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A noite dos mortos meio-vivos e outras coisas espantosas

A Morte (com maiúscula, atenção) é inesgotável fonte de inspiração literária, principalmente nestes dias de Outubro a Novembro, levando mesmo à questão se ainda há algo a respeito que não tenha sido dito algures por este mundo, nesta ou numa outra era.

—Escuta-me, amigo meu, o sonho que vi esta noite; (…) havia ali alguém de face tenebrosa, (…) as suas mãos eram patas de leão, suas unhas garras de águia, agarrando-me pelas pontas dos cabelos me violentava, eu tentava golpeá-lo, mas ele revolvia-se como quem salta à corda, logo me golpeando e atirando-me ao chão (…). “—Salva-me, amigo meu!”—gritei. Mas tu não me salvavas, tinhas tanto medo que nem te movias para me ajudar, tu (…). (1)

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O tom ou o desenvolvimento que se dá à estória é que faz a diferença, havendo até a possibilidade de surpreender pela conclusão. É realmente difícil mas, por isso mesmo, merece ser tentado pelo escrevinhador.

Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda (…). E na noite havia os que deixavam um rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados como um som de viola que se parte. (…) Muitos arrastavam caudas enormes pela lama, despedaçavam-nas de encontro às esquinas, e alguns procuravam deitá-las fora para não mais pensarem num passado tenebroso.

—O homem material —pensava o Palhaço— não existe. A vida é uma convenção. (…) (2)

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A indigência audiovisual ou literária produzida massivamente em redor da categoria do “Terror”  não esconde o potencial humano, existencial e, por isso mesmo, ‘eterno’, de um tema tão complexo: nas primeiras décadas do sec.XIX, escritores alemães, norte-americanos ou ingleses dedicaram-se com êxito a recuperar temas tradicionais a respeito da Morte, do Mal e do Outro.

O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. (3)

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Deram assim início a um género que tem como antepassado directo os contos populares, os quais reflectem, por sua vez, o folclore, as crenças e as práticas milenares da vida quotidiana, mesmo—ou principalmente— quando esta é interrompida (cíclica ou inesperadamente) por algo de extraordinário.

Do fundo da cova triste/Ouvi uma voz sair:/”Vive, vive, cavaleiro,/Vive tu que eu já morri:/Os olhos com que te olhava/De terra já os cobri./Boca com que te beijava/Já não tem sabor em si,/Os cabelos que entrançavas/Jaz caído a par de mim,/Dos braços que te abraçavam/As canas vê-las aqui!”(4)

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Na próxima reencarnação podes vir a ser uma espécie em perigo. Ajuda-nos a salvar o grou siberiano

As personagens podem ser gente banal em circunstâncias invulgares, seres fantásticos em ambientes familiares (ao leitor e/ou às outras personagens), uma combinação disto e daquilo. Porque —ainda será necessário lembrar?— vale tudo e nada é garantido.

O apóstolo Santo André andava invejoso do apóstolo Santiago porque lhe levava toda a paróquia.

—A Compostela chegam peregrinos de todas as partes do mundo (…) e, ao mesmo tempo, a Teixido não vêm nem de Ferrol ou de Viveiro ou de Ortigueira, que estão ali ao lado, isso não é justo porque eu também sou apóstolo, tão apóstolo como os outros.

Nosso Senhor Jesus Cristo, que vinha pelo mesmo caminho, lhe disse,

—Tens toda a razão do mundo, André, isto tem de se resolver, vou dispor que de ora em diante ninguém possa entrar no céu sem ter passado por Teixido.

—Muito obrigado. (5)

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Como qualquer leitor dedicado já experimentou, o maior terror sofrido não é o expresso pelas imagens gráficas de sangue, nem pelas descrições da mais lancinante dor, e ainda menos pelo detalhe de monstruosidades. Na escrita (e no cinema parece-me igual), o subentendido, o aludido (mas não explicitado), podem mais sobre o leitor.

“Não gosto do aspecto disso”, disse a sua governanta, “Tem um aspecto feioso.”

“A mim, dificilmente lhe vejo alguma forma.”

“Não gosto das coisas que crescem assim.”, disse a sua governanta.(…) “Parece uma aranha nojenta morta.” (6)

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Esta relação vai-me matar

No fundo, a mesma eficácia da escrita erótica frente ao grafismo meramente pornográfico. Não é um método fácil. Corre o risco, até, de não captar a atenção do leitor preguiçoso. E por uma razão simples: por estar dependente da sua imaginação,sensibilidade, sentido de humor e inteligência.

O livro estava aberto mais ou menos a meio e havia um parágrafo de tal forma sublinhado a negro pela pena trémula do possuidor que Mr.Merritt não conteve a curiosidade. Da natureza dessas poucas linhas sublinhadas e da força com que o tinham sido, nada saberia dizer, mas tudo isso lhe causou a pior impressão. (7)

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Mas essa é a maldição da Arte. Sem um leitor (espectador, ouvinte, ou lá o que for) interessado, perde-se o potencial do texto. Fazer o quê?

O final da história só pode ser narrado por metáforas já que se passa no reino dos céus, onde não há tempo. Caberia talvez dizer que Aureliano conversou com Deus e que Este se interessa tão pouco por diferenças religiosas que o tomou por João de Panónia. (…) para a insondável divindade, ele e João Panónia (o ortodoxo e o herege, o aborrecedor e o aborrecido, o acusador e a vítima) formavam uma só pessoa. (8)

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“É diferente essa sua burkha…” “Aãã…não,sou apicultora!”

Melhor dizendo: escrever como? Esse é mais um dos mistérios da criação literária, o maior terror do desgraçado escrevinhador, o suspense em que todo o leitor fica até à leitura do texto… não estão mesmo à espera que o revele, pois não?

Quero que a leitura deste livro vos deixe a impressão de terdes atravessado um pesadelo voluptuoso. (9)

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(1) in Poema de Gilgamesh (tábua VII coluna IV),trad.Frederico Lara Peinado, ed.Tecnos

(2) in A Morte do Palhaço de Raúl Brandão, ed.Verbo

(3) in Histórias de Mistério e Imaginação ‘O gato preto’ de Edgar Allan Poe, trad.Tomé Santos Júnior, ed.Verbo

(4) in Romanceiro ‘Bernal-Francês’ compilação de Almeida Garrett, ed.Circulo dos Leitores

(5) in Mazurca para dos muertos de Camilo José Cela, ed.Seix Barral

(6) in Contos Fantásticos ‘A Orquídia Estranha’ de H.G.Wells, ed.Collins

(7) in O caso de Charles Dexter Ward de H.P. Lovecraft, trad.Manuel João Gomes ed.Dom Quixote

(8) in O Aleph ‘Os Teólogos’ de Jorge Luis Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(9) in Livro do Desassossego de Bernardo Soares, ed.Assírio & Alvim

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Fazer-se entender ou impressionar?

Que o escrevinhador pressuponha o seu leitor é uma atitude perfeitamente louvável, pois a escrita é um modo de comunicar, além de eventuais motivações terapêuticas, necessidades catárticas ou simples vontade de contar coisas.

Ponho estes seis versos na minha garrafa atirada ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia quase deserta/ e um menino a encontre e destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (1)

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Precisamente, a conciliação entre o que se pretende dizer,e o que é dito e entendido—de facto— é o problema crucial da comunicação em geral.

Para conheceres as melhores mentiras (…)/ de um homem/ terás que te sentar longamente ao pé dele./ Ninguém mente aos gritos, de longe. (2)

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Literariamente, as possibilidades permitidas pela forma (como se diz) desloca esta perspectiva para o efeito estético (a impressão que não a compreensão, digamos assim). Por vezes, o escrevinhador sacrifica deliberadamente o sentido para atingir um efeito, noutras é o contrário, e há toda uma gama infindável de tentativas para conseguir o equilíbrio possível.

Agora começa o Manifesto:/ Arre!/ Arre!/ Oiçam bem:/ ARRRRRE! (3) 

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Talvez não haja modo mais difícil de obter esse compromisso entre conteúdo e forma do que na fórmula humorística: desde a subtil (imperceptível, dirão uns) ironia ao portentoso (obsceno, dirão muitos) sarcasmo, o entendimento do leitor peca geralmente pela incapacidade oftalmológica para distinguir toda uma gama de tonalidades ou pela acuidade visual para só ver aquilo que o incomoda. Todavia, quantos escrevinhadores não caem na vulgaridade gratuita (porque sem sentido, nem elegância)?

Teu avô, santanário venerando/ Soube mais orações que mil beatas,/ Com reza impertinente os Céus zangando; / Teu pai foi um trovão de pataratas;/ Teu tio, o bacharel, morreu, falando;/ Tu falando, Riseu, não morres, matas. (4)

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Que critério pode ter o escrevinhador para contentar a todos, ou seja, para não ser vulgar e conseguir se fazer entender, obtendo o efeito pretendido? Se procurar nas estrelas, talvez venha a encontrar uma regra de ouro. Entretanto, o recurso a uma mediana inteligência nos conteúdos escritos e a um estilo que o satisfaça (mais do que satisfazer terceiros), é um modo de começar a praticar por conta e risco.

Cavossonante escudo nosso/ palavra: panaceia/ ornado de consolos e compensas/ enquanto a seta-fado/ nos envenena ambos tendões/ rachados. (5)

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COISAS A EVITAR DIZER: b. a um homem-bomba -Então, tá tudo a bombar?

Na composição das personagens, por exemplo, o escrevinhador pode começar por evitar uma identificação demasiado evidente com aquelas que lhe são simpáticas e a estigmatização das que lhe são odiosas. Na poesia, poderá explorar outras vozes, outras sensibilidades e entendimento.

O que é o vento sem sombra, senão um nada/ a si mesmo abraçado/ (…) / Mas é verdade que o vento me desfez a casa/ como o sopro do lobo (6)

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O que há de bom na literatura é a liberdade do escrevinhador experimentar sem fazer mal a ninguém, nem ao mundo. O que não o isenta de sofrer consequências, as quais podem ser fatais…

Tentei falar/ Talvez, ignoro a língua./ Todas as frases trocadas./ A resposta: apedrejado. (7)

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(1) ‘Botella al mar’ de Mario Benedetti

(2) in Uma viagem à Índia CantoVI, de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(3) ’21’ in Poesia, de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(4) ‘A um falador insofrível’ de Manuel Maria Barbosa du Bocage

(5) ‘Cavossonante escudo nosso’ de Mário Faustino

(6) ‘Qué es el viento sin sombra’ de Leopoldo María Panero

(7) ‘Sassate’ de Giorgio Caproni

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

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-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

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desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

Liberdade formal e estereótipo

Em comparação com outros géneros literários, a poesia ou qualquer tipo de ficção têm total liberdade formal. A diferença entre géneros, evidentemente, está no estatuto artístico de uns em oposição à objectividade, ao respeito à verdade, à isenção de preconceitos e sentimentalismos, que outros géneros, supostamente, são obrigados.

É muito o que permanece enigmático na capacidade da literatura, da palavra e da frase escrita ou falada, de criar, de nos comunicar, de tornar certos personagens inesquecíveis. (1)

As lesmas têm 32 cérebros -Mas tudo o que vos interessa é a aparência.

As sanguessugas têm 32 cérebros.
-Mas tudo o que vos interessa é a aparência.

O texto jornalístico pressupõe regras de construção e de verificação para merecer crédito, tal como o texto científico ou académico, e qualquer inexactidão, ambiguidade ou subjectividade compromete texto e autor.

Há uma necessidade urgente de comentários e críticas mais inteligentes. (…) a escrita de artigos e de livros de apreciação sérios que distingam o que é fidedigno do que não é, que sistematizem e encapsulem, sob a forma de teorias e de outros esquemas razoavelmente conseguidos, aquilo que parece ser realmente fidedigno. (2)

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Pelo contrário, e por mais regras que mandarins, comissários culturais, censores em geral, tenham tentado uniformizar a literatura poética e de ficção, a inesgotável criatividade artística encontra sempre os meios para se afirmar. Seus maiores obstáculos são a apatia social, o conformismo cultural, a ausência de crítica, a banalização: tudo aspectos que têm mais a ver com a sociedade em si mesma, do que com proibicionismos ou modas.

A maioria das pessoas não se sente parte de nenhuma conversa importante. Dizem-lhes o que pensar e como pensá-lo. Fazem-nas sentir-se incapazes assim que que se abordam questões de pormenor; e quanto a objectivos gerais, encorajam-nas a acreditar que foram há muito determinados. (3)

PRAÇA TIEN AN MEN: neste local, em 1989, não se passou nada

PRAÇA TIEN AN MEN:
neste local, em 1989, não se passou nada

Embora não bastem para garantir qualidade, os níveis de linguagem, a complexidade psicológica das personagens, as possibilidades de interpretação, entre outros aspectos, dão um cunho próprio ao texto e o distinguem da produção estereotipada. Mas também são o que dificultam a captação imediata da atenção, a compreensão fácil, a leitura entusiasta, mesmo daqueles que valorizam os textos densos, ricos e/ou insólitos. Isso tanto se pode dever a serem deficientemente elaborados como por suscitarem reacções conflituosas. E aqui surgem os campos da polémica e da crítica, espaços difíceis de aceder e, sem os quais, a literatura definha.

Quem deu a estes poetas o direito de assim julgarem as pessoas? Quais os critérios que para eles determinam o valor autêntico? (…) O que há entre eles de comum é (…) algo de negativo: a sua desconformidade com os valores universalmente reconhecidos não procede de um interesse predominantemente moral ou ético. (4)

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O que nos leva, mais uma vez e sempre, à eterna questão: para quem escreve o escrevinhador?

Para si mesmo? Para o leitor ideal? Para Todo-o-Mundo e Ninguém…? A pergunta pode ser pertinente ou ociosa, e só faz sentido quando aplicada ao escrevinhador em concreto; mesmo assim, seu interesse para o leitor é discutível. Existe sempre o risco clássico do artista ‘não compreendido’ no seu tempo, e existe, maciçamente, a evidência típica do escrevinhador autocomplacente, tolhido pelas suas inseguranças estruturais (escrita pobrezinha, enredo estereotipado, estilo plastificado, etc) mas em fuga para a frente.

Por isso, a questão é especialmente relevante para o próprio escrevinhador.

Aprendi a converter aquela derrota em literatura, mais uma vez, a intensificar os meus sonhos, preparando aquela frase que diria a alguém alguma vez, escrevia um poema, nunca tinha pressa, e assim passava o tempo (…). (5)

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O texto que se subordina ao sentimento ou à ideia pode transmitir emoções fortes e impressionar pela sugestão, mas este é um processo excessivamente traiçoeiro: o tempo condena-o a revelar suas debilidades, como aquela cançoneta de verão que nos entretém até à náusea. Na esmagadora maioria das vezes, o melhor que se pode dizer é que se trata duma escrita levezinha, como aquela que, geralmente, se lê na praia, à beira da piscina, nas horas de espera no aeroporto.

Ou seja, reduz-se ao lugar-comum. Ainda se fosse esta uma receita fiável para acedermos aos quinze minutos de fama…

E depois?/ A prevista acrobacia/ do mais quotidiano, o que apenas/ importa como sintoma: homens/ parados nas praças, homens carrancudos/ e com vinte e cinco eventuais/ anos sobrevivendo sem o saber. (6)

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(1) in A Poesia do Pensamento de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(2) in O Quark e o Jaguar de Murray Gell-Mann, trad.José Luís Malaquias ed.Gradiva

(3) in Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos de Tony Judt, trad. Marcelo Felix edições 70

(4) in A descoberta do Espírito de Bruno Snell, trad.Artur Mourão edições 70

(5) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(6) ‘Color Local’ in Pliegos de Cordel de J.M. Caballero Bonald, Obra Poética Completa ed. Seix Barral

O diálogo com o Público

Antes da escrita, a obra literária era cantada, recitada ou dramatizada perante um público. A escrita alargou esse público, não ameaçando as formas orais da divulgação literária, que ganharam em alcance e em variedade graças à tecnologia audiovisual.

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O escrevinhador, contudo, sente a pressão dessa ‘concorrência’: apesar da frase feita ‘o livro é melhor do que o filme’, o filme tem mais hipóteses de se tornar um blockbuster do que o livro um best-seller. Será só pelo filme tomar 2 a 3 horas do tempo do espectador, enquanto o tempo da leitura é longo e incerto?

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Enquanto produto industrial e mercadoria, o livro também tem beneficiado do desenvolvimento tecnológico, mesmo — principalmente, segundo muitos— no seu formato electrónico: mais barato, mais acessível, mais global, mais interactivo.

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Com uma população incomparavelmente mais alfabetizada do que em qualquer época anterior, o escrevinhador deveria felicitar-se pela sorte de ter nascido nesta época. Porém, olhando para as estantes da secção de livros dos hipermercados ou quiosques, o escrevinhador poderá desconfiar legitimamente se será assim.

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Para ganhar visibilidade e vendas, o escrevinhador entusiasma-se com os receituários que ensinam os 10 passos para se tornar um autor de sucesso (de vendas, bem entendido). E daí a frequentar as redes sociais, a procurar pretextos para falar da obra, a ‘enriquecê-la’ com conteúdos multimédia. Nada que não se fizesse (com muito menos recursos, é verdade) no tempo em que as précieuses cultivavam círculos literários nos seus salões.

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Nessa época distante também se verificou o aumento de publicações e, obviamente, de leitores. Do mesmo modo, provocou uma ‘invasão de imbecis‘*. Que alguns destes ganhem fama, tenham sucesso e enriqueçam com as inanidades que publicam, é verdadeiramente cómico e é um fenómeno antigo. Que sejam esses a ter mais obra publicada e público mais garantido, em vez daqueles que escrevem obras interessantes, sempre foi o lamento dos pobres génios não reconhecidos.

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Fazer o quê?— pergunta o infeliz génio. Deste blogue, nada preocupado com questões de sucesso, ouvirá em resposta um eco na forma interrogativa: escrever como?

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Escrever tendo em vista um leitor, um público, tentando de algum modo agradar-lhe, não tem nada de mal, caro escrevinhador. Principalmente se tem algo pessoal que o motive a escrever. E se, ao escrever, tem preocupações formais, estéticas ou outra coisa qualquer que vai mais além do desabafo, do vómito, do alívio das tensões.

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Dá que pensar quando lemos sobre um escritor que sofreu dúvidas dilacerantes sobre o valor das suas obras (mais tarde reconhecidas como obras-primas), tendo até o escrúpulo de as destruir, enquanto assistimos ao espectáculo de tanto escrevinhador satisfeito com a sua produção medíocre e ansioso por divulgá-la sem pejo, nem remorso.

 1ºpasso: SÊ ADORÁVEL

CARTAZ- 14h00-15h00 Marketing On-line: como conquistar a internet
Quadro- 1ºpasso: SÊ ADORÁVEL

A pensar noutras coisas, uma categoria de pessimistas entretinha-se a formular máximas como sic transit gloria mundi, enquanto outra categoria de pessimistas recomendava carpe diem, quam minimum credula postero, que é um modo de dizer aproveita enquanto podes.

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Como o autor deste blogue não é pessimista (nem latinista, com muita pena), limita-se a recomendar: enche a barriga, vive alegre dia e noite, faz festa cada dia, dança e canta dia e noite, que tuas roupas sejam imaculadas, lava-te a cabeça, banha-te, atende ao menino que te toma a mão, deleita a tua mulher, abraçada a ti**, que é algo que já foi escrito uns milhares de anos antes de qualquer das máximas latinas citadas.

Pintura de Reza Abbasi

Com um grãozinho de loucura e os favores da bela Musa, o resto virá por si. E se não, o escrevinhador (que não chegará a sê-lo, afinal), vive uma vida. E isso pode ser motivo para que se torne fonte de inspiração para qualquer candidato a escrevinhador de talento.

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* Umberto Eco, numa recente entrevista a propósito do mau jornalismo e do acesso mediático a todo o opinador desqualificado

** in Poema de Gilgamesh , tradução para o castelhano por Federico Lara Peinado, Editorial Tecnos

O uso da palavra

Para o escrevinhador, a importância da palavra deve ser bem medida, e não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo de troca. É verdade que a palavra tem a história da sua formação e genealogia, assim como a do seu uso e evolução no tempo e no espaço, que é aquilo que, à falta de melhor, chamo de valor intrínseco. Mas o escrevinhador não tem de ser erudito, nem tem de supor a erudição dos leitores. O que tem, creio eu, é de conhecer o valor dado aqui e agora à palavra e que é o que chamo o seu valor de troca.

(…) a troca, por sua vez, cria valor. E isso de duas maneiras. Primeiramente torna úteis coisas que sem ela seriam de utilidade fraca ou talvez nula: que pode valer um diamante para os homens que têm fome ou necessidade de se vestir? Basta, porém, que exista no mundo uma mulher a quem se deseja agradar e um comércio suscetível de trazê-la às suas mãos, para que a pedra  se torne “riqueza indireta para seu proprietário que dela não precisa (…) daí a importância do luxo, daí o fato de haver diferença do ponto de vista das riquezas, entre necessidade, comodidade e prazer. Por outro lado, a troca faz nascer um novo tipo de valor, que é “apreciativo”: organiza entre as utilidades uma relação recíproca, que duplica a relação com a simples necessidade. (1)

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Este valor de troca é o dado no momento. Recordo, quando tinha cinco, seis anos, meu Avô ralhar-me por chamar ‘chato’ a alguém ou alguma coisa, o que me deixou bastante perplexo porque sua filha, minha Mãe, não só tolerava o uso desta palavra como a usava sem reservas. Muito mais tarde, nos primeiros anos da adolescência, percebi que as razões da aversão do meu Avô—inequivocamente na base do sentido depreciativo dado à palavra—já não eram percebidas quando usadas entre pessoas das gerações seguintes. Ou, se eram, só mesmo por adolescentes, ainda fascinados com a polissemia e subentendidos que as palavras banais podem ter. Na verdade, todos sabemos que um chato incomoda, mas dificilmente encontramos alguém que nos irrite tanto que dê coceira.

O ‘diz-me com quem andas que eu te direi quem és’ não quer dizer nada. Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas. (2)

-OH NÃO... ELES NÃO...

-Oh não… Eles não…

O ‘sentido comum’ dado aqui e agora é aquele que, com quase toda a probabilidade, o leitor dará à palavra. Não levar isso em linha de conta gera problemas de comunicação, prejudicando a leitura e provocando críticas como a de texto confuso, difícil ou pedante. Ou tudo isso à vez. O que não impede que o escrevinhador possa explorar o tal valor intrínseco (bem pelo contrário, como adiante tentarei explicar), não por pretensões eruditas (pelo menos, no caso da escrita poética ou de ficção), mas por outras: a de levar a interpretação do texto para diferentes níveis de entendimento, seja pela polissemia, seja pela ambiguidade, ou, até mesmo, pela sonoridade. Importante é que seja disso ciente, para não falhar o efeito pretendido.

(…) o romance popular não inventa situações narrativas originais, mas combina um reportório de situações ‘tópicas’ conhecidas, amadas pelo próprio público (…).  (…) a catarse, por razões comerciais, deve ser optimista. (3)

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O uso de ‘palavras caras’ tanto pode servir para mascarar o vazio do discurso (senão mesmo a sua falsidade), como ser sintoma da dificuldade do escrevinhador em lidar com o tema. A comunicação na era de massificação, em que o número de receptores (leitores, ouvintes, espectadores) contam-se pelos milhões (e muitos milhões), tem demonstrado como o uso deliberado da linguagem ‘técnica’, ‘erudita’, ou outras variantes de um jargão acessível a ‘especialistas’, pode iludir e manipular, assim como o seu uso irreflectido ou mal calculado pode se virar contra o comunicador.

Uma descrição que parece neutra mostra o que tem de tendencioso quando se lhe pode opor uma descrição diferente (…). (4)

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-O que é mais obsceno: a violência ou os mamilos?
‘LIBERDADE PARA OS MAMILOS’ (desenho de María Acha-Kutsher)

Na vida académica e na área das ciências tem havido alguma literatura dedicada a desmontar discursos, expondo a sua vacuidade por detrás de formulações verdadeiramente incompreensíveis. Que não são outra coisa senão variantes do famoso conto do ‘rei vai nu’.

O fazedor de dinheiro não é a personalidade mais palatável, mas é muito preferível ao pretenso intelectual. (5)

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“Sim, o planeta foi destruído. Mas durante um maravilhoso período de tempo criamos uma quantidade de valor para os accionistas.”

Daí que, numa época em que ‘o livro’ se está tornando um objecto incómodo, em que a comunicação escrita sofre amputações e próteses aberrantes, em que o próprio discurso oral é ameaçado pela vacuidade dos formatos convencionados para debate e exposição de ideias, seja importante que o escrevinhador consiga fascinar o leitor ajudando-o a descobrir o valor intrínseco da palavra. Na verdade, ao fazê-lo, limita-se a prolongar uma longa tradição anterior à própria escrita, mas fá-lo num tempo em que essa tradição está ameaçada pela própria parafernália técnica que era suposto contribuir para uma dinâmica cultural incomparavelmente mais rica do que a de todas as épocas anteriores.

A habilidade do artista em sair da frente do choque violento da nova tecnologia de qualquer época e evitar tamanha violência com absoluta consciência, vem de há muito tempo. (6)

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Para os não-Iniciados, a palavra escrita ou oral pode ter um valor misterioso pelo grafismo e sonoridade, dando realce à simbologia ou à magia. Mas para os Iniciados como nós, meros leitores e escrevinhadores, sabemos bem como esse valor é uma moeda sujeita a flutuações e o mistério reside, exclusivamente, nos favores da bela Musa. Nesse aspecto, creio que nada de significativo tem mudado nos últimos quatro mil anos.

(…) sob a sua forma mais alta, a invenção literária ensina-nos a enriquecer, a complexificar, de um ponto de vista heurístico, os confins da habitação comum que não nos damos ao trabalho de reconhecer. Abre janelas através das quais nos convida a ver um terreno novo, novas fontes de luz. Narra histórias através das quais ouvimos a voz da nossa identidade privada e comum. (7)

Ilustração de Fernando Vicente

Ilustração de Fernando Vicente

Há palavras que caíram em completo desuso, tal como o discurso que as suporta, e há outras que evoluíram, alterando significados conforme a geografia e a comunidade de falantes. A usura do Tempo e as transações culturais têm esse efeito natural e inevitável. A diferença da época actual em relação às anteriores (há 40 como há 400 anos), é que o processo tem sido muitíssimo mais rápido, associado à fragmentação da comunidade de falantes no interior das próprias gerações e no mesmo espaço social. Isto tudo, e muito mais (que não cabe a este humilde escrevinhador desenvolver aqui), dificulta obviamente a comunicação, mais ainda se for comunicação escrita com pretensões literárias.

A intensidade da agitação em torno da ortografia é apenas um índice da novidade que representava a palavra impressa, e dos seus efeitos centralizantes quanto à conformidade. (…) É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada (…) a diferença entre a ordem oral e a visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correcto. (8)

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

Por isso, insisto: é importante o escrevinhador preocupar-se em ‘chegar’ a todos esses potenciais leitores desconhecidos de modo a fazer-se entender e, principalmente, a seduzi-los com palavras (e, neste ponto do post, o leitor já poderá perceber que ‘palavra’, aqui, também se entende por ‘tecido de palavras’ ou ‘texto’), levando-os a procurar mais além da superfície, imediatez, uso comum… para lá do valor de troca, portanto. E quando o leitor começa a saber distinguir as pérolas da simples fancaria, é porque já reconhece o valor intrínseco das coisas. Como as palavras.

As palavras com que tens convivido/ durante tanto tempo, continuam/ servindo-te para algo? Poderás valer-te delas/ quando os antídotos/ contra a tua própria decepção/ já se esgotaram? (9)

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(1)in As Palavras e as Coisas de Michel Foucault, trad.Salma T.Muchail ed.Martins Fontes

(2) in Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr de Millôr Fernandes, ed.Nórdica

(3) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed. Tascabili Bompiani

(4) in O Império Retórico de Chaïm Perelman, trad.Fernando Trindade e Rui A.Grácio, ed.ASA

(5) in Closing of the American Mind de Allan Bloom, ed. Simon and Schuster Paperbacks

(6) in Understanding Media de Marshall McLuhan, ed.A Mentor Book

(7) in Gramáticas da Criação de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(8) in A Galáxia de Gutemberg de Marshall McLuhan, trad.Leónidas G.Carvalho e Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional

(9) in Bordes del Silencio La noche no tiene paredes de J.M. Caballero Bonald, Obras Completas ed.Austral

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A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

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Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

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Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

O Tempo e o Modo*

O leitor pode saltitar alegremente de livro em livro com a despreocupação das borboletas…? Talvez não: Sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema (José Pacheco Pereira, em artigo no jornal Público em 15-11-2014).

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Imagine-se, então, o escrevinhador ansioso por criar (ou alimentar) uma comunidade de leitores das suas obras: se eu pudesse escrever tudo…, mas não pode, claro. A boa notícia é que tem interesse e assunto a que se dedicar.

Se mantiver a preocupação em motivar leitores, potenciais leitores, e atrair ‘públicos’ diversificados, possivelmente colocar-se-à na sua cabecinha pensadora uma dúvida: devo situar o enredo na época actual, ou numa época futura ou passada?

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É uma preocupação legítima, visto o sucesso literário, cinematográfico ou televisivo, de narrativas ajustadas a épocas bem definidas. De modo não menos evidente, e qualquer que seja a opção, decorrem implicações formais, lógicas, factuais ou outras. Assim como os inerentes riscos. Sobre isso falarei mais detalhadamente num futuro post.

Outra dúvida que lhe poderá ocorrer, ao escrevinhador ansioso em agradar, é o do nível de linguagem a usar para fazer-se entender pela tal comunidade de leitores, virtual, existente ou a expandir. Bem vistas as coisas, essa deveria ser uma preocupação geral, já que o hermetismo em literatura é, propriamente, um género dirigido para aficionados e afins. Coisa que também deixarei para futuro post.

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Ambas as dúvidas assentam num denominador comum: o escrevinhador. Escreva sobre o que escrever, o modo como o faz é mais importante do que o tema e os conteúdos. Prioridade aos aspectos formais, então? De modo algum, isso seria negar o beijo à bela musa e trancar a louca da casa no sótão (ou na cave).

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Se, na literatura, vale tudo (e, na minha opinião, sim! vale mesmo tudo), é precisamente pelo grãozinho de loucura que desarruma ideias feitas e pela paixão que desperta artes de sedução. Sobre isso, creio já ter-me explicado em posts passados.

* título duma bem conhecida revista ‘de pensamento e acção’ dos anos 60 do século passado, em Portugal, e que exprimia em editorial o desejo de ‘tentar formular algumas perguntas e experimentar algumas respostas, que polarizassem a ansiedade geral que paira sobre o tempo comum.’

Escrever para crianças (dois pontos ou três…):

Será preciso lembrar que ‘crianças’ é uma generalização inútil (em literatura, pelo menos), e que escrever para leitores de 8-10 anos não é o mesmo que escrever para analfabetos de 3-5 anos?

A linguagem utilizada, naturalmente, deve ter em conta as limitações impostas pela idade, tal como certos efeitos estilísticos podem atrapalhar, por não serem entendidos.

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Mas a grande diferença, à partida, está em que a escrita para ser lida em voz alta deve valorizar as características da oralidade e, não menos importante, construir um texto que facilite a rememoração. Isso pode ser conseguido utilizando fórmulas assumidamente estereotipadas, como sejam poemas com rima e métrica, personagens tipificadas, frases feitas.

Neste caso, o escrevinhador pressupõe que o leitor irá dramatizar a leitura para uma audiência de (pelo menos) um ouvinte a várias dezenas (ou mais), a quem tem de prender a atenção e facilitar o entendimento desde as primeiras linhas até ao fim. E, assim sendo, o texto deve ter as necessárias indicações para quem ‘conta’ poder recorrer à panóplia de recursos que tenha (tons de voz, expressões de rosto, gestos e movimentos, gestão do silêncio, noção do ritmo, e outros).

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Deste modo, os recursos estilísticos podem ser usados com maior liberdade, pois há a mediação de um adulto que os reconhece, podendo ‘exprimi-los’ de forma não-textual, eventualmente sem recurso à própria oralidade: ironias e hipérboles que, lidas por crianças mais velhas são ainda entendidas literalmente (ou de modo algum entendidas), e que, através desta mediação, podem ser entendidas como tais, graças ao recurso a caretas, gestos desmesurados,vozes em falsete. Por exemplo.

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Para crianças com capacidade de leitura, a ausência de um narrador em carne e osso será a situação mais frequente, o que deverá levar o escrevinhador a ter maior cuidado com a ambiguidade na construção do texto e do enredo. O que não quer dizer que a exclua, antes pelo contrário.

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Obviamente, antes de escrever, o escrevinhador poderá aprofundar algumas noções de psicologia infantil, de pedagogia e coisas assim. Mas, importante mesmo, é manter o contacto com a criança que foi e com crianças, em geral.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

Porque é que os professores de ciências não deveriam vigiar o recreio.

É provável que, desse modo, reveja certas ideias feitas sobre o entendimento, a inocência, os interesses, as dificuldades e problemas, assim como os sonhos e anseios, de uma idade que lhe está, a cada dia, mais distante.

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Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

O escrevinhador à toa

O ‘chato’ como categoria estética é, no mínimo, tão complexa quanto polémica como o é a categoria do ‘belo’, e não menos condicionada por factores sociais ou pela passagem do Tempo.

-Bem, chega de falar de mim

-Bem, chega de falar de MIM! Vamos escolher o jantar?                                                                                          ‘A BANALIDADE DO MAL’

Pessoalmente, uso e abuso dela por entendê-la pertinente e por corresponder a algo de que todos temos percepção. Porém, faço-o com consciência de ser uma expressão sem rigor, subjectiva, variável.

Por isso se diz que a tarefa do escrevinhador é solitária, pois como há-de ele se guiar durante o processo de criação? Mesmo tendo leitores habituais, corre-se sempre riscos inovando ou se repetindo.

-Obrigado a todos pelo bolo e por me forçarem a confrontar com a minha mortalidade.

-Obrigado a todos pelo bolo e por me forçarem a confrontar com a minha mortalidade.

Mas o mesmo livro pode surpreender, quando relido anos depois: o leitor não fica livre de ser o ‘chato’, quando revela sua inaptidão para entrar no jogo das ironias ou para interpretar sentidos menos óbvios, por exemplo; ou quando se deixa levar por fenómenos de moda, lendo sem critério e adoptando critérios estereotipados.

Aqui, o papel do editor/agente poderá ser de grande valia para o escrevinhador, assim como o do crítico para o leitor. Porém, no mundo da Língua Portuguesa, onde existem esses editores/agentes e esses críticos?

Assim, o escrevinhador vagueia sem estrelas a guiá-lo, muitas vezes jogando textos nas páginas das redes sociais ou declamando versos em tertúlias. Sempre na esperança de ser reconhecido e valorizado, talvez demasiado crente naquilo que não é mais do que a boa vontade de estranhos e amigos. Ora, o que geralmente acontece é que nem é lido, nem apreciado, muito menos criticado. Sem polémicas, não há consciência clara do processo criativo. Sem leitores exigentes, não há estímulo para o aperfeiçoamento.

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Muito pior ainda se, inseguro de si mesmo, o escrevinhador evita reflectir sobre o que faz e como o faz.

Sem se questionar: escrever… como?

 

 

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

O escrevinhador à caça do leitor

Tem todo o sentido a preocupação do escrevinhador ‘agarrar’ o leitor nas primeiras linhas ou primeiras páginas.

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Pode ser uma arte, pode ser uma técnica, ou ambas. Para quem lê, não é indiferente concluir que todo um aparato técnico-literário foi montado para o frustrar no fim da leitura (pior ainda se for antes…). Ou numa segunda leitura, que é a prova de fogo de qualquer texto.

Ou, em alternativa, se foi ‘caçado’ pelas artes da inteligência, sedução e elegância  e é com emoção que termina a segunda leitura (e seguintes). Para então concluir que só um leitor com aquelas qualidades pode ser assim cativo pelo texto. Escrevinhadores que reforçam a auto-estima dos leitores são, geralmente, recompensados por uma justa fama (isso do proveito já é toda uma outra estória…).

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A estória pode arrancar em velocidade, trazendo situações, factos e personagens rapidamente para o desenvolvimento da intriga. Deste modo, o leitor desenvolve um interesse imediato pelas consequências do que se está a passar/a ler.

Ou ganhar velocidade pouco-a-pouco, depois da apresentação do contexto em que se irá desenvolver o enredo.

Também pode manter o mesmo ritmo, do início ao fim, como que hipnotizando o leitor numa certa toada. Esta é, das três, a estratégia mais arriscada, mais difícil e, eventualmente, mais sedutora. Suponho que exige um excepcional domínio da linguagem, da construção da frase, do tempo. Associo-a à música, talvez por ter mais facilmente características poéticas. O risco está em se perder nesse prazer estético e descurar a missão prioritária da narrativa: contar uma estória.

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FINALMENTE, A VERDADEIRA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:
Que se lixe isto, vamos pescar!

A força centrípeta da narrativa

Já por aqui tem sido dito (e exemplificado): o enredo pode ser linear ou muito pelo contrário.

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A sequência linear é a mais vulgar, a lógica e natural. Em si, nada tem de banal, de estereotipado, de previsível. Também nada tem de óbvio ou de necessário. Assim como não é intuitiva, directa, nem isenta de artificialismo.

Porém, é a sequência linear aquela que começa e acaba seguindo a seta do Tempo, respeitando a ordem dos acontecimentos e progredindo de acordo com a queda das folhas do calendário. Como a vida de todos nós, certo?

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Certo, mas nada de menos verdadeiro: o tempo dos acontecimentos nem sempre coincide com o da memória. E ambos divergem, frequentemente, com o dos afectos. E quando a escrita reacende paixões violentas, remexe nos traumas obscuros, ou destapa recalcamentos, o escrevinhador é tentado a romper com as convenções e a lógica da sequência linear.

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O enredo pode começar pelo fim (ou pelo meio), desenvolvendo só o suficiente para ‘agarrar’ o leitor e deixá-lo suspenso nas causas, nos motivos, nos intervenientes.

De modo geral, rapidamente o escrevinhador recua no tempo e segue a sequência linear dos acontecimentos até chegar ao momento da abertura. Que pode justificar nova leitura, à luz dos ‘factos’ agora conhecidos, como pode ser ultrapassada e desenvolvida, revelando-se um ‘falso’ final, tal como já fora uma ‘falsa’ partida.

-E de todo o sonho és a única coisa que me resta.

-…E de todo o sonho és a única coisa concreta que me resta.

Obviamente, o escrevinhador quer intrigar o leitor, fazê-lo precipitar-se em conclusões que, posteriormente, irá descartar.

O efeito é centrípeto: os factos e as personagens que rodam ao longo do enredo convergem para um ponto distante (no fim do livro) e o ritmo da narrativa poderá reforçar a vertigem dessa atracção compulsiva, como muito leitor sabe à custa de noites em que o tempo reservado ao sono é sacrificado para satisfazer a ânsia de saber mais.

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Quando o escrevinhador consegue perturbar os hábitos do leitor, causar-lhe olheiras e fadiga matinal, a aposta está ganha.

 

 

A janela aberta

Construído o enredo, ao escrevinhador colocam-se questões básicas: necessita de fazer trabalho de investigação, estudos, entrevistas com pessoas reais, deslocar-se a lugares, experimentar por si mesmo outras vivências?

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Ao contrário do académico, do jornalista ou de outros escrevinhadores que assumem a ligação com a realidade como base dos seus trabalhos, o escrevinhador de ficções não precisa de sair da cama para começar e acabar o que quer que seja.

Mas todo o trabalho prévio, nem que seja o da simples leitura, pode consolidar a verosimilhança do enredo (factos, personagens, modos de falar e de estar, etc), como pode reforçar a inspiração e o alento do processo criativo.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita literária.

-Estou com grandes esperanças para o meu próximo álibi: estou frequentando um curso de escrita criativa.

Além disso, trata-se duma abertura para o mundo: o escrevinhador viaja, conhece novas terras, nova gente, ouve histórias e regista expressões, toma nota de ideias e sugestões, podendo fazer tudo isto e ir escrevendo, ao mesmo tempo, o que tem estruturado no enredo.

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Edward Hopper: Rooms by the sea 1951

Hoje em dia, mais do que em qualquer outra época, é possível realizar este trabalho sem sair de casa.

Saindo ou não, pode ser motivo de grande prazer e modo de atenuar vícios duma escrita autocentrada, duma experiência de vida necessariamente limitada pelo preconceito, dos erros assimilados e inconscientes…enfim, as consequências de atribuirmos demasiada relevância ao nosso umbigo ou às nossas dores.

E, como resultado final, pode ser a diferença que o leitor encontra numa estória e nas personagens que ‘respiram’ autenticidade e outra estória e suas personagens em que tudo lhe parece postiço, sem densidade ou paixão.

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Se depois o leitor vier a saber que o escrevinhador nunca esteve naqueles lugares (e que, talvez por isso mesmo, não corresponde o escrito com a realidade), ou que se inspirou em pessoas que nunca conheceu (e episódios de suas vidas) para construir as personagens, para em seguida distorcer uns e outros, talvez o leitor fique triste e desiludido por tudo aquilo que o fascinou não existir, nem ter existido nunca…mas o fascínio pela estória perdurará, e não é essa a nossa grande vaidade e ambição, ó escrevinhadores?

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Algumas considerações intempestivas (e sempre oportunas)

O escrevinhador sofre, frequentemente, a solidão do criador. Por vezes interroga-se se vale a pena.

"Não, 5ªfeira não pode ser. Que tal nunca...nunca está bem para si?"

“Não, 5ªfeira não pode ser. Que tal nunca…nunca está bem para si?”

 

A ‘pena’ é o duro ofício que ele próprio elegeu. Compreendo a frustração, mais ainda se não tem obra publicada, nem leitores (ou, pelo menos, leitores que manifestem opinião).

Como és, Leitora? (…) és arrumada ou desarrumada? (…) És depressiva ou eufórica? És mesmo hospitaleira ou o deixar entrar em casa os conhecidos é sinal de indiferença?(…) Que mais? (…) A leitura é solidão. *

Sobre isso não tenho nada a dizer, muito menos a varinha de condão para resolver essa queixa recorrente do escrevinhador de todos os tempos, à excepção de alguns felizardos (mesmos esses sujeitos a um reconhecimento muito tardio, intermitente ou precocemente interrompido).

Que importa o nome do autor na capa?Viajemos com o pensamento até daqui a três mil anos. Sabe-se lá que livros da nossa época se terão salvado e de que autores se recordará ainda o nome.

Apetece-me, quando os ouço, lembrar-lhes o quase anonimato por que passaram escrevinhadores com a grandeza de Pessoa, e que depois de mortos se tornam figuras cimeiras da Literatura Mundial.

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E, para prémio de consolação, citar dois ou três nomes absolutamente desconhecidos, que já foram famosos, best sellers, premiados pela crítica e pelo público, mas que nem são dignos, hoje em dia, de dar nome a uma obscura rua da cidade onde nasceram.

Nem fada-madrinha, nem muro das lamentações, este blog lida com a escrita como fonte de prazer e de amadurecimento pessoal, com pretensões literárias, recreativas, didácticas. Se esse prazer ajudar a pagar as contas lá em casa, tanto melhor.

Os teus olhos tombam no principio do livro—mas não é o livro que eu estava a ler…Título igual, capa igual, tudo igual…Mas é outro livro! Um dos dois é falso.

Até porque, cada vez mais, torna-se acessível a publicação em papel (pagando-a, claro) ou em formato e-book (rigorosamente gratuita). Também poderia dar uma mão cheia de exemplos de grandes livros que foram publicados pela primeira vez em edição de Autor.

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O que faz falta, a meu ver, é uma rede de críticos, leitores, editores, agentes literários, publicações, livrarias, feiras literárias, com capacidade para ‘processar’ e consumir tantos autores e obras, principalmente no universo da Língua Portuguesa. Mas isso são largos contos.

Um momento, olha para o número da página. Que maçada! Da página 32 voltaste à página 17! O que julgaste ser um rebuscamento estilístico do autor não é mais que um erro de tipografia: repetiram duas vezes as mesmas páginas.

Por isso, e já o disse algures noutro post, ao escrevinhador só deve interessar o lado criativo da escrita, o trabalho meticuloso para ajustar a ideia à forma, o sentido crítico para o aperfeiçoar ou, inclusive, refazê-lo, desistir dele. Ou seja: dedique-se a activar as áreas cerebrais correspondentes ao prazer, ao sentido estético, ao juízo. Ah, viver uma vida também!

Há quantos anos não consigo entregar-me a um livro escrito por outros, sem nenhuma relação com as coisas que devo escrever eu?

E a preocupação de escrever como quem vai ser lido por milhões de pessoas anónimas, muito comuns mesmo, mas excepcionalmente bafejadas pelo Destino para poderem ter o discutível privilégio de conhecer sua obra.

Illustration by Jean Jullien

* Esta e todas as outras citações em itálico são retiradas do livro E Se Numa Noite de Inverno Um Viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed. Colecção Mil Folhas-Público

 

As temíveis primeiras linhas

Quando o escrevinhador sente que é chegada a hora de colocar um ‘fim’ ao texto pode ser que tenha melhores soluções para o início, a abertura, as primeiras linhas.

E porquê nesta altura? Talvez por estar aliviado do peso, da tensão, do ímpeto, com que desenvolvia o tema até lhe dar uma conclusão. Por isso, está em condições de aperfeiçoar as frases, as ideias, a ordem dos acontecimentos.

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Ora, título e abertura são dois aspectos essenciais para que o leitor seja ‘agarrado’.

Não se trata de ‘marketing’ (que aqui neste blog muito se respeita e aprecia), nem de concessões fáceis a supostos gostos dominantes. As soluções variam e a única regra que proponho é a de não defraudar as legítimas expectativas do leitor.

Mesmo tendo esta regra muitas excepções (não menos legítimas quanto as referidas expectativas) ou sejam outras tantas as maneiras de trocar as voltas ao leitor sem o defraudar, em qualquer dos casos o factor surpresa, a evidência que o leitor passa sem notar (por precipitação ou preconceito), o enquadramento posterior que altera todo o entendimento inicial, são possibilidades a explorar pelo escrevinhador.

Portanto, trata-se de uma espécie de jogo entre quem escreve (que sabe o que quer e qual o remate final do escrito) e o leitor que entra em jogo só com os dados que o escrevinhador lhe dá.

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A narrativa ou poema não têm sequer de extrair o sentido a partir do tema, mas na forma como lidam com ele. Aparentemente, trata-se do domínio formal. Isso porque distinguimos, muitas vezes, entre forma e conteúdo, dicotomia que nem é pacífica, nem, muito menos, obrigatória, no âmbito literário: a escrita é forma e conteúdo, evidentemente.

Vejam-se, por exemplo, a forma encantatória do conto infantil (era uma vez…), o exórdio inspirador do poema homérico (fala-me, ò Deusa ou canta-me, Musa…), a fórmula dos evangelhos iniciarem um novo episódio da vida de Cristo (naquele tempo…): são aberturas formais perfeitamente conhecidas, criadas a pensar na recitação para um público ou ouvinte, e que têm como conteúdo uma estória mil vezes recitada ou um género claramente identificado.

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Com a popularidade da escrita e a ‘invenção’ do autor, a originalidade passa a exigir uma abertura menos óbvia e estereotipada. O enredo procura surpreender, inclusive na        (a)moralidade final, na ausência duma ‘mensagem’, na distância pretendida para com eventuais modelos e fontes de inspiração.

Como, pelo contrário, podem ser —abertura, enredo, conclusão, personagens— absolutamente ‘normais’, sem ‘efeitos especiais’, e surpreender pela linguagem, pelo estilo das frases, etc.

Vale tudo, não é mesmo? Excepto escrever livros aborrecidos.

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Escrever como quem corre

Ao narrar acontecimentos ficcionais, o escrevinhador goza de todas as liberdades, inclusive a de violar a Lógica.

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A HEROÍNA QUE-NÃO-É-ÓRFàDO LIVRO DE CRIANÇAS.                                                                                                 Mago:’Sally tem de se juntar à nossa aventura. Só ela pode derrotar a rainha-bruxa de Mordax.                                                                                                                   Mãe de Sally:’Não antes dela comer os brócolos.’

O trabalho literário não está isento de juízos de valor, e apesar de não ter qualquer sentido a expressão gostos não se discutem, que é popular e aceite acriticamente, ninguém vai ao ponto de afirmar que livros não se discutem…bem, à excepção dos livros sagrados, claro.

Ora, o ‘pecado’ de alguns livros é o de criar expectativas (intriga, tensão), despachando-as rapidamente e de modo insatisfatório, penalizando os méritos que a obra eventualmente tenha. A pressa com que o escrevinhador resolve enigmas, dilemas, ambiguidades, e outras ‘zonas obscuras’ do enredo, pode lhe ser fatal.

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Há alguns anos saiu um livro com sucesso comercial e de autor bem conhecido, tendo como enredo a elucidação de um enigma histórico. Li com muito interesse, já que me pareceu uma boa resenha das diferentes teorias para resolver o tal enigma, todas com seus defensores eruditos e documentados.

Mas a intriga que liga o protagonista principal a essa investigação, a caracterização deste, as restantes personagens, a qualidade da escrita, são banais. E a parte que me interessou foi quase sempre despachada por diálogos extensos, didácticos, entre o investigador e especialistas. Ou seja, um tema interessante tratado de modo estereotipado, ‘fácil’.

Contudo, as expectativas que tinha foram satisfeitas, que eram a de perceber os ‘contornos’ do tal enigma, mas confesso que o destino das personagens e o desfecho da intriga não me empolgaram em nenhum momento.

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Publicações Livros Irrelevantes                                                 “Os teus livros vendem-se muito bem nas farmácias…logo a seguir aos comprimidos para dormir.”

Pior será quando o escrevinhador carece do apoio editorial para corrigir as falhas mais evidentes do enredo e do seu desenvolvimento, carecendo ainda de tempo, de resistência e de perspectiva crítica. Uma boa ideia, desenvolvida satisfatoriamente, pode ser comprometida por finais abruptos, às vezes sem sequer ‘despachar’ todas as pendências alimentadas ao longo da estória.

Se o escrevinhador opta pelo estereótipo porque entende que se enquadra numa boa estratégia de comunicação, como no tal livro que li, a coisa até funciona muito bem. Talvez deixe de funcionar ao longo dos anos, ao deixar de beneficiar da tal estratégia de comunicação (que envolve técnicas extra-literárias, essencialmente), e passe à categoria dos monos.

Mas se o escrevinhador não cumpre os ‘mínimos’, ou seja, se deixa o leitor suspenso no vazio, sem pistas, nem respostas ou mistérios profundos, arrisca-se a estragar um enredo promissor sem ter qualquer benefício.

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‘Olha, lamentamos muito. Se soubéssemos que ias te tornar numa escritora, seriamos melhores pais!’ cartaz: Encontro com o autor de ‘A minha vida miserável’

‘Para quê tanta pressa em dar por concluído um livro?’, perguntará legitimamente o leitor frustrado.

A resposta é, geralmente, muito simples: fadiga. O escrevinhador propôs-se correr a maratona e saiu da prova antes da meta.

 

Reconstruir os alicerces do texto

Para iniciar a revisão crítica do texto, depois de concluída a fase criativa, é fundamental que o escrevinhador se distancie emocionalmente do processo.

O ideal será passar alguns dias sem lidar com ‘aquele’ texto, já que, ao retomá-lo, irá estar muito mais atento ou sensível aos erros, incongruências, deselegâncias, banalidades e muitos outros defeitos.

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O problema varia consoante o escrevinhador, o momento ou a obra, mas tem sempre a ver com o natural envolvimento emocional focado na intensidade do enredo (ou do processo criativo), insensibilizando a atenção para detalhes técnicos. Às vezes, essa emoção sobrevaloriza aspectos secundários, dando-lhes espaço e destaque injustificado.

Por isso, num momento posterior em que o vinculo emocional é menos forte, graças ao distanciamento criado pela quebra da rotina, pela atenção dada a outros projectos ou aspectos da vida pessoal, o escrevinhador pode proceder à revisão crítica com acuidade.

Ao nível mais básico, possivelmente encontrará erros ortográficos e gramaticais: prejudicam a comunicação com o leitor, podem ser mais ou menos vergonhosos, mais ou  menos comprometedores no que toca ao estilo, à beleza, à fluidez do texto.

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Erros frequentes em escrevinhadores de todos os tipos de formação, actividade profissional e etc e tal (podem até ser ilustríssimos desconhecidos que escrevem em blogs que dão dicas sobre escrita!), devido à tal intensidade emocional em que formulações mentais e formas de oralidade se ‘atropelam’ no texto, onde as regras de comunicação são outras.

Certamente, a fragilidade duma aprendizagem formal da Língua, a falta de hábitos de leitura activa (distinta da passiva porque não se esgota na ‘mensagem’) e de escrita, contribuem muito para esta categoria de erros.

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Para além dos chamados ‘erros de palmatória’ (não faço a menor ideia qual seja a origem desta expressão…), existem outros não menos importantes, por vezes bem escondidos em longas frases confusas. Dos mais arreliantes são aquelas situações em que o leitor fica na dúvida qual seja o sujeito de determinada frase, criando ambiguidades tanto maiores quando, em qualquer das hipóteses, a frase tem sentido.

A terapêutica duma escrita de frases sucintas, logicamente encadeadas, pode ser bom remédio para a maioria das situações, obrigando o escrevinhador a desenvolver o alerta interno sempre que é tentado a esticar, esticar, colocando virgulas a eito como em certas estradas colocam placas de transito nos últimos metros antes do cruzamento.

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Porém, este remédio não é tão eficaz  para o caso da poesia, onde os artifícios estilísticos são muito mais ricos e variados, o que é sinónimo de terreno traiçoeiro e movediço.

 

 

 

O escrevinhador no seu labirinto

Perante a dispersão das atenções do potencial público-leitor e a concorrência avassaladora de outras formas de entretenimento, é natural que o escrevinhador se sinta perante o dilema de explorar processos narrativos que sigam o gosto dominante, daí tentando criar o ‘seu’ público; ou esquecer tudo isso e escrever para o leitor ideal, o qual é, na verdade, um reflexo de si mesmo.

Problema de Marketing

São dúvidas legítimas e sem resposta definitiva, pois encontram-se exemplos de sucesso editorial em ambos sentidos. A meu ver, trata-se mais de um sucesso do trabalho da editora do que do escrevinhador, sem desprestígio para nenhuma das partes, nem dos leitores. Por isso, neste blog não há dicas para se escrever assim ou assado, mas simplesmente sugere-se, neste capítulo, que o escrevinhador tenha em consideração se realiza de modo satisfatório os seus propósitos, ao assumir uma ou outra destas vias. E só.

"Espero que vocêstodos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo."

‘Espero que vocês todos sejam independentes, inovadores, pensadores críticos que farão exactamente como eu digo.’

Grande sucesso editorial tiveram autores como Alexandre Dumas, Júlio Verne ou Emílio Salgari, sendo ainda nomes familiares para muita gente com mais de quarenta anos, e alguns dos seus livros ou heróis ainda são populares entre gerações mais novas graças às adaptações para televisão e cinema. Os três tiveram uma produção tão prolífica que seria impossível esperar o mesmo nível de qualidade no conjunto da sua obra. E, do ponto de vista da crítica, são autores de muito menor valia literária do que o seu sucesso.

"Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui."

“Detesto ter de te dizer isto, Querida, mas esse livro que estás gostando tanto não presta, diz aqui.”

Porém, tendo sido casos de influência duradoura, muito além do seu desaparecimento físico, marcando os gostos e a imaginação popular de várias gerações, tornaram-se modelos da escrita de estórias de aventuras, amor e intriga política, fortemente dependentes do contexto histórico, científico e/ou geográfico da narrativa e que constitui sua ‘imagem de marca’.

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Que esta reflexão ‘não se limite a ser um exercício de nostalgia mas ocasião para iniciar um discurso crítico. Sem que isto, obviamente, seja turvado por preconceitos irónicos ou moralistas demasiado imediatos, capazes de inquinar aquilo de que muitas destas páginas sabem dar: a alegria da narrativa por si mesma.‘ (in Il Superuomo di Massa-retorica e ideologia nel romanzo popolare de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani)

"Li-os a todos."

“Li-os a todos.”

Ao escrevinhador do sec.XXI dificilmente lhe surgirá o desafio do folhetim nos jornais ou algo parecido, mas permanece o da escrita que prenda a atenção do leitor,dando satisfação ao autor. E se houver ainda um editor contente, tanto melhor para todos.

Todavia, não deixe o escrevinhador de ter presente que o universo literário é muito mais vasto do que tudo isto.

 

A ambiguidade inequívoca

Habituados os leitores à exaltação da virtude da Verdade e da Certeza na vida social pública e privada, muito mais ainda na esfera política e económica, compreendo que fiquem alguns escrevinhadores perplexos com a insistência com que neste blog se propõe a ‘ambiguidade’ como valor literário e critério de avaliação do texto e do enredo.

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Atribuir às palavras uma correspondência com “as coisas de fora”, vê-las e usá-las como algo que representa a “realidade” do mundo, não é apenas uma ilusão comum. Torna também a linguagem uma mentira. (in Presenças Reais de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed. Presença)

Já noutros posts se falou algo sobre isso, mas creio nunca ser demais caracterizar o ‘literário’ como o exercício da ambiguidade. Não como um ‘vício’ da linguagem (ou de carácter), mas como expressão da polissemia das palavras, dos potenciais sentidos duma frase.

Poema de geometria e de silêncio/Ângulos agudos e lisos/Entre duas linhas vive o branco (‘Poema’ in Coral de Sophia de Mello Breyner, ‘Obra Poética’ ed.Caminho)

Este é um dos ‘segredos’ da poesia: mesmo sob o rigor formal da composição, sua liberdade de interpretação escapa ao próprio escrevinhador a partir do momento em que o leitor a lê.

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‘Sou um advogado especializado em divórcios. Isso ajuda-me muito porque também escrevo poemas de amor.’

A ambiguidade também pode ser vista como técnica de construção das personagens, dando-lhes espaço para afirmar a ‘sua’ verdade sem serem agrilhoadas a uma tipologia que as empurre para o lado dos ‘bons’ ou dos ‘maus’.

Que te disse pois, outrora, Zaratustra? Que os poetas mentem demasiado? E contudo o próprio Zaratustra é poeta. Acreditarás agora que ele tenha , neste ponto, falado verdade? E, se assim é, porque o acreditas? (in Assim falava Zaratustra de Frederico Nietzsche trad.Carlos Grifo Babo ed.Presença)

E, deste modo, estendendo-se a ambiguidade ao próprio enredo.

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A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio: essa é que é a regra do rei! O senhor…Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (in Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, ed.Nova Fronteira)

Todavia, a ambiguidade é a própria medida da capacidade de interpretação do leitor. Como se o acto de criação não terminasse com o fim da escrita.

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O que leva a outro tópico do post anterior: as cidades antigas e as marcas de exploradores ‘num mundo sempre novo por explorar’.

Liberdades narrativas

Há quem antipatize com a liberdade como alguns escrevinhadores interpelam os leitores ao longo duma narrativa, socorrendo-se de um narrador opinativo e supostamente engraçado. Não tenho nada contra: são tudo técnicas ou estilos que podem funcionar melhor ou pior. O risco está sempre presente e não se pode agradar a todos.

in "Mistérios de Fafe -um romance social" de Camilo Castelo Branco ed.1881 ed.Viuva Campos Junior

in “Mistérios de Fafe -um romance social” de Camilo Castelo Branco 1881 ed.Viuva Campos Junior

Pode ser que esse narrador se torne ele mesmo mais uma personagem (melhor dizendo, uma ‘metapersonagem’, pois as reflexões e à-partes, nesse caso, são um metatexto) e suas intervenções dirigidas explicitamente ao leitor (que acaba por se tornar, também, um involuntário protagonista) são importantes ao nível do contexto e do sentido. Mas não vale a pena perder tempo com teorias críticas e afins, pelo menos antes da obra feita.

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camilo castelo branco por fernando campos

No meu tempo amava-se muito. É por essa quadra de flores que a minha imaginação se esvoaça como a abelha à volta das corolas de um ramal de rosas.

Sou do período dos aéreos perfumes; este agora é o dos sons metálicos. As almas então eram leves, voláteis, e vestiam-se com os raios prateados da Lua; hoje, ouço dizer que os corações estão pesados e retraídos dentro dos seus espinhos de ambição, cobertos de pomos de ouro como os ouriços-cacheiros no estrado das macieiras.

Minhas senhoras, as vossas Excelências não imaginam como as suas mães foram amadas! Nós éramos românticos. Não tínhamos mais dinheiro que estes bancos rotos de hoje em dia; mas tínhamos papéis que valiam mais que os deles: eram sonetos.

(in A Viúva do Enforcado de Camilo Castelo Branco)

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caricatura de camilo por sara peixoto

Frequentemente, nas ‘novelas’ camilianas, o narrador é alguém (talvez o próprio Camilo) que conheceu algumas das personagens ou leu documentação escrita pelo punho de algumas delas, o que lhe ‘dá’ credibilidade ao relatar extraordinários acontecimentos. Esse narrador não pretende ser omnisciente, mas tem opinião formada sobre muitos assuntos. E, frequentemente, é sarcástico, irónico, filosófico ou acusador. De qualquer dos modos, o efeito polémico, associado ao sensacionalismo dos temas e enredos, ficava garantido.

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(…) transcorridos dois anos, em um livro impresso por 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba.

(in A Morgada de Romariz de Camilo Castelo Branco)

Deste modo, os leitores fiéis também têm o grato prazer de lerem na companhia do autor, sempre ansiosos por mais um parênteses, uma divagação, um comentário,  que os fará rir. E pensar.

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in “A Sereia” de Camilo Castelo Branco

A famosa torre de marfim do escrevinhador

Já aqui tenho referido que o pecado capital do escrevinhador é o de ser ‘chato’. Como todas as categorizações, é discutível.

À primeira vista nem parece difícil obter consenso quanto à ideia de que um livro ‘chato’ é um mau livro, mas o que é chato para uns, pode ser sublime para outros. E começam aqui as dificuldades, sendo a  dificuldade seguinte aquela impressão de que o escrevinhador que escreve livros chatos não tem noção disso.

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Também não é das menores das dificuldades a existência de leitores chatos, tanto pela incapacidade para atingir sentidos implícitos, como para descodificar ironias, por exemplo.Ou pela total falta de resistência física e mental para prosseguir a leitura de um livro de algumas centenas de páginas.

LIVRARIA "Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor"

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“Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor”

E em todos os casos, em vez de se acusar a si mesmo, aponta o dedo ao escrevinhador e/ou ao livro.

Sobre essa espantosa criatura que é o leitor, Saramago se questionava ‘Quem lê poesia, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se? Quando o leitor assoma à entrada do poema, é para conhecê-lo, ou para reconhecer-se nele?’*

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Ora, esta é uma das tradicionais áreas de actuação de um bom trabalho editorial, uma espécie de mediação entre os recursos do escrevinhador e o potencial do leitor.

Porém, numa época em que a auto-edição e a edição por encomenda estão generalizadas (o que, por si, não é nenhum defeito), esta mediação desaparece. Entre muitos outros problemas, reforça o isolamento do escrevinhador na sua torre de marfim.

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* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago (em autocitação de artigo publicado no jornal Letras & Letras) ed.Caminho

O escrevinhador e o Tempo

Há quem escreva com a noção de já ter vivido ‘o seu’ tempo, não sendo ‘seu’ o tempo contemporâneo. Supõem, por isso, que o que escrevem destina-se à sua faixa etária e a gente ainda mais velha: os mais novos não se interessam, nem o escrevinhador percebe o que lhes interessa.

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 Ou vivem o drama duma ausência existencial.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?… Aqui, tudo já foi… Em sombra estilizada, A cor morreu — e até o ar é uma ruína… Vem de Outro tempo a luz que me ilumina 

[in Epigrafe de Mário Sá Carneiro]
Lista Telefónica -Sinto-me inútil.

Lista Telefónica
-Sinto-me inútil.

O curioso neste ponto de vista é a negação, implícita, da própria Literatura, essa forma de arte em palavras que pretende agir sobre o leitor (ou ouvinte).

Tristes mãos longas e lindas/ Que eram feitas pra se dar…

Ninguém mas quis apertar…/ Tristes mãos longas e lindas… 

E tenho pêna de mim, /Pobre menino ideal… 

Que me faltou afinal? /Um elo? Um rastro?… Ai de mim!… 

[in Dispersão de Mário de Sá-Carneiro]

Os temas, como o talento, podem envelhecer, cair em desuso, desaparecer, nada de mais natural…mas como pode o escrevinhador sentir-se com autoridade suficiente para decretar a morte eminente de um tema (ou do próprio talento), após a morte dele (escrevinhador) e dos seus (poucos) leitores?

-Para de ser tão negativo. -Um verdadeiro optimista teria dito "Sê positivo".

-Para de ser tão negativo.
-Um verdadeiro optimista teria dito “Sê positivo”.

Anúncios destes podem resultar em boas ficções literárias, dramatizando o necessário para alimentar a tensão que uma perda definitiva sempre desperta. Até podem resultar como estratégia de marketing.

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-Queres parecer muito esperto, Corto Maltese. É esse o teu defeito…mas sei uma coisa a teu respeito: no fundo és honesto e é isso que me convém.
-As mulheres deveriam ter sido a minha ruína já há muito tempo.

Ora, ao escrevinhador resignado a escrever para ‘os do seu tempo’ falta, quase sempre, fôlego literário. Se algo definha não é a literatura, nem o tema, mas a escrita dos textos (dele, escrevinhador), e esse definhamento é o problema número um de toda a Criação (com maiúscula e porque sim): a falta de inspiração.

Eu próprio me traguei na profundura, Me sequei todo, endureci de tédio.
[in Além-Tédio de Mário Sá Carneiro]

 

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O resto são tretas. Mas é com tretas (e letras) que se responde a tão singela questão: escrever como?

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Mário Sá Carneiro, desenho de Almada Negreiros

Um pouco mais de sol – e fôra brasa, Um pouco mais de azul – e fôra além. Para atingir, faltou-me um golpe de aza… Se ao menos eu permanecesse àquem…

[in Quási de Mário Sá-Carneiro]

Surpreender o Leitor

Para a construção do enredo, para a composição das personagens, para o modo como se articulam as componentes da narrativa, para todos os detalhes, enfim, da árdua tarefa a que o escrevinhador se proponha, esta é a minha mensagem de Ano Novo: surpreenda o Leitor (e ponho maiúscula para dar ênfase a tão original ideia).

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Claro que o recurso a soluções fáceis tanto podem redundar num best-seller de qualidade medíocre como num livro medíocre e desconhecido.

Afinal o mordomo é o assassino? A rapariga bela, rica e arrogante é descartada pelo Príncipe no fim do livro? Cristóvão Colombo descobre a América…ah, mas foi por engano (ou talvez não)?

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Até as fórmulas mais gastas, totalmente previsíveis, podem surpreender quando se lhes acrescenta algo mais. Como o sarcasmo, a ironia, o humor absurdo ou, simplesmente, reescrevendo velhos temas e explorando novos sentidos.

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Porém, nunca esquecendo que se trata de um ingrediente entre outros, ainda que seja ‘o tal’, aquele que faz a diferença.

O Fim do Tempo

Último mês do calendario, final do ano, Dezembro suscita reflexões, alegorias e narrativas sobre temas densos como a finitude, a velhice e a morte (e eu já aligeiro o assunto evitando maiúsculas).

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FIM
“Ele era um grande escritor”.

São temas recorrentes suscitados pelas longas, geladas noites, pelos dias curtos e cinzentos, pelas festividades que apelam aos laços familiares e recordam aqueles que ‘o tempo levou’. Como no famoso conto A Christmas Carol de Charles Dickens, a época é propícia a balanços existênciais e ao correspondente saldar de contas (enquanto é tempo…).

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Aí coloca-se o escrevinhador num terreno traiçoeiro: o de lidar temas que mexem com memórias antigas e questionam sua identidade. Frequentemente, ele tropeça e estatela-se numa escrita lamecha, confusa, confessional.

Lamecha porque escorrem lágrimas e ecoam suspiros a cada evocação dum ente querido da infância ou dos momentos irrepetíveis; confuso porque são as emoções que dominam a composição, prejudicando forma e conteúdo; confessional porque reduz-se ao desabafo. 

a Arte da Conversação lição 7: se em algum momento ao longo da conversação pensares: ‘-Estarei a falar demasiado sobre mim?’ então a resposta é ‘SIM’.

Os temas podem ser expressos de modo azedo, melancólico, desesperado, saudosista, amargo, pessimista, e são numerosos os exemplos de grandes textos literários assim escritos. A questão não é essa.

Como em tudo o mais (nisto da escrita, claro está), o escrevinhador deve ter a preocupação de comunicar, desenvolvendo os temas de modo a envolver o leitor. E é aqui que volto a lembrar o discurso de Cecília Meireles citado num post anterior: ‘A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta (…) aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer.’

Dito isto, desista o escrevinhador de procurar álibis para cometer o mais hediondo dos crimes literários: matar o leitor de tédio, por desleixo da capacidade autocrítica.

"A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo."

“A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo.”

Ou dele se poderá dizer o que alguém disse do Dantas: O Dantas é a meta da decadência mental!/E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!/E ainda há quem lhe estenda a mão!/E quem lhe lave a roupa!/E quem tenha dó do Dantas!/E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero! (in Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros)

A criatura e o criador

Sendo o texto uma criatura viva, é infiel ao criador ao permitir-se ir muito mais além do que este pretende, traindo intenções obscuras, permitindo derivações imprevistas, surpreendendo-o com uma autonomia desconcertante.

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Também é verdade que o texto definha e sobrevive mal em sequência de um acto criativo falhado, condenado ao ridículo e à obscuridade, senão ao extremo de se abrigar no antro das leituras enfadonhas que o leitor, avisadamente, evita.

Mesmo que tenha passado por uma fase inicial de popularidade e reconhecimento público: o juízo crítico será sempre mais duradouro do que as tabelas dos top, as últimas novidades chegam cada vez em maior número e mais depressa, a indústria cultural faz pela vida e as campanhas de marketing têm orçamentos e prazos de validade.

"Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever? Eu pretendo reescrever a História."

“Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever?- Eu pretendo reescrever a História.”

Escrever como quem quer ir ao encontro dos gostos, das modas, dum obscuro, potencialmente promissor, nicho de mercado? Óptimo, genial, provavelmente ninguém antes pensara nisso.

Escrever como que poupando ao leitor o incómodo de parar para reler e melhor entender? Que solução eficaz, sem complicações, nem ambiguidades!

Escrever como que evitando as referências e dificuldades que, presumivelmente, a maioria dos potenciais leitores manifestamente desconhecem e fogem de enfrentar? Ligeiro e superficial para se usar em qualquer dia do ano, sem dúvida.

LER FAZ VIVER prazer

LER FAZ VIVER
             Prazer15mg Curiosidade8mg Imaginação10mg Revolta12mg Saber9mg  Agentes de sabor:muitos!

Culpa dos leitores…ou da falta deles?! Claro, claramente que sim. E também!

Mas seja qual for o ângulo da acusação, por maior que seja o rosário de culpas ou o banco dos réus, a qualidade do texto não tem de depender senão da relação do escrevinhador com a bela Musa.

Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui’. (in Fedro de Platão, ed. Guimarães e Cª 1981 tradução de Pinharanda Gomes)

Louca inspiração, portanto. Sem álibis.

Ah, se tudo fosse assim tão simples…

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-Amo-te.
-Amo-te muito!
-Olá, bode! Eu amo esta rapariga!

Escrever, ler, reler, reescrever

O escrevinhador devia acompanhar a sua actividade com um permanente exercício de reflexão sobre os mistérios da leitura e dessa estranha, ignota, criatura que é o leitor. Afinal, toda a escrita deveria supor um leitor,não?! Poderá até o escrevinhador começar por se questionar a si mesmo: quantos livros irá reler ao longo da vida? Porquê esses e não qualquer dos outros?

"Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido"

“Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido!”

 

E que importância tem isto para o escrevinhador?

Mas com tanto livro por ler e tão pouco tempo para ler, não será caso para perguntar: o que leva alguém a repetir a leitura uma, duas, n vezes?

Corto Venecia

Para complicar, acrescento ainda que, por vezes, a segunda leitura não coincide com a primeira. Outras vezes,confirma-a. Tem vezes que nem chega a ser concluída por falta de interesse.

O que leva a outra questão, perturbante e quase fantasmagórica: pode o texto mudar, no interior dum livro fechado e alinhado numa fileira da estante onde outros livros foram arrumados?

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Sei o que pensas sobre isto’, disse Tweedledum: ‘Mas não é assim, de modo algum.’

‘Pelo contrário’, prosseguiu Tweedkedee, ‘se fosse assim, podia ser assim; e sendo assim, seria assim: mas como não é assim, não é assim. É lógico.’ (Through the looking-glass de Lewis Carrol)

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Poderá haver poesia ou prosa com tensão baixa?

Na narrativa, a tensão é a expressão do desequilíbrio que dará dinâmica ao enredo, carácter à personagem, interesse ao tema.

A tensão está na diferença que se desenvolve do ponto de partida até ao ponto de chegada do enredo, as personagens estabelecem relações instáveis entre si ou consigo próprias, o tema pode ser focado de diferentes perspectivas, não necessariamente conflituosas, mas distintas. O leitor é ‘chamado’, assim, a participar nos dilemas, a reflectir sobre as alternativas, a entender os conflitos, provavelmente a expor seus preconceitos e debilidades.

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Uma das formas narrativas mais comuns do desequilíbrio é o ‘suspense’: as consequências poderão ser muito gravosas para esta ou aquela personagem, mas o enredo não dá certezas sobre a evolução ao longo das páginas ainda por ler, tanto sendo possível os desfechos previsíveis como outros, invariavelmente imprevisíveis para o leitor.

Ou o enredo até pode seguir uma pauta conhecida, porém as personagens expõem uma psicologia muito própria e complexa que determinará ou influenciará o desfecho dum modo que, muitas vezes, nem o próprio autor consegue antecipar antes de escrever.

Na poesia, sente-se o desequilíbrio das emoções duma Florbela Espanca perfeitamente enquadradas no rigor formal dos sonetos; ou perceber a tensão oculta na sensibilidade da poesia ‘tranquila’, quase zen, de Caeiro.

No discurso poético, o desequilíbrio pode estar na construção da frase, na expressão dum sentimento, na sugestão duma ideia. E aqui é mais facilmente perceptível a sensação de vertigem, o sopro da loucura, a proximidade do inefável: tudo fórmulas para exprimir o indizível.

'Conservar su independencia', de Gilbert Garcin

Na prosa, torna-se perturbante o desequilíbrio manifesto nessas personagens aparentemente banais, eventualmente medíocres, para todos os efeitos ‘pessoas comuns’, que se expressam no Livro do Desassossego ou n’ O Processo. Desequilíbrio que nada tem de patológico, mas nem por isso é menos inquietante porque questiona a realidade e a passiva resignação.

Riso amargo

Uma das medidas possíveis para avaliar a boa literatura está na construção de personagens que não se reduzem ao estereótipo, desafiando o leitor a enfrentar suas ideias feitas, pondo em causa a simplificação entre os ‘bons e os maus’.

-Claro que o fiz a sangue-frio, idiota...Sou um réptil

-Claro que o fiz a sangue-frio, idiota!…Sou um réptil!

Nos anteriores posts temos acompanhado alguns aspectos relevantes do livro ‘A Festa do Chivo’ de Vargas Llosa, particularmente a personagem Trujillo, encarnação literária de Rafael Trujillo, ditador da República Dominicana entre 1930 e 1961.

O resultado não deixa de ser cómico, apesar de deprimente: Vargas Llosa não só não reconhece qualquer grandiosidade neste tipo de figuras históricas, como explica a importância que têm pela mediocridade geral das pessoas que as rodeiam, deixando-nos o incómodo da nossa tendência para subestimar a força das pessoas medíocres.

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Deste modo, o autor presta justiça à sua personagem: permite que se apresente ao leitor como alguém ‘que se fez’ na vida e numa sociedade já marcada pela injustiça e pela ganância, de que soube aproveitar rodeando-se de outros com idêntico carácter, talvez menos corajosos, talvez menos decididos.

Conhecendo bem a imundície humana ‘da sua gente’, concentrando poder e distribuindo prémios e dinheiro a quem lhe seja útil ou fiel, o Trujillo que Vargas Llosa nos apresenta é alguém que despreza toda a gente e, por isso, não entende que possa haver melhor governo do que o dele.

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E não é por ter de si a imagem pública que o regime ditatorial criou, mas por ter a certeza de que qualquer outro, no seu lugar, faria o mesmo.

Assim, o leitor não é levado a desculpabilizar a responsabilidade histórica do ditador, nem a demonizá-lo, mas a problematizar o Mal, relativizando-o e, eventualmente, a questionar a sua ‘banalidade’.

E a colocar-se a si mesmo a questão de como é que ele, o leitor, se posicionaria frente à corrupção do poder nos seus diferentes escalões.

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Livros com personagens assim não deixam ninguém indiferente, podendo até contribuir para o interesse do leitor pela ‘coisa pública’ e outros temas.

‘Leitura não recomendada para quem só lê a preto-e-branco’ *

* sugestão de aviso para afixar em certos livros

‘Entrar na mente’ do criminoso é um tópico da literatura policial, desafiando as regras da ‘normalidade’, do socialmente aceitável. Se o autor se distancia suficientemente, dando espaço à personagem para se revelar pelas suas próprias palavras (que é uma noção complexa e nada pacífica), é natural que choque o leitor habituado a uma separação clara entre o Bem e o Mal, entre o herói e o vilão, entre a boa menina e a má menina boa.

Prosseguindo com o exemplo do post anterior,  podemos ver como Vargas Llosa apresenta a sua versão da ‘tortuosa mente humana’, criando proximidade entre a personagem e o leitor. Neste caso, a personagem é um flagrante expoente da mente tortuosa.

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Ao longo do capítulo VIII do livro, o ditador Trujillo lida com diferentes assuntos e distintos subordinados, saltitando entre assuntos ‘de Estado’, susceptibilidades, apetites ou doenças, permitindo ao leitor acompanha-lo sem filtros. E, nesse processo ‘mental’, o leitor assiste ao diálogo de Trujillo com figuras do topo da hierarquia do Estado e das Forças Armadas, ao mesmo tempo que lhe segue os pensamentos, conhece suas intenções e partilha suas críticas a respeito deste ou daquele indivíduo.

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Inevitavelmente, o leitor acaba por também partilhar o juízo daquele a respeito de seus interlocutores e de outros, reconhecendo a deprimente constatação de que todos estes ‘homens fortes’ sempre se rodeiam de pessoas fracas, que desprezam e humilham com gosto.

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A ilação é evidente para qualquer pessoa, mas compete ao leitor o salto lógico: o autor recusa-se a fazer esse trabalho. Por respeito à inteligência do leitor? Provavelmente. E por respeito à ‘verdade’ da personagem, suponho eu.

A arte de dizer algo escrevendo o seu contrário

Tal como Camilo, Eça é um escritor com extenso rol de personagens que lhe servem para retratar a sociedade do seu tempo, colocando em evidência ‘taras’ nacionais como a hipocrisia religiosa, a falta de instrução e de cultura, a ausência de ética dos cargos públicos, o obscurantismo militante de instituições e poderes, etc.

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Ao contrário de Camilo, Eça prefere a ironia refinada para desenvolver o próprio enredo, a ponto de não só não fazer afirmações explícitas de condenação ou reserva relativamente aos actos e pensamentos das personagens, como até os louvar ou justificar, se nos ficarmos por uma leitura estritamente literal.

A ironia é um exercício exigente para o escrevinhador, por implicar domínio dos sentidos e, obviamente, humor. Mas também o é para o leitor, como se pode perceber por muitas reacções no dia-a-dia a este propósito.

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-Está a chegar uma mensagem!
-ZDRZDRPA OOG GREP ZOW PFLARP
-…Chefe,penso que estão a contar anedotas de peidos!
-Finalmente! Uma inteligência que rivaliza com a nossa! 

Por vezes, Eça recorre à narração duma cena banal, em contexto extraordinário para o leitor: o contraste entre os comportamentos e ditos das personagens, eventualmente normais, e o seu estatuto social, profissional ou outro, basta para afirmar (sem o dizer) o propósito da obra (a denúncia de tal ou tal coisa), apelando ao bom senso e humor dos seus leitores.

Outras vezes, desenvolve cenas ou diálogos ridículos e divertidos, pondo uma personagem a dizer ou a fazer coisas, que ela própria desvaloriza ou crítica ao narrar a história.

Em ambas as situações, Eça evita tomar uma posição (ao contrário de Camilo, que reforça o sarcasmo com comentários directos), dando ao leitor a obrigação de ‘descodificar’. As personagens têm liberdade para se exprimir, para se justificar, mas são traídas pelo contexto ou por elas próprias assumirem suas intenções menos dignas.

O que não quer dizer que sejam mais autênticas do que as personagens camilianas. Camilo mais depressa deixa a sua personagem exprimir-se, apesar de, imediatamente depois ou ainda antes de esta falar, já estar a adjectivá-la, a censurá-la, ou a divagar a esse respeito; enquanto Eça cria uma encenação, usa um nível de conversação ou obtém efeitos de linguagem que colocam as personagens atrás duma lente que amplia ou foca de acordo com os propósitos do autor, poupando a este uma intervenção directa e moralizadora.

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Em ambos os casos, são dois expoentes máximos da Literatura, justamente famosos pelas técnicas de narrativa e caracterização.

Camilo dizia a respeito do que escrevia: ‘Sejamos francos. A gente faz romances sujos porque a sociedade nos pede a história contemporânea. Não partimos de uma renovação da Moral; emergimos de um lodaçal de inveterados vícios.’ (in Boémia do Espírito)

Eça, à sua maneira, diz ao que vem criticando a literatura contemporânea:

Nada estuda, nada explica; não pinta caracteres, não desenha temperamentos, não analisa paixões. Não tem psicologia, nem acção. Júlia pálida, casada com António gordo, atira as algemas conjugais à cabeça do esposo, e desmaia liricamente nos braços de Artur, desgrenhado e macilento. Para maior comoção do leitor sensível e para desculpa da esposa infiel, António trabalha, o que é uma vergonha burguesa, e Artur é vadio, o que é uma glória romântica. E é sobre este drama de lupanar que as mulheres honestas estão derramando as lágrimas da sua sensibilidade desde 1851. O autor, ordinariamente, tem o hábito de Sant’Iago. O editor tem a perda. O leitor tem o tédio. – Santa distribuição do trabalho!

De resto, quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da fazenda. (in prólogo d’ As Farpas)

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A verdade relativa

Tal como se pode apreciar alguém pelo modo como trata os outros, inclusive os animais, o modo como o autor lida com as suas personagens diz tudo sobre o respeito que lhes tem e à inteligência do leitor.

Porém, o ponto de vista que proponho aqui não é pacífico: a autonomia da personagem em relação ao seu autor tem consequências e, eventualmente, pode não passar duma ilusão.

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Por outro lado, a qualidade literária duma obra não é, necessariamente, prejudicada ou salva pela autenticidade das suas personagens. Conforme repito ao longo destes posts, quase obsessivamente: vale tudo, em literatura. E nada é certo.

Mas como é estimulante ler e deparar-me com uma personagem familiar, ou seja, cujo estereótipo é bem conhecido e faz parte da minha mundividência, para ser, de seguida, surpreendido pelo modo como o autor lhe dá espaço para se afirmar e diferenciar, ainda que dentro do enquadramento geral do estereótipo.

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A este propósito referi, anteriormente, o tratamento dado na Ilíada aos dois heróis das duas partes em confronto na Guerra de Tróia:

-Aquiles, o arquétipo do Grande Guerreiro, um semi-deus capaz de prodígios em combate, amua e, por isso, deixa de cumprir suas obrigações para com os companheiros de armas, só voltando a assumi-las quando é atingido pessoalmente e é tomado pelo desejo de vingança, desrespeitando depois códigos de honra e de conduta elementares.

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-Heitor, um grande guerreiro que manifesta toda a sua humanidade ao exprimir o imenso amor pela mulher e pelos filhos, ao mesmo tempo que vive a responsabilidade de comandar um exército, de enfrentar o inimigo em campo de batalha e, assim, garantir a defesa da sua cidade.

Se o propósito de Homero é colocar o estereótipo do Grande Guerreiro em questão, levando-nos a reflectir sobre o valor destes dois modelos em confronto, não o faz dizendo explicitamente qual é o seu favorito, nem colocando o odioso encima de Aquiles. Este tem, aliás, oportunidade para se justificar recorrendo à argumentação que qualquer guerreiro da época poderia entender e partilhar.

E quando Aquiles exprime, em lágrimas e com raiva, suas próprias debilidades, torna-se autêntico, humano demasiado humano, sujeito a ser julgado nos seus actos e intenções, mas também a ser entendido e, eventualmente, a ver mitigado o juízo mais severo.

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O autor não se pronuncia, relata os ‘factos’, deixa às personagens a responsabilidade de se afirmar e justificar.

Ao leitor caberá o juízo. Jamais definitivo.

Contaminar pela escrita

Uma “habilidade” do bom texto é o de equilibrar a composição ao não exceder as proporções do acessório em relação ao essencial, o que significa que devo definir o tema central e tudo o mais gira à volta, valorizando-o. Isso tem implicações óbvias no número de palavras que dedico a cada um dos “acessórios”.

Se o objectivo é falar duma tal região, com seus monumentos, gentes, povoações e paisagens, segundo o itinerário que o autor se impôs, com acidentes de percurso e anedotas incluídos, faz todo o sentido que partilhemos o gosto, as preferências e o olhar de quem vagueia por estes caminhos.

O relato não é não tem de ser uma ficha técnica: há uma motivação particular, uma expectativa inicial, o desenrolar dum programa e, finalmente, a conclusão que pode ser a desejada, e que normalmente fica aquém disso. Por vezes sofre sérias desilusões e irritações.

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Partilhar tudo isso pode ser interessante e suficientemente motivador para o próprio leitor desejar empreender idêntica peregrinação.  Contaminar o leitor com a inquietação e o desejo, haverá maior medida de sucesso para o autor?

As “informações didácticas” são perfeitamente pertinentes, quando esclarecedoras e necessárias à explicação do plano da viagem, à descrição visual, ao entendimento de usos e costumes locais. Sem pretensões enciclopédicas, nem “cópia-e-cola” dum artigo da wikipédia. Nem medo de tratar com profundidade aquilo que não se desvela com uma incipiente abordagem.

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Pessoalmente, motivam-me todas as informações, mais ou menos eruditas, que abram horizontes, sugiram outras pistas de leitura, seduzindo-me a partilhar o universo das paixões do autor. E não se trata só do texto: um bom trabalho de fotografia pode ilustrar brilhantemente o que duas ou três linhas (ou todo um capítulo) pretende dizer ou sugerir.

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A iWine app é uma aplicação para “connoisseurs”
-Este é um excelente Merlot!

Daí que o género “livro de viagens” tanto seja um desafio ao leitor, como uma aventura para o autor.

Tautologias

Volta e meia surge a notícia de alguma grande editora ter recusado a publicação duma determinada obra por razões de falta de qualidade, muito reduzida perspectiva de vir a ganhar leitores, falta de oportunidade editorial, ou outra dessas razões que qualquer autor já recebeu por escrito após envio da cópia dum livro acabado de concluir.

Se é notícia, é porque o livro recusado é, nem mais, nem menos, uma qualquer obra-prima da literatura, sob disfarce de um outro título e autoria. E o que o autor da brincadeira pretende demonstrar é a falta de seriedade e profissionalismo das editoras.

-Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?

“Rosas azuis?Violetas vermelhas? Enlouqueceste?!”

Mas também revela a sensibilidade destas para o gosto dominante do público leitor. Aí, talvez as editoras não estejam tão enganadas assim: muitas das obras que o público aprende a venerar, e até aprecia genuinamente, só merecem essa atenção porque o autor já é um autor consagrado. E o fetichismo dos leitores pelos prémios literários e/ou pelos “best sellers” não deixa dúvidas a esse respeito.

Ou seja: os bons autores são os que têm fama de o ser e os títulos que se vendem melhor são os que têm mais procura.

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Felizmente, bons novos autores vão surgindo, mesmo que misturados num número imensamente maior de novos autores medíocres. A ecologia da literatura nunca foi um Jardim do Éden, e a proliferação de novos títulos/autores com a publicação em formato digital e para a net, não irá favorecer a qualidade da escrita ou apurar o gosto pela leitura.

Nem se espere do obscuro escriba deste blog a solução para o eterno problema da quadratura do círculo.

O fôlego da poesia

“Seria possível escrever Os Lusíadas numa fórmula small is beautiful?” perguntam-me com alguma maldade.

A resposta é óbvia: Os Lusíadas é tão pequeno quanto foi possível ao autor “encaixar” nos dez cantos a História de Portugal (desde Viriato), a narrativa da viagem de Gama à Índia, “dissertar” de modo erudito e elegante sobre a Cultura e a Ciência europeias, produzir uma reflexão crítica sobre a “opção” de desenvolvimento que eram os Descobrimentos, fazer recomendações ao próprio rei enquanto lhe cravava uma pensão por mérito literário…Não sei, outro qualquer precisaria de escrever muito mais e, certamente, não melhoraria em nada a obra.

A questão pertinente, a meu ver, será: é possível, ainda, ler um livro de poesia com uma narrativa e dimensão desta natureza (e não me refiro a epopeias, métricas complicadas e coisas mitológicas)? Gonçalo Tavares, recentemente, atreveu-se a escrever um livro assim (Uma Viagem à Índia, ed.Caminho).

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“As colinas distantes”
As colinas distantes chamam por mim
Suas ondas rolando seduzem meu coração
Oh, como anseio pastar nos seus vales luxuriantes.
Oh, como desejo correr pelas suas encostas verdes.
Ai de mim que não posso!
Maldita cerca eléctrica!
Maldita cerca eléctrica!”
Obrigado.

Ainda há quem consiga ler um livro genial?

As dificuldades da leitura do Grande Sertão: Veredas são o paradoxo da própria expressão artística: a originalidade da escrita “exige” entrega do leitor, sua dedicação (tempo e qualidade de leitura), para se “deixar levar” na corrente do discurso do narrador e do seu peculiar modo de se exprimir.

Hagar

(clicar encima para ampliar)

Em forma de monólogo (como n’ O Malhadinhas), o personagem central da história conta a sua vida, dirigindo-se a alguém a quem chama “doutor”, de outra condição social e estranho ao mundo do Sertão, muitos anos depois dos acontecimentos narrados.

Mas a narrativa de Riobaldo não é linear, frequentemente interrompida por reflexões a que se sucedem relatos episódicos da vida. O recurso dos neologismos, das onomatopeias, de palavras do português antigo, do imaginário sertanejo (fortemente devedor do imaginário europeu medieval), de frases construídas ao arrepio da boa lógica ou gramática, ultrapassam os limites da expressividade a que qualquer linguagem restringe as emoções, permitindo assim ao leitor penetrar no sentido profundo da narração.

Um dos aspectos mais interessantes do Grande Sertão: Veredas está, precisamente, em ser uma obra a todos os títulos original, tributária duma longa tradição literária, a começar pelos romances medievais, reflectindo a origem e a evolução da Língua Portuguesa no modo como constrói frases e vocábulos.

A história vai ganhando ritmo, desenvolvendo um eixo (a vida de jagunço e, desta, a vingança contra o inimigo Hermógenes) onde giram, com igual significado para o narrador e para a narração, temas recorrentes que atormentam Riobaldo: o amor por Otacília (que virá a ser sua mulher), o amor secreto por Diadorim (seu amigo cangaceiro), o Demo (que teima em  se convencer que não existe) e o pacto que celebraram ambos (mas que não sabe ao certo se aconteceu) em determinado lugar (que veio a saber depois que não existe).

Acima de tudo, porque tudo o mais ganha novo sentido com a revelação, o segredo imenso que Diadorim trazia consigo e que Riobaldo só vem a descobrir tarde de mais. Aqui, a narrativa assume uma dimensão trágica, ainda para mais associada ao tema faustiano da venda da alma ao Diabo.

Sua originalidade assenta, entre outros aspectos, no modo aparentemente caótico da narrativa (o narrador facilmente perde o fio à meada e frequentemente se afunda nas suas angústias) associado à peculiar linguagem e expressividade do narrador (poética, ritmada, hesitante, pontuada de interrogações), onde nem o próprio, por vezes, tem a certeza de dizer a verdade do que viu.

Infelizmente, toda esta riqueza torna a leitura problemática, de difícil acesso ao leitor, principalmente quando não está habituado a ter de “lidar” com estruturas fora do comum e ter de ser ele próprio a retirar o sentido duma frase que, à letra, nada ou pouco diz. Ou a ter de completar entreditos, perceber alusões.

Bem diversa da narrativa literária onde a ausência da ambiguidade, o contraste marcado (entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, etc), a utilização do vocabulário corrente, uma construção com principio, meio e fim, personagens tipificados desde o início, a opção por um tema que, por mais exótico que seja aparentemente, se reduz às mesmas problemáticas do dia-a-dia do leitor, tornam a leitura fácil e a “mensagem” compreensível.

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Registar a oralidade no texto escrito

Apesar do escrúpulo do autor em apresentar O Malhadinhas como um “longo monólogo [que] é menos um registo do som que um registo psicológico” (nota preliminar da edição de 1958), desde as primeiras linhas até ao fim do livro o leitor é arrastado pelo coloquialismo da narração, rico em expressões proverbiais e idiomáticas que sustentam a continuação do trecho citado acima: “Reproduzir a linguagem dum rústico, já não digo com fidelidade mas artifício, redundaria num árduo e incompensável lavor literário. O que se cometeu foi filtrá-la, mais na substância do que na forma, com o cuidado, por conseguinte, de poupar ao oiro verbal as suas pepitas preciosas.”

Ao escritor não basta o ouvido familiarizado com a linguagem oral, regionalismos, calão, etc, como muitas vezes apreciamos em espontâneos contadores de histórias e anedotas. O filtro da linguagem, “mais na substância do que na forma”, permite explorar as dimensões humanas e literárias dos personagens e dos enredos que, de outro modo, teriam de ser sacrificadas em prol dum “naturalismo” que se pretende fiel à realidade retratada, nem por isso mais verídico.

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Assumindo esta opção, Aquilino coloca um aldeão sem grande instrução (ver nota 1), velhote e esperto, a entreter um grupo de homens de outra condição (ver nota 2) com a história de sua vida, oportunidade para o autor explorar tópicos de um país rural e beirão (ver nota 3), onde a coragem física (ver nota 4), a violência de macho (ver nota 5), o penhor da palavra (ver nota 6), se misturam com artes de navalha (ver nota 7) e jogo do pau (ver nota 8), manhas de feirante (ver nota 9), língua afiada (nota 10) e uma devoção popular que ultrapassa os limites da religião instituída (ver nota 11).

Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço”

Não é preciso que tenham rodado “dois carros de anos” sobre o cadáver do escritor (ou projecto de escritor) contemporâneo para poder ter tido a grata experiência de ouvir algum velhote rural ou urbano, falar com um estilo semelhante e a mesma riqueza vocabular, associados ao raciocínio inteligente ou à meditação filosófica.

Porém, para o leitor do sec.XXI  o resultado é algo estranho num primeiro tempo: a realidade descrita e a linguagem usada, juntamente com a técnica narrativa, parece dum tempo tão longínquo quanto o do protagonista do Lazarilho de Tormes (ver nota 12), cuja 1ª edição é do sec.XVI. Mas se o Portugal rural na 2ª década do sec.XX estava mais próximo dessa realidade do que da actual, Aquilino Ribeiro é uma autor intemporal que se revela na escrita, propiciando o diálogo com o leitor.

E uma das características da boa literatura é o apelo a reler, premiando o leitor com novos sentidos, novas descobertas. E o que já se sabia, ainda sabe melhor.

Choro pela minha vida de almocreve, e dessem-me hoje o machinho, tornassem-me as minhas pernas e a boa disposição, com dias grandes ou noites sem fim, não se furtava o filho de meu pai a recomeçar o fadário por Franças e Araganças. Mas ao tempo o meu pensar era outro (…). E a vida lá vai…ligeira como uma galga doida, esparvada. Já noutro diaço julguei que era chegada a minha hora. (in O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro, 1922)

O Processo

Os personagens acabarão por surgir impondo a sua presença e exigindo atenção, assim o processo narrativo se desenvolva. Este processo pode ser conduzido por um narrador-personagem ou por um narrador omnisciente e impessoal, mas também pode dispensá-los e desenvolver-se num “efeito caleidoscópio”, dando expressão a diferentes “vozes”, que são outras tantas perspectivas parciais cujo somatório é o “trabalho” do leitor. Esta é uma área vocacionada para a criação e a sensibilidade, que na esmagadora maioria das vezes é tratada de modo banal e previsível.

Para quem não está familiarizado com o processo de escrita extensa dum livro, o mais óbvio é seguir o impulso de se dedicar ao tema/enredo num jogo criativo que poderá misturar ficção com realidade, sem se comprometer com matérias que possam distrair do propósito do livro.

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A malha

Pode não haver enredo? Ou seja, não ter história, narração, sequência? Depende do sentido que se queira dar às palavras, mas a ausência dum enredo pressupõe o quê? Na verdade, o enredo é uma malha que o tempo e as palavras formam, sendo assim, impossível de lhe escapar.

A variedade de malhas possíveis para tecer o enredo (cuja etimologia já implica a ideia da tecelagem) é grande, podendo ser aqui um dos desafios que o autor coloca a si mesmo e ao leitor. Leia o resto deste artigo »

Escritores e Leitores

Se fosse cozinheiro e tivesse de escolher “o” ingrediente para temperar a comida, escolheria a “paixão”. Não exagero quando digo que gosto ler de tudo, pois já me caíram nas mãos pequenos manuais, livros insignificantes, brochuras, onde se fala das coisas mais inverosímeis, da criação de roedores de estimação à aplicação de determinado imposto, suas taxas, isenções e inevitáveis coimas.

Na esmagadora maioria dos casos, se me intriga a existência de quem os escreva, fico abismado com o interesse de quem os procura, paga para leva-los para casa e dedica horas na sua leitura, por vezes de modo obsessivo.

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