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Rever, reescrever, restruturar

Por melhores que sejam as intenções, o escrevinhador que pede a opinião alheia sobre a obra, acabada ou não, raramente encaixa as críticas, mas não tem qualquer problema em escutar elogios. Como resultado, só pode contar com o seu sentido crítico (neste caso autocrítico) para poder corrigir e evoluir.

Feito o inventário dos vícios e das virtudes, reunindo os principais traços das paixões, traçando os personagens, elegendo os acontecimentos primordiais, compondo os tipos por meio da reunião dos rasgos de vários personagens homogéneos, talvez pudesse chegar a escrever a história negligenciada por tantos historiadores: a dos costumes (…) (1)

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Se uns resistem a qualquer sugestão ou reparo crítico, outros confessam a sua incapacidade e desinteresse em alterar seja o que for. O que é compreensível, já que a escrita deixa sequelas, é sujeita a períodos de sofrimento e indecisão, e pode se tornar um imenso alívio ter-lhe dado fim. Por isso é comparável ao trabalho de parto. Indevidamente, porém: na escrita, o parto pode ser prolongado mesmo depois de publicadas várias edições do mesmo livro. E com melhores resultados, muitas vezes.

Instintivamente, a questão põe-se por si mesma: Para quem é isto feito? A quem pode agradar? (…) É dito que é tudo feito a bem da arte, e que a arte é algo de muito importante. (…) (2)

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É neste aspecto que se pode distinguir a escrita catártica da escrita assumidamente literária.

Certas almas manifestam a sua debilidade radical quando não conseguem se interessar por uma coisa se não acreditarem de que ela toda é o que há de melhor do mundo. (3)

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No primeiro caso, o escrevinhador tem necessidade, urgência, pulsão, em botar por escrito ideias que o atormentam, fantasmas do passado, anseios e sonhos falidos ou irrealizados (ou, simplesmente, contar uma estória, compor um poema). No segundo caso, sob a pressão (ou não) de tudo aquilo, o escrevinhador pretende que a escrita seja filtrada por um registo formal (linguístico, narrativo), ou seja, que esteja subordinada a critérios de exigência, peso e medida, para que se torne, creio eu, um prazer para quem lê e para quem escreve.

Negligenciei até agora a questão da forma no escritor naturalista, pois é ela que, precisamente,  singulariza a literatura. Não só o génio, para o escritor, se encontra no sentimento, na ideia a priori, mas também na forma, no estilo. (4)

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Mesmo que aplique filtros, o escrevinhador expõe-se às fórmulas estereotipadas, a desequilíbrios penosos, à ausência de ritmo, densidade e assunto. Que seja capaz de formular uma avaliação crítica sobre o que escreve e de justificar suas opções, resistindo às pressões da crítica alheia, pode ser um acto de resistência, autoconfiança e digno de merecido reconhecimento póstumo. Mas o esforço é sempre exigido por uma questão de simples bom senso.

Do arranjo das palavras adequadas, o que é simultaneamente arabesco e sensual, até à arquitectura da frase elegante e prenhe de sentido, o que é um acto vigoroso do intelecto puro, não há praticamente nenhuma faculdade humana que não seja exercitada. Não nos temos de espantar, portanto, de que frases perfeitas sejam raras, e páginas perfeitas mais raras ainda. (5)

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Ora, esse bom senso é prejudicado, geralmente, por uma imensa fadiga pós-criativa que acomete o escrevinhador ou pela simples indigência auto-suficiente de quem não tem sequer noção das tarefas de revisão que se impõe.

(Se soubesses se soubesses/quão triste a rosa guardada/ entre as páginas/ dos versos) (6)

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Conforme já tenho dito, essa fase não é menos criativa, não é menos estimulante (pessoalmente é a minha preferida) e não necessita recorrer a terceiros (embora sejam muito úteis leituras críticas).

Li o teu livro, Amor, sofregamente;/Li-o, e nele em vão me procurei!/ No teu livro d’amor não me encontrei,/ Tendo lá encontrado toda a gente. (7)

"Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade"

“Queres a verdade? Tu não consegues lidar com a verdade!”

Também nesta fase se tornam especialmente importantes as leituras com que o escrevinhador tenha alimentado a sua sensibilidade, pois daí lhe poderão ser fornecidos técnicas e recursos valiosos. No fundo, o desafio de ir mais além.

A nossa falta de familiaridade com o que é realmente excelente é a explicação pela qual tantos têm prazer no que é estúpido e insípido, somente por ser novidade. Deveríamos ter o hábito de ouvir, diariamente, alguma canção bonita, ler um bom poema, contemplar um quadro maravilhoso e, se possível, dizer algumas palavras tocantes. (8)

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Quando Clarence e Gilda decidiram trabalhar menos depois dos 50’s e divertirem-se, descobriram que eram, realmente, pessoas extremamente aborrecidas.

 

(1) in ‘Prologue’ à 1ª edição da La Comédie Humaine, de Honoré de Balzac

(2) in O que é a Arte?, de Leo Tolstoi, trad. (do russo para o inglês) Aylmer Maude ed.Thomas Y. Crowell & Co

(3) in Meditaciones, de Ortega y Gasset ed.Publicaciones de la Residencia de Estudiantes

(4) in Le Roman Experimental, de Émile Zola ed.Bibliothèque-Charpentier

(5) in Essays in the Art of Writing, de Robert L.Steveson ed.Chatto & Windus

(6) in ‘Capa’ Rapsódica de Stella Leonardos ed. Orfeu

(7)  in ‘O teu Livro’ Livro do Nosso Amor, de Florbela Espanca ed.Bertrand

(8) in A Aprendizagem e as Viagens de Wilhelm Meister de Johann W. Goethe, trad.Thomas Carlyle The Project Gutemberg eBooks

 

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Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

FERNANDO VICENTE

cartoon de Fernando Vicente

O Passado presente

Situar o enredo numa época passada é um dos aliciantes da escrita, encantando leitores. Ou, muito pelo contrário, o maior fiasco para quem escreve e pura perda de tempo para quem lê.

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Qualquer narrativa tem um contexto, e se este  remete explicitamente o leitor para uma época histórica (ou mesmo pré-histórica) existem dificuldades que o escrevinhador não deverá negligenciar. A maior de todas, na minha opinião, é a da linguagem falada pelas personagens. Não se trata só do vocabulário e da sintaxe características da época e de que, muitas vezes, só podemos imaginar, mas do modo como se articulam ideias, raciocínios ou se expressam emoções.

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O problema central é o do chamado ‘anacronismo’, o erro de atribuir algo (uma ideia, um preconceito, um facto) a uma época que não corresponde. Esse é um erro que acontece na melhor literatura, mas tende a ser comum entre os que se dedicam a produzir narrativas segundo formatos estereotipados.

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA? Serpente: 'Maldito sejas,Homem-Aranha!'

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA?
Serpente: ‘Maldito sejas,Homem-Aranha!’

Os chamados ‘romances históricos’ podem ser boas surpresas, mas frequentemente pecam por desleixo na caracterização (de lugares e de pessoas), no conhecimento do ambiente social, cultural, político, ou pelo excesso de descrições e informações; e tudo acompanhado de diálogos ‘empastelados’ para dar o ‘tom’ da época.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Que o enredo vá ao arrepio da ‘verdade histórica’ é uma liberdade típica do escrevinhador, já que se trata de ficção assumida. A questão é a de dar verosimilhança, criar personagens ‘de carne e osso’ (mesmo que sejam fantásticas) e manter o ritmo, o fôlego narrativo, tudo aspectos comuns a qualquer escrita com pretensões literárias.

Ora, isto tanto é pertinente para um enredo situado no outro lado do mundo, mil anos atrás, como à porta de casa do escrevinhador, há cem ou dez anos, ou ainda na semana passada. Mas, convenhamos: o que nos é distante e estranho deveria obrigar-nos a um maior estudo e cuidado na composição.

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Ainda (e sempre) a sedução…

O grande desafio que a escrita coloca à expressão das emoções é o da combinação dos limites da linguagem (facial, gestual, oral) com os limites (ainda mais apertados) da Língua, para depois serem ainda mais limitados pela própria escrita. (ler mais neste outro post)

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Nada que o comum dos mortais, desde pequenino, não tenha experimentado à sua própria custa e que se resume numa frase igualmente comum: ‘não sei como dizer isto, mas…’.

Pergunto-me se o músico ou o pintor sofrerão de idêntico problema: a paleta de cores ou as pautas também pecam por defeito na altura de exprimir emoções?

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Curiosamente, a dança (em sentido geral) não me parece sofrer qualquer limitação e ser o veículo por excelência da expressão das emoções.

E o teatro, claro, pela sua capacidade de integrar todas as outras artes.

Mas a escrita? A escrita impõe os limites acima referidos e só pelo engenho poético consegue iludi-los, que não é o mesmo que superá-los. (a este respeito, ler mais aqui)

Dito isto, é com facilidade que a emoção (ou o sentimento) tanto pode sofrer graves amputações na expressão literária, como, pelo contrário, abafá-la. (ler este post, para melhor entender)

A Ameaça, de René Margritte

A Ameaça, de René Margritte

Daí não ser por piada que insisto tanto na sedução da bela Musa: dela vem a inspiração, do escrevinhador sai a emoção-sentimento, e entre ambos resulta a composição.

 

Expressividade

Foi aqui dito já que a pretensão de reproduzir a linguagem oral tal como ela é através da escrita é o maior dos artifícios.

E um artifício complexo, aliás, como se pode ler em páginas e páginas de alguma literatura de hipermercado: diálogos abundantes onde personagens estereotipadas reproduzem frases feitas, expressões supostamente populares em certos meios, etc. Resultado de um enredo banal e da ausência duma ideia, provavelmente. Por vezes perde-se um tema potencialmente interessante. O que não é sinónimo de fracasso comercial.

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Quando uso a expressão ‘literatura de hipermercado’ não significa que seja um fenómeno recente. Desde o sec.XVIII, pelo menos, o mundo literário foi ganhando espaço e leitores pela via dos ‘estados de alma’ mais apelativos; ora, que melhor maneira de os expressar do que utilizando diálogos ‘expressivos’?

“-Cala-te, Sancho,’ disse dom Quixote’ e não interrompas o senhor bacharel, a quem suplico que prossiga em dizer-me o que se diz de mim na referida história.

-E de mim ‘disse Sancho’ que também dizem que sou eu um dos principais presonagens dela.

Personagens, que não presonagens, Sancho amigo. ‘disse Sansão.’

-Temos outro a corrigir voquíbulos por aqui? ‘disse Sancho’ Pois despache-se lá com isso, ou nunca mais acabamos em toda a vida.”

(in Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes)

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Por outro lado, na falta de outros recursos narrativos, o escrevinhador sente-se mais à vontade orientando o enredo através do confronto das personagens, dando pouco ou nenhum espaço ao contexto. O que pode nem ser muito mau, atendendo a alguns tijolos onde, a propósito do contexto, o escrevinhador se embrulha em descrições e erudições que podem ser fatais para a dinâmica narrativa.

“(…)um silêncio pode servir para excluir certas palavras ou então para as manter de reserva, para que possam ser usadas em melhor ocasião. Assim como uma palavra dita agora pode fazer poupar cem, amanhã, ou, então, obrigar a dizer outras mil. De cada vez que mordo a língua, conclui mentalmente Palomar, tenho que pensar não só naquilo que estou para dizer ou não dizer, mas também em tudo aquilo que se eu digo ou não digo será dito ou não dito por mim ou pelos outros. Tendo formulado este pensamento, o senhor Palomar morde a língua e permanece em silêncio.”

(in Palomar de Italo Calvino, tradução de João Reis, ed.Teorema)
"Desejava ter mais imaginação"

“Desejava ter melhor imaginação”

Tendo o escrevinhador maior inclinação para a construção de diálogos, ficando até sem saber como preencher os espaços entre ‘cenas’, talvez lhe seja mais cómodo recorrer a uma narrativa na primeira pessoa, onde alguém assume o relato e pode ter liberdades próprias da linguagem oral.

“Tinha então pouco mais de dezassete…Aqui devia ser o meio do livro, mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego quase ao fim do papel com o melhor da narração por dizer. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas, capítulo sobre capítulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em resumo. Já esta página vale por meses, outras valerão por anos, e assim chegarei ao fim. Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezassete anos. Não sei se alguma vez tiveste dezassete anos. Se sim, deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino forma um só curioso. Eu era um curiosíssimo (…).”

(in Dom Casmurro de Machado de Assis)

A escrita artificial

Mais visíveis na poesia do que na prosa, os artifícios literários surgem ‘naturalmente’ por razões que se prendem à bagagem cultural do escrevinhador.

(…) Os/ duendes/ que protegem a escrita adoram, pois, pormenores,/ porém na batalha dos doze contra doze/ o que há a dizer é só isto:/ venceram os defensores das mulheres de longa biografia/e de recursos eróticos infindáveis. Venceram uns e/  umas; perderam os outros. (in Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, ed.Caminho)

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Pode-se contrapor o ‘artifício’ ao ‘natural’ no sentido de ser algo feito pelo Homem em vez de produzido ou gerado naturalmente. Assim, não faz sentido polemizar se o texto caracteriza-se por ser livre de artifícios literários ou, pelo contrário, não usar uma linguagem espontânea e natural.

Oral e escrita, a tradição literária contamina todo a comunicação e não é difícil encontrar artifícios literários eruditos nas expressões mais populares.

"Maldito sejas, pássaro madrugador!"

“Maldito sejas, pássaro madrugador!”

O que os torna artificiais, no sentido comum de postiço ou falso, são o uso fora de contexto e o abuso, que tanto podem se dever ao pedantismo como à ignorância do escrevinhador. Frequentemente, são usados de modo estereotipado e até inconsciente, prejudicando o texto.

Usados com critério são uma das marcas do texto literário, o qual se distingue da linguagem comum, da publicidade e dum sms por não ter utilidade evidente, nem ser sujeito a análise contabilista.

O atropelamento de animais na estrada pode ter consequências ainda mais graves.

O atropelamento de animais na estrada pode ter consequências ainda mais graves.

Os artifícios literários serão, provavelmente, tanto mais interessantes quando surgem espontaneamente e como expressão adequada do estilo, do propósito e do tema. O que, geralmente, está na proporção directa da tal ‘bagagem’ que cada escrevinhador carrega consigo.

(…) Como se atinge a respiração? Decorativa pessoa,/ adormecida luminosidade de mãos, pássaros que a flor /abre por dentro./ Manchas de algures no céu da boca. (Fragmentos in Nos Braços da Exígua Luz de Nuno Júdice  Obras Completas 1972-1985 ed.Quetzal)

"Sou uma abominação da lei de Deus!"

Sou uma abominação da lei de Deus!

Claro, quando o escrevinhador se sente confiante para desenvolver o estilo que dará corpo a um propósito, os artifícios tornam-se parte essencial do tema.

(…) Prouvera que ele morra, que eu quero ser rei e dormir com vossa majestade, já estou farto de ser infante, Farta estou de ser rainha e não posso ser outra coisa, assim como assim, vou rezando para que se salve o meu marido, não vá ser pior outro que venha. Acha então vossa majestade que eu seria pior marido que meu irmão, Maus são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem, e com esta sábia e céptica sentença se concluiu a conversação em palácio, primeira das muitas com que D.Francisco fatigará a rainha, (…) (in Memorial do Convento de José Saramago, ed.Caminho)

Questões de estilo

Uma das marcas típicas do tempo que passa é o modo como o escrevinhador se exprime. Chamemos ‘estilo’ então, para simplificar.

Por exemplo: estilo (ou falta dele) no uso da linguagem.

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Textos que reflectem um universo de referências literárias anacrónicas, como se as leituras tivessem parado a partir duma certa idade e deixassem de evoluir, sem se enriquecerem com outras referências. Pedantes ou simplórios utilizando um fraseado de cartão, palavras em desuso e esdrúxulas, numa teia de ideias feitas.

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Ou textos que desesperam por ser ‘actuais’, pretendendo usar fórmulas igualmente estereotipadas do que se julga ser a linguagem comum, do dia-a-dia, de certos meios, de alguma gente, de toda a gente. Tipificando em excesso, negando à personagem autonomia.

E a necessidade comum em moralizar, apontar o dedo, dando por adquiridos valores, dicotomias, verdades. Mesmo que seja num registo em negativo, invertendo as regras, supostamente escandaloso.

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Em qualquer dos casos o escrevinhador precisa urgentemente de escancarar a janela e descobrir horizontes, abrir a porta e correr mundo, descobrir leituras de outras latitudes, viver um outro tempo, experimentar outras dimensões. Ah, sim!…a metáfora da viagem.

-Não sei

-Não sei, Gary…eles não são digitais. Parece que estamos numa região do mundo por revelar.

Mas o problema, a meu ver, está em se aperceber desse estado incipiente, imaturo…onde o espelho para reflectir a imagem crítica? Onde o crítico para oferecer uma avaliação discutível? Onde o impulso criador para não se conformar?

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-De acordo com os resultados do teste não tem nenhuma desordem de personalidade anti-social. O que revelou é que você é somente um parvalhão.

A (i)materialidade da escrita

Descendo ao nível que me proponho falar da escrita, citei a frase “ler é fundamental”.

Nem ler, nem escrever, são actos naturais e espontâneos como a linguagem: exigem, tal como ela, aprendizagem. Mas, ao contrário dela, não são necessários para a sociedade humana prosperar.

Através da linguagem, o humano passa do reino da natureza para o cultural; da linguagem à escrita-leitura, a palavra ganha materialidade, permanecendo mesmo depois de todas as vozes se calarem. Daí o medo gerado no início duma era em que a palavra se torna, cada vez mais, uma realidade virtual, desaparecendo com a falta de energia duma bateria ou da ligação à internet.

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