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A palavra, o texto e a escrita

Não tenho como evitá-lo, logo insisto: ler é fundamental.

(…) publicavam-se inúmeros romances de conversa de anatomia social, cavavam-se galerias sob a arte de bem redigir, para apresentar a plebe com seus calões e os seus vícios de linguagem. (…), fazia-se um autor dum pequeno aventureiro que começava a despertar para as experiências (…). (1)

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Quando o bom leitor (e já adiantei o que entendo por isto aqui e ali, com as devidas ressalvas) se torna escrevinhador, os resultados podem ser catastróficos. Mas mais facilmente acontece o mesmo ao mau leitor ou não-leitor, como se pode rapidamente confirmar nos escaparates das livrarias das grandes superfícies ou dos postos de correios.

O nosso primeiro movimento, para ajuizar do valor de um livro, ou de um homem, ou de uma música, é perguntar-nos: “Sabe caminhar? Melhor ainda: sabe dançar?” (2)

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Só posso crer num deus que saiba dançar!

As vantagens da boa leitura para a escrita podiam limitar-se à percepção do valor daquilo que é escrito pelo próprio e já bastava. Felizmente, há mais do que isso.

—Ora pois, havemos de consentir sem mais que as crianças escutem fábulas fabricadas ao acaso por quem calhar, e recolham na sua alma opiniões na sua maior parte contrárias às que, quando crescerem, entendemos que deverão ter?

—Não consentiremos de maneira nenhuma.

—Logo, deveremos começar por vigiar os autores de fábulas, e seleccionar as que forem boas, e proscrever as más. (3)

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Porém, a sensibilidade ao valor da palavra e à sua tecelagem, seja em forma oral, seja por escrito, é algo que não se limita à leitura e exige, até, bom ouvido e alguma reacção epidérmica. Ou seja, tem qualquer coisa de musical e a poesia é a sua formulação mais óbvia, tradicional. Independentemente do que é dito, o modo como é dito é o que nos interessa aqui. Formalismo? Sim, claro e, todavia, não. Rotundamente não.

Depois fiz muitas cantigas, de dança e de rua/ para judias e mouras e para namoradeiras,/ para tocar em instrumentos melodias conhecidas:/ o cantar que não sabes, escuta-o às cantadeiras./ Cantares fiz alguns, daqueles que dizem os cegos/ e para estudantes que andam nas noitadas, (…) (4)

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A construção do texto não é arbitrária, como dolorosamente constatei nos compêndios de gramática dos meus anos de escola, e é por demais evidente quando se lê coisas escritas por escrevinhadores que pecam por não ler e, pior ainda, por não ter ouvido. Pois muito analfabeto foi responsável pela elaboração de textos literários excepcionais, principalmente em sociedades onde a produção escrita era inexistente ou quase.

“A tinta de escrever é um líquido com que a gente suja os dedos quando vai fazer a lição. (…) e uma coisa que eu não sei é como um vidrinho de tinta tão pequeno pode ter tanto erro de Português.” (5)

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Quando se passa da oralidade à escrita, tudo é evidente: os erros tornam-se flagrantes, a dissonância indisfarçável.

O nosso professor de francês nasceu no Minho e, até em francês, trocava os vvvvvvv por bbbbbbb. (6)

'I can't read this, you must write more clearly.' - 'If I did that, you'd see all my spelling mistakes.'

‘Não consigo ler isto, tem de escrever de modo mais claro.’ – ‘Se o fizesse, ia notar todos os meus erros de ortografia!’

Daí que a escrita exija tempo e prática regular, não dispensando a leitura dos textos bons (principalmente) e de todos os outros (para perceber as diferenças). Com o tempo, o escrevinhador (-leitor) percebe intuitivamente que existem vários modos de dizer te amo ou que a adjectivação pode ser como a cor de certas gravatas amarelas. A prática, essa, poderá levá-lo a aprender com os erros e a resistir à tentação de ir ao encontro do que julga ser o gosto dominante, sem cair no facilitismo da ‘originalidade’.

Amor, Amor, um hábito talhei para mim/ do vosso pano, vestindo-me o espírito;/ no vestir, muito largo o senti,/ e bastante apertado, quando sobre mim se ajustou. (7)

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Com a idade e a experiência do mundo, o escrevinhador talvez venha a decifrar o esfíngico enigma: vale tudo e nada é garantido. Literariamente falando, é claro.

Deixa dizer-te os lindos versos raros/ Que foram feitos para te endoidecer! (8)

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(1) in A Muralha de Agustina Bessa Luís, ed.Guimarães Editores

(2) in A Gaia Ciência §366 de Frederico Nietzsche, trad.Alfredo Margarido ed.Guimarães & Cª

(3) in A República de Platão, trad.Mª Helena da Rocha Pereira ed.Fundação Calouste Gulbenkian

(4) in Libro de Buen Amor do Arcipreste de Hita, org.José Luis Girón Alconchel, ed.Castalia

(5) in Conpozissõis Infãtis de Millôr Fernandes, ed.nordica

(6) in Calçada do Sol de José Gomes Ferreira, ed.Moraes

(7) ‘LXXVII’ in Poesies de Ausiàs March, ed.Barcino

(8) ‘Os versos que te fiz’ in O Livro de Soror Saudade-Poesia Completa de Florbela Espanca, ed.Bertrand

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Vale a pena escrever?

RESPOSTA: se alguém me puser esta pergunta, minha resposta automática é NÃO, não vale a pena.

Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!/ Se isto não é, porque é que é?/ Se isto não pode ser, então porque pôde ser? (1)

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Esta é a resposta preconceituosa de quem entende que a urgência da escrita se impõe ao escrevinhador, que depois defrontará a terrível, incontornável questão: o que escrevi tem algum valor?—uma questão totalmente diferente, portanto.

Sonho que sou a Poetisa eleita,/ Aquela que diz tudo e tudo sabe,/Que tem a inspiração pura e perfeita,/ Que reúne num verso a imensidade! (2)

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Preconceito que radica, também, na crença de que a dita urgência é um dano colateral à exposição precoce à audição de contos e leituras, às leituras de livros de texto e banda desenhada, ao visionamento de filmes.

O que me dá prazer não é o vinho, não!/ Nem a música, nem o canto./Apenas os livros são o meu encanto/ E a pena: A espada que tenho sempre à mão. (3)

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-A TV está cada vez melhor. -É, acho que é um perda de tempo muito mais produtiva.

Essa exposição (que não tem de ser, na verdade, precoce) não é condição suficiente para responder afirmativamente à segunda questão: a do valor do que se escreveu. Outras formas de expressão podem surgir em alternativa e com outra qualidade; no mínimo, resulta no desenvolvimento duma percepção mais subtil, na sensibilidade à ironia, num grau de exigência maior, coisas assim que fazem de alguém uma pessoa mais interessante.

Eu não soube onde entrara,/ mas, quando ali me vi,/ sem saber onde estava,/ grandes coisas entendi;/ não direi o que senti,/ pois me fiquei sem saber,/ toda a ciência transcendendo. (4)

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Na realidade, porém, existe uma crescente número de pessoas sem qualquer relação afectiva com a leitura e, inclusive, com um domínio deficiente da escrita, determinadas em produzir textos, seja por razões estéticas, sentimentais ou profissionais

(…) o número de homens ignorantes e corajosos/ será maior ou menor que o número de homens corajosos e cultos? // (…) Se o assunto fosse assim tão simples…/ Mas não. (5)

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Como dizer-lhes que não vale a pena serem persistentes e produtivas nessa determinação? Na verdade, nem se colocam a questão de escrever (ou não), mas antes a de escrever como?

Tu que sabes em que recantos das terras invejosas/ O Deus ciumento esconde as pedras preciosas,/ Ó Satã, tem piedade da minha grande miséria! (6)

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Preconceito de lado, a tarefa é ingente mas factível; tudo depende do escrevinhador e do modo como se move no seu labirinto. Mesmo o mais aborrecido dos manuais pode estar organizado com um mínimo de lógica e ter sido escrito numa linguagem clara, duas características que são grandes qualidades e verdadeiros ‘facilitadores’ (palavra horrível muito em uso nas primeiras décadas do sec.XXI) para quem tenha de lidar com assuntos chaaaatos.

A bela e pura palavra Poesia/ Tanto pelos caminhos se arrastou/ Que alta noite a encontrei perdida/ Num bordel onde um morto a assassinou. (7)

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Contudo, ambas qualidades exigem um razoável domínio da matéria a tratar e da sua expressão escrita, qualidades que andam muitas vezes desirmanadas.

(…) E com um mimo que só sabe ter uma ama/ Cobre-me bem, “durma, não cisme”, dá-me um beijo,/ E sai. Finge que sai, ela cuida que eu não vejo,/ Mas fica à porta, à escuta, a ouvir-me falar só,/ E não se vai deitar…/ Onde há, assim, uma Avó? (8)

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Talvez por isso, surgem escritos num tom autobiográfico, meio confessional, meio exploratório, onde se cruzam dados objectivos (estatísticas, história, ciências) com a profunda subjectividade do olhar do escrevinhador, podendo até desenvolver narrativas ficcionadas.

Todo lo que he vivido, todo/ lo que he salvado vigilantemente/ del feroz exterminio de los dias,/ todo cuanto yo fui, hoy os lo ofrezco,/ ojos que seguiréis el rastro de estas letras, /(…) (9)

'When I was young I wanted to be a poet, but we couldn't afford a typewriter.'

‘Quando era novo queria ser poeta, mas não tinhamos dinheiro para comprar uma máquina de escrever!’

À extraordinária liberdade deste processo—ao nível dos factos, das personagens e do enredo— alia-se o tratamento mais ou menos rigoroso de assuntos concretos, reais, observáveis. Combinação que pode resultar numa abordagem refrescante, inspiradora, bem-humorada, poética… ou tudo isso em simultâneo.

Poeta, não, camarada,/ eu sou também cauteleiro;/ ser poeta não dá nada/ vender jogo dá dinheiro (10)

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Para quem não confia na bagagem literária dos seus anos de formação (infância, adolescência), explorar a sensibilidade e o olhar crítico com que a vida o enriqueceu torna-se um valor imenso em qualquer proposta artística. Aproveitando as experiências de vida e as histórias familiares, a escrita pode vencer os escolhos normais da criação literária e compensar certas deficiências com a inspiração genuína, uma perspectiva original, uma tonalidade distinta.

Imaginária menina/ entra em roda imaginária:/—Roseira que dás espinho,/ que dás espinho e dás flor:/ roseira de meu caminho/ dá ciranda aonde eu fôr.//  (…) que se houve espinho houve rosa. (11)

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Pintura de Luz Morais

As boas regras gramaticais e o exercício duma escrita literária acabarão por se incorporar com o tempo, muita prática e aprendizagem. E com uma ajudinha preciosa que pode chegar de modo abrupto e, até, ofensivo. Mas quem disse que escrever vale a pena?

Las cú. Lavitebá, Foscan moldé ca./ Divilanvoris cermalagos cía./ Ar conta latilosde balatía/ ormela banorcali tonzosteca. (12)

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“Concordo consigo: você tem dinamismo, ambição e autoconfiança, mas aquilo que procuramos é a competência.”

(1) ‘A Partida’ in Poesias de Álvaro de Campos, ed.Planeta DeAgostini

(2) ‘Vaidade’ in Livro de Mágoas de Florbela Espanca, ed.Bertrand

(3) de Al-Kutayyr in O meu coração é árabe, colectânea e tradução de poesia luso-árabe de Adalberto Alves, ed.assírio&alvim

(4) ‘Coplas del mismo hechas sobre un éxtasis de alta contemplación’ in Poesias Completas de San Juan de la Cruz, ed.Planeta DeAgostini

(5)  ‘Canto IV’ in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho

(6) ‘Les Litanies de Satan’ in Les Fleurs du Mal de Charles Beaudelaire, ed.Gallimard

(7) ‘A Bela e Pura’ in Mar Novo de Sophia de Mello Breyner Andresen, ed.Caminho (Obra Poética vol.I)

(8) ‘Males de Anto’ in  de António Nobre, ed.A Bela e o Monstro lda

(9) ‘Todo lo que he vivido’ in Las Adivinaziones de J.M. Caballero Bonald, ed.Austral (Somos el tiempo que nos queda obra poética completa 1952-2009)

(10) ‘Ocasionais’ in Este livro que vos deixo… de António Aleixo, ed.Vitalino Martins Aleixo

(11) ‘Rosa da Roda’ in Rapsódica de Stella Leonardos, ed.Orfeu

(12) ‘las cu la vi te ba fos can mol de ca’ in A Saga/Fuga de J.B. de Gonzalo Torrente Ballester, ed. Dom Quixote

Génio e engenho

Escrevinhar supostamente tem um propósito, o qual é difícil de entender quando se lê certos textos, certos livros. Estou a pensar naquela escrita que é a mera expressão duma urgência sentimental, nostálgica ou narcisística (apesar de tanta boa obra começar com impulsos urgentes): na melhor das hipóteses produz um vómito literário.

A revista do Porto Gente Moça não tem por onde se lhe queira pegar. No emtanto não é desagradavel de folheal-a. O caso é não a lêr. (…) Mas como literatura aquilo é tão nada que o melhor seria dizer sobre ele, calando-nos, tanto quanto ele vale. Para dizer alguma cousa porém note-se que nesta revista se fazem córtes á materia a publicar, como se fosse num jornal. Cortaram toda a inspiração ao poeta Lebre e Lima para ele poder caber ali. (1)

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos.

A Internet parece-se muito com o Antigo Egipto: as pessoas escrevem em murais e adoram gatos

O leitor mais desprevenido consegue, quase sempre, distinguir a escrita sentimentalóide da escrita propriamente literária, se bem que possa preferir a primeira por razões que têm a ver menos com a escrita do que com a pornografia das emoções.

(…) e lá dentro/tacteando do corpo/o que do corpo sendo/

é da boca já/e eu não entendo (2)

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Será mais difícil perceber quando um texto razoavelmente escrito e estruturado não passa de um pastelão de frases feitas, ideias estereotipadas, enredo banal e previsível, personagens sem espessura, nem verosimilhança. Muito best-seller (os mauzinhos dirão ser a maioria) é assim construído: a aplicação de fórmulas, ritmos e imagens que prendem a atenção do leitor preguiçoso ou aborrecido.

Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho e no justo amor do bacalhau de cebolada. (3)

 

 

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Mesmo que exista um grande mistério, ainda que aconteçam coisas extraordinárias, podendo até aparecer personagens verdadeiras (quer dizer, que são pessoas da História desta ou doutra época), não há garantia de que o enredo assente numa boa ideia resulte.

Há uma receita vulgar para produzir o riso: toma-se, por exemplo, um personagem augusto.; puxa-se-lhe a língua até ao umbigo; estiram-se-lhe as orelhas numa extensão asinina; rasga-se-lhe a boca até à nuca; põe-se-lhe a um chapéu de bicos de papel; bate-se o tambor e chama-se o público. Mau método, meu caro! (4)

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Ideias e emoções são excelentes combustíveis literários e, como qualquer fonte de energia, se não forem recicladas deixam resíduos tóxicos: essa é a função da revisão crítica que todo o escrevinhador deve insistir após a fase criativa, depurando ou, mesmo, refazendo o trabalho feito.

Dispenso-o da sintaxe, da prosódia, da etimologia, dispenso-o até da ortografia, mas não o isento de vestir luvas quando escrever. Não imagina a influência das luvas nas duas mãos do escritor, ou nas quatro, conforme a sua espécie, como se diz no Génesis. (5)

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Ilustração de Eva Vásquez

 

Com génio e/ou por engenho, muito escrevinhador consegue ir mais além da urgência e compor uma peça literária. O texto reflecte o génio (refiro-me à bela Musa, bem entendido) que inspira e seduz ou, pelo menos, o texto revela o eficiente processo de planificação e execução, com um razoável domínio dos materiais literários, de que nunca é demais lembrar que só se obtêm com boas leituras e melhores práticas de escrita.

Somos contos contando contos, nada (6)

 

Mas não é verdade que sem originalidade, sem inspiração, nem sedução, é possível escrever com eficácia e sucesso comercial? É verdade, mas aí já estamos a sair do domínio da criação literária, limite auto-imposto pelo escrevinhador deste blog.

Há tão pouca coisa boa,/ tanta má por boa escrita,/ que quando o bem se apregoa/ quase ninguém acredita (7)

 

(1) Fernando Pessoa em recessão crítica publicada na revista ‘A Galera’ (nº5-6) in Apreciações Literárias-Bosquejos e Esquemas Literários ed.Estante

(2) ‘Língua’ de Maria Teresa Horta

(3) Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins in Correspondência, org. G. de Castilho, ed.Imprensa Nacional (citado por MªJoão Pires na Revista Línguas e Literaturas nº XIX, 2002)

(4) Carta de Eça de Queirós a Joaquim de Araújo in Crónicas e Cartas selecção de J.Bigotte Chorão ed.Verbo

(5) ‘Modelo de Polémica à Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed.Lello & Irmão

(6) ‘Nada fica de nada’ de Ricardo Reis  in Odes

(7) in Este Livro que vos deixo… de António Aleixo edição de Vitalino Martins Aleixo

 

Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

Os favores do público e os da bela Musa

Que os hábitos de leitura estejam a mudar, não é novidade. Na verdade, estão sempre a mudar desde os últimos quatro mil e tal anos, pelo menos. A novidade talvez seja a velocidade com que mudam… e que importância tem isso para o trabalho do escrevinhador?

Nenhum dos meus companheiros do jornal acreditou que eu regressaria; não acreditou sequer o director, que se despediu de mim com grande ternura e pediu que lhe escrevesse. Fingi emocionar-me também, mas a verdade é que estava desejando tomar o comboio daquela noite, chegando a Madrid na manhã do dia seguinte, onde veria a Rosinha, que me estaria esperando. Mas esse é outro cantar. (1)

Nos países mais avançados as crianças nasciam com aplicativos para telemóveis.

Nos países mais avançados as crianças nasciam com uma aplicação para telemóveis…

Depende das opções de vida que este pretenda assumir: ser um escrevinhador com sucesso e obra lida, ter uma ocupação profissional na escrita, escrevinhar por prazer, paixão ou obsessão, ou escrevinhar para ‘vomitar’, para descarregar a tensão. Tudo isto à vez, por partes, enfim…

Considerava, talvez nos seus momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra quando não faz muito calor, e essa ideia causava-lhe alguma confusão. Gostava de extraviar-se por ásperos caminhos metafísicos. (…) No entanto, ele mesmo não se deu conta de se ter tornado tão subtil em seus pensamentos, que fazia pelo menos três anos que em seus momentos de meditação já não pensava em nada. (2)

Não estou aqui para ser DELICADO!

Não estou aqui para ser DELICADO!

Seja como for, este blog não tem pretensões de dar dicas para uma escrita de sucesso, nem mesmo para o mero exercício profissional, e certamente não visa propósitos terapêuticos.

É-se poeta pelo que se afirma ou pelo que se nega, nunca, naturalmente, pelo que se duvida. Isto dizia—não recordo onde—um sábio, ou, para melhor dizer, um savant, que sabia de poetas tanto como nós de capar rãs. (3)

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Se existe uma agenda oculta ao longo da série de posts aqui publicados, suspeito ser a de incentivar a escrita por prazer e paixão, sim… sem abdicar da exigência crítica, autocrítica, decorrente das opções temáticas, estilísticas e outras. Exigência que não obedece propriamente a um programa, mas à reflexão racional e estética.

Ponho estes seis versos na minha garrafa ao mar/ com o secreto desígnio de que algum dia/ chegue a uma praia deserta/ e um menino a encontre e a destape/ e em lugar de versos extraia pedrinhas/ e socorros e alertas e caracóis. (4)

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Ora, a reflexão racional é aquilo que nos permite falar do trabalho literário, o próprio e o dos outros, de modo construtivo, trocando argumentos, justificando-os e, eventualmente, corrigindo-os ou mudando. Podendo ser estimulante, seminal (para usar uma palavra cara ao gosto de alguns), não é fundamental para o acto criativo da escrita .

Como saber se no momento actual o alfabeto continuava crescendo ou se encontrava já numa etapa de implosão, de regresso às origens? Talvez que nos seus momentos de maior crescimento, seus domínios tenham chegado mais além do  e do Z, formando palavras cujos sons não se podiam imaginar na situação presente. (5)

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Se a reflexão estética beneficia muito da reflexão racional, pelo menos no sentido de não cair num discurso palavroso, descritivo, sentimental, programático ou delirante, em troca vai reforçá-la, se souber exprimir (ou contaminá-la com) o grãozinho de loucura característico da criatividade artística.

Melhor o barco pirata/ que a barca/ dos loucos./ Mais atroz do que isso/ a lua nos meus olhos./ Sei mais do que um homem  / Sei mais do que um homem/ menos do que uma mulher (6)

Credo, Helena... não podes ir para a praia dessa maneira! É obsceno!

Credo, Helena… não podes ir para a praia dessa maneira! É OBSCENO!

É nesse sentido que, por aqui, muito se lamenta a falta do trabalho crítico na apreciação dos trabalhos literários, tanto mais ausente quanto a comunidade de escrevinhadores vai perdendo referências comuns de excelência.

(…) a historia da literatura, como diz o mestre Riquer, não consiste num catálogo de virtuosos, senão numa indagação que pretende chegar à alma do escritor. Estes podem ser ao mesmo tempo uns grandes artistas e uns grandes depravados. (7)

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Sei, por experiência própria, que custa escrevinhar sem ter a expectativa de ser publicado (e lido). Simplesmente, não acredito que escrever na expectativa de agradar aos gostos dominantes da época, traga os favores da bela Musa. E gozar desses favores é o propósito explícito deste blog.

Mas eu sofri-te. Rasguei minhas veias,/ tigre e pomba, sobre tua cintura/ em duelo de mordiscos e açucenas.  /  Enche, pois, de palavras minha loucura/ ou deixa-me viver na minha serena/ noite de alma para sempre escura. (8)

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Mas não haverá meio termo?—perguntará o leitor sensato, apoiando os polegares nos suspensórios da moderação. Claro que há, pacato leitor, claro que há.

A coisa havia chegado ao seu fim e a reunião começou a dissolver-se pouco a pouco. Alguns vizinhos tinham coisas que fazer; outros, menos, pensavam que quem teria coisas a fazer era, provavelmente, o sr. Ibrahim, e outros, que há sempre de tudo , saíram por já estarem cansados de levar uma longa hora de pé. O sr. Gurmesindo Lopes, empregado da Campsa e vizinho da sobreloja C, que era o único presente que não havia falado, ia-se perguntando, à medida que descia, pensativamente, as escadas:—E foi para isto que pedi eu dispensa no escritório? (9)

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A questão, a meu ver, é outra: a de arrasar (para continuar a utilizar terminologia erudita) elevando as expectativas do leitor, exigindo dele tempo e determinação para prosseguir a leitura, não o enganando na sua ignorância, mas desafiando-o a reconhecer nele mesmo os mistérios profundos do que é exposto, seja a medíocre realidade do quotidiano, seja a fantasia épica.

(…) imaginei este enredo, que escreverei talvez e que já de algum modo me justifica, nas tardes inúteis. Faltam pormenores, rectificações, ajustes; há zonas da história que não me foram reveladas ainda; hoje, 3 de Janeiro de 1944, vislumbro-a assim. (10)

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Conseguindo isto, o tal grãozinho da loucura intoxica fatalmente o leitor, transformando-o. E isso é paixão. Ou seja, eflúvios da bela Musa.

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“Eu SABIA que querias, querido… TINHAS de querer!! Sentindo o que sinto por ti… mesmo que seja errado… tinhas de gostar de mim… mesmo que um bocadinho!…”  título do livro: ‘Princípios fundamentais da Matemática’

(1) in Los años indecisos de Gonzalo Torrente Ballester, ed.Planeta

(2) in Un dia despues del Sabado de Gabriel Garcia Marquez, incluído em Los funerales de la Mamá Grande ed.Bruguera

(3) in Juan de Mairena de António Machado ed.Alianza Editorial

(4) in Botella ao mar de Mario Benedetti incluído na Antología poética ed.Alianza Editorial

(5) in El orden alfabético de Juan José Millás ed. Suma de letras

(6) in Haikús I de Leopoldo María Panero incluído em El último hombre, Poesia Completa (1970-2000) ed.Visor Libros

(7) in La voz melodiosa de Montserrat Roig ed.Destino

(8) in El poeta pide a su amor que le escriba de Frederico Garcia Lorca em Sonetos  Poesía Completa ed.Galaxia Gutenberg

(9) in La Colmena de Camilo José Cela ed.Castalia

(10) in Tema del traidor e del héroe de Jorge Luís Borges incluído na Nueva antología personal ed.Bruguera

O bigode da Gioconda

Escrevinhadores excessivamente escrupulosos evitam certas leituras, certos autores, por temor de duvidarem eles mesmos da originalidade dos próprios escritos. Assim, sentem-se de consciência tranquila se surgirem coincidências no enredo, nas personagens, em alguns detalhes da narrativa.

Tenho ao alcance da mão as definições de Elliot, de Arnold e de Sainte-Beuve,  razoáveis e luminosas sem dúvida, e seria me grato estar de acordo com estes ilustres autores, mas não os consultarei. Cumpri setenta e tal anos; na minha idade, as coincidências e as novidades importam menos do que aquilo que se tem por verdadeiro. Limitar-me-ei, pois, a declarar o que sobre este assunto pensei. (1)

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Mesmo na literatura sagrada das mais diferentes religiões existem coincidências, que tanto se devem aos abismos do inconsciente humano quanto ao contrabando de mitos e crenças. Como há-de escapar às influências o simples escrevinhador, se até escribas inspirados pela voz de um anjo-mensageiro ou por um deus omnisciente repetem velhos estereótipos da criação, ascensão e queda da Humanidade?

Ignoramos o sentido do dragão, como ignoramos o sentido do universo, mas algo há na sua imagem que concorda com a imaginação dos homens, e assim o dragão surge em distintas latitudes e idades. (2)

'Ark, Noah - not arc!'

‘Arca, Noé – não um arco!’

Percebo que se evitem certas leituras em dado momento da escrita duma obra, mas duvido da sua eficácia e receio muito pelo que isso implique. Nos últimos vá lá 2500 anos, e de forma cada vez mais avassaladora, é impossível fugir à ‘influência’ —dos temas e outros aspectos da narrativa—  dada a fina malha cultural que entretece o imaginário, a mundividência, nossa memória colectiva.

Suspeito que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve tratar de ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas palavras são sinónimas), não de suas opiniões, que são o mais superficial que há nele. (3)

'It was a last-minute change, but a good one.'

Foi uma mudança de último minuto, mas uma boa mudança. Título do livro: ‘Guerra e Paz e Repolho’

O livro e o ensino, por razões evidentes, expuseram a população mais letrada a uma intensa contaminação de ideias, estórias e fórmulas literárias, mas o imaginário e a mundividência já são bebidos com o leite materno, embalados até adormecer no peito duma qualquer vizinha solícita, escutados com avidez à lareira junto dos mais velhos e assimilados no dia-a-dia entre conhecidos e desconhecidos… ou assim era dantes.

Hoje, a força conjugada dos mass media e da net tornam a influência omnipresente e opressiva, sem disso se ter consciência, e, por isso, sem desenvolver critérios entre o que é ‘original’ e o mero plágio ou estereótipo preguiçoso.

Compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia; estava na invenção de razões para que a poesia fosse admirável (…). (4)

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por aqui falei como uma obra anterior ao sec.V a.C., escrita por um cego grego —que, eventualmente, nem terá existido― pôde influenciar um poeta, guerreiro e zarolho português quinhentista, e um caixeiro-viajante cultural irlandês, que sofria de glaucoma, do sec.XX, os quais, por sua vez, inspiraram, já no sec.XXI, um académico nascido em Angola e que, por alguma razão, usa óculos.

Ou de como, no espaço de duas dezenas de anos, 3 nomes cimeiros da literatura de 3 países diferentes, escrevem sobre o mau comportamento de senhoras muito bem casadas (morrendo todas no final do livro, sujeitas aos comentários depreciativos da parte de outras personagens).

Plágio, em qualquer dos casos, nem pensar. Um insigne académico escreveu sobre a ‘angústia da influência’, e até intitulou o livro, coincidentemente ou não, A angústia da influência.

Como entendemos uma angústia? Sendo angustiados nós mesmos. Todo leitor profundo é um Perguntador Idiota. Pergunta: “Quem escreveu meu poema?” Dai a insistência de Emerson: “Em toda a obra de génio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados — voltam-nos com uma certa majestade alienada.” (…) A crítica é a arte de conhecer os caminhos ocultos que vão de um poema a outro. (5)

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-Não faço plágio… mas gosto do modo como este tipo expressou os meus pensamentos na secção de opinião.

Sem qualquer angústia, o já conhecido escritor argentino Pablo Katchadjian, em 2009, resolveu fazer aquilo a que chamou de ‘experimento literário’: ‘engordou’ (sic) o famoso conto —O Aleph― do ainda mais famoso escritor argentino Jorge Luís Borges, adicionando-lhe mais 5600 palavras às 4000 originais, dando-lhe o sugestivo nome de O Aleph Engordado. A ‘experiência’ parece que foi bem recebida nos meios literários argentinos, a avaliar pelo que pude ler em artigo publicado no El País por Carlos Cué.

Porém, representando os interesses (ou direitos de autor) da viúva de Borges, o advogado Fernando Soto exprimiu uma perspectiva notável: ‘Isto não é um experimento, afecta directamente o direito moral da obra, que foi alterada dolosamente. Queremos que reconheça que é uma ofensa à obra de Borges. É como se alguém pintasse bigodes na Gioconda.’*

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Vai daí, o autor do O Aleph Engordado é levado a tribunal e condenado (apelou, entretanto). Em sua defesa, alega que é ‘óbvio que não se pretende esconder um plágio de forma dolosa, que para isso se pensou a lei. O livro intitula-se El Aleph engordado e no final há uma explicação do trabalho que havia feito. Borges não é um monumento, é um escritor. A história da literatura é uma constante revisão e reflexão sobre a tradição. Borges defendia o plágio e sustentava que toda a literatura está construída uma sobre a outra, é absurdo este processo, é uma novela delirante.’ *

E sustenta que não tocou no original, só acrescentou.

Este factótum, em vez de limitar-se à tarefa específica, delapidou um tempo precioso lendo as sete lucubrações de Vilaseco. Chegou a descobrir que, salvo os títulos, eram exactamente a mesma. Nem uma virgula, nem um ponto e virgula, nem uma só palavra diferente! A descoberta, fruto gratuito do acaso, carece seguramente de importância para uma séria valoração da versátil obra vilasequista e se o mencionamos à última da hora é a título de simples curiosidade. (6)

Isto não é um cachimbo

Isto não é um cachimbo

Ora, eu que não li o ‘engordado’, não vou discutir os méritos da obra. Provavelmente, se Katchadjian não tivesse incluído O Aleph original, a decisão jurídica teria lhe sido favorável.

(…) começa aqui o meu desespero de escritor. Toda a linguagem é uma linguagem de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilham; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que a minha tímida memória mal abarca? (7)

Mas não me interessam as questões jurídicas, agora. O que acho relevante é a ‘tese’ do dr. Fernando Soto, sobre direitos morais das obras, sobre alterações dolosas, sobre ofensas à obra de alguém, sobre bigodes e giocondas. E a ideia de Katchadjian em ‘engordar’ obras alheias.

Gracias (…) pelo facto do poema ser inesgotável/ e se confunde com a soma das criaturas/ e não chegará jamais ao último verso/ e varia segundo os homens (8)

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Sobre o primeiro, assusta-me a argumentação tão propícia ao fanatismo religioso, nacionalista, ideológico, quando se apropria do património cultural (e literário) e passa a assumir o direito de avaliar e condenar qualquer referência, glosa ou sátira. Daí a queimar livros, esfaquear ou balear escrevinhadores e editores, fazer explodir livrarias, não vai um passo assim tão largo, pelo que tenho visto nos dias da minha vida. Mais corriqueiramente, surgem a censura, a autocensura, a apreensão dos livros, as multas e penas de prisão.

Sobre o segundo, saúdo esta tendência saudavelmente infectante, contagiosa, da obra literária (na verdade, da obra de arte em geral), que nos faz redescobrir textos mais antigos e abrir horizontes insuspeitados por detrás daqueles que já conhecíamos.

Schopenhauer, Quincey, Stevenson, Mauthner, Shaw, Chesterton, Léon Bloy, formam o censo heterogéneo dos autores que releio continuamente. Na fantasia cristológica intitulada ‘Três versões de Judas’, creio pressentir a remota influência do último. (9)

Mas o mais saboroso é a ironia extraordinária deste pleito jurídico ter como referência a obra de Borges. O mesmo Borges que, cotejando um fragmento do texto original do Quixote de Cervantes com o texto exactamente igual do Quixote de Menard, fictício autor do sec.XX, descobre-lhe as diferenças nas ideias e nos estilos.

O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico (Mais ambíguo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.) (10)

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* do artigo publicado a 28/06/15 no El País por Carlos Cué

(1) de ‘Sobre los Clásicos’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(2) do ‘Prologo’ in El Libro de los Seres Imaginarios de Jorge Luis Borges (com a colaboração de Margarita Guerreiro) ed.Bruguera Alfaguara

(3) do ‘Prologo’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(4) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(5) in A Angústia da Influencia de Harold Bloom trad.Marcos Santarrita, Imago Ed.

(6) de ‘Ese Polifacético: Vilaseco’ in Cuentos de H.Bustos Domecq de Jorge Luis Borges ed.Seix Barral

(7) d’ ‘O Aleph’ in O Aleph de Jorge Luis Borges  trad.Flávio José Cardoso ed.Estampa

(8) d’ ‘Outro Poema de los Dones’ in Nueva antologia personal de Jorge Luis Borges ed.Bruguera

(9) do ‘Prólogo’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

(10) de ‘Pierre Menard, autor do Quixote’ in Ficções de Jorge Luis Borges trad.José Colaço Barreiros, ed. Público

Escrever como terapia…???

Consultado como uma espécie de autoridade xamânica a propósito das virtudes terapêuticas da escrita —além de ser, também, auscultado regularmente sobre quais leituras recomendaria com objectivos terapêuticos e cívicos, morais(!), etc e tal—, constato como a internet, por mais que se avise (e surgem avisos a todo o tempo!), é o lugar ideal para se ter encontros perigosos. Escudado numa espécie de anonimato, o autor deste blogue não merece dos seus leitores mais do que a leitura e apreciação crítica assente nos conteúdos práticos aqui tratados, e tudo o mais resulta duma projecção ou ilusão do leitor que anda à procura de algo. Algo que, garantidamente, aqui não há.

Escrevendo listas como terapia

“Coisas que me aborrecem.”  Escrevendo listas como terapia

Claro que ler e escrever, como qualquer actividade humana socialmente aceite, têm uma componente terapêutica. E como não haveriam de ter?! Porém, a perspectiva que aqui se procura desenvolver é predominantemente literária. O que, para quem esteja menos familiarizado com o conceito, pode parecer algo de muito válido e construtivo. E é. Assim como todo o seu contrário.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre.

Humoristas vingam-se enviando a anedota mais engraçada de sempre!

Basta considerar a quantidade de livros colocados no Index e outras listas censórias, destruídos em praça pública juntamente com os seus autores e leitores, ou nas vidas miseráveis, alcoólatras, suicidas, de tanto escrevinhador, para perceber que a escrita como terapia não é um conceito evidente.

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Na verdade, em tempos que já lá vão, quando a Literatura era genuinamente apreciada, temida ou vilipendiada, o exercício da escrita (e o da leitura) estava desaconselhado para as classes menos favorecidas,  visto como nada adequado à condição feminina e, em geral, as leis e os costumes condicionavam fortemente os temas e as formas.

'Niña leyendo' (1850) de Franz Eybl.

Provavelmente, a partir do momento em que se tornou mercadoria, a escrita, enquanto livro, ganhou em popularidade com a consequente desvalorização, servindo de veículo para qualquer necessidade de comunicação mais ou menos propagandista ou, meramente, para satisfação lúdica ligeira. Da literatura, quantas vezes, fica-se pela pretensão.

-Os livros de História trazem muitos contos.

-Lê livros de História, trazem muitos contos.

Daí à confusão entre o potencial terapêutico da escrita (Freud recomendava anotar os sonhos) e a criação literária vai um passo, correndo-se o tremendo risco de cair na banalidade das expressões emocionais e sentimentais. E o escrevinhador sente-se aliviado? É possível, pois terá exorcizado seus fantasmas e demónios.

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Porém, ao longo dos tópicos desenvolvidos neste blogue há mais de 2 anos, tem-se privilegiado uma perspectiva distinta, eventualmente oposta: a de que a escrita, como forma de expressão literária, resulta melhor se feita com paixão, em desequilíbrio, procurando seduzir a bela Musa e atrair o leitor para o labirinto peculiar do escrevinhador. Para quem tenha alguma bagagem literária, pode já prever os abismos e monstros que se ocultam nos labirintos…

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Para conseguir tudo isto há que cultivar o salutar grãozinho de loucura. Ora, não poucos venderam a alma ao tabaco, ao álcool ou à cocaína para atingirem estes objectivos. E destes, alguns conseguiram-no, mesmo assim.

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Neste blogue entende-se que ler muito e bem, viver a vida plenamente e criar rotinas, alternando-as com rupturas, além de estar aberto para o mundo (e para o que aí se passa), é todo um processo de motivação que, em caso de não resultar em qualquer obra-prima, tem, pelo menos, a vantagem de fazer do escrevinhador ‘falhado’ melhor pessoa e pessoa mais interessante.

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A ser terapia, a escrita será assim pretexto para se viver uma vida estimulante. Mas nada está garantido, e nem é esse o objectivo da criação literária. Ou, já agora, deste blogue.

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Rever, reescrever, restruturar

Por melhores que sejam as intenções, o escrevinhador que pede a opinião alheia sobre a obra, acabada ou não, raramente encaixa as críticas, mas não tem qualquer problema em escutar elogios. Como resultado, só pode contar com o seu sentido crítico (neste caso autocrítico) para poder corrigir e evoluir.

Feito o inventário dos vícios e das virtudes, reunindo os principais traços das paixões, traçando os personagens, elegendo os acontecimentos primordiais, compondo os tipos por meio da reunião dos rasgos de vários personagens homogéneos, talvez pudesse chegar a escrever a história negligenciada por tantos historiadores: a dos costumes (…) (1)

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Se uns resistem a qualquer sugestão ou reparo crítico, outros confessam a sua incapacidade e desinteresse em alterar seja o que for. O que é compreensível, já que a escrita deixa sequelas, é sujeita a períodos de sofrimento e indecisão, e pode se tornar um imenso alívio ter-lhe dado fim. Por isso é comparável ao trabalho de parto. Indevidamente, porém: na escrita, o parto pode ser prolongado mesmo depois de publicadas várias edições do mesmo livro. E com melhores resultados, muitas vezes.

Instintivamente, a questão põe-se por si mesma: Para quem é isto feito? A quem pode agradar? (…) É dito que é tudo feito a bem da arte, e que a arte é algo de muito importante. (…) (2)

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É neste aspecto que se pode distinguir a escrita catártica da escrita assumidamente literária.

Certas almas manifestam a sua debilidade radical quando não conseguem se interessar por uma coisa se não acreditarem de que ela toda é o que há de melhor do mundo. (3)

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No primeiro caso, o escrevinhador tem necessidade, urgência, pulsão, em botar por escrito ideias que o atormentam, fantasmas do passado, anseios e sonhos falidos ou irrealizados (ou, simplesmente, contar uma estória, compor um poema). No segundo caso, sob a pressão (ou não) de tudo aquilo, o escrevinhador pretende que a escrita seja filtrada por um registo formal (linguístico, narrativo), ou seja, que esteja subordinada a critérios de exigência, peso e medida, para que se torne, creio eu, um prazer para quem lê e para quem escreve.

Negligenciei até agora a questão da forma no escritor naturalista, pois é ela que, precisamente,  singulariza a literatura. Não só o génio, para o escritor, se encontra no sentimento, na ideia a priori, mas também na forma, no estilo. (4)

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Mesmo que aplique filtros, o escrevinhador expõe-se às fórmulas estereotipadas, a desequilíbrios penosos, à ausência de ritmo, densidade e assunto. Que seja capaz de formular uma avaliação crítica sobre o que escreve e de justificar suas opções, resistindo às pressões da crítica alheia, pode ser um acto de resistência, autoconfiança e digno de merecido reconhecimento póstumo. Mas o esforço é sempre exigido por uma questão de simples bom senso.

Do arranjo das palavras adequadas, o que é simultaneamente arabesco e sensual, até à arquitectura da frase elegante e prenhe de sentido, o que é um acto vigoroso do intelecto puro, não há praticamente nenhuma faculdade humana que não seja exercitada. Não nos temos de espantar, portanto, de que frases perfeitas sejam raras, e páginas perfeitas mais raras ainda. (5)

Dama en amarillo escribiendo, Johannes Vermeer.

Ora, esse bom senso é prejudicado, geralmente, por uma imensa fadiga pós-criativa que acomete o escrevinhador ou pela simples indigência auto-suficiente de quem não tem sequer noção das tarefas de revisão que se impõe.

(Se soubesses se soubesses/quão triste a rosa guardada/ entre as páginas/ dos versos) (6)

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Conforme já tenho dito, essa fase não é menos criativa, não é menos estimulante (pessoalmente é a minha preferida) e não necessita recorrer a terceiros (embora sejam muito úteis leituras críticas).

Li o teu livro, Amor, sofregamente;/Li-o, e nele em vão me procurei!/ No teu livro d’amor não me encontrei,/ Tendo lá encontrado toda a gente. (7)

"Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade"

“Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade!”

Também nesta fase se tornam especialmente importantes as leituras com que o escrevinhador tenha alimentado a sua sensibilidade, pois daí lhe poderão ser fornecidos técnicas e recursos valiosos. No fundo, o desafio de ir mais além.

A nossa falta de familiaridade com o que é realmente excelente é a explicação pela qual tantos têm prazer no que é estúpido e insípido, somente por ser novidade. Deveríamos ter o hábito de ouvir, diariamente, alguma canção bonita, ler um bom poema, contemplar um quadro maravilhoso e, se possível, dizer algumas palavras tocantes. (8)

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Quando Clarence e Gilda decidiram trabalhar menos depois dos 50’s e divertirem-se, descobriram que eram, realmente, pessoas extremamente aborrecidas.

 

(1) in ‘Prologue’ à 1ª edição da La Comédie Humaine, de Honoré de Balzac

(2) in O que é a Arte?, de Leo Tolstoi, trad. (do russo para o inglês) Aylmer Maude ed.Thomas Y. Crowell & Co

(3) in Meditaciones, de Ortega y Gasset ed.Publicaciones de la Residencia de Estudiantes

(4) in Le Roman Experimental, de Émile Zola ed.Bibliothèque-Charpentier

(5) in Essays in the Art of Writing, de Robert L.Steveson ed.Chatto & Windus

(6) in ‘Capa’ Rapsódica de Stella Leonardos ed. Orfeu

(7)  in ‘O teu Livro’ Livro do Nosso Amor, de Florbela Espanca ed.Bertrand

(8) in A Aprendizagem e as Viagens de Wilhelm Meister de Johann W. Goethe, trad.Thomas Carlyle The Project Gutemberg eBooks

 

Ir além

A autocrítica é entendida como esforço de aperfeiçoamento, um ‘ir além’ que o tempo-que-passa e a exposição dos textos tendem a estimular, sinal de maturidade e de vigor criativo. A qualidade da escrita ressente-se da falta de sentido crítico e autocrítico do escrevinhador (que também é, não o consigo imaginar de outro modo, um leitor).

‘Pai, Mãe,’ disse a sua irmã, batendo sobre a mesa com a mão como introdução, ‘não podemos continuar assim. Talvez não consigam perceber, mas eu consigo. Não quero chamar este monstro de meu irmão, tudo o que digo é isto: temos de tentar e livrar-nos disto. Tentamos tudo o que é humanamente possível para cuidar daquilo e ser paciente, penso que ninguém nos pode acusar de fazer algo errado.’ (1)

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Aplicações disponíveis no Facebook (esquerda)
Aplicações úteis no Facebook (direita)

Para o principiante o exercício autocrítico é mais penoso, menos óbvio, provavelmente mais urgente. Assim, a bagagem literária, a curiosidade pelo processo como outros escrevinhadores desenvolvem os mesmos temas, a sensibilidade ao modo como as pessoas comunicam, reflectem, actuam, lêem, são algumas ferramentas de trabalho que permitem avaliar a própria escrita.

Entretanto, Xerazad dizia à sua irmã Dunyazad: “Mandarei-te chamar quando estiver no palácio, e assim que chegues e vejas que o rei tenha terminado o seu assunto comigo, me dirás: ‘Irmã, conta alguma estória maravilhosa que nos faça passar a noite’. Então contarei contos que, se Deus quiser, serão a causa da libertação das filhas dos muçulmanos’ (2)

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Na prosa e na poesia, o escrevinhador constrói os textos de modo faseado, tanto na forma como no tempo, mesmo que sinta ter escrito tudo de rajada. Em alguma dessas fases o escrevinhador deve assumir qual é a sua pretensão formal, ou seja, como pretende exprimir algo de modo ‘original’. Essa pretensão tem menos a ver com o tema do que com a perspectiva, o tom, o ritmo, o nível de linguagem, entre outros aspectos que lhe pareçam significativos no material escrito.

Nietzsche é, na esteira dos pré-socráticos que tão caros lhe foram, o filósofo em cujos escritos se fundem a especulação abstracta, a poesia e a música. (3)

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Querido YOUTUBE, eu vou sempre ‘saltar a publicidade’

O mais estereotipado desfecho pode ser escrito pela enésima vez e surpreender…—como assim?! O assassino é o mordomo? Aparece o príncipe encantado —ou a cavalaria— mesmo antes do final da estória? Não sei, ninguém sabe, nem mesmo o escrevinhador quando cria. Mas, lendo e relendo com menos emoção e mais sentido crítico, talvez uns concluam que a surpresa está na diferença como se aborda o tema, no modo distinto como o desenvolve, pelas perplexidades que sugere ou expõe e que transcendem o género.

(…) é que os contos, uns têm graça por si mesmos, outros pelo modo de contá-los (quero dizer que alguns há que, ainda que se contem sem preâmbulos e ornamentos de palavras, satisfazem); outros há que é necessário vesti-los de palavras, e com demonstrações de rostro e de mãos, e com mudar a voz, resultando algo de muito pouco, e de frouxos e descoloridos se tornam penetrantes e saborosos (4)

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A estafada polémica da ‘originalidade’ é sempre produtiva quando posta em contexto, um problema tanto maior quando começa a ser difícil encontrar denominadores comuns entre leitores (complexa noção matemática aqui empregue no sentido de leituras comuns).

O verso branco para o elisabetano era novidade tão excitante quanto o ‘close-up’ num filme de Griffith, e ambos são muito semelhantes pela intensidade de ampliação e pelo não-exagero de sentimento que permitem. Mesmo Whitman, arrebatado pela nova intensidade visual do jornal do seu tempo, nada encontrou de maior capacidade de repercussão para o seu grito bárbaro do que os versos brancos. (5)

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-Sabes me dizer como chegar, como chegar à rua Sésamo? -Não, não sei. É um lugar de fantasia. Ninguém pode ir lá.

Sem esses comuns denominadores, fica complicado para o escrevinhador entender ou fazer entender toda uma tradição que povoa a literatura de mitos, dramas palacianos ou abismos da alma. Se ele não entende e reproduz, acrítica e inconscientemente, velhas estórias e bem conhecidas intrigas, cai no ridículo, no estereótipo e pode, inclusivamente, ser um sucesso de vendas. Se as entende e recria, corre o risco de ser um criador original sem ser entendido, permanecendo na obscuridade.

O originário, no homem, (…) indica sem cessar e numa proliferação sempre renovada que as coisas começaram muito antes que ele  (6)

Excepto este sacrifício, o resto é simbólico.

“Excepto este sacrifício, o resto é bastante simbólico.

Nada é garantido, na verdade, mas há elevada probabilidade de se ficar na medíocre obscuridade. O que, na verdade, tanto deriva dum mero cálculo estatístico como da natureza criativa.

Escrevo estas linhas.Parece impossível/ Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!/(…)/ Se ao menos eu por fora fosse tão/ Interessante como sou por dentro! (7)

Ilustración para El castillo, de Luis Scafati

imagem de Luis Scafati

(1) in Metamorfose de Franz Kafka, da trad.inglesa de David Wylli Project Gutenberg eBook
(2) in El libro de las mil noches y una noche, da trad. Joseph Charles Mardrus/Vicente Blasco Ibáñez Project Gutenberg eBook
(3) in A Poesia do Pensamento de George Steiner, trad.Miguel Serras Pereira ed.Relógio D'Água
(4) in Cipión y Berganza o El coloquio de los perros de Miguel de Cervantes
(5) in A galáxia de Gutenberg de Marshall McLuhan trad.Leónidas G.Carvalho/Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional
(6) in Las Palabras y las cosas  de Michel Foucault, da trad.Elsa C.Frost ed.Planeta
Agostini
(7) in Opiário de Álvaro de Campos

O uso da palavra

Para o escrevinhador, a importância da palavra deve ser bem medida, e não tanto pelo valor intrínseco, mas pelo de troca. É verdade que a palavra tem a história da sua formação e genealogia, assim como a do seu uso e evolução no tempo e no espaço, que é aquilo que, à falta de melhor, chamo de valor intrínseco. Mas o escrevinhador não tem de ser erudito, nem tem de supor a erudição dos leitores. O que tem, creio eu, é de conhecer o valor dado aqui e agora à palavra e que é o que chamo o seu valor de troca.

(…) a troca, por sua vez, cria valor. E isso de duas maneiras. Primeiramente torna úteis coisas que sem ela seriam de utilidade fraca ou talvez nula: que pode valer um diamante para os homens que têm fome ou necessidade de se vestir? Basta, porém, que exista no mundo uma mulher a quem se deseja agradar e um comércio suscetível de trazê-la às suas mãos, para que a pedra  se torne “riqueza indireta para seu proprietário que dela não precisa (…) daí a importância do luxo, daí o fato de haver diferença do ponto de vista das riquezas, entre necessidade, comodidade e prazer. Por outro lado, a troca faz nascer um novo tipo de valor, que é “apreciativo”: organiza entre as utilidades uma relação recíproca, que duplica a relação com a simples necessidade. (1)

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Este valor de troca é o dado no momento. Recordo, quando tinha cinco, seis anos, meu Avô ralhar-me por chamar ‘chato’ a alguém ou alguma coisa, o que me deixou bastante perplexo porque sua filha, minha Mãe, não só tolerava o uso desta palavra como a usava sem reservas. Muito mais tarde, nos primeiros anos da adolescência, percebi que as razões da aversão do meu Avô—inequivocamente na base do sentido depreciativo dado à palavra—já não eram percebidas quando usadas entre pessoas das gerações seguintes. Ou, se eram, só mesmo por adolescentes, ainda fascinados com a polissemia e subentendidos que as palavras banais podem ter. Na verdade, todos sabemos que um chato incomoda, mas dificilmente encontramos alguém que nos irrite tanto que dê coceira.

O ‘diz-me com quem andas que eu te direi quem és’ não quer dizer nada. Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas. (2)

-OH NÃO... ELES NÃO...

-Oh não… Eles não…

O ‘sentido comum’ dado aqui e agora é aquele que, com quase toda a probabilidade, o leitor dará à palavra. Não levar isso em linha de conta gera problemas de comunicação, prejudicando a leitura e provocando críticas como a de texto confuso, difícil ou pedante. Ou tudo isso à vez. O que não impede que o escrevinhador possa explorar o tal valor intrínseco (bem pelo contrário, como adiante tentarei explicar), não por pretensões eruditas (pelo menos, no caso da escrita poética ou de ficção), mas por outras: a de levar a interpretação do texto para diferentes níveis de entendimento, seja pela polissemia, seja pela ambiguidade, ou, até mesmo, pela sonoridade. Importante é que seja disso ciente, para não falhar o efeito pretendido.

(…) o romance popular não inventa situações narrativas originais, mas combina um reportório de situações ‘tópicas’ conhecidas, amadas pelo próprio público (…).  (…) a catarse, por razões comerciais, deve ser optimista. (3)

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O uso de ‘palavras caras’ tanto pode servir para mascarar o vazio do discurso (senão mesmo a sua falsidade), como ser sintoma da dificuldade do escrevinhador em lidar com o tema. A comunicação na era de massificação, em que o número de receptores (leitores, ouvintes, espectadores) contam-se pelos milhões (e muitos milhões), tem demonstrado como o uso deliberado da linguagem ‘técnica’, ‘erudita’, ou outras variantes de um jargão acessível a ‘especialistas’, pode iludir e manipular, assim como o seu uso irreflectido ou mal calculado pode se virar contra o comunicador.

Uma descrição que parece neutra mostra o que tem de tendencioso quando se lhe pode opor uma descrição diferente (…). (4)

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-O que é mais obsceno: a violência ou os mamilos?
‘LIBERDADE PARA OS MAMILOS’ (desenho de María Acha-Kutsher)

Na vida académica e na área das ciências tem havido alguma literatura dedicada a desmontar discursos, expondo a sua vacuidade por detrás de formulações verdadeiramente incompreensíveis. Que não são outra coisa senão variantes do famoso conto do ‘rei vai nu’.

O fazedor de dinheiro não é a personalidade mais palatável, mas é muito preferível ao pretenso intelectual. (5)

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“Sim, o planeta foi destruído. Mas durante um maravilhoso período de tempo criamos uma quantidade de valor para os accionistas.”

Daí que, numa época em que ‘o livro’ se está tornando um objecto incómodo, em que a comunicação escrita sofre amputações e próteses aberrantes, em que o próprio discurso oral é ameaçado pela vacuidade dos formatos convencionados para debate e exposição de ideias, seja importante que o escrevinhador consiga fascinar o leitor ajudando-o a descobrir o valor intrínseco da palavra. Na verdade, ao fazê-lo, limita-se a prolongar uma longa tradição anterior à própria escrita, mas fá-lo num tempo em que essa tradição está ameaçada pela própria parafernália técnica que era suposto contribuir para uma dinâmica cultural incomparavelmente mais rica do que a de todas as épocas anteriores.

A habilidade do artista em sair da frente do choque violento da nova tecnologia de qualquer época e evitar tamanha violência com absoluta consciência, vem de há muito tempo. (6)

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Para os não-Iniciados, a palavra escrita ou oral pode ter um valor misterioso pelo grafismo e sonoridade, dando realce à simbologia ou à magia. Mas para os Iniciados como nós, meros leitores e escrevinhadores, sabemos bem como esse valor é uma moeda sujeita a flutuações e o mistério reside, exclusivamente, nos favores da bela Musa. Nesse aspecto, creio que nada de significativo tem mudado nos últimos quatro mil anos.

(…) sob a sua forma mais alta, a invenção literária ensina-nos a enriquecer, a complexificar, de um ponto de vista heurístico, os confins da habitação comum que não nos damos ao trabalho de reconhecer. Abre janelas através das quais nos convida a ver um terreno novo, novas fontes de luz. Narra histórias através das quais ouvimos a voz da nossa identidade privada e comum. (7)

Ilustração de Fernando Vicente

Ilustração de Fernando Vicente

Há palavras que caíram em completo desuso, tal como o discurso que as suporta, e há outras que evoluíram, alterando significados conforme a geografia e a comunidade de falantes. A usura do Tempo e as transações culturais têm esse efeito natural e inevitável. A diferença da época actual em relação às anteriores (há 40 como há 400 anos), é que o processo tem sido muitíssimo mais rápido, associado à fragmentação da comunidade de falantes no interior das próprias gerações e no mesmo espaço social. Isto tudo, e muito mais (que não cabe a este humilde escrevinhador desenvolver aqui), dificulta obviamente a comunicação, mais ainda se for comunicação escrita com pretensões literárias.

A intensidade da agitação em torno da ortografia é apenas um índice da novidade que representava a palavra impressa, e dos seus efeitos centralizantes quanto à conformidade. (…) É de presumir ser impossível praticar um erro de gramática numa sociedade não-alfabetizada (…) a diferença entre a ordem oral e a visual é que cria as confusões entre o que é e o que não é gramaticalmente correcto. (8)

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

-Joãozinho, dá-me um exemplo duma frase usando a pontuação correcta.

Por isso, insisto: é importante o escrevinhador preocupar-se em ‘chegar’ a todos esses potenciais leitores desconhecidos de modo a fazer-se entender e, principalmente, a seduzi-los com palavras (e, neste ponto do post, o leitor já poderá perceber que ‘palavra’, aqui, também se entende por ‘tecido de palavras’ ou ‘texto’), levando-os a procurar mais além da superfície, imediatez, uso comum… para lá do valor de troca, portanto. E quando o leitor começa a saber distinguir as pérolas da simples fancaria, é porque já reconhece o valor intrínseco das coisas. Como as palavras.

As palavras com que tens convivido/ durante tanto tempo, continuam/ servindo-te para algo? Poderás valer-te delas/ quando os antídotos/ contra a tua própria decepção/ já se esgotaram? (9)

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(1)in As Palavras e as Coisas de Michel Foucault, trad.Salma T.Muchail ed.Martins Fontes

(2) in Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr de Millôr Fernandes, ed.Nórdica

(3) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed. Tascabili Bompiani

(4) in O Império Retórico de Chaïm Perelman, trad.Fernando Trindade e Rui A.Grácio, ed.ASA

(5) in Closing of the American Mind de Allan Bloom, ed. Simon and Schuster Paperbacks

(6) in Understanding Media de Marshall McLuhan, ed.A Mentor Book

(7) in Gramáticas da Criação de George Steiner, trad. Miguel Serras Pereira ed.Relógio d’Água

(8) in A Galáxia de Gutemberg de Marshall McLuhan, trad.Leónidas G.Carvalho e Anísio Teixeira ed.Companhia Editora Nacional

(9) in Bordes del Silencio La noche no tiene paredes de J.M. Caballero Bonald, Obras Completas ed.Austral

Poetando

A poesia é um objecto esquisito, difícil de enquadrar, mesmo socorrendo-nos das dezenas de dúzias de definições que têm sido propostas ao longo dos séculos. Contudo, é com facilidade que se reconhece estarmos perante um texto poético. Como se houvesse uma química textual com cor, odor e propriedades moleculares distintivas.

"Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices."

“Não precisas de sacrificar a boa gramática para dizer ordinarices.”

Se bem que muita escrita literária pretensamente poética possa causar engulhos e rejeição por parte de quem a lê, recusando-lhe o estatuto de ‘poesia’. O que também pode ser um acto deliberado do suposto poeta, assumindo-se contra as convenções dominantes do gosto e da criação, reivindicando poesia muito para além das fronteiras impostas.

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Debate sobre Poesia

O escrevinhador possuído pela bela musa não se preocupa tanto com as polémicas, deixando a construção do verso seguir livremente a inspiração, provavelmente atrás de certa musicalidade, procurando imagens e palavras de sentido variável ou emoções obscuras, sem mesmo se preocupar com rimas, métricas ou o próprio sentido do texto. A urgência de escrever torna-se inquietante, incómoda até, pela sua urgência.

'Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois' NOITE DE POESIA

‘Rosas são vermelhas/Violetas são azuis/e um mais um/deveria ser igual a dois…’ NOITE DE POESIA -o poeta dos contabilistas L.R.Quilcby

Como já calcula o habitual leitor destes posts, direi que se o escrevinhador age assim, então age bem: sempre vai a tempo, num momento posterior, de cuidar dos aspectos formais, da adequação do que é dito com o pretendido, etc e tal. A sonoridade e o ritmo são características muito difíceis de aprender, excepto se ler muito, se escrever bastante ou ter os favores das musas. Mas até nisso torna-se complicado distinguir um bom texto poético de um bom texto de prosa, inclusivamente com fins didácticos (científicos, filosóficos e outros).

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Talvez que a experiência de escrever o poema seja um dos aspectos centrais e característicos da poesia, o que parece um argumento redondo e redundante. Mas essa é uma sensação familiar a quem se atreve escrever poesia: passar para o papel algo que lhe vai no íntimo, ideias profundas ou ligeiras, sentimentos arrebatadores ou triviais, com mais ou menos sentido, muito dependente de um ritmo interno, da materialidade de certas palavras ou do encadeamento de frases e palavras.

Por vezes, essa materialidade assume uma força tão visual que o poema fica dependente do grafismo dos versos, desenhando formas, numa relação simbiótica com o próprio suporte dessas palavras: a voz humana, a folha de papel, o ecran, a fotografia. E, assim, o escrevinhador torna-se num híbrido com atributos tecnológicos, artísticos e outros (canto, design, grafismo, etc).

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O escrevinhador deste blogue, que aprecia o bom trabalho que se faz nessas áreas, não se atreve a dizer muito mais a respeito, regressando aos assuntos comezinhos, ligados à velha arte da escrita. Como, por exemplo, a tremenda questão existencial: porque tantos de nós insistimos em escrever poesia execrável, duma banalidade atroz, sem brilho, nem paixão, escorrendo sentimentos, emoções e estados de espírito de modo a afogar qualquer esboço de ideia ou de sonoridade, falhando no ritmo, na qualidade da palavra e na sedução do leitor/ouvinte?

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A resposta a esta questão já a dei anteriormente, mas não acho demais repetir: o escrevinhador sofre de escrita preguiçosa, como se acreditasse que tudo o que luz

Humor estúpido e mau

A propósito da polémica levantada pelos ‘ofensivos’ cartoons do Charlie-Hebdo, perguntam-me se também vale —mesmo— tudo na literatura. O que me surpreende, na questão, é não ter deixado já ficar bastante claro o que penso sobre isso, e publicado neste blogue: A sátira é, (…), uma das maiores ameaças às verdades estabelecidas, às instituições acima de toda a crítica, aos grandes (e queridos) líderes, e, dum modo geral, aos tartufos de todos os tempos e de todos os lugares. (post Mentiras de Um de Abril)

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A expressão vale tudo, é retirada do mantra que ilustra a filosofia pedagógica do blogue: em Literatura vale tudo e nada é garantido. O ‘garantido’ refere-se, obviamente, ao sucesso, à qualidade e/ou ao entendimento (por parte dos leitores).

A tradição popular do achincalhamento de poderosos e arrogantes tanto é manifesta nas celebrações do Entrudo como nos autos vicentinos, na poesia medieval galaico-portuguesa ou entre os poetas setecentistas (de que Bocage é o exemplo mais famoso), procurando-se retirar efeitos cómicos do palavrão, do insulto, da má-língua. Padres, freiras, frades e, ao longo do sec.XIX, a própria Igreja Católica, foram alvos habituais da ironia agressiva, do sarcasmo cruel, do insulto baixo, mas mesmo um livro como A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não pretende pôr em causa, nem brincar, com os fundamentos da religião, apesar da verrina destilada.

HÁ AINDA PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL -Um pai ausente...uma mãe adúltera.

HÁ PIOR DO QUE A ADOPÇÃO HOMOSSEXUAL!
-Um pai ausente…uma mãe adúltera.

O sexo (ou o amor não santificado) e os costumes também são matéria literária do gosto dos humoristas que terá atenazado censores (se já os havia) e almas puras, desde os primórdios da Literatura Portuguesa. Depois do Ultimato Inglês (1890), a figura do rei também passou a ser vilipendiada de todos os modos (100 anos antes, pasquins e canções já o faziam com o rei e a rainha, em França). Boa parte destas produções literárias (a esmagadora maioria nem é digna desse nome, provavelmente) caiu merecidamente no esquecimento e só tem interesse documental, mas… entre elas brilham pepitas de ouro ou, simplesmente, obras marcantes duma época.

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O que merece igualmente atenção é o discurso da censura, da moral e dos bons costumes, dos bons cristão, fiéis súbditos e toda a casta de ofendidos e indignados. Aí já não se trata de análise literária, mas vale a pena ao leitor informar-se sobre os famosos processos judiciais contra Natália Correia e outros nos anos 60 do século passado e contra ‘As Três Marias’ (1972-1974) ou a polémica criada à volta d’ O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, em 1991. Difícil dizer o que mais surpreende ao olhar anacrónico do leitor do sec.XXI: se a desfaçatez do discurso censório e a bovinidade cultural que a sustenta, se a evolução que a sociedade portuguesa teve em 50 anos.

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Eu decido quem entra e quem sai

Um dos maiores desafios que se coloca ao humor, especialmente ao humor corrosivo, satírico, ad hominem, é a sua dependência ao contexto cultural, social, político, à época em que é escrito (ou dito, desenhado, etc). Em seis meses, dez anos, cem anos…quem consegue entendê-lo e rir-se (ou sequer indignar-se)?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL -Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

George Orwell CENTRO COMERCIAL ANIMAL ‘SALDOS 50%’
-Com ofertas como estas, quem tem tempo para a revolução!?

Para o escrevinhador sem urgência de denunciar na praça pública, o desafio torna-se relativamente simples: quanto mais universal, mais fácil de comunicar com leitores de outras latitudes ou outras épocas. Mas essa é uma opção que lhe cabe exclusivamente, e corajosos são aqueles que usam o humor como forma de exposição dos problemas e males da época, de modo explícito e sem rodeios. Principalmente, se sujeitos a pagar com a liberdade ou a vida.

'Oooh,  pá...eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!' FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

‘Oooh, pá…eu pretendia expressar aquilo como um monólogo interior!!’
FRED E OS SEUS ARTIFÍCIOS LITERÁRIOS

Sabendo que a sua obra perderá interesse e leitores conforme o tempo vá atirando os factos e os personagens (da vida real), que lhe estão na origem, para o sótão obscuro da memória colectiva.

E não há o ‘perigo’ de cair no exagero (ou abuso), de ofender sentimentos, de falhar no alvo (injustiça) ou, pior, de expor ideias e valores indefensáveis, condenáveis, monstruosos? Certamente que sim.

O próprio Charlie conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a do jornal responsável (capa branca)

O próprio Charlie Hebdo conhece a fórmula da capa de jornal irresponsável (A invenção do Humor: óleo e fogo) e a de jornal responsável (Parem de rir! -capa branca-)

Em cada época, a medida da ‘tolerância’ varia em relação a épocas anteriores e posteriores, como varia de grupo social para grupo social. A polémica das imagens/palavras que geram comportamentos criminosos não é recente, nem terá resposta definitiva nunca. Na verdade, ela própria é um indicador do grau de felicidade e autorrealização duma sociedade num dado lugar, num dado tempo: quando as proibições, os anátemas, as prisões e fogueiras, bombas ou tiros, se fazem ouvir com maior frequência e estrondo, certamente que o escrevinhador sentirá sua liberdade criativa/crítica sujeita a pressões mais ou menos (in)toleráveis.

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Que varia e variará sempre conforme a ‘sensibilidade’ do próprio escrevinhador, ou seja, essa tolerância à censura (legal, moral, social) diz mais a respeito dele do que do que escreve.

Ora, o ridículo das convenções (sejam religiosas, sejam quaisquer outras) e daqueles que se expõem publicamente (famosos, poderosos ou outros), é a matéria-prima da ironia e do sarcasmo desde os antigos gregos, pelo menos.

Se Maomé regressasse... -Sou o Profeta, cretino! -Cala-te, infiel!

Se Maomé regressasse…
-Sou o Profeta, cretino!
-Cala-te, infiel!

Dentro da tradição tipicamente francesa, o tipo de humor do Charlie-Hebdo é a expressão da  sensibilidade aguda para o ridículo e da  inteligência para dizer o óbvio de modo incómodo e, muitas vezes, gritantemente cómico. A maior ironia é que, frequentemente, o leitor leva-o à letra (leitura literal), não o contextualiza.

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Esta limitação do leitor será tanto maior quando maior for a quantidade de informação em circulação e a variedade de canais de informação, agravada por uma deficiente formação escolar e cultural: boa parte do bom humor que se faz joga, como acima se disse, com factos e personagens reais do momento e com referências que, não há muito tempo, seriam tidas como mera cultura geral e hoje, paradoxalmente, parecem restringir-se ao domínio duma elite algo desfasada dos fenómenos de moda cultural.

É normal que eu dê cacetada em toda a gente... Ninguém me ama.

É normal que eu dê cacetada nas pessoas… ninguém me ama.

Na referida tradição francesa estão a produção imoderada de Banda Desenhada (a 8ª Arte) e o marco cultural do Maio de 68, cuja combinação resultou, entre outras coisas, num tipo de humor ‘bête et méchant’ (estúpido e mau), que o Charlie-Hebdo actual é o continuador e digno representante. Uma das características desse humor é o de incorporar as críticas, desmontando-as por dentro, fazendo-as explodir de sentidos contraditórios, virando-as contra a má-fé, a hipocrisia e a crueldade que estão na sua origem. Exercício polémico e difícil, mas brilhante quando atingido.

O cartoonista covarde Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé! '-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California' R.Crumb em solidariedade com os meus camaradas mártires, 8 de Janeiro 2015

Um cartoonista covarde
Crumb exibe o seu cartoon com a legenda: O rabo peludo de Maomé!
‘-Heh, heh, estou brincando. Na verdade é o rabo do meu amigo Maomé BAKHSH, produtor de filmes em Los Angeles, California’
R.Crumb-em demonstração de solidariedade com os meus camaradas martirizados-8 Janeiro15

Como não podia deixar de ser, no primeiro número do Charlie-Hebdo após os assassinatos da sua equipe redactorial, um dos temas foi o de gozar com a reacção de solidariedade ou mensagens de pesar vinda de chefes de estado, primeiros-ministros e líderes religiosos.

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Contudo, a melhor sátira ao desfile público de condolências e de homenagens é, a meu ver, esta de um cartoonista que não pertence à revista:

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Vejo que vocês vão ser assassinados por terroristas… em vossa memória os sinos da Notre Dame tocarão, haverá um grande desfile com Holland, Valls, Sarkozy, Copé, Merkel, Cameron e mesmo Netanyahu… haverá bandeiras tricolores e cantarão ‘A Marselhesa’… vão propor levar-vos ao Panteão, o Nasdaq e a Academia Francesa dirão ‘Eu sou Charlie’ e o Papa irá rezar por vocês…

Para não variar, brinca-se mais uma vez com interditos e ambiguidades, difíceis —senão impossíveis— de descodificar por cabecinhas pouco dadas à ginástica mental… mas essa é a essência da provocação, da poesia e do humor Je provoque à l’amour et à la révolution Yes ! I am un immense provocateur*.

Para de desenhar, é perigoso!!

Pára de desenhar, é perigoso!!

De surpreender, só mesmo a quem esperasse que a vaga de condolências e piedade domesticasse a revista ‘bête et méchant’.

* Léo Ferré, Le chien (1970)

meditação sobre a criação e o desalento

Um dos temas mais interessantes nas artes é o da influência (não confundir com plágio), e já me têm pedido para falar sobre isso. Porém, são temas que escapam aos estreitos limites deste blog sobre criação literária no sentido mais imediato.

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Alguma coisa já disse a esse respeito para ilustrar a ‘falta de originalidade’ dos grandes autores que retomam velhos temas brilhantemente desenvolvidos em épocas ou lugares diferentes. Mas a influência acontece do modo mais imprevisto: uma rápida leitura on-line num jornal, num blog ou no facebook, podem provocar uma reacção em cadeia.

Daí que, quando me falam em dificuldades para encontrar, estruturar ou desenvolver um tema que dê origem a qualquer coisa de vagamente literário, só posso recomendar obsessivamente que ler é fundamental. Com a vantagem acessória da leitura poder ser enriquecida pela própria experiência de vida, pela observação atenta ou sensível, pela personalidade singular de cada um. E nem fica especialmente dispendioso.

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O que faz a diferença é o modo como o escrevinhador aborda aquilo que leu, viveu, observou (ouviu) ou sentiu, e não tanto a experiência em si. E é esse modo (que pode variar de escrevinhador para escrevinhador, como Caeiro, Campos, Reis, Soares e Pessoa tão bem exprimiram) que torna a coisa literária fascinante.

E também algo árdua e cruel, como qualquer um de nós pode avaliar numa rápida consulta da literatura de hipermercado ou assistindo a penosas tertúlias de leitura de poesia.

Não se trata só do estilo, algo que com o tempo e a produção escrita pode evoluir, amadurecer e cristalizar. Fundamenta-se nas tais leituras, vidas, observações e sentimentos (ou sensações) do escrevinhador, mas vai para lá disso tudo e pode resultar, se não em algo distinto, pelo menos num cocktail original e sugestivo.

Nas primeiras décadas do sec.XXI, a facilidade para publicar imediatamente é inversamente proporcional à capacidade de atingir um público interessante, dada a pulverização dos canais de comunicação. Por isso muitos desanimam em prosseguir. Alguns tentam escrevinhar do modo que julgam ser mais atraente para determinado público, variando entre o piadético e o sarcástico, passando pelo piegas e pelo popularucho.

1. Graças aos avanços das tecnologias de comunicação... 2.Podemos estar em qualquer lugar da Terra... 3.E continuar a ouvir conversas imbecis.

1. Graças aos avanços das tecnologias de comunicação…
2. podemos estar em qualquer lugar da Terra…
3. e continuar a ouvir conversas imbecis.

Ciente da infinidade de escrevinhadores do passado, hoje célebres mas completamente ignorados em vida, que posso dizer a esse respeito? Que há uma infinidade maior de escrevinhadores do passado, célebres em vida e hoje completamente ignorados? Que a escrita deva ser uma paixão, um prazer, que se justifica por isso mesmo? Que o desanimo ou o facilitismo podem ser sinais vitais do suposto escrevinhador para se dedicar a assuntos mais criativos e reconhecidos socialmente, como a contabilidade ou a interpretação das leis?

Regressando à questão da influência e da criatividade, vem-me à memória algo que Herberto Hélder escreveu a propósito de traduzir poemas duma língua que desconhece, com a vantagem de, ao fazê-lo, não só escreve um poema em português, como escreve um poema que é seu!

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Questões de nível

A escrita, tal como a fala, está sujeita a códigos ‘de etiqueta’ que não se confundem com as regras da Gramática ou com normas ortográficas. Quem escreve pode nem estar consciente de seguir um qualquer código, limitando-se a fazer como sabe e sempre fez.

Se pedir, peço cantando,/ sou mais atendido assim;/ porque, se pedir chorando,/ ninguém tem pena de mim (in Este livro que vos deixo de António Aleixo ed.Vitalino Martins Aleixo)

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Nos finais do século passado ainda se publicavam um preciosos livrinhos que forneciam modelos para correspondência comercial, explicando em que circunstâncias se usava certa adjectivação (prezado, caro, excelentíssimo e aí por diante) ou se terminava oferecendo abraços ou atenções (com um abraço, atenciosamente). A correspondência amorosa também mereceu destaque nesse género de publicações, e não era menos rigorosa na utilização de fórmulas e do vocabulário.

Tão pouco te pergunto / meu amor:/ Como responde o corpo/ ao vazio dos lábios? (‘Pergunta’ in Só de Amor de Maria Teresa Horta, ed.Dom Quixote)

Textos com pretensões eruditas podem ser mais facilmente desacreditados se não respeitarem o rigor dos conceitos por de trás das palavras ou a articulação lógica entre diferentes afirmações e parágrafos, assim como um certo comedimento na expressão das emoções, o que não implica excluir frases poéticas ou efeitos cómicos.

O voo dos gansos bravos por cima da minha cabeça diz-nos que o protão perdura por muito tempo, mas não indefinidamente! (in Aves, maravilhosas aves de Hubert Reeves, trad.Francisco Agarez ed.Gradiva)

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Assim sendo, como se pode escrever um texto com aspirações literárias sem se prestar a necessária atenção para os níveis de linguagem? A questão torna-se especialmente pertinente quando o texto aborda a vida quotidiana, as pessoas nos seus diferentes estatutos sociais e contextos, mais ainda se o contexto histórico, geográfico ou outros são, de algum modo, familiares.

O capitão deu ordem de fogo. Arcádio apenas teve tempo de encher o peito e levantar a cabeça, sem compreender de donde fluía o líquido ardente que lhe queimava os músculos.

—Cabrões!—gritou—Viva o partido liberal!

(in Cien años de soledad de Gabriel Garcia Marquez, ed. Austral)

Mas as dificuldades para o escrevinhador serão maiores se não tem o pulso treinado para acompanhar o ritmo e o colorido dos estados emocionais, e não tem o ouvido apurado para as vozes da rua, dos convívios informais, dos encontros profissionais, das relações amorosas. Até mesmo nos insultos, certos escrevinhadores estão tão pouco à vontade que o resultado soa cómico, senão esquisito.

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe., e não apareceu nem respondeu—que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido.Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. (in Grande Sertão:Veredas de João Guimarães Rosa,ed. Nova Fronteira)

'Au!Au!Au!Au!Au!Au!...Au!...Au!... Raios...Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando'

‘Au!Au!Au!Au!Au!Au!…Au!…Au!… Raios…Voltei a esquecer-me porque é que estou ladrando’

Sempre foi o recurso clássico do mau escrevinhador defender-se deste problema recorrendo a uma linguagem ‘difícil’, mais rara do que erudita. Ou a formulações pomposas — ‘gongóricas’ diriam noutros tempos. Ou então, inversamente, cair na linguagem ordinária, calão mesmo, mais à semelhança do que ouve em certos reality shows do que na vida real. Em qualquer dos casos, o vulgar estereótipo.

Pilha aqui, pilha ali, vozeia autores,
Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e vários;
Propõe sistemas, tira corolários,
E usurpa o tom d’enfáticos doutores:

Ciência de livreiros e impressores
Tem da vasta memória nos armários;(…)

(‘Soneto ao Leitão’ de M.M. Barbosa du Bocage)

Não é este, de modo algum, um problema menor quando comparado à construção do enredo, à composição das personagens ou aos ritmos da narrativa. Há escrevinhadores que dão tanta relevância à linguagem empregue, que tudo o mais fica ofuscado numa primeira leitura, e digo isso num sentido elogioso, pensando nos exemplos já aqui abordados a respeito da oralidade do texto.

Sempre o mesmo afã de anotar coisas que parecem urgentes, sempre escrevinhando palavras soltas em papéis soltos, em cadernos, e afinal para quê, se quando vejo a minha letra escrita, as coisas a que se refere o texto se convertem em borboletas secas que antes voavam ao sol. (in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed. Planeta DeAgostini)

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O melhor enredo, ou a personagem mais fascinante, podem ser assassinados — pior ainda: cobertos de ridículo— se houver inadequação entre quem fala ou narra e o modo como fala ou narra. Polémicas literárias famosas sempre estalaram violentamente a este respeito, e não é para menos, já que este é um dos pilares da construção literária. Infelizmente, a maioria dos problemas de inadequação na construção do texto literário têm mais a ver com a falta de preparação do escrevinhador do que por questões de gosto.

O homem célebre é um homem que fez uma porção de coisas pra gente estudar na escola. Eu acho que se não existisse homem célebre nunca havia necessidade de ir na escola, porque nunca tinham inventado nada nem coisa nenhuma. (…) Os homens célebres ficam célebres por uma porção de coisas mas eu acho que a mais importante é a memória, pois todas as estátuas que eu conheço são dedicadas à memória deles. (in Conpozissõis Imfãtis de Millôr Fernandes, ed.Nórdica)

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Mais uma vez, o problema é agravado pela falta de boas e variadas leituras, e parte da solução está aqui. Treinar o ouvido é mais fácil, já que, quando confrontado com exemplos de inadequação, o escrevinhador reconhece facilmente a falha e consegue, quase de imediato, reformular e melhorar o texto. Mas o que dá mais trabalho e leva tempo é exercitar o pulso, pois aí reside aquilo que é específico do fenómeno artístico: a possessão.

(…) Às vezes sou algum/ desses esquivos personagens/ que repentinamente me suplantam,/ e às vezes somente sou/ como que um antecessor do que nunca serei/ ou talvez esse inconstante buscador de respostas/ que acaba sempre defraudado/ pela futilidade das suas pesquisas. / No entanto, minha história pessoal/ pouco tem que ver com essa história:/ Também eu sou aquele que nunca escreve nada/ se não é em legítima defesa. (‘Biobliografia’ de J. Caballero Bonald in Diário de Argónida  Somos el tiempo que nos queda-Obra Poética Completa ed.Austral)

Ou o beijo da bela Musa…

Qué fas ti mentras, meu bem?/ Dime dónde estás,en dónde,/ que te aspero e nunca chegas,/ que te chamo e non respondes./ Morreches, meu queridiño? O mar sin fondo tragóute?  (‘Cando a luniña aparece’ in Cantares gallegos de Rosalía de Castro, ed.Cátedra)

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden, 1926, de Otto Dix

Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

Uma recomendação de um velho que já viu muito…

Não se pode falar dos escrevinhadores como sendo todos madeira do mesmo lenho, mas com isto não pretendo dizer o óbvio (que há os bons, os assim-assim e todos nós que sobramos), nem o evidente (que uns tendem para umas coisas e outros para outras, como são os prosadores e os poetas).

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Na realidade, e sem que isso pretenda ser juízo de valor, o que entendo é que há os que escrevinham por prazer, outros por paixão, uns por tédio e alguns por obsessão, talvez ainda por algum tipo de vaidade ou de dor, e assim por diante. Provavelmente, até haverá os que escrevinham por todas estas razões.

Na história da literatura de todos os países com tradição literária hão-de sobrar exemplos disto tudo. Mas o que me interessa sublinhar é que distintas motivações resultam, naturalmente, em diferentes processos de criação.

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Pessoalmente, gosto da atitude daqueles escrevinhadores já com nome feito e obra reputada que insistem em colocar o prazer de contar estórias (ou criar enredos) e a paixão pela escrita como arte de composição no topo das suas motivações.

O que não quer dizer que não haja tanto neurasténico, rancoroso ou morcão (como se diz na minha terra) na história universal da literatura a escrevinhar obras geniais.

Porém, o desejo do aperfeiçoamento, a vontade de experimentar algo diferente, creio que nasce dos que têm prazer e paixão. E nota-se, senão na qualidade dos escritos, no modo como exploram leituras e compõem suas coisas.

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Neste Verão (ou Inverno, se estiver abaixo do equador), em que o humilde escriba deste ainda mais humilde blog passará a ter uma quebra de produtividade semanal, fica esta recomendação: leiam bem, escrevam como podem e, acima de tudo, vivam uma vida!

Ensaios, monografias, memórias, estudos…

Os trabalhos académicos têm suas regras, sua metodologia, quem os escreve é suposto dominar minimamente as exigências formais, até porque recebeu formação nesse sentido e já leu muitos trabalhos do género antes.

Mas o escrevinhador amador, aquele que elege um tema sem ter preparação académica para o auxiliar, como deve fazer?14135233

Pode mesmo pôr-se em questão se o deve fazer, já que lhe falta a dita cuja preparação, mas trata-se de mero preconceito: existe uma longa lista de estudiosos autodidactas, sem preparação académica formal, que se destacaram pelo trabalho de investigação, experimentação, estudo ou divulgação.

Ora, se para a escrita da poesia ou de um romance é muito recomendável ter alguma bagagem literária, para o escrevinhador que desenvolva algum tipo de ensaio, investigação ou simples divulgação, é de simples bom senso que ‘leia tudo’ o que houver para ler antes de publicar alguma coisa.

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Já no post anterior me referi ao ‘à vontade constrangedor’ como se escreve sobre assuntos sem noção de erros, lapsos, confusões, lacunas que até o leitor leigo, mas razoavelmente informado, pode facilmente perceber.

Por vezes, o plágio é evidente, noutras vezes as fontes duvidosas são as mesmas das de outros livros.

Mais frequentemente, o tema é tratado de forma superficial, sem acrescentar nada à literatura que já existe: não há uma ideia, um facto, um enquadramento, nada, absolutamente nada, de novo. Excepto um nível mais elevado de tédio e monotonia (mas aqui estou a pensar naqueles trabalhos académicos que se fazem para cumprir metas).

-Então, a que é que você se dedica? -Sou um troll. Estrago a internet a toda a gente.                 -Este vinho não presta.

-Então, a que é que você se dedica?  -Sou um troll. Estrago a internet a toda gente.                    -Este vinho não presta.

Não penso que sejam géneros mais difíceis do que o poético ou a ficção, longe disso. Mas não permitem a mesma liberdade criativa e os artifícios de estilo, exigindo muito mais do que a simples verosimilhança, tendo de ser claro e transparente na argumentação, capacidade para sustentar ideias e afirmações com algo mais do que raciocínios ou estórias, respeitar a lógica básica e colocar-se a si próprio a questão da fundamentação do que é dito. Por uma questão de credibilidade, claro.

Bem, fácil é que não é, realmente…

Sobre o exercício do pulso e outros requesitos

Se já escrever bem, literariamente falando, é ofício exigente, mais complicado fica se o escrevinhador não for um bom leitor.

A aprendizagem do ofício começa pelos livros a ler, de preferência cedo na vida. Graças à leitura, o escrevinhador poderá se tornar um razoável crítico da própria produção escrita, para além de toda a inspiração e confrontação que as obras alheias proporcionam.

"Estou experimentando uma nova técnica de ensino este semestre. Estou a usar livros."

“Estou experimentando uma nova técnica de ensino este semestre. Estou a usar livros!”

A mente crítica, de que falava alguns posts mais atrás, não se resume aos escritos, os próprios e os alheios, mas ao mundo que o escrevinhador vive, observa, relata. Também não se trata de emitir juízos, tomar partido, defender causas ou apontar o dedo ao que esteja mal, embora também  possa ser.

Com mais ou menos ingenuidade, o escrevinhador torna-se mais interessante quando desenvolve perspectivas, assumidas ou não, e fá-lo de modo a proporcionar a quem lê algum tipo de comparação, análise, empatia.

Moça com livro, pintura de Almeida Júnior, século XIX

Moça com livro, pintura de Almeida Júnior, século XIX

Para isso, o olhar do escrevinhador, ingénuo ou não, tem de ser perspicaz, qualidade que permite extrair algo mais do que aparentemente está ali. Talvez o consiga fazer quando o texto autoriza mais do que uma leitura ou quando o leitor, ao reler, pode retirar novos significados, novas relações.

Sentido crítico e perspicácia existem entre analfabetos, assim como existe muito ‘letrado’ a quem faltam ambas. O escrevinhador pode ser beneficiado, como prejudicado, pelo meio em que foi criado, daí a leitura actuar como uma libertação às condicionantes culturais e, geralmente, ameaçar a ordem estabelecida que não queira ser posta em causa.

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Mas para ter o ‘pulso exercitado’, ao escrevinhador não surgem alternativas a redigir uma e outra vez os textos, procurando melhorar a formulação, ajustar a ideia à letra, a gramática à sonoridade, o vocabulário à personagem, ao leitor e ao propósito, a sintaxe ao ritmo e ao enredo.

Nada do que atrás é dito sai naturalmente, excepto quando já há muitas leituras feitas e bastantes textos escritos—lidos e escritos com mente crítica, através dum olhar perspicaz. Este é o exercício do pulso de que falava.

E chega? Não, não chega. Além de tudo isto, e conforme neste e noutros posts insisto, o escrevinhador ainda tem de arranjar tempo para viver uma vida e seduzir a bela musa.

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Sobre o escrevinhador negligente

Se listar quais são, na minha opinião (que se baseia na estreita faixa da realidade que conheço), os defeitos mais comuns do comum dos escrevinhadores, surge um retrato que não me parece muito diferente do de outras épocas.

No topo dessa lista coloco a negligência: fico sempre abismado pelo descaramento como alguém se atreve a escrever (para ser lido e publicado) sem se preparar minimamente.

(…) Se há um plano/Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…)/Não tenciono escrever outro poema/Tenciono só dizer que me aborreço/(…)/Todo o conteúdo de mim é porco/E de uma chatíssima miséria/(…)/Para que escrevo? É uma pura perda. (1)

A preparação pode ter fases distintas, sendo a primeira a bagagem para esta aventura, ou seja, leituras variadas, de qualidade (tanto o texto, como a leitura).

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A seguir, talvez fosse de privilegiar a combinação da atenção com a reflexão: se o escrevinhador estiver ‘ligado’ a uma qualquer (ou mais do que uma) dimensão do real, e sobre isso desenvolver algum tipo de reflexão, naturalmente irá construir uma perspectiva sobre essa mesma realidade.

Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!/A chegada pela manhã a cais ou gares/Cheios de um silêncio repousado e claro!/Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega…/E o som especial que o correr das horas tem nas viagens… (2)

Depois, o exercício metódico da escrita irá apurando algo das fases anteriores, permitindo ao escrevinhador explorar, perceber os seus próprios limites e horizontes, corrigir trajectórias e cumprir metas.

O que resulta daqui é um dos milagres da actividade dos escrevinhadores: a de escreverem bem sobre temáticas interessantes, sem terem que ter qualquer experiência pessoal ou formação específica (para usar a terminologia horrorosa corrente).

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No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores/Mas no meu verso, por mais que o ice, há só ritmos e ideias,/Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,/Não há a realidade da pedra mais nula da rua,

Provavelmente, haverá sempre excepções ‘à regra’ que possam contradizer o que acabei de expor, mas creio que o comum dos mortais terá melhor qualidade de vida—vida de escrevinhador, claro!—se respeitar, de algum modo, esta preparação: ler (bem e variado), observar (com perspicácia, sensibilidade, intuição…), conhecer (reflexão, meditação, transe ou outros estados alterados da mente, ou simplesmente racionalizar), comunicar (escrevendo, mas não só).

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Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma/Todas as operações comerciais necessárias a um embarque de mercadorias./A minha época é o carimbo que levam todas as facturas,/E sinto que todas as cartas de todos os escritórios/Deviam ser endereçadas a mim. (4)

Posso não me ter feito entender ao usar, mais acima, a expressão ‘abismado pelo descaramento’: não pretendo ser pedante, polícia dos costumes ou coisa parecida, mas tenho lido ‘coisas’ (algumas publicadas) que revelam uma preparação diametralmente oposta àquela que sugiro, no todo ou em parte.

O resultado poético, narrativo, até mesmo documental ou técnico (estou a pensar em teses de mestrado e estudos sobre qualquer coisa, sim), reforça esta convicção.

E eu era parte de toda a gente que partia,/A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava/Da janela afastando-se de comboio…/(…)/E o comboio avança—eu fico… (5)

Deprime-me, confesso, que esta negligência surja  tanto entre pessoas com vinte, trinta anos, como com cinquenta ou mais anos, com cursos superiores ou exercendo profissões onde a escrita (e a leitura) não são ‘competências’ irrelevantes. Frequentemente, até dá para perceber que a ideia era boa, mas irremediavelmente comprometida por deficiências corrigíveis. E não negligenciáveis, também.

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E as suas consequências, não coisas contadas em livros,/Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,/E o sol também real sobre a terra também real/Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo! (6)

(1) in Carnaval, de Álvaro de Campos; todas as citações são deste autor retiradas da ‘Poesia de Álvaro de Campos‘, colecção dirigida pelo grande Vasco Graça Moura, ed. Planeta DeAgostini

(2) in poema 15

(3) in Saudação a Walt Whitman

(4) in Ode Marítima

(5) in poema 37

(6) in Ode Marcial

 

 

Montagem, harmonia, linha de fuga…

Para ilustrar técnicas, processos estilísticos e outros aspectos da criação literária, é mais fácil recorrer a conceitos de outras formas de expressão artística, como o cinema, a música e a pintura.

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Também, cada vez menos partilharmos o mesmo cânone literário, e pormo-nos a par não se faz em meia-dúzia de dias; assim,como ‘trabalho de casa’ costumo sugerir o visionamento de filmes para comparar o tratamento dado ao mesmo argumento por realizadores diferentes .

Quando digo ‘argumento’ tanto me refiro às diferentes versões cinematográficas do mesmo livro (‘Romeu e Julieta’ de Shakespeare, p.ex.), da mesma estória (a vida de Cristo, p.ex.) ou do mesmo tema (a fuga da prisão, o adultério, a vida de bairro).

Um dos aspectos mais fascinantes e úteis na técnica narrativa, comum à literatura e ao cinema, é a montagem, aquele trabalho pós-gravação das cenas, onde se dá ordem e coerência a centenas de horas de filme, cortando o que não interessa, colando captações distintas da mesma cena, dando sequência duma cena para a outra, com efeitos estilísticos paralelos ao da narrativa escrita.

Sobre cinema e literatura ainda me atrevo a dar palpites e comentários, mas de música devia estar calado e ser absolutamente omisso.

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Combinação entre uma técnica de Banda Desenhada (os ‘balões’) e o Cinema (fotograma retirado do Ladrão de Bicicletas, de Vitorio de Sica) resultando num  ‘cartoon’ satírico com o característico ‘punch-line’.

 

Porém, como toda a gente aprecio música, sei como a banda sonora de um filme pode ter um efeito sinestético poderoso e  sinto a sonoridade do texto, experimento uma harmonia musical no enredo, por vezes escrevo com um ritmo que é o de ‘qualquer-coisa-musical’ que faz a diferença de outros escritos, ou secções do mesmo livro.

Por absoluta ignorância, sou incapaz de desenvolver teoricamente o paralelismo entre a música e a escrita literária, e temo sempre o meu entusiasmo a este respeito, principalmente quando vou buscar termos técnicos da música para ilustrar algum tópico. Mas fica a dica para o efeito sensorial, estético, que é comum a muitos escrevinhadores, sendo fonte de inspiração para todos eles.

Moisés faz o balanço... -Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia...mas nunca tive um êxito musical.

Moisés faz o balanço…
-Os Mandamentos, o Mar Vermelho, os Livros da Bíblia…mas nunca tive um êxito musical.

Do mesmo modo, a pintura e a fotografia são igualmente estimulantes, igualmente simbióticas para com a literatura, e frequentemente sugiro que se  ‘olhe’ um poema, um livro, como quem ‘lê’ certos quadros, certas fotos. A perspectiva, a linha-de-fuga, por exemplo, é uma noção particularmente útil.

E aqui tenho de acrescentar a Oitava Arte, a Banda Desenhada, que sintetiza exemplarmente o Cinema, a Pintura, a Literatura, além de desenvolver a sua abordagem estética específica.

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Da dança gostaria de dizer alguma coisa, até porque sou particularmente sensível à parte física da palavra, da ideia, do enredo, coisa que ‘entendo’ muito bem quando assisto a danças de salão ou de ballet contemporâneo. Mas aí falha-me o próprio vocabulário, desgraçadamente.

Em todos os casos, esta contaminação das artes, do mais básico ao mais elaborado dos raciocínios e das teorias, da simples fruição ao exercício apurado, do apreciador ocasional ao diletante, ajudam o escrevinhador a compreender as relações entre a parte e o todo na fase da pós-produção literária, distinguindo o sentimentalismo da paixão, a emoção da criação, assim como a desenvolver sentido crítico.

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la muse, de jean esparbes

Cultivando sempre o grãozinho de loucura, a relação com a bela Musa, obviamente.

 

 

 

Reconstruir os alicerces do texto

Para iniciar a revisão crítica do texto, depois de concluída a fase criativa, é fundamental que o escrevinhador se distancie emocionalmente do processo.

O ideal será passar alguns dias sem lidar com ‘aquele’ texto, já que, ao retomá-lo, irá estar muito mais atento ou sensível aos erros, incongruências, deselegâncias, banalidades e muitos outros defeitos.

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O problema varia consoante o escrevinhador, o momento ou a obra, mas tem sempre a ver com o natural envolvimento emocional focado na intensidade do enredo (ou do processo criativo), insensibilizando a atenção para detalhes técnicos. Às vezes, essa emoção sobrevaloriza aspectos secundários, dando-lhes espaço e destaque injustificado.

Por isso, num momento posterior em que o vinculo emocional é menos forte, graças ao distanciamento criado pela quebra da rotina, pela atenção dada a outros projectos ou aspectos da vida pessoal, o escrevinhador pode proceder à revisão crítica com acuidade.

Ao nível mais básico, possivelmente encontrará erros ortográficos e gramaticais: prejudicam a comunicação com o leitor, podem ser mais ou menos vergonhosos, mais ou  menos comprometedores no que toca ao estilo, à beleza, à fluidez do texto.

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Erros frequentes em escrevinhadores de todos os tipos de formação, actividade profissional e etc e tal (podem até ser ilustríssimos desconhecidos que escrevem em blogs que dão dicas sobre escrita!), devido à tal intensidade emocional em que formulações mentais e formas de oralidade se ‘atropelam’ no texto, onde as regras de comunicação são outras.

Certamente, a fragilidade duma aprendizagem formal da Língua, a falta de hábitos de leitura activa (distinta da passiva porque não se esgota na ‘mensagem’) e de escrita, contribuem muito para esta categoria de erros.

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Para além dos chamados ‘erros de palmatória’ (não faço a menor ideia qual seja a origem desta expressão…), existem outros não menos importantes, por vezes bem escondidos em longas frases confusas. Dos mais arreliantes são aquelas situações em que o leitor fica na dúvida qual seja o sujeito de determinada frase, criando ambiguidades tanto maiores quando, em qualquer das hipóteses, a frase tem sentido.

A terapêutica duma escrita de frases sucintas, logicamente encadeadas, pode ser bom remédio para a maioria das situações, obrigando o escrevinhador a desenvolver o alerta interno sempre que é tentado a esticar, esticar, colocando virgulas a eito como em certas estradas colocam placas de transito nos últimos metros antes do cruzamento.

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Porém, este remédio não é tão eficaz  para o caso da poesia, onde os artifícios estilísticos são muito mais ricos e variados, o que é sinónimo de terreno traiçoeiro e movediço.

 

 

 

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Como me venho repetindo frequentemente (sim, sou mesmo chato…), um dos benefícios de uma cultura bibliográfica razoável está no apuro do sentido estético do escrevinhador, levando-o a confrontar a sua mesquinha produção com os gloriosos textos dos grandes autores.

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Não se trata dum exercício masoquista, nem é o meu modo de atirar para o desespero e para o silêncio a esmagadora maioria de nós, aspirantes à Fama e à Fortuna, mas o uso do bom senso que alia o prazer da boa leitura com a prática da auto-avaliação construtiva.

Isso não dispensa que sujeite os seus escritos à leitura de duas ou três boas almas, de preferência gente com algum critério literário, assim como sinceridade ingénua e brutal.

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“Infelizmente é a palavra deles contra a sua.”

Certamente, o escrevinhador ganhará mais do que algumas equimoses na auto-estima, mas na condição de não retaliar denegrindo as boas almas depois da apreciação feita. Principalmente, deve desconfiar se elas se limitarem a considerações muito gerais e a pancadinhas nas costas: a crítica deve expor seus argumentos.

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O tempo depois ajudará a ler o que escreveu, provavelmente com menos compreensão e simpatia, mas mais rigor. E a ponto de duvidar ter sido ele mesmo a escrever ‘aquilo’.

Tudo isso é progresso, evolução, amadurecimento.

Ou, retomando um dos temas da época: a promessa de renovação nestes meses em que a natureza parece adormecida.

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A Palavra

Certo: nunca é demais repetir que ler é fundamental, mas hábitos de leitura não são por si indicadores de sensibilidade e/ou inteligência.

Porém, hábitos de leitura e boa leitura em quantidade ajudam decisivamente o escrevinhador a desenvolver um sentido quase material da palavra, essencial, a meu ver, para todo o fenómeno literário (embora aqui admita um preconceito sensual que exclui outras possibilidades).

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Encontro expressa a ideia que procuro num pequeno texto, que passo a citar:

Procure a palavra. A única que pode ter múltiplos significados no mesmo contexto, que chora e canta, atinge o símbolo, dá o momento e pode eternizá-lo, passando do estar ao ser. Aquela em que o significante pode não ser apenas o suporte, arbitrário, do significado, mas a ser obrigado a significar.’ *

Complicado? Sim, de entender e de explicar em abstracto. Porém intuitivo quando se passa para lá do espelho. E mesmo assim, essa ‘palavra’ não é um dado inequívoco, nem algo que se possa assinalar de modo evidente:

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“Não entendo nada do assunto, mas tenho todo gosto em lhe dar a minha opinião de especialista.”

Mas quem lhe conhece o halo, a sombra, o som claro, água para infinitas sedes? Quem lhe sabe a cor secreta, a forma exacta, o seu recorte de concha, em nenhum areal?’ *

Claro, no texto poético esta procura é essencial e uma das ‘marcas d’água’ da excelência literária.

Como encontrar a ‘palavra’, esse grão de areia na praia imensa?

Lá onde se encontram tantos ladrões e belas mulheres

Lá onde se encontram tantos ladrões e belas mulheres.

Essa é a dificuldade, porque está entre aquelas que gastamos todos os dias, na vulgaridade da fala. E ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo. A procura terá de ser só sua. A poesia, como a verdade, é solidão infinita’.*

Procura que não tem horizonte, nem fim, excepto se nos rendermos à facilidade ou ao desânimo. Mas quando ‘a palavra’ surge diante do escrevinhador, tal como o graal, impõe-se pela sua presença:

ARA ENTRAR DIGA AS PALAVRAS MÁGICAS esqueceu-se das suas palavras mágicas? Diga o seu e-mail.

PARA ENTRAR DIGA AS PALAVRAS MÁGICAS
Esqueceu-se das suas palavras mágicas? Diga o seu e-mail.

Com o suor das lágrimas e da esperança, procure. Procure a que mata a sede do além e do inatingível, a que escorre ainda o sopro da criação. Procure a palavra.’ *

‘Mas valerá a pena tanto esforço?’, perguntam-se as pessoas de bom senso e sentido prático da vida.

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“Tens de aprender a falar, Jeffrey: faz parte do processo de crescimento.”

* Citações recolhidas da ‘Carta a um jovem poeta’ publicado in Um olhar naufragado (diário II) de Luisa Dacosta ed.Asa 2008

Órfãos da ‘originalidade’

Repetindo um anseio que ouço com alguma frequência, alguém me pede dicas para poder escrever sem cair nos famigerados estereótipos e produzir textos com genuína originalidade. Tudo desejos muito louváveis, pecando, no entanto, por serem algo estereotipados.

-Quero que estudes estes sites a ver se consegues tornar o meu site mais original.

-Quero que estudes estes sites a ver se consegues tornar o meu site mais original.

Por deficiência minha, dei a entender que o estereótipo é algo a evitar, esquecendo-me de acrescentar que é uma quase-inevitabilidade. Na realidade, os estereótipos têm grande utilidade ao poupar recursos e tempo para transmitir conteúdos, já que são facilmente compreensíveis por reproduzirem esquemas, tipos, valores, dos quais a generalidade das pessoas reconhecem. O seu oposto será uma escrita que tenha uma perspectiva distinta do estereótipo e, além do mais, subentenda de modo mais ou menos explícito, uma crítica ao modelo estereotipado.

"Qual é?!-diz para procurarmos a nossa originalidade, e depois marca

“Qual é?! Primeiro diz para mostrarmos originalidade, e depois marca erros no meu texto!”

O que leva à questão da ‘originalidade’, que significa ‘regresso às origens’, não necessariamente as do escrevinhador, mas as da escrita, do tema, do enredo. E que origens podem ser essas? Ora, este é que é o eterno problema: o de sermos herdeiros, utentes e artesãos, de técnicas e saberes que têm uma história, uma evolução com protagonistas, dilemas e conflitos, e de que somos praticamente ignorantes. Ou seja, que sabemos nós sobre as ‘origens’, escrevinhadores com a pretensão da originalidade?

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“Tenho de recordar-te de que tenho uma imensa legião de seguidores na internet?”

Como alguém disse (e escreveu), tudo já foi inventado ou tudo já foi dito em termos literários. Sem levar esta ideia à letra, creio que dificilmente o escrevinhador terá noção do que está a escrever sem a bagagem literária que o elucide minimamente do quanto é devedor de toda uma tradição literária que absorveu ao longo da vida, mesmo sem ter de pegar num único livro. 

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‘Ouça um bom conselho, que eu lhe dou de graça…’ *

* início duma conhecida canção de Chico Buarque
 

Num livro autobiográfico, cujo nome não recordo agora, o escritor Stefan Zweig aconselha todo o principiante na arte da escrita a tentar traduzir um livro, estratagema que, a ele, terá resultado muito bem.

Também não recordo as razões porque recomenda a tradução, mas creio que sejam a inevitável reflexão sobre a estrutura da obra, a percepção da perspectiva que o autor desenvolve (entre outras possíveis), o modo como aborda e desenvolve temas e personagens.

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Lost in translation

Não recordo ainda se outra das razões porque ele recomendava a tradução teria a ver com o que talvez se possa chamar abordagem estruturalista da língua: sempre que experimento traduzir um texto, seja do familiar castelhano, seja do inglês, mesmo um incompetente usuário da gramática como eu sente o vigor, a elasticidade, a sonoridade e o amparo das regras que nos bancos de escola pareciam tão desnecessárias quanto aborrecidas.

Parece-me tentador seguir esta recomendação, não fosse o meu pessimismo sobre as ‘competências’ (na horrorosa terminologia dominante) linguísticas da maioria dos escrevinhadores actuais. Zweig é de um tempo, lugar e condição social que favorecia especialmente as ‘competências’ poliglotas e literárias.

Ao escrever num blog que pode ser lido por qualquer um das muitas dezenas de milhões de falantes da Língua Portuguesa, sem limitações geográficas, assumo o risco da redundância, repetindo-me frequentemente: o gosto de escrever e de contar estórias, fazer história ou explicar coisas, exige algum domínio formal da língua, vulgo gramática, e vocabulário.

Sem esse domínio mínimo, torna-se complicado (se bem que não impossível) ter ‘fôlego’ para pensar, estruturar e desenvolver um texto longo com valor literário.

Frequentemente, textos e projectos de livros que leio revelam carências básicas neste capítulo, sem que os escrevinhadores tenham, aparentemente, consciência do problema.

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padre: Este é o corpo de Cristo…
legenda: O momento em que qualquer criança esclarecida percebe que a espécie humana tem problemas.

E falta de leitura é outra carência comum a muitos dos que se propõe escrever, mesmo quando escrevem segundo as boas regras da gramática.

Por tudo isto, a recomendação de Stefan Zweig pode ser óptima, mas receio que inútil para a maioria de nós.

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

Livros oferecem-lhe uma perspectiva melhor

A escrita encalhada

Um horizonte (aparentemente) inalcançável para quem se inicia nas artes da escrita de longa duração é aquele em que as diversas ideias, tópicos e/ou narrativas se relacionam natural e fluentemente, ao longo da elaboração do livro.

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Para os menos afortunados, quem dera a eles ser esse o problema! Na mochila de viajante não trazem, ou entendem não trazer, matéria suficiente para encher cem páginas, reduzindo-se tudo a breves linhas duma esplêndida ideia.

Eu escreveria, se tivesse tempo.

Eu escreveria, se tivesse tempo.

Segundo as lendas e narrativas habituais do género, todo o grande escritor, famoso já ou em vias de se tornar grande, passa pelas mesmas angústias e crises de criatividade. Não é propósito, nem pretensão do escrevinhador deste blog apresentar a cura para tão insidiosa doença, pois o diagnóstico é simples e sem outro remédio do que seguir vivendo, ou seja, escrevendo.

Já aqui falei da necessária bagagem literária, também referi a simbologia da viagem e abordei a via oral, mais recentemente assumi a importância dum ambiente social e polémico.

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Tentarei, durante a semana que vem, indicar uma fuga possível ao bloqueio do escrevinhador principiante.

 

A ter em conta, quando escrever…

"Queridos Mãe e Pai. Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade de me tornar uma escritora."

“Queridos Mãe e Pai: Obrigado pela infância feliz. Vocês destruíram qualquer possibilidade que tivesse de me tornar uma escritora.”

Três tópicos para abordar a escrita de não-ficção: explicar, temperar e vaguear. Juntos ou em separado:

– a pessoa que se propõe escrever tem algo para dizer a propósito de alguma coisa, então convém que se explique ao que vai, como vai, porque vai, e outras minudências que podem incluir ainda o “porquê” ele, autor, a escrever sobre tal ou tais coisas;

– o modo como lida com o tema e outros temas que traga a propósito, o tom e o ritmo como aborda temas e como os relaciona, passando duns para outros, até à (in)conclusão final;

– a objectividade no tratamento dos temas, avançando para uma conclusão anunciada desde o início ou que o enredo vai construindo. Em qualquer dos casos acumulando factos, desenvolvendo raciocínios, citando testemunhos, estudos;

– ou a descarada subjectividade de quem fala seriamente em alhos, jamais esquecendo a importância dos bugalhos, estabelecendo afinidades, antagonismos, relacionamentos, cumplicidades, que tanto podem estar subjacentes à realidade de uns e de outros, como podem depender (quase) exclusivamente da sensibilidade de quem escreve.

Conta a experiência de vida do autor? Como não poderia contar? Para o melhor, ou para o pior, a experiência de vida de cada autor está presente de modo indelével. Até para aqueles autores moralistas, celibatários e castos, que escrevem longamente sobre as virtudes (e os perigos, claro) do amor conjugal, da vida sexual a dois, da educação da prole e outros temas assim.

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E conta, claro, a inevitável cultura, seja académica, seja bibliográfica, seja pelo convívio com outras criaturas da mesma espécie, humana ou outra. Dito de outra maneira: é preciso aprender, é preciso ler, é preciso debater. Sem dúvida, viver plenamente a vida ajuda muito. Mas isso leva a outras discussões, a começar logo pela própria pertinência e sentido desse “viver plenamente”.

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Não se trata aqui de apresentar receitas, sempre insisto em lembrar, mas de sugerir que a escrita goza duma extraordinária liberdade formal, se bem que não isente o seu autor das consequências.

Não importando agora falar das leis contra a difamação ou para proteção da moral e dos bons costumes, nada, nem ninguém, livra o autor da asneira sem o rigoroso trabalho de investigação a desenvolver pelo próprio, temperado pelo exercício saudável e profilático da autocrítica. E, mesmo assim…

Registar a oralidade no texto escrito

Apesar do escrúpulo do autor em apresentar O Malhadinhas como um “longo monólogo [que] é menos um registo do som que um registo psicológico” (nota preliminar da edição de 1958), desde as primeiras linhas até ao fim do livro o leitor é arrastado pelo coloquialismo da narração, rico em expressões proverbiais e idiomáticas que sustentam a continuação do trecho citado acima: “Reproduzir a linguagem dum rústico, já não digo com fidelidade mas artifício, redundaria num árduo e incompensável lavor literário. O que se cometeu foi filtrá-la, mais na substância do que na forma, com o cuidado, por conseguinte, de poupar ao oiro verbal as suas pepitas preciosas.”

Ao escritor não basta o ouvido familiarizado com a linguagem oral, regionalismos, calão, etc, como muitas vezes apreciamos em espontâneos contadores de histórias e anedotas. O filtro da linguagem, “mais na substância do que na forma”, permite explorar as dimensões humanas e literárias dos personagens e dos enredos que, de outro modo, teriam de ser sacrificadas em prol dum “naturalismo” que se pretende fiel à realidade retratada, nem por isso mais verídico.

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Assumindo esta opção, Aquilino coloca um aldeão sem grande instrução (ver nota 1), velhote e esperto, a entreter um grupo de homens de outra condição (ver nota 2) com a história de sua vida, oportunidade para o autor explorar tópicos de um país rural e beirão (ver nota 3), onde a coragem física (ver nota 4), a violência de macho (ver nota 5), o penhor da palavra (ver nota 6), se misturam com artes de navalha (ver nota 7) e jogo do pau (ver nota 8), manhas de feirante (ver nota 9), língua afiada (nota 10) e uma devoção popular que ultrapassa os limites da religião instituída (ver nota 11).

Não tenho cataratas nos olhos, ainda que me hajam rodado sobre o cadáver quase dois carros de anos, mas os dias de hoje não os conheço. Ponho-me a cismar e não os conheço”

Não é preciso que tenham rodado “dois carros de anos” sobre o cadáver do escritor (ou projecto de escritor) contemporâneo para poder ter tido a grata experiência de ouvir algum velhote rural ou urbano, falar com um estilo semelhante e a mesma riqueza vocabular, associados ao raciocínio inteligente ou à meditação filosófica.

Porém, para o leitor do sec.XXI  o resultado é algo estranho num primeiro tempo: a realidade descrita e a linguagem usada, juntamente com a técnica narrativa, parece dum tempo tão longínquo quanto o do protagonista do Lazarilho de Tormes (ver nota 12), cuja 1ª edição é do sec.XVI. Mas se o Portugal rural na 2ª década do sec.XX estava mais próximo dessa realidade do que da actual, Aquilino Ribeiro é uma autor intemporal que se revela na escrita, propiciando o diálogo com o leitor.

E uma das características da boa literatura é o apelo a reler, premiando o leitor com novos sentidos, novas descobertas. E o que já se sabia, ainda sabe melhor.

Choro pela minha vida de almocreve, e dessem-me hoje o machinho, tornassem-me as minhas pernas e a boa disposição, com dias grandes ou noites sem fim, não se furtava o filho de meu pai a recomeçar o fadário por Franças e Araganças. Mas ao tempo o meu pensar era outro (…). E a vida lá vai…ligeira como uma galga doida, esparvada. Já noutro diaço julguei que era chegada a minha hora. (in O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro, 1922)

Clássicos

Marco Polo “criou” o género ao escrever “As Viagens” (no original Il Milione) sobre a sua própria experiência ao longo da famosa “Rota da Seda”, de Itália à China, no século XIII.

Fernão Mendes Pinto, no sec.XVI, foi um dos mais ilustres continuadores deste género com a “Peregrinação”, relatando suas aventuras e desventuras, da Índia ao Japão, na “Rota das Especiarias”.

Muitos autores limitam-se às viagens de outros, principalmente se forem relatos fantásticos como é o caso das “Aventuras de Gulliver”, de Jonatham Swift (sec.XVIII).

Bem distinto dos anteriores, a “Epopeia de Gilgamesh” (cerca de 2500 a.C) relata a viagem desesperada de Gilgamesh à procura da Imortalidade, sem que disso tire proveito, nem alegria.

Muitos autores se inspiraram em livros como estes para recriarem suas viagens, imaginárias ou não.

Os livros são, por vezes, intoxicantes: viciam o leitor, infectam-no de ideias estranhas, abrem-lhe as “portas da percepção” (Aldous Huxley), metamorfoseando-o em alguém que quer “viver para contá-la” (G.G.Marquez), tornando-se ele próprio, autor. E, com um pouco de talento, o ciclo da contaminação prossegue.

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Vícios privados, públicas virtudes

Saber gramática, ter vocabulário, cultivar referências literárias e outras,  é essencial e faz a diferença. A escola, primária ou universitária, não são irrelevantes, longe disso!

Mas a gramática, o vocabulário, as referências, tudo isso se pode aprender e exercitar de modo quase intuitivo, se o escritor for um leitor atento e omnívoro.

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Ler bem para escrever razoavelmente

Ler, indiscutivelmente, apura o sentido da escrita. Porque a escrita exige conhecimento e prática, não há como evitá-lo.

Claro que se pode publicar o primeiro livro e ser logo bem recebido pela crítica e pelo público, mas isso nada diz dos anos de leituras e de escrita antes da publicação.

Podem-se citar mãos cheias de livros bem escritos, de autores sem preparação académica, sem ambiente familiar propício à leitura, ao estudo e à escrita, e que até falam de modo algo limitado, mas isso só reforça a ideia do excelente trabalho editorial que está na sua base.

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O gosto de ler?! Mas ler o quê?

Na literatura, que se pode dizer a este respeito?

Passando ao lado das questões da censura e moral pública, o que é a “boa” literatura? E é boa em relação a qual outra literatura?

Será indiferente falar com um apreciador dos “clássicos” ou com alguém que aprecia a literatura “cor-de-rosa”?

 

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Ler significa alguma coisa?

Sejamos claros: ler, por si mesmo, não significa cultura, conhecimento, sensibilidade, ou qualquer manifestação de abertura e curiosidade para o mundo.

Se passar a vida a ler o mesmo livro, e não estou perdido no oceano, isolado numa ilha deserta, que diz esse “hábito” de leitura a meu respeito? Que sou um cretino? Provavelmente. E que leio aquele livro por achar que contém tudo o que preciso para levar uma vida correcta e, ao mesmo tempo, me garanta algo melhor para depois da vida acabar.

Se dedicar a minha vida adulta a ler livros por razões profissionais, lamentando não ter tempo para os outros, continuo a ser um cretino? Com toda a certeza.

Se os livros que li forem aqueles da infância-adolescência (e poucos, se calhar), parte deles os que fui forçado a ler ao longo do percurso escolar, faz isso de mim um cretino? Rigorosamente, sim.

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Ainda haverá lugar para um cânone?

Não vai tão longe o tempo em que se ambicionava ler o “essencial” da literatura, constituindo-se cânones para o efeito. Com o alargamento da literatura para lá do Ocidente, com a proliferação de livros e autores no sec.XX e XXI, a tarefa torna-se inexequível.

Mas porque é importante ler? Ler o quê? Que benefício se pode retirar da leitura? Pode parecer estúpido, mas estas questões são antigas e as respostas são mais contrastadas do que parece à primeira vista. O pior, mesmo, é que mantêm a pertinência de sempre: nada é mais evidente do que o benefício da leitura, porém, lê-se pouco, quase nada.

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Tecnologia e leitura

McLuhan explicou detalhadamente a evolução dos sentidos e da consciência quando da passagem das sociedades orais para as sociedades históricas, do papiro ao pergaminho, deste à letra impressa e o advento da aldeia global gerada pelos mass media electrónicos.
Para o que nos interessa aqui, o importante é se quem escreve tem “bagagem” bibliográfica, se não tem. Que é o problema do público “culto” do sec.XXI:  formação universitária, domínio das tecnologias de comunicação, acesso a bases de dados infinitas, fruição de todas as formas de produção artística, experiências culturais colectivas catárticas, mas um conhecimento incoerente, fragmentado, inconsequente do passado.

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A (i)materialidade da escrita

Descendo ao nível que me proponho falar da escrita, citei a frase “ler é fundamental”.

Nem ler, nem escrever, são actos naturais e espontâneos como a linguagem: exigem, tal como ela, aprendizagem. Mas, ao contrário dela, não são necessários para a sociedade humana prosperar.

Através da linguagem, o humano passa do reino da natureza para o cultural; da linguagem à escrita-leitura, a palavra ganha materialidade, permanecendo mesmo depois de todas as vozes se calarem. Daí o medo gerado no início duma era em que a palavra se torna, cada vez mais, uma realidade virtual, desaparecendo com a falta de energia duma bateria ou da ligação à internet.

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Ler é fundamental

A paixão que falo também pode ser tão serena como um koan, alimentando-se dum grãozinho de loucura que desequilibra toda a expectativa, sem trair o propósito do autor.

Por ela, podem se passar anos a trabalhar o texto, polindo da frase a adjectivação e aguçando-a com verbos intransitivos.

Sim, apesar de haver inúmeros exemplos de poetas e narradores analfabetos, para escrever faz diferença conhecer a língua escrita, uma outra forma de dizer que “ler é fundamental”.

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