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tópicos e dicas para escrita

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A palavra, o texto e a escrita

Não tenho como evitá-lo, logo insisto: ler é fundamental.

(…) publicavam-se inúmeros romances de conversa de anatomia social, cavavam-se galerias sob a arte de bem redigir, para apresentar a plebe com seus calões e os seus vícios de linguagem. (…), fazia-se um autor dum pequeno aventureiro que começava a despertar para as experiências (…). (1)

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Quando o bom leitor (e já adiantei o que entendo por isto aqui e ali, com as devidas ressalvas) se torna escrevinhador, os resultados podem ser catastróficos. Mas mais facilmente acontece o mesmo ao mau leitor ou não-leitor, como se pode rapidamente confirmar nos escaparates das livrarias das grandes superfícies ou dos postos de correios.

O nosso primeiro movimento, para ajuizar do valor de um livro, ou de um homem, ou de uma música, é perguntar-nos: “Sabe caminhar? Melhor ainda: sabe dançar?” (2)

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Só posso crer num deus que saiba dançar!

As vantagens da boa leitura para a escrita podiam limitar-se à percepção do valor daquilo que é escrito pelo próprio e já bastava. Felizmente, há mais do que isso.

—Ora pois, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter?

—Não consentiremos de maneira nenhuma.

—Logo, deveremos começar por vigiar os autores de fábulas, e seleccionar as que forem boas, e proscrever as más. (3)

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Porém, a sensibilidade ao valor da palavra e à sua tecelagem, seja em forma oral, seja por escrito, é algo que não se limita à leitura e exige, até, bom ouvido e alguma reacção epidérmica. Ou seja, tem qualquer coisa de musical e a poesia é a sua formulação mais óbvia, tradicional. Independentemente do que é dito, o modo como é dito é o que nos interessa aqui. Formalismo? Sim, claro e, todavia, não. Rotundamente não.

Depois fiz muitas cantigas, de dança e de rua/ para judias e mouras e para namoradeiras,/ para tocar em instrumentos melodias conhecidas:/ o cantar que não sabes, escuta-o às cantadeiras./ Cantares fiz alguns, daqueles que dizem os cegos/ e para estudantes que andam nas noitadas, (…) (4)

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A construção do texto não é arbitrária, como dolorosamente constatei nos compêndios de gramática dos meus anos de escola, e é por demais evidente quando se lê coisas escritas por escrevinhadores que pecam por não ler e, pior ainda, por não ter ouvido. Pois muito analfabeto foi responsável pela elaboração de textos literários excepcionais, principalmente em sociedades onde a produção escrita era inexistente ou quase.

“A tinta de escrever é um líquido com que a gente suja os dedos quando vai fazer a lição. (…) e uma coisa que eu não sei é como um vidrinho de tinta tão pequeno pode ter tanto erro de Português.” (5)

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Quando se passa da oralidade à escrita, tudo é evidente: os erros tornam-se flagrantes, a dissonância indisfarçável.

O nosso professor de francês nasceu no Minho e, até em francês, trocava os vvvvvvv por bbbbbbb. (6)

'I can't read this, you must write more clearly.' - 'If I did that, you'd see all my spelling mistakes.'

‘Não consigo ler isto, tem de escrever de modo mais claro.’ – ‘Se o fizesse, ia notar todos os meus erros de ortografia!’

Daí que a escrita exija tempo e prática regular, não dispensando a leitura dos textos bons (principalmente) e de todos os outros (para perceber as diferenças). Com o tempo, o escrevinhador (-leitor) percebe intuitivamente que existem vários modos de dizer te amo ou que a adjectivação pode ser como a cor de certas gravatas amarelas. A prática, essa, poderá levá-lo a aprender com os erros e a resistir à tentação de ir ao encontro do que julga ser o gosto dominante, sem cair no facilitismo da ‘originalidade’.

Amor, Amor, um hábito talhei para mim/ do vosso pano, vestindo-me o espírito;/ no vestir, muito largo o senti,/ e bastante apertado, quando sobre mim se ajustou. (7)

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Com a idade e a experiência do mundo, o escrevinhador talvez venha a decifrar o esfíngico enigma: vale tudo e nada é garantido. Literariamente falando, é claro.

Deixa dizer-te os lindos versos raros/ Que foram feitos para te endoidecer! (8)

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(1) in A Muralha de Agustina Bessa Luís, ed.Guimarães Editores

(2) in A Gaia Ciência §366 de Frederico Nietzsche, trad.Alfredo Margarido ed.Guimarães & Cª

(3) in A República de Platão, trad.Mª Helena da Rocha Pereira ed.Fundação Calouste Gulbenkian

(4) in Libro de Buen Amor do Arcipreste de Hita, org.José Luis Girón Alconchel, ed.Castalia

(5) in Conpozissõis Infãtis de Millôr Fernandes, ed.nordica

(6) in Calçada do Sol de José Gomes Ferreira, ed.Moraes

(7) ‘LXXVII’ in Poesies de Ausiàs March, ed.Barcino

(8) ‘Os versos que te fiz’ in O Livro de Soror Saudade-Poesia Completa de Florbela Espanca, ed.Bertrand

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O remate final e o que se lhe segue

O final de um poema ou de uma estória pode ser problemático para o escrevinhador, realmente: a dificuldade em ‘chegar’ ao fim, em estruturar a composição de modo a lhe dar conclusão. É que, muitas vezes, uma boa ideia surge como fragmento de algo maior e difícil de entrever, muito mais ainda de desenvolver e de expressar. E de lhe dar o remate adequado.

El instante que pasa ocupa todo el tiempo.

No hay final ni principio:

sólo el todo y nada equidistando

(‘Didáctica’ de J.M. Caballero Bonald in Diario de Argónida, Obra Poética Completa ed.Austral)

Túmulo do escritor desconhecido

Túmulo do escritor desconhecido

 

Mas pode acontecer o exacto oposto: a narrativa, ou o poema, tem um final aberto que permite progredir facilmente. Na ausência de um prazo para entrega do original para publicação, o escrevinhador prossegue indefinidamente, sem sentir perca de qualidade ou perturbação no equilíbrio original do enredo.

"Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má."

“Aparentemente, demasiado duma coisa boa pode ser uma coisa má.”

As sequelas de que se falava no post anterior têm, quantas vezes, origem nessa impossibilidade de dar um ‘fim’. Não que este não pudesse ser dado páginas atrás, mas precisamente por haver uma pulsão das personagens ou do próprio contexto em prosseguir.

Assim como a leitura se torna compulsiva, obcecando o leitor a continuar com sacrifício do tempo para dormir, e depois lhe dá aquela tristeza por chegar ao final, também o escrevinhador pode entusiasmar-se a ponto de não conseguir parar. E se o fizer, sofre o mesmo vazio que o leitor sente ao interromper a leitura que lhe dava tanto prazer.

“Bem sei, bem sei que te seria difícil  terminar o teu ensaio-narrativa (posso chamar-lhe assim, um ensaio-narrativa?) se te não trouxesse eu uns últimos esclarecimentos. Pois ouve, que vou continuar…”

(in Os paradoxos do bem de José Régio, incluído na colectânea O vestido cor de fogo e outras histórias, ed.Verbo)

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Ainda tenho muitas coisas para dizer!

Donde vem este entusiasmo criativo, ‘localizado’ numa obra em particular e incapaz de se alargar a outros projectos? Creio que se trata duma feliz combinação entre a louca da casa, que se liberta dos estreitos limites do quotidiano, com a bela musa, seduzida pela ideia e pelo discurso (escrito, claro), às quais se juntam as personagens dotadas de voz própria, de capacidade de escolha, decisão e acção.

Isso e mais o contexto em que as personagens vivem e actuam, contexto flutuando conforme as variáveis que o determinam. Tudo isso e mais, ainda, o tempo (ou os tempos) que determinam o ritmo e a sequência dos acontecimentos.

Garantia porém a quem folheia—o tema é de passagem, de passionar, passar paixão e o tom é compaixão, é compartido com paixão.

(‘Terceira Carta I’ in Novas cartas portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, ed. Moraes)

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A leitora de romances, de Antoine Wertz

A que se pode acrescentar ainda uma dimensão trágica, que não tem aqui o sentido de ‘desgraça’ geralmente usado, mas de conflito seguido dum qualquer tipo de desfecho que está para além dos desejos e da vontade das personagens (fatalidade, mistério). O qual, a partir do sec.XX, se pode caracterizar por um não-desfecho, uma indefinição (incerteza, imponderabilidade), ou seja, um final incaracterístico, não-intuitivo, e nem por isso inverosímil.

Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. (…) Assim eu te escrevo para te demorares um pouco.

(in cartas a Sandra de Virgílio Ferreira, ed.Bertrand)

Ou, simplesmente, nada disto: o texto prossegue alegremente repetindo o esquema inicial adicionando episódios que exploram as características das personagens e das suas circunstâncias de modo previsível. Se o escrevinhador está contente, o editor feliz e os leitores maravilhados, é uma receita de sucesso.

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Sobre o exercício do pulso e outros requesitos

Se já escrever bem, literariamente falando, é ofício exigente, mais complicado fica se o escrevinhador não for um bom leitor.

A aprendizagem do ofício começa pelos livros a ler, de preferência cedo na vida. Graças à leitura, o escrevinhador poderá se tornar um razoável crítico da própria produção escrita, para além de toda a inspiração e confrontação que as obras alheias proporcionam.

"Estou experimentando uma nova técnica de ensino este semestre. Estou a usar livros."

“Estou experimentando uma nova técnica de ensino este semestre. Estou a usar livros!”

A mente crítica, de que falava alguns posts mais atrás, não se resume aos escritos, os próprios e os alheios, mas ao mundo que o escrevinhador vive, observa, relata. Também não se trata de emitir juízos, tomar partido, defender causas ou apontar o dedo ao que esteja mal, embora também  possa ser.

Com mais ou menos ingenuidade, o escrevinhador torna-se mais interessante quando desenvolve perspectivas, assumidas ou não, e fá-lo de modo a proporcionar a quem lê algum tipo de comparação, análise, empatia.

Moça com livro, pintura de Almeida Júnior, século XIX

Moça com livro, pintura de Almeida Júnior, século XIX

Para isso, o olhar do escrevinhador, ingénuo ou não, tem de ser perspicaz, qualidade que permite extrair algo mais do que aparentemente está ali. Talvez o consiga fazer quando o texto autoriza mais do que uma leitura ou quando o leitor, ao reler, pode retirar novos significados, novas relações.

Sentido crítico e perspicácia existem entre analfabetos, assim como existe muito ‘letrado’ a quem faltam ambas. O escrevinhador pode ser beneficiado, como prejudicado, pelo meio em que foi criado, daí a leitura actuar como uma libertação às condicionantes culturais e, geralmente, ameaçar a ordem estabelecida que não queira ser posta em causa.

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Mas para ter o ‘pulso exercitado’, ao escrevinhador não surgem alternativas a redigir uma e outra vez os textos, procurando melhorar a formulação, ajustar a ideia à letra, a gramática à sonoridade, o vocabulário à personagem, ao leitor e ao propósito, a sintaxe ao ritmo e ao enredo.

Nada do que atrás é dito sai naturalmente, excepto quando já há muitas leituras feitas e bastantes textos escritos—lidos e escritos com mente crítica, através dum olhar perspicaz. Este é o exercício do pulso de que falava.

E chega? Não, não chega. Além de tudo isto, e conforme neste e noutros posts insisto, o escrevinhador ainda tem de arranjar tempo para viver uma vida e seduzir a bela musa.

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Questões de estilo

Uma das marcas típicas do tempo que passa é o modo como o escrevinhador se exprime. Chamemos ‘estilo’ então, para simplificar.

Por exemplo: estilo (ou falta dele) no uso da linguagem.

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Textos que reflectem um universo de referências literárias anacrónicas, como se as leituras tivessem parado a partir duma certa idade e deixassem de evoluir, sem se enriquecerem com outras referências. Pedantes ou simplórios utilizando um fraseado de cartão, palavras em desuso e esdrúxulas, numa teia de ideias feitas.

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Ou textos que desesperam por ser ‘actuais’, pretendendo usar fórmulas igualmente estereotipadas do que se julga ser a linguagem comum, do dia-a-dia, de certos meios, de alguma gente, de toda a gente. Tipificando em excesso, negando à personagem autonomia.

E a necessidade comum em moralizar, apontar o dedo, dando por adquiridos valores, dicotomias, verdades. Mesmo que seja num registo em negativo, invertendo as regras, supostamente escandaloso.

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Em qualquer dos casos o escrevinhador precisa urgentemente de escancarar a janela e descobrir horizontes, abrir a porta e correr mundo, descobrir leituras de outras latitudes, viver um outro tempo, experimentar outras dimensões. Ah, sim!…a metáfora da viagem.

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-Não sei, Gary…eles não são digitais. Parece que estamos numa região do mundo por revelar.

Mas o problema, a meu ver, está em se aperceber desse estado incipiente, imaturo…onde o espelho para reflectir a imagem crítica? Onde o crítico para oferecer uma avaliação discutível? Onde o impulso criador para não se conformar?

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-De acordo com os resultados do teste não tem nenhuma desordem de personalidade anti-social. O que revelou é que você é somente um parvalhão.

Escrever, ler, reler, reescrever

O escrevinhador devia acompanhar a sua actividade com um permanente exercício de reflexão sobre os mistérios da leitura e dessa estranha, ignota, criatura que é o leitor. Afinal, toda a escrita deveria supor um leitor,não?! Poderá até o escrevinhador começar por se questionar a si mesmo: quantos livros irá reler ao longo da vida? Porquê esses e não qualquer dos outros?

"Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido"

“Meu Deus, por um instante tudo pareceu fazer sentido!”

 

E que importância tem isto para o escrevinhador?

Mas com tanto livro por ler e tão pouco tempo para ler, não será caso para perguntar: o que leva alguém a repetir a leitura uma, duas, n vezes?

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Para complicar, acrescento ainda que, por vezes, a segunda leitura não coincide com a primeira. Outras vezes,confirma-a. Tem vezes que nem chega a ser concluída por falta de interesse.

O que leva a outra questão, perturbante e quase fantasmagórica: pode o texto mudar, no interior dum livro fechado e alinhado numa fileira da estante onde outros livros foram arrumados?

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Sei o que pensas sobre isto’, disse Tweedledum: ‘Mas não é assim, de modo algum.’

‘Pelo contrário’, prosseguiu Tweedkedee, ‘se fosse assim, podia ser assim; e sendo assim, seria assim: mas como não é assim, não é assim. É lógico.’ (Through the looking-glass de Lewis Carrol)

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A ter em conta, quando escrever…

"Queridos Mãe e Pai. Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade de me tornar uma escritora."

“Queridos Mãe e Pai: Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade que tivesse de me tornar uma escritora.”

Três tópicos para abordar a escrita de não-ficção: explicar, temperar e vaguear. Juntos ou em separado:

– a pessoa que se propõe escrever tem algo para dizer a propósito de alguma coisa, então convém que se explique ao que vai, como vai, porque vai, e outras minudências que podem incluir ainda o “porquê” ele, autor, a escrever sobre tal ou tais coisas;

– o modo como lida com o tema e outros temas que traga a propósito, o tom e o ritmo como aborda temas e como os relaciona, passando duns para outros, até à (in)conclusão final;

– a objectividade no tratamento dos temas, avançando para uma conclusão anunciada desde o início ou que o enredo vai construindo. Em qualquer dos casos acumulando factos, desenvolvendo raciocínios, citando testemunhos, estudos;

– ou a descarada subjectividade de quem fala seriamente em alhos, jamais esquecendo a importância dos bugalhos, estabelecendo afinidades, antagonismos, relacionamentos, cumplicidades, que tanto podem estar subjacentes à realidade de uns e de outros, como podem depender (quase) exclusivamente da sensibilidade de quem escreve.

Conta a experiência de vida do autor? Como não poderia contar? Para o melhor, ou para o pior, a experiência de vida de cada autor está presente de modo indelével. Até para aqueles autores moralistas, celibatários e castos, que escrevem longamente sobre as virtudes (e os perigos, claro) do amor conjugal, da vida sexual a dois, da educação da prole e outros temas assim.

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E conta, claro, a inevitável cultura, seja académica, seja bibliográfica, seja pelo convívio com outras criaturas da mesma espécie, humana ou outra. Dito de outra maneira: é preciso aprender, é preciso ler, é preciso debater. Sem dúvida, viver plenamente a vida ajuda muito. Mas isso leva a outras discussões, a começar logo pela própria pertinência e sentido desse “viver plenamente”.

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Não se trata aqui de apresentar receitas, sempre insisto em lembrar, mas de sugerir que a escrita goza duma extraordinária liberdade formal, se bem que não isente o seu autor das consequências.

Não importando agora falar das leis contra a difamação ou para proteção da moral e dos bons costumes, nada, nem ninguém, livra o autor da asneira sem o rigoroso trabalho de investigação a desenvolver pelo próprio, temperado pelo exercício saudável e profilático da autocrítica. E, mesmo assim…

Infinitos livros: mais leitores, menos leitura

Uma citação, uma alusão, uma referência, cruciais para a fruição do livro, seja um diálogo, seja uma situação, podem passar completamente ao lado, perdendo-se emoção, ironia ou o próprio sentido.

O paradoxo é o seguinte: hoje há imensamente mais gente a ler livros, na esmagadora maioria dos casos lendo pouco e não lendo livros “fundamentais”; ainda há 50 anos, eram relativamente poucos os que liam, mas tinham, em geral, a noção dos livros que era importante ler, partilhando entre si a informação sobre um universo reduzido de títulos e autores (comparativamente, claro) e que já eram partilhados pelas gerações cultas anteriores.

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Tempos livres e perda de tempo

Ao longo da segunda metade do sec.XX, o livro cedeu terreno à televisão na ocupação dos tempos livres em casa.

Hoje, a situação é ainda mais desfavorável: muito do que se lê é sugerido pelo visionamento dum filme ou pela expectativa criada no final de temporada duma série de culto.

O resultado torna-se caricato, como seja a referência à versão em filme para se falar do enredo, originalmente escrito e de muito maior complexidade. Pior ainda: a importância dada a temas que são intensamente desenvolvidos há séculos, pelas mais variadas formas de expressão artística, mas dos quais muita gente só toma conhecimento, pela primeira vez, quando da publicação dum livro de terceira categoria ou do visionamento dum filme banal.

E o tema, tal como o enredo, as fontes, os personagens, a encenação, ou são clichés, ou são duma vulgaridade atroz.

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Bagagem literária

Ninguém surge do nada: quando tomamos a opção de nos dedicar à escrita, de modo mais ou menos sério, já estamos condicionados pela nossa história de vida.

Se alguém tem a felicidade de ser criado entre bibliotecas familiares (pais, tios, avós), as leituras surgem espontaneamente. De outro modo hão-de surgir mais tarde, talvez mais direccionadas para certos temas.

O importante é a tomada de consciência do processo (a formação duma “bagagem” literária), o apurar da sensibilidade, a curiosidade e, já o disse, a paixão.

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Ler bem para escrever razoavelmente

Ler, indiscutivelmente, apura o sentido da escrita. Porque a escrita exige conhecimento e prática, não há como evitá-lo.

Claro que se pode publicar o primeiro livro e ser logo bem recebido pela crítica e pelo público, mas isso nada diz dos anos de leituras e de escrita antes da publicação.

Podem-se citar mãos cheias de livros bem escritos, de autores sem preparação académica, sem ambiente familiar propício à leitura, ao estudo e à escrita, e que até falam de modo algo limitado, mas isso só reforça a ideia do excelente trabalho editorial que está na sua base.

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Ler significa alguma coisa?

Sejamos claros: ler, por si mesmo, não significa cultura, conhecimento, sensibilidade, ou qualquer manifestação de abertura e curiosidade para o mundo.

Se passar a vida a ler o mesmo livro, e não estou perdido no oceano, isolado numa ilha deserta, que diz esse “hábito” de leitura a meu respeito? Que sou um cretino? Provavelmente. E que leio aquele livro por achar que contém tudo o que preciso para levar uma vida correcta e, ao mesmo tempo, me garanta algo melhor para depois da vida acabar.

Se dedicar a minha vida adulta a ler livros por razões profissionais, lamentando não ter tempo para os outros, continuo a ser um cretino? Com toda a certeza.

Se os livros que li forem aqueles da infância-adolescência (e poucos, se calhar), parte deles os que fui forçado a ler ao longo do percurso escolar, faz isso de mim um cretino? Rigorosamente, sim.

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Ainda haverá lugar para um cânone?

Não vai tão longe o tempo em que se ambicionava ler o “essencial” da literatura, constituindo-se cânones para o efeito. Com o alargamento da literatura para lá do Ocidente, com a proliferação de livros e autores no sec.XX e XXI, a tarefa torna-se inexequível.

Mas porque é importante ler? Ler o quê? Que benefício se pode retirar da leitura? Pode parecer estúpido, mas estas questões são antigas e as respostas são mais contrastadas do que parece à primeira vista. O pior, mesmo, é que mantêm a pertinência de sempre: nada é mais evidente do que o benefício da leitura, porém, lê-se pouco, quase nada.

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A (i)materialidade da escrita

Descendo ao nível que me proponho falar da escrita, citei a frase “ler é fundamental”.

Nem ler, nem escrever, são actos naturais e espontâneos como a linguagem: exigem, tal como ela, aprendizagem. Mas, ao contrário dela, não são necessários para a sociedade humana prosperar.

Através da linguagem, o humano passa do reino da natureza para o cultural; da linguagem à escrita-leitura, a palavra ganha materialidade, permanecendo mesmo depois de todas as vozes se calarem. Daí o medo gerado no início duma era em que a palavra se torna, cada vez mais, uma realidade virtual, desaparecendo com a falta de energia duma bateria ou da ligação à internet.

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Paixão não rima com rotina, certeza ou segurança

O que foi dito atrás sobre as paixões não é de grande utilidade para quem escreva ou pretenda fazê-lo. Não porque seja irrelevante, mas por ser daquelas matérias de estudo e reflexão que só ganham sentido se a vida for vivida plenamente. Disso fala extensamente a literatura universal, e acrescenta que se não dermos o passo para fora da casca da rotina, para o exterior da concha de certezas que nos defendem da dúvida, paixão torna-se uma palavra oca.

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Ler é fundamental

A paixão que falo também pode ser tão serena como um koan, alimentando-se dum grãozinho de loucura que desequilibra toda a expectativa, sem trair o propósito do autor.

Por ela, podem se passar anos a trabalhar o texto, polindo da frase a adjectivação e aguçando-a com verbos intransitivos.

Sim, apesar de haver inúmeros exemplos de poetas e narradores analfabetos, para escrever faz diferença conhecer a língua escrita, uma outra forma de dizer que “ler é fundamental”.

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A escrita como sedução

O escritor deve supor o seu leitor, aquilo que têm em comum? Deve preocupar-se com tudo o que consome o tempo dedicado à leitura,distraindo o leitor para outras actividades?

Deverá, pelo contrário, escrever o que realmente lhe dá na gana (ver nota 1), sem pudor (ver nota 2), sem consideração para as modas (ver nota 3)?

O sossego tão avesso aos hábitos dominantes, em casa ou fora de casa, em férias ou nos tempos livres, é um luxo que o bom, o exigente leitor, cada vez mais preza. Também por isso, dá por mal empregue o tempo perdido à volta de um livro medíocre.

Escrever deve supor um acto de sedução (escrevo para que me leiam), com o vagar necessário, mas sem abusar da paciência.

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