escrever como?

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Forma ou conteúdo?

As interrogações que nos levam a ter de tomar uma posição descartando a outra pecam, em geral, por nos levarem a exprimir meias verdades. A alternativa da ‘via mediana’ também peca pela mesma razão.

“Olha esta poterna, gnomo, disse-lhe ainda. Ela tem duas saídas. Dois caminhos se juntam aqui; e ninguém jamais os seguiu até ao fim. (…) Mas se alguém seguisse uma destas estradas, sem parar e até ao fim, acreditas, gnomo, que elas se oporiam sempre?”

“Tudo o que é recto mente, murmurou o anão em tom de desprezo. Toda a verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.” (1)

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Felizmente, ao escrevinhador não se colocam urgências dialécticas, pelo contrário: se escrever com genuíno gozo, irá se comprazer com as contradições e dilemas que o texto enfrenta.

Mas esta demonstração, deverei dá-la, como um homem de idade que fala aos mais jovens, sob a forma duma história? Ou antes deverei expô-la de modo racional? (2)

-Alguém conhecido?

-Alguém conhecido?

A literatura de aeroporto (vulgo best-sellers ou destinada a preencher horas vagas) recorre a conteúdos estereotipados, previsíveis, como sejam os cenários cosmopolitas ou a tipologias de personagens características de certas intrigas. Se algum mérito tem, certamente não é ao nível dos conteúdos, mas da forma: o enredo ‘descola’ rapidamente e o ritmo procura absorver a atenção do leitor acidental.

É ao dinheiro e ao interesse que o autor procura? Maravilha será se acertar; porque não fará senão andar a trouxe-mouxe como alfaiate nas vésperas da Páscoa, e as obras que se fazem às pressas nunca se acabam com a perfeição que requerem. (3)

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Não é por acaso que as receitas para escrever um bom (?) livro insistem muito nestes dois aspectos. Ou seja, a forma tem precedência sobre o conteúdo, pois o importante é agarrar a atenção nas primeiras páginas.

Volta-se o Snr. Conceição contra o meu estilo e carimba-o de fradesco  obsoleto. Que magnificamente escreviam alguns frades! e quanto é leigo o Snr. Conceição a escrever! Mas não tenho a redarguir contra isto, para não sermos dois os ineptos. (4)

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Em si, nada há a objectar. O início de um livro deve ser visto e revisto na fase da pós-produção, pelas razões evidentes. Também não é por outra razão que os leitores prevenidos têm as suas técnicas de avaliação rápida, como o de lerem a página 71 (ou outra qualquer para a frente ou para trás), onde o génio e o fôlego do escrevinhador podem já se ter esgotado ou, pelo contrário, revelam notável endurance.

É o facto cultural mais assustador de todos— os portugueses não lêem livros. (…) Em contrapartida, não há português que não escreva. (…) Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (5)

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Que haja necessidade de arrancar em velocidade e fartura de emoções, mistério ou coisa parecida, é que merece ponderação e discussão. O escrevinhador pode optar por uma toada lenta, repetitiva, inconclusiva, até aparentemente confusa, e se faz essa opção é por ter suas razões. Mas daí a ter bons resultados… . E a ter qualidade, exige demais ao leitor casual, mesmo que proporcione uma leitura agradável e estimulante ao leitor exigente. Fazer o quê?

Senti, na última página, que a minha narrativa era um símbolo do homem que eu fui enquanto escrevia e que, para escrever esta narrativa, fui obrigado a ser aquele homem e que, para ser aquele homem, tive de escrever esta narrativa, e assim até ao infinito. (6)

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O problema, a meu ver, é o da esmagadora maioria dos escrevinhadores que escrevem para a gaveta ou para publicarem ao modo discreto e quase anónimo das edições de autor ou através de editoras mercenárias, estarem completamente alheios a estas questões. Sua atenção foca-se mais na expressão escrita de memórias e sentimentos, duma qualquer moralidade ou sabedoria de vida, até mesmo um arroubo poético ou ficcional, do que numa perspectiva literária.

(…) deve ter notado como proliferam os livros de memórias, já é uma peste, no fundo é o que me desanima, pensar que se a mim aborrecem as memórias dos outros, porque não vão aborrecer aos outros as minhas memórias. (7)

JAVIER OLIVARES

desenho de JAVIER OLIVARES

E fazem-no ao longo de anos e anos, livro após livro. Depois, não é de admirar que se diga que escrever é uma forma de terapia.

O sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida, e a inevitabilidade da morte. (8)

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(1) in Assim falava Zaratrustra de Frederico Nietzsche, trad. Carlos Grifo Babo ed.Presença

(2) in Protágoras de Platão, ed.Gallimard

(3) in El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha de Miguel de Cervantes, ed.Austral

(4) ‘Modelo de Polémica Portuguesa’ in Boémia do Espírito de Camilo Castelo Branco ed. Lello & Irmãos

(5) ‘Ler’ in A causa das coisas de Miguel Esteves Cardoso, ed.Assirio&Alvim

(6) ‘A busca de Averrois’ in O Aleph de Jorge Luís Borges, trad.Flávio José Cardoso, ed.Estampa

(7) in El cuarto de atrás de Carmen Martín Gaite, ed.Planeta DeAgostini

(8) in Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino, trad.José Colaço Barreiros, ed.Público

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O Passado presente

Situar o enredo numa época passada é um dos aliciantes da escrita, encantando leitores. Ou, muito pelo contrário, o maior fiasco para quem escreve e pura perda de tempo para quem lê.

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Qualquer narrativa tem um contexto, e se este  remete explicitamente o leitor para uma época histórica (ou mesmo pré-histórica) existem dificuldades que o escrevinhador não deverá negligenciar. A maior de todas, na minha opinião, é a da linguagem falada pelas personagens. Não se trata só do vocabulário e da sintaxe características da época e de que, muitas vezes, só podemos imaginar, mas do modo como se articulam ideias, raciocínios ou se expressam emoções.

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O problema central é o do chamado ‘anacronismo’, o erro de atribuir algo (uma ideia, um preconceito, um facto) a uma época que não corresponde. Esse é um erro que acontece na melhor literatura, mas tende a ser comum entre os que se dedicam a produzir narrativas segundo formatos estereotipados.

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA? Serpente: 'Maldito sejas,Homem-Aranha!'

Alguma vez paraste para pensar a sorte que Deus teria se tivesse tido a ajuda do HOMEM-ARANHA?
Serpente: ‘Maldito sejas,Homem-Aranha!’

Os chamados ‘romances históricos’ podem ser boas surpresas, mas frequentemente pecam por desleixo na caracterização (de lugares e de pessoas), no conhecimento do ambiente social, cultural, político, ou pelo excesso de descrições e informações; e tudo acompanhado de diálogos ‘empastelados’ para dar o ‘tom’ da época.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Bocejotopeia: palavras que soam a parvoíces porque estás demasiado aborrecido para estares atento.

Que o enredo vá ao arrepio da ‘verdade histórica’ é uma liberdade típica do escrevinhador, já que se trata de ficção assumida. A questão é a de dar verosimilhança, criar personagens ‘de carne e osso’ (mesmo que sejam fantásticas) e manter o ritmo, o fôlego narrativo, tudo aspectos comuns a qualquer escrita com pretensões literárias.

Ora, isto tanto é pertinente para um enredo situado no outro lado do mundo, mil anos atrás, como à porta de casa do escrevinhador, há cem ou dez anos, ou ainda na semana passada. Mas, convenhamos: o que nos é distante e estranho deveria obrigar-nos a um maior estudo e cuidado na composição.

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Escrever para quem?

Escrever poesia ou ficção tem uma componente de autodescoberta, outra de compulsão. E do prazer de criar, provavelmente. De um modo ou doutro, pressupõe um leitor…ou vários. Que podem ser leitores concretos e/ou imaginados.

Polónio:(…) O que estais a ler, meu senhor?

Hamlet: Palavras, palavras, palavras.

Polónio: Qual é o problema, meu senhor?

Hamlet: Entre quem?

Polónio: Quero dizer, o assunto que estais a ler, meu senhor.

Hamlet: Calúnias, senhor. (1)

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Captar a atenção do leitor, suscitar seu interesse pela narração, desenvolver o enredo de modo a propiciar-lhe surpresas, alimentar-lhe expectativas, comovê-lo ou provocá-lo, são ‘técnicas’ que podem ser desenvolvidas intuitivamente ou não. Caso sejam desenvolvidas de modo consciente e ponderado, principalmente se foram aprendidas, podem correr o risco do estereótipo, do plágio ou da simples imitação. Mas são, por si, o resultado natural da preocupação do escrevinhador em comunicar, em estabelecer uma relação com o leitor, algo que nunca deve ser menosprezado como uma ‘concessão’, uma vulgarização, uma menos-valia artística.

—Agora digo—disse dom Quijote—que não foi sábio o autor da minha história, mas algum ignorante falador, que descuidadamente e sem algum discurso se pôs a escrevê-la, saia o que sair, como fazia Orbaneja, o pintor de Úbeda, ao qual perguntando-se-lhe o que pintava, respondeu: “O que sair.” Certa vez pintava um galo, de tal maneira e tão mal parecido, que era necessário que com grandes letras góticas se escreve-se junto dele: “Isto é um galo”. E assim deve ser a minha história, que terá necessidade de explicação para entendê-la.

—Isso não—respondeu Sansão—; porque é tão clara que não há coisa que dificultar nela: as crianças a manuseiam, os moços a lêem, os homens a entendem e os velhos celebram-na; e, finalmente, é tão trilhada e tão lida e tão sabida por todo o género de gentes que apenas vêem algum rocim magro, dizem: “Ali vai Rocinante”. (2)

"Nunca vi nada assim: você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas."

“Nunca vi nada assim…você tem sete personalidades diferentes e são todas aborrecidas.”

Imagine-se escrever livros infantis sem preocupações para com os leitores (ou recipientes da leitura em voz alta)…porém, na área dos livros para crianças assiste-se a tanta indigência no modo asséptico, sem ideias, nem inteligência, como se publicam coisas alheias à maravilhosa tradição da literatura dita infantil. Neste caso, escrevinhadores e editoras têm em especial consideração os preconceitos e limitações dos prescritores (famílias, educadores) e menos, muito menos, os interesses e necessidades dos leitores.

A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu. (…) A sua maneira de pensar é animista.(…) Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança limita-se a enterrar o seu “verdadeiro conhecimento” mais fundo em si mesma e continua insensível à racionalidade; mas o conhecimento pode ser formado ou informado pelo que os contos de fadas têm a dizer. (3)

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Já os escrevinhadores que visam um público-leitor ‘ligeiro’, sensível aos temas da moda (ou seja, os mais mediatizados nos últimos tempos), supostamente divertindo-se com certos maneirismos e estereótipos sociais, naturalmente irão procurar ir ao encontro dessa ideia de leitor. É uma opção legítima e alguns têm até sucesso editorial e mediático.

Não se pode abrir uma crise se depois não é resolvida. Não se pode solicitar o desdém do leitor sobre uma praga social, se depois não se faz intervir um elemento para sanar a praga, e a vingar, com a vítima, o leitor perturbado. O romance torna-se então, necessariamente, uma máquina de gratificações, e já que a gratificação não pode chegar depois que o romance acaba, não pode estar dependente de uma decisão livre do leitor (…). A solução deve chegar e surpreender o leitor como se fosse exterior à sua capacidade de previsão, mas, na verdade, exactamente como ele a desejava e a esperava (…). O herói carismático, no romance popular, deve ser aquele que, em colaboração com o autor, possui um poder que o leitor não tem. (4)

"Para quê cantar se podes fazer um download?"

“Para quê cantar se podes fazer um download?”

Aqui voltamos a reencontrar o tema do ‘leitor chato’, aquele para quem qualquer esforço de abstração, enredos invulgares, personagens complexas, apelo a referências extra-textuais (vulgo conhecimentos gerais), torna a leitura pesada, chata.

(…) apesar de pertencer a uma geração madura, para a qual a nudez do peito feminino era associada à ideia de intimidade amorosa, aplaude no entanto esta mudança nos usos e costumes, quer pelo que ela significa como reflexo de uma mentalidade mais aberta, quer porque uma tal visão lhe é particularmente grata. É esse apoio desinteressado que ele gostaria de conseguir exprimir no seu olhar. (…) 

Tanto deveria bastar para tranquilizar definitivamente a banhista solitária e para desembaraçar o ambiente de ilações deslocadas. Mas assim que ele volta a aproximar-se, ei-la que se levanta de repente, cobrindo-se e bufando aborrecida, afastando-se e encolhendo enfastiadamente os ombros, como se estivesse a fugir às molestas insistências de um sátiro.

O peso-morto de uma tradição de maus-costumes não permite que se apreciem com a devida justiça as intenções mais  iluminadas, conclui amargamente o senhor Palomar. (5)

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

Diz-se LEITURA. É como as pessoas instalam novo software nos seus cérebros.

E torna mais misterioso e excitante um outro tema: o do sucesso literário, editorial e mediático de alguns, poucos, escrevinhadores de óbvia qualidade.

 

(1) in Hamlet (acto II, cena II) de William Shakespeare, ed.Chancellor Press

(2) in Don Quijote de la Mancha (2ª Parte)  de Miguel de Cervantes, ed.Espasa Calpe

(3) in Psicanálise dos Contos de Fadas de Bruno Bettelheim, trad. de Carlos Humberto Faria, ed.Livraria Bertrand

(4) in Il Superuomo di Massa de Umberto Eco, ed.Tascabili Bompiani

(5) in Palomar de Italo Calvino, trad. de João Reis, ed. Teorema

O escrevinhador à toa

O ‘chato’ como categoria estética é, no mínimo, tão complexa quanto polémica como o é a categoria do ‘belo’, e não menos condicionada por factores sociais ou pela passagem do Tempo.

-Bem, chega de falar de mim

-Bem, chega de falar de MIM! Vamos escolher o jantar?                                                                                          ‘A BANALIDADE DO MAL’

Pessoalmente, uso e abuso dela por entendê-la pertinente e por corresponder a algo de que todos temos percepção. Porém, faço-o com consciência de ser uma expressão sem rigor, subjectiva, variável.

Por isso se diz que a tarefa do escrevinhador é solitária, pois como há-de ele se guiar durante o processo de criação? Mesmo tendo leitores habituais, corre-se sempre riscos inovando ou se repetindo.

-Obrigado a todos pelo bolo e por me forçarem a confrontar com a minha mortalidade.

-Obrigado a todos pelo bolo e por me forçarem a confrontar com a minha mortalidade.

Mas o mesmo livro pode surpreender, quando relido anos depois: o leitor não fica livre de ser o ‘chato’, quando revela sua inaptidão para entrar no jogo das ironias ou para interpretar sentidos menos óbvios, por exemplo; ou quando se deixa levar por fenómenos de moda, lendo sem critério e adoptando critérios estereotipados.

Aqui, o papel do editor/agente poderá ser de grande valia para o escrevinhador, assim como o do crítico para o leitor. Porém, no mundo da Língua Portuguesa, onde existem esses editores/agentes e esses críticos?

Assim, o escrevinhador vagueia sem estrelas a guiá-lo, muitas vezes jogando textos nas páginas das redes sociais ou declamando versos em tertúlias. Sempre na esperança de ser reconhecido e valorizado, talvez demasiado crente naquilo que não é mais do que a boa vontade de estranhos e amigos. Ora, o que geralmente acontece é que nem é lido, nem apreciado, muito menos criticado. Sem polémicas, não há consciência clara do processo criativo. Sem leitores exigentes, não há estímulo para o aperfeiçoamento.

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Muito pior ainda se, inseguro de si mesmo, o escrevinhador evita reflectir sobre o que faz e como o faz.

Sem se questionar: escrever… como?

 

 

Desencanto

Há a confusão comum entre o ‘livro chato’ e o desencanto da literatura, mas são fenómenos distintos.

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Chamam-lhe ‘livro’…mas não tenho ideia donde estão as pilhas.

O desencanto tem a ver com com uma atitude já prevista desde os primórdios da massificação da cultura: tudo o que seja menos claro, menos óbvio, mais complexo, exigindo conhecimentos e referências, torna-se menos acessível.

Tornando-se  um auxiliar fundamental para a massificação, o estereótipo simplifica a comunicação: o menor tempo exigido para a assimilação, a ausência de incerteza ou ambiguidade, sua eficácia em termos de contextualização, são características que contaminam os discursos, os hábitos mentais, os gostos colectivos. 14135235 Mas não é por isso que um texto perde em emoção, sentimentalismo ou polémica. E também não é fácil usar os estereótipos com sucesso…seja de que tipo for. Já o livro chato pode, ou não, ser perfeitamente estereotipado; pode, ou não, exigir conhecimentos e referências; pode, ou não, ser complexo.

Mas dificilmente desperta emoções, sentimentos e polémicas por si mesmo.

Porém, o desencanto aumenta a produção de livros chatos e estes, por si, não implicam o aumento dos estereótipos. Ou seja, no primeiro caso a responsabilidade recai nos leitores e não-leitores (que se tornam desinteressantes e desinteressados), enquanto no segundo recai sobre os escrevinhadores.

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Mas porque escrevem eles livros chatos?!

A escrita chata

Pode parecer um grande enigma, mas há escrevinhadores chatos (ou maníacos) que são pessoas muito interessantes na aparência, e há pessoas muito chatas (ou maníacas) que são escrevinhadores muito interessantes.

E se a tua vida for chata em todos os universos paralelos?

E se a tua vida for chata em todos os universos paralelos?

Creio que a explicação não é muito difícil.

No primeiro caso, a escrita não surge do impulso apaixonado de quem tem algo a contar/exprimir, mas parte de um processo em que a literatura é simples instrumento.

"E todos vivemos lucrativamente para sempre."

“E todos vivemos lucrativamente para sempre.”

Já no segundo, a literatura pode ser a via do auto-conhecimento, da exploração do mundo, da criação.

-Que é que te faz pensar que achamos a tua estória sobre gatos chata?

“Que é que te faz pensar que achamos a tua estória sobre gatos chata?”

Pior, mesmo, são as pessoas realmente chatas que escrevem coisas muito chatas. E não se enxergam. No universo fechado dos amigos e das tertúlias de poesia, fica difícil que recebam outra coisa senão os elogios postiços e as palmas de circunstância.

Se publicarem, poderão ainda ser abençoados com uma crítica; se não…donde chegarão críticas válidas e construtivas (e desapiedadas)?

O que torna a escrita chata?! Já tenho dito alguma coisa do que penso sobre isto e, correndo o risco de me repetir, tentarei num próximo post elaborar algo mais.

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Escrever como terapia

O sentido dado aqui a ‘terapia’ é muito amplo, e desde há muito que as artes em geral são entendidas, também, como um modo do sofredor (de amores, de melancolia, de obsessões, de desgostos, de doenças físicas ou mentais…) recuperar a saúde até um certo ponto. Ou, de algum modo, a comprazer-se com a dor.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

A escrita literária, principalmente, gerou muitas e boas obras graças a este processo. Mas é incomensurável o número das que são simplesmente insuportáveis.

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O problema não está na necessidade do escrevinhador em ‘trabalhar’ suas emoções e sentimentos, ordenando ideias, exprimindo sensações. Provavelmente, tudo isto é a matéria-prima e o combustível do processo artístico.

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O problema está, creio eu, em deixar o processo ser dominado por essas mesmas emoções, sentimentos, ideias e sensações: o escrevinhador como que se isenta de quaisquer faculdades críticas e estéticas.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Se se pode escrever bem sem essas faculdades, só o vejo possível para quem tem interiorizado com elevada técnica e apuro o exercício da escrita.

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De outro modo, acontece o previsto: a produção de textos sem valor literário, ainda que ricos em material para análise psicanalítica…e, na esmagadora maioria das vezes, nem isso, vista a sua banalidade confrangedora.

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in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro*

Conforme já por aqui tenho dito, não se está a pôr em causa a importância da espontaneidade, das emoções-sentimentos-etc-e-tal, e de tudo o mais que exprima o mundo interior de cada qual. Mas a relativizá-los enquanto material para uma escrita com pretensões literárias, a ser partilhada com leitores desconhecidos.

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Se são importantes, para não dizer fundamentais, numa primeira fase do processo da escrita, têm de ser avaliados rigorosamente numa fase posterior a que chamei ‘pós-produção’ literária.

QUESTIONÁRIO POPULAR! Há mais alguma coisa na vida? SIM/NÃO -Raios.Eu devia saber esta...

QUESTIONÁRIO POPULAR!
Há mais alguma coisa na vida?
SIM/NÃO
-Raios.Eu devia saber esta…

 

* retirado de Menina e Moça de Bernardim Ribeiro (apresentação crítica, fixação do texto, notas e linhas de leitura de Teresa Amado) Colecção Textos Literários—Editorial Comunicação 1984

 

 

 

 

Escrever para chegar ao fim

Uma coisa boa a respeito da ‘falta de fôlego’ do escrevinhador, tema do post anterior: resulta, na esmagadora maioria dos casos, duma consciência auto-crítica sobre o valor do texto.

Depois de doze minutos/Do seu drama  O Marinheiro/Em que os mais ágeis e astutos/Se sentem com sono e brutos,/E de sentido nem cheiro,/Diz uma das veladoras/Com langorosa magia:/ 

De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos falando ainda?

/Ora isso mesmo é que eu ia/ Perguntar a essas senhoras…(1)1982260_797510686944822_1081620113_nO escrevinhador percebe que esgotou a capacidade de inovar, acrescentar, renovar, limitando-se a produzir texto a metro, e mesmo assim com muito custo. Obviamente, o resultado não o pode satisfazer.

Parte-se em mim qualquer coisa. O vermelho anoiteceu./Senti de mais para poder continuar a sentir/ Esgotou-se-me a alma, ficou só um eco dentro de mim. (2)

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-Primeiro tens de gostar de ti mesmo. -De mim?!…Eu mereço melhor!

Se parar, guardando o texto numa gaveta e aproveitando para arejar as ideias, talvez seja beneficiado por uma lufada de inspiração mais tarde. Ou abandone o projecto.

Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir…/É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…Prá frente! (3)

Infelizmente, muitos assumem o ‘dever’ de lhe dar um fim, arrumando de vez com aquela tarefa penosa. Percebo que o façam por obrigação contratual, mas isso só beneficiará a lista dos monos, caso venham a publicar.

(…) Se há um plano/ Que eu forme, na vida que talho para mim/Antes que eu chegue desse plano ao fim/Já estou como antes fora dele. (…) (4)

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Contudo, a imensa maioria não está sujeita a prazos, muito menos a contratos. Sem gosto, nem proveito, porque insistem?

Vou atirar uma bomba ao destino. (5)

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Sem entrar nas águas turvas da criação artística, creio que a resposta está no nível emocional do exercício da escrita literária: a generalidade dos escrevinhadores escreve por necessidade interior, como se o acto ajudasse a por em ordem as ideias, os sentimentos, a vida. Que não é uma terapia cem por cento eficaz demonstra-o a legião de suicidas, alcoólatras,  e doidos que brilharam (e brilham) no universo literário.

Mas escrever como terapia também não é garantia de que o escrevinhador se torne melhor pessoa, e muito menos de que os seus escritos se elevem da mediocridade.

Hup lá, hup lá, hup-lá-hô, hup-lá!/Hé-lá! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!/Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! (6)

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(1) in A Fernando Pessoa depois de ler o seu drama estático “O Marinheiro” em “Orpheu I” ; esta e as citações seguintes são da autoria de Álvaro de Campos  Poesia vol.I ed.Planeta DeAgostini

(2) in Ode Marítima

(3) in Carnaval

(4) in Saudação a Walt Whitman 

(5) Poema nº 42 (sem título)

(6) in Ode Triunfal

Escrever como quem corre

Ao narrar acontecimentos ficcionais, o escrevinhador goza de todas as liberdades, inclusive a de violar a Lógica.

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A HEROÍNA QUE-NÃO-É-ÓRFàDO LIVRO DE CRIANÇAS.                                                                                                 Mago:’Sally tem de se juntar à nossa aventura. Só ela pode derrotar a rainha-bruxa de Mordax.                                                                                                                   Mãe de Sally:’Não antes dela comer os brócolos.’

O trabalho literário não está isento de juízos de valor, e apesar de não ter qualquer sentido a expressão gostos não se discutem, que é popular e aceite acriticamente, ninguém vai ao ponto de afirmar que livros não se discutem…bem, à excepção dos livros sagrados, claro.

Ora, o ‘pecado’ de alguns livros é o de criar expectativas (intriga, tensão), despachando-as rapidamente e de modo insatisfatório, penalizando os méritos que a obra eventualmente tenha. A pressa com que o escrevinhador resolve enigmas, dilemas, ambiguidades, e outras ‘zonas obscuras’ do enredo, pode lhe ser fatal.

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Há alguns anos saiu um livro com sucesso comercial e de autor bem conhecido, tendo como enredo a elucidação de um enigma histórico. Li com muito interesse, já que me pareceu uma boa resenha das diferentes teorias para resolver o tal enigma, todas com seus defensores eruditos e documentados.

Mas a intriga que liga o protagonista principal a essa investigação, a caracterização deste, as restantes personagens, a qualidade da escrita, são banais. E a parte que me interessou foi quase sempre despachada por diálogos extensos, didácticos, entre o investigador e especialistas. Ou seja, um tema interessante tratado de modo estereotipado, ‘fácil’.

Contudo, as expectativas que tinha foram satisfeitas, que eram a de perceber os ‘contornos’ do tal enigma, mas confesso que o destino das personagens e o desfecho da intriga não me empolgaram em nenhum momento.

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Publicações Livros Irrelevantes                                                 “Os teus livros vendem-se muito bem nas farmácias…logo a seguir aos comprimidos para dormir.”

Pior será quando o escrevinhador carece do apoio editorial para corrigir as falhas mais evidentes do enredo e do seu desenvolvimento, carecendo ainda de tempo, de resistência e de perspectiva crítica. Uma boa ideia, desenvolvida satisfatoriamente, pode ser comprometida por finais abruptos, às vezes sem sequer ‘despachar’ todas as pendências alimentadas ao longo da estória.

Se o escrevinhador opta pelo estereótipo porque entende que se enquadra numa boa estratégia de comunicação, como no tal livro que li, a coisa até funciona muito bem. Talvez deixe de funcionar ao longo dos anos, ao deixar de beneficiar da tal estratégia de comunicação (que envolve técnicas extra-literárias, essencialmente), e passe à categoria dos monos.

Mas se o escrevinhador não cumpre os ‘mínimos’, ou seja, se deixa o leitor suspenso no vazio, sem pistas, nem respostas ou mistérios profundos, arrisca-se a estragar um enredo promissor sem ter qualquer benefício.

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‘Olha, lamentamos muito. Se soubéssemos que ias te tornar numa escritora, seriamos melhores pais!’ cartaz: Encontro com o autor de ‘A minha vida miserável’

‘Para quê tanta pressa em dar por concluído um livro?’, perguntará legitimamente o leitor frustrado.

A resposta é, geralmente, muito simples: fadiga. O escrevinhador propôs-se correr a maratona e saiu da prova antes da meta.

 

Corrigir, eliminar, acrescentar, realinhar, jogar fora e começar de novo…

Na pós-produção literária, catar erros ortográficos e morfológicos ou corrigir deficiências na sintaxe são actividades básicas.

E também há que esquadrinhar frase a frase para clarificar o sentido, eliminando incoerências, redundâncias, incertezas.

?Não consigo ler isto, tem de melhorar a sua escrita!'

                      -Não consigo ler isto, tem de melhorar a sua escrita!                                                                                           -Se melhorar, vai descobrir todos os meus erros ortográficos!           

Aqui começa a revisão dos conteúdos do texto, procurando eventuais contradições internas (por exemplo: na cronologia dos acontecimentos e nos detalhes biográficos das personagens)  e erros de facto (relativos ao que é exterior ao próprio texto, como a geografia, datas e acontecimentos históricos, dados científicos citados). Mesmo escrevinhadores talentosos e de obra reconhecida falham nestes detalhes, o que também não abona nada sobre o trabalho editorial que devia apoiá-los.

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Por vezes, o trabalho da pós-produção revela que frases, parágrafos, capítulos inteiros, têm de ser radicalmente reescritos. Ou simplesmente eliminados. Porquê?

Esse é um dos mistérios da criação literária. Ou talvez resulte do amadurecimento do escrevinhador, depois de ter escrito aquilo que se propunha e quando vê o conjunto dum ponto de vista mais distante, menos emocional. Pode ser especialmente gratificante, porque é uma reescrita que visa realçar o essencial e eliminar o que prejudica, resultando em algo mais elegante, mais atraente, mais contundente, mais…enfim, dá para entender, não dá?

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A pós-produção irá agravar a fragilidade do escrevinhador inseguro, ao revelar-lhe deficiências e problemas em demasia (ou assim ele julga), para os quais a única saída que encontra é mandar tudo para o caixote do lixo (ou tecla DELETE). Porém, muitas vezes há vantagem em realinhar o enredo, acrescentar  e retirar situações, desenvolvimentos, personagens. Dá trabalho, exige inspiração, consome tempo…pois, na escrita, barato mesmo são só o papel e a tinta.

Dilbert Marketing

Que a pós-produção é responsável por alguns suicídios, muitas depressões, bloqueios, destruição de obras inteiras, é algo que todo o escrevinhador deveria ter presente antes de se iniciar na aventura da escrita. Mais grave, no entanto, é a legião de escrevinhadores que não só não tem disto consciência, como depois despreza ou ignora a pós-produção.

FÁBIO MOON E GABRIEL BÁ

Os cínicos dirão que não virá grande mal ao mundo por se escrever (e publicar) mais um mau livro, mais um livro assim-assim, mais um livro chato. E que esses escrevinhadores não estarão a cometer piores barbaridades enquanto se entretêm a escrever. Provavelmente, os cínico estão certos.

 

Escrever como quem martela ferro frio…

São variados os obstáculos que se põe no caminho do escrevinhador  (bloqueio, inconsistência, desinspiração, etc, etc), faltando-lhe fôlego para animar a obra e dar-lhe ritmo, velocidade, tensão ou qualquer outro ingrediente que provoque a reacção química necessária para que o processo desencadeie.

Claro, tudo isto se pode simular. E simula-se. Com algum trabalho. Mas simula-se. Porque no fundo inspiração talvez não seja mais do que a construção, mais ou menos rápida, de um sistema ou de uma armadilha de palavras que nos prende e nos liberta.(1)

A eterna luta

A eterna luta: levando material daqui para ali.

Na prosa, como na poesia, existe maneira de ultrapassar o problema em termos meramente produtivos: martelando. Que é, no fundo, uma discutível virtude da persistência, da ambição, da vontade, ou o que quer que seja que move o escrevinhador (e que não é, obviamente, a bela Musa).

Você disse que o poeta é um fingidor. Eu o confesso, são adivinhações que nos saem pela boca sem que saibamos que caminhos andámos para lá chegar, o pior é que morri antes de ter percebido se é o poeta que se finge de homem ou o homem que se finge de poeta. Fingir e fingir-se não é o mesmo, Isso é uma afirmação, ou uma pergunta, É uma pergunta, Claro que não é o mesmo, eu apenas fingi, você finge-se, se quiser ver as diferenças, leia-me e volte a ler-se. (2)

"McWit, a tua licença poética expirou

“McWit, a tua licença poética expirou há anos.”

Graças à aplicação correcta das regras gramaticais, do uso de estruturas métricas e/ou de variações estilísticas em moda, copiando a formatação de modelos bem sucedidos, o resultado até pode ser satisfatório, demonstrando conhecimento, trabalho, critério.

Que este método também não é fácil, demonstra-o a legião de ‘marteladores’ justamente ignorados.

Lá de dentro, do fundo da livraria, (…) despegou-se abruptamente esta voz de fúria aflautada:

—É uma besta! Uma grandessíssima besta! Uma besta quadrada!

Bem. Aposto tudo (…) em como estão a falar de um mestre crítico qualquer. (3)

...o Fim

-…o Fim. Bem, hora de dormir. O que estás a escrever?                                 -Uma recensão negativa do livro!

Porém, quando reforçado com recursos não-literários pode obter reconhecimento e sucesso, até um público.

(…) o seu livro não é cano de escorrências muito nauseabundas, nem é canal de notícias úteis, tirante a dos hotéis infamados de percevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo porque custa sete tostões e —vá de calão—como troça e bexiga, é caro. (4)

-És tão ilógica. Nunca conseguiu ganhar uma discussão contra ti! -

-És tão ilógica. Nunca consigo ganhar uma discussão contra ti!
-Não experimentes, nem me confundas com factos.

Invariavelmente, o seu destino é o de se tornar um ‘mono’. Mas, até lá, sempre vai rendendo alguma coisa. De qualquer modo e maneira, já dizia o moralista: sic transit gloria mundi…

Ia (…) tão contente do seu destino de enfeitar selectas, que me apeteceu gritar-lhe, cá de longe, do fundo da inveja irónica do sono escondido:

—Mais depressa, pá! Avia-te! Corre! Enfia pelo futuro adentro! Pois não vês que estão lá todos à tua espera para te dividirem em orações?

Mas contive-me. (Se for como tu e como os teus versos, há-de ser fresco, o futuro!)  (5)

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“Vamos acrescentar mais umas banalidades. Este é um discurso reconfortante e as frases feitas são um alimento de conforto verbal.”

 

 

(1)in Duas respostas a um inquérito de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(2) diálogo entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, já falecido, in O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago ed.Caminho

(3)in Grupos, grupinhos e grupelhos de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes

(4)recensão do livro Portugal à Vol d’Oiseau daPrincesa Ratazzi in A Senhora Ratazzi de Camilo Castelo Branco, incluído na Boémia do Espírito ed.Lello e Irmão

(5)in Meditações sobre a estratégia da glória de José Gomes Ferreira, incluído na Gaveta de Nuvens-tarefas e tentames literários , ed.Moraes.

 

A famosa torre de marfim do escrevinhador

Já aqui tenho referido que o pecado capital do escrevinhador é o de ser ‘chato’. Como todas as categorizações, é discutível.

À primeira vista nem parece difícil obter consenso quanto à ideia de que um livro ‘chato’ é um mau livro, mas o que é chato para uns, pode ser sublime para outros. E começam aqui as dificuldades, sendo a  dificuldade seguinte aquela impressão de que o escrevinhador que escreve livros chatos não tem noção disso.

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Também não é das menores das dificuldades a existência de leitores chatos, tanto pela incapacidade para atingir sentidos implícitos, como para descodificar ironias, por exemplo.Ou pela total falta de resistência física e mental para prosseguir a leitura de um livro de algumas centenas de páginas.

LIVRARIA "Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor"

LIVRARIA
“Pode me aconselhar algo? Sofro de bloqueio do leitor”

E em todos os casos, em vez de se acusar a si mesmo, aponta o dedo ao escrevinhador e/ou ao livro.

Sobre essa espantosa criatura que é o leitor, Saramago se questionava ‘Quem lê poesia, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se? Quando o leitor assoma à entrada do poema, é para conhecê-lo, ou para reconhecer-se nele?’*

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Ora, esta é uma das tradicionais áreas de actuação de um bom trabalho editorial, uma espécie de mediação entre os recursos do escrevinhador e o potencial do leitor.

Porém, numa época em que a auto-edição e a edição por encomenda estão generalizadas (o que, por si, não é nenhum defeito), esta mediação desaparece. Entre muitos outros problemas, reforça o isolamento do escrevinhador na sua torre de marfim.

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* in Cadernos de Lanzarote Diário-I de José Saramago (em autocitação de artigo publicado no jornal Letras & Letras) ed.Caminho

Transbordando de amor

O Natal (um dos três temas fortes de Dezembro) é época em que os ‘bons sentimentos’ são extensíveis a toda a gente, de modo indiscriminado e despudorado.

No registo literário, a efusão de afectos para com o mundo exprime-se, na maioria das vezes, através de poemas e, menos frequentemente, por contos. Aparentemente, obras de maior fôlego devem sufocar o próprio escrevinhador, pois só tenho ideia de encontrá-las nas secções de ‘auto-ajuda’ ou ‘espiritualidades’ das melhores livrarias, secções que pertencem a um outro domínio que não o estritamente literário.

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Desde (quase) sempre existe literatura que aborda o tema do ‘amor’ visto sob as mais variadas perspectivas, mas aquela que trago aqui é relativamente recente: a expressão dum amor incondicional, impessoal (porque dirigido a todos e a tudo),que pode facilmente centrar-se no próprio escrevinhador e nas suas dores, anseios e desejo dum mundo melhor, através duma linguagem poética que abusa da adjectivação, das descrições e enumerações (‘listas de mercearia’, digo eu). Além dos chamados lugares-comuns, que são a forma mais banal de estereótipo e de valor literário nulo quando usados sem outro critério do que o do seu valor expressivo.

"T-Tempo para chorar

“T-Tempo para chorar…tempo para dizer adeus…tempo para…amar…m-morrer…!”

Com o acesso de um número maior de pessoas à categoria de ‘escrevinhadores’, graças ao ensino das letras e à redução dos custos de publicação, muitos fenómenos surgiram e este é um deles. No sec.XIX surgem como precursores na poesia, nas cartas (sim, já foram um género muito apreciado), em discursos (porque houve um tempo em que se imprimiam e distribuíam discursos de todo o tipo) e em outros géneros de pendor muito diverso que se limitavam a canalizar o ‘acrisolado’ amor a temas mais terra-a-terra como a ‘pátria’, ‘a nossa terra’ (neste caso, a ‘terrinha que nos viu nascer’), a ‘história’ (da pátria ou da terrinha) e outros tópicos em voga que inflamavam facilmente auditórios e leitores de jornais.

"Empatia? Sim, percebo como pode ser útil."

“Empatia? Sim, percebo como isso possa vir a ser útil.”

Daí a figura do poeta local, do escritor da terra, aqueles que ‘imortalizavam’ a pequena cidade, cantavam os rios e as fontes, descreviam com rica adjectivação as qualidades das gentes e a excelência dos produtos da região. Os conterrâneos agradecidos, emigrantes ou residentes, mesmo que analfabetos, sabiam alguns versos ou descrições sugestivas e o nome de quem os escreveu. Algum dia, mais tarde, uma praça, uma estátua, uma rotunda, seria dedicada à egrégia figura.

-

“-Eu adoro a sua poesia!”

A acrescentar a tudo isso, temos o fenómeno muito mais recente do amor sem objecto, nem limites, decorrente da anonimidade urbana e da proliferação de escrevinhadores com obra publicada. É assim como a necessidade de gritar alto, da janela da casa, toda a indignação contra o que está mal e com total simpatia pelo que é o Bom, o Justo e essas coisas aparentemente indiscutíveis.

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.'

-Querido Mundo, podemos POR FAVOR PARAR de nos matar uns aos outros AGORA? Obrigado.’

Ora, devo reconhecer que ambos os fenómenos não são coisa que coloquem em perigo a ordem pública, mas geralmente têm uma função mais catártica do que literária, e é aí que me volto a repetir: cuidado com o excesso das emoções na construção dos textos.

"Liberdade é

“Liberdade é mais uma palavra para fazeres o que te mandam…”                                                 Fascistas dão em péssimos cantores populares.

Mesmo privilegiando os sentimentos, l’amour fou ou se transborde de amor sobre seus semelhantes, a natureza ou alguma das infinitas categorias do divino, o uso das imagens, o rigor na construção das frases, o domínio da composição geral são ainda mais importantes precisamente pela necessidade de equilibrar a emoção com algum sentido estético. Não se trata de menosprezar a inspiração, o impulso criativo, o tema ou o propósito, mas de garantir o compromisso necessário entre o que se pretende escrever e o modo como se escreve.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Poesia e flores não são razão para se envergonhar. O amor é uma forma muito vulgar de doença mental.

Renovar

Como me venho repetindo frequentemente (sim, sou mesmo chato…), um dos benefícios de uma cultura bibliográfica razoável está no apuro do sentido estético do escrevinhador, levando-o a confrontar a sua mesquinha produção com os gloriosos textos dos grandes autores.

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Não se trata dum exercício masoquista, nem é o meu modo de atirar para o desespero e para o silêncio a esmagadora maioria de nós, aspirantes à Fama e à Fortuna, mas o uso do bom senso que alia o prazer da boa leitura com a prática da auto-avaliação construtiva.

Isso não dispensa que sujeite os seus escritos à leitura de duas ou três boas almas, de preferência gente com algum critério literário, assim como sinceridade ingénua e brutal.

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“Infelizmente é a palavra deles contra a sua.”

Certamente, o escrevinhador ganhará mais do que algumas equimoses na auto-estima, mas na condição de não retaliar denegrindo as boas almas depois da apreciação feita. Principalmente, deve desconfiar se elas se limitarem a considerações muito gerais e a pancadinhas nas costas: a crítica deve expor seus argumentos.

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O tempo depois ajudará a ler o que escreveu, provavelmente com menos compreensão e simpatia, mas mais rigor. E a ponto de duvidar ter sido ele mesmo a escrever ‘aquilo’.

Tudo isso é progresso, evolução, amadurecimento.

Ou, retomando um dos temas da época: a promessa de renovação nestes meses em que a natureza parece adormecida.

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O Fim do Tempo

Último mês do calendario, final do ano, Dezembro suscita reflexões, alegorias e narrativas sobre temas densos como a finitude, a velhice e a morte (e eu já aligeiro o assunto evitando maiúsculas).

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FIM
“Ele era um grande escritor”.

São temas recorrentes suscitados pelas longas, geladas noites, pelos dias curtos e cinzentos, pelas festividades que apelam aos laços familiares e recordam aqueles que ‘o tempo levou’. Como no famoso conto A Christmas Carol de Charles Dickens, a época é propícia a balanços existênciais e ao correspondente saldar de contas (enquanto é tempo…).

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Aí coloca-se o escrevinhador num terreno traiçoeiro: o de lidar temas que mexem com memórias antigas e questionam sua identidade. Frequentemente, ele tropeça e estatela-se numa escrita lamecha, confusa, confessional.

Lamecha porque escorrem lágrimas e ecoam suspiros a cada evocação dum ente querido da infância ou dos momentos irrepetíveis; confuso porque são as emoções que dominam a composição, prejudicando forma e conteúdo; confessional porque reduz-se ao desabafo. 

a Arte da Conversação lição 7: se em algum momento ao longo da conversação pensares: ‘-Estarei a falar demasiado sobre mim?’ então a resposta é ‘SIM’.

Os temas podem ser expressos de modo azedo, melancólico, desesperado, saudosista, amargo, pessimista, e são numerosos os exemplos de grandes textos literários assim escritos. A questão não é essa.

Como em tudo o mais (nisto da escrita, claro está), o escrevinhador deve ter a preocupação de comunicar, desenvolvendo os temas de modo a envolver o leitor. E é aqui que volto a lembrar o discurso de Cecília Meireles citado num post anterior: ‘A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta (…) aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer.’

Dito isto, desista o escrevinhador de procurar álibis para cometer o mais hediondo dos crimes literários: matar o leitor de tédio, por desleixo da capacidade autocrítica.

"A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo."

“A pior coisa por ser um clone é não ter mais ninguém a quem culpar senão a mim mesmo.”

Ou dele se poderá dizer o que alguém disse do Dantas: O Dantas é a meta da decadência mental!/E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!/E ainda há quem lhe estenda a mão!/E quem lhe lave a roupa!/E quem tenha dó do Dantas!/E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero! (in Manifesto Anti-Dantas de Almada Negreiros)

A criatura e o criador

Sendo o texto uma criatura viva, é infiel ao criador ao permitir-se ir muito mais além do que este pretende, traindo intenções obscuras, permitindo derivações imprevistas, surpreendendo-o com uma autonomia desconcertante.

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Também é verdade que o texto definha e sobrevive mal em sequência de um acto criativo falhado, condenado ao ridículo e à obscuridade, senão ao extremo de se abrigar no antro das leituras enfadonhas que o leitor, avisadamente, evita.

Mesmo que tenha passado por uma fase inicial de popularidade e reconhecimento público: o juízo crítico será sempre mais duradouro do que as tabelas dos top, as últimas novidades chegam cada vez em maior número e mais depressa, a indústria cultural faz pela vida e as campanhas de marketing têm orçamentos e prazos de validade.

"Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever? Eu pretendo reescrever a História."

“Quanto tempo precisas para me ensinar a ler e escrever?- Eu pretendo reescrever a História.”

Escrever como quem quer ir ao encontro dos gostos, das modas, dum obscuro, potencialmente promissor, nicho de mercado? Óptimo, genial, provavelmente ninguém antes pensara nisso.

Escrever como que poupando ao leitor o incómodo de parar para reler e melhor entender? Que solução eficaz, sem complicações, nem ambiguidades!

Escrever como que evitando as referências e dificuldades que, presumivelmente, a maioria dos potenciais leitores manifestamente desconhecem e fogem de enfrentar? Ligeiro e superficial para se usar em qualquer dia do ano, sem dúvida.

LER FAZ VIVER prazer

LER FAZ VIVER
             Prazer15mg Curiosidade8mg Imaginação10mg Revolta12mg Saber9mg  Agentes de sabor:muitos!

Culpa dos leitores…ou da falta deles?! Claro, claramente que sim. E também!

Mas seja qual for o ângulo da acusação, por maior que seja o rosário de culpas ou o banco dos réus, a qualidade do texto não tem de depender senão da relação do escrevinhador com a bela Musa.

Seja quem for que, sem a loucura das Musas, se apresente nos umbrais da Poesia, na convicção de que basta a habilidade para fazer o poeta, esse não passará de um poeta frustrado, e será ofuscado pela arte poética que jorra daquele a quem a loucura possui’. (in Fedro de Platão, ed. Guimarães e Cª 1981 tradução de Pinharanda Gomes)

Louca inspiração, portanto. Sem álibis.

Ah, se tudo fosse assim tão simples…

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-Amo-te.
-Amo-te muito!
-Olá, bode! Eu amo esta rapariga!

Escrever uma história banal como?!

Uma história banal: o relato da vida de um homem comum até ao momento da sua morte. Que pode resultar daqui senão uma série de acontecimentos anedóticos pontuados por justificações, remorsos, desculpas, mentiras? 

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Afastemos os propósitos morais, a tentação do autor em nos ensinar através do exemplo: é um género e dos mais glosados, dos mais insuportáveis pelo uso e abuso de estereótipos. E pressupõe uma moral, uma verdade, uma via recta. Reconheço que tem um público, duvido é do valor literário quando levado a sério.

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Se contamos a vida (e morte) de alguém, então porque não nos centrarmos na verdade que ele toma como sua? Ou nas verdades que cada ser humano que com ele se cruzou na vida têm a dizer a seu respeito? Quantos retratos do mesmo homem se podem fazer deste modo?

Procedendo assim, provavelmente deslocamos a ‘verdade’ para o ‘sentido’ (da vida), e afastamos qualquer propósito legislador e propagandístico. Os ‘factos’, já o devíamos saber, são uma construção.

Tendo o Tema (a vida e morte de alguém) e a Abordagem (uma narração omnisciente do ponto de vista do protagonista e o das pessoas que se cruzam com ele), o Propósito torna-se mais simples e transparente: entender/expor/problematizar a complexidade duma vida (ainda que banal) e reflectir sobre o ‘material’ que a escrita produza.

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A partir daqui, ao escrevinhador coloca-se o desafio do Processo: como irá desenvolver o tema de acordo com a abordagem definida tendo como propósito fazer do banal uma história…uma história, sei lá!… profunda, misteriosa, fascinante? Até mesmo, por paradoxal que seja, extraordinária?

‘Como contar uma história banal de modo interessante?’ pergunto à bela Musa. Mas a resposta brinca-lhe nos lábios…

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Ajustar a ideia, o sentimento e a gramática numa linha escrita

Escrever não é como falar, já aqui abordamos o tema. Muito menos é como pensar ou sentir. Mas está numa região de fronteira entre a expressão oral e a reflexão/emoção, tendo estabelecido seu domínio próprio, suas tradições e protocolos.

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“Então em Inglês uma dupla negação está mal, mas em matemática é positivo?”

Ao contrário da fala, que pode ser severa e imediatamente restringida na sua expressão, a escrita cresce sem contraditório, nem coacção, pelo menos duma forma directa e imediata. Essa vantagem de construir um texto livremente deve ser apreciada devidamente pelo escrevinhador, pois é uma força e, simultaneamente, sua maior fraqueza.

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A ausência do contraditório empobrece o sentido auto-crítico, fundamental para o aperfeiçoamento e a evolução da escrita. Fechado num casulo, quando muito exposto aos comentários condescendentes ou meramente depreciativos, o escrevinhador terá maior dificuldade para, por exemplo, corrigir falhas, acertar o estilo, desenvolver outros sentidos. Também já aqui falamos disso.

Ao contrário da reflexão/emoção, que podem ocorrer de modo auto-evidente, tanto numa medida equilibrada, como desmesurada, a escrita precisa de ajustar o equilíbrio entre a expressão formal e os conteúdos, sob pena de não estabelecer comunicação ou, mais frequentemente, de ficar muito aquém dos propósitos do autor.

A ausência do equilíbrio arrisca-se, por exemplo, a desenvolver um modo pedante e/ou confuso de exposição das ideias, temas e enredos, ou a ser lamuriento, saudosista, adocicado.

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Não perceber a diferença entre ‘ter’ uma ideia (ou sentimento) e exprimi-la, confundir a expressão oral com a escrita, evitar a exposição à crítica: eis alguns problemas sérios que o escrevinhador deve ter em conta quando analisa o seu próprio texto.

A escrita tanto serve para anunciar uma guerra santa, como para declarar amor eterno. Em ambos os casos, tanto pode exprimir um inesgotável amor por algo ou por tudo, assim como o seu contrário.

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E deste modo, o autor, como o texto, correm o risco de morrer de ridículo. Nem que seja uma morte póstuma…

Escrevinhador ou escritor: eis uma questão.

Memórias, ficções ou poemas muitas vezes apresentam-se num português sofrível, alternando frases excessivamente curtas (e insuficientes para o entendimento e o desenvolvimento do tema) com outras longas de mais (divagando de modo despropositado, ou abusando das perífrases, da voz passiva, dos detalhes).

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

Ocorreu um erro. Digo isto na voz passiva para evitar ter de assumir qualquer responsabilidade pessoal.

A bengala de que se fala no post anterior muitas vezes surge associada a textos de difícil entendimento por falta de clareza na exposição de ideias e factos, pela precária estrutura que as sustenta e na desproporção das partes entre si. Como se o autor tivesse mais prazer (ou urgência) em escrever suas coisas assim como lhe ocorrem do que em fazê-lo seduzindo (ou comunicando com) um hipotético leitor.

Em qualquer das situações, os textos precisam de maior qualidade formal (gramática, vocabulário) e de que o autor tenha noção das exigências próprias da expressão escrita (em contraponto ao fio dos seus pensamentos ou à expressão oral).

Se o fizer intencionalmente, deverá assegurar-se se o efeito pretendido é eficaz. Por exemplo: o texto desenrola um novelo de ideias, expressões e estórias conforme estas acorrem ao narrador (que pode ser um personagem).

Uma análise crítica verificará se o efeito é voluntário; sendo voluntário, se é eficaz. Se essa eficácia é consistente com os propósitos do texto, já é outra coisa que irá analisar depois.

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Nem tudo o que luz…

Uma das críticas mais comuns é o uso (e abuso) do chamado lugar-comum: adjectivar a Lua de “prateada” ou escrever “luar de prata” é perfeitamente legítimo, toda a gente entende. Porém, arrisca-se a ser banal como um “sol dourado”.

E a banalidade é quase sinónima de aborrecimento, que é o pior que posso dizer dum texto.

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Homem:”O meu filho de 4 anos podia ter pintado isto!”
Criança:”Tenho dúvidas a esse respeito, Pai, até porque vejo isso como uma pura peça de decoração abstracta não-figurativa completamente vazia de significação. Não tenho qualquer intenção de pertencer a essa patética, superficial escola de arte…”

Ou aquelas referências aos atributos duma cidade, conhecida por ser “invicta, sempre fiel” ou às colinas, ao rio que passa defronte: tudo isso pode ser verdade, mas que interesse têm no contexto, na estrutura, no propósito do texto?

O lugar-comum, ou frase feita, é uma bengala da escrita preguiçosa, talvez demasiado ansiosa por manifestar a urgência duma inspiração ou dum sentimento.

Quando o leitor tropeça nessa bengala, pode até apreciar o reencontro com uma imagem familiar, à semelhança daquelas cantiguinhas em que o refrão é uma toada fácil de fixar…tra-la-rá, tra-la-rá, tá, tá…

Fica no ouvido, mas não associamos a ninguém em particular.

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Retrato falado?

Uma vez explicaram-me que pretendiam escrever poesia do mesmo modo que gostariam de pintar (e desenhar), retratando algo através das palavras. Achei interessante a ideia, principalmente numa época em que a captação, reprodução e manipulação de imagens é tão acessível. E como pretendia “retratar” com as palavras? Os exemplos que me foram dados baseavam-se no uso de substantivos e adjectivos (do género: tal coisa/pessoa com tal qualidade) e comparações (do género: tal coisa/pessoa é como…).

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Não gostei e tentei explicar-me: mesmo que se usem recursos como a rima e a métrica, a estrutura torna-se monótona, o efeito pobre, o resultado aborrecido (como se montássemos um puzzle em que as peças são frases). Não utilizei a expressão “lista de mercearia”, mas é o que me ocorre quando as descrições ou referências se estendem ao longo de linhas e linhas de versos. Sugeri que cortasse na adjectivação e procurasse “pintar” usando verbos.

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1.Mamã! 2.Mais! 3.Não! 4.Meu!
-As primeiras palavras do bebé: 1.Substantivo 2.Adjectivo 3.Advérbio 4.Pronome Possessivo-

O trabalho poético progrediu e resultou em algo bastante diferente: surgiram as inevitáveis metáforas, elas suscitaram ideias (ou terá sido o contrário?) e os poemas foram ganhando dinamismo, tensão, exprimindo conflitos e anseios, na verdade, trabalhando o “material humano” que está na base do artefacto poético.

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“Que mão ou olho imortais poderiam captar a tua assustadora simetria?”

Melhorou bastante, na minha opinião, mesmo que haja muito ainda para aperfeiçoar (…e não há sempre?). Talvez o resultado final nem tenha nada a ver com o propósito de retratar. Mas, além de produzir imagens interessantes, creio que o poeta abriu um canal para projectar algo de muito pessoal e original. É por aí que a Musa se deixa, tanta vez, seduzir…

Abuso da palavra?

Há poemas que fazem uso “desmesurado” das palavras, verborreicos ou não. E outros que as usam parcimoniosamente. Naturalmente, qualidade à parte, o efeito obtido é muito diferente.

No primeiro caso, provavelmente pretende-se uma leitura impetuosa, exaltante, agressiva, consoante o tema e o estado de espírito do autor. Ou “brincar” com jogos de palavras, sonoridades e imagens.

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Uma das dificuldades será o de manter o ritmo, ou de o alterar ao longo do poema sem prejudicar o efeito inicial, além do tremendo desafio de chegar ao final adequado.

Assim como há o risco de provocar cansaço na leitura, perca do fio-da-meada do sentido, causar verdadeiro tédio. Ou o perigo de se precipitar num final abrupto, precoce. Ou, ainda, à perca de “velocidade”, ao definhamento (os poetas também se cansam, perdem o fôlego, atiram-se para a berma da estrada…)

Muitas vezes, o tal desmesuramento resume-se a uma sucessão de referências meramente descritivas, recorrendo à adjectivação ou às comparações de modo incontinente. Aí, os poemas assemelham-se a listas de compras de mercearia.

Situação muito corrente naqueles panegíricos à terra natal, aos tempos da infância feliz e outros temas onde a emoção predomina mais do que o sentido estético (seja ele qual for).

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Diabinho: Bebe outra cerveja, tu sabes que queres…
Anjinho: Grande ideia! Bebe! Bebe! Bebe!                                                 
                                                                                     ……………………………………………………………………Sinais de que tem um sério problema de bebida.

Valerá a pena escrever poesia no sec.XXI?

Se escrever prosa oferece dificuldades, poesia parece intuitivo e simples, trabalho de curta duração. E com um dicionário de rimas à mão, fica ainda mais fácil. Temas? Há tantos: uma flor, um amor, um pensamento profundo esticado em duas dúzias de linhas, um grito de revolta contra a injustiça, de tudo “se faz” poesia.

Mas quem a lê? Pior: quem a escreve?

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Ainda há quem consiga ler um livro genial?

As dificuldades da leitura do Grande Sertão: Veredas são o paradoxo da própria expressão artística: a originalidade da escrita “exige” entrega do leitor, sua dedicação (tempo e qualidade de leitura), para se “deixar levar” na corrente do discurso do narrador e do seu peculiar modo de se exprimir.

Hagar

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Em forma de monólogo (como n’ O Malhadinhas), o personagem central da história conta a sua vida, dirigindo-se a alguém a quem chama “doutor”, de outra condição social e estranho ao mundo do Sertão, muitos anos depois dos acontecimentos narrados.

Mas a narrativa de Riobaldo não é linear, frequentemente interrompida por reflexões a que se sucedem relatos episódicos da vida. O recurso dos neologismos, das onomatopeias, de palavras do português antigo, do imaginário sertanejo (fortemente devedor do imaginário europeu medieval), de frases construídas ao arrepio da boa lógica ou gramática, ultrapassam os limites da expressividade a que qualquer linguagem restringe as emoções, permitindo assim ao leitor penetrar no sentido profundo da narração.

Um dos aspectos mais interessantes do Grande Sertão: Veredas está, precisamente, em ser uma obra a todos os títulos original, tributária duma longa tradição literária, a começar pelos romances medievais, reflectindo a origem e a evolução da Língua Portuguesa no modo como constrói frases e vocábulos.

A história vai ganhando ritmo, desenvolvendo um eixo (a vida de jagunço e, desta, a vingança contra o inimigo Hermógenes) onde giram, com igual significado para o narrador e para a narração, temas recorrentes que atormentam Riobaldo: o amor por Otacília (que virá a ser sua mulher), o amor secreto por Diadorim (seu amigo cangaceiro), o Demo (que teima em  se convencer que não existe) e o pacto que celebraram ambos (mas que não sabe ao certo se aconteceu) em determinado lugar (que veio a saber depois que não existe).

Acima de tudo, porque tudo o mais ganha novo sentido com a revelação, o segredo imenso que Diadorim trazia consigo e que Riobaldo só vem a descobrir tarde de mais. Aqui, a narrativa assume uma dimensão trágica, ainda para mais associada ao tema faustiano da venda da alma ao Diabo.

Sua originalidade assenta, entre outros aspectos, no modo aparentemente caótico da narrativa (o narrador facilmente perde o fio à meada e frequentemente se afunda nas suas angústias) associado à peculiar linguagem e expressividade do narrador (poética, ritmada, hesitante, pontuada de interrogações), onde nem o próprio, por vezes, tem a certeza de dizer a verdade do que viu.

Infelizmente, toda esta riqueza torna a leitura problemática, de difícil acesso ao leitor, principalmente quando não está habituado a ter de “lidar” com estruturas fora do comum e ter de ser ele próprio a retirar o sentido duma frase que, à letra, nada ou pouco diz. Ou a ter de completar entreditos, perceber alusões.

Bem diversa da narrativa literária onde a ausência da ambiguidade, o contraste marcado (entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, etc), a utilização do vocabulário corrente, uma construção com principio, meio e fim, personagens tipificados desde o início, a opção por um tema que, por mais exótico que seja aparentemente, se reduz às mesmas problemáticas do dia-a-dia do leitor, tornam a leitura fácil e a “mensagem” compreensível.

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A falta que faz a boa crítica

A viagem pelo mundo interior é um percurso complexo e com mais perigos do que a viagem de Ulisses de regresso a Ítaca. Pelo menos no domínio da literatura.

Aqui se mistura o inconsciente, as memórias (inclusive, ou principalmente, as falsas memórias), o desejo de acertar contas e o desejo em realizar sonhos, frustrações e anseios, todo um cocktail explosivo que, na maioria das vezes, tem como resultado uma pasta inodora, insípida, informe, incaracterística, quando vertido em texto com pretensões poéticas. Basta  consultar a secção de Auto-Ajuda ou afins nas livrarias para comprová-lo.
O perigo da sobrevalorização das emoções pessoais, a ponto de prejudicar a qualidade literária do texto, é bem conhecido e sua profilaxia só é possível através do exercício da crítica fundamentada por terceiros e pelo penoso processo da autocrítica, que nada tem a ver com o flagelo da auto-depreciação.

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Exactamente o contrário do que se assiste em milhentas tertúlias literárias de café ou nos grupos dedicados que pululam no Facebook, onde as palmas e os elogios parecem estar na directa proporção do alívio por ver terminada uma seca. Ou são meros rituais eufóricos de reforço do grupo, mesmo que virtual.

Ler significa alguma coisa?

Sejamos claros: ler, por si mesmo, não significa cultura, conhecimento, sensibilidade, ou qualquer manifestação de abertura e curiosidade para o mundo.

Se passar a vida a ler o mesmo livro, e não estou perdido no oceano, isolado numa ilha deserta, que diz esse “hábito” de leitura a meu respeito? Que sou um cretino? Provavelmente. E que leio aquele livro por achar que contém tudo o que preciso para levar uma vida correcta e, ao mesmo tempo, me garanta algo melhor para depois da vida acabar.

Se dedicar a minha vida adulta a ler livros por razões profissionais, lamentando não ter tempo para os outros, continuo a ser um cretino? Com toda a certeza.

Se os livros que li forem aqueles da infância-adolescência (e poucos, se calhar), parte deles os que fui forçado a ler ao longo do percurso escolar, faz isso de mim um cretino? Rigorosamente, sim.

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Paixão

Um problema das paixões é serem confundidas pelo próprio com paixonetas, gostos, afectos. E pela necessidade irresistível de falar (neste caso, escrever). O resultado é, quase sempre, medíocre.
A paixão pode levar à loucura, ou certas paixões levarem a marca duma certa loucura, o que noutros tempos chamava-se melancolia (para ambos os sexos), histeria (para o sexo feminino), húbris (para o sexo masculino), ou surgindo na forma duma qualquer monomania, parafilias e vícios obscuros.

Todas elas terão produzido bons textos, efectivamente.

Mas dificilmente o autor cavalga o animal bravio das paixões desmedidas.

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Há livros chatos?

Falar (ou escrever, que é o que nos ocupa aqui) sobre assuntos pessoais, autobiográficos, é um imenso risco e uma aposta ousada. Que muitas vezes falha e vira um tédio (quem não experimentou já a seca de ouvir alguém debitar insistentemente um monólogo sobre qualquer coisa que não interessa?)

O problema é que o “chato” não parece ter senão a vaga percepção de estar a aborrecer os outros, quando não é completamente indiferente ao impacto da sua “comunicação” ( patologia muito comum). Leia o resto deste artigo »