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Tag: literatura de viagens

Perspectiva (s)

Escrever poesia ou ficção não esgota a ânsia literária de muito escrevinhador, levando-o esta pelo roteiro das memórias e dos percursos temáticos, por exemplo.

As memórias duma época são sempre valiosas como documento, por muito parciais ou limitadas que se venham a revelar, assim como os percursos de uma vida ou de uma região do mundo. Umas vezes pelo que dizem, muitas vezes pelo que omitem e tantas mais pelo modo como o fazem.

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cartoon de Angeli

Quanto a ter qualidade ou valor literário já é outra história.

A qualidade da redacção é algo que me dispenso salientar, embora o problema não se colocasse com a mesma acuidade há mil, cem anos atrás, como se coloca hoje em dia em sociedades hiperalfabetizadas (neologismo com que pretendo indicar a proliferação do signo linguístico escrito) sem suporte de formação literária por parte dos utentes: numa sociedade de maioria analfabeta, a escrita é relativamente rara e a expressão de conteúdos (ideológicos, sentimentais, outros) torna-se mais relevante do que a qualidade da escrita; mas se a maioria for alfabetizada e existir massificação de mensagens escritas, a forma como se redige torna-se ela própria um conteúdo que afecta a credibilidade do escrevinhador e o interesse da mensagem.

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imagem de Chema Madoz

O que verifico, com bastante frequência, é a capacidade de redigir textos bem escritos sem planificação adequada da obra, nem ponderação sobre os conteúdos expressos.

Um exemplo: livros dedicados a apresentar uma região, uma cidade, um país. Trata-se duma temática das mais antigas em Literatura, com variantes enormes e sempre aberta a ‘inovações’ formais. Inclusive, cada escrevinhador pode explorar a perspectiva pessoal que sua vida, sua experiência —únicas, portanto— lhe proporcionam, independentemente da correcção das observações ou do bom senso dos juízos expressos.

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cartoon de Angeli

Porém, sob um título que pretende abarcar o tema de modo geral e descritivo, o escrevinhador arrisca-se a desenvolver detalhes (mais ou menos relevantes, por vezes irrelevantes), enquanto deixa no silêncio, ou passa pela rama, lugares ou factos centrais na abordagem do tema. Há todo um mundo de diferenças entre a expectativa criada sobre um título como ‘O Planeta Terra’ e um outro livro intitulado ‘O Planeta Terra (que conheci)’, e aí joga muito a notoriedade do escrevinhador, sua relação com o tema, seu contexto, etc.

O que não me parece eficaz é misturar poemas (da própria autoria), desenvolver páginas de impressões oníricas que a paisagem ou o monumento sugeriram ao escrevinhador, referir pessoas ou acontecimentos numa óptica muito pessoal, entre outras páginas de conteúdo objectivamente pertinente. O risco está no desequilíbrio, obviamente.

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cartoon de David Irvine

Provavelmente, o escrevinhador reúne material diverso que produziu a respeito do mesmo tema, ao longo de anos, e não tem o cuidado suficiente em adaptá-lo de modo a dar-lhe a unidade de estilo e a integração no plano proposto. É possível, até, que tenha material para duas obras distintas sobre o tema: uma mais ‘poética’ ou pessoal, a outra mais documental, expositiva.

Assim, trata-se duma questão de perspectiva, sob a qual se integram o tema, o plano da obra, o desenvolvimento dos conteúdos, o estilo da escrita. Ou multiplicam-se as perspectivas, baralhando tudo de modo eventualmente desastrado.

Porém, com algum esforço e método, a Musa poderá beijá-lo e resultará uma obra de fôlego literário, como são exemplo tantos relatos de viagens, descrições de lugares e roteiros de percursos.

FERNANDO VICENTE

cartoon de Fernando Vicente

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Temas duma época: o Verão

Há uma agitação editorial que se associa ao Verão, ao tempo de férias e de praia, expressa por publicações ‘light’, supostamente divertidas e da autoria de ‘famosos’, pela edição de best-sellers de autores já conhecidos, e coisas assim para ajudar a passar o tempo sem o ocupar: a antítese da paixão de ler, realmente.

Enviar SMS's enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Enviar SMS’s enquanto conduz não é tão perigoso, nem tão criativamente gratificante, como pintar paisagens enquanto conduz.

Ao Verão associam-se temas como as viagens de lazer e descoberta, os regressos e reencontros que trazem memórias de outros Verões, artes de sedução, episódios festivos. Muito para além do registo lamecha ou do pseudo-transgressor, existem bons exemplos de estórias centradas nos encontros e desencontros da época.

Paralelamente, há escrevinhadores que desenvolvem temas mais introvertidos e controversos: a solidão voluntária ou sofrida, a pausa para reflexão, a fuga à rotina ou a imersão na rotina própria da temporada, o tédio existencial e a miragem duma vida-outra.

'Nighthawks', Edward Hopper

‘Nighthawks’, Edward Hopper

Porém, é bom recordar que o Verão não se resume a um período de lazer. No passado longínquo, como no recente, as guerras europeias têm tendência a começar nesta época: primeira e segunda grande guerra, guerras civis de Espanha e da Jugoslávia, para ficar só pelos sec.XX e XXI. E no tempo em que as actividades rurais ocupavam a maior parte da população, os latifúndios exigiam o trabalho sazonal de migrantes em grande número, sendo o tempo de Verão especialmente penoso, ainda que pudesse ser visto numa tonalidade dourada e nostálgica.

Ou seja, trata-se duma época dotada para a escrita que privilegie a ambiguidade, o contraste entre as expectativas e o vivido, onde as personagens podem ser abordadas numa perspectiva caricata e, simultâneamente, humana como é próprio dum certo tipo de ironia.

-Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.

“Não sou viciado no trabalho. Só trabalho para relaxar.”

O que traz, no fundo, uma boa dose de complexidade ao enredo, mesmo que se limite ao registo de uns pouco dias de Verão na vida de alguém.

Limites do estereótipo, ilimitados horizontes da literatura

Como bem repararam leitores deste blog, provavelmente vivendo noutras latitudes que não a minha, o mês de Dezembro pode significar mais calor, mais horas de luz solar, sendo fim-de-ano e época de Natal na mesma. O que ilustra na perfeição como somos condicionados pelo nosso pequeno mundo e pelos estereótipos dominantes.

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Pergunto, então, como é que a literatura tem lidado com a quadra nessas latitudes mais baixas? Quase arrisco dizer que não é tópico muito relevante, mas confesso minha ignorância.

Certamente, a tradição do presépio e das estórias associadas estão vivas e presentes em contos, poemas, mas…qual será a tendência nestes últimos, vá lá, 50 anos*? O imaginário comercial do Papai Noel, do pinheiro enfeitado e da neve artificial não me parecem suficientes para inspirar a criação literária, mas podem ter o efeito de esterilizar a tradição.

-Quem és tu e porque haveriamos de querer uma foto dele contigo?

-Quem és tu e porque haveríamos de querer uma foto dele contigo?

Mesmo assim, continuo a ter uma perspectiva naturalmente etnocêntrica, pois nada digo daquelas regiões onde boa parte da população, senão mesmo a grande maioria, não partilha o imaginário cristão, nem o calendário gregoriano. Será que suas literaturas orais e escritas estão completamente alheias aos temas de Dezembro?

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Volto a repetir a minha absoluta ignorância sobre tudo isso, mas adivinho aqui excelentes temas para um escrevinhador aprofundar e desenvolver.

* Ou década de 60 do sec.XX, em que a Televisão iniciou a conquista de todos os lares (para não dizer de todas as divisões da casa)
 e de todo o espaço público.

Escrever como quem vagueia

Caminhos escritos com um horizonte longínquo cada vez mais perto, mas ao qual nunca chegamos. E a que sempre regressamos. O pretexto como se desenvolvem outros temas à volta do tema central, numa espécie de peregrinação ou viagem cujo destino final é conhecido, mas que o leitor nem pode imaginar qual seja sem chegar ao fim. Paradoxal? Claro que sim. 

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“Nenhum autor foi ferido ou maltratado na preparação desta história.”

Neste caso, o livro que me ocorre com mais nitidez é um outro título falsamente “geográfico”: Danúbio, de Cláudio Magris (ed.Quetzal). Bem, talvez eu esteja a exagerar um pouco, afinal o início do livro coincide com o início do rio Danúbio (a busca da nascente mítica e a verdadeira); e depois acompanhamos o autor ao longo do curso das águas (quase 2900 km) até à foz.

Mas cedo descobrimos que o rio é pretexto, senão metonímia,  duma aventura cultural: a cultura centro-europeia (Mitteleuropa).

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E até as longínquas águas do Tejo reforçam a corrente da bacia cultural do Danúbio: “Utilizar o termo ‘empregado’ como uma injúria não passa duma vulgaridade banal: pelo menos Pessoa e Svevo teriam acolhido o empregado como um justo atributo do poeta. Este não se parece com Aquiles ou Diomedes, que se enfurecem nos seus carros de guerra, mas antes com Ulisses, que sabe não ser ninguém”. 

E mais adiante, continua: “Kafka e Pessoa viajam não até ao fim duma noite tenebrosa, mas de uma mediocridade incolor ainda mais inquietante, na qual damos conta de ser apenas um cabide da vida e no fundo da qual pode haver, graças a essa consciência, uma extrema resistência da verdade.” O curioso contraponto que estabelece à ‘viagem’ de Kafka e Pessoa são a banalidade do mal, a guerra total, a mentira odiosa, a hipocrisia.

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Mas não é do Danúbio que falamos? Não te impacientes, leitor(a): o homem é um professor de Línguas e Literaturas Germânicas e desce a corrente do rio para nos propor conhecer uma paisagem menos evidente. A dado passo diz que para o autor romeno  Mihail Sadoveanu, é “…como se o Danúbio levasse para o mar e espalhasse à sua volta, galgando as margens, destroços de séculos e de civilizações.

Remota fronteira do Império Romano, fronteira belicosa entre os Impérios Austro-Húngaro e o Turco, fortíssima corrente que une países, que nem assentam nas suas margens, numa história comum, este rio imenso arrasta o autor para as águas que lhe são familiares e preferidas, e com ele o leitor que se deixe fascinar por esta viagem pela cultura europeia.

Em sua defesa, a citação do austríaco Franz Tumler: “Escrever sobre o Danúbio não é fácil, porque o rio flui contínuo e indistinto, ignorando as proposições e a linguagem que articulam e cindem a unidade do vivido.”

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Há quem escreva como quem navega, bússola e mapas debaixo do olho, rumo ao incerto horizonte.

E quem escreva como o rio que vagueia sinuoso, depositando sedimentos aqui, arrastando tudo nas águas violentas ali, desaparecendo da superfície por momentos, e logo reaparecendo mais adiante. Por vezes, sua nascente perde-se no tempo, assim como desagua no mar através dum delta tão variável, quanto impreciso.

Ou como contava aquele empregado do patrão Vasques: “Devaneio entre Cascais e Lisboa. (…) Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação dessas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho do visível. (…) O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.” (Livro do Desassossego, de Bernardo Soares)

 

Escrever como tempero

A abordagem enciclopédica, transmitida através duma linguagem simultaneamente poética e rigorosa, pode levar o autor a desenvolver o tema de modo caleidoscópico. Ou como quem tempera alegremente o prato favorito.

Escrevo estas linhas pensando num dos livros que mais me tocaram: Breviário Mediterrânico, de Pedrag Matvejevitch (ed.Quetzal).

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Um livro sobre geografia, portanto, em que o autor começa por dizer, logo na primeira linha: “Não sabemos ao certo até onde vai o Mediterrâneo, nem que parte do litoral ocupa, nem onde acaba, tanto em terra como no mar.” Pode-se ser, simultaneamente, mais claro e preciso? E mais adiante, acrescenta: “O Mediterrâneo não é apenas uma geografia.”

Claramente, não é um geógrafo a falar, nem mesmo um historiador como Fernand Braudel a situar o tempo de Filipe II no espaço mediterrânico (ou vice-versa): “ A veemência meridional introduz, tanto nos palavrões populares como nas blasfémias puníveis com o inferno, uma parte maior ou menor do corpo, e às vezes o corpo inteiro, exibindo-o ou fingindo oferecê-lo”. Como quem diz: as palavras têm cores, sabores e nutrientes.

Pedrag Matvejevitch é um professor de literatura francesa que escreve sobre o Mediterrâneo…que há mesmo a esperar saído dum autor assim sobre um assunto que lhe é tão estranho, não é mesmo? “Quanto mais conhecemos o Mediterrâneo, menos o vemos apenas com os nossos olhos: este mar não é de solidão.”

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Escrever como quem prepara uma sopa de pedra…

Contaminar pela escrita

Uma “habilidade” do bom texto é o de equilibrar a composição ao não exceder as proporções do acessório em relação ao essencial, o que significa que devo definir o tema central e tudo o mais gira à volta, valorizando-o. Isso tem implicações óbvias no número de palavras que dedico a cada um dos “acessórios”.

Se o objectivo é falar duma tal região, com seus monumentos, gentes, povoações e paisagens, segundo o itinerário que o autor se impôs, com acidentes de percurso e anedotas incluídos, faz todo o sentido que partilhemos o gosto, as preferências e o olhar de quem vagueia por estes caminhos.

O relato não é não tem de ser uma ficha técnica: há uma motivação particular, uma expectativa inicial, o desenrolar dum programa e, finalmente, a conclusão que pode ser a desejada, e que normalmente fica aquém disso. Por vezes sofre sérias desilusões e irritações.

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Partilhar tudo isso pode ser interessante e suficientemente motivador para o próprio leitor desejar empreender idêntica peregrinação.  Contaminar o leitor com a inquietação e o desejo, haverá maior medida de sucesso para o autor?

As “informações didácticas” são perfeitamente pertinentes, quando esclarecedoras e necessárias à explicação do plano da viagem, à descrição visual, ao entendimento de usos e costumes locais. Sem pretensões enciclopédicas, nem “cópia-e-cola” dum artigo da wikipédia. Nem medo de tratar com profundidade aquilo que não se desvela com uma incipiente abordagem.

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Pessoalmente, motivam-me todas as informações, mais ou menos eruditas, que abram horizontes, sugiram outras pistas de leitura, seduzindo-me a partilhar o universo das paixões do autor. E não se trata só do texto: um bom trabalho de fotografia pode ilustrar brilhantemente o que duas ou três linhas (ou todo um capítulo) pretende dizer ou sugerir.

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Daí que o género “livro de viagens” tanto seja um desafio ao leitor, como uma aventura para o autor.

Viajar é preciso

Já é uma tradição antiga desconfiar da veracidade do conteúdo dos livros de viagem, senão na totalidade, pelo menos de certas passagens aparentemente fabulosas. O que é tanto mais extraordinário nas épocas em que o mito, a religião e a lenda se cruzavam indiferenciadamente no conhecimento histórico e geográfico da época.

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O trabalho de autores escrupulosos e a necessidade prática de usar esses relatos para futuras viagens terá aguçado o espírito crítico destas leituras. Porém, se já faz algum tempo que se torna inverosímil relatar que em determinadas zonas da Terra existem dragões ou homens sem cabeça, outros problemas se colocam na apreciação da literatura de viagem.

Nomeadamente preconceitos sexistas, etnocêntricos, racistas, entre outros, distorcem de maneira mais ou menos evidente factos e observações, graças à peculiar lente pela qual o observador narra suas viagens. O termo “orientalismo” foi crismado por Edward Said para criticar o olhar europeu (ou Ocidental) sobre outras culturas e povos.

Daí ser legítimo perguntar que necessidade terá o autor dum livro de viagens de acrescentar alguma ficção, mesmo que de modo evidente e assumido. Tornar a leitura mais interessante? Certamente, mas porque não tornar interessante, ou mais interessante, o relato propriamente dito?

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É como se fosse preciso viajar até aos antípodas e visitar aldeias de canibais para se poder escrever sobre alguma coisa que motive a leitura. De facto, o mundo está cada vez mais pequeno, somos cada vez mais os que viajamos entre continentes, todos temos histórias sobre os mesmos sítios exóticos. E fotos e vídeos para ilustrar.

Aí está um desafio para quem escreve sobre suas viagens: abordar o já conhecido por um ângulo diferente, com a sensibilidade própria, sem com isso ceder ao preconceito. O facto de se fazerem certos percursos de comboio, de bicicleta ou à boleia já marca uma diferença em relação ao automóvel ou ao avião; a interação com os outros é sempre diferente de pessoa para pessoa, conforme todos nos podemos aperceber na nossa vida quotidiana. O sentido de observação, o humor, a cultura, fazem a diferença entre relatos sobre a mesma realidade.

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Admito que certos roteiros possam desviar o autor para um registo mais confessional, introspectivo, levando-o a fantasiar (seja sobre uma pedra enorme na encosta dum monte, seja sobre o brilho dum sorriso que se cruze com ele no caminho), e que a escolha de certos temas de viagem (o Caminho de Santiago, a vida desta ou daquela personalidade das artes ou da história, os bares de praia da costa algarvia) seja um incentivo a divagações e porque não? a ficções.

Se, a páginas tantas duma viagem de comboio, o autor acorda entre duas estações e, à sua frente, estão sentados uma bela rapariga ou um senhor distinto e impecavelmente vestido que, em ambos os casos, lhe prometem uma série de benesses em troca duma gota de sangue para firmar um contrato, porque hei-de duvidar, por um instante que seja, da verdade desse relato? Haverá alguém a quem não tenha acontecido algo semelhante?

“vamo-nos sentir realizados e satisfeitos, finalmente?”

Escrevem-se bons livros tendo o tema da viagem como pretexto: real ou imaginária, atravessando regiões imensas ou sem se sair de casa, procurando a objectividade ou assumindo a mais descarada subjectividade.

E ainda podendo assumir o tema para o contrariar e fazer a apologia do oposto a viajar.

Ou descobrindo que a verdadeira viagem é através de um continente no interior de si próprio.

Em todo o caso, creio que as obras de referência, aquelas que nos marcam, são as que nos levam à conclusão que tirou o norte-americano Walt Whitman ao olhar para o céu estrelado, imaginando o que acontecerá quando a Humanidade chegar a todos esses astros distantes: “(…) vamo-nos sentir realizados e satisfeitos, finalmente? /E o meu espírito disse Não, iremos atingir esse nível para passar e continuar adiante.” (in Song of myself 1855)

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a viagem como metáfora

Não surpreende, assim, que viajar se torne sinónimo de “transformação”, metáfora da “iniciação” aos antigos saberes ocultos (ou perdidos).

Ou seja um modo de narrar o amadurecimento, a abertura ao mundo (na sua pluralidade, nas suas diferenças). E, também, uma mudança arriscada, indesejada, que traz perigo e ameaça a integridade, física e psicológica, do viajante.

Também  há os relatos de viagens estereotipados, seja na versão lúdica das férias na praia, seja na literatura dos mistérios de antanho em versão new age: a mistura do disparate, do preconceito cultural, do kitsch, da ignorância boçal, das pretensões eruditas, etc, etc.

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Um tipo de livro que facilmente se torna obsoleto é o relato de viagens, seja na forma de guia, seja na forma narrativa. As razões são óbvias: quanto mais espaço der ao detalhe (estradas, preços, lojas, hotelaria), mais depressa se desactualizará.
Porém, a literatura universal é rica em relatos de viagens (e viajantes) que continuam a fascinar os leitores, mesmo alguns milhares de anos depois.

Também não há nisso qualquer mistério: seja porque nos levam numa viagem maravilhosa através de espaços exóticos, de aventura e liberdade, seja porque nos fazem conhecer pessoas e povos estranhos, simultaneamente tão semelhantes a nós mesmos.

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