Eça, para nos sentirmos confortáveis na nossa época.

O sentimento doloroso de que não seria imortalizado pelos seus textos brilhantes, mas por alguma coisa banal como a sua pegada ou dente.

O sentimento doloroso de que não seria imortalizado pelos seus textos brilhantes, mas por alguma coisa banal como a sua pegada ou dente.

 

Existem truques para escrever bem?

Tem lugares e tem tempos em que se dá relevo à escrita automática e a processos aleatórios para a formação de textos, nomeadamente em alguns manifestos literários, cursos de escrita ou entre escritores à procura de novos processos criativos.

Creio que o método da psicografia é o que mais terá popularizado estes processos de escrita não-consciente, embora o valor literário dessas “obras” não seja minimamente interessante.

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“-Tenho todas as palavras que preciso para escrever o meu romance. Agora tenho de as por na ordem certa.”

Ou então é preconceito meu, porque ainda sou da escola antiga em que a expressão escrita surge de uma de duas forças impulsionadoras: a inspiração tout-court e a ideia.

Quando combinadas, o efeito pode ser arrasador. Mesmo assim, a qualidade literária não é garantida. Como já aqui se disse, a qualidade pode ser prejudicada pelas emoções e pela dificuldade do autor em ordenar o fio condutor das ideias.

A boa notícia é que o efeito conjugado das emoções com o de frases (ideias) simples e eficazes, são fórmulas que resultam bem, principalmente numa sociedade de comunicação de massas. Veja-se a popularidade dos slogans: a frase feita (ideia mais ou menos estereotipada) mais o contexto (as emoções do momento).

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Desta matéria fazem-se produtos tão diferentes como a Coca-cola, movimentos políticos e religiosos e, na área que nos interessa, best-sellers.

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-Boas noticias. Foste selecionado para escrever um livro de sucesso!

Marketing e Literatura

O desespero de quem escreve e quer editar (e se consegue a almejada edição, logo a quer promover e vender rapidamente), leva a questionar quais os “segredos”, as técnicas”, para atingir esses objectivos. Tudo desejos legítimos e naturais para os quais não há que ter vergonha ou sentir culpa.

Será o título? Um título apelativo, mobilizador, que fica no ouvido?

Ou é mesmo o tema? Vampiros contra lobisomens ainda está na moda?

Talvez o famoso arranque logo na primeira página que agarra a atenção do leitor distraído ou aborrecido.

É a capa quem atrai o leitor num primeiro tempo, dirão os perspicazes.

Depois, as redes sociais farão o milagre. Diz-se. Melhor mesmo só aparecendo na TV.

Tudo questões pertinentes para o editor, sem dúvida. Mas sem sentido quando o livro ainda está por escrever.

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Reconheço o valor de qualquer uma das questões anteriores, todas têm relevância para a promoção e o impacto da obra perante um público que desconhece o autor. Daí a importância estratégica duma editora competente, daí os conflitos entre a editora e o autor sobre estes e outros aspectos do livro a publicar. Daí a falta que faz a figura do “agente literário” no nosso pequeno mundo da Língua Portuguesa.

Mas este blog limita-se à área da criação, cultiva o culto da inspiração, ou seja, o da relação erótica e fiel com a bela Musa. E fá-lo por defeito. “Defeito”, sim, no sentido de imperfeição (não como anglicismo importado pela prática de “correr” programas informáticos e quejandos). A escrita é uma pulsão, uma “necessidade interior”. É possível que seja, até, uma patologia benigna. Acima de tudo, e desejavelmente, deve ser uma paixão.

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Conseguir equilibrar os excessos dessa paixão com o rigor da gramática, estruturando um texto legível e interessante, parece-me uma tarefa suficientemente complexa e absorvente. E, por defeito e limitação assumidas, apetece-me dizer como Guerra Junqueiro dizia de cada livro que concluía, que  era como deixar um filho na “roda”: a partir daí deixava-se de preocupar com o que viesse a acontecer-lhe.

A “roda” de que falava era uma placa giratória, na parede de certos conventos, onde quem passasse na rua podia deixar os recém-nascidos ao cuidado das freiras. Exagero dele, certamente.

Small is beautiful

Escrever poemas curtos levanta outro tipo de dificuldades, principalmente se o autor se impõe uma métrica rigorosa (tipo haiku) ou outras regras.

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-Penso que o teu poema não presta.
-É precisamente o que o poema pretende que tu penses.

O principal, numa economia de frases e palavras, é a transmissão duma ideia, dum sentir, duma imagem. Isso exige uma depuração rigorosa, uma noção de ritmo, a musicalidade inerente à forma, tudo tanto mais difícil quanto menor for o número de versos e sua métrica. Além de que, no caso dos poemas curtos, o sentido raramente ser evidente. (ver nota 1)

O que fascina nestas “construções” diminutas é a sua leveza associada ao impacto profundo daquilo que transmite, por vezes indefinível, outras vezes perturbante. O trabalho é comparável, imagino eu, ao do lapidar duma pedra preciosa.

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E, por vezes, transmitem tranquilidade, como se as palavras fossem o rumor do vento no bosque. Ou da noite a entrar pela janela. (ver nota 2)

Retrato falado?

Uma vez explicaram-me que pretendiam escrever poesia do mesmo modo que gostariam de pintar (e desenhar), retratando algo através das palavras. Achei interessante a ideia, principalmente numa época em que a captação, reprodução e manipulação de imagens é tão acessível. E como pretendia “retratar” com as palavras? Os exemplos que me foram dados baseavam-se no uso de substantivos e adjectivos (do género: tal coisa/pessoa com tal qualidade) e comparações (do género: tal coisa/pessoa é como…).

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Não gostei e tentei explicar-me: mesmo que se usem recursos como a rima e a métrica, a estrutura torna-se monótona, o efeito pobre, o resultado aborrecido (como se montássemos um puzzle em que as peças são frases). Não utilizei a expressão “lista de mercearia”, mas é o que me ocorre quando as descrições ou referências se estendem ao longo de linhas e linhas de versos. Sugeri que cortasse na adjectivação e procurasse “pintar” usando verbos.

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1.Mamã! 2.Mais! 3.Não! 4.Meu!
-As primeiras palavras do bebé: 1.Substantivo 2.Adjectivo 3.Advérbio 4.Pronome Possessivo-

O trabalho poético progrediu e resultou em algo bastante diferente: surgiram as inevitáveis metáforas, elas suscitaram ideias (ou terá sido o contrário?) e os poemas foram ganhando dinamismo, tensão, exprimindo conflitos e anseios, na verdade, trabalhando o “material humano” que está na base do artefacto poético.

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“Que mão ou olho imortais poderiam captar a tua assustadora simetria?”

Melhorou bastante, na minha opinião, mesmo que haja muito ainda para aperfeiçoar (…e não há sempre?). Talvez o resultado final nem tenha nada a ver com o propósito de retratar. Mas, além de produzir imagens interessantes, creio que o poeta abriu um canal para projectar algo de muito pessoal e original. É por aí que a Musa se deixa, tanta vez, seduzir…

O toque da Musa

Há poemas com a brevidade e a força dum raio caído do céu, a linguagem de tal forma depurada, o raciocínio tão claro, que ferem o leitor. E este fica com a ilusão de partilhar um momento divino: o da musa que tocou o poeta.

Porém, se a inspiração é a matéria-prima da poesia, não esquecer a laboriosa arte do ouvido (ver nota 1), a sensibilidade do corpo ao movimento (ver nota 2), o difícil equilíbrio entre a ideia e a emoção (ver nota 3)

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Título do livro: “Você”
Escritor: -Não é sobre o que você tem…mas sobre quem você é.
Homem na assistência: -E “quem poderia ter sido” não conta?

Sem advogar métodos e normas, parece-me prudente não dar jamais por concluído o poema sem meditar nestes três aspectos.

Rima, métrica?! Falha minha certamente, que nunca fui dado às ciências exactas.

Valerá a pena escrever poesia no sec.XXI?

Se escrever prosa oferece dificuldades, poesia parece intuitivo e simples, trabalho de curta duração. E com um dicionário de rimas à mão, fica ainda mais fácil. Temas? Há tantos: uma flor, um amor, um pensamento profundo esticado em duas dúzias de linhas, um grito de revolta contra a injustiça, de tudo “se faz” poesia.

Mas quem a lê? Pior: quem a escreve?

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Foco

Ao pensar num livro a escrever, talvez o mais razoável seja centrar-se no tema, no enredo ou no propósito.

Que diferenças existem entre si? Nos próximos posts falarei o que penso a este respeito.

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Ler bem para escrever razoavelmente

Ler, indiscutivelmente, apura o sentido da escrita. Porque a escrita exige conhecimento e prática, não há como evitá-lo.

Claro que se pode publicar o primeiro livro e ser logo bem recebido pela crítica e pelo público, mas isso nada diz dos anos de leituras e de escrita antes da publicação.

Podem-se citar mãos cheias de livros bem escritos, de autores sem preparação académica, sem ambiente familiar propício à leitura, ao estudo e à escrita, e que até falam de modo algo limitado, mas isso só reforça a ideia do excelente trabalho editorial que está na sua base.

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Que “gosto” tem?

O “gosto” é a própria manifestação individual da sensibilidade e bom senso (título dum livro muito popular noutros tempos), está em estreita relação com a educação familiar e o meio cultural envolvente (seja pelo seguidismo acrítico, seja pela rejeição neurótica, seja de qualquer outro modo), pode se tornar um manifesto, uma moda, uma tirania.

Tanto pode ser reivindicação de liberdade ou sujeição à maioria, como imposição dum princípio geral.

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Paixão não rima com rotina, certeza ou segurança

O que foi dito atrás sobre as paixões não é de grande utilidade para quem escreva ou pretenda fazê-lo. Não porque seja irrelevante, mas por ser daquelas matérias de estudo e reflexão que só ganham sentido se a vida for vivida plenamente. Disso fala extensamente a literatura universal, e acrescenta que se não dermos o passo para fora da casca da rotina, para o exterior da concha de certezas que nos defendem da dúvida, paixão torna-se uma palavra oca.

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Paixão

Um problema das paixões é serem confundidas pelo próprio com paixonetas, gostos, afectos. E pela necessidade irresistível de falar (neste caso, escrever). O resultado é, quase sempre, medíocre.
A paixão pode levar à loucura, ou certas paixões levarem a marca duma certa loucura, o que noutros tempos chamava-se melancolia (para ambos os sexos), histeria (para o sexo feminino), húbris (para o sexo masculino), ou surgindo na forma duma qualquer monomania, parafilias e vícios obscuros.

Todas elas terão produzido bons textos, efectivamente.

Mas dificilmente o autor cavalga o animal bravio das paixões desmedidas.

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A Autoridade do Autor

A “originalidade” pode ser entendida como a própria naturalidade do autor, sua perspectiva, sensibilidade, experiência de vida, percursos, aprendizagem, etc e tal, a modo das famosas “competências” dum certo discurso pedagógico. O que não é garantia de nada de bom, e até chega a ser praga.

Mas se for genuína, vinda dum impulso de comunicação temperado por algum critério estético, mesmo que pouco elaborado, a coisa pode funcionar. Leia o resto deste artigo »

A Obra cria o Autor

A “originalidade” como génio e singularidade da criação artística é um conceito que se desenvolve gradualmente, provavelmente na pintura em primeiro lugar, graças à formação de escolas de arte, de clientes (mecenas, principalmente) e de grandes encomendas. O valor da obra torna-se profano, o seu usufruto um gozo, sinal de requinte e distinção. A obra passa a ser mais valiosa quando tem um autor, se esse autor já tiver nome e, esse nome, uma história.

O Romantismo depois fez o resto, esgotando o modelo na caricatura do autor na sua “torre de marfim”, “a arte pela arte”.

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É assim tão importante ser original?

A originalidade, tal como tantos conceitos, tem uma história relativamente recente. Durante milhares de anos e até, mais ou menos, ontem, o grande objectivo da aprendizagem era reproduzir modelos consagrados.

Platão, por exemplo, escrevia como se fosse o mestre Sócrates quem dissera o que ele, Platão, argumentava. Leia o resto deste artigo »

E não escreve porquê?

Quem segue este blog talvez saiba porque escreve (ou porque quer escrever).

E se não sabe, não interessa: escreve (ou quer escrever) na mesma. Porque escrever pode ser uma exigência pessoal incontrolável, seja um livro técnico sobre disjuntores e fusíveis, seja uma narrativa sobre alegrias e tristezas dum qualquer cidadão.  Ainda que o esforço seja inconsequente e decepcionante.

Analisar motivações pode dar um excelente tema para livro, mas não resolve os problemas da escrita.

Quais são os problemas mais frequentes?

Falta de assunto, dificuldade de estruturar o material (ideias, memórias, factos), bloqueio criativo, não ter ambiente/tempo para se dedicar à escrita, necessidade de aprofundar mais o(s) temas(s), insegurança, consciência aguda da total falta de estilo-jeito-gosto para escrever?

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